Há uma pergunta que os jornalistas raramente fazem sobre si próprios. Provavelmente porque a resposta, se vier com honestidade, obriga a sair de casa.
Existe uma metáfora que circula nas redações há décadas e que sobreviveu a todas as transformações tecnológicas do jornalismo, talvez porque ainda não foi substituída por nada melhor. Diz assim: o jornalista não serve para dizer que A diz que está a chover e que B diz que está a sol. O jornalista tem que ir à janela. E dizer o que vê.
A metáfora parece simples. Não é. Ir à janela pressupõe que alguém se levante. E levantar pressupõe que alguém ainda acredite que o que está do outro lado da janela é mais importante do que o que está no ecrã do computador.
Tânia Laranjo levanta-se há trinta anos.
Chegou à televisão quando lhe disseram que não tinha figura para o ecrã, nem voz para a televisão. A resposta que deu, dita com uma calma que não precisava de elevar o tom, foi esta: enquanto a história for minha, sou eu que a gravo. Não é arrogância. É método. A história pertence a quem foi buscá-la. E buscar implica ir.
O problema é que ir tornou-se, nos últimos anos, uma escolha e não uma obrigação. As redações têm ar condicionado. As redes sociais têm imagens do mau tempo. Os comunicados de imprensa chegam por email. O jornalismo aburguesou-se, diz Tânia, com aquela precisão de quem diagnostica uma doença que conhece por dentro. Não por ideologia, mas por observação direta. Ela chega aos serviços e encontra jornalistas alinhados, todos do mesmo lado, virados para a mesma porta, à espera do mesmo momento. Ninguém dá a volta ao edifício. Ninguém erra porque ninguém tenta nada diferente. É mais fácil. É mais seguro. E é, palavra por palavra, a morte lenta da reportagem.
O que se perde quando o jornalismo deixa de sair? Perde-se, em primeiro lugar, o acesso ao que as pessoas não dizem. Tânia fala de silêncios que só existem no terreno, de um olhar que indica se a pessoa está pronta para falar, de um passo dado na direção do jornalista como sinal de confiança. Perde-se a capacidade de perceber que há uma aldeia partida ao meio por cinquenta metros de estrada que ninguém consertou em três meses, enquanto uma autoestrada com portagens foi reconstruída numa semana. Essa história não chega por comunicado. Essa história exige que alguém esteja lá quando as pessoas vêm a correr pedir que fiques.
Há uma sequência que Tânia contou e que não abandona facilmente a memória. Num incêndio em Gramaça, no ano passado, entrou em casa de uma senhora que não conhecia, fechou as portadas no primeiro andar, meteu os mais velhos na cozinha, esperou que o fogo batesse nas paredes e passasse. O microfone estava ligado. A redação ouvia tudo. Uma colega saiu a chorar. Isso não é jornalismo no sentido estrito da palavra. É uma coisa anterior ao jornalismo: é a decisão de não abandonar as pessoas quando tudo o resto as abandonou.
O interior de Portugal aparece nesta conversa como uma presença constante, quase uma personagem. Aldeias onde a televisão é a única companhia e que ficaram três meses sem ela depois do temporal. Populações idosas que têm de andar trinta quilómetros devido a cinquenta metros de estrada que ninguém conserta porque não há portagens. Gente que vê um microfone e vem a correr, não porque gosta de aparecer na televisão, mas porque precisa de ser ouvida por alguém que possa levar a história até onde as decisões são tomadas. O jornalista como intermediário entre o abandono e a visibilidade.
Mas Tânia Laranjo não é apenas uma repórter de catástrofes. É também alguém que passou anos a cultivar fontes nos tribunais, a aparecer em julgamentos que não precisava de cobrir, a tomar cafés com funcionários e advogados e intervenientes processuais antes de precisar deles. A relação com a fonte, diz ela, é sagrada. Até ao dia em que a fonte minta. Não é ingenuidade. É uma teoria da confiança com uma cláusula de rescisão muito clara. A informação circula em redes de relações pessoais, construídas ao longo de anos, e não em bases de dados. Isso também está a desaparecer, junto com a paciência que exige.
Há uma pergunta que Jorge Correia lhe fez e que resume tudo: o que é uma boa pergunta? A resposta de Tânia foi imediata, dita olhando para o ecrã onde estava o nome do programa. Uma pergunta simples. Pequena. Que toda a gente perceba. Que tenha uma resposta simples. Porque é isso que as pessoas querem ouvir.
É uma definição que pode parecer modesta. Não é. Fazer uma pergunta simples ao poder requer precisão cirúrgica e disposição para insistir. Requer não aceitar a resposta que não responde. Requer estar ali, microfone na mão, durante quarenta e cinco minutos, a fazer a mesma pergunta de vinte maneiras diferentes até que a resposta apareça, ou até que o silêncio diga o suficiente.
Para que serve um jornalista? Para ir à janela. Para estar lá quando as pessoas precisam de ser ouvidas. Para fazer, com persistência e sem vergonha, a pergunta que ninguém mais consegue fazer.
A resposta estava no título. Demorámos a chegar lá porque as respostas simples são sempre as mais difíceis de aceitar.
A conversa completa com Tânia Laranjo está disponível no Pergunta Simples.
Ler transcrição completa
Tânia Laranjo
00:00
O jornalista tem que ir à janela e tem que, de facto, dizer se está a chover ou se está a sol. Não serve para fazer perguntas, serve para dar respostas. Mas cada vez mais este aborguesamento do jornalismo faz com que se vá buscando uma coisa aqui e outra coisa ali e deixando perguntas no ar e o leitor, o espectador, o ouvinte que decida o que é que há de escolher.
Jorge Correia
00:21
Pergunta simples Um programa sobre comunicação Para quem quer boas respostas Há uma coisa que o jornalismo perdeu nos últimos anos Não é a credibilidade Embora essa também esteja em causa por estes dias É o hábito de sair De ir ao sítio De estar lá quando acontece Nesta conversa, Tânia Laranjo contou-me uma história Que me ficou na memória Ela estava num incêndio no ano passado e entrou na casa de pessoas que não conhecia porque as chamas estavam a rodear a casa. Fechou janelas, meteu os mais idosos na cozinha e esperou lá com eles que o fogo batesse nas paredes. Ficou para fazer reportagem, mas ficou porque precisou de estar com aquelas pessoas. Há 30 anos que ela faz isto. Veio do jornalismo de papel, dos jornais, onde se chegava primeiro porque era preciso chegar primeiro. Tentaram mantê-la fora da televisão. Disseram-lhe que não tinha nem figura nem voz para o ecrã. Mas ela ficou na mesma. Hoje é um dos rostos mais conhecidos da informação em Portugal. Mas isso, curiosamente, é até o menos importante desta conversa. O mais interessante é o que ela pensa sobre o jornalismo que se faz sentado. Sobre as perguntas que as pessoas querem fazer ao poder, mas não podem. E sobre o que é, afinal, uma boa pergunta. Tânia Laranjo está no Pergunta Simples. Viva! Tânia Laranjo, há jornalistas que contam o que aconteceu, é suposto que os jornalistas contem aquilo que aconteceu, e há jornalistas que vão a um sítio, veem o que está a acontecer e contam aquilo que viram e aquilo que sentiram. Ficas tempos e infindes fora de casa a fazer coisas, acabas de chegar numa correria de quem vem de Aveiro?
Tânia Laranjo
02:10
Sim, vim de Aveiro esta manhã, mas já cheguei a Aveiro tarde porque vim de Taboáço a duas horas de Aveiro. Tu dormes? Durmo em hotéis em várias cidades. Aliás, já as conheço quase todas.
Jorge Correia
02:24
E conhecem-te a ti, não é?
Tânia Laranjo
02:25
Sim, conhecem-me a mim.
