Um programa com Marta Bateira onde o seu alter-ego Beatriz Gosta entra sem avisar.
Num centro comercial, uma desconhecida aproxima-se de Marta Bateira, abraça-a, diz-lhe que adora o trabalho dela e senta-se à mesa para comer com ela. Acontece-lhe no autocarro, na rua, na esplanada. As pessoas tratam-na como uma amiga antiga. E, quase sempre, a declaração de afeto traz agarrada uma pequena distância: «Tu és uma grande maluca.»
A frase é um elogio e é também uma fronteira. Quem a diz admira a coragem e, no mesmo gesto, põe-se a salvo dela. Marta conhece outra versão, a que lhe repetem depois dos espetáculos: «Tu dizes exatamente aquilo que eu penso e não tenho coragem de dizer.» Pensar é de todos. Dizer fica para ela. Entre uma coisa e outra abre-se uma conta que alguém tem de pagar.
A Beatriz Gosta nasceu de uma ideia simples: gravar histórias como se contam aos amigos. Uma mulher na cama, de manhã, a fazer o inventário da noite. A pastilha, a escova de dentes, as cuecas de reserva na mala. Os sapatos que contam por onde se andou. Nada daquilo era segredo para as mulheres que viram o vídeo. Era apenas coisa que não se dizia em voz alta, e muito menos diante de uma câmara, com boa imagem e luz cuidada.
O riso que se seguiu foi de reconhecimento. Ri-se quem se vê ao espelho sem ter pedido para se ver. O mecanismo é antigo. Os reis tinham bobos a quem se permitia dizer o que os cortesãos calavam, desde que o dissessem a rir e com guizos no chapéu. A licença vinha com o disfarce. Ao bobo concedia-se a verdade e retirava-se a seriedade.
Marta descreve o ofício com menos solenidade. «Às vezes tu vais à mesma mercearia que eu, viste o mesmo que eu, mas tu não viste.» A matéria-prima do humor está à vista de toda a gente. Falta reparar nela e, depois, ter a lata de a levar para um palco.
Essa lata tem um preço, e ela vai dando os números ao longo da conversa sem lhes chamar números. Diz-se extremamente insegura no trabalho, mesmo com o sucesso, convencida de que é «a pior, a menos respeitada». Fala do sotaque do Porto, que na televisão lhe fechou portas. Fala da velha divisão entre a mulher para casar e a mulher para divertir. Quem falava de boémia e de sexualidade ficava do lado errado da linha. O respeito, conta, só chegou quando foi mãe, como se a prova de seriedade fosse ter mantido uma criança viva.
Há uma ironia dura nisto. Aplaude-se em público quem diz o não-dito e cobra-se-lhe a ousadia, em privado, na moeda da credibilidade. A palavra «maluca» trata das duas operações de uma vez: absolve e desqualifica.
O mesmo gesto aparece quando fala da filha. As redes estão cheias de pais sem ecrãs, de brinquedos de madeira e roupa cor de terra. Marta diz ao microfone o que muitos pais pensam e quase nenhum confessa: há dias em que detesta brincar com a filha. Acrescenta logo que a ama. Lembra-se de quando a filha era bebé e andava sempre de nariz a pingar, e de se achar negligente ao rever os vídeos desse tempo. Estava cansada de não conseguir fazer melhor. Ouve-se ali o mesmo inventário da noite anterior, agora aplicado às manhãs de uma mãe exausta. E espreita o mesmo preço. A mãe que admite o cansaço arrisca-se a ser lida como má mãe, tal como a mulher que contava a noite se arriscava a ser lida como mulher sem respeito.
O mais interessante na conversa é que ela própria vai refazendo as contas. A meio, perguntada sobre o peso das palavras que usa, responde sem hesitar: «Podia eufemizar um bocado. Mas é a verdade.» Grava os vídeos no momento em que um assunto a pica e publica quase sempre o primeiro take, porque sem aquela emoção, diz, a mensagem não passa. A palavra crua faz parte do método. Arrisca ofender e conta com isso.
A lição serve muito para lá da comédia. Quem fala com a emoção à flor da pele chega mais depressa e mais longe, e paga o bilhete em mal-entendidos. Num tempo em que o algoritmo devolve a cada um a sua própria voz, a frase mais forte é também a que mais facilmente fica a ecoar dentro da bolha errada.
Marta é também implacável com as pequenas mentiras do seu meio. O elogio obrigatório no camarim, o «estiveste ótima» dito a quem esteve mal, a fotografia tirada para provar que se foi. Prefere quem sai sem dar o beijinho e manda depois uma mensagem honesta. E admite, sem grande esforço, que faz o mesmo que critica: ninguém tem coragem de ir ao camarim dizer que não gostou.
No fim, a conversa dobra-se sobre si própria. A mulher que o país conhece por não ter filtro pede desculpa por ter sido agressiva e diz-se arrependida de não ter usado eufemismos. Defende-os. «Eufemismo não é necessariamente falso. É suavizar um pouco, polir. É um vernizito.»
Seria fácil ler aqui uma contradição. Talvez seja apenas a descrição exata do preço. Quem diz o que todos pensam paga em respeito, em insegurança, em portas fechadas. Quem lima as palavras paga noutra moeda, a de ficar com a suspeita de não ter sido inteiro. Marta parece ter decidido que essa escolha se refaz todos os dias.
A avó dela, a avó Mina, guardava vacas desde os dois anos. Perdeu a filha e o marido e ria-se pouco. Aceitava a vida como ela vinha, sem a obrigação, tão nossa, de ser muito feliz. Talvez nunca lhe tenha ocorrido que dizer as coisas pudesse custar alguma coisa. Ou talvez tivesse pago tanto por outras que aquela conta nem lhe parecia digna de nota.
O verniz deixa ver os veios da madeira. Só impede que alguém se magoe nas farpas.
A conversa completa com Marta Bateira está disponível no Pergunta Simples.
Marta Bateiro
00:00
Toda a gente está viciada e não admite. E eu fui a primeira a admitir. Basicamente, eu quero ver o teu tempo de tela.
00:06
E o teu tempo de tela está… O teu, não necessariamente o tempo de tela das pessoas, está… Passou da marca.
Jorge Correia
00:12
O meu também é catastrófico.
