Continua a Atirar Dinheiro Pela Janela? Pedro Andersson

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Continua a Atirar Dinheiro Pela Janela? Pedro Andersson
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A fatura chegou dobrada em três, dentro de um envelope castanho, como chegam todas. A senhora tem oitenta e dois anos e há muito deixou estas coisas para o filho. Ele compara, por hábito, o valor com o do mês anterior. Está mais alto. Não dramaticamente, só o suficiente para estranhar. Liga para a empresa de eletricidade. Descobre que o desconto de vinte por cento que tinha há um ano desapareceu sem aviso nenhum. Recupera-o numa chamada de cinco minutos.

Não há nada de extraordinário nesta história, e é precisamente por isso que interessa. Pedro Andersson conta-a como quem conta um episódio banal da própria semana, sem drama, quase a rir-se da simplicidade do gesto. Mas por trás dela está uma ideia incómoda: a diferença entre pagar a mais ou a menos raramente depende de sorte, de esperteza ou de conhecimento técnico. Depende, quase sempre, de alguém se lembrar de perguntar.

Há um mecanismo silencioso a funcionar nos nossos contratos de serviços, nos seguros, nos créditos à habitação. Quem está a ganhar com a tua inércia são os bancos, as seguradoras, as gasolineiras, diz Andersson, e a frase funciona como diagnóstico mais do que como acusação. As empresas vivem de clientes que não comparam, que não ligam a perguntar, que assinam um contrato e esquecem que ele existe. O preço mais baixo é quase sempre reservado a quem está disposto a ameaçar sair. A lealdade, ao contrário do que sugerem os folhetos de marketing, raramente é recompensada. É explorada.

O mesmo mecanismo atravessa o sistema fiscal, só que aí a maioria nem sabe que há um jogo a jogar. As deduções no IRS são os cupões de desconto dos hipermercados, mas quando pagamos os nossos impostos, resume Andersson, e a comparação tem a vantagem de tornar tangível algo que a maioria trata como inevitável. Há descontos. Há categorias. Há um atestado de incapacidade, atribuído a quem soma pequenas limitações médicas até perfazer uma percentagem, que pode significar a diferença entre pagar milhares de euros de imposto todos os anos ou não pagar nada. A informação existe. Está nos sites certos, nas leis certas. O problema nunca foi a falta dela. Foi sempre a distância entre o que está disponível e o que chega às pessoas de forma que consigam usar.

Há ainda uma camada mais funda nisto tudo, que Andersson nomeia sem rodeios: a inércia como traço cultural. As pessoas com capacidade de decidir, diz, muitas vezes não decidem, porque têm medo de errar e de cair em cima de si próprias se a escolha correr mal. Atravessa outras áreas da vida portuguesa, da escolha de um seguro à escolha de um médico, do investimento à mudança de emprego. A abundância de alternativas, que devia facilitar a decisão, acaba por paralisar quem teme escolher mal. Mais vale não decidir, parece ser a lógica implícita, do que decidir e arrepender-se depois.

Essa distância tem uma origem pessoal na vida de Andersson, e é aqui que a sua história deixa de ser sobre dinheiro e passa a ser sobre memória. Em dois mil e oito, era jornalista, a mulher era professora, e os dois viviam sem sobressaltos financeiros, até ao dia em que a Euribor disparou e a prestação da casa duplicou de quatrocentos para oitocentos euros. Estamos a brincar ao quê, lembra ter pensado, um jornalista e uma professora sem dinheiro para pagar a casa que tinham comprado dentro das suas possibilidades. A frase que usa para descrever o que fez a seguir é quase doméstica: sentaram-se à mesa e listaram, ao cêntimo, para onde ia cada euro que ganhavam. Descobriram quase três mil euros por ano a escorrer por hábitos que nunca tinham questionado.

Não há nada de heroico nesse gesto. É, na verdade, bastante administrativo, lento, um pouco humilhante para quem até aí se considerava financeiramente responsável. Mas é desse momento banal que nasce, mais tarde, uma rubrica semanal de televisão, depois livros, depois uma audiência que hoje ultrapassa as setecentas mil pessoas. Há uma ironia a notar aqui, que o próprio Andersson parece confortável em admitir: a sua autoridade sobre dinheiro não vem de uma formação académica em economia, vem de ter errado primeiro e de ter tido o trabalho de perceber porquê.

Essa origem talvez explique porque recusa o rótulo de influenciador e insiste no de educador financeiro, uma distinção que pode parecer semântica mas que define todo o seu método. Não vende a promessa de riqueza rápida. Vende a promessa, mais modesta e mais honesta, de que é possível dormir descansado sem o peso de uma conta por pagar. Chama a isso o sleeping point, o momento em que o dinheiro deixa de ser fonte de ansiedade diária e passa a ser instrumento de escolha. É uma definição de liberdade financeira que não depende de um número de património guardado num extrato bancário. Depende de uma sensação, e talvez seja por isso que ressoa em quem a ouve mesmo sem perceber nada de finanças.

Fica por responder, no entanto, uma pergunta que a própria conversa não resolve, e talvez não devesse resolver. Quanto desta inércia é, de facto, escolha, e quanto é cansaço legítimo de quem já não tem energia para mais uma chamada, mais um formulário, mais uma alínea do IRS para decifrar. Informação é poder e também é dinheiro, diz Andersson, e é verdade. Mas há um custo em transformar cada gesto do quotidiano numa oportunidade de otimização, e ninguém, nem o mais disciplinado dos educadores financeiros, consegue verificar todas as faturas, todos os contratos, todos os anos.

Talvez a pergunta certa não seja quanto dinheiro perdemos por inércia. Seja antes quantas das contas que pagamos hoje, sem olhar, só vamos descobrir erradas daqui a vinte anos, quando já não houver tempo para as corrigir.

A conversa completa com Pedro Andersson está disponível no Pergunta Simples.

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