A força da rádio num tempo de implosão silenciosa
Dizem que a rádio é apenas uma voz a falar para um microfone, um aparelho frio que serve de testemunha. Mas, na verdade, a rádio é o último reduto onde a solidão é enganada com mestria. No dia em que celebrámos o Dia Mundial da Rádio, sentei-me com Inês Lopes Gonçalves para tentar perceber o que resta de humano num mundo cada vez mais automatizado. A resposta, tal como a própria rádio, é enganadoramente simples: o que nos salva são as pessoas.
Inês, uma das vozes que acorda Portugal às 5h45 da manhã, habita o centro de um paradoxo. Para quem ouve “As Três da Manhã” na Renascença, a ilusão é perfeita: parecem apenas três amigas a conversar num café. Mas por trás daquela “simplicidade da voz” esconde-se uma “máquina de entretenimento profundamente complexa”. Há guiões, produtores que funcionam como mães doces, equipas de redes sociais e uma sonoplastia cirúrgica. No entanto, se a máquina falhar, se a tempestade chegar ou o apagão ocorrer, a rádio despe a sua complexidade e regressa à sua essência: um “porto seguro”.
Mas a verdadeira tempestade de que falámos não foi meteorológica. Foi existencial.
Durante a conversa, Inês, que gere o timing do humor e a seriedade da notícia com a destreza de uma “tradutora das Nações Unidas” (título fictício atribuído por Joana Marques), revelou o seu medo do “auto-tudo”. Vivemos numa era de conveniência asséptica. O almoço chega à porta sem que tenhamos de trocar uma palavra com o estafeta; o autocuidado isola-nos em bolhas de conforto.
“Qualquer dia acho que implodimos”, atirou ela, com a gravidade de quem vê o tecido social a desfazer-se.
A rádio, e conversas como a que tivemos, surgem como o antídoto para esta implosão. Inês defende a recuperação de competências sociais básicas, como a coragem de “ir pedir sal ao vizinho”. Num mundo onde as crianças têm medo de pedir um copo de água num café, a comunicação oral torna-se um ato de resistência.
E é aqui que entra a honestidade radical da sua persona. O segredo do sucesso de Inês não está na perfeição, mas na admissão da falha. É dizer em direto “tenho tanto sono hoje”. É contar que os filhos dizem palavras mal ditas ou que a sopa caiu ao chão. Ao partilhar a banalidade da vida, cria-se uma “noção de comunidade”. O ouvinte, seja em Lisboa ou em Trás-os-Montes, percebe que a distância que o separa daquela voz famosa não é assim tão grande.
No entanto, a liberdade — que Inês define lapidarmente como “ter escolha” — ainda tem as suas trincheiras. No seu podcast Não Mandas em Mim, ela explora o que nos condiciona. E, como mulher, o condicionamento é palpável. Falámos da “carga mental”, esse trabalho invisível e exaustivo que não termina quando o microfone se desliga. A carga mental é estar a dar uma entrevista profunda sobre a sociedade e, simultaneamente, saber que a t-shirt de futebol do filho para o dia seguinte ainda não está lavada.
Há uma beleza crua nesta admissão. Não somos iguais, diz ela, e há muitos homens zangados com isso. Mas a solução não é o entrincheiramento; é trazer todos para a mesa. É a escuta real, aquela que não serve apenas para esperar pela nossa vez de falar, mas para sermos expandidos pelo outro.
Inês confessou sofrer do clássico “síndroma do impostor”, evitando rever-se ou ouvir-se para não ter de se “confrontar com a própria existência”. Prefere ler um bom livro a ouvir a sua própria voz. Mas talvez seja essa humildade, aliada a uma curiosidade insaciável de quem, aos quatro anos, virou costas aos pais na escola para ir descobrir o mundo, que a torna tão magnética.
O final da nossa conversa foi, talvez, o momento mais verdadeiro de todos. Não houve uma conclusão grandiosa ou um fade-out musical planeado. A entrevista acabou porque a vida impôs a sua lei: Inês tinha de ir buscar os filhos.
“O que é que te expande?”, perguntei-lhe no último segundo. “As pessoas”, respondeu.
E assim, a Inês foi à vida dela, deixando no ar a lição mais importante do dia: num mundo de algoritmos e entregas automáticas, a única coisa que impede a nossa implosão é a capacidade de continuarmos a precisar uns dos outros.
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Inês LG
00:00
Tu de repente, hoje em dia, se tu quiseres estar em casa, sozinho, sem falar com ninguém, e o almoço chega à tua porta e tu também não tens que falar com a pessoa que leva o teu almoço, porque há uma aplicação onde tu pedes o teu almoço, não há interação com o humano nenhum. E eu, não sei, às vezes penso se vamos perder a capacidade de, não sei, de pedir salsa ao vizinho, e quando eu digo isto, competências sociais que as pessoas têm que desenvolver, conversar uns com os outros, isto é tudo muito, é o auto-tudo, é o autocuidado, é o auto-não-sei-quê, É tudo feito para nós mirrarmos e definharmos na nossa própria existência. Qualquer dia acho que implodimos, não sei.
JC
00:49
Dizem que a rádio é apenas uma voz a falar para um microfone, um aparelho. Mas na realidade é o privilégio de falar ao ouvido das pessoas. Quando tudo corre mal, nas situações extremas, numa tempestade ou num apagão, a rádio é um porto seguro. Mas e quando não há catástrofe? Quando a vida normal corre? O que é que faz com que alguém acorde às 5 da manhã, dia após dia, para ligar um botão e tentar divertir 400 mil pessoas que não conhece? Gravamos esta conversa precisamente no Dia Mundial da Rádio, um bom pretexto para fazer a pergunta simples do dia. O que é que a rádio tem de extraordinário? A minha convidada de hoje é uma das vozes mais reconhecíveis do país. Cruzamos-nos na RDP, ela, Plantina 3, já com Ana Galvão e com Joana Marques e eu, Plantina 1. Inês Lopes Gonçalves faz parte do trio que acorda Portugal na Rádio Renascença com os 3 da manhã. É uma apresentadora de televisão e autora do podcast Não Mandas em Mim. Neste episódio vamos para além das gargalhadas, também há gargalhadas, também nos rimos. Vamos desmontar a máquina complexa do entretenimento que existe por detrás da aparente simplicidade de três amigas a conversar. Falamos sobre a honestidade de dizer tenho sono em direto, sobre o medo do silêncio e sobre essa coisa clássica que é o síndrome do impostor. Mas a conversa segue por caminhos mais pessoais. Falamos sobre liberdade, que para a Inês é essencialmente ter escolha. E sobre a carga mental invisível que as mulheres continuam a carregar mesmo quando o mundo diz que já somos todos iguais. É uma conversa gravada num dia especial, 13, uma sexta-feira 13, o dia da rádio, entre dois apaixonados pela telefonia sobre a curiosidade de querer experimentar o mundo e a importância de saber escutar o outro.