Marta Bateiro
00:14
Passou da marca. Independente se estás no WhatsApp, se estás no Instagram, se estás no TikTok, se estás no Facebook, se passou da marca. Se estás nas pesquisas, no IA e tal. Estás a tragar relações amorosas também. redisciais estão tipo a criatividade as pessoas ficam naquele scroll, quando tu viste já gastaste aqui meia hora até tiram-te horas de sono aquilo está mesmo feito para tu é como outra droga qualquer aquilo está feito para tu te viciares muito, então tipo e o algoritmo ainda por cima entrega o que tu puseste lá e que eu comentaste
Jorge Correia
00:51
Pergunta simples um programa sobre comunicação para quem quer boas respostas Marta Bateira leva um relógio para o palco Explica-me porquê O tempo dos nervos anda a outra velocidade Lá está, o tempo é relativo Quando está aflita, jura que já passaram 20 minutos Quando está à vontade, passa da hora sem dar por isso O país conhece-a por um outro nome Beatriz Gosta A personagem que nasceu num vídeo gravado na cama de manhã Com a noite anterior contada com todos os detalhes Como se conta às amigas O que se leva na mala para dormir fora, o que os sapatos dizem sobre a noite, coisas que, segundo ela, as mulheres não diziam em público. Das tantas coisas que as mulheres não dizem em público. Dez anos depois, na rua chamam-lhe Beatriz.
01:39
Beatriz Gosta, embora muita gente ache que o apelido é Costa. Ela explica o trocadilho e depois explica que ela, de facto, se chama Marta Bateira. É do Porto, foi designer de moda numa agência e numa fábrica de confecções, a picar o ponto todos os dias, fazia rap, andou na estrada com Capicua e hoje faz comédia stand-up pelo país, testando material novo em bares e espaços, de microfone aberto, à espera de ver se o público se ri.
02:06
Nesta conversa, a mulher que fala sem filtro diz coisas que raramente se ouvem a quem vive da imagem. Admite que é muito insegura no trabalho, mesmo com sucesso. Conta que na televisão o sotaque do Porto lhe fechou as portas, que está viciada no telemóvel, diz que é assim com toda a gente, a diferença é que ela o admite e confessa o que poucas mães dizem ao microfone.
02:29
Há dias em que detesta brincar com a filha. E ama. Obviamente ama a sua filha.
02:35
Fala dos pais perfeitos que aparecem na internet, derruba cor de terra e brinquedos de madeira, fala dos almoços com o patrão e do estoque de sorrisos amarelos que se gasta à mesa e abre a oficina dizendo-me como se escreve uma piada por blocos a que chama beats até a última frase que dá o abanão, o riso. Lá para o fim, a conversa muda de tom, aparece a infância vivida sem mãe, sobre a infância vivida com a avó Mina, que guardava vacas desde os dois anos de idade e aceitava a vida como ela vinha. E aparece uma infância em que diz faltou alguém, faltou a mãe.
03:14
Uma nota antes de começarmos. É uma conversa torrencial e muito humana. Convidada, fala aqui como fala em palco ou como fala ali, ao lado, com palavras fortes e temas para adultos.
03:28
Alguns que tocam a sexualidade. Se houver crianças a ouvir, fica o aviso. Convosco, Marta Bateira, no Pergunta Simples.
03:41
Marta Bateira, quero apresentar-te.
Marta Bateiro
03:42
Marta Bateira.
Jorge Correia
03:43
Metade do país se calhar conhece-te como Beatriz Gosta.
Marta Bateiro
03:46
Sou eu.
Jorge Correia
03:47
Uma personagem que tu inventaste há 10 anos.
Marta Bateiro
03:49
Foi a B3G, foi a Capicô que inventou.
Jorge Correia
03:51
Foi a Capicô, ah? Foi.
Marta Bateiro
03:52
Eu estava assim entediada criativamente, o que é que eu vou fazer, um álbum de rap, um que eu não sei, tal e ali, se tu gravasses, tu a contar histórias como contas aos amigos.
Jorge Correia
04:05
As histórias verdadeiras?
Marta Bateiro
04:07
Histórias? Como eu conto as histórias? Porque assim, às vezes tu vais à mesma merceira que eu, tu viste o mesmo que eu, mas tu não vais contar como eu, tu não viste o mesmo que eu.
04:16
Vivenciaste, mas não viste. E eu vou contar, não sei se se pode chamar hiperbolar, não sei se se pode chamar… Mas eu vejo coisas, eu sinto coisas.
04:27
É diferente.
Jorge Correia
04:28
Olha, como é que tu vês coisas? Isso interessa-me porque eu acho que é ser…
Marta Bateiro
04:31
Só observadora, para fazer uma entrevista é preciso tu observares. Tu já tens pré-conceitos também, tu já viveste coisas, já conheces pessoas, e ali tu, queiras ou não, há um pré.
Jorge Correia
04:44
E que são as coisas que te irritam, as coisas que te apaixonam? Tudo é vida,
Marta Bateiro
04:48
a vida como ela é Acontecer
Jorge Correia
04:49
Quando vais na rua e te chamam Chamam-te mais Marta ou Beatriz?
Marta Bateiro
04:53
Chamam-me Beatriz, sempre
Jorge Correia
04:54
A Beatriz Gosta?
Marta Bateiro
04:55
A Beatriz Costa O pessoal acha que eu me chamo Costa
Jorge Correia
04:59
Ah, mas isso é se calhar uma remuniscência histórica, não é?
Marta Bateiro
05:02
Eles não sabem que é Gosta Não percebem o trocadilho Acham mesmo que eu me chamo Beatriz Costa Eu tenho que dizer, não é Gosta com aquele gato Eu tenho que dizer, depois tenho que explicar Não, mas não é Marta
Jorge Correia
05:13
Olha, o que é que a Beatriz Gosta ofereceu à Marta?
Marta Bateiro
05:17
Olha, eu acho que me deu autoestima Acho que ela me deu essencialmente autoestima além de voz que eu acho que eu era carente um bocadinho de ter voz eu já tinha no rap um bocadinho, se calhar só no núcleo do hip hop, só naquele meio e há alguma visibilidade, algum respeitito e tal mas a Beatriz Gosta veio me dar autoestima veio veio Par mesmo Felicidade, é uma felicidade
Jorge Correia
05:50
Eu olho para ti e não me parece nada que tu tenhas um problema de autoestima
Marta Bateiro
05:53
Ah, mas eu sou extremamente insegura No trabalho Extremamente insegura no trabalho
Jorge Correia
05:57
Mesmo com o sucesso que tu tens?
Marta Bateiro
05:58
Mesmo com o sucesso, acho sempre que eu sou a pior A menos respeitada e com o que tenho menos respeito Também porque sou do Porto Acho que o pessoal do Porto tem essa carência
Jorge Correia
06:08
Mas porquê? Qual é a diferença entre o Porto?
