No Bairro Alto do início dos anos noventa, toda a gente tinha um projeto. Tinha-o num verão e continuava a tê-lo dois anos depois. Cinco anos mais tarde ainda o tinha, intacto, por começar. Filipe Homem Fonseca lembra-se disso quando confessa que não gosta da palavra. Admite que é um preconceito, e que nada há de errado com ela. Mas ficou-lhe colada a uma geração que a usava para adiar, e é difícil devolver a inocência a uma palavra depois de a ver servir de desculpa tantas noites seguidas.
Começo por aqui porque a história é pequena e diz quase tudo. As palavras raramente morrem de um dia para o outro. Gastam-se. Passam por muitas bocas, servem muitos fins, e um dia percebemos que já não comprometem ninguém. “Projeto” continua no dicionário. Quem a diz é que deixou de se sentir obrigado a fazer alguma coisa.
Para o homem que escreveu frases para a Herman Enciclopédia, a Contra-Informação e a Conversa da Treta, a perda de palavras está longe de ser um lamento de gramático. “A partir do momento em que perdes palavras, perdes significado”, diz. E com o significado vai-se uma parte do que conseguimos ver. Conta, de memória, o caso de uma língua indígena do Brasil sem tempos verbais, em que para falar de ontem se muda o sujeito: quem esteve aqui ontem é outra pessoa, e quem vai acordar cedo amanhã também. Ele próprio não garante os pormenores, e a antropologia terá mais a dizer. A ideia, essa, aguenta-se sozinha. Uma língua em que o eu de amanhã é outro obriga a pensar de outra maneira a culpa, a promessa, a responsabilidade. A gramática também decide aquilo que conseguimos dizer sobre o mundo.
Pior do que perder palavras, insiste, é ficar com elas vazias. Orwell imaginou um ministério que escrevia na fachada que a guerra é a paz, e chamou novilíngua ao método. Hoje dispensamos o ministério. Basta a repetição. “Uma mentira repetida muitas vezes acaba por ter aquele peso da verdade”, diz Filipe, e acrescenta, quase a rir, que é vencer pelo cansaço. A palavra mantém a forma e muda de recheio. Pode-se dizer exatamente o contrário com as mesmas sílabas, e quem ouve, distraído, aplaude as sílabas.
Há um exemplo que ele dá sem querer, a meio da conversa, quando fala de comunidade. A palavra vinha da aldeia, do comum, da interajuda. Hoje designa sobretudo quem nos segue numa rede social. O uso novo tem a sua razão de ser. Mas a palavra veio de um sítio onde pesava mais, e quem a usa agora nem sempre sabe o que deixou para trás. Quando lhe peço que defina liberdade, recorre a uma canção de Sérgio Godinho: a paz, o pão, habitação, saúde, educação. Chama-lhes mínimos olímpicos. É uma definição de quem desconfia das palavras grandes e as prefere amarradas a coisas que se podem contar.
O humor entra exatamente aqui, como antídoto. Filipe tem uma imagem que me acompanhou durante dias. No mostrador do relógio, a comédia está nos dois minutos antes da meia-noite e o horror nos dois minutos depois. Dando a volta inteira, ficam longe. Na verdade estão lado a lado, porque são as duas reações que não se conseguem disfarçar. Ou se ri, ou não se ri. Ou se apanha o susto, ou não. Pode haver arrependimento a seguir, mas o riso já saiu. Numa época em que tanta comunicação é encenada, a gargalhada continua a ser uma das poucas coisas que não se fingem bem.
E é por isso que o riso tira força a quem se esconde atrás de palavras solenes. Imagine-se um salão nobre, alguém ao palanque a dizer um disparate com grande eloquência, toda a gente a acenar. Basta uma gargalhada ao fundo para o disparate perder o peso. O respeitinho, como ele diz, é muito bonito, até alguém se rir dele.
Este outono, os Cebola Mol, a dupla que Filipe forma com Eduardo Madeira, saíram do cartaz de um festival de humor em Lisboa onde Jerry Seinfeld era cabeça de cartaz. Anunciaram-no com uma imagem e quase sem palavras. Na conversa, perguntei-lhe se isso não chocava com a liberdade de que fala. A resposta veio com uma imagem de cinema. Cancelar seria pôr-se à frente do ecrã para que ninguém visse o filme. Ele fez outra coisa: levantou-se e saiu da sala. Há quem ache que a diferença é menor do que parece, e que ficar e falar lá dentro teria tido mais efeito. Ele responde que está a dizê-lo aqui. A discussão é legítima e não se resolve numa crónica. O que interessa a este texto é outra coisa: um homem que vive de palavras escolheu comunicar a decisão mais séria do ano com um gesto, e só depois a explicou por extenso.
Ao fim de quarenta e sete minutos, sem que ninguém lho pedisse, falou dos recortes que se iriam fazer daquela mesma conversa. “Uma contradição é um prato que é salgado e é doce”, disse. “Se as pessoas só têm acesso ao sal, ficam a pensar que a mensagem é outra.” Tinha razão, e esta crónica também é um prato servido às colheres. Escolhi o sal e o doce que me pareceram fiéis. Outra pessoa escolheria outros.
Já no fim, falou de futebol, ele que nunca gostou de futebol e passou doze anos a escrever sobre ele. Disse que tudo virou futebol, que tudo tem uma cor, azul, verde ou vermelho, e que se discute o essencial como se discute um penálti. Talvez seja esse o destino das palavras gastas: vestir camisola. Liberdade, comunidade, diálogo. Ouve-se a palavra e já se sabe de que lado joga quem a diz, antes de se saber o que quer dizer.
Há uma palavra de que ele gosta só pelo som. Bosque. Diz que lhe sabe bem na boca. Ninguém lhe vestiu camisola. Ainda.
A conversa completa com Filipe Homem Fonseca está disponível no Pergunta Simples.
Filipe Homem Fonsaca
00:00
coisas que me dão vontade de rir às vezes é a mesma coisa que me dá hoje vontade que me dá raiva amanhã também me pode dar vontade de rir depende também da maneira como tu acordas e como o humor também é uma forma de resistência a maneira como tu te sentes nesse dia a virtude de qualquer coisa também te leva a encarar as coisas com horror ou com espanto ou com uma gargalhada que em si também é uma forma de desafio perante o horror das coisas portanto acho que o próprio humor também é um processo no sentido da maneira como nós o encaramos não é? é uma coisa muito íntima e ao mesmo tempo é uma coisa muito pouco ou nada disfarçável neste sentido que eu costumo dizer que por exemplo a comédia e o horror são gêmeos porque há aquela coisa de dizer ah não, uma coisa está num oposto uma coisa está nos antípodos da outra e não é bem assim costumo dizer que a comédia está imagina nos dois minutos para a meia-noite e o horror está nos dois minutos depois da meia-noite portanto se fizeres a volta toda ao relógio estão de facto longe, mas eles estão ali mesmo um ao lado do outro e porquê? Porque são duas coisas que não dá para a reação que tu tens é uma piada ou um susto não é disfarçável ou te rires ou não rires e ou apanhas um susto ou não apanhas um susto portanto há um lado muito imediato de reação àquilo que é mostrado, dito
Jorge Correia
01:25
Pergunta simples um programa sobre comunicação para quem quer boas respostas. Há sempre alguém que se ri num funeral. Não de propósito, não por maldade.
01:39
Ri-se porque o corpo decide antes dele. Depois vem a vergonha. Eu não me devia rir disto, mas já se riu.
01:46
E agora? Filipe Homem Fonseca escreve o humor há quase 30 anos. Tem uma maneira de explicar isto que me ficou.
01:53
Pense num relógio. A comédia está nos dois minutos antes da meia-noite e o horror nos dois minutos depois. Dando volta inteira ao mostrador, eles ficam muito longe um do outro, o horror e a comédia, mas na verdade estão praticamente lado a lado.
02:09
O riso e o susto têm uma coisa em comum. Não se disfarçam, é impossível. Ou se ri ou não se ri, ou se apanha o susto ou não.
02:18
Podemos arrepender-nos a seguir, fingir que não conseguimos. É talvez a reação mais honesta que temos, mais honesta do que o aplauso que se dá por educação. E é também, diz ele, Uma forma de resistência.
02:29
Rir perante o horror e desafiá-lo. Por isso, o riso incomoda quem manda. Imagine um salão nobre, alguém num palanque, a dizer um disparate com muita eloquência, muito solene e toda a gente acena e de repente ao fundo uma gargalhada.
02:46
O disparate perde toda a força. É a tal coisa do respeitinho, diz ele. O respeitinho é muito bonito.
02:52
Alguém tem de se rir para desafiar esse respeitinho. Uma gargalhada no sítio certo desmonta o que 100 páginas não desmontariam em 100 anos. E há uma última coisa que o riso faz, talvez a mais difícil, o briga a ouvir até ao fim.
