Há uma coisa que um noticiário não consegue fazer.
Pode escolher o tom. Pode serenar ou alarmar. Pode entrar pela casa das pessoas à hora do jantar com uma voz que diz, mesmo sem palavras, que há alguém ali a tomar conta das coisas. Mas não pode dizer o que o jornalista sabe e não consegue dizer. Essa é a fronteira. E Rodrigo Guedes de Carvalho passou quarenta anos a habitá-la.
A primeira coisa que disse, nesta conversa, foi que nunca quis ser jornalista. Queria ser romancista. Queria ser publicitário, «na senda do Ary dos Santos e do Alexandre O’Neill». O jornalismo aconteceu-lhe. Saiu do curso, foi ao centro de formação da RTP, saiu-se bem, ficou. Quarenta anos depois, ainda está. Não com mágoa, diz ele, mas também sem ilusões sobre o que ficou pelo caminho.
O que ficou pelo caminho é a ficção. Não completamente, não para sempre, tem onze livros publicados, o mais recente dos quais o trouxe a esta conversa. Mas há uma frase que disse quase de passagem, sem dramatismo, como quem resolve uma equação que não pediu para resolver: «Quando um dia eu morrer, o que eu quis dizer está nos livros, muito mais do que no jornalismo.» Não é uma queixa. É uma resposta. A resposta de alguém que percebeu, a meio do caminho, que escolheu a caixa errada para guardar o que mais lhe importava.
O Meu Primeiro Apocalipse passa-se em Portugal, no ano 2066. Nos céus há mais drones do que pássaros. A água é racionada. Toda a gente tem os olhos tapados com Eyephones. No centro da história, uma ministra da Influência que nunca teve cargo oficial e foi sempre a sombra de cada líder, «a Ava Carina só conhece um partido, que é o partido Ava Carina». A personagem é um camaleão ético, um arquétipo que RGC reconheceu ao longo de décadas: o oportunista sem bandeira, que se adapta a qualquer regime em nome da própria sobrevivência. Não a inventou. Reconheceu-a.
A graça da distopia, como ele próprio diz, é que o futuro que descreve já existe em grande parte. Os ciclos políticos cada vez mais curtos, a atenção destruída, a descrença no jornalismo que nasceu nos grupos de WhatsApp da pandemia, «nós não precisamos do jornalismo para nada», a frase que detesta, e que ouviu pela primeira vez em 2020. Foi aí que começou, segundo ele, a sensação de que qualquer cidadão com um telemóvel sabe mais do que qualquer redacção. O medo activou a ignorância, e a ignorância gerou os extremismos que agora governam o debate público. «O medo é o grande motor da ignorância.» Dito com a contenção de quem já viu isto a acontecer demasiadas vezes para se surpreender.
Há uma coisa que o perturba mais do que a desinformação. É o jornalismo que, «com sede e medo da concorrência», instila ansiedade em vez de serenar. A locomotiva a vapor que precisa de carvão permanente. Os canais de vinte e quatro horas que transformam dois ou três temas relevantes em maratonas de oito horas. O jornalismo demasiado ocupado a fazer para pensar. Disse isto, «nada me daria maior prazer que juntarmos 500 jornalistas numa sala e falarmos sobre o que andamos a fazer», e não era uma sugestão de evento. Era um diagnóstico. Dito por alguém que ainda está dentro do sistema que critica.
A inteligência artificial apareceu no final da conversa, como aparece em quase todas as conversas sobre jornalismo. RGC não a usa, não a experimenta, não sente curiosidade. O argumento é simples e radical: «Estamos a ensinar a máquina a tomar conta de nós. Em nome de quê?» Contou a história de um estagiário que lhe apareceu com uma peça feita por IA. Olhou para ele e perguntou: «Mas que tipo de ambição é esta? Que contributo para o mundo é que tu trazes?» Não é nostalgia. É a pergunta de alguém que acredita que a subjectividade, cometer erros, ter emoções, escolher um tom, é exactamente o que separa o jornalismo da automação.
O tom. Voltámos sempre ao tom. A decisão de entrar num noticiário e serenar em vez de alarmar. A escolha de partilhar o espanto durante a pandemia, de sair da distância habitual e dizer às pessoas que também não sabia o que estava a acontecer. Aqueles dez minutos antes do Jornal da Noite, em que sabe algo que os portugueses ainda não sabem, e vai ser a sua voz, o seu rosto, o seu tom a dizer-lhes. «É tudo na apresentação de um jornal. O tom.»
Perto do fim, falou do António Lobo Antunes. Das conversas sobre miudezas, do sentido de humor perante as palermices do mundo, de uma tarde na Feira do Livro em que se aproximou por trás de um homem já debilitado, o abraçou e lhe deu um beijo. E o homem, sem o ver, reconheceu-o apenas pela presença e disse: «Rodriguinho, já chegaste então.» É a história mais pequena e mais importante desta conversa. A história de uma relação que não precisa de se explicar. De duas pessoas que se conhecem sem precisar de palavras.
É o que a literatura faz, disse ele. «É uma forma inútil, mas maravilhosa, de as pessoas se conhecerem sem nunca se terem visto.»
Quarenta anos a dar notícias. O que fica?
Ficam os livros. Ficam meia dúzia de pessoas. Fica a pergunta sobre o que andamos a fazer, que continua sem resposta, e é isso que a torna importante.
A conversa completa com Rodrigo Guedes de Carvalho está disponível no Pergunta Simples
Ler transcrição completa
Rodrigo Guedes de Carvalho
00:00
A escrita de ficção, para mim, é um exercício de liberdade, de expressividade. Quando um dia eu morrer, a forma como eu me expressei neste mundo, não é a marca que quis deixar, não vou aí. A forma como eu me expressei, o que eu quis dizer, está nos livros, muito mais do que no jornalismo.
Jorge Correia
00:20
Pergunta simples. Um programa sobre comunicação. Para quem quer boas respostas. Há uma coisa que um noticiário não consegue fazer, nem tampouco um dos mais experientes apresentadores dos principais jornais televisivos do país. Pode dar-se a notícia, pode escolher-se o tom, pode serenar-se ou alarmar-se as pessoas, mas não se pode dizer o que o jornalista não sabe ou não consegue dizer. Há 40 anos que Rodrigo Guedes de Carvalho entra pela Casa dos Portugueses, deu más notícias, narrou guerras, descreveu catástrofes e fê-lo com uma contenção que com o tempo se tornou ela própria uma mensagem. O que eu não sabia ao preparar esta conversa é que ele nunca quis ser jornalista, pelo menos no início. Queria ser romancista, queria ser publicitário, mas o jornalismo aconteceu-lhe. E ainda bem. Desde 1992 que os dois ofícios coexistem. 11 livros publicados ao longo de 30 anos. Em paralelo, está como cara do Jornal da Noite da SIC. O mais recente romance passa-se em Portugal, no ano de 2066, com drones nos céus, com água racionada e toda a gente com os olhos tapados a olhar para um ecrã. No centro da história, uma ministra da influência que nunca teve cargo oficial, mas foi sempre a sombra de cada líder. Parece-vos uma história muito longínqua ou já vemos aqui sinais de coisas que se calhar já se vão passando hoje em dia. Mas há uma frase que ele diz na promoção do livro que me ficou mais do que qualquer personagem do livro. A frase é Nada me daria maior prazer do que juntarmos 500 jornalistas numa sala para falarmos sobre o que andamos a fazer. O que andam a fazer os jornalistas. Isto não é uma sugestão de um evento. Isto é um diagnóstico de crise de uma profissão, do jornalismo. Dito por alguém que ainda está dentro do sistema que critica. Hoje a conversa é sobre isso, sobre o que um jornalista sabe e não consegue dizer, sobre o que a dor dos outros faz a quem a comunica durante décadas e sobre o que fica quando 40 anos de notícias finalmente param um bocadinho para fazer um balanço. Convosco, Rodrigo Guedes de Carvalho. Tu estás apresentado há mais de quantos? 30 anos?
Rodrigo Guedes de Carvalho
02:39
Mais? 34 só de SIC. Com RTP são 40 de profissão. Xissa.
Jorge Correia
02:47
O diá de ainda é prazeroso ao fim desse tempo?
Rodrigo Guedes de Carvalho
02:51
É. Embora uma das coisas curiosas eu acabei por fazer 40 anos de jornalismo quando eu nunca quis ser jornalista. Foi uma coisa que me aconteceu. Normalmente é um banho de água fria quando vou a sessões com jovens estudantes de comunicação social e vem sempre aquela pergunta, não é? Que eles querem que seja inspiradora. E quando é que sentiu o apelo e o sonho de ser jornalista? Nunca me aconteceu. Eu queria ser publicitário, eu queria ser romancista e publicitário na senda do Arito Santos e do Alexandre O’Neill e o jornalismo, tive que andar à procura de emprego no final do curso, saí-me bem no centro de formação da RTP e quando por ela estava na redação então percebi que aquilo iria ser mais ou menos, a minha carreira. E, portanto, não escolhendo o jornalismo, habituai-me depois a gostar dele e, sobretudo, a respeitá-lo.
Jorge Correia
03:53
Não vale a pena, portanto, fazer grandes planos, que nós escolhemos várias coisas e depois aparece…
Rodrigo Guedes de Carvalho
03:58
Sim, todas as vidas serão diferentes, mas é curioso, o Agostinho da Silva dizia muito isso, os planos que a vida tem para nós, que são sempre mais fortes do que aquilo que nós possamos desejar ou prover. mas no meu caso, não digo isto com mágoa nenhuma, pelo contrário, foi uma profissão em que me saí bem, que aprendi a gostar e que é, respondendo à tua pergunta, sim, é um prazer ser jornalista.
Jorge Correia
04:26
Aparecer todos os dias na televisão, ali à hora do jantar e contar as notícias, implica a construção de uma credibilidade, de uma ideia de ser aquele, do provedor das notícias no fundo. estão aqui as notícias que nós conseguimos aqui a repanhar mas ao mesmo tempo obriga-te ou obrigou-te a criar uma carapaça de ti próprio ou aquele que ali está és tu?
Rodrigo Guedes de Carvalho
04:51
Obrigou-me acho que aqui entramos na zona em que penso que muitos atores também entram que é representar tão bem um papel que ele seja absolutamente orgânico e o mais, e parecendo que não estamos a representar. Agora, é impossível não se estar de alguma forma a representar porque se está num papel outro, ou seja, aquilo não é uma situação normal. Eu estou, de fato, em gravata, com os holofotes em cima e sei que ao falar, o que eu vejo à frente é apenas uma câmara escura, mas eu estou a falar para milhões de pessoas. Portanto, não é uma situação normal. Nesse sentido, eu não estou ali como quem está em casa. A questão da visibilidade foi complicada para mim porque eu sou o contrário da pessoa que quer ser visível. E foi muito difícil, eu tive que aprender, foi uma grande escola de autopsicologia, eu aprender a viver com a minha figura pública, porque eu sou muito tímido, sou de poucas falas, fico muito embaraçado quando se dirigem a mim. E, portanto, eu tive que conviver isso durante todos estes anos, hoje em dia estou muito pacificado com isso, Mas não foi nunca, tudo isto para te dizer, a posição de ser o pivô do Jornal da Noite, o pivô do Prime Time, nunca foi o objetivo em si. Mas não te dá uma vaidade? Não, não, vaidade nenhuma. Dá-me uma responsabilidade. Que é diferente. E eu gosto dessa responsabilidade. Ou seja, aquela sensação, repara, sobretudo quando temos notícias de última hora, ou exclusivos, ou notícias importantes, ou não sei o que mais. Aqueles 10 minutos antes do Jornal da Noite, em que eu sei algo que os portugueses ainda não sabem, e que vão saber, através do meu rosto, da minha voz, do tom, que eu acho que é tudo, é tudo na apresentação de um jornal, o tom. Mesmo na televisão? É o que nos diferencia. Sim, sim, sim. O tom. O tom pode ser alarmista, pode ser excitado, como pode ser sóbrio, como pode ser tranquilizador. Aí é a nossa escolha, é a escolha do profissional. E, portanto, essa responsabilidade é algo que me agrada e que me orgulha. Não tenho vaidade no sentido, eu não sou mais do que ninguém, por isso simplesmente pelo meu rosto ser mais reconhecível do que outros.
Jorge Correia
07:13
Mas ganhas essa credibilidade também pela exposição e depois pelo tom. Essa ideia do tom é para mim interessante. Lembro-me com clareza dos tempos da pandemia, em que tu apareceste a contar as notícias, num tempo de grande incerteza, mas também em determinados momentos a editorializar um bocadinho, uma coisa que…
Rodrigo Guedes de Carvalho
07:35
Eu diria que eu editorializei, eu diria que eu partilhei da forma mais sincera possível o espanto que eu próprio estava a sentir em relação à situação. E sempre me pareceu que seria absolutamente ridículo nós estarmos a viver… Nós hoje olhamos para a pandemia até com alguma irritação, esses tempos das máscaras e não sei o quê. Mas se recuarmos ao início daquilo, foi uma coisa assustadora. Nós não sabíamos, na verdade, o que é que estávamos a viver e foi talvez a primeira experiência coletiva, e aqui sim, no país e no mundo, a primeira experiência coletiva de um certo sabor a apocalipse. O que é que se vai passar? Durante quanto tempo é que isto vai durar e quais são as consequências para nós? E eu não saber nada. Exatamente. Achei que seria ridículo. Que seria, então, seria sim aí reduzir os pivôs dos jornais a meros robôs que podem ser substituídos pela indiferença artificial, se eu me limitasse a chegar ali e a ler comunicados ou telexes com o ar mais seco do mundo, com que toda a gente diz que deve ser, que as pessoas confundem essa segura com a objetividade. Mas isso é outra história. Então eu quis comungar do meu espanto, eu próprio, não sei o que vos digo, eu não sei o que é que se está a passar, vamos todos estar a aprender em todo este processo. E criou-se aí uma primeira, olha, um primeiro vislumbre do que vivemos hoje, que são os fundamentalismos. Houve pessoas que se sentiram absolutamente apoiadas por mim, nesse aspecto, acompanhadas em casa, e houve pessoas que passaram a odiar-me porque eu era um moralista, ou porque era não sei o que mais, ou porque lia poemas, ou porque estava a fazer o jogo do governo e dos gajos das vacinas, e essa coisa toda. Eu acho que a pandemia foi o primeiro grande momento, aliás, se reparar-se, o André Ventura era um deputado solitário pouco antes do início da pandemia, em 2019, e nós saímos da pandemia, todos, enquanto experiência coletiva, em posições absolutamente extremadas.
Jorge Correia
09:55
O medo ativou, no fundo, esta nossa polarização, ou pelo menos potenciou?
Rodrigo Guedes de Carvalho
10:01
Sim, claro, porque o medo é o grande motor da ignorância. Tem imensas matizes, mas, obviamente, todos os ignorantes têm muito medo, Até porque o ignorante, no limite, ele sabe que não sabe muitas coisas e, portanto, isso faz-lhe medo. É uma reação absolutamente empírica do ser humano. O que eu acho é que, e aqui sim, a questão das vacinas foi apenas o primeiro tubo de ensaio de uma divisão da sociedade, que hoje se verifica em tudo, não é só no chega, não chega, é também no ama o Cristiano Ronaldo ou então odeias o Cristiano Ronaldo e por aí fora, nós hoje não conseguimos discutir absolutamente nada que tenha uma adversativa que é… Eu, por acaso, acho que o Cristiano Ronaldo foi muito bom, mas, a partir do momento que dizes, mas estás condenado, porque a sociedade obriga-te a estares ou num polo ou no outro e isso começou muito na pandemia
Jorge Correia
11:08
Estamos a gravar já agora numa sexta-feira a seguir à madrugada em que Portugal ganha à seleção de Modric É curioso o fenómeno Cristiano Ronaldo, lá está essa polarização nós não conseguimos observar e dizer sim, foi um grande jogador sim, agora tem 40 anos e é da vida que as coisas correm menos bem Não, se tu dizes ele devia ir para o banco, todos os ativos para o Ronaldo caem-te em cima, e o contrário também. Sim. Perdemos a racionalidade das coisas?
Rodrigo Guedes de Carvalho
11:44
Perdemos, acho que perdemos. As discussões sobre o Ronaldo são particularmente patéticas. eu vi não consigo acompanhar tudo mas apareceu-me no algoritmo uns insultos absolutamente selváticos das irmãs do Cristiano Ronaldo ao Carlos Daniel porque pelos vistos ele terá dito qualquer coisa sobre o Ronaldo no sentido que o Ronaldo deveria ser substituído ou entrar só ou jogar só 30 minutos isto não quer dizer que não se goste do Ronaldo ou que não se respeite o Ronaldo ou que não se venere até tudo o que o Ronaldo nos trouxe.
Jorge Correia
12:21
A palavra é venerar.
Rodrigo Guedes de Carvalho
12:22
É, mas lá está. Hoje em dia não se admite nenhum mas. Tu só podes ou adorar, idolatrar o Ronaldo e ser para sempre subjugado por tudo o que ele nos deu ou então és um tipo que odeia o Ronaldo. E portanto, isto é apenas mais… Eu nem sequer faço nenhum… Olha, no Jornal da Noite não faço nunca nenhum comentário sobre isso. Neste momento tenho uma crónica no Expresso. Não me ocorreu durante, em nenhum momento, escrever uma linha sobre isso. Porque eu já sei o que é que isso vai desencadear. E são campeonatos para os quais eu já dei.
Jorge Correia
13:04
Olha, há uma frase tua, uma frase ou uma provocação, ou uma vontade, ou uma iniciativa, podemos ver o que é que ela quer dizer, Gostava de juntar 500 jornalistas numa sala. Para quê? Para que juntar este grupo de 500? Enfim, imagino que o grupo de 500 é uma amostra.
Rodrigo Guedes de Carvalho
13:21
Disse isso como podia ter dito outra coisa. Isso foi tomado muito à letra. Não quis dizer… Foi só um debate. Não, não foi só um debate. Nós funcionamos muito por imagens. A minha imagem, a imagem que eu quis dar é nós somos uma classe que nesta altura tinha tudo a ganhar se discutisse o que é que ia andar a fazer. Foi basicamente isso.
Jorge Correia
13:45
O jornalismo está com problema de comunicação, de comunicar a sua própria atividade?
