O que esgota os jornalistas? Tânia Gaspar

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O que esgota os jornalistas? Tânia Gaspar
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Costumamos perguntar se o jornalismo ainda é livre, se ainda merece a confiança que um dia teve. Perguntamos sempre pelo produto. Quase nunca perguntamos por quem o fabrica, e em que estado essa pessoa chega ao fim do dia. É uma falha curiosa, porque a resposta a uma coisa depende inteiramente da outra. Não há informação de qualidade feita por gente que mal se aguenta em pé.

Passei uma tarde com a Tânia Gaspar, psicóloga que estuda o trabalho como quem estuda um organismo vivo, e saí de lá com um número preso à cabeça. Quatro em cada cinco jornalistas portugueses já pensaram em deixar a profissão. E, ao mesmo tempo, dois em cada três voltariam a escolhê-la. Podia ser uma contradição, mas é antes um retrato fiel. As pessoas continuam apaixonadas por aquilo que fazem e esgotadas pelas condições em que o fazem. A paixão não paga contas, e mesmo assim ninguém larga a profissão só por isso.

A tese da Tânia é simples de enunciar e incómoda de aceitar. O mal-estar no trabalho não mede a fragilidade de cada um, mede o estado do sistema à volta. Durante anos ensinou-se as pessoas a gerir o stress, a respirar fundo, a serem resilientes. Foi uma forma elegante de dizer a quem sofria que o problema era seu. Quando o desgaste aparece em quatro de cada cinco, deixámos de poder falar em fraqueza individual. Passámos a ter de olhar para a redação, para a chefia, para o horário, para o salário.

Há um momento da conversa que me ficou pela imagem. A Tânia descreve o esgotamento como um percurso, e não como um interruptor que se desliga de repente. Primeiro deixa-se de dormir. Depois de comer com juízo. Depois evita-se as pessoas, precisamente quando elas mais fariam falta. Por fim, o trabalho que se fazia bem deixa de sair, porque a cabeça já não encadeia os pensamentos nem obedece aos prazos. E há um dia em que o corpo fecha. Dito assim, sem drama, percebe-se o que é o burnout, a avaria de quem foi obrigado a funcionar sempre em esforço, e não uma questão de força de vontade.

Depois há o dinheiro, que ninguém gosta de discutir numa profissão que se diz de vocação. Um jornalista ganha, em muitos casos, entre mil e duzentos e mil e quinhentos euros. O problema, dizem eles, nem é tanto o número. É a linha reta que esse número desenha ao longo dos anos. Entra-se com um salário baixo e a promessa de que a experiência há de valer. A experiência chega, o salário fica onde estava. Um vencimento parado durante uma década comunica uma coisa muito clara a quem o recebe, e não é gratidão.

O dado que mais me fez sorrir, de um sorriso amarelo, tem que ver com comunicação. Só um em cada cinco jornalistas sente que sabe a tempo das decisões que se tomam na sua própria redação. Os outros ficam a saber quando já não há nada a decidir. Há uma piada antiga na profissão que resume tudo. Quando queres saber o que se passa no teu jornal, lês no jornal do lado. Quem tem por ofício informar o país trabalha, muitas vezes, num sítio onde a informação por dentro chega tarde e mal. A comunicação interna é o espelho invertido da externa, e o que ele reflete não é bonito.

E, no entanto, a missão resiste. De todas as frases que a Tânia recolheu, a que reuniu mais concordância foi a de que o trabalho tem um impacto positivo na sociedade. Devia ser a melhor notícia do estudo. É também a mais perigosa. Porque quem junta uma missão enorme a condições más é exatamente quem mais arrisca partir-se. Continua a dar tudo por aquilo em que acredita, muito depois de o corpo ter pedido para parar. A entrega, sem cuidado à volta, deixa de ser virtude e passa a risco clínico.

Nem tudo, na conversa, foi sombra. O teletrabalho aparece como a única coisa que estas pessoas avaliam bem, porque lhes devolve algo simples, a possibilidade de gerir o próprio tempo e a própria atenção. Dar autonomia a alguém é uma forma de lhe dizer que se confia nele. E a confiança, ao que parece, também cura.

Fico com a pergunta que levei para casa, e que não é sobre jornalistas. É sobre nós. Uma sociedade que diz querer ser bem informada pode dar-se ao luxo de gastar quem a informa? Podemos continuar a exigir rigor, profundidade e verdade a quem não tem tempo, nem descanso, nem quem cuide dele quando cai? A Tânia deixou três destinos possíveis para quem trabalha assim. Sucumbir, sobreviver, ou viver com qualidade. Admitiu que a maioria, para já, apenas sobrevive. E talvez o primeiro passo para mudar isso seja começar a fazer, a quem nos informa, a pergunta simples que quase nunca fazemos. Como é que estás?

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