Marta Bateiro
06:09
Estamos lá esquecidos Sabes que o dinheiro está tudo cá Os meios estão todos cá
Jorge Correia
06:14
Eu acho que as fábricas estão lá, a economia está lá
Marta Bateiro
06:17
Pois, o dinheiro pode estar lá Mas o dinheiro está cá Os meios de comunicação já fechou tudo lá Fechou tudo lá Veio tudo para cá E agora toda a gente vem viver aqui Ou vives aqui Ou fica só com o bolhão, este CPO, o metro Sabes? Essas coisas marcas, sim Ou então querem o teu sotaque no nome do Porto
Jorge Correia
06:38
Mas isso é bom
Marta Bateiro
06:39
É assim, tudo o que é Porto, sorrinho é do Porto
Jorge Correia
06:41
Não, e o sotaque é bom Quer dizer, o sotaque do Porto, o sotaque dos Açores
Marta Bateiro
06:45
Ah, mas não entra para entrar na televisão Só RTP com 5h à meia-noite é que me deixou E RTP foi a única que me deixou Entrar com o meu sotaque
Jorge Correia
06:52
Se não havia uma tentativa de corrigir
Marta Bateiro
06:54
Não dói na televisão A sério? Eu já não estou habituada, aquilo dói muito
Jorge Correia
06:59
Portanto, não é uma coisa que
Marta Bateiro
07:01
Até quando Na rádio tem aquela dupla Da Catarina Com o A Escalé de Braga Com o Caramba O Blackão gostoso
Jorge Correia
07:14
E mesmo assim
Marta Bateiro
07:16
Ela é a própria ferme E hoje se fala a porto para chuchu E a ferme não se entende Uma chapada
Jorge Correia
07:24
Achas que isso foi uma barreira
Marta Bateiro
07:26
Em algum momento na tua carreira Acho que pode ser Olha para quem está Quem está assim
Jorge Correia
07:34
Estás a falar do mainstream Estás a falar de quem é que está a borbulhar
Marta Bateiro
07:39
Acho que quando estou aí Fiz Antena 3 acho que a Filomena tipo, deu uma oportunidade acho que a RTP1 deu uma oportunidade, fiz alguns programas unidos ao clube, sem forçamento mas, ah, barreira ou então por um tamanho ser picante sabes, eu ser sem filtros eu ser desbocada, eu acho que só quando fui mãe é que tive algum respeito no sentido em que ela não deixou morrer a criança afinal se calhar ela não é assim tão maluca
Jorge Correia
08:05
Porque senão podiam-te desvalorizar, podias sentir-te isso?
Marta Bateiro
08:08
Eu falava de boêmia, falava de sexualidade mulher livre
Jorge Correia
08:14
são coisas boas
Marta Bateiro
08:16
mas não é uma mulher de respeito
Jorge Correia
08:20
uma mulher livre não pode ser uma mulher de respeito
Marta Bateiro
08:22
há sempre essa coisa há sempre essa coisa, a mulher para casar a mulher para divertir-se a mulher de respeito a mulher, sabes?
Jorge Correia
08:31
ainda?
Marta Bateiro
08:33
pouco, menos, muito menos, já conquistamos muitas coisas mas agora está a vir uma onda de conservadorismo pesada onda de conservadorismo muito assustadora
Jorge Correia
08:41
e é o que tu ouves ou o que tu sentes ou o que tu vês ou o que te dizem tudo,
Marta Bateiro
08:45
tudo, tudo, eu gosto de ser assim acabo por partir tudo o cabelo eu gosto, não é? eu vou pôr esse cabelo para partir tudo, tá? eu visto-me assim porque eu gosto, não é? porque aí eu vou partir tudo e eu falo assim porque é assim que eu falo, quando estou animada se tu és meu amigo ali atrás estava assim animada
Jorge Correia
09:02
com um grande abraço
Marta Bateiro
09:08
muito calorosa muito
Jorge Correia
09:10
Olha, ouvi-te no outro dia no teu Instagram declarar uma coisa que acho que muitos de nós estamos a sentir, que é, estou a ficar entre o farto e o viciado nas redes sociais, isto está, vou citar-te de memória, isto está a dar-me cabo do tempo e da criatividade e da lucidez.
Marta Bateiro
09:35
Tudo.
Jorge Correia
09:36
O que é que te está a dar cabo?
Marta Bateiro
09:37
Eu acho que a minha tia ficou muito preocupada porque aquele senhor no Passadeira Vermelha como os comentadores daquele dia eram pessoas que pintaram aquilo de uma forma que não tem nada a ver e desvirtuaram a coisa. O que é que acontece? Toda a gente está viciada e não admite. E eu fui a primeira a admitir. Basicamente, eu quero ver o teu tempo de tela. E o teu tempo de tela está, o teu, não necessariamente o tempo de tela das pessoas, está passou da marca
Jorge Correia
10:09
o meu também é catastrófico
Marta Bateiro
10:10
passou da marca, dependendo se estás no Whatsapp se estás no Instagram, se estás no TikTok se estás no Facebook passou da marca se estás nas pesquisas no IA e tal o que é que acontece? eu trabalho com internet e eu admiti que o tempo de qualidade com a minha filha está a prejudicar muito não é o os likes sim, claro que tu queres ter que é estar ao alcance e isso faz parte do meu trabalho, mas não fica ali à espera, não é ali, não sei o que e deu lá, não sei o que mas é tipo, primeiro se tu não apareces, eu sou muito orgânica não apetece de aparecer na rede, não apareço
Jorge Correia
10:51
O que é ser orgânico?
Marta Bateiro
10:53
Ser orgânico é tipo, há pessoas que gravam x vídeo e programam para postar todos os dias ou 3 vídeos por dia
Jorge Correia
11:00
Fazendo profissionalmente tu de resto usas muito profissionalmente as redes, como é evidente
Marta Bateiro
11:04
Mas eu sou muito orgânica, é tipo, estou aqui de fones, ouvi uma música com o Paulo Cássia e dizia apetece-me abordar este assunto que me está a percantar ou hoje aconteceu-me isto e estou é a mesma lina hora e gosto de fazê-lo porque estou com a emoção certa, então gosto da forma como eu comunico naquela emoção.
Jorge Correia
11:21
E isso vibra. Quando eu comunico
Marta Bateiro
11:23
sem aquela emoção não passa tanto.
Jorge Correia
11:25
Portanto, quando tu vibras quando tu te irritas, quando tu te apaixonas, quando tu te apetece pontapear o mundo ou comer o mundo esse é o momento em que tu vais gravar um vídeo. E tens logo que publicar?
Marta Bateiro
11:37
Eu publico logo, sou capaz de gravar a segunda, mas a maior parte das vezes é a primeira. Eu tenho mais ou menos gira, verdadeira, contra a luz. Mas o que eu te digo, eu acho que aquilo que está a estragar relações amorosas também, está a redir-se a isto, tipo, a criatividade, as pessoas ficam naquele scroll de quando tu viste que já gastaste aqui meia hora, até tiram-te horas de sono.
12:03
Aquilo está mesmo feito para tu, É como outra droga qualquer. Ele está feito para tu te viciares. Muito.
12:10
E o algoritmo ainda por cima entrega o que tu puseste like ou comentaste.
Jorge Correia
12:14
O que tu me estás a dizer é que, em termos de comunicação, o algoritmo te está a fornecer cada vez mais…
Marta Bateiro
12:20
O que tu consomes.
Jorge Correia
12:22
O que tu consomes.
Marta Bateiro
12:22
Ou está para um like, pum, entrega tudo.
