Manipulação ou ciência: como adivinhar pensamentos? João Blümel

OUVIR A CONVERSA
Manipulação ou ciência: como adivinhar pensamentos? João Blümel
00:00

O Homem que Sabe o Que Estás a Pensar

(E Usa Isso Para Te Divertir)

Há uma certa ironia em entrevistar um mentalista. A pessoa que está do outro lado da mesa passou os últimos vinte anos a aprender a ler o que ninguém diz em voz alta — os microgestos, as hesitações, o olhar que dura meio segundo de mais. João Blumel sabe, antes de abrires a boca, se és do tipo praia ou cidade, se tens filhos ou preferes a carreira, se escolhes Nova Iorque ou as Caraíbas. E com essa informação, faz algo que poucas profissões permitem: constrói um momento que as pessoas não esquecem.

Mas antes de chegarmos ao palco, há uma história de um miúdo muito tímido, de 15 anos, que descobriu por acaso que a linguagem tem estrutura — e que essa estrutura se pode aprender.

O Miúdo Que Não Conseguia Falar com Raparigas

João Blumel tinha 15 anos quando topou, algures na internet ainda embrionária do ano 2000, com uns PDFs americanos sobre Programação Neurolinguística. A PNL é uma área que nasceu nos anos 70, nos Estados Unidos, a partir de uma pergunta que hoje pode soar inquietante: será que é possível programar uma pessoa da mesma forma que se programam computadores?

A resposta, descobriu ele, é sim. E para um adolescente com ansiedade social severa, aquilo foi uma revelação.

“Era extremamente tímido, sobretudo com o sexo oposto”, conta com o humor de quem já pode rir do passado. A PNL não lhe deu superpoderes. Deu-lhe algo mais útil: ferramentas para se comunicar melhor consigo próprio, antes de comunicar com o mundo. Para reframing — a capacidade de olhar para o mesmo evento a partir de outro ângulo e encontrar nele algo diferente.

É um conceito simples, mas poderoso. Um partido um pé pode ser o fim da carreira ou pode ser o tempo que precisavas para pensar. Uma pandemia que apagou 95% dos espetáculos pode ser uma catástrofe ou pode ser o período em que descobres que consegues fazer um show de uma hora inteira online, que chega a qualquer parte do mundo. João Blumel viveu as duas versões. Escolheu a segunda — não por otimismo ingénuo, mas porque percebeu que essa escolha estava dentro do seu controlo.

Manipulação É Uma Palavra Feia. Mas É Isso Que É.

No palco, João Blumel faz uma coisa que poucos admitem fazer tão abertamente: manipula. Influencia as escolhas das pessoas, dirige o seu pensamento, planta sugestões antes de fazer as perguntas. Quando diz “está um sol incrível lá fora” antes de pedir que escolhas entre uma caneca amarela e uma vermelha, não está a fazer conversa — está a ativar uma associação.

“É totalmente manipulação”, diz, sem hesitar. “Só que é uma manipulação que provém de uma questão extremamente ética.”

A distinção que faz é importante. As mesmas técnicas que usa para fazer um espetáculo poderiam ser usadas para convencer o caixa do supermercado que já pagaste, ou para influenciar alguém em seu benefício. Não são ferramentas neutras. Mas o que as torna éticas ou não é a intenção — e no seu caso, a intenção é o entretenimento. Criar um momento. Fazer com que saias do teatro a pensar: como é que ele soube que eu estava a pensar em morangos?

O que não quer é aquilo que acontece quando as pessoas saem a sentir que foram devassadas. Que algo lhes foi tirado sem permissão. O palco de João Blumel funciona com consentimento implícito: vieste ver um mentalista, sabes que ele vai tentar influenciar-te, e o jogo é precisamente esse — resistir, ou não, e descobrir que a tua mente é mais previsível do que pensavas.

A Arte de Ler Alguém em Dois Minutos

Quando chama alguém ao palco, João Blumel começa com perguntas aparentemente banais. Cães ou gatos? Praia ou montanha? Nova Iorque ou Caraíbas? Não são quebra-gelos. São diagnósticos.

A escolha entre Nova Iorque e as Caraíbas diz-lhe se és uma pessoa de estimulação ou de descanso. Se tens filhos ou não diz-lhe o quanto a tua identidade está ligada ao papel de cuidador. Se preferes cão e és asiático num espetáculo no Brasil… bem, essa foi a piada que não devia ter dito e que até hoje é uma das suas favoritas.

Por baixo desta leitura rápida está o trabalho de Paul Ekman — o maior especialista mundial em microexpressões faciais, a pessoa real em que foi baseada a série Lie to Me. As microexpressões duram microssegundos e não se conseguem fingir conscientemente. Um sorriso genuíno é simétrico e envolve os olhos. Um sorriso social fica pela boca. Quando alguém tenta deliberadamente fazer uma microexpressão para enganar um mentalista — olhar para um objeto que não escolheu, na esperança de o iludir — está a fazer exactamente aquilo que trai a mentira: uma expressão voluntária tem um timing diferente de uma expressão involuntária. E João Blumel, ao fim de vinte anos, consegue ver a diferença.

“Já estou tão habituado a fazer isto que já percebo mais ou menos”, diz, com a modéstia de quem sabe que a frase é um eufemismo.

O Paradoxo do Verdadeiro Influenciador

Há uma tensão que percorre toda a conversa e que só se torna explícita a certa altura: João Blumel é, por definição, um influenciador — alguém que estuda e pratica a influência do comportamento humano há duas décadas. Mas tem menos seguidores do que precisaria para ser recebido por alguns canais de televisão no Brasil.

“Tens muito poucos seguidores. Só queremos contratar pessoas com muitos seguidores.”

A ironia não lhe escapa, e nomeia-a sem amargura: um espetáculo que chamou exatamente Teatro da Influência, e a certa altura os próprios meios de comunicação que deveriam reconhecer o talento passaram a filtrar pela métrica digital. Não é uma crítica fácil às redes sociais — até porque ele reconhece o que democratizaram. Já não precisas de cunhas para ter audiência. Pegas num telemóvel e crias o teu próprio programa.

Mas o que as redes também criaram é uma ansiedade de comparação constante, um ideal de beleza que não existe fora dos filtros, e milhões de pessoas a buscar incessantemente a aprovação de outros milhões que estão exactamente no mesmo barco. “No fundo, estamos todos com medo”, diz, lembrando os tempos de infância numa quinta, quando o jardim à noite deixava de ser assustador apenas quando havia outro miúdo a caminhar ao lado.

A necessidade de aceitação não é nova. O que é novo é a escala e a velocidade com que agora a perseguimos — e o quanto isso se tornou o conteúdo principal do que partilhamos.

Las Vegas, a Insatisfação Permanente e o Espetáculo Que Ainda Não Fez

Ao fim de quase vinte anos de carreira, oito ou nove espetáculos criados, turnês no Brasil, atuações em Las Vegas numa das maiores convenções de tecnologia do mundo, João Blumel diz uma coisa que surpreende: ainda não fez o espetáculo de que se orgulha a 100%.

Não é falsa modéstia. É o motor.

O próximo espetáculo que imagina mistura mentalismo com realidade mista — o equivalente mais próximo de hologramas que a tecnologia atual permite, onde as pessoas conseguem interagir com elementos virtuais como se fossem físicos. É cutting edge, no sentido literal da expressão. E para o fazer como imagina, precisa de uma produção que Portugal, com os seus orçamentos e as suas salas, ainda não lhe consegue dar.

Las Vegas é, para ele, a Meca do entretenimento — não pelo glamour, mas pela possibilidade de afinar um espetáculo cinco, seis, dez vezes por semana até chegar à perfeição. É o lugar onde a ideia encontra a produção que merece.

Quando as Luzes se Apagam

Fora do palco, João Blumel é, por sua própria descrição, uma pessoa recatada. Não gosta de ser o centro das atenções num jantar. Não faz truques para os amigos — tanto que já deixaram de pedir. Não analisa compulsivamente os desconhecidos na rua. Tenta, consciente e ativamente, desligar o modo analista quando sai de cena.

Mas há uma coisa que não desliga: a antecipação. O momento em que as luzes voltam a acender-se e o microfone está ligado outra vez.

“Fico sempre ansioso para que as luzes se acendam outra vez.”

É a definição mais honesta de vocação que existe: não o que fazes quando te pagam para isso, mas o que esperas ansiosamente, mesmo quando podias estar a descansar.

João Blumel atua em Portugal e internacionalmente. Pode acompanhar o seu trabalho nas redes sociais em @joaoblumel.

Ler transcrição completa

João Blumel
00:00
Peço-lhes para elas pensarem em nomes, palavras, músicas, memórias, o que é que seja, e adivinho aquilo que elas estão a pensar. A maior parte das vezes adivinho, às vezes falho. Não só adivinho, como muitas vezes também prevejo aquilo que elas vão pensar ou aquilo que vão dizer. A minha função aqui vai ser influenciar as vossas escolhas, portanto, não se deixem influenciar.