Inês LG
02:39
É gravado no Dia Mundial da Rádio, já pensaste.
JC
02:41
No Dia Mundial da Rádio, portanto podemos celebrar o Dia da Rádio. Parabéns, parabéns a ti também. Parabéns. O que é que tem de extraordinário esta coisa da rádio?
Inês LG
02:50
Tem tudo. Tudo o quê?
JC
02:51
O que é que tem para ti de extraordinário?
Inês LG
02:53
Então, muitas coisas, para já, desde sempre, ou seja, quando eu ouvia rádio, e sempre ouvi muita, sempre gostei muito. Perguntas-me porquê? Não sei exatamente porquê, mas lembro-me de ter sido, se calhar, dos primeiros empregos que eu quis um dia ter.
JC
03:12
É um sonho?
Inês LG
03:13
Não lhe vou dizer um sonho, assim, porque não foi uma coisa que eu não era o único, passei por várias ideias quando era miúda, mas lembro-me muito bem, de estar a ouvir sobretudo os programas da manhã apesar de ouvir em vários horários e pensar, deve ser muito giro brincar a isto, deve ser muito giro ter este trabalho e mal sabia eu que um dia ia lá parar e curiosamente da rádio que eu ouvia na altura mas o que é que isto tem de extraordinário? Tem muito e tem cada vez mais e eu acho que me apercebo cada vez mais do poder que a rádio tem e eu acho que as pessoas também nem sempre fruto das melhores circunstâncias e obviamente estou a falar de situações às vezes de catástrofe como sejam as tempestades que temos tido ou por exemplo como foi o caso do apagão temos falado muito da importância da rádio nessas situações Quando corre mal é uma espécie de porto seguro? Sim, mas mesmo quando não corre mal e se tirarmos essas situações limite em que a rádio acaba por ser incrivelmente necessária eu acho que faz uma coisa que é muito precisa sobretudo nos dias que correm que é um trabalho de aproximação Que eu acho que faz muita falta Há uma relação, tu quando estás a falar
JC
04:25
Na realidade nós estamos a falar num microfone Supostamente é um aparelho Aqui por acaso também há câmaras Mas estão só aqui como testemunhas Estão aqui, estão ali Mas na realidade nós temos esse privilégio De estar a falar ao ouvido das pessoas Mas elas não falam para nós
Inês LG
04:39
Elas não falam para nós E é um exercício também muito Às vezes, não diria que é difícil Mas eu acho que exige algum cuidado De quem está deste lado do microfone Precisamente por não termos Não sabermos exatamente quem é que nos escuta Eu acho que temos de ter cuidado Com uma série de coisas Logo para começar Na clareza com o que falamos Acho que é muito preciso
JC
05:04
Há que simplificar e há que ser rigoroso
Inês LG
05:06
Sim, claro, obviamente Quer dizer, mediante o assunto Ou o papel que desempenhamos Na rádio, rigoroso, sempre, claro Mas acho que tem que haver isso E tem que haver uma preocupação com a clareza E com uma certa simplicidade Eu acho que as coisas não podem ser muito complicadas Porque a escuta de rádio é uma coisa que tem que ser muito direta Não vale a pena estar com grandes rodriguinhos e com grandes rodeios E sobretudo também saber que quem nos ouve pode estar na rua de baixo Mas também pode estar a 800 quilómetros
JC
05:38
E não conhece o contexto? Não faz a mesma ideia o que é que aconteceu?
Inês LG
05:41
Isso é exatamente
JC
05:41
O que é que aconteceu lá em Liria? É que tu tens que levar as pessoas até lá
Inês LG
05:44
Exatamente, eu acho que é tornar isso próximo da melhor forma que conseguires e muitas vezes também, e sobretudo porque muitas vezes, falarmos na Rádio Nacional estamos a falar de rádios que são feitas a partir de estúdios que são em grandes cidades, como seja Lisboa e o Porto e tendo sempre aquela ideia de que se eu disser assim epá, ontem em Sete Rios uma pessoa que está em Chaves não sabe muito bem o que é que eu… Só se ri. Ou riu, ou então fica zangado e aquilo é uma coisa que antagoniza quem ouve, não é?