Rodrigo Guedes de Carvalho
13:48
O problema, eu acho que o jornalismo está mergulhado e aqui o jornalismo já neste momento é absolutamente geral. Ou seja, já não há o jornalismo de imprensa ou da televisão ou da rádio, até porque, e como vai provar este podcast, gravamos na rádio, mas também tem vídeo e vai ser transmitido digitalmente nas redes sociais, onde está toda a gente. Neste momento temos todas as mesmas armas. As televisões, as rádios, os próprios jornais. Ainda há pouco comentávamos que os jornais, quando surgiram no digital, limitavam-se a copiar o papel e perceberam rapidamente que tinham também que ter vídeo e que também tinham que ter áudio, essa coisa toda. Portanto, o jornalismo, ele próprio, tornou-se um mídia global com as mesmas armas. Passamos a ser um meio híbrido, no fundo. E está muito ocupado, como tem muita coisa para fazer, tem muita coisa para alimentar. As televisões de 24 horas têm que estar no ar 24 horas. As rádios, desde sempre, têm os seus noticiários de hora a hora. E agora o digital é uma nova máquina devoradora que tem que ser alimentada, tem que alimentar o algoritmo, chamar as pessoas para que elas continuem ali e não vão para o adversário. Tudo isto leva ao quê? O jornalismo está demasiado ocupado a fazer, a executar, do que a pensar. E eu cresci num jornalismo em que, nas várias redações, começando pela DRTP, eu ainda era muito jovem e estava na editoria de desporto, mas já tínhamos grandes discussões sobre a profissão, e depois no início da SIC, que foram anos fervilhantes, os anos do Rangel, que ele próprio instigava, ele e o Balsemão, instigavam os jornalistas, no bom sentido, a debaterem uns com os outros. Se alguém tinha uma crítica a fazer à reportagem do colega, dizia, nós chegámos a fazer plenários sobre alinhamentos. Porquê que abres com esta notícia e não abres com aquela? Precisamente, mas o que é que nos passou? Porquê que nos falhou aquela notícia? Porquê que demos este tom a esta notícia que foi um tom não sei o quê? Falávamos sobre a profissão. E hoje em dia é muito difícil encontrar jornalistas que queiram falar sobre a profissão, que estão todos a fazer. Estamos a ficar todos amorfos? Sem dizer se estamos…
Jorge Correia
16:11
Porque é curioso que ao mesmo tempo que o mundo acelerou e se torna mais polarizado, parece que os jornalistas, que eram os donos da bola, no fundo, se abstenham agora de participar evitando até de discutir o seu próprio métier, o seu próprio negócio, a sua própria maneira de fazer.
Rodrigo Guedes de Carvalho
16:29
São coisas diferentes. Uma coisa são os jornalistas e outras é quem são os chefes, os diretores, os presidentes, os donos disto tudo do jornalismo e o que é que eles esperam? Que os jornalistas, sob a sua alçada, façam. Isso é outra coisa. Eu tive a aventura de trabalhar praticamente toda a minha vida profissional para o Francisco Pinto Balsemão. Um luxo. E foi um luxo. Foi, de facto, um luxo. Muitas pessoas não saberão nunca o que é porque foi dos homens mais íntegros e mais independentes que eu conheci. E que pagou alguns preços que as pessoas não sabem a sua independência através da SIC e do Expresso, que levou a que a SIC e o Expresso pudessem confrontar amigos dele ou pessoas anunciantes que tinham interesses, que contavam muito para as contas da SIC e do Expresso. e não foi por isso que se deixaram de fazer notícias sobre ele. Agora, os jornalistas nem sempre são aqueles que decidem o que é que a SIC ou o que é que a CNN, enquanto entidade editorial, vai fazer. Por vezes há pessoas, nós nem sempre estamos de acordo na SIC, ou no cálculo que na RTP, nem sempre estamos todos de acordo numa relação sobre o alinhamento que nós apresentamos. Agora, o que me parece é que aquele jornalismo de furar, de denunciar, de procurar histórias próprias, por exemplo, está em decadência, talvez até por imperativos económicos. Se tu reparares hoje, eu lembro-me que era muito caro o jornalismo televisivo, por exemplo, é um jornalismo muito caro. Ou mandar um repórter para a guerra, por exemplo. O repórter para a guerra, mandar sobretudo o repórter de imagem com toda a sua parafernália. E hoje em dia nós temos, por exemplo, este caso do Anthony Wells, que está na Venezuela, sozinho com um telemóvel. E ele faz diretos de televisão. Ou seja, as tecnologias criaram uma rapidez e uma facilidade que faz com que, com que neste momento, com jeitinho, qualquer pessoa finja que é jornalista ao fazer mais ou menos aquilo que os jornalistas fazem.
Jorge Correia
19:02
Um repórter cidadão no fundo, que está em todo lado.
Rodrigo Guedes de Carvalho
19:05
Um repórter cidadãos que estão absolutamente… Olha, outra coisa que nasceu na pandemia, lembro-me que das coisas mais graves que eu senti na pandemia, foi quando, muito a propósito da questão das vacinas, de repente começou a haver grupos de WhatsApp que reclamavam que eles é que sabiam a verdade sobre o que é que se estava a passar. Que a comunicação social estava a mentir-nos e que eles tinham áudios de médicos que comentavam entre si que íamos todos morrer. Uma forma de descredibilização também do jornalismo. Claro, é isso que eu estou a dizer que começou na pandemia. Começou a sensação de que, ó malta, vamos cá pensar numa coisa. Nós não precisamos do jornalismo para nada. é quando nasce, aliás, a expressão que detesto, jornalixo, que neste momento é utilizada por toda a gente e é utilizada sempre que o jornalismo emite uma notícia que não agrada àquela pessoa. É tão simples quanto isto. A partir daí, o jornalismo, para essa pessoa, é jornalixo. Mas nasceu aí. Nós não precisamos do jornalismo. Nasceu esta ideia.
Jorge Correia
20:14
Nós sabemos tudo e eles estão-nos a esconder a verdade.
Rodrigo Guedes de Carvalho
20:16
Eles estão-nos a esconder a verdade. E, na verdade, nós não precisamos do jornalismo oficial, porque cada cidadão, nesta altura… E houve um comentário que eu achei espantoso, que eu disse, é que está o pronúncio dos novos tempos, de um tipo que dizia assim, eu deixei de ver as notícias na televisão, e diz o outro assim, então, mas como é que sabes das coisas? Sei através de um grupo de WhatsApp. Então esta pessoa acha que o grupo de WhatsApp para onde está com os amigos, é perfeitamente suficiente para ele ser informado de forma correta e objetiva sobre o que se passa no mundo. Até por causa desse estranho fenómeno que é, se eles estão a dizer isto e eu estou de acordo, claro que é verdade. Claro, pois, mas isso é mais… Essa humaníssima tendência tinha que, obviamente, tomar conta dos tempos modernos. As pessoas olham para a sociedade sempre no sentido de o jornalista sério é aquele que dizas ou que escolhe as notícias que me agradam não é o outro
Jorge Correia
21:21
Olha, eu gosto muito do Rodrigo porque ele acabou de me dizer uma coisa que obviamente ele tem razão ou então não senhora, ele acabou de me dizer uma coisa que é absolutamente inaceitável, ele nem sequer devia ser jornalista
Rodrigo Guedes de Carvalho
21:30
Obviamente não, mas é assim que funciona e saio de fonte segura porque mesmo que eu tenho uma participação muito rudimentar nas redes sociais mas houve tempos no início do Facebook, só estou no Facebook e no Instagram, não estou em mais sítio nenhum. E houve algumas publicações no Facebook em que tinha pensamentos, mas deixei rapidamente ter. Neste momento ele funciona apenas como divulgação dos livros, porque eu não tenho mais saco nem paciência para qualquer coisa que uma pessoa diga é imediatamente atacada por um ângulo qualquer. E depois vêm as pessoas que me querem defender. e que também muitas vezes me defendem irracionalmente. E depois vêm as outras pessoas que querem insultar-me e, portanto, insultam as pessoas que me estão a defender. E pegam-se todos lá. E eu já não tenho saco para isso. E depois há muitos… Isso é que eu acho muito curioso que é mesmo de quem não me conhece. Há dezenas de situações e de polémicas em que estão pessoas a discutir e que me identificam lá como que a chamar-me à discussão. Tu estás a ver o que é que
Jorge Correia
22:42
este está a dizer? Chamar-me à discussão.
Rodrigo Guedes de Carvalho
22:44
Às vezes até para me insultar, não sei o que mais. Pai, é como aquele não sei o que, Rodrigues Carvalho, identificam-me que é para me obrigarem a ir lá a ver se eu respondo. E isso não te afeta? Não, pá, não. Mas verdadeiramente não. Por quê? Por uma questão de personalidade e porque como começámos aqui por dizer são 40 anos disto. Isto para mim nada disto é novo. É certo que na RTP só tínhamos os telefonemas e as cartas do protesto dos espectadores. Mas eu vivo com isto toda a minha vida. Eu não vou importar-me. Às vezes não gosto muito de dizer assim que me estou a marimbar para o que os outros dizem porque parece uma soberba. Mas no limite, não. Haverá meia dúzia de pessoas, duas das quais faleceram este ano, o António Lobo Antunes e o Pinto Balsemão. haverá meia dúzia de pessoas que me importam o que é que pensariam sobre mim. O resto importa-me pouco. E depois aqueles que me são próximos e aqueles que eu sei que realmente gostam de mim.
Jorge Correia
23:50
Olha, se posso entrar aí um bocadinho na tua intimidade. O que te dizia António Lobo Antunes? Falavam com alguma regularidade?
Rodrigo Guedes de Carvalho
23:57
Não, muito. Não com grande regularidade. Falávamos de coisas pequenas. O António Lobo Antunes tem, ainda digo que tem, tinha a idade do meu pai. São 20 anos de diferença para mim. E eles quase coincidiram no mesmo local, no Luso, no Alto Coito, em Angola, exatamente na mesma posição, de médicos alféres milicianos. E, portanto, eu comecei por ter uma ligação de leitor e adoração com o António Lobo Antunes, até que finalmente o conheci e comecei a dar-me cabelo. Mas não, nem sequer éramos íntimos. As nossas conversas pouco versavam sobre literatura. Era sobre miudezas, sobre sentido de humor perante as palermices do mundo, mas era uma relação muito, muito tornurenta. Porque eu, por exemplo, desde sempre, eu cumprimentava-o sempre com um beijo. ao António Lobantunes. Uma das coisas mais emocionantes que me aconteceu numa das últimas feiras do livro, em que ele já estava bastante débil fisicamente, ele estava sentado com o seu chapéu à sombra, o mais protegido possível. Lá estava, lá tinha as suas filas proverbiais. E eu, ao aproximar-me do sítio onde também me ia sentar, Aproximei-me por trás e abracei-o por trás e dei-lhe um beijo na cara. E ele, sem ver quem era, disse Rodriguinho, já chegaste. Então tínhamos uma relação eterna que falávamos de mundanidades. Ele era um tipo muito simples no bom sentido. E era um tipo carinhoso.
Jorge Correia
25:48
E genial na escrita. E eis senão quando o Rodrigo Guedes Carvalho resolve escrever um livro chamado o meu primeiro apocalipse o primeiro, quer dizer, pode haver um segundo, um terceiro um quarto, Portugal de 2066 que imaginaste quanto desse espaço desse primeiro apocalipse ou da ameaça da apocalipse, não quero estragar o livro para quem o vai ler já existe hoje em dia?
Rodrigo Guedes de Carvalho
26:13
Eu acho que a graça do livro a tê-la é essa ou seja, ele é tecnicamente uma distopia no sentido que as distopias se passam num futuro. Mas, se reparares, é um futuro que são 40 anos. 40 anos é uma distância curiosa, sobretudo quando um tipo tem 62. É uma brutalidade, 40 anos, quando pensamos caramba, 40 anos é tanto tempo, mas ao mesmo tempo passaram muito depressa. Por exemplo, no meu caso, dos meus 20 para agora passaram muito depressa. E, portanto, como não me interessava nunca escrever uma coisa sobre discos voadores no ano 3000 ou outros planetas, ou Martes, ou não sei o que, essas coisas que me estou completamente a marimbar ou proezas da ficção científica, quis projetar o que é que nós seremos daqui a 40 anos para chegar à conclusão, segundo o meu livro, que somos basicamente os mesmos, como já éramos, como no limite, se formos ver, porque é que a grande literatura é grande, porque todos aqueles clássicos desde o tempo de Platão até Balzac escreveram basicamente sempre sobre a mesma coisa, sobre as nossas mesquinhices olha, no fundo, sobre os sete pecados capitais, se tu reparares todos os grandes romances andam sempre em volta desse tipo de sentimentos que guiam os humanos e portanto eu quis projetar o futuro, aquele futuro que se está ali a ler é um bocadinho sim, já estamos, em grande parte já estamos a vivê-lo.
Jorge Correia
27:53
Sendo que ainda há esperança para a humanidade? Quando tu olhas para o homem tu sentes que nós somos intrinsecamente bons ou uma desgraceira que estamos sempre a tentar sucessivamente na realidade suicidados?
Rodrigo Guedes de Carvalho
28:06
Isso é o velho, somos mais da linha Rousseau ou da linha Hobbes. Eu quero ainda eu tenho ainda uma esperança acho que sempre que um homem mulheres se levantam da cama e enfrentam o dia, isso significa que há uma esperança. Obviamente que há momentos de maior desespero há sobretudo quando se tem uma certa, um certo nível de racionalidade e de inteligência, custa muito ver, como dizia o Nelson Rodrigues, a quantidade enorme de imbecis e de estúpidos que vai povoando o mundo e que infelizmente um dia há de tomar conta do mundo porque são muitos, mas eu acho que aquilo que nos cabe fazer, nós devemos ir fazendo. O gesto que queremos ter, o exemplo que queremos dar, provavelmente não são as minhas três garrafas de vinho que vão salvar a humanidade, mas eu faço questão de as levar ao vidrão. E, portanto, o ir vivendo de acordo com princípios é, no fundo, é a grande esperança. E, nesse aspecto, a literatura sempre me ensinou uma coisa primeiro como leitor e depois como escritor, que é… Qual é a grande benção da literatura? O grande papel da literatura é descobrirem seres humanos, por vezes que habitam em países diferentes, descobrirem que são iguais, descobrirem que têm as mesmas preocupações. Tenho essa perceção. Tenho essa perceção. Tive-a como leitor, ao ler Garcia Marques, ao ler Joseph Conrad, pessoas que viveram tempos que eu não vivi em países que eu não vivi, e sentir que pensamos da mesma forma e que víamos o mundo da mesma forma. Também já tenho tido essa experiência enquanto escritor de leitores que me vão dizendo, você traduziu coisas que eu não sabia como dizer e que é exatamente isto. E, portanto, a literatura é uma forma inútil, mas maravilhosa de as pessoas se conhecerem sem nunca se terem visto.
Jorge Correia
30:11
Em contraste com esse homem bom, ou mulher boa, para alargar aqui o leque, Contas a história e vais à procura daqui, por um lado, da existência de uma jornalista, a Abacarina, e por outro lado, de uma ministra da influência. É isso? Não, a ministra da influência é que é a Abacarina. Essa é que é a ministra da influência. Bom, que grande emprego. É o que? O António Ferro dos tempos modernos? O que é que faz uma ministra da influência?
Rodrigo Guedes de Carvalho
30:35
É uma ministra de ser parda? Essa personagem, para quem não leu o livro, é, obviamente, caricatural. É um traço largo de ironia que eu escolhi. É quase uma personagem de banda desenhada, cuja característica é ser uma enorme influenciadora. Ela também é apresentadora de televisão, mas depois tem vários outros negócios. Não és tu, não. Não, não sou eu. Tem várias outras influências, mas ela tem uma grande capacidade que eu acho que distingue muitas pessoas que eu conheci ao longo da vida e que vão aparecendo cada vez mais, de se adaptar a toda a gente. Ela adapta-se a qualquer regime, adapta-se a qualquer tendência, porque ela, como se diz aí, a Avacarina só conhece um partido, que é o Partido Avacarina. Portanto, é uma espécie de camaleão. Isso, claro. E acho que há inúmeros exemplos de camaleões que são pessoas que vão se engrandando na vida com o objetivo da sua sobrevivência e do seu plano e que se adaptarão às esquerdas, às direitas, às cores, aos emblemas.
Jorge Correia
31:45
Se nós quiséssemos criar um perfil psicológico desse género de pessoas, estamos a falar de pessoas intrinsecamente oportunistas, pessoas que encontram o seu caminho e conseguem ir flutuando dentro dessas correntes do poder e da comunicação.
Rodrigo Guedes de Carvalho
32:02
Eu acho que nós, o intrinsecamente, certo? Oportunistas, sem dúvida. Eu pensei que dizias egoístas. Egoístas também? O egoísmo não é necessariamente um defeito. E não é uma coisa mal. Tal como orgulho. Acho que no limite todos nós, no fundo é aquela coisa, até numa psicologia ponto zero, nós temos que estar bem connosco e gostar de nós para nos relacionarmos com os outros de forma saudável. A questão é o que é que nós somos capazes de fazer para se ingrar, para ter mais fama, para ter mais dinheiro, para atropelar um competidor. Isso, para mim, é que normalmente define as pessoas. Não é elas quererem uma vida boa para si, ou um bom projeto para si. É uma ausência da ética? Sim, no limite sim, é uma ausência de ética. Porque a ética é uma coisa que eventualmente nascerá com as pessoas, mas que é muito bebida da educação. Pode ser aprendida. Do caldeirão. Pode e deve, e deve ser aprendida, e normalmente é. É por isso que tu tens de costume dar este exemplo. Eu tinha um grande amigo meu, de uma família de alta burguesia do Porto, que infelizmente foi apanhado nas chamadas malhas das drogas duras, e que eu um dia visitei numa instituição psiquiátrica e tive um sorriso ao vê-lo, porque era a hora da refeição, e eles eram para aí 20, e eles tinham todos um ar terrível de doentes e de maltratados, estavam num processo terrível, e ele era o único que tinha maneiras à mesa. porque as trazia de família e de educação. E é curioso que essa educação pelo exemplo, pelo exemplo e não pelo sermão, a educação pelo exemplo de nos levantarmos se uma pessoa mais velha entra na sala, de deixarmos passar uma senhora à frente, ou seja o que for, ou dizermos sempre obrigado, ou faz favor, ou com licença, é uma coisa que, quando as pessoas têm esse exemplo, as pessoas vão exercer isso. Da mesma forma que se as pessoas são criadas num caldeirão em que veem os seus familiares pararem em segunda fila, atirarem lixo para o chão, discutirem no trânsito, obviamente vão beber esses exemplos. E replicar. E, portanto, a ética é, sobretudo, em minha opinião, Uma condição em grande parte herdada ou apreendida.