Jorge Correia
00:32
Nós passamos a vida a tentar adivinhar o que os outros estão a pensar se o nosso colega de trabalho gostou daquela ideia se aquela pessoa está realmente interessada na nossa conversa ou se nos estão a dizer a verdade a comunicação humana é, em grande parte um jogo silencioso onde tentamos decifrar sinais. O convidado de hoje transformou esse jogo na sua profissão. João Blumel é mentalista. Há quase 20 anos que sobe a palco, chama pessoas que nunca viu na vida, pede-lhes que pensem numa cor, numa memória de infância, num destino de férias e, de alguma forma, ele sabe exatamente o que está dentro da cabeça delas. Mas, como ele próprio diz e nos faz questão de avisar logo à partida, ele não tem superpoderes. Não ouvozes, não lê pensamentos como nos filmes de Hollywood. O que João Blumel faz é ler. Ler com precisão cirúrgica os 93% da nossa comunicação que não usa palavras. O cruzar de braços, a hesitação no olhar, a pequena assimetria no rosto que quase sempre denuncia uma mentira. Contudo, o que torna a história do João verdadeiramente fascinante não são os espetáculos. É o motivo pelo qual ele teve de aprender a ler pessoas. Aos 15 anos, João Blumel era um adolescente paralisado pela timidez, tinha fobia social, uma enorme dificuldade em comunicar e descobriu a programação neurolinguística, lá pelos anos 2000. Não para fazer magia, mas como um manual de sobrevivência para conseguir falar com os outros e perder o medo. Hoje ele ganha a vida a criar ilusões na cabeça de milhares de pessoas, mas vem a este estúdio alertar-nos que o maior, o mais eficaz e o mais perigoso espetáculo de ilusionismo do mundo não acontece num teatro, acontece todos os dias, aí, nesse ecrã do seu telemóvel. Neste episódio, vamos entrar nos bastidores da nossa própria mente. Vamos perceber como uma técnica chamada reenquadramento nos pode salvar num momento de crise. Como detectar quando alguém nos tenta enganar e perceber porque é que por detrás de todas as nossas máscaras sociais e da nossa busca incessante por aprovação, somos todos, afinal, apenas crianças, Com medo de escuro. Eu sou Jorge Correia. Bem-vindos ao Pergunta Simples. João Blumel, a pessoa com quem nós arriscamos cruzarmos na rua e adivinhar exatamente o que estamos a pensar.

João Blumel
03:03
Exatamente.

Jorge Correia
03:03
Quem és tu, João Blumel?

João Blumel
03:08
Sou… Viva Jorge, tudo bem? Estás bem disposto? Muito bem disposto, sempre. Muito obrigado pelo convite. Ou é arriscado eu estar aqui?

Jorge Correia
03:13
Não, não é nada. Ou eu não faço nenhuma pergunta e tu adivinhas completamente as perguntas que eu estou a pensar a fazer

João Blumel
03:18
Podias fazer isso, mas para os ouvintes isso é um bocado chato eles não iam ouvir nada Então, olá eu sou João Blumel e sou mentalista, portanto faço espetáculos em que adivinho o que as pessoas estão a pensar É um emprego isso? É um emprego full time há quase 20 anos na verdade

Jorge Correia
03:34
Bom, isso implica conhecer várias coisas da psicologia da programação neurolinguística da maneira como nós funcionamos muito do ilusionismo implica um ato de fé os teus espectadores têm que acreditar que aquilo que tu lhes estás a propor na realidade é um jogo é um espetáculo como é que isso funciona?

João Blumel
03:54
um jogo é uma boa palavra por acaso sabes que eu gosto muito do entretenimento no geral e eu digo sempre que eu antes de ser mentalista considero-me um entertainer acima de tudo e portanto essa é mesmo a palavra fulcral muitas vezes as pessoas vêm falar comigo e dizer, ah eu gostava imenso de saber as tuas técnicas, eu gostava de ser mentalista eu digo, pá, não, tu não querias ser mentalista tu querias era ter noções de psicologia, de análise de comportamento humano de influência, do que quer que seja e aplicá-las se calhar no teu dia-a-dia, no teu trabalho mas o mentalista é diferente, o mentalista é um entertainer pronto, e então no fundo é isso, eu crio espetáculos muito interativos, em que chamo pessoas da plateia pessoas que eu não conheço lá de nenhum chamo-as aleatoriamente ao palco peço-lhes para elas pensarem em nomes, palavras músicas, memórias, o que quer que seja e adivinho aquilo que elas estão a pensar A maior parte das vezes adivinho Às vezes falho E não só adivinho, como muitas vezes também prevejo Aquilo que elas vão pensar Ou aquilo que vão dizer Ou seja, é muito este jogo interessante De conseguir influenciar as pessoas A pensarem em coisas Mas tudo isto dentro do entretenimento Ou seja, eu não vou ali a expor segredos pessoais Ou pino de multibanco Ou o que quer que seja

Jorge Correia
05:02
Tu consegues, no fundo, há uma parte Que é a tua função radar Que é perceber Nós na realidade somos muito previsíveis Não sei se a maioria das pessoas tem essa ideia Somos bastante previsíveis E a segunda coisa é que tu na realidade Vais plantando na cabeça das pessoas Durante o teu espetáculo Coisas, portanto, tu vais dirigindo a cabeça das pessoas Para que elas possam ir por determinados caminhos

João Blumel
05:29
Sim, é muito isso Ou seja, logo no início do espetáculo eu costumo dizer Olha, a minha função aqui vai ser influenciar as vossas escolhas Portanto, não se deixem influenciar E eu gosto muito deste jogo interessante Que é, tu já estás a dizer às pessoas Olha, vai acontecer isto, eu vou tentar influenciar A vossa função é não se deixar nem influenciar Portanto, é aqui um jogo de cintura muito interessante Isso é uma provocação logo à cabeça, não é? É uma provocação, sim, mas uma provocação Cheia de humor e de entretenimento É por graça É por graça, sim Eu não acho que as pessoas saem de lá A sentir, ai que horror, fui manipulado Fui, ah, que devassa

Jorge Correia
06:07
Dizem o contrário, dizem, ai que coisa curiosa Como é que ele sabia que eu estava a pensar Em morangos ou noutra coisa qualquer

João Blumel
06:14
Sim, tal e qual, e o que é muito engraçado É que há sempre alguém que vem ter comigo no final E diz assim, epá, se fosse eu Não funcionava comigo, tenho certeza absoluta Que tu não ias conseguir adivinhar que eu tinha pensado No morango, quer que seja E é muito giro porque há sempre esta Pequena frustração Do meu lado, que é, eu gostava de facto Que toda a gente pudesse vir ao palco E que pudesse experimentar é impossível, não é?

Jorge Correia
06:37
Mas há pessoas que são mais resistentes deixa-me colocar a pergunta de uma maneira mais direta há uns chatos do Catano que quando vem na realidade não vem para te ajudar para se divertir e para divertir os outros, mas estão lá quase contrariados

João Blumel
06:56
ou birrentos a dizer eu agora vou dar cabo disto acho que encontro tudo um pouco e por exemplo eu faço muitos eventos de empresa e é engraçado porque o público no evento de empresa sempre ligeiramente diferente e ligeiramente mais cético do que um público de um teatro. Porque no teatro eles pagaram para me ver, não é? E portanto, eles sabem para o que é que vão, à partida tu não vais pagar para passares o mau bocado. E na empresa tu estás a pôr a malta a fazer figura de parvo

Jorge Correia
07:19
à frente dos outros todos, ou não? Sim, não, de todos. Sou mais cético, o público empresarial é mais cético. Acho que tendem a ser um bocadinho

João Blumel
07:25
mais céticos, mas é muito importante dizer isto, que é, eu nunca ponho ninguém a fazer figuras de parvo, antes pelo contrário, porque é ao público que eu devo o facto de poder fazer disto a minha e a minha paixão, não é? E então eu tenho o maior respeito pelo público Há muito humor envolvido, mas é uma coisa perfeitamente inocua, inofensiva E tu estás a ler perfeitamente até onde é que podes ir com todos os seus interruptores Claro que já houve alturas em que às vezes estou tão entusiasmado, não é? Estou ali in the zone, que às vezes digo piadas que fico, é pá, se cara não devia ter dito isto E atropelei esta pessoa Ou atropelei, ou sei lá, ou se calhar pá, estou-me lembrar de uma piada agora que me ocorreu num espetáculo que até hoje é das minhas piadas favoritas atenção, eu não sou comediante todo mas o meu espetáculo acaba sempre por ter algum humor e é uma coisa muito de improviso com coisas que acontecem na altura e houve uma piada uma vez que foi foi onde? Acho que foi no Brasil estava a fazer lá uma tour de shows e veio um rapaz que era asiático veio ao palco e há lá uma parte no início antes de eu começar o número eu tento traçar um perfil psicológico da pessoa então faço perguntas do género preferes sushi ou italiano? preferes cães ou gatos? preferes Nova Iorque ou as Caraíbas estás a ver? E então nessas perguntas de rotina eu perguntei se o senhor é italiano ele é italiano, não sei o que, e depois eu disse cães ou gatos? ele disse cães e eu perguntei, bem ou mal passado? Pai, saiu-me na altura, estás a ver? Não foi programado e pensei, pá, que piada fixe, é um bocado humor negro e tal e que quebra completamente o padrão, não é? E quebra completamente, pá, e algumas pessoas riram houve outras pessoas claramente ficaram incomodadas e já, ah meu Deus, ele está a ser racista Será que ele vai comer mesmo canhes? Não, mas é aquela coisa de só porque ele é asiático agora fez esta piada e vivemos nesta altura do politicamente correto não se pode fazer piadas com nada

Jorge Correia
09:13
mas pronto, isto para dizer que é mais difícil de gerir porque tu tens um público com culturas diferentes e portanto as culturas também se posicionam aí quer dizer, há piadas que em Portugal podem funcionar lindamente e que são muito sensíveis

João Blumel
09:26
noutras zonas do globo

Jorge Correia
09:27
Sim, sem dúvida

João Blumel
09:28
Mas é assim, no geral o espetáculo é basicamente Family friendly Nunca tenho piadas de cariz sexual Ou político Ou temas assim polarizantes Olha, tu falaste uma coisa

Jorge Correia
09:42
Que é, eu tento Traçar logo desde o início O perfil psicológico daquela pessoa Que está ali à minha frente Como é que tu fazes isso? Leva-me até às tuas roldanas Sem querer estragar O segredo da tua profissão Mas o que é que tu Estás à procura? Como é que tu vais tipificar alguém?