JC
06:16
Eu acho sempre divertida a ideia de quando, lá está, a Rádio de Lisboa do Porto diz há um frio muito grande porque em Lisboa estão 7 graus e eu imagino a tribo de Trás-os-Montes ouvir aquilo ou da Terra-Listrela e a dizer
Inês LG
06:29
a rir-se frio, vocês são os meninos, claro mas atenção, eu digo isto, mas eu próprio me policio para constantemente me lembrar destas pequenas coisas que eu acho que são importantes porque a ideia é fazer sempre para fora sempre para fora, nunca para dentro Nós não nos podemos esquecer que nós não estamos num programa de rádio Para quatro pessoas se divertirem muito Idealmente, se isso acontecer, espetacular Mas sobretudo que divirta 400 mil
JC
06:57
Olha, tu trabalhas Na Renascença, fazes um programa de grande sucesso Nas manhãs da rádio
Inês LG
07:02
De grande sucesso Sim, sim, estava só
JC
07:06
Qual é o segredo daquilo? Três raparigas muito divertidas Muito Com uma energia Mas isso é maravilhoso Vamos ao segredo De como é que alguém consegue acordar A criança que acordaste hoje 5h45 E a que horas é que o botão se liga Para dizer bom dia estamos aqui
Inês LG
07:29
Então liga-se às 7h
JC
07:31
Qual é o segredo dessa boa disposição Dessa coisa quase torrencial De animação E de proximidade
Inês LG
07:42
O segredo eu não sei exatamente qual é Mas eu acho que quando tu disseste Qual é o segredo dessa boa disposição Às vezes é só Por exemplo há dias em que Por exemplo, desta semana Eu acho que logo de manhãzinha Na abertura do programa Eu disse, tenho tanto sono hoje Porque eu acho que o segredo é esse É às vezes ser uma certa Seres verdadeiro naquilo que estás a dizer É uma honestidade Eu acho que sim Já lá vai o tempo Claro que uma pessoa não vai para ali de repente despejar todos os seus problemas porque de facto também há se calhar um lado de responsabilidade nós estamos ali num papel de animador de rádio mas eu acho que já não faz sentido nenhum aquela pessoa que nós ligamos o rádio e está super bem disposto e tudo é incrível e ele parece uma máquina não, quer dizer, não, eu acho que o segredo é esse é que nós somos três somos três pessoas que estão ali e eu acho que as pessoas se relacionam tem muito de relacionável porque nós falamos muito das nossas vidas falamos daquilo que nos acontece, aquilo que nos aconteceu no dia anterior esquecemos a chave do carro fizemos aquilo, fomos a colar, vimos este filme, gostámos, não gostámos
JC
08:56
apesar de tudo isso não é tão simples como tu estás a dizer porque tu dizes assim, ok, vocês pegam nas vossas vidas para as contar mas objetivamente tu pões com a Ana e com as Marmarcas Uma capa de uma narrativa Isto é, quando tu contas a história Da relação com os teus filhos Ou da maneira como tu foste ao cinema O processo não é assim tão simples Como isso, porque tu pões uma narrativa Tu pões uma história Vocês criam ali uma dinâmica Em que se metem umas com as outras Para que aquilo se torne interessante Aquilo não é a vidinha Aquilo é da vida
Inês LG
09:33
Mas vocês põem isso, põem essa narrativa Sim, quando eu digo Ou seja, quando eu digo que contamos estas histórias Com falarmos Da nossa vida como sendo uma vida Igual a das outras pessoas todas É nesse sentido que eu digo
JC
09:46
Mas eu rio-me contigo e se eu contar as histórias da minha vida Se calhar não tem graça nenhuma Lá está, a diferença do talento Não é? Há pessoas que contam a sua vida E são muito aborrecidos A sensação de que quando nós vamos nos transportes públicos E ouvimos ou uma pessoa
Inês LG
10:03
Muito aborrecida a contar uma história
JC
10:04
Ou alguém que Nasceu para ter graça E eu já me liguei, não é? Quer dizer, eu ouço três palavras e já estou ligado.
Inês LG
10:11
Mas eu acho que aí há pequenas coisas que nós podemos… Lá está, é a ideia de fazer sempre para fora. Esta história, se calhar, será que esta história vai dar aso a que façamos uma pergunta e de repente começamos a receber imensas mensagens dos ouvintes? Por exemplo, dou-te um exemplo. Uma vez, aquelas coisas que todos os miúdos têm, que é, há sempre palavras que os miúdos dizem mal. E os meus filhos tinham dito uma palavra muito engraçada. Um deles tinha dito uma palavra mal muito engraçada. E depois é aquela tentação às vezes de não corrigir-se, porque é tão querido, não é? E nós pegámos nisso uma manhã, e depois lançámos até contei essa história e podes ficar por aí mas também podes perguntar aos ouvintes, contem-nos por favor quais eram as palavras que os vossos filhos diziam mal e de repente tens um programa cheio de pessoas que estão a relacionar-se com aquela história que tu contaste e a terem a oportunidade, que eu acho que é uma coisa que as pessoas gostam sempre, é quando aquilo lhes toca que é a ideia do, espera, eu também tenho uma história para contar sobre isto, e sentem-se envolvidas e há aqui uma noção quase de comunidade, não é? Que eu acho que é muito boa, que é o que eu acho que as pessoas sentem com as suas rádios, que é esta sensação
JC
11:09
de comunidade. E de identificação, no fundo.
Inês LG
11:11
Total, sim.
JC
11:12
Ela está a contar uma coisa e aqui em casa também me aconteceu. Exato. E é isso que
Inês LG
11:17
lá está. Sim, e a distância que nos separa depois não é assim tanta, que é ok, elas são pessoas como as outras. Ontem deixaram de queimar a sopa e podia ser eu.
JC
11:27
É um bocadinho essa a ideia. E agora essa ligação faz-se o quê? Hoje em dia temos ferramentas, que é o WhatsApp, deixam uma mensagem de telemóvel. Sim, uma mensagem
Inês LG
11:33
normalmente, ou seja, perguntas as mensagens Deixam uma mensagem de áudio Como mandamos assim para nós Tipo, mandam um áudio para nós E nós passamos E vocês ouvem? Imagino que o Direto seja mais arriscado
JC
11:45
Como é evidente, há que verificar Sempre o que é que lá está Dos conteúdos Olha, como é que é a dinâmica? Isto é, como é que é um dia comum Na telefonia? Como é que é um dia comum na Renascença? Vocês chegam lá às seis da manhã Juntam-se, como é que é? Há um script?
Inês LG
12:01
Há uma lista de coisas para fazer? É muito importante que se diga que as três da manhã são uma equipa muito grande. Não são três? Não somos só três. São mais pessoas. É sempre muito importante falar de quem faz parte e quem contribui para que as três da manhã sejam depois a montra que as pessoas ouvem todos os dias. Mas temos a Sandra, que é a nossa produtora, que é a pessoa que tem essa responsabilidade de construir ali o gu ião, sendo que… É quem manda em vocês? Um bocadinho, sim. Ela é nossa mãe, que é uma coisa ainda mais que eu acho mais ternorenta. Porque uma pessoa que manda em nós, às vezes, é uma pessoa um bocadinho sergenta. Ela não. Ela é doce como uma mãe. É mesmo querida. E, portanto, vai-vos acolhendo… Tudo. E é a pessoa que parece omnipresente. É inacreditável. Mas quando dizemos, quando eu digo guião, muitas vezes nós estamos habituados a associar guião a uma coisa que está tudo escrito e nós lemos. É uma espécie de estrutura do programa, não é? Porque isto parece que há um bocadinho maçador até para quem não trabalha em rádio, mas pronto, A rádio organiza-se, tem um clock, um relógio, para nós nos orientarmos sempre, sabemos sempre que temos o trânsito e o tempo àquela hora, e as coisas estão mais ou menos estruturadas.
JC
13:09
Há uma regularidade, no fundo, não é?