Jorge Correia
02:27
Tu agora és uma celebridade na realidade, quer dizer, tu já eras muito reconhecida. Mas agora há um reconhecimento diferente daquilo que tu fazes.
Tânia Laranjo
02:34
Há um reconhecimento diferente das pessoas na rua. há de facto um tratamento diferente que acaba por ser muito engraçado. É bom? É bom, genericamente é bom. Perdemos sempre um bocadinho da nossa privacidade, dos nossos poucos momentos que temos e que queríamos e que eu gostava que mantivessem, que fossem meus. Mas de facto são os riscos da perfeição. Querias guardar o quê para ti? O fato até de ir tomar um café das pessoas não me reconhecerem era extraordinário, mas pronto, faz parte.
Jorge Correia
03:14
E agora vais a qualquer sítio e as pessoas obviamente te reconhecem. Dizem-te o quê? O que as pessoas te dizem?
Tânia Laranjo
03:20
O essencial, as pessoas agradecem, agradecem eu estar presente, vêm-me contar histórias, grande maioria das pessoas vêm-me contar os seus casos, a sua terra, por exemplo, agora que ainda estamos no pós-mau tempo, que vem muito contar na minha terra. Aliás, ontem aconteceu-me isso. Eu estive em Taboasso a fazer uma reportagem por causa de um homicídio e à tarde acabámos a fazer uma estrada que está cortada e uma aldeia que está partida a meio, porque as pessoas vieram ter comigo a pedir-me estar aqui perto. Ainda bem que a vi, viram na televisão e vieram a correr ao sítio onde eu estava.
Jorge Correia
04:02
Para-te contar a história.
Tânia Laranjo
04:02
Para me contar a história e para me pedir para eu, antes de ir embora, passar lá. E foi o que eu fiz. Passei lá e fui lá a fazer outra história que não estava obviamente combinada. Mas também tenho que dar essa resposta à população.
Jorge Correia
04:16
Olha, o que é que acontece dentro de ti quando tu chegas a um sítio e sabes que és a primeira repórter, a primeira jornalista que lá chegou?
Tânia Laranjo
04:25
Eu sempre olhei para o jornalismo um bocadinho assim. eu venho do papel onde de facto nós éramos os primeiros a chegar e eu era a primeira a chegar, não tínhamos este reconhecimento porque não aparecíamos na televisão. Mas para mim o jornalismo temos que ser sempre os primeiros a chegar ou pelo menos temos que tentar ser sempre os primeiros a chegar. E é muito importante sermos os primeiros a chegar para obter as primeiras reações, para que sejam mais genuínas, para que as pessoas não estejam cansadas de aturar jornalistas porque obviamente se fores o último a chegar e as pessoas já tiverem falado com três jornalistas o quarto, muito provavelmente dirão, olha, vá perguntar aos seus
Jorge Correia
05:04
colegas. É repetir e repetir e repetir.
Tânia Laranjo
05:06
É repetir e repetir. E de facto a CMTV acabou por ser um bocadinho isto o chegar primeiro, esta marca do chegar primeiro, de aproveitar de alguma forma esta escola do jornalismo de papel, porque os jornalistas do papel eram de facto os que chegavam primeiro. Hoje infelizmente o papel perdeu um bocadinho de peso.
Jorge Correia
05:26
Mas deve ser ao contrário quase, não é? Porque o papel, no fundo, tu chegas ao sítio, vais contar, mas hoje já não, porque tens tudo online, os jornais estão digitais, mas supostamente a rádio, a televisão teriam mais capacidade e mais imediatismo para contar a história.
Tânia Laranjo
05:42
Talvez, mas não havia esta escola na televisão. A CMTV mudou um bocadinho o panorama da televisão em Portugal. Há 13 anos atrás, antes da CMTV, por exemplo, um crime era feito no dia seguinte consoante o que estava na imprensa diária. eram os jornais diários, essencialmente o Correio de Manhã e o Jornal de Notícias, eram dois jornais com uma presença muito, muito forte, vendiam mais de 100 mil jornais e de facto era assim que se fazia o jornalismo televisivo. Nunca foi, a rádio era ligeiramente diferente, ligeiramente mais rápido, tínhamos rádios de informação, foi o início das rádios de informação que eram mais rápidas, mas eram de facto os jornalistas de papel
Jorge Correia
06:29
primeiros a chegar. Olha, achas que o jornalismo se aburguesou e que estamos a fazer notícias sentadinhos no estúdio onde há um bom ar-condicionado e onde as notícias nos aparecem num comunicado em imprensa ou num telex? Acho.
Tânia Laranjo
06:43
Acho que porque perdemos o papel, infelizmente. Eu sou, eu gosto muito de escrever e sou, serei sempre uma jornalista do papel. Aliás, continuo a escrever para o Jornal Correio da Manhã, como escrevi nos outros jornais onde trabalhei. E, de facto, o fato de não termos tanta concorrência no papel, porque, infelizmente, os jornais vendem o que vendem. Ninguém compra jornais neste momento. Ninguém lê.
Jorge Correia
07:09
Ainda é pior.
Tânia Laranjo
07:10
Ainda é muito pior.
Jorge Correia
07:11
Ainda podem comprar, mas não leem.
Tânia Laranjo
07:14
E tudo isto aborguece o jornalismo, de ficar sentado na secretária, até porque é mais fácil. Está tudo na net. Não é preciso ir falar com as pessoas, ver-se nas redes sociais o mau tempo, por exemplo. vemos nas redes sociais, não precisamos de sair e ouvir e estar e entrar numa sala de audiências, temos um comunicado, não ouvimos até os silêncios que são determinantes e que de facto podem te dar uma perspectiva completamente diferente do que está a acontecer. É um jornalismo mais burguês, naturalmente, aquela expressão de que o jornalista não é alguém que deve dizer que A diz que está a chover e que B diz que está a sol. O jornalista tem que ir à janela e tem que, de facto, dizer se está a chover ou se está a sol. Não serve para fazer perguntas, serve para dar respostas. Mas cada vez mais este aburguesamento do jornalismo faz com que se vá buscando uma coisa aqui e outra coisa ali e deixando perguntas no ar e o leitor, o espectador, o ouvinte que decida o que é que há de escolher.
Jorge Correia
08:23
É uma espécie de corte e cola, no fundo. Vamos vendo uma realidade. Ora aqui no TikTok, ora ali no Facebook, juntamos umas peças, montamos uma peça, fazemos um minuto, está ótimo que daqui a bocadinho posso fazer outra peça.
Tânia Laranjo
08:34
É cada vez mais fácil, também é mais barato, também é mais mecanizado e também se perde muito o amor, o romantismo da profissão. Não quer dizer que haja muitos jovens que não façam o contrário. Felizmente, não só onde trabalho, mas conheço outros, de outros órgãos de comunicação social que ainda têm esta vontade de estar na rua e de ver e de perguntar e de questionar.
Jorge Correia
09:00
Ainda tens essa fé? Ainda tens esse romantismo dentro de ti?
Tânia Laranjo
09:03
Tenho, tenho. Tenho essa fé e ajudo no que posso os miúdos com quem trabalho. E tenho vários que se entusiasmam, que querem ir e que se zangam para ir. Eu sempre trabalhei em redações onde as pessoas se zangavam para ir aos melhores serviços. Queriam ir. E tem de ser assim.
Jorge Correia
09:21
Como é que é isso? Zangavam-se o quê? Com os editores?
