Costumamos perguntar se o jornalismo ainda é livre, se ainda merece a confiança que um dia teve. Perguntamos sempre pelo produto. Quase nunca perguntamos por quem o fabrica, e em que estado essa pessoa chega ao fim do dia. É uma falha curiosa, porque a resposta a uma coisa depende inteiramente da outra. Não há informação de qualidade feita por gente que mal se aguenta em pé.
Passei uma tarde com a Tânia Gaspar, psicóloga que estuda o trabalho como quem estuda um organismo vivo, e saí de lá com um número preso à cabeça. Quatro em cada cinco jornalistas portugueses já pensaram em deixar a profissão. E, ao mesmo tempo, dois em cada três voltariam a escolhê-la. Podia ser uma contradição, mas é antes um retrato fiel. As pessoas continuam apaixonadas por aquilo que fazem e esgotadas pelas condições em que o fazem. A paixão não paga contas, e mesmo assim ninguém larga a profissão só por isso.
A tese da Tânia é simples de enunciar e incómoda de aceitar. O mal-estar no trabalho não mede a fragilidade de cada um, mede o estado do sistema à volta. Durante anos ensinou-se as pessoas a gerir o stress, a respirar fundo, a serem resilientes. Foi uma forma elegante de dizer a quem sofria que o problema era seu. Quando o desgaste aparece em quatro de cada cinco, deixámos de poder falar em fraqueza individual. Passámos a ter de olhar para a redação, para a chefia, para o horário, para o salário.
Há um momento da conversa que me ficou pela imagem. A Tânia descreve o esgotamento como um percurso, e não como um interruptor que se desliga de repente. Primeiro deixa-se de dormir. Depois de comer com juízo. Depois evita-se as pessoas, precisamente quando elas mais fariam falta. Por fim, o trabalho que se fazia bem deixa de sair, porque a cabeça já não encadeia os pensamentos nem obedece aos prazos. E há um dia em que o corpo fecha. Dito assim, sem drama, percebe-se o que é o burnout, a avaria de quem foi obrigado a funcionar sempre em esforço, e não uma questão de força de vontade.
Depois há o dinheiro, que ninguém gosta de discutir numa profissão que se diz de vocação. Um jornalista ganha, em muitos casos, entre mil e duzentos e mil e quinhentos euros. O problema, dizem eles, nem é tanto o número. É a linha reta que esse número desenha ao longo dos anos. Entra-se com um salário baixo e a promessa de que a experiência há de valer. A experiência chega, o salário fica onde estava. Um vencimento parado durante uma década comunica uma coisa muito clara a quem o recebe, e não é gratidão.
O dado que mais me fez sorrir, de um sorriso amarelo, tem que ver com comunicação. Só um em cada cinco jornalistas sente que sabe a tempo das decisões que se tomam na sua própria redação. Os outros ficam a saber quando já não há nada a decidir. Há uma piada antiga na profissão que resume tudo. Quando queres saber o que se passa no teu jornal, lês no jornal do lado. Quem tem por ofício informar o país trabalha, muitas vezes, num sítio onde a informação por dentro chega tarde e mal. A comunicação interna é o espelho invertido da externa, e o que ele reflete não é bonito.
E, no entanto, a missão resiste. De todas as frases que a Tânia recolheu, a que reuniu mais concordância foi a de que o trabalho tem um impacto positivo na sociedade. Devia ser a melhor notícia do estudo. É também a mais perigosa. Porque quem junta uma missão enorme a condições más é exatamente quem mais arrisca partir-se. Continua a dar tudo por aquilo em que acredita, muito depois de o corpo ter pedido para parar. A entrega, sem cuidado à volta, deixa de ser virtude e passa a risco clínico.
Nem tudo, na conversa, foi sombra. O teletrabalho aparece como a única coisa que estas pessoas avaliam bem, porque lhes devolve algo simples, a possibilidade de gerir o próprio tempo e a própria atenção. Dar autonomia a alguém é uma forma de lhe dizer que se confia nele. E a confiança, ao que parece, também cura.
Fico com a pergunta que levei para casa, e que não é sobre jornalistas. É sobre nós. Uma sociedade que diz querer ser bem informada pode dar-se ao luxo de gastar quem a informa? Podemos continuar a exigir rigor, profundidade e verdade a quem não tem tempo, nem descanso, nem quem cuide dele quando cai? A Tânia deixou três destinos possíveis para quem trabalha assim. Sucumbir, sobreviver, ou viver com qualidade. Admitiu que a maioria, para já, apenas sobrevive. E talvez o primeiro passo para mudar isso seja começar a fazer, a quem nos informa, a pergunta simples que quase nunca fazemos. Como é que estás?
