Há uma palavra que usamos para descrever as carreiras que admiramos: escolha. Dizemos que aquela pessoa escolheu bem, que soube o que queria, que teve a coragem de ir buscar. A narrativa do sucesso é quase sempre uma narrativa de decisão — alguém que viu o que os outros não viram e agiu antes que fosse tarde. Os livros de gestão vivem disso. As entrevistas também.
Júlio Isidro desfaz esse mito com uma elegância que parece, ela própria, ensaiada — mas não está. Tem quinze anos quando entra pela primeira vez num estúdio de televisão. Não foi por vontade própria. O padre que dirigia o orfeão do Liceu Camões disse-lhe para ir concorrer. E ele foi. Queria ser piloto aviador.
“As coisas importantes da minha vida não foram as decisões que tomei”, disse-me numa tarde em Cascais, com a voz que todas as pessoas reconhecem antes de saber de onde vem. “Foram as que eu não tomei.”
Demorei um momento a perceber o que estava a ouvir. Não era modéstia — Júlio Isidro não é um homem modesto, é um homem preciso. Era uma teoria. Uma teoria sobre como se constrói uma vida quando se aceita que o controlo é, na maior parte das vezes, uma ilusão bem vestida. As grandes encruzilhadas da sua história — a televisão, a rádio, o 25 de Abril ao microfone, António Variações descoberto no cabeleireiro — chegaram todas da mesma forma: alguém disse qualquer coisa, ele prestou atenção, e o mundo mudou de direção.
Na noite de 24 para 25 de abril de 1974, trabalhava no Rádio Clube Português das uma às sete da manhã. Mas trocara o turno com um colega. Saiu à uma e um quarto. Os militares, soube depois, já estavam estacionados na Sampaio Pina nessa hora exata, à espera de que ele saísse. Foi a uma discoteca, bebeu qualquer coisa com gás, foi para casa dos pais. A mãe tinha insónias e ouvia rádio de noite. Às cinco e meia da manhã bateu-lhe à porta: ouvia umas músicas que não tinham nada a ver. Ele levantou-se, tomou um duche — “porque vale sempre a pena ir lavado para uma revolução, quanto mais não seja na consciência” — e foi a pé pelo Parque Eduardo VII até à Sampaio Pina. Entrou. Sentou-se ao microfone. E leu os primeiros comunicados do Movimento das Forças Armadas numa letra horrível que ainda guarda.
Não há aqui heroísmo. Há disponibilidade. Que é uma coisa completamente diferente — e muito mais rara.
Durante os anos que antecederam o 25 de Abril, a equipa do Rádio Clube desenvolvia formas de dizer o que não podia ser dito. Havia um gabinete de censura dentro da rádio, pessoas cujos apelidos Júlio conhece, mas não cita. E havia, do outro lado, o que ele chama “a arte da metáfora”: “dizer mais ou menos aquilo que se pode dizer, mas com vontade de dizer um bocadinho mais. E as pessoas percebem isso também.” Trinta palavras. Uma teoria completa da comunicação em contextos de restrição — e talvez de todos os outros. Quando o literal é perigoso, o metafórico sobrevive. A linguagem tem essa memória antiga. Sabe andar em bicos de pés quando é preciso.
O que me fascina em Júlio Isidro — e o que esta conversa revelou de forma que não esperava — é que a sua relação com a comunicação nunca foi instrumental. Nunca foi sobre chegar a mais pessoas, construir uma marca, maximizar alcance. Era sobre o encontro. A rádio deu-lhe, disse ele, “a liberdade de não ter que fazer a barba e não ter que pintar a cara” e depois corrigiu-se, porque essa não era a resposta certa. A resposta certa era outra: a rádio obriga a descrever. E descrever é dar ao ouvinte a liberdade de imaginar à sua maneira. “A imagem que as pessoas têm é que normalmente está melhor do que a que se produz.” A imagem mental é sempre superior à fabricada. A rádio confia no ouvinte. A televisão, muitas vezes, não.
Passou qualquer coisa como cem mil horas com um microfone à frente. A voz que daí resultou não foi um dom — foi uma disciplina silenciosa. Nunca gritou. Nunca fumou. Nunca bebeu. “Raramente levanto a voz. Se levantar a voz para representar é uma coisa. Ao nível da exaltação já é uma questão de estrutura psicológica.” A voz como espelho do caráter. A ideia de que comunicar bem começa, sempre, por não comunicar mal.
Hoje, Júlio Isidro corta o cabelo em Algés por treze euros e come o redon com a mulher — os restos de ontem, aquecidos. O carro dela tem onze anos. O dele tem cinco. Não é austeridade, fez questão de dizer. É a convicção de que tudo o que se esbanja está a fazer falta a outros. Ser é mais do que ter. Dito sem esforço, como quem já não precisa de explicar.
No fim da conversa, pedi-lhe uma frase. Uma só. Aquela com que quer ser lembrado.
Fez uma pausa. Sorriu.
“Quem foi?”, disse ele. E depois corrigiu-se, devagar: “Mas agora pensamos a escrevê-la no presente. Sou um amigo. E quem vier sempre traz outro amigo também.”
Fiquei a pensar nessa frase durante o resto do dia. Não porque seja bonita — embora seja. Mas diz algo sobre comunicação que nenhum curso ensina: que a voz mais duradoura não é a que fala mais alto. É a que faz com que quem ouve sinta que havia ali alguém genuinamente disponível para o encontro. Que não estava a transmitir para uma audiência. Falava com um amigo que trazia sempre outro.
Talvez seja isso o que se aprende a não decidir: que a vida não é um argumento escrito com antecedência. É uma conversa que se vai tendo, com quem aparecer, quando aparecer, da forma que aparecer.
E que vale sempre a pena estar lavado quando ela chega.
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Jorge Correia
00:00
O Júlio é feliz?
Júlio Isidro
00:02
Não. Não. Eu estou feliz de vez em quando. Aliás, a felicidade, como se sabe, é um ponto de passagem. São intervalos na vida das pessoas. Às vezes os intervalos são maiores, outras vezes são menores. Se forem maiores, o otimista tem a ideia de que é um fulano feliz. Se forem menores, é evidente que é um pessimista. Eu sou, quando muito, um pacifista indignado.
Jorge Correia
00:44
Há uma coisa que fazemos sempre quando olhamos para uma carreira longa. Procuramos o momento. O momento iniciático. A decisão. O instante em que a pessoa viu aquilo que os outros não viram, e escolheu ir por ali. É assim que gostamos de contar as histórias de quem admiramos, como se o talento fosse uma questão de coragem de alguém que soube o que queria e foi em busca. O problema é que essa narrativa raramente corresponde à realidade e quando encontramos alguém disposto a dizê-lo com clareza, sem falsas modéstias, sem pose, vale a pena parar e ouvir. João Luís Hidro é uma lenda, tem mais de 60 anos de rádio e televisão e é uma das vozes mais reconhecidas do país. Reconhecida antes de sabermos de onde vem, antes de associarmos um rosto ou um nome. É o tipo de presença que se instala na memória das pessoas sem pedir a licença. Construiu um dos maiores fenómenos da televisão portuguesa, o Passeio dos Alegres, um programa de domingo à tarde que chegou a ter 90% de share, 90% um país inteiro parado à frente do ecrã. Foi uma das vozes do dia 25 de abril de 1974, leu dos primeiros comunicados do movimento das Forças Armadas, numa rádio ocupada por militares e numa cidade que ainda não sabia que estava a acontecer. Descobriu António Variações num cabeleireiro, Adelaide Ferreira num bar e tantos outros, abriu a porta ao longo de décadas a uma geração inteira de músicos e artistas portugueses antes de alguém saber que existiam. E, no entanto, quando lhe perguntamos como é que tudo isto aconteceu, como é que se tomam as decisões que o levaram até aqui, a resposta é inesperada, quase desconcertante, porque Júlio Isidro não acredita que tenha tomado grande parte das decisões. Acredita que as deixou acontecer. E foi exatamente isso, essa disponibilidade rara para o acaso, essa ausência de projeto rígido que tornou o resto possível. Júlio, Júlio Isidro. Bom, se eu experimentasse agora fazer uma introdução, estar a descrevê-lo, era quase um insulto para as pessoas. Quem é Júlio Isidro?
Júlio Isidro
02:49
Quem é Júlio Isidro? É um cidadão que nasceu num dia de inverno, mais ou menos à hora do almoço, por aquilo que sei, 5 de janeiro, um baby boomer, portanto, no final da guerra.
Jorge Correia
03:05
Na altura em que havia muitos bebés?
Júlio Isidro
03:07
Havia, tinha um tempo para isso. E que se chama Júlio José de Pinho Isidro do Carmo.
Jorge Correia
03:14
Estávamos a falar um bocadinho da voz. como é que se tem uma voz assim? Dá para ensinar?