Jorge Correia
35:01
A pergunta que está implícita no livro, pelo menos da maneira como eu li, é escrever para quem e para quê no momento em que está tudo perdido, não é? Em que a água já não presta para nada, em que há manipulação de informação, em que no poder estão precisamente aqueles que defendem polos completamente opostos. Vale a pena escrever neste quadro? Se isto já está tudo perdido? Sim, vale.
Rodrigo Guedes de Carvalho
35:29
Vale porque a escrita… Esse escrever para quê e para quem é até mais uma interrogação de quem faz um certo tipo de literatura e gosta de um certo tipo de literatura e vê que a grande maioria das pessoas, as chamadas massas, consomem outro tipo de literatura. E, portanto, nesse sentido, como nunca saberei escrever para essas massas, Penso, escrever para quê? Escrever para me realizar, para me cumprir, porque eu sou muito feliz a escrever porque é um momento de grande liberdade. Olha, e nesse sentido foi muito importante, apesar de eu ter começado a escrever antes de ser jornalista, a verdade é que toda a minha vida se passou entre o jornalismo e a ficção literária, E foi muito importante para mim como um certo escape do jornalismo. Neste sentido, o jornalismo, por mais que seja até um jornalismo mais autoral que eu possa ter, o jornalismo tem barreiras muito bem definidas, que são as barreiras da sua própria caixa. É a caixa dos factos, da chamada verdade, embora hoje em dia há pessoas que defendem é a tua verdade e a minha verdade. Não, isso não existe. Há a verdade que deve ser procurada, há os factos, há os dados, há as coisas. E nesse sentido fazem uma caixa rígida da qual eu não posso sair. Mas eu, como pessoa, sinto necessidade de mais. Sinto necessidade de criar outros mundos. E que não dá para fazer dentro do jornalismo. Não dá para fazer, obviamente, dentro do jornalismo. Portanto, eu procuro… É um exercício… A escrita de ficção, para mim, é um exercício de liberdade, de expressividade. Quando um dia eu morrer, a forma como eu me expressei neste mundo, não é a marca que quis deixar, não vou aí. A forma como eu me expressei, o que eu quis dizer, está nos livros, muito mais do que no jornalismo.
Jorge Correia
37:24
Na tua caixa de memórias, para a tua neta, a tua primeira neta viu uma fotografia nas redes sociais, e lá está as redes sociais, chegam também rapidamente. Tu queres que a tua neta, como é que ela se chama? Camila. A Camila. Tu queres que a Camila, quando já conseguir ler e ouvir, preferias que ela veja um teu jornal televisivo ou leia um dos teus livros?
Rodrigo Guedes de Carvalho
37:47
Quero que faça as duas coisas. Quero que faça as duas coisas. Gostaria muito que fosse leitora. A mãe dela sempre foi de pequenina uma grande leitora e continua a ser. Porque a leitura… E gostaria que ainda visse um jornal feito por mim e que eu contribuísse para o seu entendimento do mundo. Porque as notícias, por vezes, tendo os mesmos factos, às vezes diferentes pivôs dão-lhes diferentes matizes. Pode haver um ângulo diferente? Um ângulo e um tom. Repara que tu, perante um mesmo acontecimento que é, está muito calor, podes num jornal feito por mim não ficar muito em pânico e se calhar num jornal feito por outra pessoa ficares absolutamente em pânico e com vontade de fechares em casa porque vem aí o fim do mundo.
Jorge Correia
38:39
E há essa responsabilidade do jornalista quando tem que contar essa notícia? Eu acho que há.
Rodrigo Guedes de Carvalho
38:43
Claro que eu acho que há. Mas deixa-me voltar só à questão da Camila e da leitura. Porquê? Porquê é que é importante que a Camila e as outras crianças que continuam a nascer leiam? Porque está mais do que visto e, neste sentido, os meus anos de vida mostraram-me isso e uma das coisas que me levou a escrever este livro foi esse meu medo, esse meu receio, de que a falta de leitura está a levar a uma estupidificação das pessoas, porque as pessoas estão a ficar sem vocabulário, e estão a ficar sem imaginário, porque só a leitura de textos impele uma atividade cerebral, no sentido, por exemplo, da abstração, da imaginação. Tudo o resto é uma comunicação passiva. Estamos a perder palavras? Estamos a perder palavras. Basta andares pela rua, basta ouvires as pessoas falar, para perceberes que estamos a perder palavras. basta ver o grande monumento da falta de vocabulário que é o Trump, que deverá conhecer 140 ou 150 palavras, mas não só o Trump. Hoje em dia, um dos grandes problemas às vezes a comunicar com pessoas mais… Não é necessariamente sempre as pessoas mais jovens, mas às vezes com pessoas mais jovens Mas eu vou sentindo que há uma enorme falta de vocabulário que está ligada à falta de leitura.
Jorge Correia
40:23
E ao mesmo tempo lá está a perda do sentido de ironia, a perda do sentido dessa abstração.
Rodrigo Guedes de Carvalho
40:29
Claro, porque tudo isto vem acompanhado. É aqui que entram as massas que alimentam os extremismos, sendo os extremismos, em minha opinião, de direita e de esquerda. as massas que alimentam esse extremismo, normalmente falham muito no campo da discussão. Porque falham na argumentação. São monolíticos. Porque a certa altura primeiro não querem ouvir e depois, na verdade, não estão a perceber. As pessoas são levadas e, nesse sentido, as redes sociais é um cancro. Porque as redes sociais, mesmo que as pessoas não o percebam, estão fabricadas de forma a alimentar as pessoas sempre com mais do mesmo, não é? Quando uma pessoa tem um certo tipo de pensamento a rede social vai alimentá-la
Jorge Correia
41:19
com mais do mesmo. E quanto mais barulho houver
Rodrigo Guedes de Carvalho
41:21
mais aquilo. E a vai convencer cada vez mais de que tem razão.
Jorge Correia
41:25
Porque o objetivo lá está, é agarrar a pessoa é quase uma toxicodependência, é agarrar para tu ficar lá o máximo tempo possível.
Rodrigo Guedes de Carvalho
41:30
No limite dos limites quando tu segues todos estes percursos a ver onde é que eles vão dar, como por exemplo como eu escrevo no livro sobre a questão da poluição e das conferências climáticas, quando segues o percurso, a linha vai dar onde? Vai dar o dinheiro. Onde houver dinheiro, onde houver dinheiro a ganhar, isso vai gerar tudo o resto. Portanto, se nos dedicarmos a encontrar a fonte, lá está aí a fonte… Mas a fonte é sempre a mesma. As alterações climáticas não vão ser combatidas. Não vão. Porque isso não dá dinheiro. A ecologia só teria alguma hipótese se desse dinheiro se houvesse uma economia verde que permitisse gerar muito dinheiro repara, eu tenho um capítulo inteiro sobre isso, em que vou ironizando ao máximo, esticando a corda ao máximo imaginando as várias conferências sobre o clima de 5 em 5 anos mas não esse meu exagero não anda longe da verdade todas elas chegam a conclusões muito vagas no sentido que tem que fazer outra reunião, todas elas assumem que, pois, há certos níveis de temperatura do mar que já foram batidos e linhas vermelhas foram passadas, mas talvez na próxima conferência, não sei o quê, e andamos a empurrar com a barriga. E, portanto, isso nunca vai acontecer, porque os mesmos líderes que estão nessas conferências a dizer que combatem o… O aquecimento global. O aquecimento global. Continuam a abrir minas e a fazer guerras com aviões e chegam às conferências nos seus atos privados. Portanto, isto não tem qualquer… E depois dizem às pessoas, ah, não, mas agora temos umas tampinhas que ficam agarradas às garrafas. Ou você tem, e se entregar a sua coisa de plástico, vai salvar o mundo, que é uma coisa absolutamente patética.
Jorge Correia
43:26
Portanto, estamos ao mesmo tempo a exaurir os nossos recursos, a não fazer concessões na nossa existência porque queremos continuar a ter o nosso telefone e a trocá-lo de dois em dois anos. a conduzir o nosso automóvel e, portanto, num profundo egoísmo, que é que queremos salvar o mundo, mas os outros que vão à frente e salvem primeiro.
Rodrigo Guedes de Carvalho
43:45
Eu penso que sim, até porque, se tu reparares, a luta pelas alterações, a luta contra as alterações climáticas faz-se de uma forma que utiliza agentes poluidores, não é? Portanto, o saldo nunca é grande coisa. Não, sobretudo, é uma enorme, eu acho que é um enorme embuste a ideia de que alguém está realmente no mundo interessado, ou está interessado em travar isto, porque isto, quando se chega à conclusão de que isto teria algumas soluções fáceis, que quer fechar algumas torneiras, Se essas torneiras não se estão a fechar é porque há interesses que não querem que elas fechem e que continuam a ser predominantes em relação aos outros.
Jorge Correia
44:41
Estamos rodeados de tecnologia. O advento da inteligência artificial deixou de ser uma promessa e agora é outra coisa qualquer. Como é que tu olhas para isto? Como é que tu olhas para os chatos GPT da vida e que gêndo? Não olho.
Rodrigo Guedes de Carvalho
44:55
Não olho, não utilizo. Não utilizes tudo, nem sequer experimentas uma curiosidade. Acho que na minha… Foi das últimas grandes conversas que tive com o Pinto Balsemão. O Pinto Balsemão era movido a futuro, como eu costumo dizer. É uma coisa que o mantinha jovem. E ele estava absolutamente apaixonado pela inteligência artificial e estava a estudar a fundo as questões da inteligência artificial. E, portanto, ele era, sobretudo, filosoficamente, um grande defensor da inteligência artificial. E eu era um grande cético. E ele chamava-me Velho do Restelo. E pegavam-se a discutir. pegávamos no bom sentido tínhamos discussões muito francas e muito bem humoradas mas eu dizia-lhe na minha atividade de ficção literária e mesmo de jornalista a inteligência artificial vale-me bola, zero não preciso dela absolutamente para nada será extraordinária em milhares de outras coisas agora há uma extraordinária nós estamos a ensinar nós estamos a ensinar a máquina a grande máquina a tomar conta de nós porque toda a gente se tu reparaste, toda a gente diz assim é inevitável que a inteligência artificial eu penso assim é inevitável, porque é que é inevitável? a não ser que nós estejamos num movimento global de nós queremos entregar à máquina a nossa vida e as nossas tarefas. Perder a nossa autonomia, no fundo. E em nome de quê? O que eu pergunto-lhe sempre. E em nome de quê? Isto parece-me apenas um movimento de preguiça, como se vê, aliás, de forma absolutamente patética e perigosa nos novos
Jorge Correia
46:43
estudantes. Mas é um grande motor a preguiça, não é? Claro que é um grande motor,
Rodrigo Guedes de Carvalho
46:47
mas vamos ser sinceros e honestos. Agora, quando tu começas a ter toda uma geração de estudantes, das mais diversas áreas, que utilizam a inteligência artificial para enganar a sociedade onde se vão integrar, ou seja, fazem cursos através da inteligência artificial, pondo a inteligência artificial a fazer-lhes
Jorge Correia
47:07
os testes, portanto,
Rodrigo Guedes de Carvalho
47:09
não adquirindo conhecimento, mas sim enganando professores no sentido de obter notas para depois com essas notas obterem empregos, isto está tudo ao contrário. Empregos onde vão utilizar a inteligência artificial
Jorge Correia
47:21
também mantém-se o mesmo circuito.
Rodrigo Guedes de Carvalho
47:22
Sim, mas reparem, aqui há tempos, muitas vezes jovens estagiários, jovens que estão a começar na SIC, formando-os. E aqui há tempos. Uma coisa é corrigir textos que estão maus, que eu acho que estão fracos, que podem ser… Agora, estão-me a aparecer textos que eu vejo nitidamente que aquele miúdo que andou a estudar no liceu e depois quis ir fazer o curso de comunicação social e os pais, se calhar, até tiveram que entrar em despesas e pagar-lhe um quarto fora da terra para ele não sei o que, não sei o que mais, para finalmente conseguir um estágio na SIC. E chega a SIC e a primeira coisa que faz é dão-lhe uma peça para fazer e ele recorre à inteligência artificial. E põe a inteligência artificial a fazer-lhe o texto. E eu olhei para este miúdo e disse assim mas é isto que tu pretendes fazer da vida? Tu tiraste um curso de comunicação social para chegares a uma redação e agora tens 22 anos a tua vida vai ser isto? É isto que tu achas que é ser jornalista? Dão-te uma coisa, tu pões os dados na BIMB e pedes à inteligência artificial que te faça um texto. Mas que tipo de ambição é esta? Que contributo para o mundo é que tu trazes? Deixa de ser necessário o jornalista, no fundo, não é? Se for por aí… Mas esse é que é o problema. Como é o problema? Diz-se às vezes que eu sou um pivô e tal, um bocadinho interventivo e tal, e tenho umas opiniões. Então, mas querem robôs? Mas se querem robôs, não tem problema nenhum. Então, eu se fosse, por exemplo, se fosse a família Balsemão, eu despedia os jornalistas todos. e punha lá robôs da inteligência artificial. Se é esse o jornalismo que nós queremos, ah, então é muito mais barato. Mas não é a mesma coisa. O meu problema é que eu já vejo muitos colegas meus, muitos pivôs, que, de alguma forma, apresentam de uma forma absolutamente mecânica e desapaixonada. E eu acho que isso aproxima-os muito mais da mecanização que a inteligência artificial promete do que a humanização de cometermos erros e termos emoções.
Jorge Correia
49:33
Essas marcas de comunicação, por acaso, da inteligência artificial são, aliás, muito claras. Se nós pedimos às várias inteligências artificiais para produzir um determinado texto, aquilo basicamente é receita e da BIMBY. É da mesma maneira, da mesma mecânica.
Rodrigo Guedes de Carvalho
49:47
Claro, e depois todos se mimetizam. Não há uma subjetividade no fundo. O que leva a que jornalistas que se alimentam disto passem a falar todos da mesma maneira, com os mesmos jargões, com os mesmos vícios de linguagem, com as mesmas muletas. Então tu tens todo um exército de coisas absolutamente iguais, que se calhar é o futuro, que se calhar é o que os grandes industriais da comunicação social querem, é esses exércitos de soldadinhos que fazem tudo da mesma maneira.
Jorge Correia
50:22
E que estão capazes de produzir, lá está, 10 vezes ou 20 ou 30 ou 50 vezes mais.
Rodrigo Guedes de Carvalho
50:25
Claro, porque se não são eles que estão a pensar, se é só pedir à máquina, não tem nada a saber.
Jorge Correia
50:32
Então, e que nós estamos mesmo praticamente a terminar, que é, essa quantidade gigantesca até agora de conteúdos produzidos por seres humanos, se ainda por cima expusermos as máquinas e multiplicarmos isso, não pode intensificar aquela sensação de canseira, da ruideira de tantas notícias, de tantos conteúdos, de tantas coisas deu a perceber, agora quero desligar agora não quero ouvir mais nada
Rodrigo Guedes de Carvalho
50:56
A questão do ruído começou em Portugal noutros países começou antes em Portugal começou com a CIC Notícias porque eu lembro-me que o nosso sentimento na redação da CIC foi, isto agora nunca mais vai parar e a partir do momento que há um canal de notícias 24 horas e depois apareceram outros, hoje são 5 ou 6 se não estou em erro é uma locomotiva a vapor que nós temos que estar sempre a meter carvalho. Há que alimentar o cavalo. Há que alimentar o cavalo. Se só tiveres dois ou três temas minimamente relevantes no dia, o que é que isso faz? Faz com que assistas a maratonas de seis ou oito horas sobre o mesmo tema, como está a acontecer agora, neste dia em que estamos a falar, com o calor, com o Cristiano Ronaldo e com os incêndios.
Jorge Correia
51:43
Vamos esgotar os temas sempre e falar deles sempre em circuito.
Rodrigo Guedes de Carvalho
51:47
Em loop e pior. e muitas vezes a dizer como é que eu tenho de explicar isto? Por vezes o jornalismo em vez de criar de ser aquele porto de abrigo em que as pessoas está a acontecer qualquer coisa e as pessoas vão ao jornalismo para que o jornalismo lhes diga exatamente o que é que está a acontecer e aí entra um papel de alguma forma pedagógico de acalmar de tranquilizar as pessoas, de serenar sentido, os dados são estes, os factos são aqueles, são com outros. Temos, nesta altura, um jornalismo que com sede e com medo da concorrência, que a concorrência faça o mesmo antes, instila alguma ansiedade nas pessoas. Pensas na reforma? Para escrever mais livros? Ou ainda não? Não preciso da reforma para escrever mais livros. Tenho escrito os livros sem estar na reforma. Penso na reforma como qualquer pessoa pensa. Está quase a chegar. Não faço ideia se desejo-a rapidamente ou não. Tenho andado a pensar ano a ano.
Jorge Correia
52:54
Rodrigo Edson Carvalho.
Viva, Rodrigo Guedes de Carvalho Não é possível Apresentado porque tu estás apresentado Há mais de quantos? 30 anos? Mais
Rodrigo Guedes de Carvalho
01:39
34 só de SIC Com a RTP são 40 de profissão
Jorge Correia
01:43
Xissa O dia a dia ainda é prazeroso Ao fim desse tempo?
Rodrigo Guedes de Carvalho
01:48
É, embora Uma das coisas curiosas Eu acabei Por fazer 40 anos de jornalismo quando eu nunca quis ser jornalista. Foi uma coisa que me aconteceu. Normalmente é um banho de água fria quando vou a sessões com jovens estudantes de comunicação social e vem sempre aquela pergunta, que eles querem que seja inspiradora. E quando é que sentiu o apelo e o sonho de ser jornalista? Nunca me aconteceu. Eu queria ser publicitário, eu queria ser romancista e publicitário, na senda do Áridos Santos e do Alexandre O’Neill. E o jornalismo, tive que andar à procura de emprego no final do curso, saí-me bem no centro de formação da RTP, e quando eu por ela estava na redação, então percebi que aquilo iria ser mais ou menos a minha carreira. Portanto, não escolhendo o jornalismo, habituai-me depois a gostar dele e, sobretudo, a respeitá-lo.
Jorge Correia
02:51
Não vale a pena fazer grandes planos, Nós escolhemos várias coisas e depois aparece…
Rodrigo Guedes de Carvalho
02:55
Sim, todas as vidas serão diferentes, mas é curioso. O Agostinho da Silva dizia muito isso, os planos que a vida tem para nós, que são sempre mais fortes do que aquilo que nós possamos desejar ou prever. Mas no meu caso, não digo isto com mágoa nenhuma, pelo contrário. Foi uma profissão em que me saí bem, que aprendi a gostar, e que é, respondendo à tua pergunta, Sim, é um prazer ser jornalista.