Jorge Correia
12:24
E que isso te criou uma espécie de nevoeiro mental.
Marta Bateiro
12:27
Não é minha, tá, gente? O algoritmo está feito para isso. Não sabias isso.
Jorge Correia
12:31
Estamos todos anestesiados.
Marta Bateiro
12:32
O algoritmo é assim que funciona.
Jorge Correia
12:35
E o que é que tu fizeste à vida?
Marta Bateiro
12:37
Eu neste momento por acaso não fiz nada. Ainda não fiz. Eu não pus um pauta na entrada para deixar lá o telemóvel quando vou buscar a minha filha.
12:45
Porque eu tenho um problema. E eu, desde que fui mãe, se eu estiver contigo, eu esqueço-me de estar contigo e ficamos horas sem isto. Mas eu tenho um problema.
12:55
Eu detesto brincar com a minha filha e tenho mesmo que me esforçar para arranjar umas brincadeiras que as duas gostemos porque eu quando estou com a minha filha quando tenho mais tendência tenho um apequantamento uma ansiedade qualquer parece que a penha seca e eu amo-a e perco saídas engraçadas dela olhar para ela e estimulá-la vivermos coisas que nunca vamos viver o tempo passa e às vezes vivi-se com ela estou no carro em grandes conversas antes de dormir grandes conversas Ou faço um jogo com ela E é de rir ou vamos dançar Shakira as duas em altos feats diferentes Mas A maior parte de tempo Às vezes eu quero tipo Deixa-me em paz A maternidade veio Veio Tipo Eu fiquei mesmo muito Suburbada muito Aquilo absorveu-me de uma forma muito inacreditável Porque sou bem salvo Não posso dizer assim Pai, toma
Jorge Correia
13:58
Não estás assim muito exigente contigo própria? Tu acabas de Nesta
Marta Bateiro
14:05
Estou extremamente exigente, não sabias disso
Jorge Correia
14:07
Não, acabei de descobrir
Marta Bateiro
14:08
Extremamente crítica e exigente
Jorge Correia
14:10
Acabei de descobrir nesta frase que por um lado tu dizes Eu não faço o suficiente pela minha filha Eu estou a perder momentos que podia estar a perder Porque uma pedeça a estante estar no telemóvel E depois disparas-me 3, 4 coisas Que são coisas de vivência comum Eu estou com ela e eu danço Shakira, eu tenho uma conversa antes de dormir
Marta Bateiro
14:27
E eu estimulo também para ela ser livre Há ótimas coisas que eu faço com ela E eu estimulo ela a ser Ela tem muita autoestima E tem muita Ela é rápida E como eu sou muito rápida Ela é muito rápida Ela sabe que ela gosta Às vezes eu imagino Eu tenho aplicativo de engate Estou nas aplicações de engate E às vezes ela vê E ela diz assim É feio Horrível
Jorge Correia
14:51
Até tenho medo de perguntar Estás a falar dos tinders da vida
Marta Bateiro
14:55
Dos tinders da vida Não é tindê Tindê é velho Não sei o que É um bumble Ninguém patestina Um bámbalo, um indis, não sei o que Aí eu digo assim, estou a ver uns moços aqui Essas são giros E ela, ui, feio Ela tem uma autoestima Falou-me no outro dia de um rapaz giro lá da turma Ai, ele tocou-me assim no braço
Jorge Correia
15:12
Quantos anos tem a Luísa?
Marta Bateiro
15:13
Tem cinco Só que ela é muito estimulada por mim Por exemplo Eu dou o exemplo, ela imita-me E ela tem-me como referência máxima E eu acho que caráter eu estou atenta ao caráter dela como ela se comporta e vou lá e tal mas eu acho que devia fazer mais coisas mas é que assim, os pais são tão perfeitos também na internet, não é? são tão perfeitos na internet e é sem tela e é sempre estimular e os brincados de madeira e a roupa terracota
Jorge Correia
15:49
é uma mentira como outra qualquer
Marta Bateiro
15:51
acho que é uma baita mentira a minha filha passou eu porque estava sobrecarregada ela passou a… tipo… quando ela era bebê, o nariz estava sempre a pingar ela estava sempre a escorregar agora quando vejo os vídeos eu era mesmo negligente com a minha filha mas estava cansada, não podia fazer melhor
Jorge Correia
16:09
Estavas exausta? Porque ser, lá está, um filho é muito exigente e na tua experiência de…
Marta Bateiro
16:16
Foi trauma mesmo
Jorge Correia
16:17
Foi um trauma?
Marta Bateiro
16:19
Se pegares pesado comigo, choro Trauma, a essa altura Agora o pessoal dizia tu agora que estás agora que me estou conseguindo levantar passado de 5 anos agora que te arranjas não conseguia não só não tinha tempo como perdi autoestima e se calma a depressão que estás ali nem tens tempo para parar a máquina não pode parar e depois às vezes quando ela cresceu e sabes acalmou sabes quando tu tens um trabalho trabalho trabalho trabalho depois acalmou um bocado tu pum vais a pica é o que aconteceu
Jorge Correia
16:53
aguentas aguentas
Marta Bateiro
16:55
aguentas e depois quando até tens uma pauta e aí, bum! Tenho isso, às vezes quando tenho muito trabalho também tenho isso, tenho refaca.
Jorge Correia
17:02
Como é que tu consegues modelar no fundo esses teus períodos hora de exaustão hora de grande êxtase e de sucesso quando vais para um festival de humor? Difícil.
Marta Bateiro
17:14
Não achas que é difícil?
Jorge Correia
17:16
Não sei, eu nunca vivi essa experiência.
Marta Bateiro
17:17
Não das palestras e não saís também daqui e fazes variedíssimas coisas, tipo falar sobre livros ou sobre não fazes coisas assim.
Jorge Correia
17:25
Sim, mas lá está, ter o ego sob controle apertado é sempre uma boa fórmula. Mas tu estás num outro patamar, lá está. Tu estás num patamar em que apareces num sítio, és profundamente amada pelas pessoas, és completamente disruptiva, isso é absolutamente extraordinário. Portanto, tu vives essa experiência do êxtase.
Marta Bateiro
17:45
É muito difícil, dá ressaca.
Jorge Correia
17:47
O que é que fazes nos dias seguintes?
Marta Bateiro
17:48
Com 44 anos, imagina, as viagens são cansativas, o tempo te espera cansativo, comer-se fora, para mim dormir num hotel e o pequenão no seu hotel já não me deslumbrou eu quero ir para casa dormir ir para a minha cama dormir já não, o glamour, é o que nós chamamos já quando andava em turco a Capicô nós chamamos, acho que é o glamour da estrada glamour nenhum, bro tipo ok, não vou cuspir trabalhar no escritório não é?
Jorge Correia
18:15
não aguentavas?