Tânia Laranjo
09:23
Sim, sim, zangavam-se entre eles, batiam-se todos para ir aos melhores serviços. E temos que ser os melhores, aqui é os mais importantes, é os mais… Eu ainda trabalho numa redação onde, por exemplo, agora no mau tempo, tive várias pessoas que queriam ir e que ficavam zangadas se não fossem. E que ficavam zangadas se não tiver trabalhado sem 10 horas por dia. Um deles era a minha filha, se não estivesse lá, a Francisca teria morrido de inveja de não poder trabalhar 15 horas por dia. de cá para lá e de lá para cá. Como é que é a vossa relação? Sempre foi muito próxima. A minha filha viveu sempre comigo. Eu divorciei-me quando ela tinha 10, 12 anos. Embora eu seja bastante próxima do pai, ela também. Até porque ele também era jornalista. Agora está reformado. Mas ela sempre me acompanhou na redação. Portanto, sempre andou comigo de um lado para o outro.
Jorge Correia
10:17
Conta a história, o mito? Gostava que confirmasse ou que me desmentisses de dizer já que tu, quando tiveste a percepção de que ela queria ser jornalista, tentaste fazer mil e uma coisas para tentar desviar desta atividade das notícias para ir fazer outra coisa.
Tânia Laranjo
10:33
Tentei. Tentei tudo porque acho que é uma profissão mal paga, desgastante, e queria de facto que ela tirasse direito, que fosse para a magistratura, que tivesse uma boa profissão, que tivesse um horário, que… Tivesse uma vida. Se tivesse uma vida, portanto, e que depois até decidisse se queria ser jornalista, mas tivesse sempre um plano B. Se tivesse tirado direito, se tivesse entrado no Sérgio, tinha sempre um plano B. E ela? E ela não quis. Ela quis ser jornalista. Chorava. Ela ainda fez o primeiro semestre de direito, mas chorava a Baba Erranho, que era absolutamente infeliz, e depois passou, mudou de curso e foi para Ciências da Comunicação.
Jorge Correia
11:14
E agora quando tu a vês, tu como telespectadora, simultaneamente como mãe, a vês na linha de fogo, em zonas de risco, em temporais, em coisas, como é que fica o teu coração?
Tânia Laranjo
11:26
Aí sou mãe, aí não há volta a dar. Por exemplo, eu sou aquela que, primeiro o incêndio que ela fez, foi aqui na Grande Lisboa, eu fui aquela que liguei para a região aos gritos a dizer, digam-lhe para ela andar para trás, porque eu já estava a mexer com os nervos. e tipo, eu só tenho uma filha senão vou eu ir buscar ela Estavas com medo? Estava completamente em stress e ela responde sempre aquela coisa tipo, mãe, és a última pessoa para ter moral para me criticar porque eu estive sempre em stress e tu não me ligavas nenhuma Parece-me um bom argumento Eu parece-me absolutamente justo, mas isso não quer dizer que eu não vá continuar em stress absoluto
Jorge Correia
12:06
Mas tu disse que vocês têm uma boa relação e te vejo que há momentos em que pode haver alguns choques, porque ela obviamente tem coragem, quer fazer coisas, sai a mãe, digo eu, quem sai é o seu.
Tânia Laranjo
12:18
Sim, e o choque é também porque ela é muito cuidadora, ela é muito mãe, ela tem uma relação comigo até muito, um bocadinho obcecada, ela sempre foi, ela tem sempre muito medo de que eu vá passar a linha, de que entro no fogo, de que entro no temporal.
Jorge Correia
12:33
Faz da tua mãe, às vezes?
Tânia Laranjo
12:35
Às vezes faz, por exemplo, agora no temporal, no primeiro dia quando começa aquelas rajadas de vento absolutamente brutais, eu era a única jornalista que estava na rua e que em segundos só não voámos por acaso eu e o Adrien Negura e estávamos junto ao mar na Figueira da Foz e de facto ela era pivô naquele momento então lança-me e começa-me a mandar mensagens ao mesmo tempo em estúdio a dizer, mãe, estás-me a irritar por favor sai daí, vai-te embora veja o direto e acaba por ser engraçado Não há um choque, há de facto uns nervos muito grandes. E depois eu fui para a Leiria, fiquei duas horas incontactável, porque nós não sabíamos que a Leiria estava no caos que estava.
Jorge Correia
13:24
Não tinhas a percepção do que é que estava acontecendo?
Tânia Laranjo
13:26
Não, eram sete da manhã, mais ou menos, e até a Francisca que me diz, mãe, há qualquer coisa em Leiria. Ninguém atende em Leiria, está tudo incontactável, estamos a tentar ligar aos bombeiros. E havia uma amiga nossa, até de outro órgão de comunicação social, que tinha ligado para a Francisca e que tinha dito que não conseguia contactar os familiares, nós sabíamos alguma coisa. E a Francisca disse-me, tu consegues dar um salto a Leiria? Isto era um sete da manhã e eu estava sem dormir. Mas estávamos ali na zona entre Aveiro, entre Mira e Figueira da Foz. E eu disse, ok, pronto, continuo e vou de facto para a Leiria. Mas a partir daí ficámos incontactáveis. A partir daí, o telemóvel deixou de dar. Portanto, estivemos duas, três horas sem telemóvel, recolhemos uma série de imagens. O que viste? Houve um cenário que eu nunca imaginei. Aliás, um cenário muito pior que uma guerra. O primeiro embate em Leiria é, de facto, brutal. E três horas depois eu consegui chegar às Caldas da Rainha, onde consegui ter rede pela primeira vez. E quando liguei o telefone, tinha uma mensagem do meu diretor-geral, Liga a tua filha rápido, porque ela estava em estúdio e já estava a entrar num sistema nervoso tal, tipo a minha mãe está há três horas sem contactar. E depois tentavam dizer-lhe coisas, tipo não, a tua mãe deve ter ido para o hotel e desligou o telemóvel.
Jorge Correia
14:52
Ela não acreditou, obviamente, nessa versão.
Tânia Laranjo
14:54
E irritou-se e disse, mas vocês acham que a minha mãe ia para um hotel?
Jorge Correia
14:59
Vocês conhecem, não é?
Tânia Laranjo
15:00
Vocês conhecem a minha mãe. Não me atendem mais, porque se eu estiver duas horas sem atender a minha filha, ela consegue ligar a toda a gente. Quando eu digo toda a gente, é literalmente toda a gente. Portanto, a minha mãe nunca iria estar três horas sem me contactar, nunca iria para um hotel, nunca iria não dizer o que é que está a acontecer. Portanto, foi naturalmente um momento de ansiedade muito grande. Eu liguei primeiro para a regi e liguei para a coordenadora e disse-lhe já estou aqui, já tenho rede e ouço ela a dizer pelo intercomunicador para a pivô, que era a Francisca, a dizer Francisca, estou já com a tua mãe ao telemóvel, está a calma. Portanto, antes mesmo de responder, a própria coordenadora já estava a tentar acalmar a pivô, que era a minha filha. Tu arriscaste demais? Não. Nós estamos sempre num nível de risco, mas eu tento ser cuidadosa. Tento ser, por exemplo, cuidadosa com o fogo. Agora, no mau tempo, eu acho que nós nunca não estávamos habituados. Por exemplo, eu nunca tinha gerido esta coisa do vento. Não tinha a mínima noção. risquei demais e pus-me em risco. Mas porque não sabia como é que aquilo acontecia.
Jorge Correia
16:10
Por causa da velocidade?
Tânia Laranjo
16:11
A velocidade e foi de facto aqueles ventos cruzados. E aquilo fez um fenómeno que nenhum de nós conhecia, por isso é que provocou o nível de danos que provocou. Nós estávamos junto ao mar a ver nos mapas que dizia que ia haver um temporal e não sei o que mais, onde é que se estavam a aproximar. E até estávamos a brincar, eu e o Adrien, estávamos mesmo literalmente a brincar, a dizer, pronto, isto é mais uma coisa da meteorologia, quer dizer, estamos aqui acordados até às 6 da manhã.
Jorge Correia
16:38
E alguém exagerou.
