Quem matou o herói no futebol? Luís Cristovão

OUVIR A CONVERSA
Quem matou o herói no futebol? Luís Cristovão
00:00

O futebol de elite, tal como o conhecemos hoje, atravessa uma crise de identidade que vai muito além das quatro linhas. O que antes era um desporto de base popular e ligação orgânica com a comunidade, transformou-se numa indústria de entretenimento formatada, onde a dimensão humana parece ter sido a primeira vítima. Nesta conversa profunda, exploramos as divisões do futebol contemporâneo e o fenómeno que tornou a figura do herói algo quase impossível de sustentar.

A Ditadura do Espetáculo e o Isolamento

O futebol profissional ao mais alto nível já não é apenas desporto; é um acontecimento que já extrapola totalmente o domínio desportivo. Muitos dos envolvidos tratam-no como um espetáculo, procurando formatá-lo a uma noção de entretenimento que o desporto, na sua essência, nunca foi. Como é dito na entrevista: “O desporto pode ser espetacular, mas não é um espetáculo”.+2

Esta mutação criou o que podemos chamar de “atleta de aquário”. Ao contrário de ícones do passado como Eusébio, que frequentava o café do bairro e vivia no meio de toda a gente, os craques modernos vivem isolados. A sua dimensão humana desvanece-se perante figuras mediáticas e digitais. Hoje, um jogador de elite não pode sequer ir a um hipermercado ou beber um café sem ser incomodado, tornando a sua vida “miserável” nesse aspeto de liberdade.

Por que já não existem heróis?

A resposta reside na exposição total. “Hoje em dia é quase impossível ser herói, porque nós vemos todos os minutos que cada jogador joga”. No passado, a mística era alimentada pela narração, pela rádio ou pela escrita jornalística, que focava apenas nos grandes momentos. Atualmente, a “capa de herói” tem prazo de validade: dura apenas até ao próximo domingo. Um erro na partida seguinte é o suficiente para que essa dimensão heroica se desvaneça sob o escrutínio constante.

O Ruído da Comunicação e a “Cultura da Zanga”

A forma como comunicamos o futebol mudou radicalmente, criando uma espécie de “movimento tribal” que se alimenta de raiva. O ambiente saudável da “conversa de café” entre amigos — onde a brincadeira entre adeptos do Benfica ou Sporting é saudável — foi transposto para a televisão e redes sociais de forma tóxica.

Hoje, a agressividade serve para criar estatuto: “Só quando estamos suficientemente zangados é que podemos ser ouvidos”. Esta comunicação foca-se obsessivamente no erro — do árbitro, do guarda-redes ou do avançado — em detrimento da contemplação da beleza. Esperar pela maravilha de uma jogada exige uma reflexão que as notificações constantes do telemóvel parecem impedir.

O Futuro: Robôs ou Criativos?

O sinal mais alarmante chega às camadas jovens. Vemos miúdos a ser treinados como se fossem “matraquilhos” ou jogadores de PlayStation, onde o treinador dita cada passo. Quando um jogador é impedido de decidir e de falhar durante o seu crescimento, perde-se a criatividade. Curiosamente, os jogadores mais inventivos hoje são muitas vezes aqueles que “falharam” nalgum momento do seu processo formativo e não se conseguiram acomodar à organização rígida.

Conclusão: Um Serviço Público de Resistência Resistir ao empobrecimento do futebol — e do mundo — exige olhar para as coisas com a complexidade que elas exigem. É necessário recuperar a riqueza do vocabulário e a capacidade de ouvir quem não tem a mesma opinião que nós. Só assim o futebol poderá voltar a ser mais do que uma especulação financeira e mediática, recuperando a sua essência de emoção e história partilhada.

Ler transcrição completa

Transcrição da Conversa

[00:00] Luís Cristóvão: “Hoje em dia é quase impossível ser herói porque nós vemos todos os minutos que cada, cada jogador joga na, na sua carreira, não é? E ninguém é herói durante toda a vida, é herói em determinados momentos, momentos muito curtos, pequenos episódios, são os pequenos episódios que fazem os heróis ou que dão essa carga heroica que alguém pode, pode carregar consigo. Só pode, pode ser herói só até ao próximo domingo quando voltar a jogar e se cometer um erro, a sua capa de herói vai instantaneamente desaparecer.”

[00:46] Locutor: “O futebol nunca foi só um jogo, foi sempre mais do que isso. É o brilho das bancadas, a tensão, a emoção, o frio nas mãos, a tensão antes do penalti e também a voz que tenta por ordem neste caos e explicar-nos o jogo. É o caso de Luís Cristóvão, analista de jogos de futebol. Alguém que vive o jogo lá de cima, na bancada, no meio dos adeptos, na bancada de imprensa, com vento, com chuva, com o calor, com o som, com tudo aquilo que atravessa um grande jogo de futebol. Ele não fala sempre de um estúdio isolado, muitas vezes está lá, no meio de todos nós a ver o mesmo jogo, mas a ver o jogo de uma maneira completamente diferente. Ele fala a partir do estádio, a ver o campo inteiro, a sentir o jogo enquanto ele acontece. Falamos nesta conversa de um futebol que deixou de ser só um desporto para se tornar espetáculo permanente, de heróis que duram até ao próximo erro, até ao próximo domingo, da zanga como linguagem dominante e da imagem que promete a verdade, o vídeo, mas que nem sempre ajuda a compreender. É uma conversa sobre futebol, sim, mas é sobretudo sobre como contamos, como vemos o jogo de futebol enquanto ele acontece. E sobre aquilo que se perde quando deixamos de escutar o jogo e os outros, os outros adeptos, as outras pessoas, os adversários. Talvez porque no fim, o mais importante não seja o resultado, talvez seja perceber o que realmente se está a passar ali dentro do campo e à sua volta.”