Júlio Isidro
03:20
Olha, a voz que eu tenho resulta para já da circunstância de quando era jovem e cantava no orfeão do Liceu Camões era primeiro tenor depois ainda na vigência do Liceu Camões e do coro passei para segundo tenor a voz baixou, não é? E entretanto eu creio que eduquei a voz Trabalhando, eu diria Sem exagero, qualquer coisa como Cem mil horas de rádio E portanto a minha voz Passou a ser radiofónica Acho que é isso E depois porque preservei a voz Nunca fumando E não bebendo, por exemplo E não gritando Não gosto nada de gritar
Jorge Correia
04:02
Porque tem que se ter cuidado com a voz Para chegar à idade que o Júlio tem Com uma voz tão jovial Há aqui uns cuidados para ter
Júlio Isidro
04:09
Além de não fumar e não beber Não especificamente cuidados como têm os cantores líricos que não saem para a rua se a temperatura for um pouquinho mais baixa, põem logo os cascóis todos e não sei o quê. Eu tenho, penso eu uma característica, é que raramente levanto a voz. Se levantar a voz para representar é uma coisa, mas ao nível da exaltação, de estar a ofender as cordas vocais, não é, já é uma questão de estrutura pessoal, é uma questão de estrutura psicológica não é muito o meu hábito. Eu penso que deve ser a única coisa que faz com que eu preserve a voz para além de que realmente o não fumar e o não beber deve ajudar muito. Vamos à história
Jorge Correia
04:51
com 15 anos, alguras nos anos 60 o Júlio decide entrar pela televisão adentro, literalmente
Júlio Isidro
04:58
Olha, eu só lhe retiro a palavra decide porque eu não decidi coisa nenhuma Então porquê é que decidiu? Na minha vida tenho decidido muito pouco. Isso é bom? Não, acho que Não, acho que tenho sido mais conduzido do que tenho sido eu a conduzir. Daqui a dias eu escrevia sobre isso. As coisas importantes da minha vida foram as decisões que eu tomei. Eu diria o contrário, são as decisões que eu não tomei. Portanto, quer dizer, o que aconteceu foi que eu era aluno de Lício Camões e cantava no Orfeão e o Padre Ávila, que era o diretor do grupo, pedia-me normalmente para ser eu a apresentar as cantigas. nas festas onde nós nos apresentávamos. Penso que o mais longe que fomos foi a Setúbal, então, de mais longínqua, foi a Setúbal. E então, quando chegou a altura da televisão, nos anos 60, quis fazer um programa juvenil e abriu as portas aos alunos dos liceus de Lisboa. Essencialmente, por tal sinal, enfim, não é uma coisa brilhante, Foi uma iniciativa só para casa, não é? Mas abriu as portas e concorreram imensos alunos de vários liceus, ou de quase todos os liceus de Lisboa. Portanto, o Gil Vicente, o Pedro Nunes, para aí fora. E o Camões, obviamente, onde eu estava. E quem me indicou foi exatamente o Padre Ávila, para eu ir concorrer. Portanto, eu fui porque ele mandou. Mas, paralelamente, eu sabia que o instrutor do aeromodelismo também tinha dito a mesma coisa. Luís Santana Leite, que era o meu instrutor, lá nas aulas de sábado à tarde. E pronto, quer dizer, fui-me apresentar. Fui-me apresentar sem ter nenhum projeto na vida que tivesse a ver com isso. O meu grande projeto era ser piloto-aviador.
Jorge Correia
06:52
E os pais deixaram ir logo aos 15 anos depois,
Júlio Isidro
06:55
porque aquilo depois começa a tornar-se uma coisa mais séria. Deixaram-me ir sozinho. Digamos, sem ter aqui uma postura, eu diria, reacionária, nós podíamos andar sozinhos na rua. E, portanto, aos 15 anos eu fui apanhar o elétrico à Avenida da República e fui de elétrico para a televisão, que ficava na Alameda das Linhas Torres, subi a rampa a pé e dei por mim com uma série de rapaziada, alguns até também do meu liceu, não é? E outros que eu não conhecia. E estivemos lá a prestar provas. Os meus pais não puseram nenhuma objeção. Vai à televisão fazer uma coisa. E ainda por cima à televisão, repare, estamos no ano de 1960, não é? A televisão já existia.
Jorge Correia
07:48
Sim, mas não estava muito democratizada.
Júlio Isidro
07:50
Havia televisão lá em casa? Por tal sinal, nós tínhamos. Nós tínhamos televisão. Tínhamos televisão para nós e para o prédio inteiro. que ia lá toda a gente ver portanto, quer dizer os meus pais deixaram-me ir pode ser que tenha graça ele aparecer na televisão estava ainda por inventar o gravador o videotape, nada disso existia era tudo em direto era tudo em direto, não havia possibilidade a não ser que fosse em filme isto já lhe conto em filme, aquilo que se transmitia em televisão que não fosse um direto de estúdio era filmado
Jorge Correia
08:24
É só um pedaço daqui Aqui é um telemóvel Não queria essa imagem Não se preocupe, estamos a gravar Não tem problemas
Júlio Isidro
08:33
E portanto fui concorrer Eles fizeram Uma prova difícil Era o estúdio do telejornal Bastante mais pequeno que esta sala onde nós estamos Com uma mesa Tipo mesa de notário Parecia aquelas mesas Em mogo Numa coisa assim que era onde eu via o Henrique Mendes e o Gomes Ferreira e o Manuel Caetano e o Fialho Gouveia a lerem as notícias. E era ali, tinha ao lado uma mesinha mínima com uma cadeira onde as lectoras de continuidade anunciavam aos estimados espectadores a programação do dia. E foi ali que me mandaram ler um texto em português, um texto em francês, um texto em inglês, depois pediram-me para fazer um improviso sobre um tema qualquer e depois mandaram-me embora. Pronto, depois disso mandaram-me embora. E passados 15 dias, não tenho bem a certeza, já passaram alguns aninhos, mandaram-me chamar a dizer que tínhamos ficado num grupo mais restrito. Pensei que eram 15, ou não, assim. E voltávamos a fazer provas. Eu, por tal sinal, fiz essas segundas provas em condições emocionais um bocado duras, porque tinha morrido a mãe do meu melhor amigo, na véspera. E eu estive com ele, antigamente os velórios eram de noite inteira, e eu estive com ele até de manhã junto à mãe. E, portanto, fui tomar um banho e tal, e fui para a televisão, um miúdo com 15 anos, tem muito mais sono do que eu tenho hoje, não é? e portanto fui um bocado ensonado e então mandaram-me fazer outra vez as mesmas provas a sensação estranha é porque à minha frente não estava um júri o júri estava na regia e a regia era no piso de cima com um vidro que não se via cá para baixo
Jorge Correia
10:38
verdadeiramente uma sensação de televisão
Júlio Isidro
10:40
eu ouvi uma voz que vinha do além que era a pessoa que me dizia para eu fazer isto e aquilo e aquilo outro
Jorge Correia
10:45
e não ficam ansiosos com essa ideia?
Júlio Isidro
10:47
sabe o que? A inconsciência é ótima para nós não termos ansiedades. Aliás, o padre António Vieira dizia isso, felizes os que não vêem um palmo adiante dos narizes, e portanto eu nem dei por nada. E tinha um operador de som, um operador de imagem, à minha frente, com um ar metencionado, a aturar os miúdos, estavam ali a dizer uns disparatos. E então voltei a fazer mais uma vez o texto, mais uma vez um noticiário, algumas leituras de textos noticiários, como não ouvia teleponto, Os noticiaristas liam no papel, e eu li também no papel. Para mim fiquei logo muito emocionado, a circunstância de estar a ler, e sentado na cadeira do Henrique Mendes, do Monal Caetano, que coisa extraordinária. E depois, puseram-me em pé à frente dessa secretária, e disseram-me para eu fazer uma reportagem. Isso é que é realmente uma coisa que eu ainda hoje teria medo de fazer, e não tive medo nem naquela altura. Já viu alguma vez, segaram tratar um português, já viste alguma vez, era a tal voz do além, já viste alguma vez a cerimónia do 10 de junho e o portal sinal, em termos de televisão, já tinha visto.
Jorge Correia
11:58
E portanto lembrava-se do que é que acontecia.
Júlio Isidro
12:00
Vagamente, não é? Então agora faça uma reportagem sobre o 10 de junho.
Jorge Correia
12:04
Sem nada atrás, sem imagem, sem nada, vazio.
Júlio Isidro
12:06
O que é extraordinário é exatamente isso, quer dizer, como é que se faz uma reportagem do que se não vê. Mas a memória é fresquinha, portanto eu lembrava-me que tinha desfilado o batalhão da GNR e depois mais o regimento de infanteria e depois mais as medalhas que estavam a ser entregues, em alguns casos já aos mortos da guerra colonial. Ainda não era, era anos 60, foi no ano em que começou. Mas pronto, medalhas que foram entregues e portanto eu relatei o Terreno de Passo, que era no Terreno de Paço, lá contei aquilo que não estava a ver. Fazer uma reportagem sem estar a ver. E as coisas saíram bem, e portanto foi aprovado e foi convidado. E depois, pior do que tudo, pediram para eu contar uma anedota. É muito mal, hoje em dia vivemos num tempo de humor, é evidente, mas ninguém faz humor numa sala vazia. Fazer humor numa sala vazia é que é mais complicado também. Porque ninguém ri. Não estava lá ninguém, eu contei uma anedota muito pífia, que obviamente nem o operador se riu nem o operador se riu pronto, depois mandaram-me embora
Jorge Correia
13:13
Júlio, posso perguntar-lhe depois quando foi escolhido e quando começou a aparecer regularmente nos ecrãs e voltou à escola, continuava na escola naturalmente e então como é que é a sensação? porque a partir desse momento já não é mais aquele nosso colega que ali está já é uma estrela de televisão
Júlio Isidro
13:31
já aparece nos ecrãs todos esses conceitos foram evoluindo ou se quiser, involuindo com o T.
Jorge Correia
13:38
Inventamos isso. Inventamos um influenciador.