Tânia Laranjo
16:39
Alguém exagerou e não vai acontecer coisa nenhuma. E de repente o carro tremeu. E eu disse, e o Adrien para, e eu disse, fui eu que me mexi. E porque eu achei mesmo que tinha sido eu. E segundos depois o carro volta a tremer. E olhámos um para o outro e dissemos, não, isto não somos nós. E foi uma coisa absolutamente assustadora em segundos. Eu disse arranca, andámos 10 metros, eu vi uma garagem aberta, disse mete o carro para dentro e quando metemos o carro para uma garagem de uma pessoa qualquer, que estava aberta, foi de repente o caos absoluto. Estivemos a risco porque não tínhamos noção. Por exemplo, nos fogos eu tenho muito cuidado, tento sempre ter cuidado, sei que o fogo a subir é mais rápido que o fogo a descer. Agora estamos sempre muito perto, é óbvio que corremos riscos.
Jorge Correia
17:30
Para contar a história, tu tens que estar lá.
Tânia Laranjo
17:32
Tenho que estar lá, tenho. Tenho que estar lá e tenho que estar com as pessoas, tenho que fugir com elas. O ano passado, nos incêndios, em Gramassa, fugimos eu e o Afonso, pusemos os velhotes em casa, porque a população está sozinha. Pusemos os velhotes em casa? Como é que é isso? Conta-me lá. Fui eu, fui eu aos gritos, que fui mandando pôr as pessoas em casa, fechar as portas, entrei com uma senhora em casa, que tinha o irmão com ela, já com uns 50, 60 anos, também deficiente, fechei-os na cozinha, depois começou a entrar fumo fui fechar as portadas ao primeiro andar porque eu percebi que o fogo ia bater-nos nas paredes portanto estávamos numa escarpa, o fogo ia bater-nos e precisava que batesse e que subisse porque normalmente é assim, obviamente nem sempre é assim mas era a melhor hipótese nos salvarmos era fechar portadas, não deixar que os vidros rebentem e que o fogo entre dentro da casa depois começou a entrar muito fumo na cozinha tirei as pessoas da cozinha, eu e o Afonso fomos para outra divisão, comecei a tentar meter toalhas molhadas para evitar a passagem do fumo até que o fogo passou por nós e bateu-nos nas paredes como era previsível e subiu O que é que se sente quando está nessa situação? Aí achei que estávamos no limite do correr mal, mas já não havia volta a dar foi tudo muito rápido, a única solução era e daí eu tinha que ter tratado aquelas pessoas a comunidade estava, havia ali 15 velhotes para aí tudo sozinho, tudo perdido os bombeiros também não conseguiam eram meia dúzia de bombeiros estavam a tentar travar a chegada do fogo e eu percebia rapidamente que ia ser um efeito muito parecido a pedrógão que quem estivesse na rua morria porque o fogo ia passar por cima de nós ia fazer um efeito de estufa por baixo
Jorge Correia
19:28
uma bola no fundo que é uma bola de fogo e por baixo à calor.
Tânia Laranjo
19:31
É uma bola de fogo e por baixo à calor. Portanto, eu tinha… E o fogo ia bater nas casas. Ao bater nas casas, normalmente, o que acontece é partir vidros, o fogo entra num cortinado, não se vai, rapidamente incendeia. Portanto, a minha preocupação foi entrar na casa, subir ao primeiro andar, aliás, eu lembro-me, eu gritei para a senhora e disse, posso subir? A senhora, coitadinha, estava meio perdida. Dei uma volta no primeiro andar, disse, eu gritei para o Afonso, fecha tudo cá em baixo, fecha portadas, eu vou fechar em cima, meti as pessoas na cozinha, e pronto, esperámos, esperámos que corresse bem, e tentei acalmar também os senhores, o próprio Afonso, que é um rapaz novo, é um miúdo, tem 25 anos, é da idade da minha filha, e que nunca tinha vivido uma situação assim, ele não percebeu a gravidade, só quando o fogo se começa a aproximar, há um momento que ele olha para a janela e diz-me, mas o fogo vai chegar aqui, eu disse, vai, vai chegar aqui, vai bater nas paredes, mas as paredes são, teoricamente, salvavam-nos, desde que o fogo não entrasse na casa.
Jorge Correia
20:38
Isso não é propriamente o trabalho de um jornalista, pois não?
Tânia Laranjo
20:41
Não, mas tinha que ser ali, estando ali tínhamos que sair do papel de jornalista, aliás, nesse momento há um áudio disso, porque nós desligamos a câmara, mas não desligamos o auricular.
Jorge Correia
20:56
Mas estavas em direto?
Tânia Laranjo
20:57
Não. Eu desliguei a câmera, só que não sabia que ficou o áudio.
Jorge Correia
21:02
Que estava a gravar.
Tânia Laranjo
21:03
Que estava a gravar. E os meus colegas tiraram-me do ar, mas estavam na regia. Aliás, eu não estava lá, mas contam que pelo menos uma delas ainda saiu a chorar. Porque às tantas eles estavam a ouvir-nos. Estavam a ouvir tudo o que eu estava a dizer lá dentro. A gritar ao Afonso, a dizer que o fogo vai bater aqui. O momento em que o Afonso me diz, mas o fogo está mesmo a chegar. Eles estavam a ouvir tudo lá.
Jorge Correia
21:26
Também um bocadinho desesperados, tipo, e agora o que é que fazemos? Nesses momentos sobra mais coragem ou mais medo?
Tânia Laranjo
21:35
Eu sou muito pragmática, sou uma pessoa muito, muito pragmática, sou uma pessoa que resolve problemas. Portanto, para mim, tenho mais medo depois, se calhar a adrenalina, ter-se visto por fogo, o que eu fiz foi de facto uma malqueira. Mas no primeiro momento eu sou a pessoa que resolve problemas, ou seja, eu sou a pessoa que vou, tenho calma, que tenho calma, que meto as pessoas em casa, que vou fechar janelas e que tento fazer o mínimo que sei da experiência. por exemplo, há dois, três anos atrás também tivemos um momento complicado nos fogos estávamos numa aldeia cercada pelas chamas e uma colega de outro canal, uma miúda miúda não é em sentido pejorativo naturalmente mas era de facto uma menina, 23, 24 anos às tantas entra em pânico e estavam-lhe a dizer da Regi e se agora já está aí mais calmo, vai para outra aldeia onde tinha que passar uma zona de floresta e eu tive que lhe dar dois berros, literalmente porque ela estava em pânico e disse-lhe tu não sejas daqui. Vais ficar aqui, aqui temos um jardim, temos uma piscina, temos água corrente, água fria, foi assim que se salvaram as pessoas num poço em Pedrógão e é aqui que vamos ficar.
Jorge Correia
22:50
Havia uma ilha no fundo que vos podia salvar?
Tânia Laranjo
22:52
Era. E é preciso alguém mais velho que dê dois berros e que tenha algum sentido pragmático porque ali não estava uma colega de outro canal, estava uma miúda em pânico sem saber o que é que havia de fazer.
Jorge Correia
23:07
E há essa relação entre os jornalistas que estão no terreno? Há uma espécie de solidariedade de estabelecidos metidos nesta alhada?
Tânia Laranjo
23:13
Sim, nesse momento sim. Eu sou uma pessoa altamente competitiva na notícia.
Jorge Correia
23:19
Fala-me disso.
Tânia Laranjo
23:20
Mas aqui não.
Jorge Correia
23:21
Quero chegar primeiro, quero contar.