03:08
Uma piada cortada a meio não tem graça nenhuma e um raciocínio cortado a meio pode dizer o contrário do que aquilo que queria dizer. Ele compara uma contradição a um prato que é salgado e doce. Se as pessoas só têm acesso ao sal, ficam a pensar que a mensagem é outra, que a mensagem é salgada e não agredou-se.
03:25
Vivemos de pratos servidos às colheres, 10 segundos aqui, uma frase ali, e saímos da mesa convencidos de que o que provamos foi uma refeição inteira. Volto ao funeral, àquela pessoa que se riu sem querer, talvez não tenha faltado ao respeito a ninguém, talvez tenha sido a única a reagir com verdade. No relógio do Filipe, faltam 2 minutos para a meia-noite, a hora da comédia.
03:53
Viva Filipe, homem fonseca, Tu és um homem que vive de palavras, és argumentista, posso definir-te assim? Escritora? Poeta? Tu juntas isso tudo.
Filipe Homem Fonsaca
04:02
Poeta? Poeta não sei.
Jorge Correia
04:05
Não, não te sentes como poeta?
Filipe Homem Fonsaca
04:06
Não, já escrevi livros de poesia, mas não sei. Eu também não sei o que é que é isso ser poeta, por isso não sei.
Jorge Correia
04:11
Não há um momento em que tu dizes, olha, agora estou aqui a escrever poesia, agora este é que é o momento em que eu me sinto um poeta?
Filipe Homem Fonsaca
04:18
Não.
Jorge Correia
04:19
Não?
Filipe Homem Fonsaca
04:20
Não. Não ao contrário de todas as outras coisas que escrevo. que são estruturadas acho que a maneira mais simples de dizer isso é qualquer outra coisa que eu escreva que não poesia nasce de uma intenção e na poesia parece que é a intenção que me encontra a partir de certa altura na escrita narrativa prosa seja para ser lida, seja para ser dita há um momento em que as personagens tomam conta e já, entre aspas, já não serei eu a falar já são as personagens Isso é quando de facto o projeto começa a ganhar O trabalho começa a ganhar Não gosto nada da palavra projeto Começa a ganhar corpo
Jorge Correia
04:59
Não gostas da palavra projeto? Não,
Filipe Homem Fonsaca
05:01
porque parece que é uma coisa que está sempre Isto é a herança do início dos anos 90 Em que no bairro toda a gente tinha projetos E dois anos depois continuavam com o projeto E três anos depois continuavam com o projeto E cinco anos depois continuavam com o projeto Portanto o projeto tem aquele lado para mim De sempre de coisa inacabada Ou nem sequer iniciada
Jorge Correia
05:16
E suava a falso? Suava a falso? Era uma espécie de batota?
Filipe Homem Fonsaca
05:21
Não sei se suava a falso Ou se era só chato, triste Porque as coisas acabavam por não ser iniciadas Mas é preconceito Básico meu Não há nada errado com a palavra projeto por si
Jorge Correia
05:32
Mas performance é projeto ou processo Porque eu também já te ouvi falar do processo E aí tu já…
Filipe Homem Fonsaca
05:37
O processo implica… Lá está, isto nem sequer Isto não é do dicionário, não estou aqui a fazer distinções De significado Significante Mas na minha cabeça funciona um bocado assim Ou seja, o processo é uma coisa que já está iniciada e estamos a fazê-lo e o projeto, para mim, novamente reitero tem esse lado de… há de ser feito parece que é um permanente adiar das coisas mas esse é, como digo, é só um preconceito meu
Jorge Correia
06:02
É um projeto, é uma coisa grande olha, tu és um homem das palavras e a primeira pergunta que me apareceu na minha cabeça lá está, mesmo antes de… pensei, vamos ter uma conversa o que é que me apetece perguntar-lhe? A primeira tem muito a ver exatamente com a questão das palavras troquei com o Marco umas ideias sobre isso, que é estamos a perder palavras.
Filipe Homem Fonsaca
06:23
Sim, completamente. Mais importante e vai de mãos dadas, a partir do momento em que perdes palavras, perdes significado. Perdes os significantes e perdes o significado. E isso faz com que a visão das coisas seja mais estreita, a visão do mundo seja mais estreita.
Jorge Correia
06:43
Porque, lá está, vamos descrever as coisas apenas com um naip mais pequenino.
Filipe Homem Fonsaca
06:48
E as coisas às vezes têm mais Outros nuances, não é? E se perdemos essa distinção E a objetividade de cada uma das palavras Para descrever as coisas Parece que também aquilo que sentimos Aquilo que vemos, aquilo que tentamos descrever Torna-se mais estreito Sem essas palavras Eu dou um exemplo Não sei se é Tupi-Guarari, se é Tupi-Nambá Mas uma É um grupo de tribos Que na sua língua Na sua linguagem não tem Tempos verbais de agora, o que muda é o sujeito portanto, sei lá, dizer eu estou aqui e se quiser dizer eu ontem estive aqui como o tempo verbal não existe o que muda é o eu, é outra palavra portanto já não sou eu, e vão inventar eu não sei a palavra, mas é Zor Zor está aqui, portanto foi alguém que não eu e o amanhã também mudou o sujeito portanto isso muda completamente a tua noção de culpa de responsabilidade, porque não fui eu, ou não vou ser eu não é? Não te deixo estar que amanhã tens de acordar cedo, eu? Não outra pessoa. Portanto, o facto de se perderem palavras e há coisas que só passam a existir a partir do momento em que nós temos uma palavra para essas coisas.
Jorge Correia
08:00
Porque ganhamos consciência dela.
Filipe Homem Fonsaca
08:01
Acho que sim.
Jorge Correia
08:02
É curioso que tu estás a falar disso, da questão das palavras que vão desaparecendo num tempo em que as palavras estão quase a ser usadas para mascarar coisas que estão a acontecer e que nós estamos mesmo a ver.
Filipe Homem Fonsaca
08:12
Isso acho até mais problemático. Não é que desapareçam palavras mas que acaba por desassociar-se o significado original de alguns significantes.
Jorge Correia
08:22
Há uma manipulação no fundo do significado?
Filipe Homem Fonsaca
08:25
Sim, completamente. Completamente as palavras. Aquela coisa do Orwell, de 1974. A guerra e a paz.
Jorge Correia
08:32
A nova língua, portanto, que ele trocava no fundo, não é?
Filipe Homem Fonsaca
08:34
Sim, sim, sim. E se esvaziarmos as palavras do seu significado, depois vale tudo.
Jorge Correia
08:40
No fundo, de uma forma muito prática para todos entendermos, é como se nós estivéssemos aqui os dois a conversar e a dizermos, obviamente isto não é uma conversa não é uma entrevista e não é um podcast vocês não estão a ver bem a coisa
Filipe Homem Fonsaca
08:51
Sim, é a negação de é possível dizendo exatamente a mesma coisa mas importante num significado diferente às palavras, estar a dizer o seu contrário, é esvaziar o significado das coisas
Jorge Correia
09:02
O que é uma coisa que, bom, a minha feliz-me seguramente, quando toda a gente usa pelo contrário, uma palavra muitas e muitas vezes, há bocado de usar esta palavra projeto, essa palavra esvazia-se pode gastar-se?
Filipe Homem Fonsaca
09:15
Não, quer dizer, talvez não creio acho que uma mentira repetida muitas vezes acaba por ter aquele peso da verdade porque é dita tantas vezes
Jorge Correia
09:24
Passamos a acreditar?
Filipe Homem Fonsaca
09:28
Espero que não
Jorge Correia
09:29
Mas é uma lógica de mantra, lá está
Filipe Homem Fonsaca
09:32
É vencer pelo cansaço
Jorge Correia
09:34
Mas nós em parte não fazemos isso também connosco mesmo, quando tentamos autoconvencermos de uma determinada coisa
Filipe Homem Fonsaca
09:41
Essa é a diferença, somos nós para nós não são outros para nós
Jorge Correia
09:44
É mais legítimo ou menos legítimo?
Filipe Homem Fonsaca
09:46
Eu acho que é mais legítimo se formos nós para nós. Nós para nós, não é nós para os outros. A imposição de vontade é sempre complicado.
Jorge Correia
09:53
É mais difícil numa democracia. Tens alguma palavra favorita?
Filipe Homem Fonsaca
09:57
Não sei. Se calhar mais por razões estéticas do que… Há palavras que sabem bem dizer, independentemente do significado, mas tipo bosque. Eu sempre gosto da palavra bosque.
Jorge Correia
10:09
Não sei se em boca?
Filipe Homem Fonsaca
10:11
Sim. Não sei explicar, gosto de dizer bosque. Gosto da maneira como o sabor que isso tem na boca.
10:18
Mas é só lá está. Não é pelo significado. Pelo significado de liberdade.
Jorge Correia
10:24
E essa tem um peso.
