Há perguntas que parecem simples e, no entanto, atravessam séculos de reflexão estética e filosófica. O que comunica a música quando as palavras não chegam? A interrogação é antiga — atravessa a tradição romântica, passa por Schopenhauer e ecoa em George Steiner — mas mantém-se intacta num tempo saturado de discurso.
Nesta conversa com Rita Redshoes, a questão não é teórica. É prática. Como nasce uma canção? De onde vem uma melodia? Do sonho? Do silêncio? Do desassossego? A artista descreve o processo sem mitologia excessiva: não há fórmula fixa, há disponibilidade. Há escuta. Há atenção ao que emerge.
Ao longo de mais de uma década e meia de carreira, Rita Redshoes construiu um percurso autoral consistente na música portuguesa contemporânea, cruzando composição, produção e escrita literária. O que distingue o seu trabalho não é a exuberância, mas a densidade: a tentativa persistente de compreender o que significa estar vivo — e traduzir essa inquietação em som.
A música como linguagem anterior às palavras
Se a linguagem verbal organiza o mundo, a música parece suspendê-lo. Não argumenta; vibra. Não explica; ressoa. A neurociência confirma aquilo que a experiência quotidiana já sugere: o som ativa circuitos emocionais anteriores à formulação racional. A música comunica antes da frase.
É por isso que certas canções nos tocam em lugares onde a argumentação não chega. Há algo de pré-verbal na experiência musical — uma comunicação que antecede a sintaxe e ultrapassa o discurso lógico. Quando as palavras se mostram insuficientes, o som permanece.
Num programa dedicado à comunicação, esta distinção é central. Nem tudo o que importa é explicável. E talvez comunicar melhor passe também por reconhecer os limites do verbo.
Criar como exercício de escuta
A criação surge, na conversa, como um gesto de atenção. Não como inspiração súbita ou genialidade isolada, mas como disponibilidade. A artista fala do silêncio, do desassossego, do tédio fértil da infância. Fala da importância de parar para ouvir o que ainda não tem forma.
Num tempo de excesso informativo, a escuta torna-se um gesto raro. Criar implica suspender a burocracia mental, interromper a repetição automática dos pensamentos e permitir que algo diferente se instale. A criatividade não é necessariamente exuberância; pode ser interrupção.
Comunicar começa aí: na escuta.
Finitude e presença
Há um momento na conversa em que a finitude entra sem dramatização. A consciência de que somos limitados no tempo pode não ser um peso, mas um princípio de lucidez. Talvez vivêssemos com maior intensidade se aceitássemos, com mais frequência, essa condição.
Não se trata de um exercício sombrio. Trata-se de presença. Se o tempo é finito, a comunicação ganha urgência ética. O que dizemos — e o que não dizemos — torna-se mais significativo. A ausência de uma palavra pode tornar-se irreversível.
A música, neste contexto, surge como forma de permanência provisória. Um modo de fixar no som aquilo que o tempo dissolve.
Um gesto cultural
O próximo trabalho discográfico da artista acrescenta uma dimensão cultural relevante à conversa: um álbum composto integralmente por mulheres portuguesas que escreveram canções para ela. Um gesto artístico que é também simbólico, num contexto em que a autoria feminina continua menos visível do que a sua qualidade justificaria.
Mais do que um alinhamento temático, trata-se de um posicionamento: dar espaço, ampliar vozes, criar rede.
Comunicar é também isso.
Porque esta conversa importa
Num espaço público marcado por ruído e polarização, conversas que desaceleram são um serviço. Falar de música é falar de linguagem. Falar de criação é falar de escuta. Falar de finitude é falar de presença.
Quando as palavras não chegam, talvez a música comunique o que ainda não sabemos nomear: vulnerabilidade, medo, memória, desejo de pertença.
Este episódio não oferece respostas definitivas. Oferece uma pergunta que merece tempo.
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Rita Redshoes: Se estivéssemos quase sempre presente que vamos morrer… eu peço desculpa, mas se tivermos isto presente, se calhar vivemos mais. Porque é esta ideia de que nós sabemos que vamos morrer, mas é uma coisa um bocado abstrata. Também nos dizem para não pensarmos nisso, não é? “Ai, que horror, estar a pensar sobre a morte” e não sei quê. Mas a verdade é que, se nós tivéssemos essa ideia mais presente, eu se calhar vivia mais e vivia melhor. Porque eu, de facto, não sei se vou morrer daqui a uma hora. Aproveitar, em vez de eu estar a pensar se me acontece isto um dia, se eu não sei quê, se eu não sei quê… se eu pensar assim: “Epa, raios, para que é que eu estou a pensar daqui a uma hora se eu posso morrer no minuto seguinte?”. Se calhar estar um bocadinho mais presente aqui e agora. Às vezes não vivo. Às vezes estou só com medo.