Júlio Isidro
13:40
Ninguém me ligava nenhuma. Entre várias coisas, por o seguinte, para já porque lá está, em cada rua havia se calhar um aparelho de televisão. Se não o da casa dos meus pais, provavelmente o da pastelaria de esquina, não é? E não mais do que isso. Portanto, a popularidade e depois a cobertura não era do país inteiro. E provavelmente os meus colegas nunca me tinham visto. Ou vi uma vez ou outra, não sei. Mas não me lembro, sinceramente, eu que tenho uma memória relativamente fresca, não me lembro de colegas meus, mas estive-te a ver na televisão. Nada.
Jorge Correia
14:16
Mas não sentia esse orgulho dessa possibilidade de poder ter…
Júlio Isidro
14:21
Não, o orgulho não sentia nenhum, porque sempre fui demasiadamente crítico em relação a mim próprio. E portanto ficava sempre com a ideia que se calhar estava ali numa situação, não digo de favor, porque foi, por contrário, foi de desfavor, estou aqui a fazer uma coisa provisória porque a primeira coisa que me mandaram fazer sabendo que eu fazia aeromodelismo foi, as primeiras coisas que fiz foi para além de apresentar globalmente o programa juntamente com dois apresentadores um deles já não está entre nós que era o João Lobo Antunes e a voz feminina e a presença feminina e lindíssima era da Lídia Franco portanto eu fazia a apresentação com a Lídia Franco, com o João e portanto no princípio dizíamos umas coisas e cada um tinha umas rubricas, porque o programa tinha hora e meia às seis da tarde, sensivelmente, penso eu.
Jorge Correia
15:11
Então, mas esse criticismo em relação a si próprio, esse perfeccionismo, não lhe permitiu sentir o gozo daquilo que estava a acontecer?
Júlio Isidro
15:22
Ou seja, eu não tinha propriamente um grande gozo do que estava a fazer, devido à concentração do que estava a fazer. Portanto, quer dizer, não saboreava. Porque, quer dizer, acho que a maior parte das pessoas que estão ligadas ao meu meio, a uma parte, eu quero ser justo, estão mais ligadas aos efeitos colaterais da profissão do que à profissão. Portanto, quer dizer, a questão da fama, do proveito, do entrar num sítio qualquer e as pessoas reconhecerem e por ser para si o par de sapatos tem um desconto, quer dizer, percebe? Eu não tinha sequer a noção disso. E mais do que isso, eu só tinha visto televisão, curiosamente, na Feira Popular uns anos antes, quando a televisão começou a ser ensaiada na Feira Popular. Portanto, eu não tinha nada à percepção de que orgulho que tenho de trabalhar em televisão. Não, pronto, tinha uma vantagem. Pagavam-me um cachê semanal. Aliás, a minha vida foi feita de cachês semanais, até à atualidade. Mas pagavam 200 escudos, o que era muitíssimo bem pago. Muitíssimo bem pago. E mais do que isso, se houvesse repetições, o que infelizmente não havia porque não havia gravação, eles pagavam 10% sobre as repetições. Extra, pelo trabalho. Exatamente. Pela transmissão, pela retransmissão. Ah, muito bem. É evidente que havia uma coisa ou outra que eu tinha feito em filme e quando era repetido, quando ia à Rua de São Domingos ao Lapa, um palacete lindíssimo, levantar o meu cachê, às vezes tinha lá aquela surpresa de mais de 10% que tinham retransmitido não sei o quê.
Jorge Correia
17:12
Fazemos uma breve pausa nesta conversa para um pedido muito rápido e honesto. Sabemos que muitas das pessoas que nos ouvem e chegam até aqui gostam das conversas, mas acabam por se esquecer de um pequeno detalhe. Clicar no botão de seguir ou subscrever na aplicação de podcasts. Este gesto que demora literalmente um segundo é a ferramenta mais poderosa que temos para dizer ao algoritmo, às plataformas que este projeto tem valor. É isso que agrante o futuro do Pergunta Simples e que nos permite trazer convidados extraordinários e nos ajuda a levar estas conversas a cada vez mais pessoas. Não deixa de ficar na minha cabeça aquilo que disse há pouco que é eu tomei muito poucas decisões, decidiram por mim e eu no fundo deixei-me embalar aqui pelo mundo. Há um momento da vida do Júlio que é extraordinário, extraordinário para todos nós, mas para o Júlio ainda mais, que é um tal de 25 de Abril de 1974. Pois. Que o Júlio decidiu estar a trabalhar nesse dia exatamente aonde?
Júlio Isidro
18:11
Olha, aí sim, no Rádio Clube Português, é evidente, mas essas já são outras decisões. Não é uma decisão de carreira, essa foi uma decisão emocional, muito mais do que racional. uma decisão emocional e uma decisão que eu previa como uma grande mudança na nossa vida, na minha vida.
Jorge Correia
18:33
Mas sabia que aquilo estava ali prestes a acontecer?
Júlio Isidro
18:35
Não, não. A única coisa que eu sabia é que tinha ido com os Green Windows a Londres, Penso que pela segunda vez tinha que ter pedido à APID um documento para me deixarem sair sabendo que eu voltaria para a tropa. Isto porque eu já tinha estado na tropa, mas como não tinha ido para a guerra colonial por razões meramente circunstanciais, não teve nada a ver, não houve cunhas, não houve nada, pelo contrário, tinha condições até físicas para não ir, porque tinha luxação crónica do ombro direito, mas nem mesmo assim escapei. E fui com os Winwindows, eles vieram para Portugal e eu fiquei em casa de Matia, porque iria ser mobilizado como capitão quando chegasse aos 30 anos.
Jorge Correia
19:32
E, portanto, ia para a guerra.
Júlio Isidro
19:34
E aí era inevitável, porque ia… Aliás, a origem do movimento dos capitães tem também a ver com os capitães milicianos. E portanto eu iria em determinada altura Mesmo comandar uma companhia para a África E aí pensei, duas vezes é demais E vou ficar em casa da minha tia Mas curiosamente, dá-se o 16 de Março E eu estava em casa da minha tia em Hollywood Road E ela tinha-me arranjado a possibilidade, a eventualidade de eu ser mordomo, motorista e tudo e tudo, de algumas vedetas internacionais. Uma delas era a Eva Gardner, que estava a viver em Londres o final da sua carreira e da sua decadência também. Mas com dinheiro mandado, penso que eu, mensalmente pelo Frank Sinatra, que tinha por ela uma grande paixão, e pagava-lhe a estadia em Londres. Também poderia ter tido uma hipótese com o Danger Man, que era o nome da série, era o Patrick McGowan, também na qualidade de mordomo e motorista e não sei o quê. E, das 16 de março, eu tinha ido à BBC Portuguesa e tinha ouvido as informações, as notícias mais puras, mais bem passadas. Sem censura, portanto. Exatamente, mais bem passadas do que tinha acontecido com o 16 de março, a marcha das Calas da Rainha sobre Lisboa, e portanto o fracasso naquela altura, o aparente fracasso do movimento, e liguei para o Luís Filipe Costa, que era o meu chefe. Naquela altura tinha que ir a uma cabine telefónica e levar uma série de moedas de cêntimos ou de libras, para poder fazer uma chamada e disse oh chefe, diga-me uma coisa isto dá para voltar? foi só que eu disse e ele disse dá e eu comprei o bilhete e porque tinha tinha comprado bilhete e dei volta para despistar é evidente, mas o de volta já tinha caducado, não é?
Jorge Correia
22:01
a ideia era mesmo ficar em Londres
Júlio Isidro
22:03
e não ter que ir para cá certamente não era nesta profissão porque por muito bom inglês que eu falasse eu falo inglês correntemente mas não falo corretamente e tenho o accent que é uma coisa que eles só perdoam ao Schwarzenegger nos Estados Unidos com aquela pronúncia que ele tem
Jorge Correia
22:19
Então e o que é que acontece nesta madrugada do dia 25 de Abril no Rádio Clube Português? O que é que se lembra desse momento?
Júlio Isidro
22:26
Lembro-me muitíssimo bem porque eu fazia, naquela altura, era noticiarista portanto fazia noticiários para além naquela altura fazíamos tudo portanto eu fazia noticiários fazia o entretenimento, programas de produção, etc. Trabalhava muitas horas por dia porque ganhava a hora. Ali nem sequer era a semana, ganhava a hora. E 27,50 centavos não se podem deitar fora. E portanto eu estava casado muito recentemente e então fazia noticiários, depois ia fazer o Clube das Donas de Casa e depois fazia A Noite É Nossa e depois mais tarde vinha fazer logo o Em Órbita. Enfim, fazia o Clube Agogo Que era outro programa também que fazia Uns em FM, outros em Onda Man
Jorge Correia
23:11
Portanto havia que ganhar dinheiro, havia que trabalhar
Júlio Isidro
23:13
Havia que andar para frente E oferecia-me voluntariamente para fazer as férias dos outros Portanto, os meus colegas Que tinham já um estatuto Mais consolidado que o meu Iam de férias E eu oferecia-me voluntário e ficava lá Fazia dois períodos noticiários Por exemplo, seguidos 19h01, 1h07 19h01, 1h07 da manhã fazia isso com muita frequência dobrava os turnos, portanto exatamente, ficava ali, lanchava comia lá umas coisas e tal podiam situar-nos nesse… e então nesse dia ou nessa noite eu estava em princípio, estava uma sete da manhã quem fazia o horário com uma letra lindíssima era o Luís Fripo Costa e para a vossa informação no dia 25 de Abril o número de noticiaristas dentro do rádio que o português era de sete pessoas. Sete pessoas? Sete pessoas para garantirem 24 horas de informação por dia. O que significava que cada um de nós estava sozinho. Porque dois estavam de folga.