Marta Bateiro
18:16
eu tenho uma vida glamourosa já trabalhei, já trabalhei eu era extremamente infeliz
Jorge Correia
18:21
tu trabalhavas numa fábrica de confeções,
Marta Bateiro
18:22
designer era de moda e tanto trabalhei em agência como trabalhei em fábrica para bater o cartão
Jorge Correia
18:31
de burocrata
Marta Bateiro
18:33
e com costureiras e tudo amiga delas e eu trabalhei nisso e eu queria morrer não queria morrer não era infeliz não odiava o meu trabalho mas era extremamente infeliz ou seja, eu quando penso de quem trabalha tem segurança 13º por isso é que eu luto para que eles tenham melhores condições e defendo uma coisa tu, amarres um patrão é tipo, quase impossível é mesmo raro, pode acontecer e acontece mas a maior parte das vezes tu finges vais almoçar com o patrão e estás a fingir tu gastas o estoque de sorriso amarelo naquele almoço
Jorge Correia
19:13
estás a fingir porque é maneira de sobreviver
Marta Bateiro
19:15
não, tenho que dizer então o patrão tem que ser não sabias que os patrões têm uma carença dita? as carenças são bajulados os patrões têm uma carença e eles convidam-te para almoçar, lá vais tu Para falar bem deles Para ouvir a vida deles, para dizer bem deles Eles querem, que eles dizem maiores
Jorge Correia
19:30
Portanto, não querem ouvir o que é que tu dizes, o que é que tu pensas ou como é que está a tua vida
Marta Bateiro
19:34
O patrão, o patrão é que quer ser abajulado, quer tipo, que máximo que tu és e não sei o que, não sei o que E tens que ouvir e tens que gastar o estoque de sorriso amarão com certeza
Jorge Correia
19:43
E como é que tu aguentavas isso?
Marta Bateiro
19:44
A gente não era a vossa amiga, a gente tem que suportar e fingir
Jorge Correia
19:48
E então, subitamente tu decides dar um grito do Ipiranga, que é fazer um vídeo Que se torna viral Isto é que chega a muitas pessoas
Marta Bateiro
19:56
O Peck Night Foi o Peck Night, falá-lo
Jorge Correia
19:57
Que vídeo é esse?
Marta Bateiro
19:58
Tive sorte
Jorge Correia
19:59
Sorte?
Marta Bateiro
20:00
Não sei se foi sorte Nunca ninguém tinha feito aquilo Vamos ver a verdade Aí bom machar Aí chupem Bom machar Ninguém tinha feito Nunca nenhuma mulher tinha falado assim A qualidade do André Tentougal e do Vasco Mendes Que são realizadores de Capicô Desvia o clip de Capicô E então uma imagem tchanã Espetacular de alta qualidade E estava uma mulher na cama a contar como se fosse domingo e tivesse contado a noite ontem e como é que é uma mulher que saca cabal e sai à noite e que fatura pessoal e que depois de manhã vai haver o multibanco o que é que gastou em shots e que gastou não sabes, e depois quando acorda de manhã para o corte de móvel o multibanco perdeu o que é que perdeu, olha para os sapatos hoje os sapatos contam a história da night levas o pack night que é a chicla a escova de dentes para dar um fresh umas cuecas extra por causa do corrimento sabes? eu mostrei o bastidor
Jorge Correia
20:53
e o que é que torna esse vídeo tão mágico e magnético que…
Marta Bateiro
20:58
as mulheres nunca falavam e ainda hoje algumas não
Jorge Correia
21:04
eu não dito
Marta Bateiro
21:05
eu acho que a partir de B3Gosta de 2015 não me querendo achar empodrei bastante
Jorge Correia
21:12
no fundo tu usaste as palavras e as imagens e disseste e leva-se aqui uma escova dos dentes para lavar os dentes e leva-se aqui uma roupa
Marta Bateiro
21:22
para dormir no gajo, acordas e está antes de beber, não é, tens uma escova já jantaste, já saíste à noite, já veste álcool aquele bafo, uma chiclete já tens umas cuecas freshas estás num chapo chapo no lavatório ali se não tiver um bidé
Jorge Correia
21:36
e isso é uma linguagem comum de muitas mulheres, acontece regularmente era a tua experiência ou era aquilo que tu vias?
Marta Bateiro
21:44
entre as minhas amigas é tudo ok
Jorge Correia
21:45
ou era um não dito?
Marta Bateiro
21:47
Mas ainda hoje, se no shopping Estou a falar com uma dama e diz Tu és uma maluca É visto como uma ganda maluca
Jorge Correia
21:55
No fundo, tu estás a dizer aquilo que nos acontece a todas
Marta Bateiro
21:58
E a todos
Jorge Correia
22:00
E a todos
Marta Bateiro
22:01
É muito agente diz-me assim O humorista acontece muito dizer nisso Tu dizes exatamente aquilo que eu penso e me tenho coragem de dizer
Jorge Correia
22:08
E as pessoas riem se lá está
Marta Bateiro
22:09
Porque se identificam O humorista faz isso
Jorge Correia
22:14
Faz essa ligação às pessoas Olha, diverti-me É quase ameaçador Mas diverti-me no dia em que tu decidiste Dizer, denunciar Tiraste os nomes Homens que te acediam Nas redes
Marta Bateiro
22:30
E ontem meti um barulho
Jorge Correia
22:32
O que é que é meter um barulho?
Marta Bateiro
22:34
Precisamos de uma legenda para explicar o que é que é isso Eu posicionei politicamente Por causa do Brasil, por causa de França Por causa de Portugal, por causa de Espanha Esta semana andei estragada Andei possuída
Jorge Correia
22:45
Andaste zangada com o mundo.
Marta Bateiro
22:46
Zangada com o mundo e não pensava em mais nada. E era aquilo. E acabou.
22:51
E só falava daquilo na internet e acabou. Eu sumi. Disse, peço imensa desculpa, mas é isto que eu tenho para dar.
22:56
Perdão. Não dá para fazer piada. Não estou com sentido de mora porada.
23:01
Entretanto, e veio um indivíduo a dizer tu és linda, mãe. Tu posicionas-te. Eu sei que está há imenso tempo.
23:08
Tu és um máximo. A tua energia. Tipo, ainda por cima agora assim.
23:13
Casal. És mulher para casar. mulher para casar, quando dizem mulher para casar, dizem, uou barulho
Jorge Correia
23:19
barulho é que, zangas-te?
Marta Bateiro
23:20
não, barulho é do tipo, para tudo
Jorge Correia
23:22
isso vem por onde?
Marta Bateiro
23:25
é uma mensagem no Instagram
Jorge Correia
23:27
muito bem e tu recebes muitas mensagens
Marta Bateiro
23:30
eu vi logo, isso que é casado, não é tiracado porque é raro,
Jorge Correia
23:33
como é que se sabe isso?