Jorge Correia
03:24
Aparecer todos os dias na televisão, ali à hora do jantar, e contar as notícias implica a construção de uma credibilidade, de uma ideia de ser aquele, do provedor das notícias no fundo. Olha, estão aqui as notícias que nós conseguimos aqui arrepanhar, mas ao mesmo tempo obriga-te ou obrigou-te a criar uma carapaça de ti próprio, ou aquele que ali está é isto.
Rodrigo Guedes de Carvalho
03:48
Obrigou-me, acho que aqui entramos na zona em que penso que muitos atores também entram, que é representar tão bem um papel que ele seja absolutamente orgânico, e parecendo que não estamos a representar. Agora, é impossível não se estar de alguma forma a representar, porque se está num papel outro, ou seja, aquilo não é uma situação normal. Eu estou, de fato, igravata, com os holofotes em cima, E sei que ao falar, o que eu vejo à frente é apenas uma câmera escura, mas eu estou a falar para milhões de pessoas. Portanto, não é uma situação normal. Nesse sentido, eu não estou ali como quem está em casa. A questão da visibilidade foi complicada para mim, porque eu sou o contrário da pessoa que quer ser visível. E foi muito difícil, eu tive que aprender. foi uma grande escola de autopsicologia, eu aprender a viver com a minha figura pública. Porque eu sou muito tímido, sou de poucas falas, fico muito embaraçado quando se dirigem a mim. E, portanto, eu tive que conviver isso durante todos estes anos. Hoje em dia estou há muito pacificado com isso. Mas não foi nunca… Tudo isto para te dizer, a posição de ser o pivô do Jornal da Noite, do primetime, nunca foi o objetivo em si. Mas não te dá uma vaidade? Não, não, vaidade nenhuma. Dá-me uma responsabilidade. E eu gosto dessa responsabilidade. Ou seja, aquela sensação, repara, sobretudo quando temos notícias de última hora, ou exclusivos, ou notícias importantes, ou não sei o que mais. Aqueles 10 minutos antes do Jornal da Noite, em que eu sei algo que os portugueses ainda não sabem, e que vão saber, através do meu rosto, da minha voz, do tom, que eu acho que é tudo, é tudo na apresentação de um jornal. O tom. Mesmo na televisão? É o que nos diferencia. Sim, sim, sim. O tom. O tom pode ser alarmista, pode ser excitado, como pode ser sóbrio, como pode ser tranquilizador. Aí é a nossa escolha. É a escolha do profissional. E, portanto, essa responsabilidade é algo que me agrada e que me orgulha. Eu não tenho vaidade no sentido, eu não sou mais do que ninguém, por isso simplesmente pelo meu rosto ser mais reconhecível do que outros.
Jorge Correia
06:11
Mas ganhas essa credibilidade também pela exposição e depois pelo tom. Essa ideia do tom é para mim interessante. Lembro-me com clareza dos tempos da pandemia, em que tu apareceste a contar as notícias, num tempo de grande incerteza, mas também em determinados momentos a editorializar um bocadinho, Eu não diria que eu editorializei.
Rodrigo Guedes de Carvalho
06:34
Eu diria que eu partilhei da forma mais sincera possível o espanto que eu próprio estava a sentir em relação à situação. E sempre me pareceu que seria absolutamente ridículo nós estarmos a viver… Nós hoje olhamos para a pandemia até com alguma irritação, esses tempos das máscaras e não sei o quê. Mas se recuarmos ao início daquilo, foi uma coisa assustadora. nós não sabíamos, na verdade, o que é que estávamos a viver e foi talvez a primeira experiência coletiva, e aqui sim, no país e no mundo, a primeira experiência coletiva de um certo sabor a apocalipse. O que é que se vai passar? Durante quanto tempo é que isto vai durar e quais são as consequências para nós? Eu não saber nada. Exatamente. Achei que seria ridículo. Então seria, sim, aí reduzir os pivôs dos jornais a meros robôs que podem ser substituídos pela inteligência artificial, se eu me limitasse a chegar ali e a ler comunicados ou telexes com o ar mais seco do mundo, com o que toda a gente diz que deve ser, que as pessoas confundem essa segura com a objetividade. Mas isso é outra história. Então eu quis comungar do meu espanto, eu próprio, não sei o que vos digo, eu não sei o que é que se está a passar, vamos todos estar a aprender em todo este processo. E criou-se aí uma primeira, olha, um primeiro vislumbre do que vivemos hoje, que são os fundamentalismos. Houve pessoas que se sentiram absolutamente apoiadas por mim, nesse aspecto, acompanhadas em casa, e houve pessoas que passaram a odiar-me porque eu era um moralista, ou porque era não sei o que mais, ou porque lia poemas, ou porque estava a fazer o jogo do governo e dos gajos das vacinas, e essa coisa toda. Eu acho que a pandemia foi o primeiro grande momento, aliás, se reparar-se, o André Ventura era um deputado solitário pouco antes do início da pandemia, em 2019, e nós saímos da pandemia, todos, enquanto experiência coletiva, em posições absolutamente extremadas.
Jorge Correia
08:53
O medo ativou, no fundo, esta nossa polarização? Ou pelo menos potenciou?
Rodrigo Guedes de Carvalho
08:58
Sim, claro. Porque o medo é o grande motor da ignorância. Tem imensas matizes, mas, obviamente, todos os ignorantes têm muito medo. Até porque o ignorante, no limite, ele sabe que não sabe muitas coisas. E, portanto, isso faz-lhe medo. É uma reação absolutamente empírica do ser humano. O que eu acho é que… E aqui, sim, a questão das vacinas foi apenas o primeiro tubo de ensaio de uma divisão da sociedade, que hoje se verifica em tudo. Não é só no chega, não chega. é também no ama o Cristiano Ronaldo ou então odeias o Cristiano Ronaldo. E por aí fora, nós hoje não conseguimos discutir absolutamente nada que tenha uma adversativa que é… Eu, por acaso, acho que o Cristiano Ronaldo foi muito bom, mas, a partir do momento que dizes, mas estás condenado, porque a sociedade obriga-te a estar ou num polo ou num outro. E isso começou muito na pandemia.
Jorge Correia
10:06
Estamos agravados já agora numa sexta-feira a seguir à madrugada em que Portugal ganha à seleção de Modric. É curioso o fenómeno Cristiano Ronaldo. Lá está. Essa polarização. Nós não conseguimos observar e dizer sim, foi um grande jogador. Sim, agora tem 40 anos e é da vida que as coisas correm menos bem. Não. Se tu dizes ele devia ir para o banco todos os Ronaldo, Cainte em cima, e o contrário também. Perdemos a racionalidade das coisas?
Rodrigo Guedes de Carvalho
10:42
As discussões sobre o Ronaldo são particularmente patéticas. Eu não consigo acompanhar tudo, mas apareceu-me no algoritmo uns insultos absolutamente selváticos das irmãs do Cristiano Ronaldo ao Carlos Daniel, porque pelos vistos ele terá dito qualquer coisa sobre o Ronaldo, no sentido que o Ronaldo deveria ser substituído, ou entrar só, ou jogar só 30 minutos. Isto não quer dizer que não se goste do Ronaldo, ou que não se respeite o Ronaldo, ou que não se venere até tudo o que o Ronaldo nos trouxe.
Jorge Correia
11:18
A palavra é venerar.
Rodrigo Guedes de Carvalho
11:19
É, mas lá está. Hoje em dia não se admite nenhum mas. Só podes ou adorar e idolatrar o Ronaldo e ser para sempre subjugado por tudo o que ele nos deu, ou então és um um tipo que odeia o Ronaldo. E portanto isto é apenas mais… Eu nem sequer faço nenhum… Olha, no Jornal da Noite não faço nunca nenhum comentário sobre isso. Neste momento tem uma crónica no Expresso. Não me ocorreu durante, em nenhum momento, escrever uma linha sobre isso. Porque eu já sei o que é que isso vai desencadear. E são campeonatos para os quais eu já dei.
Jorge Correia
12:01
Olha, há uma frase tua uma frase, ou uma provocação, ou uma vontade, ou uma iniciativa, podemos ver o que é que quer dizer, que é gostava de juntar 500 jornalistas numa sala. Para quê? Para que juntar este grupo de 500?
Rodrigo Guedes de Carvalho
12:17
Imagino que o grupo de 500 é uma amostra. Disse isso que me podia ter dito outra coisa. Isso foi tomado muito à letra. Não quis dizer… Foi um debate. Não, não foi um debate. Nós funcionamos muito por imagens. A imagem que eu quis dar é nós somos uma classe que nesta altura tinha tudo a ganhar se discutisse o que é que ia andar a fazer. Foi basicamente isso. O jornalismo está com problema de comunicação, de comunicar a sua própria atividade. Eu acho que o jornalismo está mergulhado e aqui o jornalismo já neste momento é absolutamente geral. Ou seja, já não há o jornalismo de imprensa ou da televisão ou da rádio, até porque, e como vai provar este podcast, Cássio gravamos na rádio, mas também tem vídeo e vai ser transmitido digitalmente nas redes sociais, onde está toda a gente. Neste momento temos todas as mesmas armas. As televisões, as rádios, os próprios jornais. Ainda há pouco comentávamos que os jornais, quando surgiram no digital, limitavam-se a copiar o papel e perceberam rapidamente que tinham também que ter vídeo e que também tinham que ter áudio, essa coisa toda. Portanto, o jornalismo, ele próprio, tornou-se um mídia global com as mesmas armas. Passamos a ser um meio híbrido, no fundo. E está muito ocupado, como tem muita coisa para fazer, tem muita coisa para alimentar. As televisões de 24 horas têm que estar no ar 24 horas. As rádios, desde sempre, têm os seus noticiários, de hora a hora. E agora, o digital é uma nova máquina devoradora que tem que ser alimentada, tem que alimentar o algoritmo, chamar as pessoas para que elas continuem ali e não vão para o adversário, tudo isto leva ao quê? O jornalismo está demasiado ocupado a fazer, a executar, do que a pensar. E eu cresci num jornalismo em que, nas várias redações, começando pela DRTP, eu ainda era muito jovem e estava na editoria de esporto, mas já tínhamos grandes discussões sobre a profissão, e depois no início da SIC, que foram anos fervilhantes, os anos do Rangel, que ele próprio instigava, ele e o Balsemão, instigavam os jornalistas, no bom sentido, a debaterem uns com os outros. Se alguém tinha uma crítica a fazer à reportagem do colega, dizia, nós chegámos a fazer plenários sobre alinhamentos.
Jorge Correia
14:45
Por que é que abres com esta notícia e não abres com aquela?
Rodrigo Guedes de Carvalho
14:47
Precisamente, mas o que é que nos passou? Por que é que nos falhou aquela notícia? Porquê que demos este tom a esta notícia que foi um tom não sei o quê? Falávamos sobre a profissão. E hoje em dia é muito difícil encontrar jornalistas que queiram falar sobre a profissão, porque estão todos a fazer. Estamos a ficar todos amorfos? Sem dizer se estamos…
Jorge Correia
15:09
Porque é curioso, ao mesmo tempo que o mundo acelerou e se torna mais polarizado, parece que os jornalistas, que eram os donos da bola, no fundo, se abstenha agora de participar evitando até de discutir o seu próprio métier, o seu próprio negócio
Rodrigo Guedes de Carvalho
15:24
a questão aqui são coisas diferentes uma coisa são os jornalistas e outras é quem são os chefes os diretores, os presidentes os donos disto tudo do jornalismo e o que é que eles esperam que os jornalistas sob a sua alçada façam isso é outra coisa eu tive a aventura de trabalhar praticamente toda a minha vida profissional para o Francisco Pinto Balsamã um luxo e foi um luxo, foi de facto um luxo muitas pessoas não saberão nunca o que é porque foi dos homens mais íntegros e mais independentes que eu conheci e que pagou alguns preços que as pessoas não sabem a sua independência através da SIC e do Expresso que levou a que a SIC e o Expresso pudessem confrontar amigos dele ou pessoas anunciantes que tinham interesses, que contavam muito para as contas da SIC e do Expresso, e não foi por isso que se deixaram de fazer notícias sobre ele. Agora, os jornalistas nem sempre são aqueles que decidem o que é que a SIC, o que é que a CNN, enquanto entidade editorial, vai fazer. Por vezes há pessoas, nós nem sempre estamos de acordo na SIC, ou no cálculo que na RTP, nem sempre estamos todos de acordo numa redação sobre o alinhamento que nós apresentamos. Agora, o que me parece é que aquele jornalismo de furar, de denunciar, de procurar histórias próprias, por exemplo, está em decadência, talvez até por imperativos económicos. Se tu reparares hoje, eu lembro-me que era muito caro o jornalismo televisivo, por exemplo. É um jornalismo muito caro. Ou mandar um repórter para a guerra, por exemplo. Mandar um repórter para a guerra, mandar, sobretudo, o repórter de imagem com toda a sua parafernália. E hoje em dia nós temos, por exemplo, este caso do Anthony Wells, que está na Venezuela, sozinho com um telemóvel. E ele faz diretos de televisão. Ou seja, as tecnologias criaram uma rapidez e uma facilidade que faz com que, neste momento, com um jeitinho, qualquer pessoa finja que é jornalista ao fazer mais ou menos aquilo que os jornalistas fazem. Um repórter cidadão, no fundo, que está em todo lado. Um repórter cidadãos que estão absolutamente… Olha, outra coisa que nasceu na pandemia, lembro-me que das coisas mais graves que eu senti na pandemia, foi quando, muito a propósito da questão das vacinas, de repente começou a haver grupos de WhatsApp que reclamavam que eles é que sabiam a verdade sobre o que é que se estava a passar. A pós-verdade. Que a comunicação social estava a mentir-nos e que eles tinham áudios de médicos que comentavam entre si que íamos todos morrer. Uma forma de descredibilização também do jornalismo? Claro, é isso que eu estou a dizer que começou na pandemia. Começou a sensação de que, oh malta, vamos cá pensar numa coisa. Nós não precisamos do jornalismo para nada. É quando nasce, aliás, a expressão que detesto, jornalixo, que neste momento é utilizada por toda a gente. E é utilizada sempre que o jornalismo emite uma notícia que não agrada àquela pessoa. É tão simples quanto isto. A partir daí, o jornalismo, para essa pessoa, é jornalismo. Mas nasceu aí. Nós não precisamos do jornalismo. Nasceu esta ideia. Nós sabemos tudo e eles estão-nos a esconder a verdade. Eles estão-nos a esconder a verdade. E, na verdade, nós não precisamos do jornalismo oficial, porque cada cidadão, nesta altura… E houve um comentário que eu achei espantoso, que eu disse, é que está o pronúncio dos novos tempos, de um tipo que dizia assim, eu deixei de ver as notícias na televisão. E diz o outro assim, então, mas como é que sabes das coisas? Sei através de um grupo de WhatsApp. Então esta pessoa acha que o grupo de WhatsApp onde está com os amigos é perfeitamente suficiente para ele ser informado de forma correta e objetiva sobre o que se passa no mundo. Até por causa desse estranho fenómeno que é, se eles estão a dizer isto e eu estou de acordo, claro que é verdade. Claro, pois, mas isso é mais… Essa humaníssima tendência tinha que, obviamente, tomar conta dos tempos modernos. As pessoas olham para a sociedade sempre no sentido de o jornalista sério é aquele que escolhe as notícias que me agradam. Não é o outro.
Jorge Correia
20:19
Olha, eu gosto muito do Rodrigo porque ele acabou de me dizer uma coisa que obviamente ele tem razão. Ou então, não senhora, ele acabou de me dizer uma coisa que é absolutamente inaceitável e ele nem sequer devia ser jornalista.
Rodrigo Guedes de Carvalho
20:28
Obviamente. Não, mas é assim que funciona. E saio de fonte segura, porque eu tenho uma participação muito rudimentar nas redes sociais. Houve tempos, no início do Facebook, só estou no Facebook e no Instagram, não estou em mais sítio nenhum. E houve algumas publicações no Facebook em que tinha pensamentos, mas deixei rapidamente ter. Neste momento ele funciona apenas como divulgação dos livros, porque eu não tenho mais saco nem paciência para qualquer coisa que uma pessoa diga é imediatamente atacada por um ângulo qualquer. E depois vêm as pessoas que me querem defender e que também muitas vezes me defendem irracionalmente. E depois vêm as outras pessoas que querem insultar-me e, portanto, insultam as pessoas que me estão a defender. E pegam-se todos lá. E eu já não tenho saco para isso. Isso é que eu acho muito curioso, mesmo de quem não me conhece. Há dezenas de situações e de polémicas em que estão pessoas a discutir e que me identificam lá como a chamar-me à discussão.
Jorge Correia
21:39
Tu estás a ver o que é que eu estou a dizer?
Rodrigo Guedes de Carvalho
21:40
A chamar-me à discussão. Às vezes até para me insultar. Não sei o que mais. É como aquele Rodrigo Edson Carvalho. E identificam-me que é para me obrigarem a ir lá a ver a ver se eu respondo. E isso não te afeta? Não, mas verdadeiramente não. Por quê? por uma questão de personalidade e porque, como começámos aqui por dizer, são 40 anos disto. Isto para mim nada disto é novo. É certo que na RTP só tínhamos os telefonemas e as cartas do protesto dos espectadores. Mas eu vivo com isto toda a minha vida. Eu não vou importar-me. Às vezes não gosto muito de dizer assim que me estou a marimbar para o que os outros dizem porque parece uma soberba. Mas no limite, não. meia dúzia de pessoas meia dúzia de pessoas, duas das quais faleceram este ano o António Lobo Antunes e o Pinto Balsemão haverá meia dúzia de pessoas que me importa o que é que pensariam sobre mim o resto importa-me um pouco e depois aqueles que me são próximos e aqueles que eu sei que realmente gostam de mim
Jorge Correia
22:48
Olha, se posso entrar aí um bocadinho na tua intimidade o que te dizia António Lobo Antunes? Falavam com alguma regularidade?