Inês LG
13:11
Sim, exatamente.
JC
13:11
Porque é para nós sabermos o que é que vai acontecer. A esta hora temos o trânsito, depois temos um humor.
Inês LG
13:16
Sim, para nos guiarmos sempre, depois porque não há dois dias iguais, porque de segunda a sexta-feira nem sempre acontece o mesmo a todas as horas. Há rubricas que são fixas, como ao extremamente agradável, por exemplo, às oito e um quarto, mas depois há um dia em que a Ana tem uma rubrica, Há outro dia que sou eu, há outro dia que é outra coisa. Depois, além da Sandra, também temos o pessoal das redes sociais também. Temos o André Pereira, o Fábio Oliveira, temos o Cláudio Almeida, que é um produtor. Estão em permanência a alimentar as redes sociais? Sempre, sempre, sempre. Somos uma equipa bastante grande. Temos mais o Rui e Glória, que é o nosso sonoplasta também.
JC
13:49
Portanto, isso é uma super equipa. Na realidade, nós estamos a ver uma coisa que parece simples, porque tem essa simplicidade da voz e de estar. E, na realidade, o que tu estás a descrever é uma máquina de entretenimento profundamente complexa.
Inês LG
14:01
Sim, porque quando nós abrimos o Instagram, por exemplo, e vemos, é pá, que gira este vídeo da Renascença, mas para acontecer aquele vídeo da Renascença foi preciso que a Sandra nos dissesse, ok, temos aqui três minutos para não sei o quê, que o Cláudio produzisse conteúdo para esse momento, que o André e o Fábio filmassem para as redes sociais, que o Rui controlasse os microfones e que depois aquelas três parvas, no fundo, são as menos importantes.
JC
14:22
Atuam. Não, não são porque fazem essa ligação. Portanto, aquilo que nos parece simples e bonito, que é lá está, eu sigo obviamente no Instagram, que é 10 minutos, 15 minutos depois de uma parvoeira em antena, eu consigo ver e rir-me na…
Inês LG
14:36
Sim, bem, se calhar não será sempre 10 ou 15 minutos logo a seguir, mas sim, muitas vezes, isso precisa de uma questão de gestão de redes sociais que eu aí já não domino tão bem.
JC
14:49
Está a gostar desta conversa? Então vale a pena subscrever o Pergunta Simples. É a forma mais prática de nos acompanhar e de garantir que estas conversas continuam a acontecer. Estamos no Spotify, no Apple Podcasts, no YouTube e em mil outros sítios. Se quiser ir direto ao Sítio Certo, basta passar por perguntasimples.com e no topo, lá em cima da página, tem um botão que diz subscrever. Onde estão todas as plataformas para ver e ouvir o programa. Este programa tem lá dentro o programa de humor de maior sucesso, podcast mais ouvido em termos absolutos que é o programa
Inês LG
15:27
da Joana Marques
JC
15:28
chegou a ser um monólogo e hoje em dia não é um monólogo, eu ouço-te a participar a ti também ouço-te a fazer de jornalista séria ou de tradutora das Nações Unidas
Inês LG
15:40
Ai, adoro que já me tenhas promovido a das Nações Unidas eu era só tradutora do que fosse mas agora sou das Nações Unidas
JC
15:46
Mas o tom não é?
Inês LG
15:47
Gosto muito, não, mas eu vou deixar assim porque eu gosto de ser das Nações Unidas
JC
15:51
E podes pôr, lá está no teu LinkedIn podes pôr, tradutora das Nações Unidas.
Inês LG
15:56
À conta da Joana, posso pôr imensos cargos que não são reais. Porque ela já me atribuiu muitas funções. O extremamente desagradável, curiosamente, começou aqui no edifício onde estamos. Na Rádio Anteira 3. Exatamente. Era muito mais pequenino o extremamente desagradável. Aquilo que o tempo veio normalmente as coisas mirram. Não, aquele tem vindo a esticar. Fermentou, não é? Aquilo transformou-se numa coisa séria. Fermentou muito, sim, sim. E às vezes temos que Dizia Joana, menos fermento
JC
16:24
Sentes que às vezes há um limite Às vezes?
Inês LG
16:28
Ah, todos os dias? Um limite em que sentido? Um limite de tempo?
JC
16:30
Não, mesmo das coisas das barbaridades Que se dizem
Inês LG
16:36
Quer dizer, das barbaridades que quem diz A questão é essa
JC
16:38
Ah, portanto, aquilo é um espelho das barbaridades que se vão dizendo
Inês LG
16:41
Aquilo, claro, quer dizer Se há um limite Se não percebi, se estavas a dizer Que era a Joana dizia barbaridades Ou se eram as pessoas de quem a Joana
JC
16:50
É verdade, mas quando se faz uma curadoria De um determinado conteúdo Eu sei que é diferente fazer jornalismo de fazer humor O humor tendo obviamente A sátira ou exagero A escolher aquele pedaço que foi Completamente Está completamente fora de sítio E é isso que nos faz rir O exemplo dos anjos se calhar não é o melhor Embora aquilo quer dizer
Inês LG
17:11
Isso nem sequer foi feito no contexto extremamente agradável
JC
17:14
Foi fora disso Mas há um limite Tu sentes que Que a ideia de limite é ultrapassar o limite Ou tu às vezes dizem Epá, isto se calhar podia não ir por aqui Isso é discutido na equipa ou não?
Inês LG
17:30
Não Desculpa, se calhar estava à espera de uma resposta mais elaborada Mas não Não acho e não é discutido
JC
17:36
E as ideias vêm de onde? Da cabeça daquela pessoa
Inês LG
17:40
E ela escreve tudo Incluindo as tuas falas Ela tem aquilo tudo escrito Claro, há algumas coisas que nós dizemos Ela escreve também Mas há coisas que nós também dizemos Espontaneamente Que são buchas Eu rio sempre com a Ana
JC
17:59
Sabes que é a pergunta que mais me fazem Se está escrito ou certo de propósito
Inês LG
18:04
Olha, os trocadilhos da Ana estão escritos Ou é ela que… E posso dizer que é um 50-50
JC
18:09
Os trocadilhos são claramente
Inês LG
18:11
É uma arte
JC
18:14
É o desconcerto Que é uma determinada coisa
Inês LG
18:18
Sobretudo quando não tem nada a ver Então ainda mais desconcertantes são É assim ali um momento de
JC
18:24
Ok, certo O momento, oh meu Deus, o que é que está acontecendo aqui?