Tânia Laranjo
23:22
Sim, sim, sou uma pessoa altamente competitiva. Sou aquela pessoa que chego e que saio e que combino com outra pessoa no outro lado para fazer primeiro, para fazer só eu. Mas isso é uma coisa na notícia. Outra coisa são nestes momentos onde é preciso… Ali não estavam uma colega, ali estava uma miúda que não sabia o que havia de fazer e que me pareceu que ia cometer um erro brutal. Não se pode entrar em florestas quando o fogo está descontrolado, porque é muito rápido e eu já vi muita gente morrer. Eu há 30 anos que faço isto. Eu há 30 anos que me acontece, já me assustei várias vezes com fogo. E era preciso que alguém me desse ali um berro, até porque quem está nas regis, não têm noção, é os tais abroguesados muitos deles sentados na cadeira a dar ordens e que não têm a mínima noção
Jorge Correia
24:09
E portanto manda fazer, manda mexer
Tânia Laranjo
24:11
Ah, vai agora a outra aldeia e atravessa uma floresta em chamas onde tu não conheces a estrada onde há muito fumo e onde, por exemplo, se furas um pneu ficas lá Aconteceu-me este ano, num dos sítios a fugirmos furámos o pneu por acaso conseguimos arrastar o carro até à porta do hotel com alguns danos visíveis depois Na estrutura do pneu, é o que é. Mas é preciso que alguém tenha algum sentido prático. Eu acho que o jornalismo, nos incêndios principalmente, as redações deviam fazer formações a sério.
Jorge Correia
24:50
A malta não está preparada?
Tânia Laranjo
24:51
Não está preparada. Não está preparada para o risco. O ano passado, o que nos aconteceu em Gramassa, se tivesse acontecido com outra pessoa qualquer, provavelmente tinha dado a geneira. Aliás, o repórter de imagem que foi comigo, o Afonso, dizia ainda hoje, diz a brincar, diz tipo, eu tirei o curso, o mestrado e o doutoramento naquela semana. Porque, por exemplo, o fogo a subir é diferente do fogo a descer. Se o fogo vier a subir, tens minutos para ir embora. Se o fogo vier a descer, tens horas para estar tranquilamente. E tu vais aprendendo isso com a experiência? E vais aprendendo isso com a experiência, claro. Nunca te vais abaixo? Não. Não porque tu tens que apoiar… nem sequer é legítimo, eu estou a falar de pessoas que perderam casas, perderam famílias, sei lá, eu quando cheguei a pedroga, havia pessoas que não sabiam dos filhos. O teu… Qual é o meu problema? É que trabalhei muitas horas? Comparado com o drama daquelas pessoas, não é coisa nenhuma.
Jorge Correia
25:51
Mas não te apetece chorar, às vezes, quando vês essas coisas?
Tânia Laranjo
25:53
Às vezes apetece, às vezes choro com eles, mas é só por afeto, não perdi nada.
Jorge Correia
26:01
Olha, a pergunta, o que é que sente quando acontece uma catástrofe? É a melhor pergunta do mundo ou é a pergunta mais inaceitável do mundo?
Tânia Laranjo
26:12
Eu acho que é uma pergunta parva. Mas que revela também, muitas vezes, alguma inexperiência do jornalista. Porque também é por nervosismo, não é por mal. É porque tu não sabes o que é que has de perguntar à pessoa. E a falta de experiência. As redações também são muito jovens. nós falamos de pessoas que não têm vida também não têm mundo ainda não se pode perguntar o que é que se sente ter perdido tudo o que é que se sente ter perdido a sua família ora, graças, às vezes a resposta que mereciam era, olha ou o magneiro, então dizer não, Sinta é fantástico, olha, eu estava mesmo a pensar perder aqui a casa que trabalhei durante 30 anos e agora ir morar ali numa tenda
Jorge Correia
26:53
Como é que tu caldeias essa sensibilidade? Por um lado para apurar os factos e por outro lado para ter esse respeito e essa proximidade e esse acolhimento em relação a pessoas que sofreram uma tragédia?
Tânia Laranjo
27:07
Eu acho que às vezes é quase não fazer perguntas, é deixá-los falar ao seu ritmo, é deixar que as pessoas contem a sua história, que digam o que é que querem dizer. Eu muitas vezes faço uma coisa que é, faço perguntas a pedir ajuda, explique-me onde é que estamos explique-me como é que é esta zona ou seja, põe-me sempre na posição de que eu sei menos do que a pessoa que está comigo porque de facto a pessoa que está comigo sabe mais e depois a pessoa se quiser contar a sua história vai contar vai falar do que perdeu perguntar o que é que sente é um bocadinho parvo mas eu percebo também essa pergunta vinda muitas vezes até dos nervos
Jorge Correia
27:55
e isso te torna mais difícil Veios-te Vita, algumas vezes a abraçar pessoas que acabaste de entrevistar ou que imediatamente antes de entrevistar que impulso é esse?
Tânia Laranjo
28:08
As pessoas precisam do contato, precisam de confiar com quem estão, precisam de sentir que o jornalista está-lhe a dar voz, o que eu sinto muito na rua é isso, é as pessoas sentirem-nos iguais a eles deixá-los falar ao seu ritmo, tocarem As pessoas que estão a perder tudo precisam de afetos. Precisam de mimos. Precisam de mimos. O resto resolve-se depois. A casa, o carro que perderam, o dinheiro, onde é que vem. Mas primeiro precisam do contacto físico e de sentir que a pessoa está ali para os ajudar.
Jorge Correia
28:43
Achas que as pessoas se sentem um bocadinho abandonadas quando lhes acontece isso? Se sentem órfãos? Estou a pensar agora nos temporais?
Tânia Laranjo
28:50
por exemplo neste temporal foi onde se sentia mais onde chegávamos aos sítios e não íamos procurar pessoas as pessoas vinham ter connosco queriam falar connosco eu também quero contar a minha história eu também perdi a minha casa eu estou sem luz e ninguém veio cá há aquela estrada que tem ali um poste e que é um perigo as pessoas precisam de ser ouvidas
Jorge Correia
29:13
o que é que tu vês nos olhos destas pessoas?
Tânia Laranjo
29:15
muita tristeza e muito abandono até porque nós falamos sempre de um No interior, por exemplo, eu ontem estive nessa aldeia, passaram três meses de mau tempo, e por causa de 50 metros de estrada que estão estragadas, há uma aldeia que está partida ao meio. E 50 metros de estrada fazem com que as pessoas tenham que andar 30 quilómetros. E alguém quer saber? E ninguém quer saber. E estas pessoas precisam que alguém as ouça, que alguém perceba o drama deles, porque as pessoas têm razão. uma autostrada, a autostrada do norte demorou uma semana
Jorge Correia
29:49
a ser reconstruída. Porque era a autostrada do norte
Tânia Laranjo
29:52
Porque tem portagens e esta gente do interior não tem portagens mas isto é por um isolamento um isolamento ainda maior. Nós temos há três meses uma população idosa que não tem televisão a televisão é de facto uma companhia para as pessoas. Não tem internet não tem, estão ainda mais isolados, estão num interior profundo e de facto e depois o interior é extraordinário. Eu não quero preterir algumas zonas, mas de facto para mim o centro e quando falo do centro, a beira baixa, a beira alta e traz os montes, são de facto gentes absolutamente extraordinárias. De um acolhimento que é uma coisa excepcional.
Jorge Correia
30:34
Trazem, convidam-te,
Tânia Laranjo
30:35
Tânia, andam cá almoçar. Sim, para além do convidar andam cá almoçar, por exemplo, nós nos incêndios no ano passado, nós acabávamos sempre a horas que não havia restaurantes. Os restaurantes naturalmente fecham muito cedo e muitos deles tinham sido afetados por uns incêndios, portanto não existiam. Nós acabámos todos os dias a comer em casa das pessoas. Nós, uma vez eu e o Afonso, acabámos num casamento entre as montes, entre voões, a cheirar a queimado. E o cheirar a queimado é literalmente a cheirar a queimado, portanto nós entramos e todo o salão ficou a cheirar
Jorge Correia
31:07
a incêndio. Mas havia boda?
