A força da rádio num tempo de implosão silenciosa
Dizem que a rádio é apenas uma voz a falar para um microfone, um aparelho frio que serve de testemunha. Mas, na verdade, a rádio é o último reduto onde a solidão é enganada com mestria. No dia em que celebrámos o Dia Mundial da Rádio, sentei-me com Inês Lopes Gonçalves para tentar perceber o que resta de humano num mundo cada vez mais automatizado. A resposta, tal como a própria rádio, é enganadoramente simples: o que nos salva são as pessoas.
Inês, uma das vozes que acorda Portugal às 5h45 da manhã, habita o centro de um paradoxo. Para quem ouve “As Três da Manhã” na Renascença, a ilusão é perfeita: parecem apenas três amigas a conversar num café. Mas por trás daquela “simplicidade da voz” esconde-se uma “máquina de entretenimento profundamente complexa”. Há guiões, produtores que funcionam como mães doces, equipas de redes sociais e uma sonoplastia cirúrgica. No entanto, se a máquina falhar, se a tempestade chegar ou o apagão ocorrer, a rádio despe a sua complexidade e regressa à sua essência: um “porto seguro”.
Mas a verdadeira tempestade de que falámos não foi meteorológica. Foi existencial.
Durante a conversa, Inês, que gere o timing do humor e a seriedade da notícia com a destreza de uma “tradutora das Nações Unidas” (título fictício atribuído por Joana Marques), revelou o seu medo do “auto-tudo”. Vivemos numa era de conveniência asséptica. O almoço chega à porta sem que tenhamos de trocar uma palavra com o estafeta; o autocuidado isola-nos em bolhas de conforto.
“Qualquer dia acho que implodimos”, atirou ela, com a gravidade de quem vê o tecido social a desfazer-se.
A rádio, e conversas como a que tivemos, surgem como o antídoto para esta implosão. Inês defende a recuperação de competências sociais básicas, como a coragem de “ir pedir sal ao vizinho”. Num mundo onde as crianças têm medo de pedir um copo de água num café, a comunicação oral torna-se um ato de resistência.
E é aqui que entra a honestidade radical da sua persona. O segredo do sucesso de Inês não está na perfeição, mas na admissão da falha. É dizer em direto “tenho tanto sono hoje”. É contar que os filhos dizem palavras mal ditas ou que a sopa caiu ao chão. Ao partilhar a banalidade da vida, cria-se uma “noção de comunidade”. O ouvinte, seja em Lisboa ou em Trás-os-Montes, percebe que a distância que o separa daquela voz famosa não é assim tão grande.
No entanto, a liberdade — que Inês define lapidarmente como “ter escolha” — ainda tem as suas trincheiras. No seu podcast Não Mandas em Mim, ela explora o que nos condiciona. E, como mulher, o condicionamento é palpável. Falámos da “carga mental”, esse trabalho invisível e exaustivo que não termina quando o microfone se desliga. A carga mental é estar a dar uma entrevista profunda sobre a sociedade e, simultaneamente, saber que a t-shirt de futebol do filho para o dia seguinte ainda não está lavada.
Há uma beleza crua nesta admissão. Não somos iguais, diz ela, e há muitos homens zangados com isso. Mas a solução não é o entrincheiramento; é trazer todos para a mesa. É a escuta real, aquela que não serve apenas para esperar pela nossa vez de falar, mas para sermos expandidos pelo outro.
Inês confessou sofrer do clássico “síndroma do impostor”, evitando rever-se ou ouvir-se para não ter de se “confrontar com a própria existência”. Prefere ler um bom livro a ouvir a sua própria voz. Mas talvez seja essa humildade, aliada a uma curiosidade insaciável de quem, aos quatro anos, virou costas aos pais na escola para ir descobrir o mundo, que a torna tão magnética.
O final da nossa conversa foi, talvez, o momento mais verdadeiro de todos. Não houve uma conclusão grandiosa ou um fade-out musical planeado. A entrevista acabou porque a vida impôs a sua lei: Inês tinha de ir buscar os filhos.
“O que é que te expande?”, perguntei-lhe no último segundo. “As pessoas”, respondeu.
E assim, a Inês foi à vida dela, deixando no ar a lição mais importante do dia: num mundo de algoritmos e entregas automáticas, a única coisa que impede a nossa implosão é a capacidade de continuarmos a precisar uns dos outros.
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[00:00] Inês Lopes Gonçalves: Tudo de repente, hoje em dia, se tu quiseres estar em casa sozinho, sem falar com ninguém, e o almoço chega à tua porta e tu também não tens que falar com a pessoa que leva o teu almoço, porque há uma aplicação onde tu pedes o teu almoço, não há interação com humano nenhum. E eu, não sei, às vezes penso: vamos perder a capacidade de, não sei, de ir pedir sal ao vizinho, sabes? E quando eu digo isto, competências sociais que as pessoas têm que desenvolver, conversar uns com os outros. Isto é tudo muito… é tudo o “auto-tudo”: é o autocuidado, é o auto não sei quê. É tudo feito para nós mirrarmos e definharmos na nossa própria existência. Qualquer dia acho que implodimos, não sei.
[00:46] (Vinheta do programa)
[00:54] Jorge Correia: Dizem que a rádio é apenas uma voz a falar para um microfone, um aparelho. Mas na realidade é o privilégio de falar ao ouvido das pessoas. Quando tudo corre mal, nas situações extremas, numa tempestade ou num apagão, a rádio é um porto seguro. Mas e quando não há catástrofe? Quando a vida normal corre? O que é que faz com que alguém acorde às cinco da manhã, dia após dia, para ligar um botão e tentar divertir 400 mil pessoas que não conhece? Gravamos esta conversa precisamente no Dia Mundial da Rádio, um bom pretexto para fazer a pergunta simples do dia: o que é que a rádio tem de extraordinário? A minha convidada de hoje é uma das vozes mais reconhecidas do país. Cruzamo-nos na RDP, ela na Antena 3, já com a Ana Galvão e com a Joana Marques, e eu na Antena 1. Inês Lopes Gonçalves faz parte do trio que acorda Portugal na Rádio Renascença com as “Três da Manhã”. É uma apresentadora de televisão e autora do podcast “Não Mandas em Mim”. Neste episódio, vamos para além das gargalhadas — também há gargalhadas, também nos rimos — vamos desmontar a máquina complexa do entretenimento que existe por detrás da aparente simplicidade de três amigas a conversarem. Falamos sobre a honestidade de dizer “tenho sono” em direto, sobre o medo do silêncio e sobre essa coisa clássica que é o síndrome do impostor. Mas a conversa segue por caminhos mais pessoais. Falamos sobre liberdade, que para a Inês é essencialmente ter escolha, e sobre a carga mental invisível que as mulheres continuam a carregar, mesmo quando o mundo diz que já somos todos iguais. É uma conversa gravada num dia especial, 13, uma sexta-feira 13, o Dia da Rádio, entre dois apaixonados pela telefonia, sobre a curiosidade de querer experimentar o mundo e a importância de saber escutar o outro.