João Blumel
10:04
Eu estou à procura de perceber melhor os gostos generalistas da pessoa. Portanto, eu sei que a partir de uma pessoa… Imagina, categorizando as coisas de uma forma muito simples. Há pessoas que gostam mais quando eu lhes coloco a questão. Então agora vais de férias, vão-te oferecer umas férias de duas semanas para o destino que tu quiseres. Ou melhor, tens dois destinos às coisas. Nova Iorque ou Caraíbas. Eu, por acaso, digo sempre Nova Iorque ou Caraíbas. Porque logo aí percebes qual é que é o estilo da pessoa. Praia ou cidade. Praia ou cidade. Se é aquela pessoa que gosta de quando vai viajar Se gosta de estar só de papo para o ar e não fazer nenhum Ou se gosta de visitar monumentos, se gosta de museus Se gosta mais de música, se gosta mais de cinema Então são perguntas deste género Para eu perceber mais ou menos O estilo de vida da pessoa E os gostos daquela pessoa Porque eu sei que a partir desse Se eu a seguir lhe for pedir para pensar num filme Ela tem mais tendência a pensar num filme Sei lá, mais sério E se for uma pessoa que tem tendência Por acaso eu nem costumo fazer nem costumo fazer números com filmes estou agora a dar um exemplo out of the blue mas ou seja, são questões muito simples que me permitem mais ou menos tipificar o estilo de vida da pessoa e os gostos dela é isto, basicamente é isto perguntas de inofensivas, tipo cães ou gatos às vezes pergunto se tem filhos se não tem, se a pessoa é mais maternal se é uma pessoa mais independente, mais focada, tipo career driven mais focada na carreira que decide não ter filhos e que é super produtiva super organizada Tudo isso me vai dar pistas sobre aquilo que eu vou perguntar a seguir E como é que tu controlas depois

Jorge Correia
11:33
Aquilo que é o risco entre o espetáculo Entre aquilo que é a animação E o tocar por acidente Num tópico que é de uma sensibilidade especial Para essa pessoa Agora estás a falar de ter filhos ou não ter Isso pode ser um tópico muito sensível

João Blumel
11:48
Às vezes pode ser, não é? Tu nunca sabes Imagina, pode ser uma pessoa que está a tentar ter filhos há não sei quanto tempo E não está a conseguir

Jorge Correia
11:53
E isso é uma angustia Estás ali exposta perante um público Que podes conhecer mais ou menos

João Blumel
11:59
Nunca aconteceu muito, acho que aconteceu uma vez Já foi há muitos anos Talvez há uns 15 anos, não sei Aconteceu uma vez ter uma pessoa num espetáculo Em que eu revelei qualquer coisa E ela começou a chorar Ficou mesmo a chorar Mas nem sequer era uma coisa muito pessoal De lá está, foi um trigger qualquer Eu não consigo recordar o certo do que é que foi Eu acho Eu acho que tinha a ver com uma música qualquer Uma música ou alguém que eu consegui descobrir E houve uma emoção que apareceu ali E também é interessante que às vezes Por exemplo, não são músicas, filmes, comidas, cheiros É uma coisa muito ligada às nossas memórias mais afetivas

Jorge Correia
12:35
Olha, a nossa mente move-se por pensamentos e razões e lógica Ou a nossa mente deambula por emoções e é aí onde tu queres tocar?

João Blumel
12:48
Boa questão Eu acho que a nossa mente é um misto de tudo isso que tu acabaste de mencionar Obviamente que eu enquanto entertainer O meu objetivo é criar emoções profundas É fazer com que as pessoas se recordem daquele momento Passado uns anos E que cria ali de facto Um impacto emocional E isso acontece? As pessoas vêm ter contigo depois Anos depois? Acontece-me bastante Eu fico sempre surpreendido Porque volta e meia, cruzo-me com pessoas Que eu já não me recordo, sei lá que me viram no espetáculo Dezenas E elas lembram-se da palavra que calhou Imaginar 10 anos Ah, porque a outra pessoa que foi ao palco pensou na palavra Fantástico e te adivinhar esta palavra E não sei o que Acho extraordinário lisonjeado, é sinal que aquilo tocou e as pessoas de alguma forma e que elas se recordam porque eu tenho mesmo tendência em esquecer-me já fiz, não sei, milhares de espetáculos e portanto é normal que não me lembre de tudo o que aconteceu no passado. Como é que se adivinha um pensamento? Há várias formas, é por fato primeiro que tudo, importante esclarecer, eu não consigo ouvir a voz interna do pensamento das pessoas, não é como aquele filme do Mel Gibson em que ele ouvia as mulheres mal de mim, eu consigo é a reorganizar o pensamento das pessoas e ir se calhar passo a passo para conseguir descobrir pequenas coisas imagina, eu posso ter uma série de objetos na mesa e consigo influenciar a pessoa para escolher um objeto em detenimento de outro ou eu consigo fazer, tenho uma lista de 100 palavras e eu consigo fazer com que uma pessoa escolha uma palavra específica dessa lista

Jorge Correia
14:17
É como se nós tivéssemos um arquivo enorme com muitos caminhos para lá chegar e tu consegues de alguma maneira, com o conjunto de técnicas que dominas Fazer com que nós Percorremos o caminho mais próximo Daquilo que tu estás a procurar Até que se chega a um sítio que é obviamente aquele

João Blumel
14:34
Exatamente, sim Mas às vezes sai errado É raro, mas às vezes as coisas não correm assim tão bem E então é engraçado Porque o jogo de cintura de mentalista É mesmo este, imagina Um exemplo super simples Temos três objetos na mesa E o que é que tu pensas no objeto que está no meio Seria o mais óbvio O mais óbvio eu escolhi o do meio? Imagina, sim e não, lá está, depois depende da pessoa que eu tenho à minha frente porque se calhar a maior parte das pessoas diz assim ah, ele está à espera que eu vá para o do meio porque é óbvio que está no meio, então eu vou para o da ponta só que eu já estou à espera disso, então há este jogo de bluff e contra bluff que é muito interessante mas às vezes o que acontece, imagina que tu tinha 3 ou 4 objetos e tu não escolheste a que eu estava à espera, escolheste outro eu tenho formas de fazer mudar de objeto então é muito giro este jogo de certeza que queres mudar certeza que não queres mudar vou-te dar 5 segundos, nestes 5 segundos se tu quiseres podes mudar, a opção é tua então há certas intuações e formas de dizer este tipo de de colocar este tipo de questões que fazem com que a pessoa mude ou não então às vezes eu preciso mesmo que ela mude, outras vezes eu não quero que ela mude estás a ver? Então é giro perceber como é que isto afeta a pessoa que está do outro lado e até quando é que eles vão ou não mudar tenho vários exemplos estes, uma vez em direto por acaso também fui no Brasil estava num programa, isto foi em 2014 é a primeira vez que eu fui fazer um programa de televisão no Brasil. Estava a fazer isto com um rapper muito famoso lá, que era o MC Guimê, e estava a fazer um número em que eu devia a palavra que ele escolhe numa série de livros. E ele quis mudar. Que é uma coisa muito rara, e é giro. Eu adorei que ele tivesse mudado, porque eu queria que ele mudasse, na verdade. E é giro, porque é muito raro isto acontecer, tanto na em palco como na televisão. É muito raro as pessoas mudarem, e as pessoas lá em casa dizem sempre, ah, ele já sabia que ele não ia mudar. Então aqui foi o contrário, ele mudou. Está a dizer, mesmo assim funcionou, eu ushei a palavra, então é giro. Então, mas isso roça à manipulação? É totalmente manipulação, só que é manipulação para o bem, não é? Portanto, é uma questão… Eu sempre fui uma pessoa extremamente ética e, portanto, eu não… Apesar de eu usar técnicas de manipulação, eu uso isto para, entre aspas, para o bem, não é? Eu uso isto para o entretenimento. Fala-me disso. O que é a gestão ética desses teus superpoderes? Primeiro, eu não considero que sejam superpoderes Apesar de eu ter já uma certa tendência Desde miúdo para ler as pessoas Os meus coleguinhas de escola, etc A verdade é que tive que estudar muita coisa Para poder Fazer aquilo que faço hoje Mas, sem dúvida que Sobretudo na altura em que eu comecei a estudar Programação Neurolinguística, com 15 anos O que é, agora o que é Programação Neurolinguística? Para quem não… É da Programação Neurolinguística É uma área que nasce nos anos 70 nos Estados Unidos Que parte de um sociólogo e de um especialista em informática que basicamente colocaram a seguinte questão que é, será que é possível programar pessoas da mesma forma que se programam computadores? Ou seja… Essa pergunta é assustadora. É assustadora, não é? Mas é super interessante. Ou seja, a questão deles é, será que nós conseguimos através da linguagem, verbal e não verbal influenciar as pessoas de forma positiva? Então na altura eles começaram a estudar três grandes terapeutas de três escolas diferentes, um era da hipnoterapia outro era da terapia familiar, enfim e começaram a observá-los na sua prática clínica e começaram a perceber-se do tipo de técnicas que eles utilizam para criar mudança positiva nos pacientes. E portanto a pergunta é possível programar cérebros através da linguagem? A resposta é sim. Sim, sem dúvida. Então o que eles fizeram basicamente foi começar a estudar pessoas de grande sucesso nas mais diversas áreas. Portanto começaram na área da terapia, mas depois começaram a estudar estudaram o Walt Disney, por exemplo. Estudaram grandes políticos, grandes treinadores e começaram a perceber-se que existem de facto uma série de padrões de linguagem que pessoas de grande sucesso utilizam nas mais diversas áreas. E começaram-se a perceber que estes padrões têm algo de comum. São padrões, não é? Ou seja, na verdade, a linguagem é uma coisa extremamente transversal a qualquer área e é o grande veículo que nos permite influenciar o outro. Obviamente que tu podes usar isto para o bem ou para o mal. A meu ver, desde o início eu sempre vi de uma forma mais positiva possível sempre tentei utilizar aquilo em duas grandes vertentes, três na verdade portanto, primeiro a minha primeira ideia quando eu vi aquilo foi uau, eu posso começar a misturar princípios de magia e criar aqui uma espécie de mentalismo que não é tão baseada em truques de magia, mas é mais baseada em truques de entradas de psicologia, pronto a segunda foi uau, isto vai-me ajudar também a comunicar melhor vai-me ajudar no meu dia-a-dia, a combater por exemplo a minha ai timidez, desculpa era muito tímido ninguém compra isso eu era extremamente tímido tinha sofrido ansiedade social era extremamente tímido sobretudo com sexo oposto eu tinha muita dificuldade em falar com miúdas na altura ficava extremamente tinha uma série de complexos não é fácil meu caro não é fácil