Marta Bateiro
23:34
a forma como ele escreve o solteiro vem mais a medo por incrível que pareça, o solteiro vem muito a medo, vem assim travado, por exemplo, o casado diz assim, grandes chuchas chuchas é horrível é um termo horrível, já meti na sondagem chuchas é horrível ah, tu estás atualizada, mamas mamas, era em 1900 e não sei o que é sujeitual
Jorge Correia
23:59
do peitão
Marta Bateiro
24:02
e eu disse, e depois eu sabia que ele era só casado, e eu postei a voz dele ele a dizer não sei o que é, tu estás atualizada em 2026 mas este aqui elogiou-me, eu fiz ver o perfil dele pedi do pau e eu sabia que ele era casado mulher e dois filhas e eu mando mensagem e digo, mãe, tu és casado já antes de ter entrado, já disse tu és casado, e ele, como é que tu sabe vais ver no stories, a voz dele o palito saco é tão horrível tão sepo de burro, tão pouco elaborado, de silação tipo que até a moça pensa, uou Ou ele sabe uma palavra. Mas tipo, e ele subestima, nitidamente, que eles sempre subestimaram as mulheres e acham que aquilo ainda pega, mas já não pega.
Jorge Correia
24:51
Achas que é uma relação de domínio?
Marta Bateiro
24:52
Mudou, a mulher mudou, eles não. É isso que está. Criaram o Machosfera, Incels, os Red Pills.
25:03
Esses movimentos que cá tu não sabes, não estás a par, que vêm com esse conservadorismo e vêm com… É do tipo… E eles não querem perder o privilégio e não querem que a mulher ascenda a um cenário.
25:16
E eles, que são preguiçosos, preguiciantes da vida, não querem ver a mulher ascender, não querem perder os privilégios e mais. E nós já não queremos aquilo. E os incelos, que são aqueles que são rejeitados pelas mulheres e ficam com raiva, organizam-se em grupo e batem mulheres e matam mulheres.
Jorge Correia
25:36
Mas porquê que tu compras essas batalhas? Nomeadamente de pessoas que descrevem…
Marta Bateiro
25:40
de homens casados.
Jorge Correia
25:42
Não era melhor bloquear e passar à frente?
Marta Bateiro
25:43
Não, porque vou-te contar uma coisa. Eu estou a criar um movimento das mulheres, em vez de serem as amantes delas chivarem às mulheres o que é que têm em casa. Acabou a mama. O homem sempre teve o melhor dos dois mundos, que era casado e mamava
Jorge Correia
25:56
e comia fora. Deixa-me só fazer uma pergunta. O que é que te contam as mulheres? As mulheres?
Marta Bateiro
26:01
Há umas mulheres da old school, da velha guarda, que dizem assim, se tu vais contar à mulher, ela ainda vai-te culpar a ti. Eu não estou eu não quero saber o que é que ela vai fazer com a informação isso é um problema dela, se ela o deixa hoje ou se o deixa daqui a 20 anos ou se nunca o deixa, isso é um problema dela o que eu estou a dar é as cartas em cima da mesa
Jorge Correia
26:20
As palavras pesam nas coisas que tu dizem tu tens a noção do peso das palavras que tu usas?
Marta Bateiro
26:27
Tenho a noção eu podia eufemizar um bocado assim, tipo mas eu podia eufemizar mas é a verdade
Jorge Correia
26:37
Olha, vamos falar da maneira como tu constróis as tuas histórias e o teu humor Onde é que te inspiras? Como é que tu escreves? Como é que tu constróis isso?
Marta Bateiro
26:49
Assim, a ver coisas assim Coisas que Primeiro coisas que estou atenta, coisas que são tipo parecem mentira
Jorge Correia
26:56
O que é que te faz rir no fundo?
Marta Bateiro
26:59
O cotidiano As coisas do cotidiano Faz-me rir a hipocrisia também faz-me rir sei lá a minha filha faz-me rir mas inteligência muito, coisas mas são as coisas do dia-a-dia, pura e simples as coisas do dia-a-dia não sei explicar assim
Jorge Correia
27:28
e depois tecnicamente o que é que tu faz? isto é, tu olhas para um determinado quadro, uma coisa que aconteceu como é que tu escolhes o que é que vais tornar uma hipérbole maior o que é que tu vais cortar
Marta Bateiro
27:41
estou aqui a falar contigo e veio um assunto que é interessante por exemplo quando tu assinas uma petição e aparece aquela publicidade toda que tu não consegues isso pode ser assunto para comédia é uma coisa que me passo está sempre a aparecer aquela publicidade em cima da petição que eu não consigo preencher a petição não consigo assentar no coisa por exemplo a passadeira aqui és robô ou não és a passear aqui isso é material para comédia isto é passadeira, isto é semáforo não é semáforo
Jorge Correia
28:13
e portanto, tu escreves uma primeira versão
Marta Bateiro
28:16
tu apontas estou aqui, aponto no telemóvel depois envolve a ideia chama-se bit faz um bit
Jorge Correia
28:26
o que é um bit?
Marta Bateiro
28:28
é um bloco que desenvolves que depois fazes vários bits e depois fazes pontos entre eles
Jorge Correia
28:36
e portanto, no fundo são micro-histórias que tu vais contar tem sempre a mesma técnica de contar a história, não?
Marta Bateiro
28:45
pois podes andar ali pode ter punch por normal tem que ter um terminar assim que dá um
Jorge Correia
28:52
o punch é isso, é aquela última frase
Marta Bateiro
28:54
pode ter punchline assim, tipo, dá um dá um fecho ali um abanão
Jorge Correia
29:00
E depois de escreveres a história Depois de teres tido uma ideia Depois de teres tido uma epifania De teres trabalhado Não sei quanto tempo é que demora a fazer um beat O que é que tu fazes com isso? Vais testar? Vais experimentar?
Marta Bateiro
29:11
Vais testar
Jorge Correia
29:12
Com quem?
Marta Bateiro
29:13
E eu que tenho que começar a testar Por norma eu marco assim Tipo maus hábitos X horas Vamos embora Vamos lá ter Ou ferro Vamos lá ter e tal
Jorge Correia
29:22
Mas isso aqui é São sítios onde se experimenta Sítios onde posso
Marta Bateiro
29:24
Abro o microfone e vou Só que por norma é o meu público E eu acho que tenho que começar a aparecer Em sítios que ninguém está a esperar apareça, casas de comédia, cada vez mais há mais casas de comédia aparecerem em sítios que que não há o meu público como por exemplo os homens héteros e conquistá-los
Jorge Correia
29:43
Que táticas é que tu tens aí já pensadas para alargar o teu público?
Marta Bateiro
29:47
Eu tanto no Porto como em Lisboa experimentar material e dar a cara à bofetada, porque é muito cobarde, de certa forma tu experimentares material com o teu público
Jorge Correia
29:56
O que é uma bofetada? E não se rirem?
Marta Bateiro
30:00
Uma bofetada é não se rirem Dar a cara bofetada é tipo
Jorge Correia
30:04
Como é que tu lidas com essa ideia De que alguém pode não se rirem?