[03:00] Jorge Correia: É gravado no Dia Mundial da Rádio, já pensaste?
[03:02] Inês: Dia Mundial da Rádio! Portanto, podemos celebrar!
[03:04] Jorge: É o Dia da Rádio! Parabéns!
[03:05] Inês: Parabéns a ti também!
[03:06] Jorge: O que é que tem de extraordinário esta coisa da rádio?
[03:09] Inês: Tem tudo!
[03:10] Jorge: Tudo o quê? O que é que tem para ti de extraordinário?
[03:12] Inês: Então… muitas coisas. Para já, desde sempre, ou seja, quando eu ouvia rádio — e sempre ouvi muita — sempre gostei muito. Perguntas-me porquê? Não sei exatamente porquê, mas lembro-me de ter sido se calhar dos primeiros empregos que eu quis um dia ter.
[03:26] Jorge: É um sonho?
[03:27] Inês: Não lhe vou dizer um sonho assim, porque não foi uma coisa que eu… não era o único, passei por várias ideias quando era miúda, mas lembro-me muito bem de estar a ouvir sobretudo mais os programas da manhã, apesar de ouvir em vários horários, e pensar: “Deve ser muito giro brincar a isto, deve ser muito giro ter este trabalho”. E mal sabia eu que um dia ia lá parar e, curiosamente, à rádio que eu ouvia na altura. Mas o que é que isto tem de extraordinário? Tem muito e tem cada vez mais, e eu apercebo-me cada vez mais do poder que a rádio tem. E acho que as pessoas também, nem sempre fruto das melhores circunstâncias, e obviamente estou a falar de situações às vezes de catástrofe, como sejam as tempestades que temos tido, ou por exemplo, como foi o caso do apagão. Temos falado muito da importância da rádio nessas situações.
[04:09] Jorge: Quando corre mal, a rádio está lá, é uma espécie de porto seguro.
[04:12] Inês: Sim, mas mesmo quando não corre mal. E se tirarmos essas situações limite em que a rádio acaba por ser incrivelmente necessária, eu acho que faz uma coisa que é muito precisa, sobretudo nos dias que correm, que é um trabalho de aproximação, que eu acho que faz muita falta.
[04:26] Jorge: Há uma relação. Tu quando estás a falar, na realidade nós estamos a falar num microfone, supostamente é um aparelho — aqui por acaso também há câmaras, mas estão só aqui como testemunhas…
[04:35] Inês: Sim, estão ali, estão ali…
[04:36] Jorge: Mas na realidade nós temos esse privilégio de estar a falar ao ouvido das pessoas.
[04:39] Inês: Certo!
[04:40] Jorge: Mas elas não falam para nós.
[04:41] Inês: Elas não falam para nós e é um exercício também muito, às vezes… não diria que é difícil, mas eu acho que exige algum cuidado de quem está deste lado do microfone precisamente por não termos, não sabermos exatamente quem é que nos escuta. Eu acho que temos de ter cuidado com uma série de coisas, quanto mais não seja logo para começar na clareza com que falamos. Acho que é muito preciso.
[05:02] Jorge: Há que simplificar e há que ser rigoroso.
[05:04] Inês: Há que ser, sim, claro. Obviamente, mediante o assunto ou o papel que desempenhamos na rádio, rigoroso sempre, claro. Mas acho que tem de haver isso e tem de haver, sim, uma preocupação com a clareza e com uma certa simplicidade. Eu acho que as coisas não podem ser muito complicadas porque a escuta de rádio é uma coisa que tem de ser muito direta, não vale a pena estar com grandes rodriguinhos e com grandes rodeios. E sobretudo também saber que quem nos ouve pode estar na rua de baixo, mas também pode estar a 800 quilómetros…
[05:31] Jorge: E não conhece o contexto, não faz a mínima ideia do que é que aconteceu em Leiria. Tu tens que levar as pessoas até lá.
[05:36] Inês: Exatamente! Eu acho que é tornar isso próximo da melhor forma que conseguires. E muitas vezes também, e sobretudo porque muitas vezes ao falarmos na rádio nacional estamos a falar de rádios que são feitas a partir de estúdios que são em grandes cidades, como sejam Lisboa e o Porto, e ter sempre aquela ideia de que se eu disser assim: “Eh pá, ontem em Sete Rios…”, uma pessoa que está em Chaves não sabe muito bem o que é Sete Rios. Ou então fica zangada e aquilo é uma coisa que antagoniza quem ouve. Eu acho sempre divertido a ideia de quando, lá está, a rádio de Lisboa e do Porto diz: “Há um frio muito grande porque em Lisboa estão 7 graus”. E eu imagino a tribo de Trás-os-Montes a ouvir aquilo ou da Beira Estrela a dizer: “Frio? Vocês são uns meninos!”. Claro. Mas atenção, eu digo isto mas eu própria me policio para constantemente me lembrar destas pequenas coisas que eu acho que são importantes, porque a ideia é fazer sempre para fora, sempre para fora, nunca para dentro. Nós não nos podemos esquecer que nós não estamos num programa de rádio para quatro pessoas se divertirem muito — idealmente, se isso acontecer, espetacular — mas sobretudo que divirta 400 mil.
[06:45] Jorge: Olha, tu trabalhas na Renascença, fazes um programa de grande sucesso nas manhãs da rádio…
[06:51] Inês: Grande sucesso!
[06:52] Jorge: É de grande sucesso! Sim, não, sim…
[06:53] Inês: Estava só…
[06:54] Jorge: Qual é o segredo daquilo? Três raparigas muito divertidas, muito palermas mesmo, podes dizer…
[06:59] Inês: Palermas mesmo!