[02:40] Jorge Correia: “Luís, viva. És um homem do futebol muito especial, que treinou basquetebol, mas que vê o jogo de uma maneira muito diferente de todos aqueles que eu ouço falar de futebol. Tu vens da literatura, és escritor, comentador, analista. O que nos diz o futebol hoje em dia?”

[03:07] Luís Cristóvão: “Uf. Bem, o futebol, tal como todas as coisas na nossa sociedade, está aqui muito dividido em várias placas, não é? E, portanto, responder a essa pergunta é quase impossível porque existem muitas coisas a acontecer ao mesmo tempo no futebol. Nós estamos obviamente muito focados nesta ideia do futebol de elite, do futebol profissional ao mais alto nível, que é um acontecimento que já extrapola totalmente o desportivo, não é?”

[03:42] Jorge Correia: “Não é bem um desporto já?”

[03:43] Luís Cristóvão: “Não é bem um desporto, muitos daqueles que estão envolvidos nesse futebol de elite já o tratam como sendo um espetáculo e procuram formatá-lo à dimensão de espetáculo, que é coisa que o desporto nunca foi, o desporto pode ser espetacular mas não é um espetáculo. Vive obviamente num quadro de uma enorme especulação financeira, não é? E especulação financeira que depois tem uma reverberação numa espécie de especulação mediática com todos os temas que andam à volta, à volta dele. E, digamos assim, sendo o mundo onde eu piso não é um mundo que me diga muito para além desta dinâmica de observação daquilo que pode passar no nosso mundo, mas o futebol também pode ser nós sairmos com os amigos para estarmos só na conversa, pode ser combinarmos um jogo cinco para cinco num pavilhão qualquer com alguém que gosta de jogar, pode ser sair a jogar à bola com um filho ou com um sobrinho, não é? E, portanto, existem aqui várias dimensões que depois convivem em cada um de nós de diferentes formas, tornando esta resposta… se calhar podíamos ficar aqui todo o programa só a responder a isto.”

[04:55] Jorge Correia: “Olha, porque me interessa que é perante isso, perante o desporto profissional, o futebol em particular, que é aquele que no fundo mobiliza a sociedade portuguesa quase de 10 para 1, os desportistas ou os futebolistas em particular ainda são heróis? Ou são uma espécie de vencedores temporários ou operários ao serviço dessa grande máquina, desse grande negócio, desse, dessa grande força motriz do marketing que está à volta deles? Do jogador dos 120 milhões ou daquele que foi comprado por 10 milhões e que vai ser a grande promessa mas só tem 14 anos?”

[05:32] Luís Cristóvão: “Bem, hoje em dia é quase impossível ser herói porque nós vemos todos os minutos que cada, cada jogador joga na sua carreira. E ninguém é herói durante toda a vida, é herói em determinados momentos, momentos muito curtos, pequenos episódios, são os pequenos episódios que fazem os heróis ou que dão essa carga heroica que alguém pode carregar consigo. A partir do momento em que nós vemos todos os minutos da carreira de cada atleta, essa dimensão heroica desvanece porque o jogador que é o grande craque do momento num jogo em que define o apuramento para uma fase seguinte…”

[06:14] Jorge Correia: “Estávamos a falar de Trubin, por exemplo, que agora acaba de marcar o golo, o guarda-redes que marca um golo ao Real Madrid e esse é o herói.”

[06:20] Luís Cristóvão: “É o herói. Quanto tempo dura esse herói? Só pode, pode ser herói só até ao próximo domingo quando voltar a jogar e se cometer um erro a sua capa de herói vai instantaneamente desaparecer. No passado, como não se via todos os jogos, a maior parte das pessoas não via sequer nenhum, nenhum momento do jogo destes grandes jogadores era mais fácil ser herói, não é? Ou quanto muito vias a grande final da Taça…”

[06:44] Jorge Correia: “Porque há uma narrativa porque nos contavam, não é? Olha este jogador fez isto, fez aquilo, o Coluna, o Eusébio, nós não víamos os jogos…”

[06:51] Luís Cristóvão: “Porque vivias ou só no resumo, ou só na narração, ou só na escrita desse grande momento e obviamente, mesmo num jornal que não era um diário, não é? Eram jornais semanais ou numa revista mensal, tu vais fazer um artigo sobre um jogador não vais dizer que bem ele durante 45 minutos naquela partida frente ao Arouca não esteve especialmente bem, não, vais estar a falar dos cinco minutos em que ele virou o jogo contra o Real Madrid. E, portanto, eu acho que hoje em dia é muito mais difícil ser herói. Ao mesmo tempo que havia uma dimensão humana na existência do jogador de futebol ou do atleta que também saiu da equação nos nossos dias.”

[07:38] Jorge Correia: “E agora é como?”

[07:39] Luís Cristóvão: “Agora és uma figura de influência, não é? És uma figura do digital, uma figura mediática. A tua dimensão humana quase que desaparece na forma como fazes a tua vida e tens muitos atletas profissionais, no caso em Portugal os atletas profissionais de futebol, que dizem aquela coisa do não saio à rua, não é? Não saem para ir a beber um café ali abaixo ao café do bairro, não vão às compras a um hipermercado porque isso para eles é impossível fazer isso sem serem incomodados na sua vida.”