Inês LG
18:27
Mas pronto, são assim várias camadas de patétice Que eu acho que depois ajudam a digerir aquilo tudo
JC
18:32
E essa dinâmica Quando tu estás a construir Essa dinâmica, lá está É uma dinâmica que permite que qualquer uma de vocês Passe sair para qualquer lugar?
Inês LG
18:41
Sim, obviamente quer dizer Há que ter algum cuidado Porque a Joana tem ali um fio E um formato Sim, e tem ali uma sequência de sons, etc Não dá para de repente uma de nós entrar em freestyle E começar ali a divagar Temos aqui uma bucha aqui e uma bucha ali E a coisa segue Olha, tu tens um projeto
JC
19:01
Eu não sei se ainda é vivo, mas se não é Eu proponho-te que o ressuscites Que é um podcast, que é o Não Mandas A Inês
Inês LG
19:07
Está vivíssimo, está vivo
JC
19:09
Eu quando vi aquilo pela primeira vez Pensei assim, que diabo Isto é mesmo É mesmo da cabeça da Inês Não mandas em mim Que é uma espécie de amafaldinha É um bocadinho Aquele de Dine Enris Tu não mandas em mim Para quem não conhece genericamente Tu tens convidados E vais tentar perceber O que é que os leva a dizer não ao mundo O que é que tu andas à procura?
Inês LG
19:40
Olha, de muitas coisas Na verdade Eu prezo muito A liberdade é um valor que eu prezo muito E eu acho que ela tem tantas maneiras de ser vivida, interpretada.
JC
19:57
O que é liberdade para ti?
Inês LG
19:59
Liberdade para mim? Se eu tivesse que responder assim de uma forma curta, eu acho que liberdade é ter escolha. Eu acho que é essencialmente isso. Numa vida em que nós todos estamos sempre limitados por alguma coisa, não é? Sim, mas sobretudo se levarmos isto então para um campo mais social, em que muitas vezes essa liberdade é diminuída por não teres escolha, sei lá, pela cor de pele com que nasceste, ou pelas oportunidades que tens ou deixas de ter, ou pelo facto de seres mulher, há aqui uma série de, pronto, podemos levar isso para esse lado, mas isto é vastíssimo.
JC
20:42
Ser mulher ainda é um karma? Ainda é um peso? Claro que é. Não somos iguais? Eu sou homem, tu és mulher? Claro que não somos. Então?
Inês LG
20:50
Não somos iguais no sentido em que, quanto mais não seja, porque continua a existir, e isto não é um achismo, há dados, estudos que comprovam, que, nomeadamente, no que toca a salários, não são iguais. Mulheres que desempenham os mesmos cargos que os homens não são pagas de igual forma. não somos iguais no sentido em que a tão falada, como se fala hoje em dia aquela carga mental que existe para uma mulher não é igual a um homem, mas eu acho que as coisas começam a mudar. A carga mental é o conjunto de coisas que tu tens que preocupar. A carga mental é eu estar aqui a falar contigo neste momento, a saber que daqui a nada tenho que ir buscar os meus filhos, mas que se calhar também tenho que tirar qualquer coisa para o jantar, mas também tenho que pensar que se calhar a t-shirt que ele vai amanhã usar no jogo de futebol ainda não está lavada e eu tenho algumas dúvidas que não quero ser injusto, obviamente, é um bocadinho aquela ideia Nem todos os homens Claro, como é óbvio, isto de repente ficou seríssimo Mas Ainda há muito trabalho a ser feito Nesse campo, portanto Não somos iguais de todos
JC
21:52
E achas que isso tem a ver com O facto dos homens Não irem a jogo Nestas tarefas que tu estás a dizer Nestas preocupações Ou é quase com um treino quase educacional Desde a realidade
Inês LG
22:05
Em que é dito
JC
22:07
às mulheres do lado do censo dizer tu preocupas-te com a casa com as pessoas, com a organização
Inês LG
22:14
Sim, é possível que isso agora já não aconteça tanto, não é? E acho que de facto há aqui um caminho que tem sido feito tremendo também, porque os homens também, isto também é fruto de anos e anos e anos e anos de mães e pais, não é? De famílias onde os homens foram sempre ilibados ou poupados a essas tarefas, não é? Não é preciso saber estralar um ovo, não é preciso saber mexer na máquina de roupa, não é preciso saber, não é? E portanto eu acho que agora, se calhar aos poucos, isto vai começar a dar a volta, ao mesmo tempo que me parece também um bocadinho preocupante, porque sim, por um lado isto está a dar a volta, mas por outro lado assistes aqui uma vaga também tremenda de homens que estão muito zangados com as mulheres.
JC
23:02
Ou que zangará os homens?
Inês LG
23:05
Não sei, mas acho que é uma conversa que temos que ter todos juntos. Isto não é uma coisa de opor homens e mulheres. Eu acho que o feminismo e este tipo de conversas têm que trazer todos para a mesa. Isto não é uma coisa que ainda estão aqui as mulheres todas fechadas numa sala a planear uma vingança que será terrível. Não, não, este caminho só se vai fazer juntos, porque também é preciso que seja explicado o que é que é preciso mudar.
JC
23:31
Olha, quero voltar ao podcast, quero voltar à comunicação. O que é que tu aprendeste com os teus convidados Durante este podcast
Inês LG
23:38
Olha, agora estava aqui a pensar Nos que passaram por lá Ah, eu estava a falar sobre o podcast Ou seja, interessa-me muito Eu estava a falar dessa ideia de liberdade Mas interessa-me muito A maneira como as pessoas Se condicionam ou não Ou como é que vão evoluindo Como é que E sobretudo, por exemplo Gosto muito de lhes perguntar sobre a infância que tiveram Porque isso é muito engraçado sempre
JC
24:06
Põe-se à procura de quê?
Inês LG
24:09
Às vezes de perceber como é que o sítio de onde vieram Os pais, a educação que tiveram O sítio onde nasceram A casa onde cresceram Como é que isso os condicionou De que forma é que isso os moldou de alguma forma O que é que ainda guardam disso O que é que quiseram fazer diferente
JC
24:26
A maneira como nós dizemos que não é uma maneira de crescimento Quando a criança muito pequena diz não E depois percebe que tem um poder ali
Inês LG
24:33
Há ali uma fase em que eles dizem muito que não
JC
24:34
Não, não, não, ainda por cima tu tens
Inês LG
24:36
Não quero entrar muito na tua vida privada Tinha dois a dizer que não ao mesmo tempo
JC
24:40
Os gêmeos, é a grande loucura, não é?