[07:00] Jorge: Mas isso é maravilhoso! Vamos ao segredo de como é que alguém consegue acordar às… a que horas acordaste hoje?
[07:05] Inês: 05:45.
[07:07] Jorge: 05:45 da manhã. E a que horas é que o botão se liga para dizer “bom dia, estamos aqui”?
[07:11] Inês: Liga-se às sete.
[07:13] Jorge: Qual é o segredo dessa boa disposição, desse quase torrencial de animação e de proximidade?
[07:22] Inês: O segredo eu não sei exatamente qual é, mas eu acho que quando tu disseste aí: “Qual é o segredo dessa boa disposição?”, às vezes é só… por exemplo, ainda esta semana eu acho que logo de manhãzinha, na abertura do programa, eu disse: “Eh pá, estou com tanto sono hoje”. Porque eu acho que isso é o que as pessoas… eu acho que o segredo é esse, é às vezes seres verdadeiro naquilo que estás a dizer.
[07:44] Jorge: Há uma honestidade.
[07:45] Inês: Eu acho que sim, porque eu acho que já lá vai o tempo… claro que uma pessoa não vai para ali de repente despejar todos os seus problemas, não é? Porque de facto também há esse lado de responsabilidade, nós estamos ali num papel de animador de rádio, vá. Mas eu acho que já não faz sentido nenhum aquele “boneco” que nós ligamos o rádio e está super bem disposto e tudo é incrível e ele parece uma máquina. Não, quer dizer, não. Eu acho que o segredo é esse: é que nós somos três pessoas que estão ali e eu acho que as pessoas se relacionam muito com esse lado “relacionável”, porque nós falamos muito das nossas vidas, contamos o que nos acontece, o que nos aconteceu no dia anterior, que nos esquecemos da chave do carro, que fizemos isto, fomos acolá, vimos este filme, gostámos, não gostámos, etc. Ou seja, eu acho que é um…
[08:29] Jorge: Apesar de tudo não é tão simples como tu estás a dizer. Porque tu dizes assim: “OK, vocês pegam nas vossas vidas para as contarem”, mas objetivamente tu pões com a Ana e com a Joana Marques uma capa de uma narrativa. Isto é, quando tu contas a história da relação com os teus filhos ou da maneira como tu foste ao cinema, o processo não é assim tão simples como isso, porque tu pões uma narrativa, tu pões uma história, vocês criam ali uma dinâmica em que se metem umas com as outras para que aquilo se torne interessante. Aquilo não é a vidinha, aquilo é da vida, mas vocês põem essa narrativa.
[08:58] Inês: Sim, quando eu digo que contamos estas histórias tem a ver com falarmos da nossa vida como sendo uma vida igual à das outras pessoas todas. É nesse sentido que eu digo.
[09:07] Jorge: Mas eu rio-me contigo e se eu contar histórias da minha vida se calhar não tem graça nenhuma. Essa é, lá está, a diferença do talento, não é? Quer dizer, há pessoas que contam a sua vida e são muito aborrecidas. A sensação de que quando nós vamos nos transportes públicos e ouvimos ora uma pessoa muito aborrecida a contar uma história, ora alguém que nasceu para ter graça. E eu já me liguei, não é? Quer dizer, eu ouço três palavras e já estou ligado.
[09:29] Inês: Mas eu acho que aí há pequenas coisas que nós podemos… lá está, a ideia de fazer sempre para fora. Esta história, se calhar, será que esta história vai dar azo a que façamos uma pergunta e de repente começamos a receber imensas mensagens dos ouvintes? Por exemplo, dou-te um exemplo: uma vez, aquelas coisas que todos os miúdos têm, que é, há sempre palavras que os miúdos dizem mal. E os meus filhos tinham dito uma palavra muito engraçada, um deles tinha dito uma palavra mal muito engraçada, e depois é aquela tentação às vezes de não corrigires porque é tão querido, não é? E nós pegámos nisso uma manhã, contei essa história — e podes ficar por aí, mas também podes perguntar aos ouvintes: “Contem-nos, por favor, quais eram as palavras que os vossos filhos diziam mal”. E de repente tens um programa cheio de pessoas que estão a relacionar-se com aquela história que tu contaste, a terem a oportunidade que eu acho que as pessoas gostam sempre, é quando aquilo lhes toca, que é a ideia do “espera, eu também tenho uma história para contar sobre isto”. E sentem-se envolvidas e há aqui uma noção quase de comunidade, não é? Que eu acho que é muito boa e que é o que eu acho que as pessoas sentem com as suas rádios: esta sensação de comunidade.
[10:28] Jorge: E identificação, no fundo. É “ela está a contar uma coisa e aqui em casa também me aconteceu”.
[10:33] Inês: Exato. E a distância que nos separa depois não é assim tanta, que é: “OK, elas são pessoas como as outras, ontem deixaram queimar a sopa e podia ser eu”. É um bocado essa ideia.
[10:42] Jorge: E já agora essa ligação faz-se o quê? Hoje em dia temos ferramentas que é o WhatsApp, deixa uma mensagem de telemóvel…
[10:48] Inês: Sim, uma mensagem… tu perguntas as mensagens dos ouvintes? Deixam uma mensagem de áudio, como mandamos assim para nós, mandam um áudio para nós e nós passamos.
[10:57] Jorge: E vocês ouvem? Imagino que o direto seja mais arriscado, como é evidente, há que verificar sempre o que é que lá está de conteúdos. Como é que é a dinâmica? Isto é, como é que é um dia comum na telefonia? Como é que é um dia comum na Renascença? Vocês chegam lá às seis da manhã, juntam-se… como é que é? Há um script, há uma lista de coisas para fazer?
[11:17] Inês: Então, é muito importante que se diga que “As Três da Manhã” são uma equipa muito grande.
[11:21] Jorge: Não são três.
[11:22] Inês: Não somos só três, são mais pessoas e é sempre muito importante falar de quem faz parte e quem contribui para que “As Três da Manhã” sejam depois a montra que as pessoas ouvem todos os dias. Mas temos a nossa Sandra, que é a nossa produtora, que é a pessoa que tem essa responsabilidade de construir ali o guião — sendo que, quando eu digo guião…
[11:43] Jorge: É quem manda em vocês.