Jorge Correia
19:43
fazemos apenas uma breve pausa nesta conversa com João Blumel para um pedido muito rápido e honesto. Sabemos que muitas das pessoas que nos ouvem e que todas as semanas chegam até nós gostam das conversas, mas acabam por se esquecer de um pequeno detalhe. Clicar no botão de seguir ou subscrever na aplicação de podcast, onde está a ouvir neste momento. Este gesto, que demora literalmente um segundo, é a ferramenta mais poderosa que temos para dizer ao algoritmo, às plataformas, que este projeto tem valor. É isso que garante o futuro do Pergunta Simples, que nos permite trazer convidados extraordinários e que nos ajuda a levar estas conversas a cada vez mais pessoas. Por isso, se gosta de nos ouvir, verifique no seu telemóvel se já nos segue na plataforma onde está agora. É curioso como é que alguém que ganha a vida hoje ocupando um palco e expondo-se a plateias gigantes me diga, eu era tímido e precisei aqui de uns instrumentos para sobreviver.

João Blumel
20:45
Mesmo, e a programação neurolinguística ajudou-me imenso Imenso mesmo, tipo alterou completamente a minha forma de comunicar Primeiro comunicar comigo próprio e depois comunicar com o mundo Porque também é muito isso, a PNL Isto parece que eu estou aqui a vender cursos de PNL Não estou de todo Também há cursos de PNL? Há milhares, aliás na altura Eu tive conhecimento disto quando tinha 15 anos, portanto no ano 2000 Nessa altura não existia um curso em Portugal A minha sorte é que a internet já era uma coisa Estava a começar, ano 2000 eram os princípios da internet internet acho que veio para aí em 95, 96 pronto e então felizmente já existia alguma informação na internet e eu consegui tirar assim uns PDFs, uns livros, etc americanos e comecei a estudar aquilo pronto, mas já me estou a dispersar isto tudo para dizer que em relação à questão ética para mim sempre foi importante ou seja, eu tenho noção que é possível com este tipo de técnicas tu se creres ao supermercado e convencer o caixa que já pagaste e levas as compras de bordo ou é possível, sei lá, ludibriares alguém para Sei lá

Jorge Correia
21:45
Estou a falar de supermercado Tenho sempre a sensação de quando nós vamos às compras no supermercado Somos sempre roubados Não é roubados, é enganados Traz sempre o chocolate que não queria O pacote das bolachas Que não queria Outra coisa bem interessante

João Blumel
22:02
Que é o posicionamento Há um autor que eu adoro Que é o Dan Ariely Que é um autor que estuda a psicologia Do consumo, basicamente e a forma como nós tomamos decisões irracionais sem nos apercebermos muito relacionado com o marketing, portanto mistura a psicologia e o marketing e ele fala muito sobre isso também há imensas experiências que foram feitas que têm a ver com o posicionamento dos produtos nos supermercados e claramente é que ele está feito de forma a tu consumires o máximo possível e expor mais caro, ainda terimento mais barato

Jorge Correia
22:29
se me puserem na prateleira de cima as coisas mais caras ou se eu passar primeiro pelos chocolates do que pelas batatas

João Blumel
22:36
pronto, ou os brinquedos que estão sempre nas prateleiras mais baixas para estarem ao nível dos miúdos Para eles poderem fazer umas birras Pronto, exato, é giro, é super interessante A maneira como há toda uma psicologia envolvida nisso Mas pronto, isto tudo para dizer que Eu sempre fui muito ético E a única coisa que eu quero fazer é mesmo Entretenimento, ao mesmo tempo Eu, com o passar dos anos Ou seja Eu estava, portanto De 15, 16 anos, estava no 11º ano Chegou a altura de escolher um curso Eu não me passava nem Não me passava nem nem pela cabeça Que isto pudesse vir a ser a minha profissão E foste por onde? Fui para a fisioterapia Fui para a fisioterapia Porque no fundo era uma junção, mais ou menos Uma junção de duas áreas que eu adorava Porque eu sempre adorei desporto e sempre adorei Psicologia E então de certa forma eu sabia que não podia ser Nem desportista profissional Também não queria dar aula de educação física, não é uma coisa que me interessasse E na altura Psicologia tinha pouca saída Porque havia muitos psicólogos e havia pouca gente Não era como hoje em dia que toda a gente diz abertamente Que faz terapia e obviamente é uma coisa super saudável Na altura havia um certo tabu em relação a isso E então eu fui para a fisioterapia, porque é uma maneira de lidar com o paciente. Existe fisioterapia no desporto também. Pronto, isto tudo para dizer que a programação neurolinguística foi o meu tema de tese, de final de curso. Portanto, eu estive a fazer, estive a dissertar precisamente sobre o potencial deste tipo de técnicas aplicados à prática clínica e pude até testar isso com alguns pacientes meus. É interessante, é muito interessante.

Jorge Correia
24:00
O que é que nós podemos aprender? Nós, os comuns mortais que não nos dedicamos a adivinhar o pensamento das outras pessoas, O que é que a programação neurolinguística Nos pode ensinar? O que é que nós podemos aprender?

João Blumel
24:10
Não é isto, ensina-te no fundo a comunicares melhor contigo próprio E a comunicar melhor com o próximo Comunicar de forma mais efetiva Mais influente Digamos assim Mas nós comunicar connosco próprios

Jorge Correia
24:22
Podemos falar sempre sozinhos Que é sempre um hábito saudável Lá vai aquela pessoa a falar na rua sozinha Sempre foi um hábito curioso Como é que tu comunicas contigo próprio?