Tânia Laranjo
31:09
Havia boda, continuou a boda e nós comemos na boda das pessoas que não conhecíamos porque fomos sem comer, porque estávamos sem comer portanto convidaram-nos para um casamento de pessoas que não conhecíamos. Muito bem, uma bela
Jorge Correia
31:20
madrinha de casamento. Olha, quando tu começaste na televisão, li que te disseram que não cumprias os requisitos porque não eras tão jovem porque não tinhas uma forma… Não era tão magra? Não era tão magra, de uma maneira quase discriminatória, não é? Quer dizer, no fundo, és velha e gorda
Tânia Laranjo
31:38
é isso? É, é, era um bocadinho isso
Jorge Correia
31:40
Posso pôr isto assim tão cru? Podes, já tinha
Tânia Laranjo
31:42
mais de 40 anos tenho de ser muito magra em televisão até porque a televisão engorda portanto ainda temos que ser mais magros e era o boneco porque a televisão era muito boneco não era o conteúdo era o boneco e o que me disseram foi isso que nunca dificilmente faria televisão, poderia fazer umas coisinhas faz umas voz off
Jorge Correia
32:06
e faz uns textos para a televisão mas nunca darás a cara e nunca serás uma estrela
Tânia Laranjo
32:10
E mesmo a voz, mesmo a voz também me disseram. Eu tive alguns momentos que me disseram é melhor gravar outra pessoa, não tu, que tu não tens voz de televisão. Eu que tenho algo mal feito, e sou uma pessoa do norte, respondia sempre pronto, então é fácil, arranjas tua notícia, gravas tu as tuas peças, enquanto elas forem minhas, sou eu que as gravo.
Jorge Correia
32:28
Lá está, sacava as notícias para contar.
Tânia Laranjo
32:30
Portanto, se a história é minha, sou eu que as gravo.
Jorge Correia
32:33
O que é que se disputou em ti, ouvir coisas dessas?
Tânia Laranjo
32:38
Não sei, disputou, Eu sabia que eu ia fazer… Para ser melhor que eu, tinham que saber mais coisas que eu e tinham que andar mais que eu. Enquanto não soubessem mais coisas que eu, não me incomoda muito. Eu nunca achei… Eu sempre disse que a televisão tinha que ser um bocadinho mais do que o boneco. E pronto, acho que introduzimos um bocadinho mesmo em termos do acompanhamento de algum jornalismo um bocadinho diferente.
Jorge Correia
33:04
No fundo, ofereces conteúdo, estrutura e seriedade em contraponto a quem pensa que a pantalla é apenas um boneco, uma carinha laroca e muito pó de arroz.
Tânia Laranjo
33:17
Sim, exatamente. Eu acho que foi um bocadinho oferecer outra coisa e as pessoas preferem mais conteúdo, porque preferem perceber as notícias, descomplicar a linguagem, mas tu só consegues descomplicar se estiveres lá.
Jorge Correia
33:33
E se souberes? E se souberes. O que é que os editores e os chefes não sabem que tu sabes? quando estás lá? Não sabem de rua.
Tânia Laranjo
33:40
Não fazem a mínima ideia do que é aquilo. Não fazem a mínima ideia do que é estar lá. E sem teres a mínima ideia do que é estar lá, não podes… é muito difícil decidires qual é o mais importante, como é que vais fazer, porque não estás lá. Não sabes quando é que tens que fugir, não sabes quando é que tens que desligar a câmera. Quando é que decides não fazer perguntas? Porque há momentos em que me pedem tenta falar com pessoas, eu por isso simplesmente entendo que aquele não é o momento para falar com pessoas, não posso
Jorge Correia
34:13
sou eu que decido, sou eu que estou lá E o que tu fazes é no fundo, estás silenciosa imagino que faças perguntas silenciosas com o olhar e acolhes para ouvir? Sim
Tânia Laranjo
34:22
Eu acho que há momentos que nós não podemos fazer perguntas não podemos esticar o micro não podemos fazer as tais perguntas voltando a pouco, dizias há pouco, o que é que sente? Temos que deixar que as pessoas aproximem de nós. Não podemos entrar demasiado no mundo delas e percebê-las com o olhar, porque às vezes percebe-se logo que se as pessoas estão receptivas a falar contigo, a forma como elas até corporalmente se manifestam. Se olham, se estão mais curiosas,
Jorge Correia
34:57
se dão um passo para ti.
Tânia Laranjo
34:58
Se dão um passo, se sorriem, se acenam, portanto é, e isso tem de ser feito pelo jornalista de terreno. e depois a experiência e tem de se conhecer é muito difícil coordenar por exemplo emissões de mau tempo diria eu nas televisões feitas por jornalistas que nunca fizeram mau tempo ou coordenar emissões de incêndios sem nunca ter ido a um incêndio e sem saber que o fogo vira e sem saber que não se pode fugir
Jorge Correia
35:27
sem saber nada
Tânia Laranjo
35:28
não se pode fugir de uma aldeia para outra se as aldeias estiverem a arder tem que se ficar nas aldeias tem que se estar próximo de piscinas tem que se ter não se pode estar em sítios abertos, mas de repente com relvas não se pode estar em casas que têm botijas porque às vezes elas explodem
Jorge Correia
35:47
Olha, tu és claramente uma repórter sagaz e que vai à procura da notícia há coisas que com o tempo tu deixas de ver exatamente porque já fizeste incêndios reportagens tribunais e que tu dizes ok, é mais do mesmo, já não estou a ver exatamente isso e que um jornalista mais jovem pode trazer um olhar fresco sobre o mesmo tema.
Tânia Laranjo
36:10
Sim, eu também acho que pode, aliás, eu tento fazer isto muitas vezes com olhares diferentes e com muita gente. A minha experiência traz-me, naturalmente, algumas vantagens, mas depois perco também, não tenho, provavelmente posso não perceber o que está a acontecer aqui ou ali, porque já vi, porque para mim não é estranho, por exemplo.
Jorge Correia
36:34
E já contaste aquela história no fundo, não é?
Tânia Laranjo
36:36
Já contei aquela história. E, por exemplo, nesta emissão de Mau Tempo eu trabalhei com gente muito jovem, da Francisca, a Bianca, a Joana, são todas miúdas na casa dos 25 anos. Como é que é essa relação?
Jorge Correia
36:47
Como é que tu vais lhe dando dicas? Vais pilotando aquela gente ou não?
Tânia Laranjo
36:52
Sim, vamos falando muito. Eles também me pedem ajuda, sugerem. Eu acho que as equipas devem ter… Devemos confiar nas pessoas. e devemos lhe dar a liberdade de errar. E confiamos? Eu confio nas minhas equipas e acho que o que faz a diferença é essa, é a liberdade de errar, é a liberdade de decidir, ou seja, eu digo-lhes sempre que vocês decidam, bem ou mal decidam. Eu prefiro gente que decida mal do que gente que não decida e que está à espera que eu se sentado lhe mande fazer.
Jorge Correia
37:18
Porque o erro existe e o erro, quer dizer, passamos todos por lá, não é?
Tânia Laranjo
37:21
E passamos todos por lá.
Jorge Correia
37:22
Experimentamos e isto cura mal.
Tânia Laranjo
37:23
E só aprendemos quando erramos.
Jorge Correia
37:24
Tens uma lista dos teus erros mais…
Tânia Laranjo
37:26
Não, eu já sei, eu já errei tantas vezes. Eu devo ter sido a pessoa que errei mais, porque fiz mais de rua. Portanto, eu sou a pessoa que errei mais e que decido mal e que às vezes posso decidir ir para este sítio e é naquele que está a acontecer. Mas eu não vou ficar ali se achar que aquilo é inútil, que não estou acrescentando nada. Se eu chegar a um serviço e estiverem jornalistas todos alinhados a fazer imagens virados para uma fita, eu nem sequer o meu repórter de imagem que trabalha comigo, são só dois, normalmente, é o Afonso e o Adrien, sabem que nem sequer vão tirar o tripé, nem a Câmara, porque não vamos ficar ali, porque para ali não estamos a fazer rigorosa…
Jorge Correia
38:07
Vais fazer outra coisa.