[11:44] Inês: Um bocadinho, sim. Ela é nossa mãe, que é uma coisa ainda mais… eu acho mais ternurenta. Porque uma pessoa que manda em nós às vezes é uma pessoa um bocadinho sargento. Ela não, ela é doce como uma mãe, é mesmo muito querida. E vai-nos acolhendo… e é a pessoa que parece omnipresente, é inacreditável. Mas quando eu digo guião, muitas vezes nós estamos habituados a associar guião a uma coisa onde está tudo escrito e nós lemos. Não, é uma espécie de estrutura do programa, não é? Porque — isto depois fica um bocadinho maçador até para quem não trabalha em rádio — mas a rádio organiza-se, tem um clock, um relógio para nós nos orientarmos sempre, sabemos sempre que temos o trânsito e o tempo àquela hora e as coisas estão mais ou menos estruturadas.
[12:24] Jorge: Há uma regularidade no fundo, não é? Que é para nós sabermos o que é que vai acontecer.
[12:27] Inês: Exato, para nos guiarmos sempre. Depois porque não há dois dias iguais, porque de segunda a sexta nem sempre acontece o mesmo a todas as horas. Há rubricas que são fixas, como o “Extremamente Desagradável”, por exemplo, às 08:15, mas depois há um dia em que a Ana tem uma rubrica, outro dia que sou eu, outro dia que é outra coisa. Depois além da Sandra também temos o pessoal das redes sociais, temos o André Pereira, o Fábio Oliveira, temos o Cláudio Almeida, que é um produtor de conteúdos…
[12:55] Jorge: Que estão em permanência a alimentar as redes sociais?
[12:57] Inês: Sempre, sempre, sempre. Somos uma equipa assim bastante grande. Temos mais o Rui Glória, que é o nosso sonoplasta também, e o Diogo Casinha.
[13:06] Jorge: Portanto, é uma super equipa. Na realidade nós estamos a ver uma coisa que parece simples porque tem essa simplicidade da voz e de estar, e na realidade o que tu estás a descrever é uma máquina de entretenimento profundamente complexa.
[13:17] Inês: Sim, porque quando nós abrimos o Instagram, por exemplo, e vemos “Eh pá, que giro este vídeo da Renascença”, mas para acontecer aquele vídeo da Renascença foi preciso que a Sandra nos dissesse: “OK, temos aqui três minutos para não sei quê”, que o Cláudio produzisse conteúdo para esse momento, que o André e o Fábio filmassem para as redes sociais, que o Rui controlasse os microfones e que depois aquelas três parvas, no fundo, são as menos importantes, atuam.
[13:42] Jorge: Não, não são porque fazem essa ligação. Portanto, aquilo que nos parece simples e bonito que é, lá está, eu sigo obviamente no Instagram, 10 ou 15 minutos depois de uma parvoíce em antena eu consigo ver e rir-me.
[13:53] Inês: Sim, nem sempre será 10 ou 15 minutos logo a seguir, mas sim, muitas vezes… isso depois é uma questão de gestão de redes sociais que eu aí já não domino tão bem.
[14:02] Jorge: Está a gostar desta conversa? Então vale a pena subscrever o Pergunta Simples. É a forma mais prática de nos acompanhar e de garantir que estas conversas continuam a acontecer. Estamos no Spotify, no Apple Podcasts, no YouTube e em mil outros sítios. Se quiser ir direto ao sítio certo, basta passar por perguntasimples.com e no topo, lá em cima da página, tem o botão que diz “Subscrever”, onde estão todas as plataformas para ver e ouvir o programa.
[14:32] Jorge: Este programa tem lá dentro o programa de humor de maior sucesso, o podcast mais ouvido em termos absolutos, que é o programa da Joana Marques. Chegou a ser um monólogo e hoje em dia não é um monólogo. Eu ouço-te a participar a ti também, ouço-te a fazer de jornalista séria ou de tradutora das Nações Unidas…
[14:52] Inês: Ah, eu adoro que já me tenhas promovido a das Nações Unidas! Eu era só tradutora do que fosse, mas agora sou das Nações Unidas.
[15:00] Jorge: Mas o tom, não é? O tom…
[15:02] Inês: Gosto muito! Não, mas vou deixar assim porque eu gosto de ser das Nações Unidas. À conta da Joana posso pôr imensos cargos que não são reais porque ela já me atribuiu muitas funções. O “Extremamente Desagradável”, curiosamente, começou aqui no edifício onde estamos…
[15:18] Jorge: Na Rádio Antena 3.
[15:19] Inês: Exato. Era muito mais pequenino o “Extremamente Desagradável”, aquilo com o tempo veio… normalmente as coisas mirram e não, aquilo veio, tem vindo a esticar.
[15:27] Jorge: Houve um fermento, aquilo transformou-se numa coisa séria.
[15:30] Inês: Fermentou muito, sim. Às vezes temos de dizer: “Joana, menos fermento”.
[15:34] Jorge: Sentes que às vezes há um limite que se ultrapassa?
[15:37] Inês: Às vezes? Todos os dias! Não, um limite em que sentido? Um limite de tempo?
[15:42] Jorge: Não, não, mesmo das barbaridades que se dizem.
[15:46] Inês: Não, quer dizer, das barbaridades que quem diz? A questão é essa! Ah, portanto aquilo é um espelho das barbaridades que se vão dizendo. Sim, claro, quer dizer, se há um limite para as… não percebi se estavas a dizer que era a Joana que dizia barbaridades ou se eram as pessoas de quem a Joana falava. Esse é o melhor… Não, mas é verdade. Quando se faz uma curadoria de um determinado conteúdo — eu sei que é diferente fazer jornalismo de fazer humor — o humor tende obviamente à sátira, ao exagero, a escolher aquele pedaço que foi completamente fora de sítio e é isso que nos faz rir. O exemplo do Zé, se calhar, não é o melhor, embora aquilo que aconteceu foi fora disso. Mas há um limite, tu sentes que a ideia de limite é ultrapassar o limite ou tu às vezes dizes assim: “Eh pá, isto se calhar não podia ir por aqui”? Isso é discutido na equipa ou não?
[16:44] Inês: Não. Desculpa, se calhar estavas à espera de uma resposta mais elaborada, mas não. Não acho e não é discutido.
[16:51] Jorge: E as ideias vêm de onde? De onde é que vêm?
[16:53] Inês: Da cabeça daquela pessoa. É, não é? Ela escreve tudo, inclusive as tuas falas? Sim, ela à partida tem aquilo tudo escrito, algumas coisas de facto que nós dizemos ela escreve também, mas há coisas que nós também dizemos espontaneamente.