[08:14] Jorge Correia: “O que torna praticamente impossível pensar, por exemplo, uma vida de Cristiano Ronaldo deve ser uma vida miserável nesse aspeto, quer dizer, na realidade não consegue literalmente fazer rigorosamente nada. Está num aquário.”

[08:26] Luís Cristóvão: “Vejamos, comparemos os tempos. Aquela ideia do Eusébio ir sempre ao mesmo café ou bar beber o seu copo à noite, ou de poder encontrar na rua porque ele vivia ali no bairro no meio de toda a gente, isso obviamente que o Cristiano Ronaldo isso não acontece, não é? Mesmo os vizinhos de Cristiano Ronaldo não se cruzam com ele na rua. Por isso, sim, é uma dimensão completamente diferente daquela que existiu e que eu de alguma maneira tira essa dimensão humana da equação.”

[08:55] Jorge Correia: “Olha, porque é que tantas vezes saímos de um jogo, já não digo só pela televisão mas quando saímos do estádio, zangados com aquilo? Zangados com a nossa equipa, zangados porque não correu bem, zangados com o árbitro, zangados com… mas isto não era suposto ser uma coisa que nós vamos divertir-nos, fruir e enfim podemos ficar zangados se não vimos uma coisa bonita, se o espetáculo não foi… como no teatro, como no cinema, se os atores não tiveram uma boa performance, mas nós parece que estamos sistematicamente zangados com aquilo?”

[09:30] Luís Cristóvão: “Ir ao futebol nunca foi um divertimento, para começar.”

[09:33] Jorge Correia: “Não? Foi o quê? Uma batalha?”

[09:35] Luís Cristóvão: “Ir ao futebol era sempre um momento, foi sempre um momento de ir assistir a um encontro entre aqueles que estavam do nosso lado e que nós apoiávamos e os outros.”

[09:49] Jorge Correia: “Nós contra eles?”

[09:50] Luís Cristóvão: “Nós contra eles, foi sempre um confronto, não é? Dentro de campo com as óbvias picardias à volta do campo. E o ambiente histórico de um estádio de futebol é um ambiente de sofrimento, talvez não tanto de zanga, mas mais de sofrimento. E esta dimensão da zanga é bem puxada para esta conversa porque acho que a dimensão da zanga também é um sintoma com alguma atualidade, digamos assim. Porque da ideia de confronto e do espírito de sofrimento que envolvia ir assistir a um jogo da nossa equipa, passou-se para uma situação em que o peso mediático das nossas sensações é mais importante do que as nossas sensações.”

[10:43] Jorge Correia: “Estamos portanto a ser de alguma maneira manipulados?”

[10:46] Luís Cristóvão: “Estamos de forma óbvia, somos manipulados por essa ideia do se eu não estiver zangado, não é?”

[10:52] Jorge Correia: “Não estás a lutar.”

[10:53] Luís Cristóvão: “Não estou a lutar, não estou lá dentro, não faço parte e não mostro aos outros que faço parte, portanto é quase uma exibição para fora do que propriamente a ideia de poder ir ao jogo, sofrer com o resultado, emocionarmo-nos com aquilo que está a acontecer mas ser uma experiência nossa, aquilo que nós vivemos. Depois a questão da zanga, que na maior parte das vezes existe de forma mais intensa através das redes sociais, é uma dimensão de exteriorização desse sentimento original e que cria, lá está, mais uma placa em cima da placa existente que nós usamos para uma espécie de criação de estatuto. Hoje em dia parece que só quando estamos suficientemente zangados é que podemos ser ouvidos.”

[11:39] Jorge Correia: “É uma espécie de movimento tribal no fundo, que se alimenta a si próprio, isto é, que é aquela raiva, aquela zanga, tu estás a ver era mesmo, eu tinha razão, o penalti para a nossa equipa é sempre penalti, da outra equipa não é tanto…”

[11:51] Luís Cristóvão: “É por através desta ideia de pôr para fora o nosso sentimento e para fora num espaço com mais público, numa rede social por exemplo, abandonou-se aquela ideia de bem eu estive a ver um jogo entre o Sporting e o Benfica e até posso ter estado em casa a ver o jogo ou estive a ver com alguns amigos e depois vou ali ao café e naquele grupo restrito com quem eu me encontro todas as semanas ou quase todos os dias…”

[12:15] Jorge Correia: “A tua bolha.”

[12:16] Luís Cristóvão: “A minha bolha, estamos num espírito de brincadeira e um dia os do Benfica gozam com os do Sporting, no outro dia os do Sporting gozam com os do Benfica e estamos entre nós.”

[12:26] Jorge Correia: “Parece-me bem, parece-me francamente divertido.”

[12:28] Luís Cristóvão: “E isso é saudável, digamos, estás na dimensão do saudável. Quando tu tentas fazer o mesmo jogo numa rede social, tu não estás a comunicar só para os teus amigos, estás a comunicar para uma imensidão de gente que não está na mesma predisposição porque não te conhece. Isto parte a meu ver, parte tudo daquela falsidade de quem achou que era giro levar essa conversa de café para a televisão.”

[12:56] Jorge Correia: “E que aquilo agarrou as pessoas.”

[12:57] Luís Cristóvão: “E aquilo agarrou as pessoas num primeiro momento e os próprios comentadores também punham mais fermento e aumentavam no fundo o conceito dramático do comentário.”

