Ainda sabemos ouvir alguém? Patrícia Câmara

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Ainda sabemos ouvir alguém? Patrícia Câmara
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Chegamos a quase tudo à espera de uma resposta. Carregamos num botão e o carro vem ter connosco. Escrevemos uma dúvida e o ecrã devolve três parágrafos seguros. Entramos no médico já a contar com o nome da doença e a caixa dos comprimidos. Habituámo-nos a que o mundo responda depressa. Por isso é tão desconcertante encontrar alguém cuja profissão é, precisamente, recusar-se a dar a resposta.

Patrícia Câmara é psicanalista. Passa os dias sentada atrás de pessoas que se deitam num divã e, muitas vezes, nem sabem bem o que ali foram fazer. Quando lhe perguntam o que procura, não promete cura rápida. Avisa, aliás, do contrário. A ideia de que existe nalgum lado a solução mágica que nos diz como viver parece-lhe perigosa. Em vez de fechar o problema, prefere abrir o que chama uma paisagem, um horizonte que não se encerra. É uma heresia pequena, mas incómoda, num tempo que mede tudo pela rapidez com que se resolve.

O trabalho dela começa onde quase todos desistimos. Ouvir. Fala de um ouvir que acolhe em vez de corrigir, que não se precipita para tomar a vez de falar. Ouvir assim é raro porque é exigente. Obriga a aguentar o silêncio do outro, a resistir à vontade de aconselhar, de despachar. E obriga a escutar o que não está a ser dito, porque é aí, no que fica por dizer, que mora quase tudo.

Há uma parte dessa conversa que o corpo faz por nós. Quando as palavras não chegam, o corpo fala. Patrícia trabalha na tradição da psicossomática, e tem uma fórmula que fica a ecoar: quando a mente sofre, o corpo é que paga. Mais do que isso, lembra que a mente já é corpo, que não há fronteira limpa entre a dor da alma e a dor da barriga antes de um exame. Vivemos num tempo que fragmentou o ser humano em pedaços cada vez mais pequenos, do órgão à função do órgão, e perdeu pelo caminho a ideia de conjunto. A pergunta que ela devolve é inquietante. Quem é que, hoje, olha para a pessoa inteira?

Esta dificuldade de ouvir não mora só em cada um de nós, no seu canto. Está também no mundo lá fora. Vivemos rodeados de barulho, de opiniões aos gritos, de campos em guerra que trocaram a conversa pela disputa. É mais fácil ouvir quem fala aos berros, nota ela, mas não se ouve nada quando alguém está aos berros. O paradoxo é cruel. Quanto mais alto se grita, menos se percebe. E o ruído não fica à porta. Entra, instala-se, e a certa altura deixamos de ser capazes de ouvir os nossos próprios pensamentos. A polarização, vista assim, diz menos sobre as nossas ideias e mais sobre a nossa escuta.

Contra isto, Patrícia não propõe uma técnica nova nem uma aplicação. Propõe travar. Parar o impulso de ter uma opinião imediata sobre tudo, voltar a respeitar aquilo que não se entende à primeira, resistir à ideia preguiçosa de que a culpa de não percebermos é sempre de quem explicou mal. A complexidade passou a ser vista como um inimigo, diz, e andamos de facto a confundir clareza com simplismo, a querer que o difícil caiba em quatro frases. Aprender a pensar, nesta leitura, é também um gesto de resistência. E aprender a pensar começa, mais uma vez, por aprender a ouvir.

Ouvir a sério implica ainda aceitar o desencontro. Sem desencontro não há encontro nenhum, diz ela, só há absolutismo. Quem só procura confirmação não quer o outro, quer um espelho. O encontro verdadeiro pede que se suporte a estranheza de quem pensa de outra maneira, e é essa fricção que constrói qualquer coisa maior do que já trazíamos.

Por baixo de tudo isto há uma ideia que atravessa a conversa inteira e que vale por si. A de que ser ouvido e ser reconhecido são quase a mesma coisa. Patrícia recupera uma resposta do seu mestre, António Coimbra de Matos, a quem alguém, um dia, perguntou o que era o amor. A resposta tinha três palavras. Amor é reconhecimento. Ser bem amado, explica, é sentir que alguém nos encontrou cá dentro. E não é preciso um divã para isso. Acontece sempre que estamos com uma pessoa que nos ouve a sério, e que por momentos nos devolve a sensação de existirmos por inteiro.

Talvez seja esse o verdadeiro assunto, por trás da psicanálise, da dor e do corpo. A nossa fome antiga de companhia. Nascemos e separamo-nos, e passamos o resto da vida a gerir essa solidão original. O psicanalista dela, já falecido, dizia uma coisa que repete com um sorriso: a ideia de que nascemos aos nove meses é um disparate, nós passamos a vida inteira a nascer. Vamos nascendo em cada encontro que nos reconhece, e morrendo um pouco em cada vez que gritamos sem ninguém do outro lado.

Fica a suspeita de que a epidemia silenciosa do nosso tempo não é só a ansiedade ou o cansaço. É a surdez. Falamos mais do que nunca, com mais gente, por mais canais, e nunca estivemos tão convencidos de que ninguém nos escuta. Se ela tiver razão, a saída é mais estranha do que parece. Passa por voltar a fazer aquilo que soa à coisa mais fácil do mundo e é a mais difícil. Calar, por um instante, e ouvir o que o outro, ou o nosso próprio corpo, anda a tentar dizer.

Fica a pergunta a ecoar, para lá do estúdio. Numa vida inteira passada a responder, quando foi a última vez que ouvimos mesmo alguém?

A conversa completa com Patrícia Câmara está disponível no Pergunta Simples.

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