Marta Bateiro
30:07
Já fiz espetáculos Não sei como é que são os teus fracassos Mas um fracasso é tipo quando estás num Já aconteceu há alguns, poucos, mas alguns Em que as pessoas não se riem E isso é um desespero Para mim é um desespero Aliás, eu acho que as pessoas riram pouco Não sei como é que a pessoa lidou Mas a pessoa até lidou bem A pessoa até achou que foi o máximo
Jorge Correia
30:26
eu morri o lidar é tu própria ficares frustrada de pensares que não houve essa ligação
Marta Bateiro
30:34
um bom espetáculo depende de vários fatores um bom espetáculo depende de como tu estás, porque tu não és robó depende do público que tu tens Porto Lisboa é uma coisa Chaves Pontelí, Marco de Valdevez Algarve é outra
Jorge Correia
30:50
são diferentes?
Marta Bateiro
30:52
diferentes, muito diferentes
Jorge Correia
30:53
mas de dia para dia ou porque
Marta Bateiro
30:56
Vivem de forma diferente Tu conheceres o senhor da farmácia E conheceres a professora A professora da tua filha É diferente do que em Lisboa
Jorge Correia
31:07
Não te podes rir muito Porque está ali o padeiro
Marta Bateiro
31:09
Mas tu rir de uma centavólogos Mas tu tens um vibra Então escreve muito Eu queria ter-me rido mais Ou manifestado mais Ou ter posto a mão no ar Mas sabes como é que é
Jorge Correia
31:20
Mas sentem-se condicionadas?
Marta Bateiro
31:22
Super mega Mega
Jorge Correia
31:26
Que eu não posso rir
Marta Bateiro
31:28
E mais eu falo de temas assim Os homens então que foram arrastados pelas meninas Eles ficam o mesmo tipo, fica tenso
Jorge Correia
31:34
E tu sentes isso?
Marta Bateiro
31:35
Sim, sentes tudo
Jorge Correia
31:37
Suspeito que te diverte
Marta Bateiro
31:39
Eu acho que também muda a mentalidade Eu acho que os caras tinham que levar com aquilo E levar para casa Agora leva-se com isto e acabou
Jorge Correia
31:47
Mas isso é serapantar isto, lá está Mas tu gostando de tocar esses públicos todos no fundo, tu tens uma ideia do que é que faz um público rir ou não rir
Marta Bateiro
31:56
Depende do público que eu tenho à frente
Jorge Correia
31:59
E trabalhas também atenção no sentido de vou aqui dar-vos uma coisa que vos vou pôr aqui mesmo muito embaixo
Marta Bateiro
32:06
Tem partes tristes partes que as pessoas se identificam tem partes assim que mais galhofa tem interação, eu vou lá quero saber
Jorge Correia
32:21
Metes com as pessoas?
Marta Bateiro
32:22
Lá embaixo, chama o palco
Jorge Correia
32:24
Oh diabo
Marta Bateiro
32:25
Mas não é para humilhar, é para fazermos É mesmo para Estarmos todos juntos numa grande festa Numa grande galhofa
Jorge Correia
32:33
Como é que se cria essa energia coletiva?
Marta Bateiro
32:35
E eles não têm-se especiais, ir ao palco e não esquecem É ter a latosa, eu tenho uma latosa de caras Não há hipótese nenhuma de tu não vês ao palco Não há hipótese absolutamente nenhuma E eu dou um show na mulher mais velha De 80 anos lá
Jorge Correia
32:51
chuchão. E o que é que acontece ao público?
Marta Bateiro
32:53
O público fica tipo já logo, abre logo o cenário, eu entro já, a pessoa já fica tipo, a partir daqui pronto é que ia descambar. E ao mesmo tempo tu
Jorge Correia
33:00
levas para cima do palco histórias tuas, lá está, que podem ser desde uma cirurgia plástica, pode ser das tuas angústias, tu levas tudo para cima do palco?
Marta Bateiro
33:08
Tudo, desde para silicone as créditos 40, por exemplo
Jorge Correia
33:14
Porquê que tu levas isso para um palco?
Marta Bateiro
33:17
Porque realmente não sou só eu por exemplo agora, este problema das mulheres na gordo, no shopping a mulher encontrou-me, abraçou-me, adora-se ao trabalho sentou-se a comer comigo isso no autocarro acontece muito do lado
Jorge Correia
33:28
alguém que tu não conheces do lado
Marta Bateiro
33:31
e as pessoas sentem muito que eu sou amiga delas acontece isso sempre com os humoristas mas acho que comigo é pior porque eu sou mais popular uma pessoa popular
Jorge Correia
33:43
informal muito bem,
Marta Bateiro
33:45
muito informal, muito acessível e então
Jorge Correia
33:48
E eu não quero perder isso
Marta Bateiro
33:50
Porque eu quero saber quanto é que custa o pão Eu quero saber O que é que se passa na vida das pessoas Eu quero Poder frequentar os bares A ver uma cerveja na esplanada
Jorge Correia
34:01
Queres saber o que é que as pessoas te contam também?
Marta Bateiro
34:03
Quero estar normal numa vida normal Eu acho uma seca Uma parte dos famosos é uma seca
Jorge Correia
34:10
Achas?
Marta Bateiro
34:11
Acho
Jorge Correia
34:13
Lá entre vocês, os famosos Os que aparecem na passadeira vermelha
Marta Bateiro
34:19
ouvi um humorista uma vez a dizer assim que desde que fiquei famoso só faz sentido ter amigos famosos porque tu atingiste um estatuto e eles é que vão entender a tua realidade também chegar com os famosos eu faço questão mais de ter o old school que me chama o grande bajoula que me chama à terra e manter-me a mesma Marta do que estar com o pessoal que se calhar tem amigos no meio eu tenho amigos no meio Mas são muito poucos que escondam-se pelos outros
Jorge Correia
34:48
Os humoristas dão-se bem uns com os outros
Marta Bateiro
34:50
Não, não
Jorge Correia
34:51
Há uma rivalidade
Marta Bateiro
34:53
Há uma falsidade É lógico que há
Jorge Correia
34:56
Então, ah Marta, estiveste muito bem neste espetáculo Extraordinário, adorei
Marta Bateiro
35:00
Mas isso não é falsidade Isso é porque tipo Qualquer espetáculo, música ou coisa Tipo, tu tens coragem De vir ao meu espetáculo e não gostar assim de dizer no fim É difícil
Jorge Correia
35:12
Eu acho que mais vale
Marta Bateiro
35:13
Tu não és dar o beijinho no fim acho que mais vale ir embora, mandar-se uma mensagem acho que é muito mais honesto eu odeio, começar a levar ao back 6 dizer assim, opa foi o máximo só vamos para tirar foto, tiramos uma foto e estive aqui
Jorge Correia
35:29
a malta do métier está no espetáculo o espetáculo acaba, nós aplaudimos nós do povo vamos embora e depois vai-se lá atrás do palco
Marta Bateiro
35:39
vai-se ao camarim se eu vou ver o espetáculo lá eu vou ao camarim E por enorme eu gosto de quase todos Estou a entender? Mas, mesmo que eu não gosto Assim, entre nós Vou ser sincera Temos que fazer isso com qualquer espetáculo que a gente vá Vai ter que dar lá um props E não vais dizer que não gostaste Não tenho coragem
Jorge Correia
35:59
O que é que é dar um props?