Filipe Homem Fonsaca
10:25
Tem. Até ver. Vamos ver o que é que fazem com ela também, não é?
Jorge Correia
10:29
Ainda somos livres?
Filipe Homem Fonsaca
10:30
Não. Não. Não, nunca fomos.
10:33
Pois há gradações de liberdade, não é? Somos mais livres do que éramos antes de 74. Se calhar menos do que éramos antes de, sei lá, 2010.
10:42
2010, 2011, são gradações
Jorge Correia
10:45
E há uma espécie de anestesia que é nós vamos perdendo pedacinhos dessa liberdade sem nos darmos conta de que isso está a acontecer
Filipe Homem Fonsaca
10:51
Eu penso que sim é aquela lógica de se acontece aos outros e não me acontece a mim eu também não preciso é um luxo que eu tenho, é um privilégio que eu tenho de não me chatear com essas coisas
Jorge Correia
11:07
Não quer saber?
Filipe Homem Fonsaca
11:08
Sim, isso acho que é uma perda de liberdade acho que a falta de noção de conjunto, de comunidade é em si uma perda de liberdade.
Jorge Correia
11:18
Usaste a palavra comunidade? Sim. Acho que se tem perdido essa também, não é?
Filipe Homem Fonsaca
11:21
Mudaram-lhe o significado. Agora é redes sociais, não é? É a minha comunidade. Até agora tem esse lado mas vem de algum sítio e tem um peso muito maior de interajuda de coexistência
Jorge Correia
11:34
Da aldeia, do comum, não é? Sim, do comum Mas isso é a tua definição de liberdade inclui o quê?
Filipe Homem Fonsaca
11:47
temos quanto tempo? temos dias eu acho que se pode resumir se é que isto é resumível mas é a paz, o pão, educação, saúde, habitação não há liberdade a sério enquanto não houver liberdade de decidir aquela letra do Sérgio Godinho, ou seja, acho que está aí englobada muita coisa que no fundo corresponderiam a mínimos olímpicos
Jorge Correia
12:13
É aquilo que tu podes fazer de uma forma livre, mas lá está, mas isso implica um bem-estar até económico a capacidade de teres uma casa, teres comida teres educação, enfim, lá está a canção do Sérgio Godinho
Filipe Homem Fonsaca
12:23
Sim, acho que isso é o mínimo olímpico
Jorge Correia
12:26
É percebido-me agora que ao fazer-te a pergunta que é, define-me lá a liberdade em 30 segundos no tempo da telefonia estamos a acelerar o tempo, não é? No fundo estamos a tentar comprimir estes conceitos todos
Filipe Homem Fonsaca
12:37
É um processo, é um processo a liberdade também é um processo
Jorge Correia
12:41
não é estático o que é que faz neste processo o que é que faz com que este processo dinâmico seguramente se comprima ou se expanda
Filipe Homem Fonsaca
12:52
como assim?
Jorge Correia
12:53
enfim, todos conhecemos momentos de expansão 25 de abril de 1974 esse é um momento de expansão há uma quebra e de explosão depois há momentos em que vamos sentindo que vamos perdendo coisas, direitos há coisas que estão a acontecer Há maneira de acelerar esse relógio para o lado de viver bem a vida?
Filipe Homem Fonsaca
13:15
Eu diria que não pelos exemplos históricos. Estavas a falar um bocado do 25 de Abril e todas as revoluções, não é? É o momento em que a coisa explode. Portanto, se calhar não é um processo. Ou seja, o viver a liberdade será um processo. Mas o momento em que ela se retoma, é reclamada por quem tem falta dela, é uma tensão que se acho que era o Zé Mário Branco que tinha aquela coisa que lhe perguntava o que é ser de esquerda e ele falava do momento em que estavas a puxar o arco e naquele momento em que está tudo retesado, os músculos retesados antes da flecha sair ele dizia isso é ser de esquerda pronto, independentemente de esquerda ou seja, o processo até chegar a essa explosão é esse retesamento da flecha e depois explode
Jorge Correia
14:03
Tu escolheste para fazer da tua vida escreves, conversas de treta escreves para o Herman, enfim escrevi, escreveste
Filipe Homem Fonsaca
14:10
sim, já não escreveu há muitos anos
Jorge Correia
14:12
num determinado momento que é um momento absolutamente como é que foi escrever isso?
Filipe Homem Fonsaca
14:20
foi, foi muito engraçado
Jorge Correia
14:22
quantas pessoas mexiam naquela panela no Caldeirão?
Filipe Homem Fonsaca
14:26
então éramos bastantes o Marco, o João Quadros eu Maria João Cruz, Patrícia Castanheira, Miguel Viterbo, Rui Carlos Martins, José de Pina, Nuno Artur Silva. Espero não me estar a esquecer de ninguém. Mas depois não escrevíamos, ou seja, não estávamos estes todos, nós todos à volta de um computador a escrever um sketch. Fazíamos uma reunião de brainstorm.
Jorge Correia
14:53
Chique, elas falavam as inglesas a invadir-nos.
Filipe Homem Fonsaca
14:56
Nós chamávamos-lhe de postas de pescada para o punhal, que era uma mistura de bolas para o punhal com a rota de postas de pescada. Então eram postas de pescada para o punhal. E tínhamos ali uma reunião em que trazíamos ideias O Hermen Ciclopédia tinha um tema por episódio Portanto as ideias andavam sempre ali à volta do tema E depois cada um ia para o seu lado escrever Às vezes em dupla, às vezes em tripla, às vezes sozinho Mas sim, era esta pandilha
Jorge Correia
15:19
Então quando tu escreves um trecho, uma piada Em dupla ou em tripla, de quem é a piada?
Filipe Homem Fonsaca
15:27
Isso é muitas vezes É uma discussão À medida que o tempo vai passando Ainda é mais difícil reclamar essa autoria Mas acho que há exemplos de coisas Que se sabe perfeitamente de quem foi a ideia base Outras que será mais difícil Quando se está a trabalhar assim em conjunto Há alguém que formula E a forma em comédia é muito importante Porque às vezes é a forma A maneira como se diz algo e não aquilo que é dito Que tem piada
Jorge Correia
15:54
Então é só a frase? É a maneira como ela está dita?
Filipe Homem Fonsaca
15:57
É tudo isso Mas quando digo a forma exatamente é a frase com que expressa uma ideia e às vezes é isso que tem piada é a maneira como é dito por exemplo acho que foi o Mark Twain quem respondeu a uma carta disse, desculpa ser uma carta tão extensa mas não tive tempo de escrever uma mais curta há outra maneira de dizer isto não tem piada absolutamente nenhuma mas aqui tem uma certa elegância na maneira como ele coloca a coisa portanto às vezes é a forma não é aquilo que é dito e isto para dizer que às vezes alguém que tem uma ideia, tem uma intuição tem um faro de que aqui há material para fazer uma piada e é alguém que traz isso para a mesa mas é outra pessoa que depois consegue formular a coisa de maneira a construir uma piada
Jorge Correia
16:41
Uma piada é uma mensagem clara que tem um desvio no fim? Ou é um desvio na própria mensagem?
Filipe Homem Fonsaca
16:47
É tudo isso Às vezes pode nem ser mensagem nenhuma
Jorge Correia
16:52
Pode não ser Pode ser uma coisa vazia? Sim fácil, até porque é um mistério para mim o que é que te faz rir?
Filipe Homem Fonsaca
17:03
Tem muita coisa sei lá, assim, olha o Eduardo Nadeira faz-me rir constantemente
Jorge Correia
17:08
Nos textos ou na vida real?
Filipe Homem Fonsaca
17:10
Em tudo não é mais na vida real mas porque é o que eu ele era o mentista também hoje em dia aquilo que escreve é para depois levar ele próprio ao palco, portanto eu hoje em dia tenho mais eu não sei que trabalho diretamente com ele, mas tenho mais acesso às coisas que ele diz na vida real e à maneira de estar na vida real portanto, hoje em dia direi que é mais a pessoa, mas também é indissociável agora uma coisa da outra, enquanto pessoa pública e mesmo no privado ele é muito engraçado há coisas que me dão vontade de rir, às vezes é a mesma coisa que me dá hoje vontade de… que me dá raiva, amanhã também me pode dar vontade de rir, depende também da maneira como tu acordas e como como o humor também é uma forma de resistência
Jorge Correia
17:56
Fala-me disso
Filipe Homem Fonsaca
17:56
A maneira como tu te sentes nesse dia A virtude de qualquer coisa Também te leva a encarar as coisas Com horror Ou com espanto Ou com uma gargalhada que em si também é uma forma de desafio Perante o horror das coisas Portanto acho que o próprio humor Também é um processo no sentido Da maneira como nós o encaramos É uma coisa muito íntima E ao mesmo tempo é uma coisa muito Pouco ou nada disfarçável Neste sentido dizer que, por exemplo, a comédia e o horror são gêmeos, porque há aquela coisa de dizer, ah não, uma coisa está num oposto, está num uma coisa está nos antípodos da outra e não é bem assim, costumo dizer que a comédia está, imagina nos dois minutos para a meia-noite e o horror está nos dois minutos depois da meia-noite portanto, se fizeres a volta toda ao relógio, estão de facto longe, mas eles estão ali mesmo um ao lado do outro e porquê? Porque são duas coisas que não dá para a reação que tu tens é uma piada ou um susto não é disfarçável ou te rires depois podes te arrepender e dizer estou-me a rir, mas riste e o susto, já lá vamos mas agora só para dizer esta coisa ou te rires ou não rires e ou apanhas um susto, ou não apanhas um susto portanto há um lado muito imediato de reação àquilo que é mostrado dito sim, em relação a arrepender de rir, há casos assim o, ah eu não me devia rir disto mas já riste E agora?