Tânia Laranjo
38:08
Vou encontrar outro sítio onde consiga ver o que está a acontecer, porque normalmente é só dar a volta.
Jorge Correia
38:14
Para ver o outro lado, sabe qual é isso que é ser repórter? Olha, nós…
Tânia Laranjo
38:18
Mas cada vez faz menos, tu chegas aos serviços e estão todos alinhados no mesmo sítio.
Jorge Correia
38:22
Porque depois o teu chefe buzina-te e diz, olha, estão os outros todos a dar isto e tu não estavas lá.
Tânia Laranjo
38:27
E depois porque assim também não falhamos. Estamos todos a fazer o mesmo. Eu tenho mais capacidade de falhar, porque eu às vezes saio do óbvio e já me aconteceu falhar. Acontece bem menos. Mas é… Mas se nós ficarmos todos juntos, não falhamos, fazemos todos o mesmo.
Jorge Correia
38:45
A cardeirada vai mostrar sempre a mesma coisa.
Tânia Laranjo
38:47
Sim, mas fazemos todos o mesmo. Por exemplo, temos duas portas do tribunal. Para que é que vamos ficar a meio, a tentar controlar da frente e de trás, um telemóvel e outro de câmara se podemos estar de combinar, todos estar à frente e se ele sair por trás também ninguém faz e se ninguém faz, ninguém erra e existe muito esta lógica isso é muito comodista, não é? e é quase, eu aizango-me com os jornalistas não sou propriamente uma pessoa popular nos trabalhos de grupo aliás, eu costumo dizer que eu trabalho de grupo nem na faculdade houve vários momentos que eu dizia eu faço eu e assino por toda a gente mas eu não tenho jeito para trabalhos de grupo portanto é muito comedista mas é mais fácil
Jorge Correia
39:30
A relação dos jornalistas para contar uma história é claro, um repórter vai e vê fala com pessoas mas depende também muito das fontes pessoas que te contam notícias e eu fico sempre espantado e curioso conhecendo o método do jornalismo como é que o Correio da Manhã consegue tantas fontes?
Tânia Laranjo
39:51
Porque nós vimos do jornalismo no papel e a história é só essa. O jornalismo no papel era muito mais trabalhoso, muito mais contacto de fontes. Que o jornalismo televisivo nunca foi, foi muito mais de turnos.
Jorge Correia
40:03
Mais preguiçoso?
Tânia Laranjo
40:04
Mais preguiçoso. Vamos fazer isto, vamos para a maquilhagem, depois vamos ali àquele tribunal, àquela porta ou àquela Assembleia da República, esticamos o micro, fazemos todos a mesma pergunta e viemos todos embora.
Jorge Correia
40:17
Portugal sentado?
Tânia Laranjo
40:18
Sim. E o jornalismo do papel nunca foi assim, foi sacar notícias, ter histórias. Como é que isso se faz?
Jorge Correia
40:25
Como é que é essa relação com os fontes?
Tânia Laranjo
40:26
A relação com os fontes é uma relação de confiança. É uma relação de muitos anos, é uma relação de confiança. Por exemplo, eu faço justiça, a minha relação com as pessoas é uma relação de muitos anos. Algumas eu já jantei várias vezes, outras já fui de férias, outras são meus amigos já pessoais. E são ao longo dos anos. Outros iam tomar café. Portanto, o jornalismo do papel sempre fomentou as fontes. E sempre teve esta escola das fontes.
Jorge Correia
40:53
Quando uma fonte desaparece ou morre, o que é que tu perdes?
Tânia Laranjo
40:56
Muitas vezes até perco um amigo. Mas de facto é reconstruir, é testarmos sempre… Por exemplo, para mim ir aos tribunais é muito importante exatamente para isso. Muitas vezes há muitos julgamentos que eu não precisaria de ir, primeiros interrogatórios onde eu não precisava de ir. Mas vais? Mas vou exatamente porque há novas pessoas. Ah, vais conhecer as pessoas também? Vou conhecer as pessoas, vou falar com elas. é ali que eu crio relações pessoais com as pessoas. A primeira relação pessoal tem de ser ali. É à porta, é o funcionário, o mestrado, o advogado, os intervenientes nos processos.
Jorge Correia
41:34
Como é que tu ganhas a confiança destas pessoas?
Tânia Laranjo
41:36
Vai-se ganhando.
Jorge Correia
41:37
Porque elas arriscam coisas, não é? Arriscam, mas primeiro fede-se contactos,
Tânia Laranjo
41:41
depois vai-se falando, alguns tornam-se amigos, há julgamentos até pela dimensão, há julgamentos que demoram meses, nós estamos ali durante meses a acompanhar um julgamento, onde acabamos por almoçar primeiro e depois tomar café e depois se tivermos alguma empatia pela pessoa até ligamos para jantar uma sexta-feira
Jorge Correia
42:03
Há uma relação, portanto?
Tânia Laranjo
42:04
E é sim, até porque uma relação de fontes é uma relação de confiança portanto tem de haver uma relação porque nós, enquanto jornalistas tem de ser sagrada esta relação com a fonte, o silêncio
Jorge Correia
42:17
O que é que é isso? O que é que é uma relação sagrada?
Tânia Laranjo
42:19
É de nunca denunciar a fonte A não ser que a fonte nos engane, propositadamente.
Jorge Correia
42:24
Acontece ou aconteceu-te já?
Tânia Laranjo
42:27
Nunca me aconteceu, mas admito quebrar essa relação de confiança, sentir que a fonte manipulou.
Jorge Correia
42:32
Mas as fontes têm sempre algum interesse? Interesse no sentido de quando te contam uma história, elas em princípio têm um interesse, ou pode ser relacional, pode ser porque gostam de ti, mas normalmente têm um interesse.
Tânia Laranjo
42:44
Não sei, normalmente…
Jorge Correia
42:46
Ou nós gostamos de contar segredos?
Tânia Laranjo
42:47
Nós gostamos de contar segredos e não é só segredos, são coisas, se falarmos de intervenientes da justiça, são coisas importantes, são denúncias que estão a ser feitas, são uma forma de que o país seja melhor, uma polícia que está a investigar, ou advogado também que está a defender, mas que entende que é importante perceber-se aquilo. e depois é uma relação de acima de tudo confiança eu sei que determinadas fontes obviamente, por exemplo se eu estiver a falar de um advogado que está a falar comigo em off se for uma pessoa que eu conheço há muitos anos e se for uma pessoa com quem eu tenho uma relação de confiança absoluta, que nunca me enganou eu sei que ele está a contar a parte dele
Jorge Correia
43:38
porque lhe interessa defender o seu cliente
Tânia Laranjo
43:39
claro, mas não me podem mentir no dia que mentir deixará de ser a minha fonte agora, ele pode me contar a parte dele desde que não me minta e tenho muitos advogados, por exemplo com quem eu me dou bem, que há muitas perguntas que me dizem, oh, tenho isso, eu não te vou dizer não me dá jeito ou não sei? ou não me dá jeito, acima de tudo não me dá jeito mas o resto, eu sei que eles não me mentem e isso chega porque depois dá para somar e ir a outras fontes, mas eu sei que aquilo é verdade
Jorge Correia
44:08
e tu como é que tu olhas para aquilo a que se chama está tipificado na lei que é o segredo de justiça e a sua violação, isto é tu como jornalista obviamente queres saber tudo o que lá está para poder contar e os órgãos de justiça têm uma obrigação de preservar o segredo de justiça na fase de investigação. Eu acho que nós
Tânia Laranjo
44:28
não estamos vinculados ao segredo de justiça porque não somos intervenientes processuais, portanto e nós estamos vinculados a outra coisa que é o dever de informar, são dois direitos em conflito ou dois deveres em conflito, o interesse público é superior e tenho ganho vários processos, inclusivamente no Tribunal Europeu, a dizerem que o interesse público supera o segredo de justiça e até o crime de desobediência. Ainda agora ganhei um processo no Tribunal Europeu, onde claramente publiquei uns áudios de um interrogatório de um ex-ministro. Eu sabia que os áudios estavam cobertos pelo segredo de justiça, não posso dizer que não sei ler, portanto eu sei que está coberto do segredo de justiça e sei que se enquadra no crime de desobediência. Mas os crimes não são absolutos, ou seja, estão aqui em causa de dois direitos, que é o direito de informar e do interesse público e o direito da justiça a preservar. O que o Tribunal Europeu veio dizer foi que era superior o direito de informar. Portanto, isto é como um homicídio, Nem todo… Se matar uma pessoa pode não ser um crime. Se, por exemplo, for em legítima defesa, não é crime. Não está a tipo… Mas mateia. Portanto, eu divulguei algo que está coberto pelo segredo de justiça, mas não cometi nenhum crime, porque o Tribunal Europeu entendeu, e depois foi refeita a decisão no Tribunal em Portugal, entendeu que o direito à informação é um direito consagrado na Constituição.