Inês LG
24:42
É a grande loucura
JC
24:44
A maior parte das pessoas dizem, ai que giro Não é nada, vocês são malucos E eu costumo contar como piada que é o primeiro filho mudar a nossa vida O segundo acaba com ela, ter dois ao mesmo tempo
Inês LG
24:53
É assim, como dizer É intenso É intenso, não é? Mas é giro, eu digo estas coisas Mas ao mesmo tempo eu gosto Gosto daquela
JC
25:04
Agora já estão pré-adolescentes quase?
Inês LG
25:06
Quase, quase, 10 anos já é pré-adolescente
JC
25:08
Então já te dizem que não muitas vezes, não é?
Inês LG
25:10
Sim, eu acho que 10 anos é precisamente Esta idade em que eles já não são propriamente bebês Ainda não são bem Gente crescida Mas estão a começar a ficar Estão a começar ali a moldar a personalidade e bem
JC
25:22
E daqui a bocado mudam a voz Exato
Inês LG
25:24
São iguais ou são muito diferentes? São muito diferentes
JC
25:28
Isso é uma benção, não é? Mas não fazem uma pandilha aos dois?
Inês LG
25:33
Depende, depende Quando lhes convém, claro Quando lhes convém, claro, claro Unem-se para me destruir
JC
25:39
Olha, o que é que a Inês Pequena Inês dizia que não Davas-me trabalho, não? É sim, eu podia dizer
Inês LG
25:47
Não, não, mas agora estou aqui Agora tenho a voz da minha mãe na cabeça Dava, acho que dava Quão pequena?
JC
25:53
Quão pequena? Não sei, quer dizer Tu não foste tipo a primeira filha, a primeira neta
Inês LG
25:57
Não fui a primeira neta, mas fui a primeira filha
JC
26:00
E isso eu não sei se é uma benção Ou se é uma desgraça que nos persegue pela vida toda
Inês LG
26:04
É sim, eu acho que A minha mãe preferia ter tido uma primeira filha Uma primeira filha Se calhar mais calma Porque não é que eu fosse Quer dizer, não era Nenhuma fascínora, mas Eu acho que sempre tive E acho que é uma coisa que me acompanha até hoje Muita curiosidade por tudo E depois queria-te Sempre experimentar tudo Perguntar, perguntar, perguntar Perguntar, perguntar E aí pronto O meu pai conta sempre que No primeiro dia de escola Quando eu fui para a escola Eu fui para o pai com 4 anos e tal E eles iam, coitada da miúda, coitada Vai ser péssimo, vai chorar imenso Porque teve até aos 4 anos em casa E acho que eu voltei costas e nem mais olhei para trás Portanto, eu acho que isto diz muito Um bocado de uma certa curiosidade pelo mundo Deixa-me ver o que isto tem aqui para me dar E o meu pai ficou assim, quase Um bocadinho, sim, um bocadinho
JC
26:55
Olha, tu és uma entrevistadora experiente Não só no podcast, na televisão Tu dominas os mecanismos Aquilo que eu chamo os mecanismos invisíveis De uma boa conversa, de empatia
Inês LG
27:09
Não domino, para já Não sei se isso era uma pergunta Mas eu vou transformá-la numa pergunta Acho que não Porque, e note quando depois assisto Às vezes quando revejo as coisas Ou quando estou a editar alguma conversa Eu acho que Às vezes é preciso também deixar Tenho um bocadinho às vezes Medo do silêncio Que eu acho que é um bocadinho o problema das pessoas da rádio Mas às vezes está tudo bem Às vezes podemos fazer uma pergunta curta E esperar, está tudo bem Às vezes faço a pergunta E depois explico E depois falo demais Cala-te, falas demais
JC
27:48
Isso é uma tua avaliação técnica Ou tu estás a ser demasiado dura Contigo li numa das coisas que tu falaste ou escreveste, é aquilo que se chama hoje muito o síndrome do impostor Sim, sim, esse clássico Tu tens mesmo essa sensação de…
Inês LG
28:04
Um bocado, sei lá, acho que sim não adoro depois ver-me mas isso não é o síndrome do impostor
JC
28:11
Mas depois esforças-te para ires lá ver e para ouvir
Inês LG
28:15
Não, o mais possível é essa tarefa ter que me confrontar com a minha própria existência Dá-te uma dor? Quer dizer, há tantas coisas, tantos livros bons Para alguma pessoa ler, agora vou-me ver a mim própria Não, para quê? Uma coisa é por necessidade Claro que eu Ficava-me muito bem dizer assim Não, não, sim, eu vou ver, que é para ver o que é que eu posso corrigir E fazer melhor Quem é que são os teus grilos falantes? Quem é que são quem? Os teus grilos falantes
JC
28:41
Os grilos falantes são aquelas pessoas que nós temos na nossa vida Que nos dizem tudo como os malucos E que acertam muitas vezes
Inês LG
28:49
Que não nos poupam a…
JC
28:51
Sim, olha, eu tenho… a minha mulher diz-me sempre…
Inês LG
28:53
A minha mãe é um ótimo…
JC
28:54
Não aprendes nada com as coisas que ouves no podcast e eu digo, pronto, ok, obrigado. Muito obrigado pelo feedback.
Inês LG
29:00
A minha mãe é um ótimo grilo falante. Diz-me as coisas todas. Diz-me, diz-me. Sempre disse. Sem grandes… é assim, elogia quando é preciso, mas também quando acha que a coisa não foi boa, também me diz. E isso é ótimo.