[17:09] Jorge: São buchas.
[17:10] Inês: São buchas, a chamada bucha. Eu ouço sempre que, com a Ana, sempre a dizer umas… sabes que é a pergunta que mais me fazem?
[17:18] Jorge: Se está escrito ou se é de propósito?
[17:20] Inês: É sempre: “Olha, os trocadilhos da Ana estão escritos ou é ela que…”. E posso dizer que é assim um 50/50.
[17:27] Jorge: Os trocadilhos são claramente, exatamente… quer dizer, que é o desconcerto, não é? Que é uma determinada coisa…
[17:34] Inês: Total! Sobretudo porque quando não têm nada a ver então ainda mais desconcertantes são. É assim ali um momento de “Hã? OK”.
[17:42] Jorge: O momento “oh meu Deus, o que é que está a acontecer aqui?”. Mas prontos, são assim várias camadas de patetice que eu acho que depois ajudam depois a digerir aquilo tudo.
[17:51] Jorge: E essa dinâmica quando estás a construir essa dinâmica, lá está, é uma dinâmica que permite que qualquer uma de vós possa ir para qualquer lugar.
[17:58] Inês: Sim. Obviamente que há que ter algum cuidado porque a Joana tem ali um fio e um formato e uma sequência de sons, etc. Não dá para de repente uma de nós entrar em freestyle e começar ali num a divagar. Temos aqui uma bucha aqui e uma bucha ali e a coisa segue.
[18:15] Jorge: Olha, tu tens um projeto, eu não sei se ainda é vivo, mas se não é, eu proponho-te que o ressuscites…
[18:22] Inês: Então?
[18:23] Jorge: Que é um podcast, que é o “Não Mandas em Mim”.
[18:24] Inês: Está vivíssimo! Está vivo, está vivo!
[18:26] Jorge: Eu quando vi aquilo pela primeira vez pensei assim: “Que diabo, isto é mesmo da cabeça da Inês”, foi o que eu pensei logo. Foi, foi! Não, eu pensei logo “Não Mandas em Mim”, que é uma espécie de Mafaldinha, não é? Portanto, senhora Tradutora das Nações Unidas, tu não mandas em mim. Bom, para quem não conhece genericamente, tu tens convidados e vais tentar perceber o que é que os leva a dizer não ao mundo. O que é que andas à procura?
[18:57] Inês: Olha, de muitas coisas, na verdade. Eu prezo muito — a liberdade é um valor que eu prezo muito — e eu acho que ela tem tantas maneiras de ser vivida, interpretada…
[19:11] Jorge: O que é a liberdade para ti?
[19:13] Inês: Liberdade para mim, se eu tivesse que responder assim de uma forma curta, eu acho que liberdade é ter escolha. Eu acho que é essencialmente isso. Numa vida em que nós estamos todos sempre limitados por alguma coisa, não é? Sim, mas sobretudo, se levarmos isto então para um campo mais de social em que muitas vezes essa liberdade é diminuída por não teres escolha, sei lá, pela cor de pele com que nasceste ou pelas oportunidades que tens ou deixas de ter, ou pelo facto de seres mulher… Podemos levar isto para esse lado, mas isto é vastíssimo!
[19:54] Jorge: Ser mulher ainda é um carma, ainda é um peso? Não somos iguais? Eu sou homem, tu és mulher…
[19:59] Inês: Claro que não somos iguais! Então? Não somos iguais no sentido em que, quanto mais não seja, porque continua a existir — e isto não é um achismo, há dados e estudos que o comprovam — que nomeadamente no que toca a salários não são iguais. Mulheres que desempenham os mesmos cargos que os homens não são pagas de igual forma. Não somos iguais no sentido em que a tão falada, como se fala hoje em dia, aquela carga mental que existe para uma mulher não é igual a um homem.
[20:29] Jorge: A carga mental é o quê? O conjunto de coisas que tu tens para…
[20:32] Inês: A carga mental é eu estar aqui a falar contigo neste momento a saber que daqui a nada tenho de ir buscar os meus filhos, mas que se calhar também tenho de tirar qualquer coisa para o jantar, mas também tenho de pensar que se calhar a t-shirt que ele vai amanhã usar no jogo de futebol ainda não está lavada. E eu tenho algumas dúvidas que — não quero ser injusta obviamente, é um bocado aquela ideia do nem todos os homens, claro — isto de repente ficou seríssimo! Mas ainda há muito trabalho a ser feito nesse campo, portanto não somos iguais de todo.
[21:05] Jorge: E achas que isso tem a ver com o facto de os homens não irem a jogo nestas tarefas que tu estás a dizer, nestas preocupações? Ou é quase um treino quase educacional desde tenra idade em que é dito às mulheres “tu preocupas-te com a casa, com as pessoas, com a organização”?
[21:24] Inês: Sim, é possível que isso agora já não aconteça tanto, e acho que de facto há aqui um caminho que tem sido feito tremendo também porque os homens também — isto também é fruto de anos e anos e anos de mães e pais, de famílias onde os homens foram sempre ilibados ou poupados a essas tarefas: não é preciso saber estalar um ovo, não é preciso saber mexer na máquina da roupa. E portanto eu acho que agora, se calhar aos poucos, isto vai começar a dar a volta ao mesmo tempo que me parece um bocadinho preocupante porque, sim, por um lado isto está a dar a volta, mas por outro assistes aqui uma vaga também tremenda de homens que estão muito zangados com as mulheres.
[22:07] Jorge: O que zangará os homens?
[22:09] Inês: Não sei, mas acho que é uma conversa que temos que ter todos juntos. Isto não é uma coisa de opor homens e mulheres, eu acho que o feminismo e este tipo de conversas têm que trazer todos para a mesa. Isto não é uma coisa que estão aqui as mulheres todas fechadas numa sala a planear uma vingança que será terrível! Não, não, este caminho só se vai fazer juntos porque também é preciso que seja explicado o que é que tem de ser mudado.
[22:38] Jorge: Olha, quero voltar ao podcast, quero voltar à comunicação. O que é que tu aprendeste com os teus convidados durante este podcast?