João Blumel
24:31
Tem a ver, ou seja, não é comunicar do género Estou a falar comigo próprio, não é isto Também pode ser isso, às vezes nós estamos muito Muito duros Com nós próprios, às vezes reprimimos-nos bastante Ah pá, fui mesmo burro a fazer aquilo Ah pá, que estupidez, onde é que eu estava com a cabeça Portanto, não só isso Saber comunicar de uma forma mais gentil Mas acima de tudo, saber Há um conceito que eu adoro Na programação neurolinguística, que é o conceito de reframing De reenquadramento Então saber reenquadrar As coisas que nos acontecem Por exemplo sei lá, parti um pé faz-te conta, ok? e tu tens várias formas de olhar para teres partido um pé podes pensar, epá, acabou-se a minha vida porque eu sou futebolista e agora parti um pé não vou poder jogar, não vou poder fazer isto olha, vou-te dar um exemplo em concreto em vez de estar aqui a inventar, pandemia pandemia foi terrível para muita gente para a maior parte das pessoas foi terrível para mim em termos artísticos, porque de repente fiquei sem espetáculos nenhum, zero tive uma quebra de 95% no primeiro ano e 90% no segundo ano portanto 2020-2021 Angústia mental disso? Foi uma grande angústia mas ao mesmo tempo foi graças também à pandemia que eu pude estar mais tempo em casa a desenvolver toda a parte tecnológica por exemplo eu não sabia que conseguia fazer um espetáculo inteiro por zoom e de repente criei um espetáculo de uma hora por zoom perdão, acabei por me reinventar de certa forma acabei por fazer mais investigação em relação ao meu espetáculo que na altura estava Em fase embrionária E que hoje em dia é o que me está permitindo viajar por todo o mundo A fazer espetáculos com tecnologia Porque há pessoas que se descobriram ou tu consegues fazer cá para lá? Não, não Porque investi Ou seja, porque comecei a investigar Toda a parte Porque o meu espetáculo Eu criei o primeiro espetáculo do mundo que misture a mentalismo Com alta tecnologia Como é que isso funciona? Com realidade virtual, realidade mista, já lá vamos Mas pronto, só para dizer que O reenquadramento disto é Ok, houve esta catástrofe Eu fiquei sem trabalho durante imenso tempo Mas eu posso olhar para isto de uma forma mais positiva Que é Graças a isso eu percebi que consigo fazer uma coisa online Que pode chegar a qualquer parte do mundo Percebi que Tive mais tempo para mim próprio para desenvolver Gadgets e coisinhas E para pensar na estrutura do meu espetáculo Espetáculo esse que veio Permitir-me viajar mais Fazer grandes eventos Fechou-se uma porta e abriu-se uma janela Eu sempre fui muito positivo Mas a verdade é que a PNL ajudou-me a analisar os eventos De uma forma mais positiva ainda Ou seja, consegui ver sempre o lado bom O lado positivo das coisas

Jorge Correia
27:06
Portanto, reorganizar o nosso pensamento Reorientar o nosso pensamento Para em vez de estarmos a encucar e a ser aquilo Quando nós estamos pessimistas Estar sempre a cismar naquilo Conseguir refletir aquilo

João Blumel
27:18
Vendo de um outro ponto de vista Mas isto é uma cotinha no oceano Isto é um de muitos conceitos E de muitas coisas que se podem aprender com isso. Olha, como é que nós

Jorge Correia
27:28
aprendemos, ensina-me, conta-me como é que nós aprendemos a ler as microexpressões porque nós os seres humanos mesmo não sabendo teoria sobre as coisas então as mães em relação aos filhos pequenos é… Incrível, não é? É automático. Exatamente. Tu fizeste as neira, logo, automático porque há um trejeito, porque há uma sobrancelha, porque há um labiar e aquilo é automático

João Blumel
27:59
É uma questão de observação de aprender a observar saber por onde olhar e depois de leitura e de informação ou seja, existe um autor já agora, digo às pessoas lá em casa digo a ti também, que é o Paul Ekman portanto Paul de Paulo, não é? Ekman, E-K-A-P-A-M-A-N que é o maior especialista do estudo das microexpressões a nível mundial foi nele que foi baseada aquela famosa série do Lie to Me, com o Tim Roth no papel principal e ele desenvolveu um sistema super interessante que te ensina a codificar as expressões e a analisar e a perceber o que é que cada expressão quer dizer quando fazes isto com o olho ou quando fazes isto com o pouco ou quando fazes mas regra geral, se eu tivesse que dizer ok, uma regra para vocês perceberem, sei que há gato ou se não há eu diria que a regra talvez, aquela que acaba de usar mais até em palco isso e nas palestras que dou, é a simetria. Que é sempre que há a simetria facial é porque qualquer coisa não está bem. Ou seja, normalmente quando as pessoas mentem as pessoas, sem se aperceberem fazem microexpressões. Há um dessincronismo. Sim, é muito interessante. Ou seja, um sorriso no hino é um sorriso simétrico normalmente. Há uma certa simetria. E com os olhos normalmente.

Jorge Correia
29:18
O sorriso só com… Aquelas rugas nos olhos. Estão aqui os pés de galinha Enquanto que um sorriso cínico é um sorriso só E é só dos dentes e dos lábios Porque o olhar depois não mente, não é? Sim, exatamente E tu estás a olhar para lá, lá está Quando tu tentas que as pessoas escolham um outro objeto Que está na mesa Suspeito que tu estás muito atento a essas microexpressões

João Blumel
29:42
Ou assim, tipo, onde as pessoas olham

Jorge Correia
29:43
Bastante, sim, sim, bastante

João Blumel
29:44
Bastante, é muito giro É muito giro porque depois, assim não é Depois há esta coisa aqui, as pessoas Mas à medida que o espetáculo vai avançando As pessoas já sabem mais ou menos Estão a perceber a mecânica do espetáculo Então partem do princípio que sabem que eu estou a olhar Para a direção dos olhos Ou para a direção das mãos Então é giro, depois elas fazem um esforço Elas tentam fazer bluff Então às vezes elas Fingem microexpressões Que é uma coisa impossível de se fingir Porquê? Porque uma microexpressão demora microsegundos Estás a ver? As pessoas quando estão a fingir Imagina, voltando ao exemplo dos objetos vários objetos e tu queres que eu pense tu estás a pensar no meio, então tu olhas assim para o meio, estás a ver e olhas assim deliberadamente e eu consigo perceber a diferença percebes? consigo perceber a diferença quase sempre, às vezes há pessoas que de facto pá, conseguem de alguma forma ou eu não os interpreto bem

Jorge Correia
30:39
vou mostrar aqui a este mentalista que eu estou a olhar para aqui para o copo amarelo e não para o vermelho que está aqui no meu lado

João Blumel
30:48
mas depois também acontece muito isso Se eu vejo que estás a olhar muito para a Copa Amarela, eu sei que à partida estás a pensar no vermelho porque, percebes?

Jorge Correia
30:54
Mas isso é um jogo, não é?

João Blumel
30:56
É.

Jorge Correia
30:57
Onde é que entra a sugestão? A sugestão… Lá está.

João Blumel
31:03
Pegando o exemplo do… Três canecas no meio da mesa. A sugestão pode ir de uma forma… Vamos imaginar, temos três canecas. Uma azul, uma amarela e uma vermelha. Ok? Pronto. Se eu disser, por exemplo, olha, antes de fazermos este truque, eu quero só comentar contigo que está um sol incrível lá fora isto é um bocado estúpido mas o sol é uma sugestão para tu pensares na caneca amarela de certa forma ou se eu te disser o que é que tu preferes preferes dar passeios na montanha ou preferes dar um mergulho no mar e o mar se calhar sugere mais a cor azul estás a ver? a sugestão tem a ver com a forma como tu comunicas até chegar ao momento da escolha digamos assim

Jorge Correia
31:48
Portanto, se eu bem entendo, tu crias um teatro mental na cabeça daquelas pessoas, é uma narrativa no fundo, está muito em voga a narrativa nem sempre pelas boas razões, se calhar até muitas vezes pelas más razões, tu crias uma narrativa, crias uma história em que permites que aquela pessoa no fundo siga os trilhos a caminho do sol que tu imaginaste que ela vai escolher. e dá para verificar se a pessoa está nesse caminho ou não?

João Blumel
32:20
dá para verificar, agora fizeste uma outra coisa, eu agora estou a desenvolver uma experiência muito gira, que é com um BCI, que é uma Brain Computer Interface que são aqueles elétricos que te metes aqui na cabeça e que te permitem controlar pequenas coisas compodidamente entras para as compodidamente, ou seja aquilo basicamente, aquilo lê o teu córtex visual e se tu te focares numa determinada imagem, aquela imagem portanto tens uma imagem num ecrã e se tu concentrares uma determinada imagem, tu consegues fazer com que aquela imagem brilhe ou com que se movimente imagina, podes ter uma personagemzinha de um jogo tipo um Super Mario, assaltado de plataforma em plataforma e tu consegues com o poder da tua mente fazer com que ele salte só com o pensamento? só com o pensamento, sim é giro, é giro mas isto não é assim nada extraordinário é uma coisa que já existe há muitos anos pronto, e eu estou a tentar aplicar isso ao meu espetáculo e fazer umas experiências engraçadas com isso e portanto, isso de certa forma é uma representação visual daquilo que a pessoa está a pensar de certa forma, não é? Eu estou a pensar, imagina eu tenho três imagens no meu ecrã de computador, tem um triângulo, um círculo e um quadrado, eu estou a focar no quadrado e o quadrado começa a brilhar portanto é sinal que eu estou a pensar no quadrado mas de resto não tendo esse Brain Computer Interface de certa forma eu sou uma espécie de Brain Computer Interface humano, ou seja, eu já estou a ver com a pessoa Sim, de certa forma, porque eu já estou tão habituado, já estou há tantos anos a fazer isto que já percebo mais ou menos por exemplo, vou-te dar um exemplo há um número que eu faço muitas vezes em que tenho quatro pessoas no palco cada uma faz um desenho, os desenhos são misturados eu tento adivinhar quem é que desenhou o quê e há ali momentos enquanto eu estou ainda de costas, as pessoas estão a desenhar não faço a mínima ideia do que é que elas estão a desenhar e de repente eu começo a ouvir risos e eu já sei que se as pessoas estão a rir das vezes uma, ou é porque eles decidiram sei lá, mostrar o desenho às pessoas que eu digo-lhe, não mostrem o desenho às pessoas e às vezes acontece, eles mostram o desenho às pessoas as pessoas começam a rir, ok, pronto, ele mostrou o desenho ou então não foi por causa disso, foi porque eles decidiram trocar posição entre eles às vezes acontece, fazer uma batota fazer uma batota qualquer, estás a ver? e há uma coisa que é, não é preciso seres mentalista para perceber que se passa ali qualquer coisa porque é que eles estão a rir? no outro dia aconteceu uma coisa que foi por acaso isto só me aconteceu duas vezes na vida a primeira foi com um grupo de miúdos e a segunda foi no ano passado, num evento de Natal numa empresa super séria de seguros foi hilariante nessas quatro pessoas que vêm ao palco cada uma faz um desenho e são misturados, os primeiros três desenhos eu consigo adivinhar, foi o João foi a Ana, foi a Maria o último desenho, por exceção por exclusão de partes sabes obviamente que foi, sei lá, o Pedro que está no palco, ok? Pronto e o meu desafio é conseguir reproduzir o desenho que o Pedro fez sei, nunca ter visto o desenho, teve sempre o tempo todo nas mãos dele portanto eu não tenho como então eu coloco algumas questões às pessoas, aquelas coisas do Caribas, Nova Iorque, quer que seja e vou reproduzindo o desenho e eu estou, e calhou uma mulher no final e ela estava assim um bocado nervosa ela estava a se rir, eu assim há qualquer coisa errada no desenho dela o que é que será que ela desenhou? e depois o público começa a se rir também e o público não sabia o que estava a fazer o público não sabia, mas conhecia, sabia que ela era assim mais brincalhona e não sei o quê e foi um daqueles momentos chatos, porque chato mas hilariante Que é, eu percebi claramente Que ela tinha desenhado uma figura fálica Desenhou tipo um pênis, estás a ver? Mas tipo mesmo à puto da escola primária Com as duas bolinhas e…