Jorge Correia
24:16
Ah!
Júlio Isidro
24:17
Pois, quer dizer, eu fazia seis horas de noticiário absolutamente sozinho.
Jorge Correia
24:21
Não havia redundância no fundo?
Júlio Isidro
24:23
Não, recebia telex, esperava ou não que a censura mandasse o seu diagnóstico, sobre o conteúdo dos telexes. Às vezes não respeitávamos isso, era uma questão intuitiva, outras vezes era uma questão provocatória. Dava para soltar, dava para pagar
Jorge Correia
24:43
alguns telexes e poder ler. Eram telexes internacionais, das redes internacionais?
Júlio Isidro
24:48
Eram telexes da agência portuguesa, telexes da Reuters, telexes da France Press, para aí fora. E, portanto, quer dizer, o problema é que os que vinham lá de fora, que estavam completamente libertos. Por natureza, a redação contava a verdade das coisas. Daqui não podia ser a verdade das coisas. Mas, de qualquer maneira, nós regíamos aquilo, sobretudo com uma premissa que eu defendi desde sempre, que é a arte da metáfora. E, portanto, às vezes andávamos ali…
Jorge Correia
25:20
O que é a arte da metáfora?
Júlio Isidro
25:21
A arte da metáfora é dizer mais ou menos aquilo que se pode dizer, mas com vontade de dizer um bocadinho mais. E as pessoas percebem isso também, não é? Sim, havia muitos recados. E o Fulipo Costa adorava também, ainda por cima, faço trocadilhos com muita facilidade e alguns eram muito eficazes.
Jorge Correia
25:39
E a tribo da PIDE não se zangava de vez em quando?
Júlio Isidro
25:42
Não ficava aseada? Não, porque nós tínhamos censura interna. Estava lá dentro? Alguns apelidos são conhecidos, mas eu não vou citar.
Jorge Correia
25:51
De pessoas que trabalhavam…
Júlio Isidro
25:53
Não, havia lá um gabinete de censura. Dentro da rádio? Dentro do Rádio Clube Português. Deviam ser muito populados, portanto. Era uma gente que gostava muito deles.
Jorge Correia
26:04
O que é que acontece na hora?
Júlio Isidro
26:06
Às vezes o senhor entrava e olhava por cima do ombro. O que é que você está aí a escrever? O senhor, não vou dizer nomes, os apelitos são muito conhecidos. O que é que você… Ah, estou a escrever isso assim, assim. Pois é logo a que dá a escrever. Está bem, pronto. E entretanto, eu estava na noite de 24 para 25 de Abril, eu estava noticiários da 1 às 7 da manhã. O que significava que ia ser mesmo o primeiro a ler, o primeiro comunicado do MFA. Só que o Joaquim Furtado, que também pertencia à equipa dos noticiaristas, o Joaquim Furtado trabalhava também na televisão, na RTP, e estava nos noticiários da televisão como redator. E disse-me para aí um dia ou dois dias antes, olha, eu vou fazer o último noticiário da RTP, que é o da meia-noite. Tu não te importas de trocar comigo, tu faz o 19-1 e eu faço o 1-7 da manhã. Trocaram o turno, portanto. E trocámos turno. Portanto, eu saí à 1 e 1 quarto, sensivelmente, quem já tinha entrado, passei-lhe a pasta, o que é que tinha feito, aliás, tínhamos uma zona da nossa secretária onde se iam acumulando os noticiários que já tinha lido, e vim embora, à 1 e 1 quarto. e soube posteriormente que os militares ao meu quarto já estavam na placa central da Sampaio Pina, dentro do carro e que assim lá não está a sair o julizinho. Mas eu não fui logo para casa, naquela altura eu já estava divorciado. Foi viver um bocadinho da vida? Fui para casa dos meus pais. Pensei que tinha ido dar uma volta pela cidade. Não, tem toda a razão. Fui para casa dos meus pais, depois de ter ido ao Porondanal que era a discoteca onde eu costumava gastar. E portanto fui até ao Porão do Nau Onde Me cedi em bebidas Uma laranjada E Coca-Cola não que estava proibida Pelo regime Mas se calhar um Canadá De raio Fiz aí uma mistura explosiva Não bebia mais nada E fui para casa por volta das 3 Ou 3 e tal da manhã Para casa dos meus pais Onde os meus pais tinham deixado de ficar o meu quarto incólme porque tinha uma pretensão que um dia voltaria e não sei se era a pretensão era provavelmente a perspetiva de que isso podia acontecer a possibilidade e então eu fui fui-me deitar, a minha mãe tinha insónias e ouvia a rádio durante a noite e por volta aí das 5 e tal da manhã a minha mãe bateu à porta do meu quarto acordou-me olha, eu tenho estado a ouvir o cálculo português estou a ouvir ali umas músicas que não têm nada a ver aquilo que habitualmente se passa ou seja, o que é que se passa? Passava-se a noite é nossa que era um programa que eu fiz inúmeras vezes das três às seis da manhã a produção de Rui Castelar Só que as músicas já eram outras? Eram outras, eram marchas militares e tal e eu fui ouvir e ouvi de repente aqui posto comando-me as Forças Armadas está a acontecer uma coisa fui até à casa de banho tomei um ducho para ir lavado para uma revolução, vale sempre a pena e levante, quanto mais não seja na consciência e fui fui a pé eu morava na João Crisóstomo e fui a pé, atravessando o Parque Eduardo VII até à Sampaio Pina entrei lá, eram umas seis e tal da manhã ou algo assim estava lá uma certa agitação a rua estava vedada de um lado e do outro com chaimites não tenho certeza se fossem todas chaimites mas enfim, mas com carros de combate. E havia um ninho de treinadoras, pelo menos um que eu tive a ocasião de ver, no prédio de esquina, no último andar. Entrei, pronto, os meus colegas estavam lá, alguns estavam poucos. E estavam, essencialmente, estavam os ocupantes que eram muito mais militares da Força Aérea do que do Exército. Ali, concretamente, havia mais de… Eu penso que sim. ou pelo menos estavam equivalentes. E deu para entrar. E então pronto, entrei para os judiciais, o que é que é preciso fazer? E passado um bocado, eu tenho ainda esse documento histórico para mim, não vai para a Torre do Tombo, fica só para mim, atendíamos as chamadas telefónicas vindas exatamente do posto de comando do Movimento das Forças Armadas. A dizer o que era preciso dizer na rádio? Ditavam-nos, ditavam-nos. E então eu tenho um ali escrito por mim com uma letra horrorosa, a dizer qualquer coisa como mantenham-se em calma, com calma, a revolução está em marcha, uma coisa qualquer, nem sei, que eu tenho ali guardado, com uma letra péssima, depois entreguei ao meu chefe e ele acrescentou, quase que aquela letra linda, uma sugestão de que fiquem em casa, estejam tranquilos, uma mensagem de calma foi dada por ele com a letra dele, mas está a minha no comunicado mais o acrescento que eu fiz. Então lá fui para o microfone e fui lendo durante o dia os comunicados de muitas Forças Armadas, íamos passando depois das marchas militares já se podiam passar os cantores de intervenção da época que estavam normalmente silenciados e portanto ouviu-se muito José C. Afonso, ouviu-se muito Sérgio Godinho ouviu-se muito José Mário Branco e tal e a tal marcha do MFA que é um mero acaso o José Ribeiro, que era técnico de som foi ao armário das marchas de desporto para os domingos desportivos tirou de lá o cadeado e tirou uma marcha e sempre que nós dizíamos o comunicado do movimento das forças armadas metíamos aquela marcha, é a marcha do MFA
Jorge Correia
32:10
Portanto, não havia uma coreografia? Não foi sequer pensado para isso? Nada, foi tudo de improviso À boa maneira portuguesa Bom, de improviso nós podemos falar de uma coisa que acontece mais tarde e que é um programa que é mítico que é o Passeio dos Alegres, mas eu tive a ler algumas coisas sobre o Passeio dos Alegres e fiquei primeiro absolutamente fascinado por ser um programa que é montado genericamente no espaço
Júlio Isidro
32:33
de uma ou duas semanas e um programa
Jorge Correia
32:35
diário no domingo à tarde semanal, de domenical de 5 ou 6 horas tinha 4 horas e meia primeiro passou logo para 5, 5 horas mas o que me fascina aqui e a história dá sempre estas voltas agora que nós estamos todos para o preço da gasolina e do gás óleo. Descobri uma nota histórica a dizer que uma das razões pelas quais o programa foi feito ao domingo à tarde tinha a ver com uma preocupação do Ministério da Energia para que todos poupássemos gasolina.
Júlio Isidro
33:02
Não, isso é uma informação completamente subvertida.