[22:46] Inês: Hum… agora estava aqui a pensar nos que passaram por lá. Ah, eu estava a falar sobre o podcast, ou seja, interessa-me muito — e estava a falar desta ideia de liberdade — mas interessa-me muito a maneira como as pessoas se condicionam ou não, ou como é que vão evoluindo, como é que vão… e sobretudo, por exemplo, gosto muito de lhes perguntar sobre a infância que tiveram, porque isso é muito engraçado sempre.
[23:14] Jorge: Vais à procura de quê?
[23:15] Inês: Às vezes de perceber como é que o sítio de onde vieram, os pais que tiveram, a educação que tiveram, o sítio onde nasceram, a casa onde cresceram, como é que isso os condicionou, de que forma é que isso os moldou de alguma forma, o que é que ainda guardam disso, o que é que quiseram fazer diferente, por exemplo.
[23:32] Jorge: A maneira como nós dizemos que não é uma maneira de crescimento, não é? Quer dizer, quando a criança é muito pequena diz não…
[23:37] Inês: Certo!
[23:38] Jorge: E depois percebe que tem um poder ali, não é? Ainda por cima tu tens, quer dizer, não quero entrar muito na tua vida privada…
[23:44] Inês: Tinha dois a dizer que não ao mesmo tempo! Pois é!
[23:47] Jorge: Gémeos! É a grande loucura, não é?
[23:49] Inês: É grande loucura! A maior parte das pessoas diz “Ai que giro!”, mas não é nada, vocês são malucos!
[23:55] Jorge: Eu costumo contar como piada que o primeiro filho muda a nossa vida, o segundo acaba com ela. Ter dois ao mesmo tempo…
[24:02] Inês: É assim, como dizer… é intenso. Mas é giro, porque estas coisas mas ao mesmo tempo eu gosto, gosto daquela ideia da… agora já estão pré-adolescentes quase…
[24:14] Jorge: Quase, não é? 10 anos já é pré-adolescente.
[24:16] Inês: Então já te dizem que não muitas vezes, não é?
[24:17] Jorge: Sim. E eu acho que 10 anos é precisamente esta idade em que eles já não são propriamente bebés, ainda não são bem assim gente crescida, mas estão a começar a ficar com… estão a começar ali a moldar a personalidade e bem.
[24:32] Jorge: E daqui a bocado mudam a voz…
[24:34] Inês: Exato. Vão ter buço…
[24:36] Jorge: São iguais ou são muito diferentes?
[24:38] Inês: São muito diferentes.
[24:39] Jorge: Isso é uma bênção, não é?
[24:41] Inês: Quer dizer… Mas não fazem uma pandilha os dois quando alguém faz alguma coisa?
[24:45] Inês: Depende, depende. Quando lhes convém, claro! Unem-se para me destruir!
[24:51] Jorge: Olha, o que é que a Inês, pequena Inês, dizia que não? Davas-me trabalho, não?
[24:57] Inês: É assim, eu dizia não, não… mas agora estou aqui com a voz da minha mãe na cabeça: dava, acho que dava.
[25:04] Jorge: Quão pequena?
[25:05] Inês: Quão pequena não sei, quer dizer… eu não fui a primeira neta, mas fui a primeira filha.
[25:11] Jorge: Eu também fui. E isso eu não sei se é uma bênção ou se é uma desgraça que nos persegue pela vida toda.
[25:15] Inês: É assim, eu não sei se a minha mãe preferia ter tido uma primeira filha, a minha mãe ou o pai, uma primeira filha se calhar mais calma. Porque não é que eu fosse, quer dizer, não era nenhuma fascínora, mas eu acho que sempre tive — e acho que é uma coisa que me acompanha até hoje — muita curiosidade por tudo. E portanto queria sempre experimentar tudo e…
[25:39] Jorge: Perguntar, perguntar, perguntar…
[25:40] Inês: Perguntar, perguntar, ir e pronto. O meu pai conta sempre que no primeiro dia de escola, quando eu fui para a escola, fui para aí com quatro anos e tal e eles iam “coitada da miúda, coitada, vai ser péssimo, vai chorar imenso porque esteve até aos quatro anos em casa”. E acho que eu voltei costas e nem mais olhei para trás. Portanto, acho que isto diz muito de um bocado uma certa curiosidade pelo mundo, do género “deixa-me ver o que é que isto tem aqui para me dar”.
[26:04] Jorge: É uma declaração quase de independência.
[26:07] Inês: Um bocadinho, sim.
[26:08] Jorge: Olha, tu tens uma… tu és uma entrevistadora experiente, não só no podcast, na televisão. Tu dominas os mecanismos — aquilo a que eu chamo os mecanismos invisíveis — de uma boa conversa, da empatia.
[26:24] Inês: Não domino. Para já, não sei se isso era uma pergunta, mas eu vou transformá-la numa pergunta. Acho que não, porque noto quando depois assisto, às vezes quando revejo as coisas ou quando estou a editar alguma conversa… eu acho que às vezes é preciso também deixar… tenho um bocadinho às vezes receio do medo do silêncio, que eu acho que é um bocadinho o problema das pessoas de rádio: que é o “horror vacui”. Mas às vezes está tudo bem, às vezes podemos fazer uma pergunta curta e esperar, está tudo bem.
[26:56] Jorge: Que a pessoa sinta…
[27:00] Inês: Às vezes faço a pergunta e depois explico-a, e depois não sei quê, e depois falo demais. Fico com uma fita na cabeça: “Cala-te! Falas demais!”.
[27:05] Jorge: Isso é uma tua avaliação técnica ou tu estás a ser demasiado dura contigo? Eu li numa das coisas que tu falaste ou escreveste que é aquilo a que se chama hoje muito o síndrome do impostor.
[27:18] Inês: Sim, sim, esse clássico!
[27:19] Jorge: Tu tens mesmo essa sensação de um bocado?
[27:21] Inês: Um bocado, sei lá, acho que sim. Não adoro depois tipo ver-me e não sei quê, não… Mas isso não é o síndrome do impostor.
[27:28] Jorge: Mas depois esforças-te para ires lá ver e para ouvir?
[27:30] Inês: Não! Poupo-me o mais possível a essa tarefa de ter que me confrontar com a minha própria existência.
[27:36] Jorge: Dá-te uma dor?
[27:37] Inês: Quer dizer… há tantos livros bons para uma pessoa ler, agora vou-me ver a mim própria? Não! Para quê? Uma coisa é por necessidade. Claro que eu, pronto, se calhar ficava muito bem dizer assim: “Ah não, não, sim, eu vou ver que é para ver o que é que eu posso corrigir e fazer melhor”. Mas não!