Jorge Correia
35:47
Agora que eu quero ver se o mentalista

João Blumel
35:49
Sim, espera lá Depois eu começo a entrar aqui em conflito interno Que é de género, eu estou num evento de uma seguradora Em que as pessoas normalmente são super sérias E não sei o quê, tudo bem que eles são super descontraídos Por acaso foi incrível, adorei esse evento Já agora se me estão a ouvir, vocês sabem quem são Foi incrível, adorei esse evento, foi incrível Ótima energia Trou-me aquela dúvida de como é que esta pessoa Que está a ser posta Tipo está aqui no spotlight À frente dos, acho que era tipo 400 pessoas No evento, ela teve coragem de fazer isto É incrível, será que ela fez mesmo isso? Ou será que sou eu que estou a interpretar mal? E tinha feito mesmo E tu depois reproduces o desenho? Eu reproduzo o desenho, sim Eu estou de cheio de vergonha Porque em contexto de empresa Eu sou muito mais correto Estou ali de fatinho Então teve imensa piada Olha, o nosso corpo fala O nosso corpo fala constantemente Constantemente, claro 93% da nossa linguagem é corporal E só 7% é que é verbal

Jorge Correia
36:46
Como nos movemos, como estamos Cada lá está quando tu chamas pessoas a palco Elas têm esse ou desconforto Ou conforto Porque o ato de estar no palco para um tímido Este tímido, vá

João Blumel
36:59
É um ato de exposição Sem dúvida, claro E por isso mesmo é que eu tenho tanto respeito Pelas pessoas que vêm ao palco e também é outra coisa que eu nunca forço ninguém a vir ao palco nunca, aliás erro número um de muitos performers é forçarem as pessoas a vir ao palco com uma estupidez, não façam isso porque a pessoa vai ficar super desconfortável e constrangida, não é? muito constrangida, não vai gostar da experiência provavelmente vocês nem sequer vão conseguir lidar bem com isso também só deve vir ao palco quem está confortável para o fazer

Jorge Correia
37:29
isto liga-me com uma outra questão que se me ocorre que é Esta ideia da fantasia e do ilusionismo Incorpora uma mentira cénica Mas na realidade Há ou não há uma verdade implícita e explícita no espetáculo Que fazem com que as pessoas percebam exatamente o que é que tu estás a fazer E porquê e paraquê Ou não Uma verdade em que sentido? Isto é, se tu tentares fingir o espetáculo Elas vão notar rapidamente Sim, ou seja

João Blumel
38:03
Olha, sim e não Porque Por muito impressionante que aquilo seja Por muitas coisas que eu acerto que são totalmente impossíveis Há sempre, sempre, sempre alguém Que acha que está tudo combinado Que as pessoas eram atores pagos Que eram meus amigos É inagritável, não vale a pena Nunca vou conseguir É uma daquelas coisas que já tive que fazer passos com isso As pessoas vão sempre achar Há sempre uma porcentagem das pessoas que acha que foi tudo combinado Que nada daquilo é real Como é que tu lidas com isso? No início junteava-me um bocado Hoje em dia Não vou estudiar com uma coisa que eu não consigo controlar É um padrão Acontece sempre para alguém que tem essa ideia E há uma coisa que me acontece Acontece sobretudo em Portugal Que é uma coisa que me chateia um bocadinho Mas eu levo isso sempre com humor E é sempre um homem É sempre um homem, nunca aconteceu Acho que não sei para uma vez uma mulher dizer isto Mas normalmente é sempre um homem Que chega no final e diz assim Olha, gostei do espetáculo, percebi tudo Sei como é que fizeste tudo O único que eu não percebi foi o do livro Ou o que é que seja Então não aproveitou nada do espetáculo E eu fico a olhar e penso Normalmente eu faço uma piada Eu digo assim, pá, ainda bem Vais fazer assim o próximo espetáculo És tu que vais fazer o espetáculo Eu fico ali sentado e eu só entro no palco Quando for o momento para fazer isso que tu não sabes fazer Mas o resto fazes tu já que sabes fazer tudo Mas é de uma desfaçatez Mas as pessoas não dizem isto por mal Eu sei que elas não estão a ser mal intencionadas Mas é um pouco rude Porque imagina, isto é a minha profissão há quase 20 anos Mesmo que tu tenhas percebido Quer dizer, é um bocadinho como a história do Pai Natal Quer dizer Tu não chegas ao pé do Rui Veloso e dizes Olha Rui, eu sei como é que tocaste o Chico Firinho Eu sei como é que tocaste isso tudo A única que eu não sei tocar é aquela que fizeste E é uma coisa, isto é uma questão muito interessante Que nós mentalistas e mágicos Falamos muito uns com os outros Debatemos muito esta questão Que é o estatuto da magia e do mentalismo Dentro das artes cénicas e performativas Face às outras artes tu vais ao cinema e tu sabes que a pessoa não morreu mesmo sabes que aquilo não é sangue sabes que aquela explosão não aconteceu mesmo que é CGI, o que quer que seja mas tu não dizes, ah, aquela pessoa está afim e que está morta ah, aquilo não é uma explosão de verdade ah, aquilo não é um dinossauro a sério tu tens que acreditar para aquilo funcionar pelo menos ter esse… é isso, existe um termo que é o suspension of disbelief que é esta coisa de durante aquele instante entrega-te só, desfruta é um ato de fé no fundo É um acto de fé, sim. E eu gostava que as pessoas fossem mais assim. Mas pronto, há de facto pessoas que sentem que aquilo é quase uma afronta pessoal e que estão ali numa competição. O meu objetivo é mesmo só criar bons momentos de entretenimento.

Jorge Correia
40:40
Olha, então como é que alguém que tem essa ideia de criar bons momentos de entretenimento e que quer pessoas que pelo menos tragam um bocadinho da sua fé e fantasia e não esse ceticismo tóxico, posso dizer, sobrevive no mundo atual das redes sociais

João Blumel
41:03
uma boa transição essa porque de facto acho que as redes sociais são o maior palco e o maior faz de conta que existe na sociedade sabes que ontem, nem de propósito ontem estava a ler um artigo que saiu agora na Marketir a dizer que a nova geração Gen Z e os millennials também onde eu me incluo estão de certa forma a operar aqui uma nova revolução em que estão a desligar mais as redes sociais Porque tem havido supostamente muitos desafios no TikTok O pessoal diz assim, vamos fazer um detox Vamos não tocar nas redes sociais E portanto isso é uma boa notícia Eu acho isso uma ótima notícia Eu acho que, olha como em tudo A questão do reenquadramento Em tudo há um lado bom e um lado mau Acho que o lado bom das redes sociais É de facto, de repente já não tens que Ter uma cunha Ou ter a sorte de poderes Entrar num programa de televisão De repente tu podes criar O teu próprio programa de televisão Pegas numa câmara, num telemóvel, toda a gente tem uma câmara. E com audiências neste momento já a bater os próprios programas de televisão. Completamente, completamente. Por outro lado, acho que promove muito mais alienação e acima de tudo esta ansiedade social terrível. Eu sinto que isto provoca uma ansiedade. Eu imagino, quer dizer, imagina-se até a mim me programa certa ansiedade. E eu estou com 40 anos, vou fazer agora 41. Imagina os miúdos que têm tipo 10, 15 anos Que de repente vêm Outros putos de idade dele A mostrar, ah porque eu tenho um Lamborghini E tenho não sei o quê Faz lembrar os rappers dos anos 90 Tipo, bitches, tenho uma grande casa E uma grande Lamborghini E umas correntes de ouro Isto cria uma ansiedade imensa Entre os jovens E esta comparação constante