Jorge Correia: Há pessoas que não sabem estar quietas, e ainda bem. A Rita Redshoes escreve canções como quem tenta compreender o mistério de estar vivo. Com mais de 15 anos de carreira, vários álbuns editados e um percurso que cruza composição, produção e literatura, ela afirma-se como uma das autoras mais consistentes da música portuguesa contemporânea. Não tem fórmulas, não tem método fixo. Às vezes a música vem de um sonho, outras vezes nasce do desassossego e outras, ainda, do silêncio. O que comunica a música quando as palavras não chegam? A música, a poesia, a arte, Rita Redshoes. Ao longo do seu percurso, Rita Redshoes construiu uma identidade artística própria, marcada por uma escrita intimista e por uma atenção particular à dimensão estética e conceptual nos seus projetos. Nesta conversa falamos de criatividade, de medo, da finitude, da maternidade, da infância no campo, do tédio que alimenta a imaginação e dessa ideia poderosa de que talvez vivêssemos melhor se nos lembrássemos mais vezes de que somos finitos. Falamos também do novo disco, um projeto raro: um álbum inteiramente composto por mulheres portuguesas e escrito para ela. Uma homenagem às compositoras, uma iniciativa com significado artístico e cultural num contexto em que a autoria feminina continua a ter menos visibilidade na indústria musical. Mas, acima de tudo, esta é uma conversa sobre o que a música consegue dizer quando as palavras já não chegam.
Jorge Correia: Como é que se cria uma canção?
Rita Redshoes: Bom, há várias formas. Eu não sou muito de fórmulas, portanto sigo um bocadinho aquilo que é o momento, o meu estado de espírito e o que tenho à mão. E às vezes há canções que já vêm meias feitas não sei de onde, e eu agarro. Há outras que são partes mais difíceis, mas eu diria que eu não tenho um método. Já me aconteceu escrever primeiro a letra e depois a música, já me aconteceu escrever ao mesmo tempo, já me aconteceu começar com um ritmo e a música vem do ritmo, ou começar só ao piano… enfim, há múltiplas hipóteses de escrever, pelo menos no meu caso tem sido assim.
Jorge Correia: Para tu conseguires agarrar uma música que está num sítio qualquer… implica um tédio? Implica uma pausa? Implica quase um exercício de apanhar borboletas no campo, estar quieta e sossegada, ou não?
Rita Redshoes: Eu diria que implica um desassossego natural, mas que no momento em que surge, há uma espécie de uma quietude qualquer. Eu tenho que prestar atenção e tenho que estar disponível para ouvir qualquer coisa que não sei de onde vem. E estar disponível também com… hoje em dia é bem mais fácil, porque temos os telemóveis à mão e portanto é mais fácil gravar uma ideia. Mas é isso, eu acho que requer uma quietude que às vezes não é uma quietude no bom sentido, é uma coisa tumultuosa, mas que implica algum tempo e alguma disposição para.
Jorge Correia: As ideias fogem, as ideias podem ir-se embora e não voltar?
Rita Redshoes: Podem, podem… então não podem! E depois ficas a martirizar-te e a dizer: “Ah, aquela é que era a ideia mesmo que me ia fazer ganhar o Grammy e agora ela fugiu”. Já me aconteceu ficar frustrada porque… como eu sou daquelas pessoas que se lembra de tudo dos sonhos, já me aconteceu aparecerem muitas melodias e até bocados de músicas em sonhos e depois acordar e já não conseguir apanhar aquilo. Já me aconteceu estar em sonhos em que estou a escrever uma canção e estou a delirar: “uau, isto era mesmo isto!”, e depois aquilo esvai-se e portanto eu já não chego a tempo.
Jorge Correia: Tu sonhas com música ou sem música?
Rita Redshoes: Sim, sim. E às vezes lembro-me. Por exemplo, tenho uma música, a “Choose Love” do meu primeiro disco, que veio de um sonho totalmente. Eu aliás estava acordada, acordei a achar: “mas porque é que o vizinho está a ouvir música tão alto a esta hora? Vou já lá reclamar”. E portanto foi uma coisa mesmo muito vívida. Mas quero acreditar que se eu não apanhei, se não fui a tempo, talvez outra pessoa tenha apanhado noutro sonho e não se perca a ideia.