[27:56] Jorge: Quem é que são os teus grilos falantes?
[27:59] Inês: Quem é que são quem?
[28:00] Jorge: Os teus grilos falantes são aquelas pessoas que nós temos na nossa vida que nos dizem tudo como os malucos e que nos dão às vezes… sim, que não nos poupam.
[28:10] Jorge: A minha mulher diz-me sempre: “Não aprendes nada com as coisas que ouves no podcast”. E eu digo: “Pronto, OK, obrigado pelo feedback”.
[28:16] Inês: A minha mãe! A minha mãe é um ótimo grilo falante.
[28:18] Jorge: Diz as coisas todas?
[28:19] Inês: Diz-me, diz-me. Sempre disse, sem grandes… é assim, elogia quando é preciso, mas também quando acha que a coisa não foi boa, também me diz. E isso é ótimo.
[28:29] Jorge: Eu também me estou a divertir porque há muitos, muitos anos quando experimentei pela primeira vez televisão…
[28:34] Inês: Como se estivesses a falar de um prato: “Quando experimentei pela primeira vez bacalhau espiritual”…
[28:38] Jorge: Tal e qual, é isso! E o comentário da minha mãe é maravilhoso porque ele não é técnico, ele não tem a ver com o orgulho do seu filho estar a fazer televisão. O comentário foi claro e direto: “Estás gordo”.
[28:52] Inês: Exato! Adoro! A minha mãe também às vezes diz essas coisas: “Não devias usar aquele cabelo assim, não fica bem”. Pronto, mas eu gosto disso! Eu acho que isto é muito melhor do que ter mães e pais que acham que tudo o que os filhos fazem é espetacular e tudo lindo e que eles… Sabe porquê? Essas pessoas depois geralmente vão parar ao “Extremamente Desagradável”. Porque ficam entupidos de vaidade. O ego, exato! Acham que…
[29:21] Jorge: Olha, como é que tu vês as redes sociais? Já não digo como é que tu geres, mas como é que tu vês as redes sociais?
[29:28] Inês: Ainda bem que não é como é que eu giro, porque eu não giro. Ainda sou péssima, sou péssima, sou péssima a brincar às redes sociais.
[29:35] Jorge: A sério?
[29:36] Inês: É porque muitas vezes consumo, claro, consumo demais…
[29:40] Jorge: Vais ver o quê? Qual é a tua… andas por onde?
[29:43] Inês: Ando por onde? Eh pá, sei lá! Eu hoje em dia quase é muito complicado dizer… no feed, não é? Fazes aquele scroll estúpido… Instagram… TikTok tinha e tirei, porque aquilo é um sorvedouro, aquilo é uma espécie de parece que te põe aqui um dreno, sabes? E depois a tua massa cinzenta vai por ali fora. Não, porque aquilo consome-te imenso tempo. Das por ti — de repente — sim, de repente passaram 30 minutos e é tipo “wow, o que é que aconteceu aqui?”. É uma coisa viciante no mau sentido da palavra. Claro, é viciante e está feito para viciar. Porque o algoritmo vai-te oferecendo sempre qualquer coisa que te interessa ver. E se este não interessa, o outro seguinte ou o outro seguinte já se torna muito interessante. E agora estávamos a falar do ego e eu estou a ver algumas personas públicas a produzir conteúdos — alguns que são engraçados, outros são profissionais — mas alguns que são verdadeiros hinos ao ego: “Vejam como eu sou”.
[31:02] Inês: Mas as redes sociais são todas um bocadinho isso, não é? Sobretudo se pensares no Instagram. Mesmo quem desdenha — e eu também posso dizer “ah, não sei quê, as redes sociais” — mas quer dizer, toda a gente volta e meia põe a sua fotografia e põe não sei quê. Isso, num grau menor ou maior, é sempre tudo um bocado “olhem para mim, olhem como eu estou”. Quer dizer, por muito que, mesmo as pessoas que dizem que não, eu própria, não é? Quer dizer, se eu ponho aqui uma fotografia, não é? É um bocado… eu acho que é um bocado uma ilusão as pessoas acharem que não é. Sendo que hoje em dia depois isto também acaba por ser, não vou dizer que é uma ferramenta de trabalho, mas é um bocado esta ideia de que de repente parece que é currículo ter não sei quantos seguidores e não sei quantos likes.
[31:47] Jorge: Tu estás ali à cata do like, do comentário?
[31:51] Inês: Não, não, não.
[31:52] Jorge: E vais lá escrever, vais ver os outros conteúdos e no fundo és uma ativa ou passiva nesta tua relação?
[31:59] Inês: Sou, se calhar, se tivesse que escolher, não sou muito ativa, não comento imenso. Portanto, vais lá espreitar e o que é que acontece? Passo bastante tempo, tempo a mais, devia passar menos. Mas não, não sou muito comentadeira, não.
[32:15] Jorge: Eu saltei aqui há bocado, estavas a falar de “vou-me rever para ver se fiz tudo bem”…
[32:21] Inês: Não, não, eu quando disse “vou-me rever” estavas a falar do podcast. Porque eu tenho de editar as entrevistas, tenho de depois e…
[32:32] Jorge: E és tu que vais editar?
[32:33] Inês: Sim. Quer dizer, não sou eu que edito, há um editor que faz, mas eu edito no sentido o que é que é para cortar e o que é que não é.
[32:41] Jorge: O que é que torna um conteúdo interessante ou não interessante? O que é que torna um podcast, um pedaço de podcast, apetitoso para ti?
[32:48] Inês: O que é que torna… bem, sei lá. Um podcast apetitoso para mim: não ser muito longo.
[32:55] Jorge: Para não chatear as pessoas?
[32:56] Inês: Sim, mas acho que isso é um bocado porque tu ouves um bocadinho aqui e outro bocadinho ali. Mas às vezes quando são muito, muito, muito longos…
[33:01] Jorge: Estás a falar de longo ou maçudo?
[33:04] Inês: Pois, nem sempre um longo é maçudo. Há cinco minutos que demoram dois e há dois minutos que demoram dez, não é?
[33:12] Jorge: Absolutamente, é isso! A conversa tem um ritmo…
[33:16] Inês: Eu acho que depende muito também do que é que… sei lá, há tantos podcasts e com tantos temas. Por exemplo, eu conversas… se for uma conversa muito boa, não me importa que aquilo demore duas horas, se for preciso.