[13:06] Luís Cristóvão: “Exatamente e aquilo num primeiro momento era ‘ok, é a nossa vida, o nosso café agora está ali na televisão’ e num momento seguinte, portanto pouco depois, passa a ser todos aqueles que se identificam com o comentador do Benfica têm esta postura de agressividade com todos aqueles que se identificam com o comentador que é do Sporting. E temos um problema porque os limites destroem-se, não é? Provavelmente todos nós tiveram a experiência de estar num grupo restrito de amigos com as brincadeiras do costume e depois de repente aparece alguém que é de fora porque é convidado deste ou daquele, que tenta entrar no jogo e não mede bem ou as suas palavras ou não mede bem as palavras de outro e reage mal a isso.”

[13:54] Jorge Correia: “Lá temos o caldo entornado.”

[13:55] Luís Cristóvão: “E o caldo entornava-se por causa disso. E agora isso acontece todos os dias a toda a hora por todas as questões. Olha o que é fascinante no jogo para mim, no futebol, nos outros desportos, para mim é ver jogadas extraordinárias, é ver a arte, é ver o bom passe, é ver o bom golo. Interessa-me menos a tática mas surpreende-me porque é que muitas vezes o erro vale mais discussão do que a maravilha da jogada, do que a coisa extraordinária. É o erro do árbitro, é o avançado que falhou o golo, é o guarda-redes que sofreu um frango. Então e todo o resto, a magia, o passe, a vontade, vale menos do que o pretexto para uma discussão sobre a falha, sobre a quebra versus a arte?”

[14:44] Luís Cristóvão: “É muito mais difícil esperar pela beleza do que apontar o erro. Apontar o erro é um exercício que nós podemos fazer de forma constante. Agora está frio, agora está demasiado calor, agora estão a querer jogar demasiado depressa, agora estão a jogar demasiado devagar. Não estamos sempre a encontrar erros. O remate que sai ao lado e que é um bom remate mas sai ao lado é um erro. O guarda-redes que faz uma grande defesa mas a bola escapa-lhe e ainda continua em jogo, é um erro. Esperar pela beleza no desporto como em qualquer coisa implica uma certa capacidade de reflexão e de paciência e contemplação sobre aquilo que está a acontecer até que depois há ali o golpe da beleza. Implica de alguma maneira estarmos ligados e desligados ao mesmo tempo e isso é muito mais difícil para as pessoas nos nossos dias. E por isso vamos perseguir o erro, na questão do árbitro até é relativamente fácil, o árbitro está sempre errado de ponto de partida, não é? O árbitro entra para aquecer ali 20 minutos antes do jogo e é assobiado, entra para o jogo antes de começar e é assobiado e insultado e portanto o árbitro está sempre errado. É fácil. Essa é muito fácil. Sendo que obviamente a generalidade das pessoas que está sempre a apontar os erros dos outros não tem noção do peso que significaria alguém estar-lhe sempre a apontar os seus próprios erros.”

[16:15] Jorge Correia: “Uma pressão tremenda, não é? Os árbitros têm isso, os jogadores, quer dizer ler no outro dia no jornal ‘olha acabaste de errar esta decisão foi errada’…”

[16:24] Luís Cristóvão: “Por isso é que o conselho é não lerem jornais, não verem televisão quando se estão a discutir os lances ou esse tipo de situações porque já lhes basta a própria ideia de viver lá está no telemóvel, nas notificações que chegam aos milhares mal aconteça alguma coisa com um jogador que desperdiça um penalti, veja um cartão, faça uma falta ou o que seja.”

[16:51] Jorge Correia: “Está a gostar desta conversa? Então vale a pena subscrever o Pergunta Simples. É a forma mais prática de nos acompanhar e de garantir que estas conversas continuam a acontecer. Estamos no Spotify, no Apple Podcasts, no YouTube e em mil outros sítios. Se quiser ir direto ao sítio certo basta passar por perguntasimples.com e no topo lá em cima da página tem o botão que diz subscrever onde estão todas as plataformas para ver e ouvir o programa.”

[17:21] Jorge Correia: “Olha a narrativa muda a perceção do jogo e um mau comentário ou uma má sequência de comentários pode estragar um jogo que afinal até não foi assim tão mau. Eu estive a ver por exemplo os comentários agora do Real Madrid-Benfica, não os do lado do Benfica mas os do lado do Real Madrid que são especialmente agressivos, os jornais espanhóis e aqueles comentários são muito agrestes porque a equipa perdeu seguramente…”

[17:48] Luís Cristóvão: “E porque o ambiente do clube já não estava saudável e esta derrota vem de alguma forma confirmar a falta de saúde das decisões do Florentino Pérez ou das pessoas que têm tomado conta dos treinadores que têm tomado conta da equipa.”

[18:04] Jorge Correia: “E isso portanto é um pretexto para fazer esse bombardeio.”

[18:07] Luís Cristóvão: “É um pretexto para fazer esse tipo de comentário, sendo que o ambiente mediático espanhol também já é constantemente marcado por ferro e fogo. Eu acho que os comentários do pós-jogo têm esse condão, ou seja depois do jogo acabar a maior parte das pessoas não está muito atenta àquilo que está a ser dito. Está a olhar para o jogo e pode fazer o seu juízo sobre aquilo que está a ver.”

[18:32] Jorge Correia: “Mesmo ouvindo os comentários que estão a ver, o comentador da televisão a dizer uma determinada coisa a ouvir?”