Jorge Correia: Que desassossegos são esses? O que é que te assarapanta?
Rita Redshoes: A vida. O estar viva. A morte em si também. Eu penso muito sobre isso, sou muito dada a pensar sobre isso, mas também ainda não cheguei a nenhuma conclusão. Vou tirando algumas ideias que me fazem sentido, vou lendo outras… mas que isto é um grande mistério é, não é? E depois também aquela coisa do que é que há para lá do meu desaparecimento aqui nesta história.
Jorge Correia: Essa ideia angustia-te? A ideia da finitude?
Rita Redshoes: Eu acho que da minha finitude em si, para mim, não. Eu acho que vou para um sítio melhor, muito honestamente. Mas não tenho pressa, já agora. O facto de ter sido mãe alterou um bocado essa perceção. Neste momento o que mais me angustia é a ideia de que se eu desaparecesse, provavelmente a minha filha ressentir-se-ia e portanto não é uma boa coisa. Mas não me assusta propriamente. Angustia-me a morte das pessoas de quem gosto, isso sim. Aquela coisa do não recuperar faz-me muitas comichões, esta ideia do “já não volta mais a ser assim”.
Jorge Correia: Sendo que tu tens na panela um álbum novo… a contar-nos que história?
Rita Redshoes: Há uma história geral que é uma história bonita, eu acho, e que eu estou muito feliz de a pôr em prática, de a concretizar. Foi uma história que eu comecei em 2012 com um espetáculo à qual chamei “The Other Women”, em que eu homenageava mulheres escritoras de canções. Pensei: “acho que está na altura de continuar esta ideia”. Este meu próximo disco será um disco de homenagem às compositoras, mas desta vez compositoras portuguesas. Pela primeira vez também na minha carreira, não serão totalmente canções minhas, são escritas por mulheres portuguesas para mim.
Jorge Correia: E essas compositoras fazem a música, fazem a letra, fazem tudo?
Rita Redshoes: Para já têm feito ambas as coisas. Eu depois pego nelas… tem sido um processo muito bonito porque tenho acesso àqueles momentos em que a canção nasce. Tenho o privilégio de ter uma gravação de telemóvel onde a canção nasce pela primeira vez. Dão-me sim uma coisa bastante despida na maior parte dos casos, e depois eu a partir daí construo. Eu tenho a semente e depois tenho que construir alguns andaimes para chegar ao produto final.
Jorge Correia: Tu consegues ter essa perceção logo?
Rita Redshoes: Eu consegui porque a canção de facto é incrível. Por exemplo, o primeiro single, escrito pela Márcia, é uma canção muito linda. Ela mandou-me um bocadinho da estrofe e um bocadinho do refrão, só a primeira pincelada. E é incrível como é que eu ouvi aquilo e disse: “isto é uma canção incrível com aquele bocadinho”.
Jorge Correia: Há um fio condutor ou há uma doce anarquia?
Rita Redshoes: Há uma doce anarquia no sentido em que eu disse: “façam o que quiserem, fazei!”. Porque eu acredito plenamente no vosso talento. A única premissa que eu disse era que não tem que ser falar sobre só os aspetos femininos ou numa perspetiva de luta feminista. E foi muito bonito porque de repente tenho perspetivas sobre várias componentes da vida feminina, coisas bastante íntimas. Já posso revelar alguns nomes: Amélia Muge, Mafalda Veiga, Cláudia Pascoal, GNR. Eu espero que o disco saia antes do fim do ano.
Jorge Correia: É fácil ser mulher?
Rita Redshoes: Eu acho que não é fácil ser ser humano. Ser mulher tem coisas acrescidas, tem complexidades acrescidas biologicamente falando e também da nossa história. Há de facto alterações hormonais ao longo da vida de uma mulher que começam um bocadinho mais cedo e são mais desafiantes.
Jorge Correia: Tu tens uma filha, a Rosa. Idade das perguntas.
Rita Redshoes: Ela pergunta tudo: “porquê?”, “porque é que me estás a mandar fazer isto?”. Fico contente que haja essa curiosidade, acho que é uma das coisas mais maravilhosas do ser humano, a par com a criatividade. O meu romance, “Crescer à Sombra”, fala precisamente sobre o percurso de uma menina ali entre os nove e os dez anos, todas essas transformações psicológicas e hormonais que ocorrem.