Rodrigo Guedes de Carvalho
22:55
Não, muito. Não com grande regularidade. Falávamos de coisas pequenas. O António Lobantunes tem… Ainda digo que tem. Tinha a idade do meu pai. São 20 anos de diferença para mim. E eles quase coincidiram no mesmo local, no Luso, no Alto Coito, em Angola, exatamente na mesma posição, de médicos alferes milicianos. E, portanto, eu comecei por ter uma ligação de leitor e adoração com o António Louventunes, até que finalmente o conheci e comecei a dar-me cabelo. Mas não, nem sequer éramos íntimos. As nossas conversas pouco versavam sobre literatura. Era sobre miudezas, sobre sentido de humor perante as palermices do mundo, mas era uma relação muito ternurenta. que eu, por exemplo, desde sempre eu cumprimentava-o sempre com um beijo ao António Lomantunes. Uma das coisas mais emocionantes que me aconteceu numa das últimas feiras do livro em que ele já estava bastante débil fisicamente. Ele estava sentado com o seu chapéu à sombra o mais protegido possível. Lá estava, lá tinha as suas filas proverbiais. e eu ao aproximar-me do sítio onde também me ia sentar aproximei-me por trás e abracei-o por trás e dei-lhe um beijo na cara e ele sem ver quem era disse Rodriguinho já chegaste então tínhamos uma relação eterna que falávamos de mundanidades ele era um tipo muito simples no bom sentido e era um tipo carinhoso
Jorge Correia
24:45
e genial na escrita E eis senão quando o Rodrigo Guedes Carvalho resolve escrever um livro chamado O Meu Primeiro Apocalipse, o primeiro, quer dizer, pode haver um segundo, um terceiro, um quarto, Portugal de 2066, que imaginaste quanto desse espaço, desse primeiro apocalipse ou da ameaça de apocalipse, não quero estragar o livro para quem o vai ler, já existe hoje em dia?
Rodrigo Guedes de Carvalho
25:10
Eu acho que a graça do livro a tê-la é essa. Ou seja, ele é, tecnicamente, uma distopia, no sentido que as distopias se passam num futuro. Mas, se reparares, é um futuro que são 40 anos. 40 anos é uma distância curiosa, sobretudo quando um tipo tem 62. É uma brutalidade, 40 anos, quando pensamos caramba, 40 anos é tanto tempo, mas, ao mesmo tempo, passaram muito depressa. Por exemplo, no meu caso, dos meus 20 para agora, passaram muito depressa. E, portanto, como não me interessava nunca escrever uma coisa sobre discos voadores no ano 3000, ou outros planetas, ou Martes, ou não sei o que, essas coisas que me estão completamente a marimbar, ou proezas da ficção científica, quis projetar o que é que nós seremos daqui a 40 anos para chegar à conclusão, segundo o meu livro, que somos basicamente os mesmos. como já éramos, como no limite, se formos ver, porque é que a grande literatura é grande, porque todos aqueles clássicos, desde o tempo de Platão até Balzac, escreveram basicamente sempre sobre a mesma coisa, sobre as nossas mesquinhices, olha, no fundo, sobre os sete pecados capitais. Se tu reparares, todos os grandes romances andam sempre em volta desse tipo de sentimentos que guiam os humanos. E, portanto, eu quis projetar o futuro, aquele futuro que se está ali a ler é um bocadinho, sim, já estamos, em grande parte, já estamos
Jorge Correia
26:50
a vivê-lo. Sendo que ainda há esperança para a humanidade? Quer dizer, quando tu olhas para o homem, tu sentes que nós somos intrinsecamente bons ou uma desgraceira que estamos sempre a tentar sucessivamente na realidade suicidados?
Rodrigo Guedes de Carvalho
27:04
Isso é o velho, somos mais da linha Rousseau ou da linha Hobbes. Eu quero ainda, eu tenho ainda uma esperança, acho que sempre que um homem ou uma mulher se levantam da cama e enfrentam o dia, isso significa que há uma esperança. Obviamente que há momentos de maior desespero, sobretudo quando se tem um certo nível de racionalidade e de inteligência, Custa muito ver, como dizia o Nelson Rodrigues, a quantidade enorme de imbecis e de estúpidos que vai povoando o mundo e que, infelizmente, um dia há de tomar conta do mundo, porque são muitos. Mas eu acho que aquilo que nos cabe fazer nós devemos ir fazendo. O gesto que queremos ter, o exemplo que queremos dar. Provavelmente não são as minhas três garrafas de vinho que vão salvar a humanidade, mas eu faço questão de as levar ao vidrão. E, portanto, o ir vivendo de acordo com princípios é, no fundo, é a grande esperança. E, nesse aspecto, a literatura sempre me ensinou uma coisa, primeiro como leitor e depois como escritor, que é qual é a grande benção da literatura, o grande papel da literatura? É descobrirem seres humanos, por vezes que habitam em países diferentes, descobrirem que são iguais, descobrirem que têm as mesmas preocupações. Tens essa percepção? Tenho essa perceção, tive-a como leitor, ao ler Garcia Marques, ao ler Joseph Conrad, pessoas que viveram tempos que eu não vivia em países que eu não vivi, e sentir que pensamos da mesma forma e que víamos o mundo da mesma forma. Também já tenho tido essa experiência enquanto escritor de leitores que me vão dizendo, você traduziu coisas que eu não sabia como dizer e que é exatamente isto. E, portanto, a literatura é uma forma inútil, mas maravilhosa, de as pessoas se conhecerem sem nunca se terem visto.
Jorge Correia
29:08
Em contraste com esse homem bom, ou mulher boa, para alargar aqui o leque, contas a história e vais à procura daqui, por um lado, da existência de uma jornalista, a Avacarina, e por outro lado, de uma ministra da influência, é isso? Não, a ministra da influência é que é a Avacarina. Essa é que é a ministra da influência. Bom, que grande emprego. O António Ferro dos tempos modernos? O que é que faz uma ministra de influência? É uma ministra parda?
Rodrigo Guedes de Carvalho
29:34
Essa personagem, para quem não leu o livro, é caricatural. É um traço largo de ironia que eu escolhi. É quase uma personagem de banda desenhada cuja característica é ser uma enorme influenciadora. Ela também é apresentadora de televisão, mas depois tem vários outros negócios. Não sou eu. Tenho várias outras influências. Mas ela tem uma grande capacidade, que eu acho que distingue muitas pessoas que eu conheci ao longo da vida e que vão aparecendo cada vez mais, de se adaptar a toda a gente. Ela adapta-se a qualquer regime, adapta-se a qualquer tendência, porque ela, como se diz aí, a Avacarina só conhece um partido, que é o partido Avacarina. Portanto, é uma espécie de camaleão. Isso, claro. E acho que há inúmeros exemplos de camaleões que são pessoas que vão se engrandando na vida com o objetivo da sua sobrevivência e do seu plano e que se adaptarão às esquerdas, às direitas, às cores, aos emblemas.
Jorge Correia
30:42
Se nós quiséssemos criar um perfil psicológico desse género de pessoas, estamos a falar de pessoas intrinsecamente oportunistas, pessoas que encontram o seu caminho e conseguem ir flutuando dentro dessas correntes do poder e da comunicação e no fim desse…
Rodrigo Guedes de Carvalho
31:00
Eu acho que nós, o intrinsecamente certos oportunistas, oportunistas sem dúvida eu pensei que dizias egoístas. Egoístas também? O egoísmo não é necessariamente um defeito e não é uma coisa mal, tal como orgulho. Acho que no limite todos nós no fundo é aquela coisa até numa psicologia ponto zero, nós temos que estar bem connosco e gostar de nós para nos relacionarmos com os outros de forma saudável. A questão é o que é que nós somos capazes de fazer para se ingrar, para ter mais fama, para ter mais dinheiro, para atropelar um competidor. Isso, para mim, é que normalmente define as pessoas. Não é elas quererem uma vida boa para si, um bom projeto para si. É uma ausência da ética? Sim, no limite sim. É uma ausência de ética. Porque a ética é uma coisa que eventualmente nascerá com as pessoas mas que é muito bebida da educação. Pode ser aprendida? Pode e deve. E deve ser aprendida e normalmente é. É por isso que costumo dar este exemplo. Eu tinha um grande amigo meu de uma família de alta burguesia do Porto que infelizmente foi apanhado nas chamadas malhas das drogas duras e que eu um dia visitei numa instituição psiquiátrica e tive um sorriso ao vê-lo porque era a hora da refeição e eles eram para aí 20 e eles tinham todos um ar terrível de doentes e de maltratados, estavam num processo terrível, e ela era o único que tinha maneiras à mesa. Porque as trazia de família e de educação. E é curioso que essa educação, pelo exemplo, e não pelo sermão, a educação, pelo exemplo, de nos levantarmos se uma pessoa mais velha entra na sala, de deixarmos passar uma senhora à frente, ou seja o que for, ou dizermos sempre obrigado, ou faz favor, ou com licença, é uma coisa que, quando as pessoas têm esse exemplo, as pessoas vão exercer isso. Da mesma forma que se as pessoas são criadas num caldeirão em que veem os seus familiares pararem em segunda fila, atirarem lixo para o chão, discutirem no trânsito… O pequeno esperto. Obviamente vão beber esses exemplos. E replicar. Portanto, a ética é, sobretudo, em minha opinião, uma condição em grande parte herdada ou apreendida.
Jorge Correia
33:59
A pergunta que está implícita no livro, pelo menos da maneira como eu a li, é escrever para quem e para quê num momento em que está tudo perdido, não é? Em que a água já não presta para nada, em que há manipulação de informação, em que no poder estão precisamente aqueles que defendem polos completamente opostos, vale a pena escrever neste quadro, se isto já está tudo perdido?
Rodrigo Guedes de Carvalho
34:25
Sim, vale, porque a escrita, esse escrever para quem e para quem, até é mais sobre, é uma interrogação de quem faz um certo tipo de literatura e gosta de um certo tipo de literatura e vê que a grande maioria das pessoas, as chamadas massas, consomem outro tipo de literatura. E, portanto, nesse sentido, eu como nunca saberei escrever para essas massas, penso, escrever para quê? Escrever para me realizar, para me cumprir, porque eu sou muito feliz a escrever porque é um momento de grande liberdade. Olha, e nesse sentido foi muito importante, apesar de eu ter começado a escrever antes de ser jornalista. A verdade é que toda a minha vida se passou entre o jornalismo e a ficção literária e foi muito importante para mim como um certo escape do jornalismo. Neste sentido, o jornalismo, por mais que seja até um jornalismo mais autoral que eu possa ter, o jornalismo tem barreiras muito bem definidas, que são as barreiras da sua própria caixa. é a caixa dos factos, da chamada verdade, embora hoje em dia há pessoas que defendem é a tua verdade e a minha verdade, não, isso não existe. Há a verdade que deve ser procurada, há os factos, há os dados, há as coisas… E nesse sentido fazem uma caixa rígida da qual eu não posso sair. Mas eu, como pessoa, sinto necessidade de mais, sinto necessidade de criar outros mundos. E que não dá para fazer dentro dos nulos. Que não dá para fazer, obviamente, dentro do jornalismo. Portanto, eu procuro, é um exercício, a escrita de ficção, para mim, é um exercício de liberdade, de expressividade. Quando um dia eu morrer, a forma como eu me expressei neste mundo, não é a marca que quis deixar, não vou aí. A forma como eu me expressei, o que eu quis dizer, está nos livros, muito mais do que no jornalismo.
Jorge Correia
36:21
E na tua caixa de memórias, para a tua neta, a tua primeira neta, viu uma fotografia nas redes sociais, lá está. E lá está a regra do César, chegam também rapidamente. Tu queres que a tua neta, como é que ela se chama? Camila. A Camila. Tu queres que a Camila, quando já conseguir ler e ouvir, preferias que ela veja um teu jornal televisivo ou leia um dos teus livros?
Rodrigo Guedes de Carvalho
36:45
Quero que faça as duas coisas. Quero que faça as duas coisas. Gostaria muito que fosse leitor. A mãe dela sempre foi de pequenina uma grande leitora e continua a ser. Porque a leitura, e gostaria que ainda visse um jornal feito por mim e que eu contribuísse para o seu entendimento do mundo. Porque as notícias, por vezes, tendo os mesmos factos, às vezes diferentes pivôs dão-lhes diferentes matizes. Pode haver um ângulo diferente? Um ângulo e um tom. Repara que tu, perante um mesmo acontecimento que é, está muito calor, podes, num jornal feito por mim, não ficar muito em pânico e, se calhar, num jornal feito por outra pessoa, ficares absolutamente em pânico e com vontade de fechares em casa porque vem aí o fim do mundo.
Jorge Correia
37:36
E há essa responsabilidade de um jornalista quando tem que contar essa notícia? Eu acho que há. Claro que eu acho que há.
Rodrigo Guedes de Carvalho
37:44
Mas deixa-me voltar só à questão da Camila e da leitura. Porquê é que é importante que a Camila e as outras crianças que continuam a nascer leiam? porque está mais do que visto e neste sentido os meus anos de vida mostraram-me isso e uma das coisas que me levou a escrever este livro foi esse meu medo, esse meu receio de que a falta de leitura está a levar a uma estupidificação das pessoas porque as pessoas estão a ficar sem vocabulário e estão a ficar sem imaginário porque só a escrita só a leitura de textos impele uma atividade cerebral no sentido, por exemplo, da abstração, da imaginação. Tudo o resto é uma comunicação passiva para as pessoas. Estamos a perder palavras. Estamos a perder palavras. Basta andares pela rua, basta ouvires as pessoas falar para perceberes que estamos a perder palavras. Basta ver o grande monumento da falta de vocabulário que é o Trump, que deverá conhecer 140 ou 150 palavras, mas não só o Trump. Hoje em dia, um dos grandes problemas às vezes a comunicar com pessoas mais… Não é necessariamente sempre as pessoas mais jovens, mas às vezes com pessoas mais jovens eu vou sentindo que há uma enorme falta de vocabulário que está ligada à falta de leitura.
Jorge Correia
39:21
E ao mesmo tempo lá está a perda do sentido de ironia, a perda do sentido dessa abstração.
Rodrigo Guedes de Carvalho
39:27
Claro, porque tudo isto vem acompanhado. É aqui que entram as massas que alimentam os extremismos, sendo os extremismos, em minha opinião, de direita e de esquerda, as massas que alimentam esses extremismos, normalmente falham muito no campo da discussão. Porque falham na argumentação. São monolíticos. Porque a certa altura primeiro não querem ouvir e depois, na verdade, não estão a perceber. As pessoas são levadas e, nesse sentido, as redes sociais é um cancro. Porque as redes sociais, mesmo que as pessoas não o percebam, estão fabricadas de forma a alimentar as pessoas sempre com mais do mesmo. Quando uma pessoa tem um certo tipo de pensamento, a rede social vai alimentá-la com mais do mesmo…
Jorge Correia
40:17
E quanto mais barulho houver, mais aquilo.
Rodrigo Guedes de Carvalho
40:19
O que a vai convencer cada vez mais de que tem razão.
Jorge Correia
40:22
Porque o objetivo lá está, é agarrar a pessoa, quase uma toxicodependência, agarrar para tu ficar lá o máximo tempo possível.
Rodrigo Guedes de Carvalho
40:29
No limite dos limites, quando tu segues todos estes percursos, a ver onde é que eles vão dar, como eu escrevo no livro sobre a questão da poluição e das conferências climáticas, quando segues o percurso, a linha, vai dar onde? Vai dar o dinheiro. Onde houver dinheiro, onde houver dinheiro a ganhar, isso vai gerar tudo o resto. Portanto, se nos dedicarmos a encontrar a fonte, lá está aí a fonte… Mas a fonte é sempre a mesma. As alterações climáticas não vão ser combatidas. Não vão. Porque isso não dá dinheiro. A ecologia só teria alguma hipótese se desse dinheiro. Talvez-se uma economia verde que permitisse gerar muito dinheiro. Repara, eu tenho um capítulo inteiro sobre isso, em que vou ironizando ao máximo, esticando a corda ao máximo, imaginando as várias conferências sobre o clima de 5 em 5 anos. Mas esse meu exagero não anda longe da verdade. Todas elas chegam a conclusões muito vagas, no sentido que têm que fazer outra reunião. Todas elas assumem que há certos níveis de temperatura do mar que já foram batidos e linhas vermelhas foram passadas, mas talvez na próxima conferência, e andamos a empurrar com a barriga. E, portanto, isso nunca vai acontecer, porque os mesmos líderes que estão nessas conferências a dizer que combatem o aquecimento global, continuam a abrir minas e a fazer guerras com aviões e chegam às conferências nos seus atos privados. Portanto, isto não tem qualquer… E depois dizem às pessoas, ah, não, mas agora temos umas tampinhas que ficam agarradas às garrafas. Ou você tem, e se entregar a sua coisa de plástico, vai salvar o mundo, que é uma coisa absolutamente patética.
Jorge Correia
42:24
Portanto, estamos ao mesmo tempo a exaurir os nossos recursos, a não fazer concessões na nossa existência porque queremos continuar a tirar o nosso telefone e a trocá-lo de dois em dois anos. a conduzir o nosso automóvel e, portanto, num profundo egoísmo, que é que queremos salvar o mundo, mas os outros que vão à frente e salvem primeiro.
Rodrigo Guedes de Carvalho
42:43
Eu penso que sim, até porque, se tu reparares, a luta pelas alterações, a luta contra as alterações climáticas faz-se de uma forma que utiliza agentes poluidores, não é? Portanto, o saldo nunca é grande coisa. Não, sobretudo, eu acho que é um enorme embuste. A ideia de que alguém está realmente no mundo interessado ou está interessado em travar isto, porque quando se chega à conclusão de que isto teria algumas soluções fáceis, que quer fechar algumas torneiras, se essas torneiras não se estão a fechar, é porque há interesses que não querem que elas fechem e que continuam a ser predominantes em relação aos outros.
Jorge Correia
43:38
Estamos rodeados de tecnologia. O advento da inteligência artificial deixou de ser uma promessa e agora é outra coisa qualquer. Como é que tu olhas para isto? Como é que tu olhas para os chatos GPTs da vida e que jandos? Não olho.