Jorge Correia
19:23
E lá está E riste por quê? Por identificação, riste por culpa Riste por culpa
Filipe Homem Fonsaca
19:33
Riste pela surpresa Riste pelos nervos Isto é tão errado Isto não devia existir Riso nervoso, pessoas que se reem em funerais
Jorge Correia
19:43
Não é suposto
Filipe Homem Fonsaca
19:45
Ou é? Não é? Por que não?
Jorge Correia
19:47
No fundo o riso é uma quebra da…
Filipe Homem Fonsaca
19:50
Da sacralidade do peso de dogmas instituídos o respeitinho é muito bonito e se anima-te, claro sim, vai-se buscar força há isso, não é?
Jorge Correia
20:02
e agora vou bater naquilo, aquilo é sagrado, é impossível não se pode falar, não brinques com isto
Filipe Homem Fonsaca
20:07
e rir de, e rir de alguém que diz com uma grande eloquência muito solene, muito disparado profundo não é? um salão soleno um salão nobre e as pessoas estão todas, e de repente há uma gargalhada quebrou, não é? Alguém diz um grande disparate E as pessoas em vez de fingir que Ah, sim senhor, não O senhor Toro está a dizer isto na televisão No palanque Agora imagina, estás a dizer uma alarvida E de repente começar tudo a rir Perde um bocado de força
Jorge Correia
20:36
Lá vai a credibilidade, não é? É um exercício de contrapoder de alguma maneira?
Filipe Homem Fonsaca
20:40
Pode ser, sim, nesse sentido Tira força, tira força É tal coisa do respeitinho é muito bonito E tu fazes tipo Respeitinho é muito bonito
Jorge Correia
20:50
E há um limite para isso ou não?
Filipe Homem Fonsaca
20:53
É, para o limite de cada um. Limite de cada um, e lá está. E aqueles a quem a gargalhada é dirigida, digamos, aqueles de quem nós nos rimos.
21:06
Não estou a dizer rir do comediante que diz uma piada. Não é rir com ele, é rir de… Se calhar tem limites mais…
21:13
Tem limites diferentes. Acha que não. Vocês não se podem rir de mim?
21:17
Podem.
Jorge Correia
21:18
Os humoristas têm sentido humor? Quando os toca na pele?
Filipe Homem Fonsaca
21:23
Alguns, alguns que não
Jorge Correia
21:24
Achas que ficam gaseados, ficam amados?
Filipe Homem Fonsaca
21:26
Sim, tantos Tantos Sim, são pessoas, não é? Toda a gente tem Também se calhar depende dos dias Dizem uma coisa sobre mim Há outros dias em que dizem E eu tipo É normal
Jorge Correia
21:42
Depende onde é que te tocam
Filipe Homem Fonsaca
21:44
Não, e depende do dia Agora falando só do meu lado Sem falar não sei como é que as outras pessoas Reagem em relação a isso Mas nem depende de onde me tocam Depende mesmo do dia Há dias que estou mais descontraído Há dias em que estou mais Não me chatei Posso me rir hoje de uma coisa que não me vou rir amanhã
Jorge Correia
22:02
Mas tens capacidade de te rires de ti próprio?
Filipe Homem Fonsaca
22:04
Sim, bolas Tu não, já olhaste para a minha cara Claro que sim, claro que sim Acho que isso é É tão importante como beber água
Jorge Correia
22:18
Porque lá está, os humoristas undam muito esta ferramenta da autodepreciação também. É que isso faz-me rir porque… Sim,
Filipe Homem Fonsaca
22:26
sim. Existe esse mecanismo, não é? Se o humorista, se o papel, um dos papéis…
22:34
Eu não gosto muito de falar de papéis dos humoristas, mas assim, um dos papéis do humorista é olhar para o mundo à sua volta. Também que se olha ao espelho, ver o que é que eu tenho que é risível. Enquanto até ferramenta de trabalho, sem qualquer tipo de psicoterapia, de autopsicoterapia, vamos pôr para me desconstruir.
22:54
Nem estou a ir por aí, mas só de… Sou gordo. Ah, olha, posso usar isso em palco.
22:59
Sou narigudo. Olha, posso usar isso em palco. Estou a usar coisas muito básicas.
Jorge Correia
23:03
Mas já é politicamente incorreto dizer essas coisas, pelo menos dos outros.
Filipe Homem Fonsaca
23:06
Ah, pois não sei, nem quer saber.
Jorge Correia
23:08
Como é que lides com politicamente incorreto?
Filipe Homem Fonsaca
23:10
É o que é isso. É que lá está também, eu não sei o que é isso. Há pessoas que levam a mal umas coisas, há pessoas que levam a mal outras.
23:17
Eu não sei o que é isso e eu percebo que haja quem… Depende da tua experiência de vida, não é? Há pessoas que se calhar, voltando à questão das palavras, há pessoas que se calhar estão tão habituadas a ouvir certas e terminadas palavras num contexto em que lhes é profundamente agressivo, é prejudicial para a sua vida, que eu percebo que depois não estejam para estar a ouvir isso num espaço público.
23:34
Dito noutro contexto, porque depois também tem a ver com o contexto, tem a ver quem diz, como diz, a maneira como está estruturado. Há palavras que são profundamente ofensivas, ditas de uma maneira ou ditas por uma pessoa e que são acolhimento e inclusividade ditas por outra ou de outra maneira e é preciso fazer essa distinção enquanto receptor do que é dito eu percebo que haja pessoas que não fazem essa distinção porque a vida também não lhes tem permitido fazer isso
Jorge Correia
24:00
Então há uma subjetividade na interpretação que tem a ver com a tua própria experiência de vida, do que é que está a acontecer Sim, sim E se ficás zangado contigo e tu sentes esse remoque, é para ti normal e aceitável?
Filipe Homem Fonsaca
24:11
A pessoa basta dizer-me que não quer não estou a falar num espetáculo estou a fazer um programa, lá está não gostas de um vez, sais estou a dizer no trato social se alguém que expressa qualquer tipo de de incómodo com alguma coisa que eu estou a dizer num espaço que nos é comum num jantar e me diz, eu não tenho necessidade de matar ali a esquerafunchar na ferida
Jorge Correia
24:39
Olha, esta nossa conversa vai ser pública apenas depois de um festival de humor que vai acontecer em Lisboa o Comédia La Carte o festival à volta disto e tu decidiste com o Subolamol decidiste não ir a este ter um espetáculo para fazer pela razão de que Seinfeld vem a Lisboa isso não choca um bocadinho com esse exatamente com essa liberdade de todos podemos dizer isso, sendo que
Filipe Homem Fonsaca
25:11
Não, mas eu não acho que a gente lá está, não. Uma coisa é a liberdade de expressão. A liberdade de expressão tem umas costas larguíssimas.
25:17
E é muito, para mim, a fronteira entre o que é a liberdade de expressão e o que é discurso de ódio é extremamente visível. Não há grandes dúvidas entre que há uma coisa e a outra, porque lá está, tem a ver com a forma, tem a ver com o contexto, tem a ver com muita coisa. por isso não vejo qualquer tipo de incongruência e aliás, haveria incongruência se eu dissesse ah, eu não quero que o senhor venha cá não, o que eu disse foi eu não me quero sentar à mesma mesa que eu aliás foi muito engraçado ver toda a avalanche de documentadores que entre profundos disparates que eu ouvi e lá está aí Rimo entre profundos disparates que eu ouvi e o argumento mais utilizado era coisas do tipo sei lá que nós estamos a cancelar.
26:04
Cancelar era… Se faz uma sala de cinema, cancelar um filme é porque colocaste à frente do ecrã e dizes, ninguém vê o filme. Agora alguém que sai da sala e diz eu não quero ver isto.
Jorge Correia
26:15
Ou porque não gosto, ou porque não me diz nada.
Filipe Homem Fonsaca
26:17
E um dos argumentos mais usados foi aquela coisa do… mas só agora é que se lembraram? Que a mim provocou-me uma extremação porque normalmente é usado muitas vezes, noutros casos, para descardilizar pessoas que só uns tempos mais tarde é que se lembram disto ou daquilo.