[33:30] Jorge: O que é uma conversa boa?
[33:32] Inês: Uma conversa boa é uma conversa, eu acho, com a qual eu possa aprender alguma coisa com uma pessoa que eu admiro e que tenha curiosidade para perceber como é que essa pessoa chegou ali. Eu acho que é isso que me prende, se calhar é o saber poder aprender qualquer coisa.
[33:53] Jorge: E que te deixa seguir o percurso dela. Os podcasts que me irritam é do convidado cassete, o convidado que eu quando já estou a ouvir já sei por onde é que vai.
[34:03] Inês: Já se torna previsível. Não, embora depois haja exceções, que há convidados que são previsíveis e que eu continuo a divertir-me e a rir-me muito quando os estou a ouvir. Mas interessa-me saber essa, lá está, essa dinâmica.
[34:16] Jorge: Uma conversa boa é uma conversa honesta, eu acho. Porque é que é tão difícil ter conversas verdadeiramente honestas? É uma pergunta que eu te faço.
[34:28] Inês: Hum… Isso não é uma pergunta simples! Aqui tinha de haver uma, quer dizer, de vez em quando tem que haver uma… Porque é que é tão difícil ter uma conversa honesta, mas o quê? Num podcast? Em todo o lado! Penso naquela ideia absurda de termos todos o síndrome da verdade e passamos em todo o lado e dizer tudo o que pensamos sobre as pessoas. Eu acho que mais do que o síndrome da verdade, se calhar temos todos um bocadinho o síndrome da virtude.
[34:55] Jorge: É para poupar os outros e a nós?
[34:58] Inês: Não é para poupar os outros, eu acho que é um bocadinho talvez… ou é uma hipocrisia sistémica? Eu não sei bem, eu não sei se concordo com essa afirmação de que não é possível ter uma conversa honesta. Eu acho que é possível.
[35:10] Jorge: Mas dá trabalho.
[35:11] Inês: Dá, porque tu quando vais — isto é aquele momento agora em que eu citava uma frase: como eu vi no outro dia não sei quem dizer não sei quê… — mas lembrei-me disto porque por acaso esta semana li uma coisa sobre isso interessante. Mas eu acho que, e tinha a ver basicamente com isto: eu acho que tu tens que ir preparado para te expores um bocado. Ninguém vai para seres vulnerável, para estares num sítio em que não sabes tudo e tens que ouvir. Eu acho que tens que ouvir. O teu convidado aqui, o Rui Melo, falava sobre isso, sobre a importância da escuta, mas a escuta real. Não é aquela escuta que eu estou a ouvir “ah pois, eu uma vez também me aconteceu isso” e de repente a conversa já é sobre ti, já não é sobre a pessoa com quem tu estás a falar.
[35:54] Jorge: Portanto, é o escutar para mudarmos coisas e é o escutar para entender o outro, é um ato de profunda empatia.
[35:58] Inês: Eu acho que sim. Eu acho que esse escutar realmente e despender tempo a conversar e a ouvir… Porque se tu pensares, eu às vezes aflijo-me um bocadinho esta ideia de tudo isto, os telefones, as redes sociais, tudo o que mudou e tanto nos últimos tempos é muito virado para uma ideia de autossuficiência que é um bocadinho aflitiva se tu pensares. Porque tudo de repente, hoje em dia, se tu quiseres estar em casa sozinho, sem falar com ninguém, e o almoço chega à tua porta e tu também não tens que falar com a pessoa que leva o teu almoço, porque há uma aplicação onde tu pedes o teu almoço, não há interação com humano nenhum. E o não sei, às vezes penso: vamos perder a capacidade de ir pedir sal ao vizinho. São estas competências sociais que as pessoas têm que desenvolver, conversar uns com os outros. Isto é tudo muito… é tudo o “auto-tudo”: é o autocuidado, é o auto não sei quê. É tudo feito para nós mirrarmos e definharmos na nossa própria existência. Qualquer dia acho que implodimos, não sei.
[36:58] Jorge: Quero cortar este excerto!
[37:00] Inês: Não vou cortar nada!
[37:01] Jorge: Mas quero fechar com uma nota positiva até porque tu tens que ir buscar as tuas crianças e isso é uma conversa de verdade, não há nada a fazer!
[37:09] Inês: É uma conversa de verdade! Precisamente!
[37:11] Jorge: E eu faço muita questão de estar presente, ir buscar, de não faltar a nada do que são as coisas importantes. Isso para mim é estar presente. O que é que te expande?
[37:25] Inês: O que é que me expande? E eu agora respondia: o glúten! Não. O que é que me expande? As pessoas. Eu acho que as outras pessoas. Pessoas com quem eu aprenda mais qualquer coisa, que me acrescentem, eu acho que é isso. No fundo que me expandam, lá está.
[37:45] Jorge: Podemos fechar? Isto é teu. Bom dia da rádio!
[37:48] Inês: Feliz Dia da Rádio! Viva a rádio!
[37:50] Jorge: Inês, muito obrigado.
[37:51] Inês: Obrigada, Jorge.
[37:53] Jorge Correia: E a Inês teve mesmo de ir. Não há edição que resolva a urgência de ir buscar os filhos à escola e na verdade esse é o final perfeito para esta conversa porque rádio, tal como a Inês a descreveu, não é uma performance assética feita por máquinas ou algoritmos. É a vida a acontecer em direto. Fica a nota sobre a carga mental invisível, mas fica sobretudo o alerta sobre a cultura do “auto-tudo”, do almoço que chega sem falarmos com ninguém ou da perda de competências sociais básicas. Se este episódio lhe deu vontade de ir pedir sal ou salsa ao vizinho, ou simplesmente de escutar alguém com mais atenção, então o objetivo está cumprido. Porque, como disse a Inês, são as pessoas que nos expandem. Pode voltar a ouvir esta e outras conversas como a de Rui Melo sobre a escuta ou a de Manuel Marques sobre o humor em perguntasimples.com. Estão também disponíveis todos os episódios no Spotify, Apple Podcasts, YouTube ou no RTP Play. Se gostou, subscreva, partilhe com um amigo, ajude-nos a furar a bolha do algoritmo e a manter a conversa viva. Eu sou o Jorge Correia, volto na próxima semana.