JC
29:11
Eu estou-me a divertir porque há muitos, muitos anos quando experimentei pela primeira vez televisão e aquilo era um problema…
Inês LG
29:17
Estás a falar de um prato. Quando experimenta pela primeira vez, bacalhau espiritual
JC
29:22
E o comentário da minha mãe é maravilhoso Porque ele não é técnico Ele não tem a ver com o orgulho do seu filho Estar a fazer televisão O comentário foi claro e direto Estás gordo
Inês LG
29:33
Exato, adoro Minha mãe também às vezes diz as coisas Não devias usar aquele cabelo assim Não fica bem Pronto, mas eu gosto disso Eu acho que isto é muito melhor Do que ter mães e pais Que acham que tudo o que os filhos fazem É espetacular e tudo lindo E não é Sabes porquê? Essas pessoas geralmente vão parar ao extremamente desagradável Porque ficam Entupidos de vaidade O ego Exato
JC
29:59
Olha, como é que tu vês as redes sociais? Já não digo como é que tu geres Mas como é que tu vês as redes sociais?
Inês LG
30:04
Ainda bem que não é como é que eu agiro Porque eu não agiro Sou péssima Sou péssima a brincar às redes sociais É porque muitas vezes Consumo, claro, consumo demais Vais vendo o quê?
JC
30:18
Qual é a tua… andas por onde?
Inês LG
30:20
Ando por onde? Sei lá, hoje em dia é quase É muito complicado dizer para uma pessoa No feed, faz aquele scroll Instagram, TikTok Não, TikTok TikTok tinha E tirei, porque aquilo é um Survedouro, aquilo é uma espécie de Parece que te põe aqui um dreno, sabes? E depois a tua massa cinzenta Vai para ali a fora Não, porque aquilo é que consome-te imenso tempo E tu só descobres dali De repente passaram 30 minutos E é tipo, uou, o que é que aconteceu aqui?
JC
30:50
É uma coisa viciante no mau sentido da palavra
Inês LG
30:52
É viciante e está feita para viciar Sim, porque o algoritmo vai-te oferecendo sempre qualquer coisa que te interessa
JC
30:57
Como é óbvio E se este não interessa o outro seguinte ou o outro a seguir Já se torna muito interessante E agora estamos a falar do ego E eu estou a ver Algumas pessoas Personas públicas A produzir coisas, conteúdos Alguns que são engraçados, outros são profissionais Mas alguns que são verdadeiros Odds ou O ego
Inês LG
31:21
Vejam como eu sou
JC
31:23
É um espelho da vida
Inês LG
31:24
Mas as redes sociais são todas um bocadinho isso Sobretudo, por exemplo, se pensares no Instagram Mesmo quem desdenha E eu também posso dizer, ah, não sei o que, as redes sociais Mas quer dizer, que toda a gente volta e meia Põe a sua fotografia, põe não sei o que E num grau menor ou maior É sempre tudo um bocado, olhem para mim Olhem como eu Quer dizer, mesmo as pessoas que dizem que não Eu próprio, não é? Se eu ponho aqui uma fotografia Eu acho que é um bocado Uma ilusão as pessoas acharem que não é Sendo que hoje em dia Depois, isto também acaba por ser Não é bem uma ferramenta De trabalho, mas é um bocado esta ideia De que De repente parece que é currículo Ter não sei quantos seguidores
JC
32:06
E não sei quantos likes, tu estás ali à cata Do like documentário
Inês LG
32:09
Não, não
JC
32:11
E vais lá a escrever Vais ver outros conteúdos No fundo é assim És uma ativa ou passiva
Inês LG
32:17
Se tivesse que escolher Se tivesse duas portas Eu acho que não sou muito ativa Não comento imenso
JC
32:25
Vais lá a espreitar E o que é que acontece
Inês LG
32:28
Passa bastante tempo Tempo a mais, devia passar menos Mas não, não sou muito comentadeira
JC
32:34
Eu soltei aqui há bocadinho que estavas a falar Vou-me rever para ver se fizes tudo bem Estou a imaginar tu a chibatar-te a dizer
Inês LG
32:42
Não, não, quando disse vou-me rever Estás a falar do podcast Porque eu tenho que editar Tenho que editar as entrevistas E é isto que faz editar Sim, quer dizer, não sou eu Que edito, há um editor que faz Editas no sentido de o que é que é para contar O que é que não é Aqui sai, aqui não, esta parte não é tão interessante
JC
33:01
O que é que torna um conteúdo interessante ou não interessante O que é que torna um podcast Um pedaço de podcast apetitoso para ti
Inês LG
33:08
O que é que… Sei lá, um podcast apetite Não ser muito longo Que é uma coisa que eu acho que
JC
33:15
Para não chatear as pessoas? Ou para dar tempo para as pessoas enquanto eu vou conduzir?
Inês LG
33:19
Sim, mas eu acho que isso é um bocado Porque houve um bocadinho aqui e outro bocadinho ali Mas às vezes quando são muito, muito, muito longos
JC
33:24
Estás a falar de longo ou maçudo?
Inês LG
33:27
Pois, nem sempre longo é maçudo Lá está uma conversa que tem um ritmo Há cinco minutos que demoram dois E há dois minutos que demoram dez
JC
33:34
Tal e qual, é isso? Sim, absolutamente
Inês LG
33:38
Eu acho que depende muito também do que é que Sei lá, há tantos podcasts e com tantos temas Por exemplo, eu conversas Se for uma conversa, por exemplo, há um podcast que eu gosto muito Que é de uma atriz que é a Julia Louis-Dreyfus Que era a Elaine do Seinfeld, muito famosa por essa personagem Que tem um podcast chamado Wiser Than Me Em que entrevista mulheres mais velhas que ela E mais espertas E mais experientes, exatamente Ainda comecei a ouvir há pouco tempo A conversa O episódio com a Isabela Allende Mas tem episódio Isto para dizer o quê? Que uma conversa muito boa Ouve-se durante Não me importa que aquilo demore duas horas Se for preciso O que é uma conversa boa? Uma conversa boa é uma conversa Com a qual eu possa Aprender alguma coisa Sei lá Eu acho que é isso Eu acho que é que me faça aprender Ou sei lá, uma pessoa que eu admiro E tenho curiosidade para perceber Como é que essa pessoa chegou ali Eu acho que é isso que me prende Se calhar sempre poder aprender qualquer coisa E que te deixa seguir o percurso dela
JC
34:54
Os podcasts que me irritam É do convidado cassete O convidado que eu quando já estou a ouvir Já sei por onde é que vai Já é que se torna previsível Sim, embora depois há exceções que há convidados que são previsíveis e que eu continuo a divertir-me e a rir-me muito quando estou a ouvir mas interessa muito saber essa lá está, essa dinâmica
Inês LG
35:13
uma conversa boa é uma conversa honesta
JC
35:16
eu acho porquê que é tão difícil ter conversas verdadeiramente honestas? é uma pergunta que eu me faço é uma pergunta que eu me faço
Inês LG
35:27
isso não é uma pergunta simples aqui era só perguntas simples porquê que é tão difícil ter uma conversa honesta Num podcast?