Jorge Correia
26:28
Mas qual foi a razão que te levou essa decisão de dizer ok, eu não quero estar num mesmo palco que esta pessoa, neste caso Jerry Seinfeld
Filipe Homem Fonsaca
26:37
Sim, num mesmo palco nunca estaria isso foi condição sem equino aliás nós só aceitámos por causa disso e depois foi um desconforto crescente de perceber para além de aquilo que parecia porque nós obviamente queremos tocar queremos estar com as pessoas, queremos tocar para as pessoas
Jorge Correia
26:50
e agora a Cebola Mole era um concerto de um grupo do qual tu fazes parte
Filipe Homem Fonsaca
26:54
Sim, sim e depois foi, primeiro, outra coisa que eu também achei muita piada entre aspas foi quando diziam mas claro que já sabiam das posições do Seinfeld eu sei lá das posições, eu não gosto do Seinfeld nem como comediante, nunca gostei nunca achei piada nenhuma ao Seinfeld não é uma questão de, ai aquilo é mau tal série que ele fez, não é uma questão de gosto para mim nunca me disse nada quanto mais quais são as posições dele sobre isto e aquilo fui sabendo, e ele também as foi gravando ao longo destes meses para aí depois é um desconforto que é tu começas por dizer Ok, eu consigo partilhar, estar neste festival não me cruzando com o senhor. Depois começas a perceber, porque ao contrário de outros iluminados, que já sabiam tudo o que ele tinha dito acerca da questão, eu não sabia, porque não me interessa nada do signo. À medida que vais percebendo e de repente tens aquele choque de ver o nome da banda no mesmo cartaz.
27:50
Ou seja, não vais partilhar para algo, mas o nome da banda está no mesmo cartaz. Portanto, e é um desconforto que vai crescendo. Era o que faltava, uma pessoa não poder refletir sobre as coisas.
28:02
E às vezes é, pá, não. Não, não quero. Não quero brincar.
28:05
Não quero. Não posso. Não me sinto bem com isto. E dizer, não vou.
Jorge Correia
28:11
Quando nós não aceitamos estar no mesmo sítio, no mesmo espaço, no mesmo cartaz, como tu dizes, essa separação, essa polarização não está a criar aqui um abismo
Filipe Homem Fonsaca
28:21
entre… Entre o quê? Entre pessoas que não gostam de ver crianças serem mortas diariamente.
28:27
Sim, claro que sim. Claro que sim, a mim não me cabe na cabeça essa ideia de vamos construir pontos. Com quem?
28:34
Com alguém que diz que sim, senhora, 20 e tal mil crianças mortas, 70 e tal mil pessoas mortas, tudo bem? Não.
Jorge Correia
28:40
E não era uma oportunidade para tu poderes dizer isso nesse espaço também? Mas podes dizer em outro sítio?
Filipe Homem Fonsaca
28:45
Posso dizer em outro sítio? Posso dizer em outro sítio? Estou a dizê-lo aqui agora.
28:49
Todas essas coisas de… Sei lá, foram utilizadas argumentos tão falaciosos, estão coisas que não… Entre as pessoas que eu percebo porque é que tiveram essa tomada de posição por razões de patronato entre pessoas que tiveram essa tomada de posição que eu nunca lhes ouvi falar da questão da Palestina e de repente ficaram muito chocadas foi com a posição da malta que resolveu sair do cartaz.
29:18
Para mim estão apresentados. São prioridades. O que eu que posso garantir é quando eu comecei a perceber das posições do homem andava com dificuldades em dormir que é uma coisa que também me é comum eu durmo muito pouco e a partir do momento em que esta decisão foi tomada sabes?
Jorge Correia
29:35
Ficaste a remoer antes? Sim, estava naquela época
Filipe Homem Fonsaca
29:38
é o que eu estou a dizer, ou seja, há um processo tu dizes, não, não dá, não vai dar não vai dar, porque esses meninos olímpicos eu consigo ter um diálogo consigo partilhar, seja o que for, uma mesa com pessoas que têm ideias muito diferentes das minhas mas nestas neste tipo de coisas eu não consigo, estou a julgar quem tem outras diferentes acho que há mínimos olímpicos e custa-me muito lá está por isso é quando dizem há que construir pontos há que estabelecer diálogo, mas que diálogo é que eu vou ter com alguém que diz que sim senhor que diálogo é que vais ter com alguém que diz são os animais, não consigo eu não consigo acho que não é uma perda imensa de tempo e depois é uma falácia essa coisa do termos de dialogar mas qual diálogo o que é que estamos a falar aquela coisa às vezes estamos a perder palavras e estamos a perder também uma certa noção humanismo qual é a discussão aqui?
Jorge Correia
30:36
estamos a ficar anestesiados? pode estar a acontecer?
Filipe Homem Fonsaca
30:39
eu sei lá eu sei lá menina eu não sei mas lá está isso ultrapassa-me isso ultrapassa-me como é que se pode defender um massacre? um genocídio
Jorge Correia
30:53
e portanto tu te disse
Filipe Homem Fonsaca
30:55
o Bilber, desculpa, eu estou a perdoar o Bilber tem uma coisa acho que é no último stand-up em que ele começa a falar das pessoas porque as crianças morrem porque o Hamas faz escudos humanos com as crianças e o Bilber diz assim, mas isto é argumento eu se quiser bater num tipo que tem um bebê ao colo go around it Vai à volta Vai à volta, por isso não Não é possível
Jorge Correia
31:21
Olha, tu escreves para a voz dos outros Desde sempre, há um dos textos De que eu gosto mais, é o da conversa da treta
Filipe Homem Fonsaca
31:28
Ok
Jorge Correia
31:28
Que é sobre as palavras precisamente, não é? Também, sim É sobre o que a conversa da treta? Bom, vi vários destes Enfim, o original é obviamente O original e difícil De replicar O que é aquilo?
31:45
Aquilo é o timing? Aquilo é o tipo de palavras? Aquilo é a linguagem?
Filipe Homem Fonsaca
31:48
É muita coisa junto, acho eu. O original, então, José Pedro Gomes e o António Feio.
Jorge Correia
31:54
Difícil de replicar, não é?
Filipe Homem Fonsaca
31:56
Sim, sim. Dar um exemplo, acho que é por aqui que é curioso começar, ou que é engraçado começar, que é a questão do… Eu lembro que a primeira vez que escrevemos a conversa, a primeira peça da conversa da treta, que foi a segunda, havia uma que tinha sido o José Feinha a fazer, depois eu, o Eduardo e o Rui Cardoso Martins, e a partir de certa altura só o Eduardo, começámos a escrever as várias iterações da conversa da treta.
32:20
E eu lembro-me que na estreia, dessa primeira vez, depois de fazer o turné pelo país e depois ir ao coliseu não sei quantas semanas, meses, mas na estreia o Eduardo estava muito nervoso. Eu não estava. E não é porque eu estivesse convencidíssimo que tínhamos feito o tipo, é pá, nós somos os maiores.
Jorge Correia
32:43
Mas é que ele não foi testado antes?
Filipe Homem Fonsaca
32:45
foi testado no sentido em que foi ali no agora não lembro do nome do Auditório Mifica que foi onde a primeira também estreou portanto com um público muito pequeno primeiro fez-se ali um teste pronto, no sentido em que era uma coisa mais contida
Jorge Correia
32:57
E as pessoas riram?
Filipe Homem Fonsaca
32:59
Riram, riram, riram E eu não estava nervoso, porquê? Porque era o José Pedro e o António Feio ou seja, aqueles dois monstros
Jorge Correia
33:05
Já estavas a ganhar?
Filipe Homem Fonsaca
33:07
A minha lógica foi, se estes dois monstros sentem que estes nossos textos de levar a palco eles sabem melhor que eu portanto, se eles têm confiança que isto vai com todas as reservas que eles pudessem ter porque há sempre aquele nervo de ir para palco
Jorge Correia
33:25
Como é que é esse processo? Primeiro vocês escrevem
Filipe Homem Fonsaca
33:28
e depois há um ensaio e depois aí as coisas também se podem transformar e o António Fé então fazia acrobacias de improviso que depois ficavam solidificadas no texto
Jorge Correia
33:38
no palco, portanto, coisas que não estão escritas
Filipe Homem Fonsaca
33:40
sim, que depois acabavam por ficar a ser integradas, tanto que nós escrevemos uma peça que tinha hora e meia, quando aquilo chegou ao Coliseu depois de uma turnê a peça tinha 3 horas porque não só nós fomos acrescentando coisas como depois aquilo havia ali improvisos que às vezes correu muito bem eles passavam a repeti-los e aquilo tornava-se parte da peça
Jorge Correia
34:02
E há ali uma noção de timing, lá está, não são só as palavras Sim De onde é que vêm aquelas palavras? Vêm o quê? Vêm do táxi? Vêm da rua? De onde é que aquilo vem?