Tânia Gaspar
00:00
E o burnout pode ser uma situação da pessoa um dia não conseguir se levantar. Não conseguir, não tem força. Não consegue se levantar da cama.
00:08
O burnout é o quê? Deixas primeiro de conseguir dormir. Depois, começas a ficar muito preocupado e não consegues comer, como deve ser.
00:16
Ou então andas a comer muitas coisas estranhas. Depois, acabas por não ter capacidade de relacionar com as outras pessoas. E, portanto, o fato positivo de ter o apoio de alguém, também não tens porque evitas os outros, afastas os outros, estás farto dos outros, não é?
00:31
Depois, a certa altura, muitas vezes fazias muito bem o teu trabalho e não consegues fazer. Não consegues se concentrar, não consegues escrever algo com qualidade, no caso do jornalismo, porque não consegues encadear os pensamentos, não consegues lidar com os prazos. Portanto, de repente, a pessoa vai acumulando, acumulando, acumulando e há um dia que o corpo fecha.
Jorge Correia
00:54
Pergunta simples. Um programa sobre comunicação. para quem quer boas respostas.
01:04
Isto que acabaram de ouvir tem um nome. Chama-se esgotamento, ou como dizem os ingleses, burnout. E aparece mais vezes numa profissão que devia estar inteira.
01:14
A de quem nos informa, a dos jornalistas. Tanigas Par passou os últimos anos a estudar o que faz um trabalho ser saudável ou doente, em várias profissões. Desta vez, escolheu os jornalistas e ouviu 750 profissionais.
01:29
O que encontrou incomoda. Quatro em cada cinco já pensaram em desistir. 80%!
01:36
E mesmo assim a maioria diz que voltaria a escolher ser jornalista. Voltaria a fazer jornalismo. Fiquei a pensar numa coisa simples.
01:45
Aquilo que ouvimos ou lemos todos os dias depende de como está quem fala. Como está a cabeça, como está o corpo, como está a mente, como está a vontade e a energia. E por isso, hoje pergunto, pode haver boa informação feita por quem trabalha em más condições?
02:03
Vamos por partes, com calma, saber o que afinal dói aos jornalistas. O que o está a tornar, na sua grande maioria, profissionais exaustos. Viva!
02:17
Tânia Gaspar, psicóloga, mulher que decidiu doutorar-se em Psicologia e também em Gestão, no fundo, para tentar entender estes dois mundos. é fazer muitas coisas nos últimos tempos à volta de entender esta coisa do trabalho e o que é que nos faz o trabalho as nossas alegrias e as nossas dores à volta do trabalho desta vez decidiste no fundo ir à procura de perceber na classe profissional da qual eu já sou reformado que é como é que está a alma dos jornalistas e como é que os jornalistas estão a viver este mundo do trabalho o que dizem os jornalistas?
Tânia Gaspar
02:54
Portanto, este interesse prendeu-se com tentar compreender grupos personagens de maior risco. Portanto, de alguma forma, nós identificámos algumas variáveis de maior risco e os jornalistas estavam dentro.
Jorge Correia
03:06
Já tinhas feito outras investigações, de outras profissões?
Tânia Gaspar
03:10
Exato. Nós fazemos o Laboratório Psiquias dos Ambientes de Trabalho Saudáveis, faz a avaliação dos ambientes de trabalho em vários setores de atividade, e, portanto, qualquer empresa de vários setores públicos, privados, sociais, etc., pode entrar. Eu comecei por duas áreas que são aquelas que estão mais perto do meu trabalho, que é a saúde e a educação. E depois também comecei a tentar compreender os funcionários públicos versus o setor privado, o setor social, os trabalhadores do turismo. E, portanto, os jornalistas surgiram também, os profissionais de emergência médica, como os bombeiros, e então também surgiu os jornalistas.
Jorge Correia
03:46
O que é que tu vais perguntar às pessoas? O que é que tu vais tentar entender, na maneira como as pessoas se relacionam com o seu trabalho e alguns trabalhos são difíceis, estou pensando em emergência médica, seguramente é um trabalho difícil e desgastante. Vai-se à procura de perceber o quê? Que termómetro é que tu usas?