JC
35:35
Em todo lado.
Inês LG
35:36
Em todo lado.
JC
35:37
Em todo lado. Penso sempre naquela ideia absurda de termos todos o síndrome da verdade e passarmos em todo lado e dizer tudo o que pensamos sobre as pessoas.
Inês LG
35:45
Eu acho que mais do que o… Não é bem o síndrome da verdade. Se calhar temos todos um bocadinho o síndrome da virtude.
JC
35:50
Que eu acho que é… É para poupar os outros?
Inês LG
35:53
Não é para poupar os outros. Eu acho que é um bocadinho, talvez…
JC
35:57
Ou é uma hipocrisia sistémica?
Inês LG
35:59
Não sei bem. Não sei se… Eu também não sei se concordo Com essa afirmação De que não é possível ter uma conversa honesta Eu acho que é possível Mas dá trabalho Dá, porque eu acho que tens que Tu quando vais Isto é aquele momento agora em que eu citava uma frase Como eu disse, como eu vi no outro dia Não sei quem dizer Não sei o que, não sei o que
JC
36:22
Tem uma alternativa que é Tu citaste a ti própria Como eu disse em 1996
Inês LG
36:26
Não, imagina, quão mal seria isto Não, mas lembre-me disto porque por acaso esta semana vi li uma coisa sobre isso interessante, mas eu acho e tinha a ver basicamente com isto, eu acho que é tu tens que ir preparado para para dispor-se um bocado ninguém vai para para seres vulnerável, para estar num sítio em que não sabes tudo tens que ouvir, eu acho que tens que ouvir olha, o teu convidado aqui, o Rui Melo falava sobre isso, sobre a importância da escuta, não é? Mas a escuta real, não é aquela escuta que eu estou ouvindo Ah pois, eu uma vez também me aconteceu isso E de repente a conversa já é sobre ti Já não é sobre a pessoa com quem tu estás a falar
JC
37:08
Portanto, eu escutar para mudarmos coisas E eu escutar para entender o outro É um acto de profunda empatia
Inês LG
37:14
Eu acho que sim Eu acho que essa Escutar realmente E despender tempo A conversar e a ouvir Porque eu acho que Se tu pensares Eu acho que Às vezes aflige-me um bocadinho esta ideia Tudo isto, os telefones, as redes sociais Tudo o que mudou e tanto nos últimos tempos É muito virado para uma ideia de autossuficiência Que é um bocadinho aflitiva se tu pensares Porque tu de repente, hoje em dia, se tu quiseres estar em casa Sozinho, sem falar com ninguém E o almoço chega à tua porta E tu também não tens que falar com a pessoa que leva o teu almoço Porque há uma aplicação onde tu pedes o teu almoço Não há interação com o humano nenhum E eu, não sei, às vezes penso Vamos perder a capacidade de Não sei, de pedir salsa ao vizinho, sabes? E quando eu digo isto, às vezes os próprios Miúdos, às vezes faço exercício com os meus filhos Que é, ah, não sei o que, eu tenho cedo Então vai ali pedir um copo de água, ah, não, não, que horror
JC
38:12
Mas não fazem perguntas, não é? Sim, um bocado é esta coisa
Inês LG
38:15
São estas competências sociais Que as pessoas têm que Desenvolver, conversar Uns com os outros, isto é tudo muito É o auto-tudo, é o autocuidado É o auto-não-sei-quê É tudo feito para nós mirrarmos E definharmos na nossa própria existência Qualquer dia acho que implodimos, não sei
JC
38:34
Quero fechar isto
Inês LG
38:36
Não, não vai cortar nada
JC
38:37
Mas quero fechar com uma nota positiva Até porque tu tens de ir buscar as tuas crianças É verdade, sim Isso é uma conversa de verdade É uma conversa de verdade Porque este podcast tem que acabar Porque ela tem que ir buscar as crianças É isto e não há mais nada a fazer Exatamente, e eu sou muito
Inês LG
38:52
Faço muita questão disso De ir buscar Não é de ir buscar, assim, isso faz questão de ir buscar Até porque o caso contrário eles dormiriam na escola E era muito chato
JC
39:01
E depois quando vens no carro vais dizer Então como é que ocorreu o dia? O que é que quiseram fazer?
Inês LG
39:05
Como é que foram as notas? Faço muito a questão de estar Presente Ir buscar, de não faltar a nada Do que são as coisas importantes Isso para mim é assim mesmo Estar presente O que é que te expande? O que é que me expande E agora respondia, o glúten O que é que me expande? Olha, as pessoas Eu acho que As outras pessoas Estar com elas Pessoas com quem eu aprendo mais qualquer coisa Pessoas que me acrescentam Eu acho que é isso No fundo que me expandem, lá está Podemos fechar
JC
39:45
Isto é teu Bom dia da rádio Feliz dia da rádio É o dia da celebração do dia da rádio É verdade, viva a rádio Obrigada Jorge Não há edição que resolva a urgência de ir buscar os filhos à escola. E, na verdade, esse é o final perfeito para esta conversa, porque rádio, tal como a Inês a descreveu, não é uma performance assética feita por máquinas ou algoritmos. É a vida a acontecer em direto. Fica a nota sobre a carga mental invisível, mas fica, sobretudo, o alerta sobre a cultura do autotudo, do almoço que chega sem falarmos com ninguém ou da perda de competências sociais básicas. Se este episódio lhe deu vontade de ir pedir sal ou salsa ao vizinho ou simplesmente de escutar alguém com mais atenção, então o objetivo está cumprido. Porque, como disse a Inês, são as pessoas que nos expandem. Pode voltar a ouvir esta e outras conversas, como a de Rui Melo sobre a escuta ou a de Manuel Marques sobre o humor em perguntasemples.com. Está também disponível, todos os episódios estão disponíveis, como sempre no Spotify, Apple Podcasts, YouTube ou no RTP Play. Se gostou, subscreva, partilhe com um amigo, ajude-nos a furar a bolha do algoritmo e a manter a conversa viva. Eu sou o Jorge Correia, volto na próxima semana.