Filipe Homem Fonsaca
34:10
Eu chamo aquilo surrealismo de bairro, não é? Sim, vem disso, vem da rua, vem de um lado não só Lisboeta, mas muito Lisboeta, de bairro, de Alfama, da Moraria, da Graça, mas também de Portugal inteiro. É uma… às vezes estreitar a visão dos personagens é uma maneira, pelo reverso, uma maneira de abri-la, não é?
34:38
De reduzir a coisa ao absurdo. Às vezes só consegues ver que tens uma visão muito estreita das coisas quando encontras alguém que tem uma visão mais estreita que tu. E isso ajuda também a ver o absurdo, o ridículo de algumas coisas que pensas e abrir.
34:52
E a treta acho que poderá ter feito um bocado disso. E acima de tudo, seja abrir consciências ou fazer com que… Era muito engraçado vê-los os dois a interagir.
35:04
Eram duas personagens muito bem conseguidas, até do ponto de vista da fisicalidade de cada um. e eles tinham uma química incrível
Jorge Correia
35:12
um mais robusto, outro mais magro
Filipe Homem Fonsaca
35:14
é aquela coisa é sempre o contraste é um mais alto, um mais pequeno um que tem a mania que é esperto, mas é burro que nem uma porta, até mais burro do que o outro que seria burro o muito burro que de vez em quando diz coisas que tu dizes, uau, espera, onde é que isto veio?
Jorge Correia
35:28
há sempre um degrau de uma surpresa um degrau de uma iluquência
Filipe Homem Fonsaca
35:32
é uma surpresa e também uma dar o esperado mas não da maneira que é esperada como é que é isso? é tal igual isto não só na comédia mas é aquela coisa que eu digo, às vezes chamo o fator avó o fator avó é quando estás a ver uma série qualquer com a tua avó e ele diz qualquer coisa do tipo, cheira-me que este agora não sei o quê, cheira-me que este é que é o assassino e as pessoas já intuem um desfecho Mas quando ele aparece É de uma maneira completamente diferente
Jorge Correia
36:12
Portanto é trocar as voltas À nossa cabeça
Filipe Homem Fonsaca
36:15
É trocar as voltas à cabeça Ao mesmo tempo também dás aquilo que é expectável
Jorge Correia
36:20
Nós estamos a pensar Ele vai dizer uma alarvidade Diz essa alarvidade mas de uma maneira
Filipe Homem Fonsaca
36:25
Ou outra alarvidade Tu não estás à espera Mas ele diz muito Eu sabia à mistura com a sério
Jorge Correia
36:35
Que frases é que te ficam na cabeça Dessa conversa da treta
Filipe Homem Fonsaca
36:39
Epá, não sei, isto já foi há bastante tempo
Jorge Correia
36:41
Tu perdes, vais perdendo o resto
Filipe Homem Fonsaca
36:43
Isto foi em 99
Jorge Correia
36:45
Lá está, mas está na nossa memória Repara, passaram 26 anos
Filipe Homem Fonsaca
36:49
Tenho um amigo que é realizador Ele trabalhou como assistente de realização na versão Televisão da conversa da treta Ele sabe tudo Que é o Carlos Barreto Ele saber-te ir a dizer ipsis verbis o que foi dito Ele sabe tudo E ele às vezes diz-me qualquer coisa e eu rio-me E ele diz mas foste tu que escreveste isso estás a falar sério? Não me lembro
Jorge Correia
37:11
como é que é tu no dia seguinte de quando escreves um texto que muda a nossa maneira de olhar para o mundo e toda a gente está a usar uma frase que foste tu que escreveste, como é que tu lidas com isso? como é que o teu ego infla e explode?
Filipe Homem Fonsaca
37:26
é giro, nós tivemos isso pessoalmente quando quando era uma enciclopédia estreou Foi logo na primeira temporada. Teria de verificar agora se não há nenhuma imprecisão nas datas, mas tanto quanto me lembro foi também o primeiro Sudoeste, o Festival do Sudoeste, ou o regresso do Festival do Sudoeste, terá sido pelo menos o primeiro que eu fui. O Anem que veio cá a Blur e Marilyn Manson, e o Anem que, não sei se foi aí que nasceu, mas estava tudo a gritar ao Elsa.
Jorge Correia
37:57
Ao Elsa!
Filipe Homem Fonsaca
37:58
Não é mais difícil, ao Elsa!
Jorge Correia
37:59
No Festival de Música?
Filipe Homem Fonsaca
38:01
Sim, havia uma miúda Elsa que um grupo começou a chamar por ela e de repente toda a gente estava a dizer ao Elsa. E nesse festival eu ouvia muitas pessoas a repetir frases que nós tínhamos escrito para a Hermana Enciclopédia e foi uma sensação muito engraçada. Foi uma sensação muito engraçada e também te posso contar outra história curiosa acerca disso, que foi um amigo meu, que é jornalista, programador cultural, o João Morales, que eu conheci no aniversário de uma amiga comum, isto também em 97, em que ele estava sentado no jantar do aniversário dessa nossa amiga comum, a Bárbara, e eu não o conhecia e ele estava maravilhado a falar com a Bárbara acerca de um novo programa do Herman e eu estava lá com os meus 21 ou 22 anos
Jorge Correia
38:40
caladinho?
Filipe Homem Fonsaca
38:41
e às tantas disse assim, olha, por acaso essa fui eu que escrevi, e olhou para mim e disse está bem, e continuou a falar e fez aquilo para aí duas ou três vezes, e para aí à terceira eu disse, porra, estou-te a dizer que fui não é uma questão de ego, mas é uma coisa porra, já fui eu, porque é que estás a duvidar tu sabes, fui eu, fui eu pronto, e iniciou-se ali uma discussão que depois somos amigos até hoje porque depois o aniversário acabou foi tudo, cada um passou ao lado e acabámos nós às tantas da manhã no caixa de rana, um quiosque que na altura funcionava ainda a beber uma ginginha aos dois à conversa
Jorge Correia
39:10
O que é curioso que é como é que tu lidas com esse anonimato no fundo de teres dado palavras que é quem bem as interpretou o caso do Herman é um bom exemplo mas depois tu na realidade és um anónimo É bom?
Filipe Homem Fonsaca
39:26
Claro, mas que necessidade é que eu tenho de respeito a isso, da fama é o quê? É giro quando alguém na rua se dirige a mim e diz é pá, gostei muito disto, não sei o quê claro, sabe bem mas que seja um reflexo de que as pessoas gostam do meu trabalho não preciso que gostem de mim
Jorge Correia
39:45
Olha, tu escreveste um livro chamado O Imortal da Graça, com as mulheres do bairro onde tu vives ainda Sim Onde as mulheres disputam o título da mulher mais velha do bairro
Filipe Homem Fonsaca
39:58
Não são as mulheres que vivem no meu bairro São mulheres que eu criei a partir de…
Jorge Correia
40:02
Imaginaste E se não daqui a bocadinho levas com as vizinhas todas A bater-te lá à porta para perguntar o que é que está acontecendo O que é curioso é que neste bairro Toda a gente espera que as velhas morram Para que uma estrela de óleo ocupe a casa
Filipe Homem Fonsaca
40:16
Sim
Jorge Correia
40:17
Em 2019 Acho que agora fica o pior, não é?
Filipe Homem Fonsaca
40:20
Sim, houve um amigo que me disse Porque já não é a primeira vez que eu escrevo coisas Que depois, quer dizer, neste caso estava-se mesmo a ver Já havia um amigo meu disse assim, não quero escrever um livro em que eu ganho o Euro Milhões, é uma coisa assim que é para ver se acontece
Jorge Correia
40:32
ao petróleo do biato o relacionado
Filipe Homem Fonsaca
40:35
tem que começar a escrever coisas assim em que está tudo bem já em 2019 se percebia, era uma realidade que já existia se calhar não se calhar ninguém queria acreditar que ia chegar a este ponto mas a realidade ultrapassa a ficção, é um grande clichê
Jorge Correia
40:52
não é? Foi ou não foi?