Rodrigo Guedes de Carvalho
43:52
Não olho, não utilizo. Não utilizes todo, nem sequer experimentas uma curiosidade. Acho que na minha… Foi das últimas grandes conversas que tive com o Pinto Balsemão. O Pinto Balsemão era movido a futuro, como eu costumo dizer. Era uma coisa que o mantinha jovem. E ele estava absolutamente apaixonado pela inteligência artificial e estava a estudar a fundo as questões da inteligência artificial. E, portanto, ele era, sobretudo, filosoficamente, um grande defensor da inteligência artificial. E eu era um grande cético. E ele chamava-me Velho do Restelo. E pegavam-se a discutir. pegávamos no bom sentido tínhamos discussões muito francas e muito bem humoradas mas eu dizia-lhe na minha atividade de ficção literária e mesmo de jornalista a inteligência artificial vale-me bola zero, não preciso dela absolutamente para nada será extraordinária em milhares de outras coisas agora há uma extraordinária nós estamos a ensinar nós estamos a ensinar a máquina a grande máquina a tomar conta de nós porque toda a gente se tu reparaste, toda a gente diz assim é inevitável que a inteligência artificial eu penso assim é inevitável, porquê que é inevitável? a não ser que nós estejamos num movimento global de nós queremos entregar à máquina a nossa vida e as nossas tarefas. Perder a nossa autonomia, no fundo. E em nome de quê? O que eu pergunto sempre, e em nome de quê? Isto parece-me apenas um movimento de preguiça, como se vê, aliás, de forma absolutamente patética e perigosa nos novos estudantes. Mas é um grande motor a preguiça, não é? Claro que é um grande motor, mas vamos ser sinceros e honestos. Agora, quando tu começas a ter toda uma geração de estudantes das mais diversas áreas que utilizam a inteligência artificial para enganar a sociedade onde se vão integrar, ou seja, fazem cursos através da inteligência artificial, pondo a inteligência artificial a fazer-lhes os testes, portanto, não adquirindo conhecimento, mas sim enganando professores no sentido de obter notas para depois com essas notas obterem empregos, isto está tudo ao contrário. Empregos onde vão utilizar a inteligência artificial também mantém-se o mesmo circuito. Sim, mas reparem, aqui há tempos, muitas vezes falo com jovens estagiários jovens que estão a começar na SIC formando-os e aqui há tempos uma coisa é corrigir textos que estão maus que eu acho que estão fracos que podem ser… agora estão-me a aparecer textos que eu vejo nitidamente que aquele miúdo que andou a estudar no liceu e depois quis ir fazer o curso de comunicação social e os pais se calhar até tiveram entrar em despesas e pagar-lhe um quarto fora da terra para ele não sei o que, não sei o que mais, para finalmente conseguir um estágio na SIC. E chega a SIC e a primeira coisa que faz é, dão-lhe uma peça para fazer e ele recorre à inteligência artificial e põe a inteligência artificial a fazer-lhe o texto. E eu olhei para este miúdo e disse assim, mas isto é isto que tu pretendes fazer da vida? Tu tiraste um curso de comunicação social para chegares a uma redação e agora tens 22 anos a tua vida vai ser isto? É isto que tu achas que é ser jornalista? Dão-te uma coisa, tu pões os dados na BIMB e pedes à inteligência artificial que te faça um texto. Mas que tipo de ambição é esta? Que contributo para o mundo é que tu trazes? Deixa de ser necessário jornalista, no fundo, não é? Mas esse é que é o problema. Como é o problema? Diz-se às vezes que eu sou um pivô, um bocadinho interventivo, e tenho umas opiniões. Mas querem robôs? Mas se querem robôs, não tem problema nenhum. Então eu, se fosse, por exemplo, se fosse a família Balsemão, eu despedia os jornalistas todos e punha lá robôs da inteligência artificial. Se é esse o jornalismo que nós queremos, ah, então é muito mais barato. Mas não é a mesma coisa. O meu problema é que eu já vejo muitos colegas meus, muitos pivôs, que, de alguma forma, apresentam de uma forma absolutamente mecânica e desapaixonada. E eu acho que isso aproxima-os muito mais da mecanização que a inteligência artificial promete do que a humanização de cometermos erros e termos emoções.
Jorge Correia
48:30
Essas marcas de comunicação, por acaso, da inteligência artificial são, aliás, muito claras. Se nós pedimos às várias inteligências artificiais para produzir um determinado texto, aquilo basicamente é receita e da BIMBY. É da mesma maneira, da mesma mecânica.
Rodrigo Guedes de Carvalho
48:44
Claro, e depois todos se mimetizam. Não há uma subjetividade no fundo mesmo. Todos escrevem da mesma maneira, o que leva a que jornalistas que se alimentam disto passem a falar todos da mesma maneira, com os mesmos jargões, com os mesmos vícios de linguagem, com as mesmas muletas. Então tu tens todo um exército de coisas absolutamente iguais, que se calhar é o futuro, que se calhar é o que os grandes industriais da comunicação social querem é esses exércitos de soldadinhos que fazem tudo da mesma maneira. E que estão capazes de produzir, lá está, 10 vezes, ou 20, ou 30, ou 50 vezes mais. Claro, porque se não são eles que estão a pensar, não é? Se é só pedir à máquina, não tem nada que saber.
Jorge Correia
49:30
Então, e que nós estamos mesmo praticamente a terminar que é essa quantidade gigantesca até agora de conteúdos produzidos por seres humanos. Se ainda por cima, se posermos as máquinas e multiplicarmos isso, Não pode intensificar aquela sensação de canseira, da ruideira de tantas notícias, de tantos conteúdos, de tantas coisas? Deu-me por dizer, agora quero desligar, agora não quero ouvir mais nada.
Rodrigo Guedes de Carvalho
49:54
A questão do ruído começou em Portugal, noutros países começou antes. Em Portugal começou com a CIC Notícias, porque eu lembro-me que o nosso sentimento na redação da CIC foi isto agora nunca mais vai parar. E a partir do momento que há um canal de notícias 24 horas e depois apareceram outros, hoje são 5 ou 6, se não estou em erro, é aquilo é uma locomotiva a vapor que nós temos que estar sempre a meter carvão. Há que alimentar o cavalo. Se só tiveres dois ou três temas minimamente relevantes no dia, o que é que isso faz? Faz com que assistas a maratonas de seis ou oito horas sobre o mesmo tema como está a acontecer agora neste dia em que estamos a falar com o calor, com o Cristiano Ronaldo e com os incêndios.
Jorge Correia
50:40
Vamos esgotar os temas sempre e falar deles sempre em seguida.
Rodrigo Guedes de Carvalho
50:44
Em loop e pior. E muitas vezes a dizer… Como é que eu tenho de explicar isto? Por vezes o jornalismo, em vez de criar, de ser aquele porto de abrigo em que as pessoas… Está a acontecer qualquer coisa e as pessoas vão ao jornalismo para que o jornalismo lhes diga exatamente o que é que está a acontecer e entra um papel, de alguma forma, pedagógico de acalmar, de tranquilizar as pessoas, de serenar no sentido os dados são estes, os factos são aqueles, são com outros. Temos, nesta altura, um jornalismo que, com sede e com medo da concorrência, que a concorrência faça o mesmo antes, instila alguma ansiedade nas pessoas. Pensas na reforma para escrever mais livros? Não, eu não preciso da reforma para escrever mais livros. Tenho escrito os livros sem estar na reforma. Penso na reforma como qualquer pessoa pensa. Está quase a chegar. Não faço ideia se a desejo rapidamente ou não. Tenho andado a pensar ano a ano.
Jorge Correia
51:51
Rodrigo Edes Carvalho. Obrigado.
Rodrigo Guedes de Carvalho
51:54
Obrigado eu.
Rodrigo Guedes de Carvalho
00:00
A escrita de ficção, para mim, é um exercício de liberdade, de expressividade. Quando um dia eu morrer, a forma como eu me expressei neste mundo, não é a marca que quis deixar, não vou aí. A forma como eu me expressei, o que eu quis dizer, está nos livros, muito mais do que no jornalismo.
Jorge Correia
00:20
Pergunta simples. Um programa sobre comunicação. Para quem quer boas respostas. Há uma coisa que um noticiário não consegue fazer, nem tampouco um dos mais experientes apresentadores dos principais jornais televisivos do país. Pode dar-se a notícia, pode escolher-se o tom, pode serenar-se ou alarmar-se as pessoas, mas não se pode dizer o que o jornalista não sabe ou não consegue dizer. Há 40 anos que Rodrigo Guedes de Carvalho entra pela Casa dos Portugueses, deu más notícias, narrou guerras, descreveu catástrofes e fê-lo com uma contenção que com o tempo se tornou ela própria uma mensagem. O que eu não sabia ao preparar esta conversa é que ele nunca quis ser jornalista, pelo menos no início. Queria ser romancista, queria ser publicitário, mas o jornalismo aconteceu-lhe. E ainda bem. Desde 1992 que os dois ofícios coexistem. 11 livros publicados ao longo de 30 anos. Em paralelo, está como cara do Jornal da Noite da SIC. O mais recente romance passa-se em Portugal, no ano de 2066, com drones nos céus, com água racionada e toda a gente com os olhos tapados a olhar para um ecrã. No centro da história, uma ministra da influência que nunca teve cargo oficial, mas foi sempre a sombra de cada líder. Parece-vos uma história muito longínqua ou já vemos aqui sinais de coisas que se calhar já se vão passando hoje em dia. Mas há uma frase que ele diz na promoção do livro que me ficou mais do que qualquer personagem do livro. A frase é Nada me daria maior prazer do que juntarmos 500 jornalistas numa sala para falarmos sobre o que andamos a fazer. O que andam a fazer os jornalistas. Isto não é uma sugestão de um evento. Isto é um diagnóstico de crise de uma profissão, do jornalismo. Dito por alguém que ainda está dentro do sistema que critica. Hoje a conversa é sobre isso, sobre o que um jornalista sabe e não consegue dizer, sobre o que a dor dos outros faz a quem a comunica durante décadas e sobre o que fica quando 40 anos de notícias finalmente param um bocadinho para fazer um balanço. Convosco, Rodrigo Guedes de Carvalho. Tu estás apresentado há mais de quantos? 30 anos?
Rodrigo Guedes de Carvalho
02:39
Mais? 34 só de SIC. Com RTP são 40 de profissão. Xissa.
Jorge Correia
02:47
O diá de ainda é prazeroso ao fim desse tempo?
Rodrigo Guedes de Carvalho
02:51
É. Embora uma das coisas curiosas eu acabei por fazer 40 anos de jornalismo quando eu nunca quis ser jornalista. Foi uma coisa que me aconteceu. Normalmente é um banho de água fria quando vou a sessões com jovens estudantes de comunicação social e vem sempre aquela pergunta, não é? Que eles querem que seja inspiradora. E quando é que sentiu o apelo e o sonho de ser jornalista? Nunca me aconteceu. Eu queria ser publicitário, eu queria ser romancista e publicitário na senda do Arito Santos e do Alexandre O’Neill e o jornalismo, tive que andar à procura de emprego no final do curso, saí-me bem no centro de formação da RTP e quando por ela estava na redação então percebi que aquilo iria ser mais ou menos, a minha carreira. E, portanto, não escolhendo o jornalismo, habituai-me depois a gostar dele e, sobretudo, a respeitá-lo.
Jorge Correia
03:53
Não vale a pena, portanto, fazer grandes planos, que nós escolhemos várias coisas e depois aparece…
Rodrigo Guedes de Carvalho
03:58
Sim, todas as vidas serão diferentes, mas é curioso, o Agostinho da Silva dizia muito isso, os planos que a vida tem para nós, que são sempre mais fortes do que aquilo que nós possamos desejar ou prover. mas no meu caso, não digo isto com mágoa nenhuma, pelo contrário, foi uma profissão em que me saí bem, que aprendi a gostar e que é, respondendo à tua pergunta, sim, é um prazer ser jornalista.
Jorge Correia
04:26
Aparecer todos os dias na televisão, ali à hora do jantar e contar as notícias, implica a construção de uma credibilidade, de uma ideia de ser aquele, do provedor das notícias no fundo. estão aqui as notícias que nós conseguimos aqui a repanhar mas ao mesmo tempo obriga-te ou obrigou-te a criar uma carapaça de ti próprio ou aquele que ali está és tu?
Rodrigo Guedes de Carvalho
04:51
Obrigou-me acho que aqui entramos na zona em que penso que muitos atores também entram que é representar tão bem um papel que ele seja absolutamente orgânico e o mais, e parecendo que não estamos a representar. Agora, é impossível não se estar de alguma forma a representar porque se está num papel outro, ou seja, aquilo não é uma situação normal. Eu estou, de fato, em gravata, com os holofotes em cima e sei que ao falar, o que eu vejo à frente é apenas uma câmara escura, mas eu estou a falar para milhões de pessoas. Portanto, não é uma situação normal. Nesse sentido, eu não estou ali como quem está em casa. A questão da visibilidade foi complicada para mim porque eu sou o contrário da pessoa que quer ser visível. E foi muito difícil, eu tive que aprender, foi uma grande escola de autopsicologia, eu aprender a viver com a minha figura pública, porque eu sou muito tímido, sou de poucas falas, fico muito embaraçado quando se dirigem a mim. E, portanto, eu tive que conviver isso durante todos estes anos, hoje em dia estou muito pacificado com isso, Mas não foi nunca, tudo isto para te dizer, a posição de ser o pivô do Jornal da Noite, o pivô do Prime Time, nunca foi o objetivo em si. Mas não te dá uma vaidade? Não, não, vaidade nenhuma. Dá-me uma responsabilidade. Que é diferente. E eu gosto dessa responsabilidade. Ou seja, aquela sensação, repara, sobretudo quando temos notícias de última hora, ou exclusivos, ou notícias importantes, ou não sei o que mais. Aqueles 10 minutos antes do Jornal da Noite, em que eu sei algo que os portugueses ainda não sabem, e que vão saber, através do meu rosto, da minha voz, do tom, que eu acho que é tudo, é tudo na apresentação de um jornal, o tom. Mesmo na televisão? É o que nos diferencia. Sim, sim, sim. O tom. O tom pode ser alarmista, pode ser excitado, como pode ser sóbrio, como pode ser tranquilizador. Aí é a nossa escolha, é a escolha do profissional. E, portanto, essa responsabilidade é algo que me agrada e que me orgulha. Não tenho vaidade no sentido, eu não sou mais do que ninguém, por isso simplesmente pelo meu rosto ser mais reconhecível do que outros.
Jorge Correia
07:13
Mas ganhas essa credibilidade também pela exposição e depois pelo tom. Essa ideia do tom é para mim interessante. Lembro-me com clareza dos tempos da pandemia, em que tu apareceste a contar as notícias, num tempo de grande incerteza, mas também em determinados momentos a editorializar um bocadinho, uma coisa que…
Rodrigo Guedes de Carvalho
07:35
Eu diria que eu editorializei, eu diria que eu partilhei da forma mais sincera possível o espanto que eu próprio estava a sentir em relação à situação. E sempre me pareceu que seria absolutamente ridículo nós estarmos a viver… Nós hoje olhamos para a pandemia até com alguma irritação, esses tempos das máscaras e não sei o quê. Mas se recuarmos ao início daquilo, foi uma coisa assustadora. Nós não sabíamos, na verdade, o que é que estávamos a viver e foi talvez a primeira experiência coletiva, e aqui sim, no país e no mundo, a primeira experiência coletiva de um certo sabor a apocalipse. O que é que se vai passar? Durante quanto tempo é que isto vai durar e quais são as consequências para nós? E eu não saber nada. Exatamente. Achei que seria ridículo. Que seria, então, seria sim aí reduzir os pivôs dos jornais a meros robôs que podem ser substituídos pela indiferença artificial, se eu me limitasse a chegar ali e a ler comunicados ou telexes com o ar mais seco do mundo, com que toda a gente diz que deve ser, que as pessoas confundem essa segura com a objetividade. Mas isso é outra história. Então eu quis comungar do meu espanto, eu próprio, não sei o que vos digo, eu não sei o que é que se está a passar, vamos todos estar a aprender em todo este processo. E criou-se aí uma primeira, olha, um primeiro vislumbre do que vivemos hoje, que são os fundamentalismos. Houve pessoas que se sentiram absolutamente apoiadas por mim, nesse aspecto, acompanhadas em casa, e houve pessoas que passaram a odiar-me porque eu era um moralista, ou porque era não sei o que mais, ou porque lia poemas, ou porque estava a fazer o jogo do governo e dos gajos das vacinas, e essa coisa toda. Eu acho que a pandemia foi o primeiro grande momento, aliás, se reparar-se, o André Ventura era um deputado solitário pouco antes do início da pandemia, em 2019, e nós saímos da pandemia, todos, enquanto experiência coletiva, em posições absolutamente extremadas.
Jorge Correia
09:55
O medo ativou, no fundo, esta nossa polarização, ou pelo menos potenciou?
Rodrigo Guedes de Carvalho
10:01
Sim, claro, porque o medo é o grande motor da ignorância. Tem imensas matizes, mas, obviamente, todos os ignorantes têm muito medo, Até porque o ignorante, no limite, ele sabe que não sabe muitas coisas e, portanto, isso faz-lhe medo. É uma reação absolutamente empírica do ser humano. O que eu acho é que, e aqui sim, a questão das vacinas foi apenas o primeiro tubo de ensaio de uma divisão da sociedade, que hoje se verifica em tudo, não é só no chega, não chega, é também no ama o Cristiano Ronaldo ou então odeias o Cristiano Ronaldo e por aí fora, nós hoje não conseguimos discutir absolutamente nada que tenha uma adversativa que é… Eu, por acaso, acho que o Cristiano Ronaldo foi muito bom, mas, a partir do momento que dizes, mas estás condenado, porque a sociedade obriga-te a estares ou num polo ou no outro e isso começou muito na pandemia
Jorge Correia
11:08
Estamos a gravar já agora numa sexta-feira a seguir à madrugada em que Portugal ganha à seleção de Modric É curioso o fenómeno Cristiano Ronaldo, lá está essa polarização nós não conseguimos observar e dizer sim, foi um grande jogador sim, agora tem 40 anos e é da vida que as coisas correm menos bem Não, se tu dizes ele devia ir para o banco, todos os ativos para o Ronaldo caem-te em cima, e o contrário também. Sim. Perdemos a racionalidade das coisas?
Rodrigo Guedes de Carvalho
11:44
Perdemos, acho que perdemos. As discussões sobre o Ronaldo são particularmente patéticas. eu vi não consigo acompanhar tudo mas apareceu-me no algoritmo uns insultos absolutamente selváticos das irmãs do Cristiano Ronaldo ao Carlos Daniel porque pelos vistos ele terá dito qualquer coisa sobre o Ronaldo no sentido que o Ronaldo deveria ser substituído ou entrar só ou jogar só 30 minutos isto não quer dizer que não se goste do Ronaldo ou que não se respeite o Ronaldo ou que não se venere até tudo o que o Ronaldo nos trouxe.
Jorge Correia
12:21
A palavra é venerar.