Rita Redshoes: Eu tive a felicidade de crescer no campo com muita liberdade e com muito tédio, e portanto isso ajudou-me muito a poder exercitar a minha criatividade. Essa liberdade, esse contacto com a natureza, com o perigo, foi muito bom para o meu crescimento. Não havia telemóveis, nem internet, nada. Eu aliás procurei isso para a minha filha, fui viver para o campo precisamente porque eu prezo muito essa liberdade. Ela não tem telemóvel, nem pensar! É uma guerra que eu já sei que vou ter.
Jorge Correia: Essa Rita dos nove anos. O que é que aconteceu?
Rita Redshoes: Foi basicamente essa pergunta: “o que é que me está a acontecer aqui?”. Lembro-me perfeitamente do dia em que as minhas alterações hormonais de repente se fizeram sentir e eu lembro-me de pensar: “o que é isto? eu estou a morrer!”. Para mim foi um complexo de lidar com a autoimagem. Eu não me revia naquilo: “eu não quero isto para mim! eu não sou esta!”.
Jorge Correia: O que é que se consegue contar com a música em que as palavras não chegam?
Rita Redshoes: Eu tenho um compromisso muito sério com a música desde cedo. Aquilo que eu sinto é que de facto há canções que tocam em sítios que palavras ou imagens só por si não chegam lá. Eu acho que vibra… há ondas no cérebro que são despertadas com frequências sonoras e que isso biologicamente de facto tem mesmo uma comunicação direta com a nossa adrenalina. A música une, tem uma capacidade única provavelmente de unir as várias linguagens.
Rita Redshoes: Eu gosto muito, sobretudo quando conduzo, de ouvir música clássica, sobretudo música orquestral. Reajo fisicamente àquilo. Fiz também um disco aliado à Constança Cordeiro Ferreira, que é uma terapeuta do sono infantil, e fiz uma banda sonora para o livro dela. Tenho recebido muitas mensagens de pais a agradecerem-me por ter conseguido pôr as crianças a dormir.
Rita Redshoes: Tenho também o espetáculo “Xinfreim” para crianças. Ali a minha preocupação são as crianças, e as crianças precisam de fazer barulho. Aquele espaço é: pessoal nós vamos fazer barulho, nós vamos deixar o palco num estado um bocado lastimável. Precisamos de pôr as mãos na massa, precisamos de nos sujar. Nós temos tão pouco tempo para sermos crianças que se não aproveitamos agora, depois em adulto não podemos.
Jorge Correia: Quando tu estás a compor, vais mais à procura da clareza do texto ou da criação de uma atmosfera?
Rita Redshoes: Eu não consigo fazer música sem estar realmente preocupada com a atmosfera. Para mim a imagem sonora é uma coisa automática que está entranhada em mim. É muito difícil dissociar o som de uma imagem. No fundo, a criatividade é olhar para as coisas e dizer “mas isto podia ser de outra maneira”.
Rita Redshoes: Eu acho que nós somos um bocado amedrontados, vivemos muito na antecipação e ansiedade. Se eu estiver sempre neste modo, eu não tenho estes interregnos para poder criar. Se tivéssemos quase sempre presente que vamos morrer, se calhar vivíamos mais. Ir para o palco é um bocado irresponsável, uma pessoa vai para ali expor-se, é um ato de fé e de entrega. Eu gosto do voar com o público.
Jorge Correia: Como é que é a tua relação com o sucesso e com a pressão?
Rita Redshoes: É saudável não pensar nisso. Eu o sucesso vejo como uma coisa tão relativa. Eu tenho um momento de ressaca a seguir ao palco em que fico assim meio a pairar, um bocado ausente. É um pico de adrenalina e depois a onda desfaz-se. No palco eu vou-me descobrindo e tentando divertir-me. O que é fixe é as pessoas esquecerem-se de si mesmas por momentos.
Jorge Correia: Sonhas sobre o quê?
Rita Redshoes: Eu digo que tenho uma vida dupla à noite. É uma grande aventura, conheço imensa gente nova, encontro outros que já conhecia… divirto-me muito.
Jorge Correia: Esta conversa com Rita Redshoes é daquelas que não se fecha quando desligamos o microfone. Falamos de medo, finitude, infância, tédio e silêncio. Se esta conversa lhe fez companhia, partilhe-a.