Filipe Homem Fonsaca
40:53
Foi
Jorge Correia
40:54
e como é que nós estamos a falar sobre isto e eu não sei se tens acompanhado agora as recentes polémicas à volta do do filme dos casamentos de Santo António e aquela coisa extraordinária que é transformou-se isto num assunto de polarização entre se aquilo é grande cinema ou não é grande cinema, se aquilo é importante ou não é e rir, que tal, só isso
Filipe Homem Fonsaca
41:18
Sim, eu não vi o filme Não viste o filme? Não, eu não vi o filme
Jorge Correia
41:21
É uma caricatura de Lisboa no fundo e das coisas que nos estão a acontecer
Filipe Homem Fonsaca
41:25
Ok, tenho de ver, não ouvi
Jorge Correia
41:28
É divertido, mas criou-se essa polarização e essa ideia de…
Filipe Homem Fonsaca
41:33
Tudo o que for puxado para questões verdadeiramente importantes e usado assuntos paralelos podem estar de certa forma relacionados, mas que estão num campo diferente, usados para descredoizar uma luta a reivindicação do direito da habitação, por exemplo não me interessa ou seja, se isso é usado se a propósito de uma questão tão tão importante como a habitação é trazido para a conversa com o propósito de descredibilizar essa reivindicação seja o meu livro seja esse filme, seja o que for e de repente estamos a falar de um assunto que não é exatamente objetivamente aquele que tem de ser resolvido às vezes essas coisas são usadas não sei se era nesse sentido que estavas a puxar a questão
Jorge Correia
42:20
estamos a criar uma ideia de um argumento falacioso para depois o destruirmos quando o problema real
Filipe Homem Fonsaca
42:24
Continua. Sim, tal e qual. Isso acontece muitas vezes.
42:28
Agora, a propósito de um assunto, enuncio, lá está a forma, tem muita importância, enuncio de uma maneira que já não corresponde àquilo que está a ser discutido. E construo todo o meu argumentário à volta disso. Depois a discussão passa de ser daquilo que estávamos a falar para desconstruir a falácia que é colocada em cima da mesa.
42:46
E perde-se o foco, perde-se tudo. Isso é instrumental, é uma coisa que é muito feita hoje em dia. Também vivemos soundbites, não é?
Jorge Correia
42:55
Tu vives de soundbites?
Filipe Homem Fonsaca
42:57
Eu não vivo de soundbites, eu vivo de punchlines
Jorge Correia
42:59
Ah! Então vamos lá, vamos lá
Filipe Homem Fonsaca
43:03
E eu não estou a discutir aqui questões Não é não estou a discutir, no meu trabalho Quando estou a escrever ficção, estou a escrever piadas Eu não estou a decidir da vida das pessoas Eu não tenho Eu não sou um deciso político
Jorge Correia
43:14
Mas tens poder? Ou não? Tenho Não tens poder? A linguagem não tem um poder?
Filipe Homem Fonsaca
43:19
Está bem, mas tem um poder Não há uma lei uma coisa é tu escreves palavras na Constituição uma coisa é tu, e mesmo assim a maneira como a Constituição é tratada mas uma coisa é tu escreves uma lei agora escreves uma piada é diferente, podes influenciar muita gente e acho que pode, não é necessário mas pode haver um ímpeto de mensagem política de transformação quando tu escreves uma piada não acho que seja indispensável ou que assim seja
Jorge Correia
43:47
portanto, tu achas que a linguagem não nos estimula a um movimento daquilo que nós estamos a fazer.
Filipe Homem Fonsaca
43:56
Acho que sim.
Jorge Correia
43:57
As palavras são vazias e vãs.
Filipe Homem Fonsaca
43:59
Não, não, não. Não é nada disso que eu estou a dizer. O que eu estou a dizer é que muitas vezes há uma… Por exemplo, vou dar este exemplo. Aquela série britânica, o Adolescence, que toca muito na problemática da solidão dos jovens, das redes sociais, da maneira como não é monitorizado qual é que é o processo, a conversa que têm uns com os outros e a influência que depois os géneros e tates da vida têm sobre as mentalidades. etc, etc, etc série do Caraces, mensagem fortíssima e essencial não só o lado artístico da série, a execução técnica, tudo brilhante e depois com uma mensagem social muito, muito muito, muito forte, muito relevante e de repente aquilo é aproveitado pelo governo britânico para passar nas escolas enquanto pedagogia e é nesse sentido que eu digo, vamos separar as águas porque acaba por se responsabilizar os decisores e quem devia estar a fazer alguma o lado pedagógico das coisas porque de repente, ah temos aqui estes bobos, estes artistas vamos pegar que são bobos de conveniência olha, isto dá-nos jeito quando não dá jeito é repudiado quando não dá jeito, vamos agora usar isto como ferramenta pedagógica que não foi feito e depois isentam-se de apostar financeiramente
Jorge Correia
45:12
em fazer programas educativos
Filipe Homem Fonsaca
45:13
em fazer programas educativos, portanto é nesse sentido que eu digo que há que separar as águas, obviamente que as palavras têm todo o peso agora se de repente começas a inculcar no entretenimento na cultura esse lado não é? que é diferente atenção, daquela conversa do do que os eu fico maluco quando o cessa de dizer que por exemplo os músicos não deviam estar calados sobre questões sociais e políticas primeiro é que tudo é político, deviam estar calados sobre questões sociais e políticas e deviam só entreter e tu começas a perguntar mas olha que vocês estão nos últimos 100 anos os Bob Dylan’s da vida toda a quantidade o Rage Against the Machine, a quantidade de músicas, as músicas não falam só sobre amor não é só sobre o I Love You So Much eu não consigo lembrar de músicas da minha adolescência que não tivessem esse cariz
Jorge Correia
46:07
tem que falar da dor sim, também do problema, daquilo que está a acontecer
Filipe Homem Fonsaca
46:14
o problema da resolução, da revolta um grito que às vezes é silenciado e que só pode ser dito através dessa música claro que sim a escolha de não falar sobre assuntos é em si falar dos assuntos
Jorge Correia
46:24
e o não falar pode ser um processo de autocensura eu não vou falar sobre isto que isto é e às tantas isto vai me dar uma grande dor de cabeça
Filipe Homem Fonsaca
46:31
sim, claro que sim
Jorge Correia
46:32
como é que tu te livras disso?
Filipe Homem Fonsaca
46:34
digo as coisas
Jorge Correia
46:36
antes de pensares que isto é acreditas numa coisa e logo dizes
Filipe Homem Fonsaca
46:40
sim, posso me dar ideias depois mas lá está, mínimos olímpicos há coisas que eu nunca vou acreditar Ou há coisas em que eu não vou deixar de acreditar
Jorge Correia
46:48
Olha, de onde é que vem De onde é que vêm as tuas ideias? Ou a que horas é que vêm as tuas ideias?
Filipe Homem Fonsaca
46:54
Sei lá, não sei Se eu vivesse soundbites agora dizia É no ducho
Jorge Correia
47:00
Acordei iluminado e escrevi um Quer dizer, eu estou a perguntar isto porque Tu escreveste a última refeição antes de mim Que é um título maravilhoso E dizes que neste livro Vem antes de tudo Uma intenção não uma ideia, eu vou escrever um livro? Sim,
Filipe Homem Fonsaca
47:17
tal e qual
Jorge Correia
47:18
É assim tão fácil?
Filipe Homem Fonsaca
47:19
Não sei, este foi assim Olha que eu escrevi este livro Não sei se a intenção nasceu de mim porque é aquela coisa, tal coisa, poesia às vezes parece que ela diz olha, tens de escrever isto é uma coisa diferente
Jorge Correia
47:32
Até pode alguém ter-te colocado essa ideia dentro da cabeça, engravidaste-te dessa ideia e disseste, não, eu tenho a ideia de escrever
Filipe Homem Fonsaca
47:38
Eu acho que já falei disto muitas vezes, mas vou repetir sem entrar aqui em questões Porque não tem nada a ver com isso Esotéricas e não sei o que Mas eu há bocado também já referi isso Que é aquele ponto em que parece que são os personagens Que já tomaram conta Eu na Imortal da Graça tenho um exemplo Em que houve mesmo, às quatro e tal da manhã Quando estava a escrever o livro Há um personagem que vai fazer uma coisa Que eu nunca pensei que o personagem fosse fazer Nunca me tinha passado pela cabeça E de repente é como se aquele personagem Já não é um personagem, é uma pessoa
Jorge Correia
48:03
E depois, o que é que fazes com isso?
Filipe Homem Fonsaca
48:04
Eu o acompanho Então ele sabe melhor que eu Ele é que está na história Eu só estou a escrevê-la
Jorge Correia
48:08
Fazes o que? É uma maneira de escutar aquela personagem?
Filipe Homem Fonsaca
48:11
Sim depois o processo, e o Neil Gaiman diz isso muitas vezes que é as segundas e os terceiros as segundas versões e as terceiras versões é uma maneira de tu depois dares a entender ao leitor que sempre tiveste aquilo na cabeça
Jorge Correia
48:22
foi tudo planeado. Isso aí é a carpintaria já, não é?
Filipe Homem Fonsaca
48:24
É filigrana mas a minha tentativa foi depois tornar aquilo mais consequente, ou seja, quando aquilo acontece, tentar passar aquela ressonância emocional e a surpresa que eu tive quando aquela personagem decide fazer aquilo foi também ao longo do livro plantar algumas coisas que quando aquilo aparece não é só Deus ex-máquina, aquilo de repente lá está ah, como é que eu não vi que isto ia acontecer
Jorge Correia
48:48
mas tu consegues lá está, ouvir uma ressoância do mundo, sentir uma determinada emoção, um livro que tu escreves sobre a morte de um cão e depois pegar naquilo e retransformar aquilo em palavras que possam com que nós que te lemos, conseguimos sentir alguma coisa sobre aquilo
Filipe Homem Fonsaca
49:06
a tentativa é essa, sim é universalizar uma experiência pessoal minha ou de outra pessoa
Jorge Correia
49:12
E alargá-la, como é que faz isso?