Jorge Correia
33:05
Temos um fake news, temos aqui uma informação que não…
Júlio Isidro
33:08
É uma fake news, é uma má interpretação, digamos. O que aconteceu foi o seguinte, eu chamei àquele programa Passeio dos Alegres e quando chamei aquilo para ser desalegues tudo isso subentendia um conceito Qual era o conceito? O conceito era muito simples a ideia que eu tinha é que as pessoas perdiam muito tempo não tinham alegria aborreciam-se as famílias mas apesar de tudo se faziam saindo ao domingo vamos dar utilidade ao carro que estava parado muitas vezes até quase todos com cobertura Com aqueles plásticos, aquelas lonas cinzentas E portanto as pessoas saíam ao domingo, o pai, a mãe, normalmente a sogra, a sogra e os miúdos, iam dar uma volta, saíam, iam até à estrada de Sintra, davam uma volta, compravam umas queijadas, o pai ouvia o relato, os miúdos não se podiam mexer nem falar, porque, ou não sei, para pedir para fazer xixi, paravam num sítio qualquer e os miúdos iam fazer xixi atrás nos arbustos, a sogra estava eventualmente até a fazer crochê lá atrás, e eu pensei, isto é o chamado Passeio dos Tristes. Eu vou criar um programa que reúne as pessoas em casa de uma forma alegre, vou-lhe chamar Passeio dos Alegres. Vamos animar a malta. É, e depois o que ficou na minha cabeça foi o seguinte, paralelamente a isto, portanto o Buxedo de Energia não tem nada a ver com isto, só de outra maneira, já vou contar como, eu disse paralelamente a isto eu estou a poupar imenso combustível ao país. Estou a poupar muito combustível no país. Não é que houvesse a crise que está a haver neste momento, e outras cíclicas têm acontecido, mas é isso que eu estou a fazer. Daí que, muito perto do final da primeira série, não, no final da primeira série, eu provoquei, de uma forma bem disposta, obviamente, o Ministro da Energia, fazendo um mapa à mão, não havia essas tecnologias todas, no programa, dizendo assim, ora bem, nós temos não sei quantas pessoas a ver o programa, que era uma coisa, o programa tinha cerca de 90% de share, o que significava que 90% do país estava parado para ver o programa. Portanto, eu sei que há não sei quantas pessoas a ver, isto deve corresponder a um número X de automóveis, se todos os automóveis forem cheios, fazem não sei quantos quilómetros, o consumo é este, o programa esteve no ar até agora, não sei quantos meses, eu poupei ao país, este, não o valor, mas esta quantidade de combustível. Portanto, cria uma narrativa à volta daquilo. Portanto, o que eu fiz foi dizer ao Sr. Ministro, não tenho nada que agradecer, mas já agora pouparam durante estes meses este valor, que eu penso que era muito volumoso, de dinheiro em combustível. Provavelmente, se fossem fazer contas sobre o imposto que cai sobre a gasolina, teria também prejudicado o Governo. É verdade, é melhor não ter essa conversa. Naquela altura eu não pensei nisso.
Jorge Correia
36:16
É uma curiosidade…
Júlio Isidro
36:17
É o contrário daquilo que eu percebo a relatar.
Jorge Correia
36:20
A voz corrente. A minha curiosidade tem a ver com a criatividade, que é criar coisas, no fundo, uma semana para a outra, ter uma semana para criar cinco horas de emissão. De onde é que vêm as ideias? Como é que o Júlio organiza a cabeça para conseguir ter este conjunto de ideias, de rubricas, de coisas que podem animar-nos e que naquela altura fixou tanta gente a ver televisão?
Júlio Isidro
36:46
Olha, eu também gostava de me perguntar isso, mas eu penso que só vou arrebater a expressão como é que organizar as ideias. Eu penso que as ideias estavam desorganizadas. Havia um caos das ideias? O que eu pensava era de que maneira é que eu na próxima semana, e não era bem assim, nisso eu sou bastante programado, como é que daqui a 15 dias eu vou animar a malta. Portanto, quer dizer, era importante pensar nisso. O que é que eu pensava? Para já no mundo que estava à minha volta, nas músicas que iam saindo, nos filmes que estavam na berra, eventualmente em filmes que tinham passado na própria RTP e a partir daí arranjava temas que de alguma maneira, ou então até antecipando uma espécie de cartaz de televisão, cartaz de TV, antecipando a programação da próxima semana onde vai passar o filme X ou Y ou Z.
Jorge Correia
37:36
Era um filhotinho cultural dentro de um programa de televisão?
Júlio Isidro
37:39
Era, era. Aliás, foi sempre. Aquilo que eu fiz, não foi sem querer, mas foi de propósito, foi fazer com que a cultura fosse muito acessível às pessoas. Porque a cultura, como disse uma vez a Helena Vaz da Silva, quando eu a entrevistei com a minha rainha da festa, a cultura é saber onde é que fica o carburador do automóvel. Portanto, quer dizer, eu continuo a pensar assim. Portanto, o que eu fornecia às pessoas era um entretenimento inteligente, o que já não é nada mau para aquilo que se usa. E entre as várias descobertas que… E portanto ia fazendo, ia criando situações. Lembro perfeitamente que ia passar, nesse domingo, ia passar um filme da Pantera Cor-de-Rosa. E eu fiz um programa todo em volta disso. Sei que fiz um programa também dedicado ao Snoopy, por exemplo. Estou agora a lembrar-me. E depois ia meter, ou então ia sair um disco muito curioso, que tinha um nome curioso qualquer, E eu, a partir daí, criava também situações de competição, entre aspas. Também havia isso. As pessoas iam lá participar, não iam competir porque aquilo que nós oferecíamos ou eram singles, ou eram LPs, ou era pouco mais do que isso. Portanto, as pessoas iam porque gostavam de ir. E eu acho que isso foi talvez o grande trunfo que eu consegui, foi com que as pessoas se divertissem sem terem uma ideia. hoje em dia competir para um concurso, é para receber o automóvel, para receber uns milhares e não sei o quê. Nunca houve automóveis. O único automóvel que houve foi o Mini, que eu me lembrei, porque eu sabia que em Oxford, os estudantes de Oxford faziam um concurso para quantos dentro de uma cabine telefónica, daquelas velhas cabines telefónicas vermelhas que os ingleses ainda têm, uma ou outra. Eu disse, então, se isso for, em vez de ser dentro de uma cabine telefónica, isso for dentro de um automóvel. e pronto, e depois consegui o automóvel mais pequeno que tínhamos na altura sem estar a falar da Izeta que não era um automóvel era uma moto com carroçaria mas portanto era o Mini e portanto lembrei-me e contratei a British Leyland naquela altura a Mini era representada em Portugal pela British Leyland e emprestaram-me o carro e depois aconteceu o que aconteceu. Quantos coberam lá? Finalmente depois de várias semanas entraram 27 dentro do carro
Jorge Correia
40:00
Uou! Absolutamente extraordinário O programa é feito vários programas, mas este em particular da descoberta de pessoas, de talentos em particular há um que me fascina António Variações que não aparece propriamente no programa primeiro quer dizer, lá está, aparece Algures na vida do Júlio
Júlio Isidro
40:25
Como aliás alguns também porque Esta questão de que é o meu orgulho de vida, sem dúvida nenhuma, que é o ter proporcionado esta coisa, o Júlio lançou, eu remeto isso para os historiadores, aquilo que eu acho é que foi sempre um meio e não um fim.
Jorge Correia
40:43
Mas é verdade que descobriu e que potenciou e que mostrou.
Júlio Isidro
40:46
Ia lançando pessoas, ia promovendo sonhos, ia abrindo a porta para sonhos de pessoas, era isso. Mas acontecia em duas dimensões. é ele, da oferta e da procura. Numa fase inicial era eu que ia à procura. E onde é que eu procurava? Procurava essencialmente nos bares em Lisboa. Nos bares? Pois, porque os bares tinham muita gente que cantava. Hoje em dia já é menos vulgar, não é? Tem a ver com, lá está, a criatividade, o talento estava lá. Ia buscar gente, ia buscar gente. Por exemplo, o Fernando Pereira fui encontrá-lo num bar chamado Berro. Penso que ainda existe até. E fui lá a ver e vejo um fulano, vi mal, porque a nuvem de fumo era muito grande, mas ele estava lá a cantar, a imitar a Liza Minel. E depois fui falar com ele e convidei para ir ao programa e criei um cenário no programa muito semelhante ao Cabaré, para ele poder cantar uma coisa encontrada no filme Cabaré. Portanto, quer dizer, fiz isso inúmeras vezes. Depois, em determinada altura, como eu fazia, não se pode desligar isto da rádio, da minha querida rádio, é porque eu estava a fazer também a febre de sábado de manhã. E na febre de sábado de manhã, todos os sábados eu apresentava gente nova. E essa gente nova normalmente mandava-me cassetes, que eu ouvia exaustivamente e com muita paciência. E portanto, ouvia essas cassetes e depois contratava a rapaziada para ir à febre de sábado de manhã. Quando comecei a ter o passeio dos alegres, Depois era o dois em um. Eles faziam a febre e passado uma semana, realmente passado uma semana, para não ser logo assim uma coisa derrumpante, faziam depois também o passeio dos alegres.
Jorge Correia
42:33
Então e o António Variações? Onde é que ele aparece?