Jorge Correia
46:00
E, portanto, tu vais e contas porque achas que aquilo tem que ser contado?
Tânia Laranjo
46:04
Acho porque acho que deve ser contado e acho que nós devemos continuar-nos a bater pelo direito de informar. Não devemos acatar as normas. As normas são políticas. Nós, por exemplo, a proibição de publicar escutas, que é uma proibição que está na lei, que é absoluta, nasceu no pós-processo Casa Pia. Ponto.
Jorge Correia
46:26
Para proteger os políticos.
Tânia Laranjo
46:28
Onde os políticos, quem legisla não são os juízes. Quem legisla são os deputados. Mas o direito à informação é um direito constitucional. É acima do que foi legislado pelo Parlamento.
Jorge Correia
46:41
E quando discutes isto em tribunal, o que é que tu ouves dos juízes que te estão a julgar e a condenar?
Tânia Laranjo
46:47
Já fui condenada algumas vezes, mas na maioria eu ouço cada vez mais os juízes são do entendimento que o interesse público é superior.
Jorge Correia
46:57
E portanto aplica uma pena porque tem que apelidar ou não?
Tânia Laranjo
47:00
No interesse público é superior, por isso simplesmente absolvem-nos, porque entendem que há dois conflitos aqui, dois deveres em conflito, é o dever de informar, que está consagrado na Constituição, portanto, é constitucional.
Jorge Correia
47:12
Adoras fazer perguntas difíceis e recorrentes aos poderosos? É um teu prazer especial?
Tânia Laranjo
47:21
Adoro, porque acho que é as perguntas que as pessoas querem que nós façamos e que não podem fazer. E acho que quando nós deixarmos de questionar e de ser chatos quase, nós não podemos aceitar, por exemplo, eu acho que um dos motivos que também levou a algum impacto que eu tive neste temporal foi aquela maratona de 45 minutos que estive a fazer com o Presidente da República onde lhe fiz as mesmas perguntas 20 vezes de 20 maneiras diferentes, mas onde fiz as perguntas que eu ouvi as pessoas que queriam fazer, que é aí agora, e quem é que nos vai, e quem é que nos vem acudir?
Jorge Correia
48:02
Como é que foi esse momento, essa vossa relação, tu e o Presidente Marcelo Rebelo de Souza?
Tânia Laranjo
48:09
O Presidente Marcelo Rebelo de Souza era, de facto, alguém que estava habituadíssimo a jornalistas, portanto, eu acho que ele estava ligeiramente desconfortável, mas conseguiu sempre gerir. Curiosamente, acho que estavam mais desconfortáveis a alguns colegas nossos da comunicação social, Porque eu estraguei-lhes o dia, porque o dia era, o Marcel, o Presidente Marcel fazia ali um caminho, que era 10 minutos e todos metíamos o micro no final. Portanto, e de repente ficou uma coisa completamente diferente. Foi uma relação, eu diria, que correu relativamente bem, mas com alguma tensão, naturalmente, repetindo as perguntas. Por exemplo, a ministra, na altura, a ministra da Administração Interna, estava muito mais desconfortável do que o Presidente da República, mas estava mais habituado. Eu acho que ele tinha, de facto, um jogo de cintura diferente. O que é que é uma boa pergunta? É a pergunta que as pessoas querem… Para já é uma pergunta simples. Olha, estou a olhar aqui para as duas… Para o Zé Crenes e é, de facto, uma pergunta simples. É uma pergunta que toda a gente perceba. É uma pergunta que não complique. É uma pergunta pequena e simples. E que tenha uma resposta simples, porque é isso que as pessoas querem ouvir.
Jorge Correia
49:24
Acho que a última pergunta que eu tenho para ti é valeu a pena este teu percurso?
Tânia Laranjo
49:31
Valeu eu acho que sim, eu gosto muito do que faço sou mesmo profundamente grata pelo que faço e não fazia de forma diferente, valeu aliás continuo a fazê-lo, eu podia não ir já para a rua, eu tenho um programa eu podia pôr alguém a fazer as minhas peças eu podia estar a editar, podia estar a coordenar aliás eu coordenei uma redação do Porto durante meia dúzia de anos e fui eu que me demiti e que… E porquê? Porque não aguentava porque aquilo irritava-me imenso quer dizer, então havia uma tragédia e não ia eu e eu estava a dar palpites, não, não dá para mim aquilo já me estava a irritar de facto de forma teve que ser, foi quando eu fui para o Correio da Manhã, era também uma forma, isto antes de existir televisão era uma forma de dar ali algum cunho diferente ao Correio da Manhã papel, porque no Porto nós tínhamos uma, um grau de incidência muito menor do que o Jornal de Notícias e a minha escola era do Jornal de Notícias embora eu tivesse estado um ano e meio no público e conhecia bem a cidade, conheço bem o Porto mas aquilo já tudo me irritava, portanto naturalmente tive que sair.
Jorge Correia
50:49
Se a tua filha te perguntar hoje, mãe, valeu a pena? A tua resposta é a mesma?
Tânia Laranjo
50:56
É, é. Valeu, porque eu nunca eu acho que nós, por muito que trabalhemos, não temos que ser pais distantes. Eu nunca fui uma mãe distante. Eu sou aquela pessoa que posso trabalhar seis ou sete dias e ainda hoje depois tenho aqueles dois, se eu tiver um dia com ela e quando ela era eu faço tudo, eu estava sempre intensamente, portanto eu era a mãe que ia ao parque infantil se eu estivesse a trabalhar muitos dias seguidos o que aconteceria era ela ia jantar comigo e a parte dela saía da escola e a parte da ação e depois ia connosco para os restaurantes e dormia nas cadeiras. Portanto, tu fazias
Jorge Correia
51:29
formação, na realidade tu estavas a criar uma jornalista de que agora te queixas. Pois, de que agora
Tânia Laranjo
51:33
me queixo, mas era a forma ela sempre andou comigo, portanto eu fazia exatamente a mesma coisa. Claro que prescindes de alguma vida pessoal, mas isto é como tudo na vida, não acho que no deve haver, não estou arrependida. Daniel Aranjo, muito obrigado. Muito obrigada.
Jorge Correia
51:49
Pergunta simples Um programa sobre comunicação Para quem quer
Jorge Correia
51:54
Boas respostas