[18:37] Luís Cristóvão: “A minha ideia e a minha experiência também enquanto comentador de jogos na televisão é que a atenção está muito dispersa durante o jogo. Não estás propriamente a ouvir… pode haver ali uma análise a um determinado lance que te soou ou muito mal ou muito bem e ficas agarrado a esse momento, mas durante os 90 minutos acontece muita outra coisa e estás a olhar para o jogo não estás propriamente a dar tanto peso àquilo que está a ser dito durante o mesmo. Agora no pós-jogo isso pode acontecer, ou seja uma sucessão de comentários mais críticos sobre a atuação de um treinador de um jogador carregam para cima desse jogador ou desse treinador o peso da culpa, digamos assim do mal que aconteceu e pode ser pior do que de facto é. Sim, pode porque no desporto tudo é transitório e lá está, da mesma forma que tu passas do herói para o anti-herói também passas de um dia mau para um dia bom com quatro ou cinco dias de fronteira entre dois jogos e obviamente se ficares três dias concentrado numa atuação negativa isso tem um peso que não te permite deixar as coisas para trás e focares no próximo jogo que vem já aí.”

[19:54] Jorge Correia: “Eu estava a perguntar isto porque a propósito do peso das narrativas, a maneira como nós contamos uma história, um exemplo muito concreto que se me ocorre a melhor final do mundo a nossa final 2016 em que Portugal foi campeão da Europa, visto o jogo é uma coisa, ouvindo os comentários é outra coisa, ouvindo um relato é outra coisa completamente diferente. Eu quando estou a ouvir um relato, nós estamos na telefonia, nós estamos na rádio, quando estou a ouvir um relato eu nem sempre sei muitas vezes não sei onde é que está o jogador, eu tenho menos características se calhar narrativas e tenho mais características emocionais e é outro jogo completamente diferente.”

[20:33] Luís Cristóvão: “Ah sim, sem dúvida nenhuma não é? Porque não estás a ver estás apenas a alimentar-te do espetáculo sonoro que é levado até quem está em casa. E aí sim, lá está como também faço comentários na rádio, na rádio és escutado, na rádio és escutado porque és tu o autor principal daquela peça, não é? E obviamente tens uma dimensão de explicar o jogo e tens que ser bastante mais didático digamos assim a explicar o que é que está a acontecer no jogo mas depois também vais embalado pelo ambiente onde estás e na rádio a generalidade dos jogos faço os comentários em estádio e é impossível não seres levado pelo entusiasmo das bancadas e de todo o ambiente no estádio para estares a comentar aquele jogo que obviamente sairia sempre diferente se estivesses numa cabine a ver apenas por um ecrã e aí estarias muito mais centrado no que está a acontecer realmente dentro de campo. Essa diferença é radical não é? Porque se estás a ver o jogo só num ecrã e estás empurrado para o que está a acontecer junto da bola estás muito mais numa dimensão analítica da coisa. Se estás no estádio lá em cima no sétimo andar rodeado de gente a viver com muito mais emoções aquilo que se está a passar, o som, o frio, neste caso deste jogo a chuva porque com o vento que estava estávamos também a levar com chuva torna todo o comentário diferente e leva-te muito mais emoção para aquilo que tu estás a viver.”

[22:12] Jorge Correia: “Com este acréscimo se estiveres a ver o jogo na televisão podes escolher ao que é que estás a dar atenção. Se estiveres a ouvir na rádio és levado também por aquilo que está…”

[22:20] Luís Cristóvão: “O que te dá uma autoridade também como comentador na rádio, quando… porque no fundo lá está…”

[22:26] Jorge Correia: “Dá-me mais responsabilidade do que autoridade. Eu nunca me sinto autoridade em espaço nenhum.”

[22:31] Luís Cristóvão: “Não te sentes uma autoridade?”

[22:32] Luís Cristóvão: “Não, não, não, pelo contrário e quando sou empurrado para essa dimensão forço a recusa da autoridade porque não é esse o meu trabalho não é esse o espaço que eu ocupo nem quero ocupar. Na rádio se calhar tenho uma maior responsabilidade de transportar não só os factos que estou a observar mas também a emoção que estou a viver por estar ali. Porque tu lá está na televisão tu estás a acompanhar nós estamos a ouvir-te enquanto estamos a ver o jogo a acontecer e eu estou a ouvir-te a comentar e a acrescentar-me coisas que eu não estou a ver.”

[23:04] Luís Cristóvão: “Sim, normalmente acrescentar coisas que não estás a ver e coisas que não estão lá no sentido de falar mais sobre características dos jogadores ou histórias dos jogadores ou enquadrar um pouco aquilo que vai acontecendo à volta do jogo, enquanto na rádio tenho que estar mais focado no que está a acontecer porque tenho de dizer porque é que o Benfica está a ser melhor no meio campo tu não estás a ver eu tenho de te dizer porque são ali dois jogadores que estão numa posição e que estão a fazer determinado tipo de trabalho determinado tipo de pressão que ajuda a que o resto da equipa esteja mais confortável no jogo ou o contrário. E portanto há mais responsabilidade nesse aspeto.”

[23:44] Jorge Correia: “E não te quero deixar de sair dessa cabine de comentário no Estádio da Luz neste caso, para quem não conhece como é que é aquilo? Tem uma mesa, tem uma televisão, vê-se bem os jogadores não vê, conta-me leva-me até ao estádio até um estádio onde estás a ver, leva-me até ao Estádio da Luz neste jogo, neste Benfica-Real Madrid.”

[24:02] Luís Cristóvão: “Neste jogo estamos lá em cima portanto aquilo deve ser ali o equivalente a um sétimo andar imagino mais coisa menos coisa.”

[24:10] Jorge Correia: “Terceiro anel lá em cima mesmo.”