Marta Bateiro
36:00
É tipo, se estiveste bem, alta cena Tipo E pronto, por exemplo Existe muita coisa de tipo, oferecem-te o convite Que é para tu fazer as publicidades do espetáculo dele E dizer que vais
Jorge Correia
36:12
uma ideia de marketing. Também tem isso. Bom, mas isso também faz sentido, não é? Quer dizer, lá está.
36:16
Uma lá vou outra. Eu pensei nisso, quer dizer, eu vou convidar a Marta aqui porque isso é bom para o podcast.
Marta Bateiro
36:21
É isso, tem isso. Na realidade
Jorge Correia
36:23
não, é mentira, é porque eu queria mesmo conversar contigo.
Marta Bateiro
36:25
Não, mas podes dizer, ah, eu quero dar um up, mas também tu já estás com um já estás num hype.
Jorge Correia
36:29
Dar um up.
Marta Bateiro
36:30
E tu estás com um hype fixe, por isso também não precisava.
Jorge Correia
36:32
Isso é extraordinário. A nova geração, a nova geração, quer dizer, lá está
Marta Bateiro
36:36
eu sou da nova, sou da velha hype, é mesmo velho, já está desatualizado.
Jorge Correia
36:40
Isto é como se fôssemos uma sanduíche de fiambre, vá. Eu estou aqui nos velhinhos e tal, tu estás na intermédia e depois há a tribo dos…
Marta Bateiro
36:48
Eu sou da geração que diz naif, como tu.
Jorge Correia
36:50
Eu gosto. Naif. Mas eu gosto da palavra naif e da palavra óbvio. Óbvio.
Marta Bateiro
36:56
Mas o pessoal que diz naif é aquele pessoal que diz hype e diz up.
Jorge Correia
36:59
Desde que nasceu a tua filha, começaste a cortar palavras no teu dicionário?
Marta Bateiro
37:03
Não, eu só digo que o que eu digo das neiras ela não pode dizer depois de 18 anos. Ela nunca diz das neiras. Às vezes copia e… Só eu. Eu não poupo.
Jorge Correia
37:15
Já compreendes agora melhor a tua mãe?
Marta Bateiro
37:18
Compreendo. Eu não tive mãe.
Jorge Correia
37:19
Não tiveste mãe?
Marta Bateiro
37:20
E então aí já me pegas… Não, eu não peço desculpa porque não… Sempre disseram desculpa.
37:26
Não, e muito da minha questão com a maternidade também tem a ver… Como é que… Ser mãe sem ter sido filha?
37:35
Sabe?
Jorge Correia
37:36
Mas não havia uma tia, uma avó?
Marta Bateiro
37:38
E uma avó menina que era da lavoura E um pai incrível Mas um pai intelectual E uma avó da lavoura Da chachola E então Muito Tive que crescer muito rápido E sou a quarta filha Muito sozinha Eu não tive mãe Não vamos com coisa, não tive mãe
Jorge Correia
38:01
Estava lá mas não te…
Marta Bateiro
38:03
Minha avó não era minha mãe Minha avó era minha avó ela estava no campo, nas botatas e a gente estava por lá agora gostava de dormir com a avó Mina gostava ela dizia, olha porta-te bem que vais descalça para a cama a gente sempre descalça para a cama mas achava que aquele castigo de ir descalça para a cama a gente portava-se logo bem
Jorge Correia
38:20
fazias rir a tua avó?
Marta Bateiro
38:22
não ela tinha um sentido humor muito próprio ela perdeu a filha e o marido então ela ria-se pouco mas ela era uma avó que vendia os ovos do aviário e depois vendia como se fossem as linhas dela aos vizinhos era empreendedora e sempre foi dona de casa e trazia sacos de erva enormes para a autostrada em cima da cabeça pendurados com props para a domina
Jorge Correia
38:52
portanto havia um sofrimento ela não estudou
Marta Bateiro
38:56
ela desde os dois anos que tomava conta das vacas
Jorge Correia
38:59
não estudou mas era claramente uma mulher sabedora
Marta Bateiro
39:03
ela levava a vida as tatuagens não afligiam, as minhas tatuagens não me fazem confusão ela não andava sempre aflita ela aceitava a vida como ela era não havia aquela necessidade como há hoje que temos que ser muito felizes temos que ser muito felizes
Jorge Correia
39:16
e ela não, era uma mulher dura
Marta Bateiro
39:19
aceitava, ela tinha a vida dura
Jorge Correia
39:20
olha, porquê que deixaste o rap?
Marta Bateiro
39:22
por ser cobarda e preguiçosa e madrosa basicamente por isso e por achar que não era tão talentosa e que precisava de muito, muito, muito muito para poder fazer uma coisa boa sim, temos que ir embora eu abri muito eu abri, parti muito no início estou muito arrependida que eu parti muito o início do nosso programa
Jorge Correia
39:44
estás arrependida de ser como és? muito,
Marta Bateiro
39:47
porque eu tenho usado eufemismos eu não usei contigo poderia ter feito uma cena mais chiqueza mais eufemismo
Jorge Correia
39:52
mais chique, mais polida é em vácuo mais falso
Marta Bateiro
40:00
eufemismo não é necessariamente falso é só avisar um pouco polir, é um vernizito.
Jorge Correia
40:04
Então não eras tu?
Marta Bateiro
40:06
Sim. Eu sou mais cara podre, é verdade, mas eu consigo ser eu própria, estou avisando um pouco assim, para a provedora não reprovar. Porque eu levei muito com a provedora, Paula. Paula. Aqui na RTP.
Jorge Correia
40:22
Marta, obrigado por teres vindo.
Marta Bateiro
40:24
Temos que ir embora, não me acredito.
Jorge Correia
40:26
Temos que ir embora.
Marta Bateiro
40:27
Um beijo, eu adoro-te muito.
Jorge Correia
40:29
Mas é só um intervalo.
Marta Bateiro
40:31
Eu quero muito, muito, muito continuar a seguir-te e que faças muito, continuas o teu trabalho, porque tu é impecável. Tu és o… Se calhar és o único que gosta de estar desse lado
Jorge Correia
40:40
e não quer estar deste. Eu vim aqui para te ouvir.
Marta Bateiro
40:43
Ai, adoro. Eu fui muito agressiva, desculpa. Obrigado, Marta. Ah, mas te vejo.
Jorge Correia
40:50
Pergunta simples. Um programa sobre comunicação. Para quem quer boas respostas.
