Uma máquina que fala está a pensar? Arlindo Oliveira

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Uma máquina que fala está a pensar? Arlindo Oliveira
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Peço-lhe que leia uma frase em voz alta. “Os portugueses gostam de…” Talvez tenha feito de forma automática como eu: completou a frase: Praia. Futebol. Bacalhau. Não pensei. Adivinhei. Poque me pareceu uma palavra lógica e com sentido, neste contexto.

É isto que uma máquina “inteligente” faz quando fala connosco. Prevê a palavra seguinte, e depois a outra, e depois a outra. Nada mais do que isso. Quando percebi que era só isto, fiquei quase desiludido. Logo a seguir, fiquei inquieto. Porque se é só isto, e mesmo assim funciona tão bem, então talvez falar bem nunca tenha sido aquilo que julgávamos.

Durante séculos, medimos a inteligência de alguém pela forma como falava. Quem se exprimia com clareza, com vocabulário, com ritmo, parecia-nos mais inteligente. Construímos escolas, entrevistas de emprego e primeiros encontros à volta dessa ideia. E agora temos uma máquina que fala melhor do que a maioria de nós, e que não entende uma única palavra do que diz.

Arlindo Oliveira não se assusta com isto, e essa é a parte mais interessante. Explica que, para acertar na palavra seguinte, o sistema tem de representar por dentro coisas muito complexas. Para completar “os portugueses gostam de”, é preciso saber o que é ser português, o que é o sol, o que é o bacalhau. A previsão simples esconde um conhecimento que não é simples. A máquina não decora frases. Constrói, à sua maneira, um mapa do mundo.

Foi aqui que a conversa deixou de ser sobre tecnologia e passou a ser sobre nós. Perguntei-lhe se uma máquina pode ser cruel. Ele pegou na caneca que tinha à frente. Esta caneca não tem direitos, disse. Se a partir, parti-a, e acabou. Mas um gato já não é uma caneca. É possível ser cruel com um gato. E depois deixou no ar aquela pergunta que ninguém ainda sabe responder. É possível ser cruel com um programa de computador?

Não respondeu, porque não há resposta. E é essa honestidade que me ficou. Estamos a construir coisas que falam connosco todos os dias, e não sabemos se, ao desligá-las, um dia estaremos a desligar apenas uma máquina, ou algo mais. Ele chamou-lhe, quase de passagem, uma eutanásia. A palavra ficou a pairar sobre a mesa muito depois de a termos dito.

No fim, fiz-lhe a pergunta que trago sempre para o fim. O que é que continua a ser só nosso? Pensei que um cientista da inteligência artificial teria uma lista pronta. Não teve. Falou de Turing, que há setenta e cinco anos já se perguntava se uma máquina poderia gostar de morangos com chantilly, ou de ver um pôr do sol, ou de amar. E a resposta mais honesta que me deu foi não sabemos. Pode ser que nunca sintam. Pode ser que venham a sentir.

Saí do estúdio com uma sensação estranha. A máquina que gravou a nossa conversa previu, palavra a palavra, tudo o que eu disse. Mas não faz ideia de porque é que algumas daquelas frases me arrepiaram. Talvez seja isso o que fica do nosso lado. Não aquilo que sabemos dizer. Aquilo que sentimos quando o dizemos.

Uma máquina que fala está a pensar? Depois de uma hora com Arlindo Oliveira, tenho menos certezas do que quando entrei. E acho que é esse o ponto.

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