[24:11] Luís Cristóvão: “Mesmo lá no topo portanto do lado dos bancos estamos cá em cima a visibilidade é boa para termos o grande a grande angular não é? Estar a ver o campo todo mas é demasiado alto para termos ali uma sensação mais próxima do que acontece entre os bancos e os jogadores quando estamos numa posição mais próxima do relvado é-nos mais fácil fazer essas leituras. Não é fechado é um espaço aberto lá está onde o adepto está no degrau de baixo nós temos um pequeno balcão onde pousamos as nossas coisas mas o adepto está ali no lugar de baixo portanto está encostado a nós estamos na bancada.”

[24:53] Jorge Correia: “E pode estar a ouvir não é? Pode não gostar do teu comentário.”

[24:56] Luís Cristóvão: “E pode estar a ouvir já aconteceu estar a ouvir na rádio não gostar ou estar ali e estar realmente a ouvir em direto ao vivo e a haver alguma reação a coisas que são ditas mas a experiência em quase todos os estádios é muito de mistura com o ambiente do estádio portanto não há um nível de separação por aí além entre o jornalista ou o comentador ou o relatador e o adepto que está sempre muito perto.”

[25:27] Jorge Correia: “Tens um ecrã à tua frente?”

[25:28] Luís Cristóvão: “No Estádio da Luz nestas bancadas lá de cima temos um ecrã próximo mas normalmente não. Normalmente não temos ecrã.”

[25:37] Jorge Correia: “Portanto estás a ver ao vivo e em direto. E já agora a tua comunicação com quem está a fazer o relato, dois ou três como é que é, olham olham uns para os outros não olham é com base no som como é que é esta…”

[25:52] Luís Cristóvão: “Há muita troca de olhares para depois depende um bocado também de quem está a fazer o relato há eu diria que há dois tipos de relato. Um relato mais clássico que está completamente entregue ao relatador e que acorre ao comentador de dez em dez minutos uma coisa mais matada quase. E há um relato que traz o comentador mais vezes à conversa e aí implica maior comunicação que eu diria que já é um toque de uma mistura entre o comentário as dinâmicas da televisão e as dinâmicas da rádio. Pessoalmente acho que dá mais vida à emissão mas que depende também dos ritmos a que o comentador fala e aqui é um trabalho que eu acho que deve ser feito e reforçado e é um trabalho que eu desde o início que faço é no momento em que entra o comentador e por isso é que eu lá está é uma das formas de refutar a autoridade, não é? Estávamos no clássico estamos mais habituados àquela ideia de agora vai falar o comentador e o ritmo baixa é mais pausado é mais reflexivo mais pensado…”

[27:06] Jorge Correia: “Até porque está a pensar o jogo porque está a explicar o jogo.”

[27:08] Luís Cristóvão: “Está a pensar o jogo exatamente e eu recuso um bocado essa ideia e portanto o meu ritmo tende a ser bastante mais acelerado do que o clássico comentador.”

[27:17] Jorge Correia: “Tu entras no ritmo?”

[27:18] Luís Cristóvão: “E entro no ritmo mais próximo do relatador exatamente para me posicionar mais próximo dele, mais perto de uma dimensão mais unificada da própria emissão e que carregue mais coisas que retire o ponto de vista de autoridade mas carregue mais coisas do ponto de vista da emoção do viver o que se está a passar e do relatar a história que está a acontecer naquele momento. No fundo o comentador dá contexto àquilo que está a acontecer.”

[27:49] Luís Cristóvão: “Sim, mas pode dar mais coisas.”

[27:52] Jorge Correia: “Dá o quê? O que é que tu procuras quando estás a ver um espetáculo…”

[27:55] Luís Cristóvão: “Para mim é quase impossível estar num jogo e não estar um pouco de olho nas bancadas.”

[28:01] Jorge Correia: “O que é que vais lá ver? Se as pessoas estão entusiasmadas, estão tristes, estão zangadas?”

[28:06] Luís Cristóvão: “Se acontece alguma coisa fora do normal costumo dar muita atenção às zonas dos grupos organizados de adeptos porque acho que é um espaço fundamental de uma certa diversidade à volta do jogo e que ainda é o espaço de resistência que traz alguma emissão de opinião para o futebol profissional que está desaparecido em quase todo o resto do seu ambiente.”

[28:38] Jorge Correia: “São o último resquício do clube nesse sentido?”

[28:41] Luís Cristóvão: “Não são o último resquício do clube mas são o último resquício de uma presença político-cultural no estádio. Mesmo quando se portam mal e as claques têm algum histórico de algum cadastro. Sim, mesmo quando isso acontece acho que obviamente é uma situação que deve ser dimensionada acompanhada para que se evite que esses grupos se transformem em grupos criminosos mas não se deve riscar por completo a sua existência porque eles têm uma importância a nível da cultura do jogo a nível da presença política também no estádio de uma presença social de uma integração de mais gente de mais classes no estádio que já não têm a mínima possibilidade de lá ir de uma outra forma. E os estádios tradicionalmente na história sempre foram uma zona de contacto entre pessoas de diferentes origens e hoje em dia isso não acontece.”

[29:43] Jorge Correia: “Está-se a transformar num desporto burguês.”

[29:45] Luís Cristóvão: “Já se transformou, já se transformou há muito tempo.”

[29:48] Jorge Correia: “Eu quando vejo o preço dos bilhetes dos jogos digo ‘bom para salários portugueses isto são preços elevadíssimos’.”

[29:56] Luís Cristóvão: “Tens duas possibilidades e tens pessoas que fazem enormes sacrifícios para poder acompanhar as suas equipas na prática desses preços e depois um número gigante de pessoas que está posta de fora porque não tem a mínima hipótese de pagar o preço. Aliás tenho uma amiga minha que foi agora recentemente ver o Sporting-Paris Saint-Germain que não costuma ir ao estádio e que ao comentar o preço disse ‘é como ir a um concerto’ e obviamente nós não vamos a um concerto todas as semanas não é? E portanto o risco é que o povo comece a ficar de fora.”