Tânia Gaspar
04:03
Pronto, vários. Nós temos uma abordagem que nós compreendemos no trabalho que temos feito é que as condições de trabalho não se ligam só ao profissional, ligam-se a todo o ecossistema. Portanto, existem muitas vezes profissionais em empresas iguais que vivem aquela realidade de forma diferente e dois trabalhadores na mesma empresa que vivem, em realidade, de forma diferente. E, portanto, tentar compreender o que é que joga para aqui.
Jorge Correia
04:27
Depende sempre daquilo que as pessoas estão a fazer, mas também do seu contexto pessoal, familiar.
Tânia Gaspar
04:32
E da relação, número um, primeiro, na própria organização, com a relação que estabelece com a cultura da organização, ou seja, nós próprios temos valores, temos as nossas ideias, as nossas crenças e podem estar mais ou menos alinhadas com a organização em que estamos.
Jorge Correia
04:46
Portanto, convém que estejamos a trabalhar num sítio em que nos sintamos identificados com os valores que a empresa ou a organização tem.
Tânia Gaspar
04:54
Exatamente. Por exemplo, hoje em dia, quando estamos às vezes a fazer aulas de pós-graduação em jovens que vão agora entrar no mercado de trabalho, eu pergunto-lhe, então agora, quando vocês forem para uma entrevista de emprego, o que é que vão perguntar à empresa sobre as condições de trabalho? E é um facto, por exemplo, esta questão do bem-estar, da saúde mental, da flexibilidade, do valor, é algo que os jovens põem logo como em primeiro lugar. Portanto, uma empresa que eles considerem muito tradicional, muito focada nos resultados, muito normativa, que não lhes dê espaço, eles próprios não aceitam ficar a trabalhar ali. E,
Jorge Correia
05:26
portanto, no fundo despedem a empresa que os quer contratar.
Tânia Gaspar
05:29
Exatamente. Dizem-lhe eu que não trabalho. E hoje em dia isto nos jovens é muito notório e nas pessoas de outras gerações estão a começar a aprender com isso também.
Jorge Correia
05:37
E, portanto, as empresas têm um problema, não é? Porque se não oferecerem valores modernos, no fundo é disso que estamos a falar, um respeito pela individualidade, uma questão da flexibilidade e afins, dificilmente vão conseguir capturar ou captar recursos humanos de elevada qualidade. Sim,
Tânia Gaspar
05:53
e por outro lado a questão é esta. Acho que há aqui uma dinâmica das duas partes. Portanto, as empresas, há muitos anos, nós trabalhamos nesta área há mais de 15 anos, e ao princípio aparecíamos o Dom Cuxote, portanto ninguém nos ouvia.
06:07
Portanto, esta questão do bem-estar e da saúde mental Toda a gente achava que era uma coisa muito estranha A questão da pandemia Vem efetivamente trazer para as pessoas Eu reflito muito o que aconteceu Na pandemia nas pessoas E o que me parece é que As pessoas experimentaram algo diferente E perceberam que Afinal, aquilo que estavam obrigados a fazer E aquelas ideias que toda a gente lhe tinha vendido Queria trabalhar, era assim Afinal, pode não ser assim E isso abriu uma caixa de Pandora Digamos assim pessoas consideram, mas espera lá, eu afinal posso trabalhar e não estar sempre indo ao trabalho. Ah, eu afinal. E ser produtivo.
06:42
E ser produtivo. Portanto, e conseguir fazer, aliás, até conseguir produzir mais, ainda ontem estava a falar com um colega que me dizia assim, eu esta semana fiquei em casa e trabalhei imenso. E a pensar, estávamos a discutir como é que eu vou colocar esta questão à minha liderança, a dizer, olha, eu esta semana trabalhei mais do que no mês inteiro.
07:01
Porque eu vou para o trabalho, temos os colegas, o barulho, a desconcentração, E eu em casa consigo gerir o meu tempo, consigo gerir a minha atenção. Ele diz que, por exemplo, consegue trabalhar muito bem duas horas, depois tem que parar. E depois tem que trabalhar mais duas horas e parar.
07:14
Tem um ritmo. Tem um ritmo e que funciona super bem com ele, porque naquelas duas horas trabalha por quatro, não é? Se está no trabalho, não consegue fazer isso.
07:21
E, portanto, consegue trabalhar 20 minutos, depois é interrompido e depois tem que voltar atrás. E, portanto, para esta pessoa, não quer dizer que seja igual para todos, porque há pessoas que se lhe disserem que têm que fazer teletrabalho, não conseguem. Dizem que não conseguem estar em casa, não se conseguem concentrar.
