Quanto custa dizer o que todos pensam? Marta Bateira

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Quanto custa dizer o que todos pensam? Marta Bateira
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Um programa com Marta Bateira onde o seu alter-ego Beatriz Gosta entra sem avisar.

Num centro comercial, uma desconhecida aproxima-se de Marta Bateira, abraça-a, diz-lhe que adora o trabalho dela e senta-se à mesa para comer com ela. Acontece-lhe no autocarro, na rua, na esplanada. As pessoas tratam-na como uma amiga antiga. E, quase sempre, a declaração de afeto traz agarrada uma pequena distância: «Tu és uma grande maluca.»

A frase é um elogio e é também uma fronteira. Quem a diz admira a coragem e, no mesmo gesto, põe-se a salvo dela. Marta conhece outra versão, a que lhe repetem depois dos espetáculos: «Tu dizes exatamente aquilo que eu penso e não tenho coragem de dizer.» Pensar é de todos. Dizer fica para ela. Entre uma coisa e outra abre-se uma conta que alguém tem de pagar.

A Beatriz Gosta nasceu de uma ideia simples: gravar histórias como se contam aos amigos. Uma mulher na cama, de manhã, a fazer o inventário da noite. A pastilha, a escova de dentes, as cuecas de reserva na mala. Os sapatos que contam por onde se andou. Nada daquilo era segredo para as mulheres que viram o vídeo. Era apenas coisa que não se dizia em voz alta, e muito menos diante de uma câmara, com boa imagem e luz cuidada.

O riso que se seguiu foi de reconhecimento. Ri-se quem se vê ao espelho sem ter pedido para se ver. O mecanismo é antigo. Os reis tinham bobos a quem se permitia dizer o que os cortesãos calavam, desde que o dissessem a rir e com guizos no chapéu. A licença vinha com o disfarce. Ao bobo concedia-se a verdade e retirava-se a seriedade.

Marta descreve o ofício com menos solenidade. «Às vezes tu vais à mesma mercearia que eu, viste o mesmo que eu, mas tu não viste.» A matéria-prima do humor está à vista de toda a gente. Falta reparar nela e, depois, ter a lata de a levar para um palco.

Essa lata tem um preço, e ela vai dando os números ao longo da conversa sem lhes chamar números. Diz-se extremamente insegura no trabalho, mesmo com o sucesso, convencida de que é «a pior, a menos respeitada». Fala do sotaque do Porto, que na televisão lhe fechou portas. Fala da velha divisão entre a mulher para casar e a mulher para divertir. Quem falava de boémia e de sexualidade ficava do lado errado da linha. O respeito, conta, só chegou quando foi mãe, como se a prova de seriedade fosse ter mantido uma criança viva.

Há uma ironia dura nisto. Aplaude-se em público quem diz o não-dito e cobra-se-lhe a ousadia, em privado, na moeda da credibilidade. A palavra «maluca» trata das duas operações de uma vez: absolve e desqualifica.

O mesmo gesto aparece quando fala da filha. As redes estão cheias de pais sem ecrãs, de brinquedos de madeira e roupa cor de terra. Marta diz ao microfone o que muitos pais pensam e quase nenhum confessa: há dias em que detesta brincar com a filha. Acrescenta logo que a ama. Lembra-se de quando a filha era bebé e andava sempre de nariz a pingar, e de se achar negligente ao rever os vídeos desse tempo. Estava cansada de não conseguir fazer melhor. Ouve-se ali o mesmo inventário da noite anterior, agora aplicado às manhãs de uma mãe exausta. E espreita o mesmo preço. A mãe que admite o cansaço arrisca-se a ser lida como má mãe, tal como a mulher que contava a noite se arriscava a ser lida como mulher sem respeito.

O mais interessante na conversa é que ela própria vai refazendo as contas. A meio, perguntada sobre o peso das palavras que usa, responde sem hesitar: «Podia eufemizar um bocado. Mas é a verdade.» Grava os vídeos no momento em que um assunto a pica e publica quase sempre o primeiro take, porque sem aquela emoção, diz, a mensagem não passa. A palavra crua faz parte do método. Arrisca ofender e conta com isso.

A lição serve muito para lá da comédia. Quem fala com a emoção à flor da pele chega mais depressa e mais longe, e paga o bilhete em mal-entendidos. Num tempo em que o algoritmo devolve a cada um a sua própria voz, a frase mais forte é também a que mais facilmente fica a ecoar dentro da bolha errada.

Marta é também implacável com as pequenas mentiras do seu meio. O elogio obrigatório no camarim, o «estiveste ótima» dito a quem esteve mal, a fotografia tirada para provar que se foi. Prefere quem sai sem dar o beijinho e manda depois uma mensagem honesta. E admite, sem grande esforço, que faz o mesmo que critica: ninguém tem coragem de ir ao camarim dizer que não gostou.

No fim, a conversa dobra-se sobre si própria. A mulher que o país conhece por não ter filtro pede desculpa por ter sido agressiva e diz-se arrependida de não ter usado eufemismos. Defende-os. «Eufemismo não é necessariamente falso. É suavizar um pouco, polir. É um vernizito.»

Seria fácil ler aqui uma contradição. Talvez seja apenas a descrição exata do preço. Quem diz o que todos pensam paga em respeito, em insegurança, em portas fechadas. Quem lima as palavras paga noutra moeda, a de ficar com a suspeita de não ter sido inteiro. Marta parece ter decidido que essa escolha se refaz todos os dias.

A avó dela, a avó Mina, guardava vacas desde os dois anos. Perdeu a filha e o marido e ria-se pouco. Aceitava a vida como ela vinha, sem a obrigação, tão nossa, de ser muito feliz. Talvez nunca lhe tenha ocorrido que dizer as coisas pudesse custar alguma coisa. Ou talvez tivesse pago tanto por outras que aquela conta nem lhe parecia digna de nota.

O verniz deixa ver os veios da madeira. Só impede que alguém se magoe nas farpas.

A conversa completa com Marta Bateira está disponível no Pergunta Simples.

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