[30:33] Luís Cristóvão: “Já está de fora. Cá eu acho que isso é sintomático o que se tem visto esse tipo de evolução mas há estudos sobre diversidade de classe em bancada em Inglaterra por exemplo e as classes mais baixas estão completamente fora da Premier League e da maior parte da pirâmide profissional do futebol inglês.”

[30:57] Jorge Correia: “E o risco é que o desporto ao deixar de ser popular pode começar de alguma maneira a perder a sua o seu peso ou tu acreditas que veio a televisão e substituiu isso e portanto se serve um espetáculo serve-se o mesmo prato de maneira diferente?”

[31:13] Luís Cristóvão: “Mesmo a televisão obriga a um investimento que a maior parte não está disponível para o fazer. E se nós somarmos aqui o valor da Sport TV Eleven Benfica quer dizer estamos a falar de um preço equivalente a um preço de 50 euros mensais portanto é um preço real que as pessoas têm de pagar. E portanto as pessoas já estão aí obrigadas a fazer escolhas. Eu acho que o risco que se corre é aquele que estamos a viver hoje em dia e que tem sido muito associado à ideia de que os jovens não têm paciência para ver um jogo de 90 minutos. Não é um problema dos jovens é a maior parte das pessoas não tem uma capacidade financeira para acompanhar um jogo completo pagando o bilhete para ir ao estádio ou pagando todos os canais que são necessários para ver todos os jogos que quer ver e portanto são empurradas para ver os resumos os golos nas redes sociais onde as coisas vão aparecendo com pouco tempo de diferença. Aquilo que está em risco é acima de tudo um meio de subsistência a nível financeiro de toda esta indústria. Porque o nós e os adeptos e muita gente está sempre a falar da ideia de ‘ah mas a liga os três grandes deviam receber mais os grandes clubes deviam receber mais devíamos ter mais dinheiro para contratar jogadores mais dinheiro para fazer maiores investimentos nos estádios’ mas quem paga isso é sempre o consumidor final é sempre o adepto e é essa ligação que está sobre uma forte tensão o adepto não tem mais carteira por onde ser explorado para pagar este espetáculo que lhe foge das mãos ao mesmo tempo.”

[33:04] Jorge Correia: “Olha não te quero deixar de sair dessa cabine de comentário no Estádio da Luz neste caso para quem não conhece como é que é aquilo? Tem uma mesa tem uma televisão vê-se bem os jogadores não vê conta-me leva-me até ao estádio até um estádio onde estás a ver leva-me até ao Estádio da Luz neste jogo neste Benfica-Real Madrid.”

[33:23] Luís Cristóvão: “Neste jogo estamos lá em cima portanto aquilo deve ser ali o equivalente a um sétimo andar imagino mais coisa menos coisa.”

[33:31] Jorge Correia: “Terceiro anel lá em cima mesmo mesmo lá no topo.”

[33:34] Luís Cristóvão: “Mesmo lá no topo portanto do lado dos bancos estamos cá em cima a visibilidade é boa para termos a grande angular não é? Estar a ver o campo todo mas é demasiado alto para termos ali uma sensação mais próxima do que acontece entre os bancos e os jogadores quando estamos numa posição mais próxima do relvado é-nos mais fácil fazer essas leituras. Não é fechado é um espaço aberto lá está onde o adepto está no degrau de baixo nós temos um pequeno balcão onde pousamos as nossas coisas mas o adepto está ali no lugar de baixo portanto está encostado a nós estamos na bancada.”

[34:15] Jorge Correia: “E pode estar a ouvir não é? Pode não gostar do teu comentário.”

[34:18] Luís Cristóvão: “E pode estar a ouvir já aconteceu estar a ouvir na rádio não gostar ou estar ali e estar realmente a ouvir em direto ao vivo e a haver alguma reação a coisas que são ditas mas a experiência em quase todos os estádios é muito de mistura com o ambiente do estádio portanto não há um nível de separação por aí além entre o jornalista ou o comentador ou o relatador e o adepto que está sempre muito perto.”

[34:49] Jorge Correia: “Tens um ecrã à tua frente?”

[34:50] Luís Cristóvão: “No Estádio da Luz nestas bancadas lá de cima temos um ecrã próximo mas normalmente não. Normalmente não temos ecrã. Portanto estás a ver ao vivo e em direto e já agora a tua comunicação com quem está a fazer o relato dois ou três como é que é olham olham uns para os outros não olham é com base no som como é que é esta…”

[35:14] Luís Cristóvão: “Há muita troca de olhares para depois depende um bocado também de quem está a fazer o relato há eu diria que há dois tipos de relato. Um relato mais clássico que está completamente entregue ao relatador e que acorre ao comentador de dez em dez minutos uma coisa mais matada quase. E há um relato que traz o comentador mais vezes à conversa e aí implica maior comunicação que eu diria que já é um toque de uma mistura entre o comentário as dinâmicas da televisão e as dinâmicas da rádio. Pessoalmente acho que dá mais vida à emissão mas que depende também dos ritmos a que o comentador fala e aqui é um trabalho que eu acho que deve ser feito e reforçado e é um trabalho que eu desde o início que faço é no momento em que entra o comentador e por isso é que eu lá está é uma das formas de refutar a autoridade não é? Estávamos no clássico estamos mais habituados àquela ideia de agora vai falar o comentador e o ritmo baixa é mais pausado é mais reflexivo mais pensado…”

[36:28] Jorge Correia: “Até porque está a pensar o jogo porque está a explicar o jogo.”