Jorge Correia
42:44
E esta nova profissão que é Eu quero ser influenciadora Mesmo, youtuber e influencer Na realidade Blumel barra influencer, tu é que verdadeiramente tu podes ter esse

João Blumel
43:01
acho lindo dizer isso porque o meu espetáculo que eu estei em 2020 chamava-se The True Influencer o verdadeiro, que é o verdadeiro influencer é mesmo o jogo que é do género numera de influencers e de redes sociais eu é que sou o verdadeiro influenciador porque eu influencia as vossas decisões, pronto, e isso é dito com muito humor, não é? e é um espetáculo também com tecnologia com redes sociais a minha relação com as redes sociais é uma relação de amor-ódio e que neste momento eu estou a tentar fazer passos com isso e tentar porque uma coisa é certa, é inevitável eu acho que as redes sociais não vão desaparecer pelo menos nos próximos 20 e 30 anos. Tomaram conta do contexto? Totalmente, é como o VHS já foi, não é? Pronto. Se bem que agora está a haver um revival, isto também vinha no artigo de ontem está a haver um revival do analógico não sei se já reparaste, mas agora os miúdos querem todos ter câmaras daquelas point and shoot dos anos 90 e câmaras com rolo ou As câmaras com rolo Ou seja, nos últimos anos já tem havido um revival Das câmaras com rolo E o vinil? E o vinil também, exatamente Mas agora também O pessoal está a comprar aquelas câmaras As primeiras câmaras digitais, aquelas point and shoot Tipo a Canonix, os NZG Estão agora a usar essas câmaras Que são dos early 2000s Estão agora a usar essas câmaras também Ou seja, está a haver aqui um revivalismo De tecnologia mais antiga Mas a verdade é, as redes sociais vieram para ficar E mudaram completamente a forma como as pessoas lidam umas com as outras como as marcas lidam com o público como o entretenimento é feito Aconteceu-me, por exemplo, no ano passado eu fui fazer uma tour de shows no Brasil e tive alguns teatros e alguns canais de televisão que não me quiseram receber porque eu não tenho seguidores suficientes ou seja, isto deu a volta ou seja, neste momento são os canais de televisão que querem ter pessoas com muitos seguidores para poderem ter alguma audiência Para criarem uma projeção da própria marca?

Jorge Correia
44:54
tu vens não só pelo teu talento pelo aquilo que consegues fazer, pelo aquilo que consegues divertir mas se tu tivesse uma alavancagem digital então eu vou convidar-te

João Blumel
45:02
eu há dois anos estive a atuar em Las Vegas numa convenção gigante que é a CES que é a maior convenção de tecnologia do mundo e eu não escondo tenho o grande sonho de um dia ter o meu próprio espetáculo em Las Vegas, seria incrível tipo um mega sonho a meca do entretenimento de repente tens a oportunidade de ter um espetáculo de grande produção e que estás a fazer 5, 6, 10 vezes por semana meu, tens a oportunidade de afinar um espetáculo à perfeição, não é? de criar ali mesmo…

Jorge Correia
45:30
E tu já foste a Las Vegas ver aquele espetáculo?

João Blumel
45:32
Já há umas vezes, sim, sim e pronto, estive lá a atuar em 2024, neste evento e reuni com alguns produtores de espetáculos e disseram assim, olha, o teu espetáculo é espetacular nós achamos mesmo que tem imenso potencial para Las Vegas, porque é uma coisa muito tecnológica muito… porque eu uso tecnologias imersivas é mesmo cutting edge

Jorge Correia
45:47
O que tecnologias são essas?

João Blumel
45:49
Rádio virtual, rádio mista Que é uma mistura entre rádio aumentada e rádio virtual Que é o mais próximo de hologramas que existe Pronto, basicamente eu consigo criar hologramas No meio do palco e as pessoas conseguem interagir com os hologramas Como se fossem reais

Jorge Correia
46:02
Portanto, é um espetáculo visual e tecnologicamente rico Exatamente, sim

João Blumel
46:07
E então, porquê que… Mas tu tens muito poucos seguidores E isto é um problema Nós hoje em dia só queremos contratar pessoas com muitos seguidores E eu ok Isso é uma subversão, não é? É uma total subversão? Ah pá, aí não é, sei lá. Por um lado sim, por outro lado é de género. Vou-me adaptar, eu não posso estar agora a chorar porque o DVD perdeu o terreno para o streaming, não é? Quer dizer, é o quê?

Jorge Correia
46:30
Eu estou-te a ouvir-me, aqui é atrasado um episódio que eu publiquei e que teve audiências grandes, mas nada superou eu ter colocado um clipe no Instagram e ter conseguido 250 mil pessoas a ver aquilo. Sem dúvida. E eu que digo, ok, é pelo magnetismo da pessoa, seguramente que é, mas o que é que está a acontecer? Isto é, os ciclos de atenção… O que está a acontecer é que as pessoas consomem

João Blumel
46:56
muito mais redes sociais do que os meios tradicionais, do que a rádio e a televisão. E ficam lá dentro. E passam horas e horas a ver reels. É inacreditável. Se mostrasse, por acaso os estados móveis, todos os estados móveis têm hoje em dia esta coisa do well-being, em que eles dizem quantas horas é que tu estás a ter por dia ou por semana de uma determinada app. Eu por acaso não fui consultar, mas eu aposto contigo que eu não estou mais do que uma hora por semana no Instagram como é que fazes isso? eu quase não uso o Instagram

Jorge Correia
47:24
como é que tu me policieste?

João Blumel
47:26
não, eu não policio, eu não tenho vontade e às vezes acontece, eu me encontro com amigos meus pessoas que eu conheço, sei lá, que já não vejo algum tempo e eles ficam assim um bocado incomodados porque claramente eu não estou a acompanhar a vida deles eles acompanham a mim ah, vi que tu veste agora não sei onde como é que sabes? mas tu és uma figura pública não acho que seja uma figura pública Sim, são um entertainer mais ou menos conhecido Na minha área E portanto eles acompanham-se provavelmente mais do que Mas é que eu não tenho mesmo O drive de estar, portanto Amigos Ficar aqui, eu sei que vocês não vão ouvir isto Mas se eu ouvirei isto, não é por mal É só porque eu não tenho mesmo paciência A força de dinheiro não me interessa Não, não, não é a vida deles em particular Sabes o que está a acontecer comigo neste momento? Eu não invito a falar sobre isso, mas fala Que soliste, ninguém vai ouvir O que me está a chatear é que eu dou por mim a ter cada vez menos vontade de postar coisas online, eu agora faço para aí um post por mês não é nada, eu devia postar todo só? Só, às vezes menos até mas isso não te ajuda a promover o teu trabalho? eu sei que não, só que a questão é são questões complexas, que é o que eu penso mesmo é who fucking cares? porque a verdade é esta, quem é rei quer saber disto? ninguém quer saber disto isto é que eu acho que é o paradoxo das redes sociais que é por um lado é super importante Tu postares e das a conhecer Mas por outro lado, ninguém quer saber É que ninguém quer saber Ninguém quer saber, se eu estive na semana passada A competir, por acaso fiz a minha primeira competição Há duas semanas em França Nunca tinha competido na vida Eu até agora só fiz um post sobre isso E eu tenho centenas de fotos que tirei Mas não estou com vontade de postar porque eu penso Ninguém quer saber Mas se não apareces, esqueces Pode ser o risco, não é? É um bocado paradoxal É muito paradoxal, sabes? Então eu esforço-me a mim próprio a postar mais, mas depois posto e penso, mas para quê? É pointless. Repara, eu só quero estar no palco a fazer espetáculos. E eu tenho amigos meus que são mentalistas, que têm carreiras fantásticas, que estão… Tem um amigo que está em Las Vegas, por exemplo, a fazer espetáculo há 12 anos, mas ele nem sequer faz postos. Porquê? Porque ele está ocupado a viver a vida. E eu acho que é mais isto que é, eu gostava que as pessoas se ocupassem mais de facto a viver a vida. e teve uns momentos do que propriamente preocupadas com o que é que os outros vão pensar agora tem que ter o ângulo perfeito, assim não agora tem aquela aberração dos filtros todos que existem psicologicamente está a afetar imensas pessoas, sobretudo os jovens este novo ideal de beleza e eu não sou tão bonito como vejo aqui é muito triste isso eu acho isso muito triste, acho triste que as pessoas já só conheço pessoas que só conseguem colocar fotos delas com mil e um filtros, é tipo, pá, tu tens noção que esta foto não és tu claramente, não é isto é muito triste. Escolhem o ângulo, escolhem a luz e manipulam a app que depois tira a barriga que lisa a pele

Jorge Correia
50:21
já agora para registro nós somos duas pessoas bonitas e que não estão mais extraordinárias