Júlio Isidro
42:35
O António Variações, curiosamente, foi um percurso ao contrário. O António Variações, lá está, além da oferta e da procura. Neste caso foi a oferta dele. Estavam a cortar o cabelo num sítio onde eu, em princípio, nunca iria, porque a Isabel Queiroz do Val tinha, no IMAVIS, tinha um cabeleireiro unissexo, para a época era completamente revolucionário. E ela tinha contrato com a televisão. E um dia disseram-me na televisão, ó Júlio, quando quiser cortar o cabelo, vá lá, porque há um patrocínio. E então corto sempre o cabelo no Sr. Júlio, que era o meu barbado. Então vou ali ao IMAVIS. E fui lá ao IMAVIS. E quem me cortou o cabelo foi o tal António Variações e ao cortar-me o cabelo sabe uma coisa, sabe que eu faço umas cantigas eu achei interessante não pela voz porque a voz falada era velada ele até falava muito baixinho a figura? exatamente, o que me desportou isto é um ótimo boneco no bom sentido do termo utilizamos esta expressão muitas vezes é um character, é uma personagem como quiser vai ficar bem na televisão foi essa a ideia e disse, olha, tem alguma coisa gravada? Não tenho, mas gravo. Então faça favor. E passado pouco tempo, 15 dias, tanto, já nessa altura vivia em casa dos meus pais e estava num restaurante muito perto da casa dos meus pais, a jantar sozinho. Ele entrou para a porta adentro, vinha com uma capa alentejana e vinha com uma bengala bem grossa, não era para amagardir, com certeza. Traziu o cajado. Era um cajado, era mais ou menos isso. Tirou do bolso uma cassete. Olha, já gravei, está aqui. E eu fui para casa a ouvir, no meu leitor de cassetes. Achei muito interessante as duas cantigas, mas particularmente a primeira, o comprimido. E ele tinha-me deixado o número de telefone e eu telefonei ainda nessa noite, ele era o homem da noite, eu telefonei ainda essa noite, a dizer assim, olha, apareça na próxima quarta-feira na reunião de produção da televisão. E ele apareceu na quarta-feira. Porquê? Porque eu já tinha o programa escrito e a reunião de quarta-feira era só para acertar detalhes do programa de domingo. E para apresentar o programa do domingo seguinte.
Jorge Correia
45:02
Portanto, foi uma descoberta que o obrigou ao Júlio a colocar ali…
Júlio Isidro
45:06
Eu alterei imediatamente o guião.
Jorge Correia
45:08
Na própria reunião. O que tinha este aumento extraordinário?
Júlio Isidro
45:11
Porque, olha, ele entrou para a porta dentro e deixou em silêncio a mesa de trabalho. Onde estava o realizador, a anotadora, o associado de realização, o estenografista, o operador de som. De fascínio ou de susto? Porque ele entrou também com uma roupa completamente diferente daquelas duas que eu já conhecia. A do dia em que me cortou o cabelo e a outra da samarra, ou da capa, não era uma samarra, era uma capa comprida. E do cajado. e portanto entrou com uma jaleca preta e com um chapéu amazantino de toureiro
Jorge Correia
45:48
portanto para marcar exatamente a camitina
Júlio Isidro
45:50
eu estava no meio da reunião e disseram-me está lá fora um senhor que o Júlio Isidro disse para vir cá falar com ele sim senhor então faz favor de entrar e quando ele entrou eu já tinha dito hoje vamos ter aqui um convidado porque provavelmente vamos mexer no guião É evidente que num programa de 5 horas mexer no guião é fácil Claro, há sempre espaço para colocar mais qualquer coisa Mas eu mesmo assim tirei uma rubrica tirei uma rubrica vamos reescrever só aqui este bocadinho ele entrou, uma porta adentra e tal e então eu pus o gravador no meio da mesa pus a cassete toda a gente ouviu e disse, olha, eu faço questão que ele entre já esta semana não era nenhuma ordem a equipa que trabalhava comigo era a minha cúmplice, que é uma coisa completamente diferente. Eu aparecia com ideias malucas, digamos, e todos eles diziam, hoje ali vamos embora. O que é um clima… Acompanhavam? É um clima extraordinário. Isso é que é uma equipa, não é? E um líder? Olha, particularmente a sonografia e adereços, que é uma coisa que implica muito a mão de obra, estavam sempre comigo. Às vezes, o senhor dos adereços, eu criei um adereço para Adelaide Ferreira cantar o Baby Suicida, mas lembrei-me de pôr teias de aranha, porque ela vinha com uma capa preta, parecia um pouco uma figura fantasmagórica, ou da família, sei lá, do Drácula, ou coisa assim, ela tinha assim um ar estranho. E na estreia dela em televisão, eu quis fazer umas teias de aranha, e havia um adrecista que fazia muito bem teias de aranha, artificiais. Eu disse, hoje é quarta-feira, teias de aranha para domingo. mas eu faço, eu faço e realmente eu tenho eu tenho só fotografias porque a RTP esquecendo-se um pouco de uma coisa que se chama a preservação da memória, apagou todos os meus programas portanto, só existe um
Jorge Correia
47:49
apagou? apagou todos
Júlio Isidro
47:50
todos os programas do Passeio dos Alegres foram todos apagados e portanto, tenha fotografias e tenha realmente a Adelaide Ferreira a cantar com isso portanto, no caso do António Variações não havia nenhuma mudança especial eu tirei uma rubrica e o Otório Verções foi lá cantar e depois é que foi à febre de sábado de manhã normalmente era ao contrário e primeiro à rádio e depois faziam televisão
Jorge Correia
48:13
O que é que se sente perante esse apagamento da memória?
Júlio Isidro
48:18
O que é que eu sinto? Eu sinto que um bom pedaço da história da televisão em Portugal foi realmente eliminado não por mim quer dizer, podiam ter apagado todas as minhas participações Agora, quem lá foi Algumas coisas absolutamente fora de série Nunca mais lá estarão Eu tenho apenas fotografias Sei lá, por exemplo, eu estriei no Passeio dos Alegres A Missa Crioula Que vieram de propósito da Argentina Iam para Paris e fizeram um desvio Para vir o programa de um tal Rúlio Isidro E então vieram Uma atuação só com flautas de pano E percussões e os argentinos, tenho fotografias e veio com o próprio compositor Portanto, se nós quisermos recordar agora Isto é só para lhe falar, como por exemplo veio uma vez uma orquestra da República Popular da China Isto é só para lhe falar de estrangeiros E os portugueses que foram descobertos E os portugueses também Os UHF não têm nada do GNR têm fotografias deles todos A estreia do GNR também, sim senhor a cantarem o Portugal na CEE que me criou problemas até imediatamente censura, porque apesar de tudo houve censura
Jorge Correia
49:34
depois de 25 de Abril. Houve?
Júlio Isidro
49:36
Então não houve. Havia outra censura? Há outras formas, há outras formas, mas o Herman José, bem um exemplo disso como sabe pelas histórias que ele tem contado o GNR foi lá cantar Portugal na CEE e o vocalista levava um QP da GNR na cabeça isso provocou logo um sururu enorme com protestos e não sei o quê, e que eles já não podiam voltar à televisão e tal. Portanto, só para dar um exemplo. No fundo, isto é sempre uma forma de censura quando nós nos censuramos a nós próprios. Eu não ia nisso, mas, por exemplo, a Amália também se restriou no meu programa, o que me parece uma coisa quase abarrante, não é? A Amália era a maior embaixadora da cultura portuguesa, do cantar em português no mundo inteiro. E o fato foi um bocadinho calado Depois do 25 de Abril Ficou De uma forma implícita Em silêncio Porque há determinadas formas De calar as pessoas sem lhes dizer Nem que sim nem que não E portanto a Malha não ia à televisão E voltou no programa de julho Voltou pela minha mão Voltou pela minha mão Passado um tempo do Passeio dos Alegres Sou convidado para ir ao Valentim de Carvalho Falar com o Sr. Belchior era o account da Amália, o homem que só tratava das questões da Amália, e com o Mário Martins, o grande produtor, recentemente desaparecido, de quem eu tinha uma admiração e uma amizade profunda, e chamaram-me a um gabinete e disseram, olha Júlio, gostava que eu ouvisse isto aqui assim, e deram-me a ouvir uma coisa que era o senhor extraterrestre, cantado pela Amália, que era uma composição do Paião, uma coisinha, uma brincadeira, não é? uma brincadeira muito bem feita porque o Peião tinha mesmo talento Amália e não era um fado Amália gravou isto aqui gostava-me de saber se o Júlio podia levar Amália ao Passeio dos Alegres e eu fiz uma pausa desculpe, eu não estou a ouvir bem se eu posso levar Amália? Não, eu tenho a maior honra em levar Amália mas eu sabia o que é que estava por trás e pronto, e a Amália foi ao programa e aí curiosamente está no Youtube por outra razão que eu lhe vou explicar ela foi ao programa mascarada não foi vestida de Amália não levava os celos vestidos pretos dela com uma grande roda e o xailo não, foi mascarada com chapéu de palha na cabeça e de camponesa e com um avental e tivemos que criar uma situação de ela estar a apanhar roupa, uma corda com roupa estendida e não sei o quê.
Jorge Correia
52:32
Pode não se ter percebido imediatamente que era a Amália?
Júlio Isidro
52:36
Ela estava a tentar desvanecer ao máximo a imagem da diva. Que era o que ela era? Não se pode dizer que era. E que era. E então lá foi, conversou comigo um bocadinho, cantou o senhor extraterrestre e depois no final, num dos intervalos do programa, ela foi para o seu camarim e eu fui lá agradecer-lhe. E ela disse-me uma coisa assim, Júlio, eu virei a todos os programas seus sempre que quiser. Sim, mas ouça, agora nós não lhe pagámos nada, mas no futuro eu não tenho dinheiro, não era eu, o programa não era pago para mim, eu recebia só o meu cachê, sim, mas a televisão não deve ter dinheiro para lhe pagar. Não, Júlio, dê-me umas flores que eu vou. E ficámos assim, e foi mais vezes, depois foi ao final do Passei dos Alegres também. Um ato de gratidão seguramente. Mas pronto, tinha apenas a ver com a circunstância de ela estar silenciada.