[36:31] Luís Cristóvão: “Está a pensar o jogo exatamente e eu recuso um bocado essa ideia e portanto o meu ritmo tende a ser bastante mais acelerado do que o clássico comentador.”

[36:39] Jorge Correia: “Tu entras no ritmo?”

[36:40] Luís Cristóvão: “E entro no ritmo mais próximo do relatador exatamente para me posicionar mais próximo dele mais perto de uma dimensão mais unificada da própria emissão e que carregue mais coisas que retire o ponto de vista de autoridade mas carregue mais coisas do ponto de vista da emoção do viver o que se está a passar e do relatar a história que está a acontecer naquele momento. No fundo o comentador dá contexto àquilo que está a acontecer.”

[37:11] Luís Cristóvão: “Sim mas pode dar mais coisas.”

[37:14] Jorge Correia: “Dá o quê? O que é que tu procuras quando estás a ver um espetáculo…”

[37:17] Luís Cristóvão: “Para mim é quase impossível estar num jogo e não estar um pouco de olho nas bancadas.”

[37:23] Jorge Correia: “O que é que vais lá ver? Se as pessoas estão entusiasmadas estão tristes estão zangadas?”

[37:28] Luís Cristóvão: “Se acontece alguma coisa fora do normal costumo dar muita atenção às zonas dos grupos organizados de adeptos porque acho que é um espaço fundamental de uma certa diversidade à volta do jogo e que ainda é o espaço de resistência que traz alguma emissão de opinião para o futebol profissional que está desaparecido em quase todo o resto do seu ambiente.”

[38:01] Jorge Correia: “São o último resquício do clube nesse sentido?”

[38:03] Luís Cristóvão: “Não são o último resquício do clube mas são o último resquício de uma presença político-cultural no estádio. Mesmo quando se portam mal e as claques têm algum histórico de algum cadastro. Sim mesmo quando isso acontece acho que obviamente é uma situação que deve ser dimensionada acompanhada para que se evite que esses grupos se transformem em grupos criminosos mas não se deve riscar por completo a sua existência porque eles têm uma importância a nível da cultura do jogo a nível da presença política também no estádio de uma presença social de uma integração de mais gente de mais classes no estádio que já não têm a mínima possibilidade de lá ir de uma outra forma. E os estádios tradicionalmente na história sempre foram uma zona de contacto entre pessoas de diferentes origens e hoje em dia isso não acontece.”

[39:06] Jorge Correia: “Está-se a transformar num desporto burguês.”

[39:08] Luís Cristóvão: “Já se transformou já se transformou há muito tempo. O preço dos bilhetes dos jogos digo bom para salários portugueses isto são preços elevadíssimos. Tens duas possibilidades e tens pessoas que fazem enormes sacrifícios para poder acompanhar as suas equipas na prática desses preços e depois um número gigante de pessoas que está posta de fora porque não tem a mínima hipótese de pagar o preço. Aliás tenho uma amiga minha que foi agora recentemente ver o Sporting-Paris Saint-Germain que não costuma ir ao estádio e que ao comentar o preço disse ‘é como ir a um concerto’ e obviamente nós não vamos a um concerto todas as semanas não é? E portanto o risco é que o povo comece a ficar de fora.”

[39:56] Luís Cristóvão: “Já está de fora. Cá eu acho que isso é sintomático o que se tem visto esse tipo de evolução mas há estudos sobre diversidade de classe em bancada em Inglaterra por exemplo e as classes mais baixas estão completamente fora da Premier League e da maior parte da pirâmide profissional do futebol inglês.”

[40:20] Jorge Correia: “E o risco é que o desporto ao deixar de ser popular pode começar de alguma maneira a perder a sua o seu peso ou tu acreditas que veio a televisão e substituiu isso e portanto se serve um espetáculo serve-se o mesmo prato de maneira diferente?”

[40:35] Luís Cristóvão: “Mesmo a televisão obriga a um investimento que a maior parte não está disponível para o fazer. E se nós somarmos aqui o valor da Sport TV Eleven Benfica quer dizer estamos a falar de um preço equivalente a um preço de 50 euros mensais portanto é um preço real que as pessoas têm de pagar. E portanto as pessoas já estão aí obrigadas a fazer escolhas. Eu acho que o risco que se corre é aquele que estamos a viver hoje em dia e que tem sido muito associado à ideia de que os jovens não têm paciência para ver um jogo de 90 minutos. Não é um problema dos jovens é a maior parte das pessoas não tem uma capacidade financeira para acompanhar um jogo completo pagando o bilhete para ir ao estádio ou pagando todos os canais que são necessários para ver todos os jogos que quer ver e portanto são empurradas para ver os resumos os golos nas redes sociais onde as coisas vão aparecendo com pouco tempo de diferença. Aquilo que está em risco é acima de tudo um meio de subsistência a nível financeiro de toda esta indústria. Porque o nós e os adeptos e muita gente está sempre a falar da ideia de ‘ah mas a liga os três grandes deviam receber mais os grandes clubes deviam receber mais devíamos ter mais dinheiro para contratar jogadores mais dinheiro para fazer maiores investimentos nos estádios’ mas quem paga isso é sempre o consumidor final é sempre o adepto e é essa ligação que está sobre uma forte tensão o adepto não tem mais carteira por onde ser explorado para pagar este espetáculo que lhe foge das mãos ao mesmo tempo.”

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

 

Voltar ao Topo