Filipe Homem Fonsaca
49:16
São muitas maneiras sem ser assim exaustivamente académico nem sendo exaustivamente académico sei se saberei explicar isso Há é uma acho que há assim um caldeirão de coisas que nos afetam a todos não digo da mesma maneira, mas que são coisas universais Essas estão-se a perder, por isso é que agora Tipo há 70 mil por 1 hora, está tudo bem
Jorge Correia
49:39
Passa-se a banalização Sim,
Filipe Homem Fonsaca
49:42
portanto é cada vez mais difícil Essa universalidade de conceitos Porque a coisa referencial E na comédia nós funcionamos muito Na referência comum E por isso é que às vezes há pessoas que podem ficar mais Nervosas ou ofendidas Com qualquer coisa que tu dizes Porque podem não ter a mesma referência que tu Ou podem não te ler tão bem Ou a formulação que tu fazes A culpa não está Não perceber não é sempre do receptor. Às vezes também é de quem diz, como é óbvio. Não estou aqui a desresponsabilizar o emissor.
Jorge Correia
50:09
Ou da mensagem.
Filipe Homem Fonsaca
50:10
E tal e qual. E quando digo a mensagem, estou a falar de quem a diz. Portanto, da construção.
Jorge Correia
50:15
E há lugar para os maus entendidos?
Filipe Homem Fonsaca
50:18
Há alguns. Novamente.
Jorge Correia
50:20
E depois, como é que é? Quando tu olhas e dizes, não era isto que eu queria dizer. Não era esta a maneira como eu queria dizer. Então,
Filipe Homem Fonsaca
50:27
corrija. Tentativa é essa. E se estás a escrever é mais fácil.
50:30
Porque voltas atrás, apagas, reconstróis. perdes inúmero tempo um tempo, enfim, dá-lhe a construir a frase exatamente, por isso é que é tão exaustivo às vezes construir uma piada mosaico, não é? Aquela coisa que estás presa a uma, aquela fórmula de 5 sílabas fonéticas mais 7 sílabas mais 5 e no processo às vezes de encaixar aquilo a mensagem transforma-se, por isso é que me irrita uma coisa do soundbite, daqueles clipes que agora vais pôr na net às vezes é muito difícil eu tenho a certeza, não estou a dizer que vais fazer atenção, não é isso que eu estou a dizer, mas seria muito eu conseguiria fazer isso, eu conseguiria retirar daquilo que eu estou a dizer partes, em que eu estou a dizer exatamente o contrário daquilo que depois acabarei por dizer porque o meu raciocínio ainda por cima eu não tenho um raciocínio muito direto, eu ainda que há as voltas para depois chegar a uma conclusão. Mas as contradições são ótimas ou não? Não, as contradições são ótimas mas isso é se tu servires o prato completo uma contradição é um prato que é salgado e é um prato que é doce, e tu comes e dizes, ah isto é salgado mas também é doce, se eu só apresento o sal se as pessoas só têm acesso ao sal alguém vai dizer isso e fica a pensar que a mensagem é outra
Jorge Correia
51:34
mas o ponto é que isto é, os bons ouvintes vão ouvir a conversa toda os outros, há um par de pessoas que vão apenas ver o som de baita e vão dizer, tu viste-me aquela conversa, mas como é possível
Filipe Homem Fonsaca
51:48
ter muito aquilo? E há aqueles que vão ouvir e até está uma parte em que o meu discurso é claro até se calhar vai ao encontro daquilo que as pessoas que estão a ouvir concordam
Jorge Correia
51:56
e se aplaudem.
Filipe Homem Fonsaca
51:57
Não, mas há malta que vai ouvir tudo ao contrário, não sei porquê acontece isso mas quando lês caixas de comentários, coisa que eu também já não faço há algum tempo, não tenho paciência mas há coisas verdadeiramente, sabes
Jorge Correia
52:08
Retorcidas?
Filipe Homem Fonsaca
52:08
Sim, há comentários do tipo eu sabia que este gajo não gosta de eu sabia que este gajo não gosta de fruta porque ainda ontem eu ouvia comer um cesto inteiro de bananas e tu dizes, espera aí espera aí, então mas há coisas assim, eu estou a exagerar mas não é um exagero muito grande, é coisas exatamente assim, que tu vês nas caixas de comentários
Jorge Correia
52:26
Mas estamos numa fase de grande aceleração Como é que tu com o tempo Com as coisas todas que fazes Como é que tu controlas o teu tempo No fundo Ouvir-te falar sobre a mortalidade E o ritmo e a lentidão Como é que se compagina uma coisa com a outra?
Filipe Homem Fonsaca
52:44
A Maria Ojef tem uma frase Que eu adotei Que é o acombóis que já não me interessa apanhar
Jorge Correia
52:49
Ah sim,
Filipe Homem Fonsaca
52:50
já não O tempo é finito E se uma pessoa vai perder tempo Lá está, há coisas com que eu me quero preocupar Há coisas com que eu tenho de me preocupar Coisas que eu não sei viver sem me preocupar com elas Passava muito bem sem elas Mas o problema não é eu chatear-me com elas O problema é elas existirem Ao ponto de uma pessoa se ter de irritar E de fazer qualquer coisa para me dar Claro que eu adorava Adorava que fosse tudo maravilhoso E eu podia estar só a curtir Mas há coisas que eu não consigo Agora há outras que eu quero lá saber do CR7 e do Jesus Quero lá saber
Jorge Correia
53:22
Dá para fazer piadas sobre isso ou já é arriscado?
Filipe Homem Fonsaca
53:24
Do quê? Sobre o Cristiano Ronaldo pode ser, não tem feito outra coisa, quer dizer, quando isto for para o ar se calhar a questão já é outra, mas houve aí não sei quantas semanas que não se o espaço público estava dominado por isso
Jorge Correia
53:36
Mas eu estou a falar das piadas, quer dizer, porque
Filipe Homem Fonsaca
53:38
os debates… Mas por que é que não se pode fazer? Eu acho que pode. Eu acho que se pode, a mim não me interessa fazer, não me quero saber desse assunto
Jorge Correia
53:43
O que te cansa?
Filipe Homem Fonsaca
53:45
Não é porque me cansa é um comboio que eu não quero apanhar, eu nunca gostei de futebol, eu não estou a criticar quem está tudo bem, mas estou a dizer é um comboio que eu não quero apanhar o do futebol, nunca me interessou, nunca me vai interessar, e tive de acompanhar a futebol, quando estava a escrever o Contra Informação com o José de Pino e o Ricardo Osso Martins eu tinha de estar a parte de bola para fazer depois o programa. E como é que fazias? Primeiro com muito sacrifício, tinha de tentar a prestar atenção às tricas da bola e depois a sorte deles os dois serem completamente oficiosos, são loucos por futebol, um do Sporting do Benfica. Oh diabo! Sim, oh pá, assistia coisas tão engraçadas
Jorge Correia
54:20
Pegavam-se? Sim
Filipe Homem Fonsaca
54:21
coisas muito engraçadas As pegas do Pino e do Rui A propósito de bola, hilariantes Hilariantes
Jorge Correia
54:28
Eles próprios são os cromos da bola, literalmente
Filipe Homem Fonsaca
54:30
São os maiores, eu adoro ambos Sim, sim, e passámos ali 12 anos de escrever o Contra Informação
Jorge Correia
54:36
E até lá está, uma discussão que é Profundamente irracional Profundamente emocional E que O penalti para que lado é que é, é grande confusão
Filipe Homem Fonsaca
54:46
Mas e agora não tens isso em tudo?
Jorge Correia
54:48
Alargou-se não é?
Filipe Homem Fonsaca
54:49
A futebolização das coisas é tudo é tudo uma cor é tudo azul, verde vermelho, é tudo futebol é tudo estamos a falar de bola quando estamos a falar de coisas essenciais
Jorge Correia
55:07
já temos mais um som de baile Filipe Homem Fonseca olha, espero que algum dia que queira escrever o próprio livro ser o novo Dan Brown, telefone-te para
Filipe Homem Fonsaca
55:18
ah, o Dan Brown não, telefone-te Olha, aqui falo com o José Rodrigo Santos.
Jorge Correia
55:22
Também. Filipe, obrigado.
Filipe Homem Fonsaca
55:27
Obrigado, meu. Obrigado.
Jorge Correia
55:31
Pergunta simples. Um programa sobre comunicação. Para quem quer boas respostas.