Jorge Correia
53:36
Falamos da rádio e da televisão, lá está a febre de sábado à noite. Sábado de manhã. Chegou a encher um estádio de futebol, não é?
Júlio Isidro
53:45
A febre de sábado de manhã começou no cinema Nimas, que tinha 180 lugares. Para ser mais rigoroso, ela começou numa discoteca que cheirava muito a perfume barato, ficamos por aqui.
Jorge Correia
54:01
Uma metáfora.
Júlio Isidro
54:02
Que era, chamava-se Noite e Dia, na Pascoal de Melo.
Jorge Correia
54:07
Portanto, vejamos, só pontuar isto aqui.
Júlio Isidro
54:09
E fizemos só essa aí, nesse dia. Depois passou a ser feita no Nimas.
Jorge Correia
54:14
O Júlio não fumava, não bebia, mas conhecia todos os recantos da cidade.
Júlio Isidro
54:18
Ah, sim. Fumei bastante cigarros de outro, não é? Conta-lhe. E então ela começou ali e depois o segundo programa já foi no Nimas. E depois ao terceiro programa, em vez de estarem 180, estavam 360, porque alguns já sentavam os dois na mesma cadeira e tal. Com a cumplicidade do polícia e do bombeiro que nos pescavam o olho e tal. Deixam-se a estar de entrar a rapaziada e tal. E o meu assistente de realização, que era, e de produção e tudo, o meu amigo António Barre, já morreu há um ano, estava à porta, ia gerindo aquilo e tal. E depois aquilo foi crescendo, fez pavilhões de gimnodes esportivos, fez campos de esportivos, campos de futebol, estádios de futebol, por exemplo, o estádio do Barreirense, fui fazer no estádio do Barreirense, ou da Cuf, da Cuf de Barreiro.
Jorge Correia
55:06
E estava muita gente, estava sempre cheio?
Júlio Isidro
55:08
Sempre cheio, sempre cheio. E culminou, depois fiz mais, mas culminou em termos de número, no estado de Avalado, com 50 mil jovens a assistir. Um programa de rádio. Qual Rolling Stone, no fundo, não é? Pois, mas era rádio. Portanto, eu disse que as pessoas não foram ver um programa de rádio, foram ouver um programa de rádio.
Jorge Correia
55:26
O que é uma coisa absolutamente extraordinária. O que é que a rádio lhe deu que a televisão nunca lhe poderia ter dado?
Júlio Isidro
55:33
Olha, a rádio deu-me a liberdade de não ter que fazer a barba e não ter que pintar a cara. Não é isso, quer dizer, é que realmente estar aqui com o microfone a fazer, evidentemente, se a fazer o podcast, também tem imagem. Estamos a fazer rádio. Mas estamos a fazer rádio, no fundo. Permito-me uma coisa que é, se há alguma coisa que eu sei fazer bem na vida, é comunicar com as pessoas. E, portanto, o uso da palavra continua a ser para mim um grande privilégio do ser humano. É natural que o meu Picasso também se deve entender, que eu esqueço com o que se cruza, começam os dois a ladrar, devem estar a dialogar uns com os outros. Mas nós temos esse raríssimo privilégio. e eu ainda hoje me sinto quase desatualizado, quase não, verdadeiramente desatualizado, porque sempre quero falar com alguém, pego no telemóvel e ligo para a pessoa para falar de viva voz. E hoje em dia, já em muitos casos não atendem. Mas se eu for imediatamente e mandar um SMS, a pessoa já responde. O que significa que estamos a evitar o nosso diálogo, a evitar uma das coisas belíssimas que é a utilização da voz. quer dizer, esta comunicação bonita que existe entre as menins e a laringe não é verdade mas é para mim a rádio tem esse fascínio e tem a possibilidade de eu ir falando com as pessoas e criando imagens eu acho que a rádio tem um privilégio é oferecer às pessoas a possibilidade de se imaginarem em aulas próprias e aos ambientes onde estejamos eventualmente eu fiz inúmeros programas de rádio até também com concursos do tipo daquilo que fiz em televisão e tinha que estar a descrever e descrever é uma forma brilhante de transmitir aos outros a capacidade de imaginarem, é como quando nós estamos a ler um livro a leitura que eu faço de uma qualquer descrição no livro será certamente diferente da sua não se decalca, daí aquele mito que fui ver o filme baseado no romance não tem nada a ver Porque nós imaginamos uma coisa diferente E normalmente está pior A imagem que as pessoas têm Normalmente está pior Eu sou um homem de televisão Mas o meu coração bate pela rádio
Jorge Correia
57:51
E a língua portuguesa? É uma ferramenta ou é um santuário Que tem que ser Muito respeitado e cultivado? Vejo as duas coisas Sempre que eu ouço E tenho esse privilégio Vejo sempre que é muito cuidado é muito, diz as palavras todas com as sílabas todas com as vírgulas todas com os verbos no sítio certo com os sujeitos no sítio certo
Júlio Isidro
58:17
eu falo como escrevo e escrevo como falo aliás as pessoas gostam muito daquilo que eu escrevo e no fundo aquilo que eu escrevo é um colóquio eu faço um texto coloquial porque eu não sei fazer literatura e portanto as pessoas adoram aquilo que eu escrevo e fazem-me mais rasgados e elogios e sobretudo, por exemplo, quando eu escrevo e descrevo alguma coisa. Vou ver uma estreia de cinema e gosto do filme. Não sou obrigado a escrever, é evidente. Gosto do filme. E então conto alguma coisa sobre isso. De maneira também a não tirar o véu do suspense, da expectativa que o filme possa ter.
Jorge Correia
59:02
Se não estragar o filme no fundo.
Júlio Isidro
59:04
Claro, se não, às vezes acontece isto assim e assim, é contar a história, mas não. E portanto, quer dizer, aquilo que eu faço é, para já, alicerçado na minha ideia de que o português aqui ao microfone é uma ferramenta, mas é também, como disse, um santuário. Eu continuo a escrever à moda antiga, peço as maiores desculpas, mas eu não consigo escrever facto sem ser. Porque eu não consigo vestir um facto. Eu visto é um fato. E pronto. E o acordo ortográfico pode ter dado cabo aqui? Acho que o acordo ortográfico foi o maior desacordo que se conseguiu criar em relação até à nossa Portugalidade. Porque isto foi uma cedência especialmente à língua portuguesa espalhada pelo mundo. Não, quer dizer, a língua portuguesa espalhada pelo mundo existem variantes que têm a ver com a língua portuguesa. Mãe que é esta que nós praticamos. Estropiamos a língua de alguma maneira? Agora está a ver televisão e o comentador que está no Médio Oriente é brasileiro e diz o Irã. Nós dizemos que é o Irão. Portanto, quer dizer, não há nada a fazer. E disse várias expressões eu até estava a constatar e a relatar isso à minha mulher quer dizer, ele disse uma série de coisas que não têm nada a ver com a nossa língua mas o brasileiro é mesmo uma língua é o português do Brasil, mas é uma língua e portanto tentar uniformizar isto tudo deu a meira acabou por não uniformizar nada nada, porque há vocábulos que nem sequer existem não se praticam na língua portuguesa e portanto, quer dizer eu isso devo ao meu pai porque o meu pai era um discretíssimo funcionário de uma companhia de seguros, onde foi funcionário toda a vida, até a ser expulso por excesso de idade, expulso no sentido terno da palavra, porque o meu pai adorava estar na companhia. Mas em compensação, ou em descompensação, o meu pai era formado em filologia clássica e histórico-filosóficas. E, portanto, particularmente o que mais me deixava era a questão da filologia clássica. E nós, muitas vezes à mesa, eu punha-lhe uma questão qualquer sobre um vocábulo português, e o meu pai dizia, bem, a origem disso é latim, e a declinação da palavra na origem é esta, assim, assim. E se houvesse uma dúvida, levantava-se e ia buscar um dicionário de latim, ou de grego, porque muitos vocábulos nossos também têm origem grego, para me dizer como é que se dizia. E nunca me obrigou Nunca me obrigou a coisa nenhuma O que é que eu, com a cabeça fresquinha E arquivando isso tudo E o exemplo obviamente
Jorge Correia
01:02:05
Júlio, qual é a pergunta Que o Júlio gostava Que alguma vez lhe fizessem e que nunca ninguém Se lembrou dizer, isto aqui é que era mesmo Uma coisa boa para perguntar ao Júlio
Júlio Isidro
01:02:16
Isso por acaso É curioso, tem-me feito Várias perguntas Mas olha, até de uma maneira enquadrada no tempo em que estamos a viver e eu penso que ainda ainda e só eu direi que nos sopros finais de um vendaval de maldicência que foi criado em torno do vestido da mulher do Presidente da República eu digo da mulher do Presidente da República porque a senhora não quis ser e muito bem Primeira-Dama eu comecei a pensar no que tem sido a minha vida e de que maneira é que eu não me iria sujeitar a esse tipo de coisas. Portanto, a primeira é que se sou conhecido, se tenho alguma notoriedade é só como consequência natural do meu trabalho. Não é a minha causa, é um efeito apenas. E depois porque perante o mundo em que nós estamos a viver de enorme ostentação, e não é o caso da senhora, não é ostentação nenhuma, não é nenhuma ostentação. O mundo em que estamos a viver, em que as pessoas se qualificam por o ter, e eu gosto muito mais do ser, estava ali deitado numa das minhas brevíssimas insónias, a pensar o seguinte, eu corto o cabelo no senhor morgado, em Algês, e pago 13 euros por cortar o cabelo. Em frente tem um restaurantezinho, do Sr. Joaquim, onde eu vou comer, gasto 15 euros. Arranjo os pés na Dona Mila, porque tenho problemas de coluna e tenho dificuldade em estar a arranjar os pés, é a única coisa, e a Dona Mila leva-me 20 euros por arranjar os pés. Levo a minha roupa ao senhor Adolfo Para me ajustar a roupa Porque não gosto de estar fora De fatos que eu acho que têm qualidade Cá em casa, por natureza Temos muitas refeições Em que eu pergunto à minha mulher Então o que é o Porque tem esse enorme defeito, não sei cozinhar O que é o nosso chantarinho E a minha mulher diz que é redon Ou seja, restos de ontem E nós comemos o redon Não é nem miserabilismo nem exemplo de vida austera e espartana, nada disso. É a ideia de que tudo aquilo que eu esbanjar está a fazer falta a outros. E, portanto, quer dizer, se me perguntasse a pergunta que nunca ninguém me fez, eu dei-lhe agora uma resposta. Como é que é o seu conceito de felicidade? É entre ter e ser? Eu já lhe respondi, é entre ser.