Rodrigo Guedes de Carvalho
12:22
É, mas lá está. Hoje em dia não se admite nenhum mas. Tu só podes ou adorar, idolatrar o Ronaldo e ser para sempre subjugado por tudo o que ele nos deu ou então és um tipo que odeia o Ronaldo. E portanto, isto é apenas mais… Eu nem sequer faço nenhum… Olha, no Jornal da Noite não faço nunca nenhum comentário sobre isso. Neste momento tenho uma crónica no Expresso. Não me ocorreu durante, em nenhum momento, escrever uma linha sobre isso. Porque eu já sei o que é que isso vai desencadear. E são campeonatos para os quais eu já dei.
Jorge Correia
13:04
Olha, há uma frase tua, uma frase ou uma provocação, ou uma vontade, ou uma iniciativa, podemos ver o que é que ela quer dizer, Gostava de juntar 500 jornalistas numa sala. Para quê? Para que juntar este grupo de 500? Enfim, imagino que o grupo de 500 é uma amostra.
Rodrigo Guedes de Carvalho
13:21
Disse isso como podia ter dito outra coisa. Isso foi tomado muito à letra. Não quis dizer… Foi só um debate. Não, não foi só um debate. Nós funcionamos muito por imagens. A minha imagem, a imagem que eu quis dar é nós somos uma classe que nesta altura tinha tudo a ganhar se discutisse o que é que ia andar a fazer. Foi basicamente isso.
Jorge Correia
13:45
O jornalismo está com problema de comunicação, de comunicar a sua própria atividade?
Rodrigo Guedes de Carvalho
13:48
O problema, eu acho que o jornalismo está mergulhado e aqui o jornalismo já neste momento é absolutamente geral. Ou seja, já não há o jornalismo de imprensa ou da televisão ou da rádio, até porque, e como vai provar este podcast, gravamos na rádio, mas também tem vídeo e vai ser transmitido digitalmente nas redes sociais, onde está toda a gente. Neste momento temos todas as mesmas armas. As televisões, as rádios, os próprios jornais. Ainda há pouco comentávamos que os jornais, quando surgiram no digital, limitavam-se a copiar o papel e perceberam rapidamente que tinham também que ter vídeo e que também tinham que ter áudio, essa coisa toda. Portanto, o jornalismo, ele próprio, tornou-se um mídia global com as mesmas armas. Passamos a ser um meio híbrido, no fundo. E está muito ocupado, como tem muita coisa para fazer, tem muita coisa para alimentar. As televisões de 24 horas têm que estar no ar 24 horas. As rádios, desde sempre, têm os seus noticiários de hora a hora. E agora o digital é uma nova máquina devoradora que tem que ser alimentada, tem que alimentar o algoritmo, chamar as pessoas para que elas continuem ali e não vão para o adversário. Tudo isto leva ao quê? O jornalismo está demasiado ocupado a fazer, a executar, do que a pensar. E eu cresci num jornalismo em que, nas várias redações, começando pela DRTP, eu ainda era muito jovem e estava na editoria de desporto, mas já tínhamos grandes discussões sobre a profissão, e depois no início da SIC, que foram anos fervilhantes, os anos do Rangel, que ele próprio instigava, ele e o Balsemão, instigavam os jornalistas, no bom sentido, a debaterem uns com os outros. Se alguém tinha uma crítica a fazer à reportagem do colega, dizia, nós chegámos a fazer plenários sobre alinhamentos. Porquê que abres com esta notícia e não abres com aquela? Precisamente, mas o que é que nos passou? Porquê que nos falhou aquela notícia? Porquê que demos este tom a esta notícia que foi um tom não sei o quê? Falávamos sobre a profissão. E hoje em dia é muito difícil encontrar jornalistas que queiram falar sobre a profissão, que estão todos a fazer. Estamos a ficar todos amorfos? Sem dizer se estamos…
Jorge Correia
16:11
Porque é curioso que ao mesmo tempo que o mundo acelerou e se torna mais polarizado, parece que os jornalistas, que eram os donos da bola, no fundo, se abstenham agora de participar evitando até de discutir o seu próprio métier, o seu próprio negócio, a sua própria maneira de fazer.
Rodrigo Guedes de Carvalho
16:29
São coisas diferentes. Uma coisa são os jornalistas e outras é quem são os chefes, os diretores, os presidentes, os donos disto tudo do jornalismo e o que é que eles esperam? Que os jornalistas, sob a sua alçada, façam. Isso é outra coisa. Eu tive a aventura de trabalhar praticamente toda a minha vida profissional para o Francisco Pinto Balsemão. Um luxo. E foi um luxo. Foi, de facto, um luxo. Muitas pessoas não saberão nunca o que é porque foi dos homens mais íntegros e mais independentes que eu conheci. E que pagou alguns preços que as pessoas não sabem a sua independência através da SIC e do Expresso, que levou a que a SIC e o Expresso pudessem confrontar amigos dele ou pessoas anunciantes que tinham interesses, que contavam muito para as contas da SIC e do Expresso. e não foi por isso que se deixaram de fazer notícias sobre ele. Agora, os jornalistas nem sempre são aqueles que decidem o que é que a SIC ou o que é que a CNN, enquanto entidade editorial, vai fazer. Por vezes há pessoas, nós nem sempre estamos de acordo na SIC, ou no cálculo que na RTP, nem sempre estamos todos de acordo numa relação sobre o alinhamento que nós apresentamos. Agora, o que me parece é que aquele jornalismo de furar, de denunciar, de procurar histórias próprias, por exemplo, está em decadência, talvez até por imperativos económicos. Se tu reparares hoje, eu lembro-me que era muito caro o jornalismo televisivo, por exemplo, é um jornalismo muito caro. Ou mandar um repórter para a guerra, por exemplo. O repórter para a guerra, mandar sobretudo o repórter de imagem com toda a sua parafernália. E hoje em dia nós temos, por exemplo, este caso do Anthony Wells, que está na Venezuela, sozinho com um telemóvel. E ele faz diretos de televisão. Ou seja, as tecnologias criaram uma rapidez e uma facilidade que faz com que, com que neste momento, com jeitinho, qualquer pessoa finja que é jornalista ao fazer mais ou menos aquilo que os jornalistas fazem.
Jorge Correia
19:02
Um repórter cidadão no fundo, que está em todo lado.
Rodrigo Guedes de Carvalho
19:05
Um repórter cidadãos que estão absolutamente… Olha, outra coisa que nasceu na pandemia, lembro-me que das coisas mais graves que eu senti na pandemia, foi quando, muito a propósito da questão das vacinas, de repente começou a haver grupos de WhatsApp que reclamavam que eles é que sabiam a verdade sobre o que é que se estava a passar. Que a comunicação social estava a mentir-nos e que eles tinham áudios de médicos que comentavam entre si que íamos todos morrer. Uma forma de descredibilização também do jornalismo. Claro, é isso que eu estou a dizer que começou na pandemia. Começou a sensação de que, ó malta, vamos cá pensar numa coisa. Nós não precisamos do jornalismo para nada. é quando nasce, aliás, a expressão que detesto, jornalixo, que neste momento é utilizada por toda a gente e é utilizada sempre que o jornalismo emite uma notícia que não agrada àquela pessoa. É tão simples quanto isto. A partir daí, o jornalismo, para essa pessoa, é jornalixo. Mas nasceu aí. Nós não precisamos do jornalismo. Nasceu esta ideia.
Jorge Correia
20:14
Nós sabemos tudo e eles estão-nos a esconder a verdade.
Rodrigo Guedes de Carvalho
20:16
Eles estão-nos a esconder a verdade. E, na verdade, nós não precisamos do jornalismo oficial, porque cada cidadão, nesta altura… E houve um comentário que eu achei espantoso, que eu disse, é que está o pronúncio dos novos tempos, de um tipo que dizia assim, eu deixei de ver as notícias na televisão, e diz o outro assim, então, mas como é que sabes das coisas? Sei através de um grupo de WhatsApp. Então esta pessoa acha que o grupo de WhatsApp para onde está com os amigos, é perfeitamente suficiente para ele ser informado de forma correta e objetiva sobre o que se passa no mundo. Até por causa desse estranho fenómeno que é, se eles estão a dizer isto e eu estou de acordo, claro que é verdade. Claro, pois, mas isso é mais… Essa humaníssima tendência tinha que, obviamente, tomar conta dos tempos modernos. As pessoas olham para a sociedade sempre no sentido de o jornalista sério é aquele que dizas ou que escolhe as notícias que me agradam não é o outro
Jorge Correia
21:21
Olha, eu gosto muito do Rodrigo porque ele acabou de me dizer uma coisa que obviamente ele tem razão ou então não senhora, ele acabou de me dizer uma coisa que é absolutamente inaceitável, ele nem sequer devia ser jornalista
Rodrigo Guedes de Carvalho
21:30
Obviamente não, mas é assim que funciona e saio de fonte segura porque mesmo que eu tenho uma participação muito rudimentar nas redes sociais mas houve tempos no início do Facebook, só estou no Facebook e no Instagram, não estou em mais sítio nenhum. E houve algumas publicações no Facebook em que tinha pensamentos, mas deixei rapidamente ter. Neste momento ele funciona apenas como divulgação dos livros, porque eu não tenho mais saco nem paciência para qualquer coisa que uma pessoa diga é imediatamente atacada por um ângulo qualquer. E depois vêm as pessoas que me querem defender. e que também muitas vezes me defendem irracionalmente. E depois vêm as outras pessoas que querem insultar-me e, portanto, insultam as pessoas que me estão a defender. E pegam-se todos lá. E eu já não tenho saco para isso. E depois há muitos… Isso é que eu acho muito curioso que é mesmo de quem não me conhece. Há dezenas de situações e de polémicas em que estão pessoas a discutir e que me identificam lá como que a chamar-me à discussão. Tu estás a ver o que é que
Jorge Correia
22:42
este está a dizer? Chamar-me à discussão.
Rodrigo Guedes de Carvalho
22:44
Às vezes até para me insultar, não sei o que mais. Pai, é como aquele não sei o que, Rodrigues Carvalho, identificam-me que é para me obrigarem a ir lá a ver se eu respondo. E isso não te afeta? Não, pá, não. Mas verdadeiramente não. Por quê? Por uma questão de personalidade e porque como começámos aqui por dizer são 40 anos disto. Isto para mim nada disto é novo. É certo que na RTP só tínhamos os telefonemas e as cartas do protesto dos espectadores. Mas eu vivo com isto toda a minha vida. Eu não vou importar-me. Às vezes não gosto muito de dizer assim que me estou a marimbar para o que os outros dizem porque parece uma soberba. Mas no limite, não. Haverá meia dúzia de pessoas, duas das quais faleceram este ano, o António Lobo Antunes e o Pinto Balsemão. haverá meia dúzia de pessoas que me importam o que é que pensariam sobre mim. O resto importa-me pouco. E depois aqueles que me são próximos e aqueles que eu sei que realmente gostam de mim.
Jorge Correia
23:50
Olha, se posso entrar aí um bocadinho na tua intimidade. O que te dizia António Lobo Antunes? Falavam com alguma regularidade?
Rodrigo Guedes de Carvalho
23:57
Não, muito. Não com grande regularidade. Falávamos de coisas pequenas. O António Lobo Antunes tem, ainda digo que tem, tinha a idade do meu pai. São 20 anos de diferença para mim. E eles quase coincidiram no mesmo local, no Luso, no Alto Coito, em Angola, exatamente na mesma posição, de médicos alféres milicianos. E, portanto, eu comecei por ter uma ligação de leitor e adoração com o António Lobo Antunes, até que finalmente o conheci e comecei a dar-me cabelo. Mas não, nem sequer éramos íntimos. As nossas conversas pouco versavam sobre literatura. Era sobre miudezas, sobre sentido de humor perante as palermices do mundo, mas era uma relação muito, muito tornurenta. Porque eu, por exemplo, desde sempre, eu cumprimentava-o sempre com um beijo. ao António Lobantunes. Uma das coisas mais emocionantes que me aconteceu numa das últimas feiras do livro, em que ele já estava bastante débil fisicamente, ele estava sentado com o seu chapéu à sombra, o mais protegido possível. Lá estava, lá tinha as suas filas proverbiais. E eu, ao aproximar-me do sítio onde também me ia sentar, Aproximei-me por trás e abracei-o por trás e dei-lhe um beijo na cara. E ele, sem ver quem era, disse Rodriguinho, já chegaste. Então tínhamos uma relação eterna que falávamos de mundanidades. Ele era um tipo muito simples no bom sentido. E era um tipo carinhoso.
Jorge Correia
25:48
E genial na escrita. E eis senão quando o Rodrigo Guedes Carvalho resolve escrever um livro chamado o meu primeiro apocalipse o primeiro, quer dizer, pode haver um segundo, um terceiro um quarto, Portugal de 2066 que imaginaste quanto desse espaço desse primeiro apocalipse ou da ameaça da apocalipse, não quero estragar o livro para quem o vai ler já existe hoje em dia?
Rodrigo Guedes de Carvalho
26:13
Eu acho que a graça do livro a tê-la é essa ou seja, ele é tecnicamente uma distopia no sentido que as distopias se passam num futuro. Mas, se reparares, é um futuro que são 40 anos. 40 anos é uma distância curiosa, sobretudo quando um tipo tem 62. É uma brutalidade, 40 anos, quando pensamos caramba, 40 anos é tanto tempo, mas ao mesmo tempo passaram muito depressa. Por exemplo, no meu caso, dos meus 20 para agora passaram muito depressa. E, portanto, como não me interessava nunca escrever uma coisa sobre discos voadores no ano 3000 ou outros planetas, ou Martes, ou não sei o que, essas coisas que me estou completamente a marimbar ou proezas da ficção científica, quis projetar o que é que nós seremos daqui a 40 anos para chegar à conclusão, segundo o meu livro, que somos basicamente os mesmos, como já éramos, como no limite, se formos ver, porque é que a grande literatura é grande, porque todos aqueles clássicos desde o tempo de Platão até Balzac escreveram basicamente sempre sobre a mesma coisa, sobre as nossas mesquinhices olha, no fundo, sobre os sete pecados capitais, se tu reparares todos os grandes romances andam sempre em volta desse tipo de sentimentos que guiam os humanos e portanto eu quis projetar o futuro, aquele futuro que se está ali a ler é um bocadinho sim, já estamos, em grande parte já estamos a vivê-lo.
Jorge Correia
27:53
Sendo que ainda há esperança para a humanidade? Quando tu olhas para o homem tu sentes que nós somos intrinsecamente bons ou uma desgraceira que estamos sempre a tentar sucessivamente na realidade suicidados?
Rodrigo Guedes de Carvalho
28:06
Isso é o velho, somos mais da linha Rousseau ou da linha Hobbes. Eu quero ainda eu tenho ainda uma esperança acho que sempre que um homem mulheres se levantam da cama e enfrentam o dia, isso significa que há uma esperança. Obviamente que há momentos de maior desespero há sobretudo quando se tem uma certa, um certo nível de racionalidade e de inteligência, custa muito ver, como dizia o Nelson Rodrigues, a quantidade enorme de imbecis e de estúpidos que vai povoando o mundo e que infelizmente um dia há de tomar conta do mundo porque são muitos, mas eu acho que aquilo que nos cabe fazer, nós devemos ir fazendo. O gesto que queremos ter, o exemplo que queremos dar, provavelmente não são as minhas três garrafas de vinho que vão salvar a humanidade, mas eu faço questão de as levar ao vidrão. E, portanto, o ir vivendo de acordo com princípios é, no fundo, é a grande esperança. E, nesse aspecto, a literatura sempre me ensinou uma coisa primeiro como leitor e depois como escritor, que é… Qual é a grande benção da literatura? O grande papel da literatura é descobrirem seres humanos, por vezes que habitam em países diferentes, descobrirem que são iguais, descobrirem que têm as mesmas preocupações. Tenho essa perceção. Tenho essa perceção. Tive-a como leitor, ao ler Garcia Marques, ao ler Joseph Conrad, pessoas que viveram tempos que eu não vivi em países que eu não vivi, e sentir que pensamos da mesma forma e que víamos o mundo da mesma forma. Também já tenho tido essa experiência enquanto escritor de leitores que me vão dizendo, você traduziu coisas que eu não sabia como dizer e que é exatamente isto. E, portanto, a literatura é uma forma inútil, mas maravilhosa de as pessoas se conhecerem sem nunca se terem visto.
Jorge Correia
30:11
Em contraste com esse homem bom, ou mulher boa, para alargar aqui o leque, Contas a história e vais à procura daqui, por um lado, da existência de uma jornalista, a Abacarina, e por outro lado, de uma ministra da influência. É isso? Não, a ministra da influência é que é a Abacarina. Essa é que é a ministra da influência. Bom, que grande emprego. É o que? O António Ferro dos tempos modernos? O que é que faz uma ministra da influência?
Rodrigo Guedes de Carvalho
30:35
É uma ministra de ser parda? Essa personagem, para quem não leu o livro, é, obviamente, caricatural. É um traço largo de ironia que eu escolhi. É quase uma personagem de banda desenhada, cuja característica é ser uma enorme influenciadora. Ela também é apresentadora de televisão, mas depois tem vários outros negócios. Não és tu, não. Não, não sou eu. Tem várias outras influências, mas ela tem uma grande capacidade que eu acho que distingue muitas pessoas que eu conheci ao longo da vida e que vão aparecendo cada vez mais, de se adaptar a toda a gente. Ela adapta-se a qualquer regime, adapta-se a qualquer tendência, porque ela, como se diz aí, a Avacarina só conhece um partido, que é o Partido Avacarina. Portanto, é uma espécie de camaleão. Isso, claro. E acho que há inúmeros exemplos de camaleões que são pessoas que vão se engrandando na vida com o objetivo da sua sobrevivência e do seu plano e que se adaptarão às esquerdas, às direitas, às cores, aos emblemas.
Jorge Correia
31:45
Se nós quiséssemos criar um perfil psicológico desse género de pessoas, estamos a falar de pessoas intrinsecamente oportunistas, pessoas que encontram o seu caminho e conseguem ir flutuando dentro dessas correntes do poder e da comunicação.