João Blumel
50:28
mas eu costumo maquilhar-me quando estou em palco para trabalhar, para tirar os brilhos eu acho ótimo que as pessoas se cuidem acho que é super importante obviamente usares os cremes todos, eu também uso acho isso super importante, o que eu estou a dizer é há um foco demasiado grande nesta coisa da beleza superficial nesta coisa do lifestyle e a maior parte das pessoas que postam conteúdo em praias paradisíacas ou com malas de Louis Vuitton ou com Ferrari meu, é tudo fake a maior parte das pessoas não é esse estilo de vida delas, então é mas eu estou aqui a chover no molhado, já toda a gente sabe disso não é nenhuma novidade é uma fogueira das vaidades? eu acho que sim, acho que sim acho interessante, acho que é um fenómeno interessante o que eu acho interessante no meio disto tudo é São milhões e milhões de pessoas A buscar incessantemente a aprovação De outros milhões de pessoas Mas no fundo estão todos no mesmo barco Eu lembro sempre desta coisa da minha infância Que era Eu cresci numa quinta Com animais e não sei o que Muito fixe E eu tenho uma família gigantesca E tenho muitos primos também E tenho uma prima E nós estávamos muito bem, nós tínhamos uma idade muito aproximada E havia um jardim ali na zona da casa dos nossos avós que nós passávamos imenso tempo de dia porque dava para jogar à bola tínhamos lá um tanque que fazíamos de piscina mas à noite estávamos um bocadinho porque estava escuro e eu lembro-me que nós não tínhamos medo de ir se fôssemos um ou outro, estás a ver? passear ali para aquela zona, porque estávamos acompanhados mas na verdade se fôssemos individualmente tínhamos medo, o que eu quero dizer com isto? que é, estamos todos com a mesma necessidade de citação e é engraçado Para mim é paradoxal Esta coisa de Está toda a gente atrás do mesmo E na verdade seríamos muito mais humanos Se não Se partilhássemos coisas mais reais Também não estou a dizer para as pessoas começarem a partilhar A proqueria do dia a dia

Jorge Correia
52:22
A trivialidade Mas podia ser uma coisa mais bonita Não sei, mais humano Olha, como é que concurso Sim, é verdade Isso é o quê? Vocês estão todos ali à volta de um copo Para ver quem é que mexe o copo primeiro Existem alguns concursos

João Blumel
52:35
Este é tipo o concurso melhor mentalista da Europa São selecionados todos os anos 10 mentalistas Para concorrer pelo prémio E este ano decidiram selecionar só 6 E eu fui um dos 6 selecionados O que é fixe, é bom Muito obrigado Fiquei muito feliz E isto acontece em França, todos os anos Epá, não ganhei Mas foi interessante porque percebi Claramente que aquilo que eu estou a fazer É mesmo muito diferente De tudo o que está a ser feito E isso deixa-me muito orgulhoso O facto de ter sido escolhido num grupo de seis

Jorge Correia
53:07
Quer dizer, não ganhei Não ganhaste a taça, mas é uma montra E uma capacidade de fazer coisas Sim, sim, sim Para fecharmos, quando O microfone se fecha e a luz se apaga E sobra o silêncio Ai que bonito, foi muito poético agora Nem foi por acidente

João Blumel
53:26
Como é? O que é que tu pensas? O que é que eu penso? Não sei, sabes que eu sou muito igual no palco e na vida pessoal. Há muito pouca diferença. Eu penso muitas vezes sobre isto, que é… Muitas vezes as pessoas… O trabalho define muitas vezes as pessoas. Não deveria definir tanto, não é? Quando acabas de dizer uma pessoa, a primeira coisa que ela diz é… O que é que tu fazes? Quem é que és tu? O que é que fazes? Não sei o quê. E as pessoas vivem intensamente o trabalho. Grande parte das pessoas está muito infeliz com o seu trabalho. E quando se apagam as luzes, neste caso, ficam aliviados. Agora vou para casa, descontrair e não vou pensar mais nisto No meu caso, não é bem assim Primeiro porque eu tenho a felicidade de fazer aquilo que eu mais gosto Na vida Sou um sortudo E consegui desligar? Eu consigo desligar parcialmente Ou seja, eu não estou na rua Sempre a analisar as pessoas Não estou sempre a influenciar as pessoas de todo Eu tenho que fugir disso Aqui vai o mentalista Isto é que era Vou dar a fazer Cuidado com o que penses

Jorge Correia
54:32
Estou a ouvir-te

João Blumel
54:34
Tanto é que, por exemplo, eu nunca faço truques Fora do palco Às vezes os meus amigos dizem-me Ah, fazia uma cena Os meus amigos mesmo já não pedem Porque sabem que eu não faço E eu não faço mesmo Eu gosto de criar uma divisão Uma coisa sou eu no palco, outra coisa sou eu fora do palco Mas a minha personalidade é muito idêntica Eu estou no palco como estou no dia-a-dia Eu falo com as pessoas da plateia Como se fossem a falar com os meus amigos Simplesmente no palco Eu estou mais focado porque estou ali em modo analista de analisar a linguagem corporal das pessoas e no modo entertainer no dia a dia sou mais recatado não faço questão nenhuma de ser o centro das atenções é uma coisa que às vezes me deixa desconfortável é quando as pessoas me começam a perguntar imagina estamos num jantar e há pessoas que não conhecem perguntam o que é que eu faço e depois fica ali a conversa durante 15 minutos à volta do tema e eu sinto-me um bocado mal porque eu não quero nem priorizar a conversa eu sei, uma profissão super diferente é engraçado Muito provavelmente aquelas pessoas não me conheciam mentalista Até porque há pouquíssimos mentalistas no mundo E têm curiosidade Mas eu tento ser mais recatado Mas é assim, fico sempre ansioso Para que as luzes se acendam outra vez Para que o microfone se acenda outra vez E para voltar ao palco É um vício? Acho que vício é uma palavra forte Mas é É um hábito Pode ser considerado um vício Na medida em que quando estás em palco E sentes aquela é aquela dopamina toda aquela coisa boa de estás a criar uma coisa de entretenimento que move as pessoas que comove as pessoas também que cria ali emoções e que fazem vibrar isso para mim é super interessante mas ao mesmo tempo estou numa fase da minha vida em que eu quero orgulhar-me ainda mais imagina, cada espetáculo eu ao todo criei oito ou nove espetáculos cada vez que crio um espetáculo novo eu quero que esse espetáculo seja melhor do que o anterior óbvio, não é? A ideia está sempre em curva da ascensão mas eu sinto que até agora ainda não criei um espetáculo, ou seja aquele espetáculo em que a produção está mesmo, pá incrível, em que eu estou 100% orgulhoso daquilo, então no fundo a minha batalha… Alguma vez acontecerá? Eu acho, não sei porque eu sou eternamente insatisfeito eu sou muito exigente mas eu acho que o caminho basicamente é conseguir, lá está, ir para Las Vegas ou ir para um palco assim grande, onde não há constrangimentos de budget, de produção onde tens equipas profissionais e onde podes dar asas porque o problema do interseignamento também é este que é, obviamente que o mais importante é aquilo que está cá dentro e a tua capacidade de imaginação e de criação e de apresentação de coisas, mas depois conseguir traduzir isso num espetáculo bem montado requer produção e em Portugal, apesar de eu adorar o nosso país e de ter de ver toda a minha carreira aos portugueses e as pessoas que compram os meus bilhetes, etc. A verdade é que nunca há budget e nunca há salas que permitam criar produções mesmo… E é complicado. O mentalismo é um nicho. É um ultra nicho, na verdade. Portanto, o meu objetivo é dar voos maiores em busca de maiores produções e maior valor do espetáculo.

Jorge Correia
57:46
João Bulmel, muito obrigado por teres vindo ao Pergunta Simples. Obrigado, meu caro. E por adivinhares os pensamentos das pessoas e agora te teres contido não te dedicares a adivinhar a próxima pergunta

João Blumel
57:56
deixa-me só fazer aqui uma ressalva que apesar de eu estar não muito ativo nas redes sociais estou-me a esforçar nesse sentido pedia ao caro ouvinte que fosse neste momento às redes sociais espreitar, seguir João Blumen porque apesar de tudo tem lá coisas muito engraçadas eu vou pondo os programas que vou fazendo por aí, tem lá reações muito interessantes, sobretudo no Brasil e que te pisquem o olho, que te digam piquem o olho sim, sim, digam coisas porque a minha paixão é mesmo entreter as pessoas e espero ver-vos num próximo espetáculo.

Jorge Correia
58:28
Terminamos este episódio com a confissão de um homem que apesar de dominar o palco e a ilusão se assume como um eterno insatisfeito sempre à procura de criar o espetáculo perfeito, sonhando um dia levá-lo até às grandes luzes de Las Vegas. A ironia final desta nossa conversa é deliciosa. Depois de refletirmos longamente sobre a ansiedade e a futilidade das redes sociais, o João Lá fez o sacrifício de vos pedir para o seguirem no Instagram. Façam-lhe a vontade. Siga o trabalho do João Blumel, mesmo sabendo que ele publica pouco porque prefere viver a vida real a fotografá-la. E aproveite o embalo do João para reforçar o nosso pedido de início. Se esta conversa o fez pensar, se lhe trouxe valor ou simplesmente boa companhia, não vá embora sem carregar o botão Seguir do Pergunta Simples na plataforma onde está a ouvir agora. É simples para si, mas significa o mundo para nós e para a continuidade deste podcast. O Pergunta Simples fica por aqui. Eu sou Jorge Correia. Um abraço e voltamos na próxima semana com mais perguntas para o mundo contemporâneo.

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

 

Voltar ao Topo