Rir é a única fuga ao horror? Filipe Homem Fonseca

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Rir é a única fuga ao horror? Filipe Homem Fonseca
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No Bairro Alto do início dos anos noventa, toda a gente tinha um projeto. Tinha-o num verão e continuava a tê-lo dois anos depois. Cinco anos mais tarde ainda o tinha, intacto, por começar. Filipe Homem Fonseca lembra-se disso quando confessa que não gosta da palavra. Admite que é um preconceito, e que nada há de errado com ela. Mas ficou-lhe colada a uma geração que a usava para adiar, e é difícil devolver a inocência a uma palavra depois de a ver servir de desculpa tantas noites seguidas.

Começo por aqui porque a história é pequena e diz quase tudo. As palavras raramente morrem de um dia para o outro. Gastam-se. Passam por muitas bocas, servem muitos fins, e um dia percebemos que já não comprometem ninguém. “Projeto” continua no dicionário. Quem a diz é que deixou de se sentir obrigado a fazer alguma coisa.

Para o homem que escreveu frases para a Herman Enciclopédia, a Contra-Informação e a Conversa da Treta, a perda de palavras está longe de ser um lamento de gramático. “A partir do momento em que perdes palavras, perdes significado”, diz. E com o significado vai-se uma parte do que conseguimos ver. Conta, de memória, o caso de uma língua indígena do Brasil sem tempos verbais, em que para falar de ontem se muda o sujeito: quem esteve aqui ontem é outra pessoa, e quem vai acordar cedo amanhã também. Ele próprio não garante os pormenores, e a antropologia terá mais a dizer. A ideia, essa, aguenta-se sozinha. Uma língua em que o eu de amanhã é outro obriga a pensar de outra maneira a culpa, a promessa, a responsabilidade. A gramática também decide aquilo que conseguimos dizer sobre o mundo.

Pior do que perder palavras, insiste, é ficar com elas vazias. Orwell imaginou um ministério que escrevia na fachada que a guerra é a paz, e chamou novilíngua ao método. Hoje dispensamos o ministério. Basta a repetição. “Uma mentira repetida muitas vezes acaba por ter aquele peso da verdade”, diz Filipe, e acrescenta, quase a rir, que é vencer pelo cansaço. A palavra mantém a forma e muda de recheio. Pode-se dizer exatamente o contrário com as mesmas sílabas, e quem ouve, distraído, aplaude as sílabas.

Há um exemplo que ele dá sem querer, a meio da conversa, quando fala de comunidade. A palavra vinha da aldeia, do comum, da interajuda. Hoje designa sobretudo quem nos segue numa rede social. O uso novo tem a sua razão de ser. Mas a palavra veio de um sítio onde pesava mais, e quem a usa agora nem sempre sabe o que deixou para trás. Quando lhe peço que defina liberdade, recorre a uma canção de Sérgio Godinho: a paz, o pão, habitação, saúde, educação. Chama-lhes mínimos olímpicos. É uma definição de quem desconfia das palavras grandes e as prefere amarradas a coisas que se podem contar.

O humor entra exatamente aqui, como antídoto. Filipe tem uma imagem que me acompanhou durante dias. No mostrador do relógio, a comédia está nos dois minutos antes da meia-noite e o horror nos dois minutos depois. Dando a volta inteira, ficam longe. Na verdade estão lado a lado, porque são as duas reações que não se conseguem disfarçar. Ou se ri, ou não se ri. Ou se apanha o susto, ou não. Pode haver arrependimento a seguir, mas o riso já saiu. Numa época em que tanta comunicação é encenada, a gargalhada continua a ser uma das poucas coisas que não se fingem bem.

E é por isso que o riso tira força a quem se esconde atrás de palavras solenes. Imagine-se um salão nobre, alguém ao palanque a dizer um disparate com grande eloquência, toda a gente a acenar. Basta uma gargalhada ao fundo para o disparate perder o peso. O respeitinho, como ele diz, é muito bonito, até alguém se rir dele.

Este outono, os Cebola Mol, a dupla que Filipe forma com Eduardo Madeira, saíram do cartaz de um festival de humor em Lisboa onde Jerry Seinfeld era cabeça de cartaz. Anunciaram-no com uma imagem e quase sem palavras. Na conversa, perguntei-lhe se isso não chocava com a liberdade de que fala. A resposta veio com uma imagem de cinema. Cancelar seria pôr-se à frente do ecrã para que ninguém visse o filme. Ele fez outra coisa: levantou-se e saiu da sala. Há quem ache que a diferença é menor do que parece, e que ficar e falar lá dentro teria tido mais efeito. Ele responde que está a dizê-lo aqui. A discussão é legítima e não se resolve numa crónica. O que interessa a este texto é outra coisa: um homem que vive de palavras escolheu comunicar a decisão mais séria do ano com um gesto, e só depois a explicou por extenso.

Ao fim de quarenta e sete minutos, sem que ninguém lho pedisse, falou dos recortes que se iriam fazer daquela mesma conversa. “Uma contradição é um prato que é salgado e é doce”, disse. “Se as pessoas só têm acesso ao sal, ficam a pensar que a mensagem é outra.” Tinha razão, e esta crónica também é um prato servido às colheres. Escolhi o sal e o doce que me pareceram fiéis. Outra pessoa escolheria outros.

Já no fim, falou de futebol, ele que nunca gostou de futebol e passou doze anos a escrever sobre ele. Disse que tudo virou futebol, que tudo tem uma cor, azul, verde ou vermelho, e que se discute o essencial como se discute um penálti. Talvez seja esse o destino das palavras gastas: vestir camisola. Liberdade, comunidade, diálogo. Ouve-se a palavra e já se sabe de que lado joga quem a diz, antes de se saber o que quer dizer.

Há uma palavra de que ele gosta só pelo som. Bosque. Diz que lhe sabe bem na boca. Ninguém lhe vestiu camisola. Ainda.

A conversa completa com Filipe Homem Fonseca está disponível no Pergunta Simples.

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