Rodrigo Guedes de Carvalho
32:02
Eu acho que nós, o intrinsecamente, certo? Oportunistas, sem dúvida. Eu pensei que dizias egoístas. Egoístas também? O egoísmo não é necessariamente um defeito. E não é uma coisa mal. Tal como orgulho. Acho que no limite todos nós, no fundo é aquela coisa, até numa psicologia ponto zero, nós temos que estar bem connosco e gostar de nós para nos relacionarmos com os outros de forma saudável. A questão é o que é que nós somos capazes de fazer para se ingrar, para ter mais fama, para ter mais dinheiro, para atropelar um competidor. Isso, para mim, é que normalmente define as pessoas. Não é elas quererem uma vida boa para si, ou um bom projeto para si. É uma ausência da ética? Sim, no limite sim, é uma ausência de ética. Porque a ética é uma coisa que eventualmente nascerá com as pessoas, mas que é muito bebida da educação. Pode ser aprendida. Do caldeirão. Pode e deve, e deve ser aprendida, e normalmente é. É por isso que tu tens de costume dar este exemplo. Eu tinha um grande amigo meu, de uma família de alta burguesia do Porto, que infelizmente foi apanhado nas chamadas malhas das drogas duras, e que eu um dia visitei numa instituição psiquiátrica e tive um sorriso ao vê-lo, porque era a hora da refeição, e eles eram para aí 20, e eles tinham todos um ar terrível de doentes e de maltratados, estavam num processo terrível, e ele era o único que tinha maneiras à mesa. porque as trazia de família e de educação. E é curioso que essa educação pelo exemplo, pelo exemplo e não pelo sermão, a educação pelo exemplo de nos levantarmos se uma pessoa mais velha entra na sala, de deixarmos passar uma senhora à frente, ou seja o que for, ou dizermos sempre obrigado, ou faz favor, ou com licença, é uma coisa que, quando as pessoas têm esse exemplo, as pessoas vão exercer isso. Da mesma forma que se as pessoas são criadas num caldeirão em que veem os seus familiares pararem em segunda fila, atirarem lixo para o chão, discutirem no trânsito, obviamente vão beber esses exemplos. E replicar. E, portanto, a ética é, sobretudo, em minha opinião, Uma condição em grande parte herdada ou apreendida.
Jorge Correia
35:01
A pergunta que está implícita no livro, pelo menos da maneira como eu li, é escrever para quem e para quê no momento em que está tudo perdido, não é? Em que a água já não presta para nada, em que há manipulação de informação, em que no poder estão precisamente aqueles que defendem polos completamente opostos. Vale a pena escrever neste quadro? Se isto já está tudo perdido? Sim, vale.
Rodrigo Guedes de Carvalho
35:29
Vale porque a escrita… Esse escrever para quê e para quem é até mais uma interrogação de quem faz um certo tipo de literatura e gosta de um certo tipo de literatura e vê que a grande maioria das pessoas, as chamadas massas, consomem outro tipo de literatura. E, portanto, nesse sentido, como nunca saberei escrever para essas massas, Penso, escrever para quê? Escrever para me realizar, para me cumprir, porque eu sou muito feliz a escrever porque é um momento de grande liberdade. Olha, e nesse sentido foi muito importante, apesar de eu ter começado a escrever antes de ser jornalista, a verdade é que toda a minha vida se passou entre o jornalismo e a ficção literária, E foi muito importante para mim como um certo escape do jornalismo. Neste sentido, o jornalismo, por mais que seja até um jornalismo mais autoral que eu possa ter, o jornalismo tem barreiras muito bem definidas, que são as barreiras da sua própria caixa. É a caixa dos factos, da chamada verdade, embora hoje em dia há pessoas que defendem é a tua verdade e a minha verdade. Não, isso não existe. Há a verdade que deve ser procurada, há os factos, há os dados, há as coisas. E nesse sentido fazem uma caixa rígida da qual eu não posso sair. Mas eu, como pessoa, sinto necessidade de mais. Sinto necessidade de criar outros mundos. E que não dá para fazer dentro do jornalismo. Não dá para fazer, obviamente, dentro do jornalismo. Portanto, eu procuro… É um exercício… A escrita de ficção, para mim, é um exercício de liberdade, de expressividade. Quando um dia eu morrer, a forma como eu me expressei neste mundo, não é a marca que quis deixar, não vou aí. A forma como eu me expressei, o que eu quis dizer, está nos livros, muito mais do que no jornalismo.
Jorge Correia
37:24
Na tua caixa de memórias, para a tua neta, a tua primeira neta viu uma fotografia nas redes sociais, e lá está as redes sociais, chegam também rapidamente. Tu queres que a tua neta, como é que ela se chama? Camila. A Camila. Tu queres que a Camila, quando já conseguir ler e ouvir, preferias que ela veja um teu jornal televisivo ou leia um dos teus livros?
Rodrigo Guedes de Carvalho
37:47
Quero que faça as duas coisas. Quero que faça as duas coisas. Gostaria muito que fosse leitora. A mãe dela sempre foi de pequenina uma grande leitora e continua a ser. Porque a leitura… E gostaria que ainda visse um jornal feito por mim e que eu contribuísse para o seu entendimento do mundo. Porque as notícias, por vezes, tendo os mesmos factos, às vezes diferentes pivôs dão-lhes diferentes matizes. Pode haver um ângulo diferente? Um ângulo e um tom. Repara que tu, perante um mesmo acontecimento que é, está muito calor, podes num jornal feito por mim não ficar muito em pânico e se calhar num jornal feito por outra pessoa ficares absolutamente em pânico e com vontade de fechares em casa porque vem aí o fim do mundo.
Jorge Correia
38:39
E há essa responsabilidade do jornalista quando tem que contar essa notícia? Eu acho que há.
Rodrigo Guedes de Carvalho
38:43
Claro que eu acho que há. Mas deixa-me voltar só à questão da Camila e da leitura. Porquê? Porquê é que é importante que a Camila e as outras crianças que continuam a nascer leiam? Porque está mais do que visto e, neste sentido, os meus anos de vida mostraram-me isso e uma das coisas que me levou a escrever este livro foi esse meu medo, esse meu receio, de que a falta de leitura está a levar a uma estupidificação das pessoas, porque as pessoas estão a ficar sem vocabulário, e estão a ficar sem imaginário, porque só a leitura de textos impele uma atividade cerebral, no sentido, por exemplo, da abstração, da imaginação. Tudo o resto é uma comunicação passiva. Estamos a perder palavras? Estamos a perder palavras. Basta andares pela rua, basta ouvires as pessoas falar, para perceberes que estamos a perder palavras. basta ver o grande monumento da falta de vocabulário que é o Trump, que deverá conhecer 140 ou 150 palavras, mas não só o Trump. Hoje em dia, um dos grandes problemas às vezes a comunicar com pessoas mais… Não é necessariamente sempre as pessoas mais jovens, mas às vezes com pessoas mais jovens Mas eu vou sentindo que há uma enorme falta de vocabulário que está ligada à falta de leitura.
Jorge Correia
40:23
E ao mesmo tempo lá está a perda do sentido de ironia, a perda do sentido dessa abstração.
Rodrigo Guedes de Carvalho
40:29
Claro, porque tudo isto vem acompanhado. É aqui que entram as massas que alimentam os extremismos, sendo os extremismos, em minha opinião, de direita e de esquerda. as massas que alimentam esse extremismo, normalmente falham muito no campo da discussão. Porque falham na argumentação. São monolíticos. Porque a certa altura primeiro não querem ouvir e depois, na verdade, não estão a perceber. As pessoas são levadas e, nesse sentido, as redes sociais é um cancro. Porque as redes sociais, mesmo que as pessoas não o percebam, estão fabricadas de forma a alimentar as pessoas sempre com mais do mesmo, não é? Quando uma pessoa tem um certo tipo de pensamento a rede social vai alimentá-la
Jorge Correia
41:19
com mais do mesmo. E quanto mais barulho houver
Rodrigo Guedes de Carvalho
41:21
mais aquilo. E a vai convencer cada vez mais de que tem razão.
Jorge Correia
41:25
Porque o objetivo lá está, é agarrar a pessoa é quase uma toxicodependência, é agarrar para tu ficar lá o máximo tempo possível.
Rodrigo Guedes de Carvalho
41:30
No limite dos limites quando tu segues todos estes percursos a ver onde é que eles vão dar, como por exemplo como eu escrevo no livro sobre a questão da poluição e das conferências climáticas, quando segues o percurso, a linha vai dar onde? Vai dar o dinheiro. Onde houver dinheiro, onde houver dinheiro a ganhar, isso vai gerar tudo o resto. Portanto, se nos dedicarmos a encontrar a fonte, lá está aí a fonte… Mas a fonte é sempre a mesma. As alterações climáticas não vão ser combatidas. Não vão. Porque isso não dá dinheiro. A ecologia só teria alguma hipótese se desse dinheiro se houvesse uma economia verde que permitisse gerar muito dinheiro repara, eu tenho um capítulo inteiro sobre isso, em que vou ironizando ao máximo, esticando a corda ao máximo imaginando as várias conferências sobre o clima de 5 em 5 anos mas não esse meu exagero não anda longe da verdade todas elas chegam a conclusões muito vagas no sentido que tem que fazer outra reunião, todas elas assumem que, pois, há certos níveis de temperatura do mar que já foram batidos e linhas vermelhas foram passadas, mas talvez na próxima conferência, não sei o quê, e andamos a empurrar com a barriga. E, portanto, isso nunca vai acontecer, porque os mesmos líderes que estão nessas conferências a dizer que combatem o… O aquecimento global. O aquecimento global. Continuam a abrir minas e a fazer guerras com aviões e chegam às conferências nos seus atos privados. Portanto, isto não tem qualquer… E depois dizem às pessoas, ah, não, mas agora temos umas tampinhas que ficam agarradas às garrafas. Ou você tem, e se entregar a sua coisa de plástico, vai salvar o mundo, que é uma coisa absolutamente patética.
Jorge Correia
43:26
Portanto, estamos ao mesmo tempo a exaurir os nossos recursos, a não fazer concessões na nossa existência porque queremos continuar a ter o nosso telefone e a trocá-lo de dois em dois anos. a conduzir o nosso automóvel e, portanto, num profundo egoísmo, que é que queremos salvar o mundo, mas os outros que vão à frente e salvem primeiro.
Rodrigo Guedes de Carvalho
43:45
Eu penso que sim, até porque, se tu reparares, a luta pelas alterações, a luta contra as alterações climáticas faz-se de uma forma que utiliza agentes poluidores, não é? Portanto, o saldo nunca é grande coisa. Não, sobretudo, é uma enorme, eu acho que é um enorme embuste a ideia de que alguém está realmente no mundo interessado, ou está interessado em travar isto, porque isto, quando se chega à conclusão de que isto teria algumas soluções fáceis, que quer fechar algumas torneiras, Se essas torneiras não se estão a fechar é porque há interesses que não querem que elas fechem e que continuam a ser predominantes em relação aos outros.
Jorge Correia
44:41
Estamos rodeados de tecnologia. O advento da inteligência artificial deixou de ser uma promessa e agora é outra coisa qualquer. Como é que tu olhas para isto? Como é que tu olhas para os chatos GPT da vida e que gêndo? Não olho.
Rodrigo Guedes de Carvalho
44:55
Não olho, não utilizo. Não utilizes tudo, nem sequer experimentas uma curiosidade. Acho que na minha… Foi das últimas grandes conversas que tive com o Pinto Balsemão. O Pinto Balsemão era movido a futuro, como eu costumo dizer. É uma coisa que o mantinha jovem. E ele estava absolutamente apaixonado pela inteligência artificial e estava a estudar a fundo as questões da inteligência artificial. E, portanto, ele era, sobretudo, filosoficamente, um grande defensor da inteligência artificial. E eu era um grande cético. E ele chamava-me Velho do Restelo. E pegavam-se a discutir. pegávamos no bom sentido tínhamos discussões muito francas e muito bem humoradas mas eu dizia-lhe na minha atividade de ficção literária e mesmo de jornalista a inteligência artificial vale-me bola, zero não preciso dela absolutamente para nada será extraordinária em milhares de outras coisas agora há uma extraordinária nós estamos a ensinar nós estamos a ensinar a máquina a grande máquina a tomar conta de nós porque toda a gente se tu reparaste, toda a gente diz assim é inevitável que a inteligência artificial eu penso assim é inevitável, porque é que é inevitável? a não ser que nós estejamos num movimento global de nós queremos entregar à máquina a nossa vida e as nossas tarefas. Perder a nossa autonomia, no fundo. E em nome de quê? O que eu pergunto-lhe sempre. E em nome de quê? Isto parece-me apenas um movimento de preguiça, como se vê, aliás, de forma absolutamente patética e perigosa nos novos
Jorge Correia
46:43
estudantes. Mas é um grande motor a preguiça, não é? Claro que é um grande motor,
Rodrigo Guedes de Carvalho
46:47
mas vamos ser sinceros e honestos. Agora, quando tu começas a ter toda uma geração de estudantes, das mais diversas áreas, que utilizam a inteligência artificial para enganar a sociedade onde se vão integrar, ou seja, fazem cursos através da inteligência artificial, pondo a inteligência artificial a fazer-lhes
Jorge Correia
47:07
os testes, portanto,
Rodrigo Guedes de Carvalho
47:09
não adquirindo conhecimento, mas sim enganando professores no sentido de obter notas para depois com essas notas obterem empregos, isto está tudo ao contrário. Empregos onde vão utilizar a inteligência artificial
Jorge Correia
47:21
também mantém-se o mesmo circuito.
Rodrigo Guedes de Carvalho
47:22
Sim, mas reparem, aqui há tempos, muitas vezes jovens estagiários, jovens que estão a começar na SIC, formando-os. E aqui há tempos. Uma coisa é corrigir textos que estão maus, que eu acho que estão fracos, que podem ser… Agora, estão-me a aparecer textos que eu vejo nitidamente que aquele miúdo que andou a estudar no liceu e depois quis ir fazer o curso de comunicação social e os pais, se calhar, até tiveram que entrar em despesas e pagar-lhe um quarto fora da terra para ele não sei o que, não sei o que mais, para finalmente conseguir um estágio na SIC. E chega a SIC e a primeira coisa que faz é dão-lhe uma peça para fazer e ele recorre à inteligência artificial. E põe a inteligência artificial a fazer-lhe o texto. E eu olhei para este miúdo e disse assim mas é isto que tu pretendes fazer da vida? Tu tiraste um curso de comunicação social para chegares a uma redação e agora tens 22 anos a tua vida vai ser isto? É isto que tu achas que é ser jornalista? Dão-te uma coisa, tu pões os dados na BIMB e pedes à inteligência artificial que te faça um texto. Mas que tipo de ambição é esta? Que contributo para o mundo é que tu trazes? Deixa de ser necessário o jornalista, no fundo, não é? Se for por aí… Mas esse é que é o problema. Como é o problema? Diz-se às vezes que eu sou um pivô e tal, um bocadinho interventivo e tal, e tenho umas opiniões. Então, mas querem robôs? Mas se querem robôs, não tem problema nenhum. Então, eu se fosse, por exemplo, se fosse a família Balsemão, eu despedia os jornalistas todos. e punha lá robôs da inteligência artificial. Se é esse o jornalismo que nós queremos, ah, então é muito mais barato. Mas não é a mesma coisa. O meu problema é que eu já vejo muitos colegas meus, muitos pivôs, que, de alguma forma, apresentam de uma forma absolutamente mecânica e desapaixonada. E eu acho que isso aproxima-os muito mais da mecanização que a inteligência artificial promete do que a humanização de cometermos erros e termos emoções.
Jorge Correia
49:33
Essas marcas de comunicação, por acaso, da inteligência artificial são, aliás, muito claras. Se nós pedimos às várias inteligências artificiais para produzir um determinado texto, aquilo basicamente é receita e da BIMBY. É da mesma maneira, da mesma mecânica.
Rodrigo Guedes de Carvalho
49:47
Claro, e depois todos se mimetizam. Não há uma subjetividade no fundo. O que leva a que jornalistas que se alimentam disto passem a falar todos da mesma maneira, com os mesmos jargões, com os mesmos vícios de linguagem, com as mesmas muletas. Então tu tens todo um exército de coisas absolutamente iguais, que se calhar é o futuro, que se calhar é o que os grandes industriais da comunicação social querem, é esses exércitos de soldadinhos que fazem tudo da mesma maneira.
Jorge Correia
50:22
E que estão capazes de produzir, lá está, 10 vezes ou 20 ou 30 ou 50 vezes mais.
Rodrigo Guedes de Carvalho
50:25
Claro, porque se não são eles que estão a pensar, se é só pedir à máquina, não tem nada a saber.
Jorge Correia
50:32
Então, e que nós estamos mesmo praticamente a terminar, que é, essa quantidade gigantesca até agora de conteúdos produzidos por seres humanos, se ainda por cima expusermos as máquinas e multiplicarmos isso, não pode intensificar aquela sensação de canseira, da ruideira de tantas notícias, de tantos conteúdos, de tantas coisas deu a perceber, agora quero desligar agora não quero ouvir mais nada
Rodrigo Guedes de Carvalho
50:56
A questão do ruído começou em Portugal noutros países começou antes em Portugal começou com a CIC Notícias porque eu lembro-me que o nosso sentimento na redação da CIC foi, isto agora nunca mais vai parar e a partir do momento que há um canal de notícias 24 horas e depois apareceram outros, hoje são 5 ou 6 se não estou em erro é uma locomotiva a vapor que nós temos que estar sempre a meter carvalho. Há que alimentar o cavalo. Há que alimentar o cavalo. Se só tiveres dois ou três temas minimamente relevantes no dia, o que é que isso faz? Faz com que assistas a maratonas de seis ou oito horas sobre o mesmo tema, como está a acontecer agora, neste dia em que estamos a falar, com o calor, com o Cristiano Ronaldo e com os incêndios.
Jorge Correia
51:43
Vamos esgotar os temas sempre e falar deles sempre em circuito.
Rodrigo Guedes de Carvalho
51:47
Em loop e pior. e muitas vezes a dizer como é que eu tenho de explicar isto? Por vezes o jornalismo em vez de criar de ser aquele porto de abrigo em que as pessoas está a acontecer qualquer coisa e as pessoas vão ao jornalismo para que o jornalismo lhes diga exatamente o que é que está a acontecer e aí entra um papel de alguma forma pedagógico de acalmar de tranquilizar as pessoas, de serenar sentido, os dados são estes, os factos são aqueles, são com outros. Temos, nesta altura, um jornalismo que com sede e com medo da concorrência, que a concorrência faça o mesmo antes, instila alguma ansiedade nas pessoas. Pensas na reforma? Para escrever mais livros? Ou ainda não? Não preciso da reforma para escrever mais livros. Tenho escrito os livros sem estar na reforma. Penso na reforma como qualquer pessoa pensa. Está quase a chegar. Não faço ideia se desejo-a rapidamente ou não. Tenho andado a pensar ano a ano.
Jorge Correia
52:54
Rodrigo Edson Carvalho.
Rodrigo Guedes de Carvalho
52:56
Obrigado. Obrigado eu. Pergunta simples. Um programa sobre comunicação. Para quem quer boas respostas.