Jorge Correia
01:05:17
O Júlio é feliz?
Júlio Isidro
01:05:20
Não Não Eu estou feliz de vez em quando Aliás, a felicidade, como se sabe É um ponto de passagem São intervalos na vida das pessoas Às vezes os intervalos são maiores Às vezes são menores Se forem maiores, o otimista tem a ideia De que é um fulano feliz Se forem menores É evidente que é um pessimista Eu sou, quando muito Um pacifista indignado, o que já me explicou o que é que se passa pela minha cabeça é evidente que eu não posso dizer assim eu sou feliz porque vão-me pôr numa bolha o que é que me interessa o genocídio de Gaza o que é que eu tenho a ver com mais de meio milhão de soldados de um lado e do outro que já morreram na Ucrânia e na Rússia o que é que eu tenho a ver com os milhões de bebés que morrem em África todos os anos porque não tem uma gota de água e nem uma gota, nem um pedacinho de comida. Não. Não me venham depois com a demagogia. O Júlio está a dizer isto. Então, dê o que tiverem. Não, não. É que não são aqueles que vivem razoavelmente bem e eu considero que quando chego a esta fase da vida estou a viver razoavelmente bem e portanto não tenho nenhuma razão de queixa, não tenho que pedir nada mais às forças divinas deem-me mais ou ir rezar para ter um automóvel que não tenho, o automóvel da minha mulher tem 11 anos, o meu tem 5 e há de chegar à idade dela com certeza porque eu penso que é muito mais seria muito mais fácil para as pessoas serem capazes de repartir população mundial e que tem 95% da riqueza mundial
Jorge Correia
01:07:18
Há um egoísmo portanto aqui à volta
Júlio Isidro
01:07:21
Olha eu penso que é um egoísmo e é uma outra coisa que é a ideia de algumas pessoas de que a circunstância de terem o que têm lhes vai prolongar uma coisa que é inevitável que é a vida face ao conceito da morte portanto quer dizer para que ter tanto para deixar aos outros, então os outros que nós criámos, os nossos filhos, temos que lhes dar as ferramentas para eles também serem capazes de fazer alguma coisa. Agora, imaginar pessoas com tanto dinheiro, isto não tem nada a ver com política, isto tem a ver, sabe com o quê? Com a doutrina social da Igreja. E não está a falar com um católico praticante, sou um católico não praticante, mas que tenho tempo para pensar nestas coisas eu acho que é absolutamente desnecessário ter demais ter demais, quer dizer e portanto as pessoas encaminharem-se para o final dos seus dias eu tenho este mundo e o outro não tenham, não tenham quer dizer, vou dizer, bem há poucos dias li uma frase da Dama de Ferro nós estamos a falar agora de um dirigente político de esquerda ou… Margaret Atchner. Pois, sei lá, exatamente. Ela dizia que um Estado nunca pode progredir se exigir em termos de impostos aos seus cidadãos mais do que aquilo que eles podem dar. Esta é uma frase dela.
Jorge Correia
01:09:07
Suspeito que é o que está acontecendo.
Júlio Isidro
01:09:09
Uma mulher de direita. E dizendo outra coisa, muito interessante, dizendo assim, o Estado não tem dinheiro. O dinheiro é vosso. O Estado tem que gerir o dinheiro que vocês lhe dão. Isto é um… E repare, é um conceito de uma mulher que foi tida como, digamos, para alguns, um monstro de reacionarismo. Estes conceitos não sei se são. Não sei se são. Acho que não são com certeza. E portanto, é isto que eu penso.
Jorge Correia
01:09:39
Júlio, pensa muito na questão da finitude?
Júlio Isidro
01:09:44
Olha… Ou como é que olha para isso? Como é que se olha? Quer dizer, olha, nós estamos a fazer uma entrevista que daqui a umas semanas estará no ar e portanto já estamos praticamente na missa do 30º dia do Mário Zambuchal. Eu ontem ouvi o dizer de viva voz uma coisa extraordinária. A nossa vida é um trabalho a recibo verde. Eu acho que é uma definição maravilhosa.
Jorge Correia
01:10:14
É um trabalho precário.
Júlio Isidro
01:10:15
É uma passagem precária, não é? Que temos dificuldade em perceber porque… O Sebastião da Gama disse-se com razão num poema lindíssimo que eu gosto de reler. dizia com razão que no dia em que eu nasci ficou tudo como estava. Não é? E no dia em que nós partimos, pode haver a cerimónia e tal, mas depois fica tudo como estava. As árvores ficam no sítio e os lagos também. Portanto, este poema dele diz tudo, mas já que estou a citar poetas, olha, o Zé Gomes Ferreira dizia que tem um poema dele também muito bonito, viver sempre também cansa. E portanto gostava de desaparecer, fazer umas pausas e depois recomeçar outra vez. enfim, para os crentes, muito crentes provavelmente haverá depois da pausa um outro retorno eu sobre isso tenho alguma dúvida porque isto é uma matéria nós somos biodegradáveis portanto não acredito não acredito que seja isso muito embora tenha convicções religiosas Então e qual é o sentido da vida, Julio? Olha, o sentido da vida uma história de um falando que não era crente e que foi a um templo budista e foi falar com um iminente budista que estava sentado no trono e disse, olha, tenho andado aqui com uma dúvida essencial o que é o sentido da vida? E o próprio budista disse, eu não sei o que é o sentido da vida. E o homem respondeu, eu tenho ideia que o sentido da vida é um rio a correr para o mar. Ele disse, olha, boa ideia, vamos ficar com essa. Que é o que temos? É o que se pode ter. Estou aqui num sorrilho de citações, mas olha, o Groucho Marx estava hospitalizado. O Groucho Marx tinha um senso de humor absolutamente extraordinário. Eu leio insistentemente e obsessivamente. E o Groucho Marx não estava a tomar os medicamentos. E a enfermeira foi ter com ele, então está aqui os medicamentos na mesa de cabeceira. Não tomou os medicamentos. Se não tomar os medicamentos, se eu morro Morrer, isso era a última coisa que eu fazia na vida E fica logo resolvido
Jorge Correia
01:13:00
No fundo o Júlio comunica para ser ouvido ou para ser amado?
Júlio Isidro
01:13:09
Olha, eu acho que uma coisa e a outra coincidem Se nos ouvem é porque gostam Gostam de nós se ninguém ouve para construir imagens de ódio. O discurso do ódio não entra para os ouvidos. Deve entrar pela pele, por outro sítio qualquer, mas não entra para os ouvidos. E muito menos entra pela capacidade que nós temos de pensar. Portanto, quer dizer, é evidente que aquilo que eu digo, e porque é normalmente consensual, e porque é normalmente harmonioso, faz com que as pessoas gostem de mim. Se me perguntar se eu gosto de ser amado, obcecadamente.
Jorge Correia
01:14:02
Há uma frase para nós escrevermos, para nos lembrarmos quem é Julizida.
Júlio Isidro
01:14:10
Quem foi? Quem foi, mas agora pensamos a escrever o presente. Não, não, não. Quem é? Eu acho que sou um amigo e quem vier sempre
Jorge Correia
01:14:23
traz outro amigo também. Perto do fim desta conversa pedia Júlio Isidro uma frase, uma só, aquela com que quer ser lembrado. E ele, provocador, disse-me quem foi? Como quem diz, quem foi Júlio Isidro? Depois corrigiu-se devagar, como quem muda de ideia no ar. Disse sou um amigo e quem vier traz sempre outro amigo também. Fiquei com esta frase e não a consigo largar. Não porque ela seja bonita, claro que a frase é bonita, mas porque diz algo sobre comunicação que nenhum manual diz, que a voz mais duradoura não é a que fala mais alto, nem é a que fala para mais pessoas, é aquela que faz com que cada ouvinte sinta que a conversa foi feita apenas para ele. Que havia ali alguém disponível, verdadeiramente disponível para o encontro. Júlio Isidro passou 100 mil horas com o microfone à frente e a única coisa que ficou foi esta, a ideia de que não estava a transmitir para uma audiência, estava a falar com um amigo e que esse amigo trazia sempre outro. Até à próxima semana.