07:33
Portanto, isso não é para todos, não é? Mas para aquelas pessoas que o conseguem, no fundo o que as pessoas perceberam é aquilo que estava estabelecido, afinal não é a única forma de. Há outras formas e eu se calhar consigo estar melhor, mais feliz, mais coerente com a minha vida, conciliar melhor a minha vida com o meu trabalho desta maneira.
Jorge Correia
07:51
É uma boa ideia a ideia de se trabalhar e ser feliz. E olhando para o estudo que acabas de fazer à volta dos jornalistas, há aqui uma coisa que eu fiquei de olhos arregalados. Quatro em cada cinco jornalistas já pensou em desistir. O que é que está a acontecer?
Tânia Gaspar
08:12
Eu também posso aqui pôr várias hipóteses explicativas, não é? Portanto, o que nós verificámos, comparando assim, do modo geral, os resultados dos jornalistas com os outros profissionais, nós todos os anos lançamos um relatório e, portanto, temos uma média nacional. Os resultados dos jornalistas têm o mesmo perfil, ou seja, por exemplo, a questão da cultura, ou seja, as áreas onde há maior risco têm a ver com a cultura organizacional, com a relação com as lideranças, com os riscos psicossiciais do trabalho, com a saúde mental e com, efetivamente, haver poucos recursos para a saúde.
08:44
Ou seja, a organização sentir, os trabalhadores sentir. Por exemplo, nós tínhamos aqui um dado que apenas 8% tem acesso a consultas de psicologia, por exemplo. E todos eles dizem que realmente ter a seta a mais consultas de psicologia de forma livre e de uma maneira como aconselhamento, psicoterapia, essas nas suas várias formas era algo que era importante.
Jorge Correia
09:01
Sentem essa necessidade, mas depois não há uma resposta por parte das entidades patronais. Exatamente. Dói-me a alma e ninguém me dá-me a ajuda.
Tânia Gaspar
09:08
Portanto, por um lado, ou seja, comparando os perfis, o perfil é o mesmo, mas os valores médios são um bocadinho menos bons. Ou seja, quando comparamos o gráfico de resultados da população em geral com o gráfico dos jornalistas, embora a tendência seja a mesma, os valores dos jornalistas são piores. Ou seja, por exemplo, a nível dos registros psicossciais da saúde mental são um bocadinho acima da população normal.
Jorge Correia
09:29
De que riscos é que estamos a falar?
Tânia Gaspar
09:30
Estamos a falar, por exemplo, da tristeza, irritabilidade, exaustão física, exaustão psicológica. Portanto, tudo isso, estes sintomas, são descritos como mais fortes nos jornalistas do que na média das outras profissões.
Jorge Correia
09:42
E isto é para levar a sério ou eles estão a exagerar? Este é o ponto. No fundo, é, têm uma consciência maior sobre isto e são mais vocais à volta disto e, portanto, falam disto de uma forma mais aberta. Ou tu achas que a profissão dos jornalistas carrega exatamente esses riscos, até pela inerência da própria função profissão.
Tânia Gaspar
10:01
Nós quando selecionámos este grupo é porque este grupo efetivamente tem maiores riscos. Tem maiores riscos por um lado pelas condições de trabalho, muitas vezes a questão da estabilidade profissional nem sempre está presente. Por outro lado, a questão dos horários e muitas vezes os jornalistas dizem, ah, nós gostávamos de ter um horário de trabalho e gostávamos que as lideranças respeitassem esse horário de trabalho e não gostávamos que quando fosse fora do horário de trabalho não nos coagissem de alguma maneira a dizer ah, mas olha, tem que ser, Era mesmo importante que, se não for de alguém, vai.
10:32
Portanto, ou seja, a ver aqui dá uma maneira, uma forma de levar a pessoa a trabalhar fora do horário de trabalho. Até porque nós sabemos, por exemplo, para conciliar com a vida familiar, se nós temos, nós próprios, imagina, eu tenho aulas de ginástica das 9 às 10, se por acaso eu não consigo manter este horário, se não tiver sempre um horário flexível, quem tem filhos é a mesma coisa, não é? Portanto, esta questão do horário é algo que é muito comum.
10:55
Outra questão tem a ver com estas alterações, nomeadamente a digitalização, e toda esta questão, enfim, hoje em dia do imediatismo e das redes sociais e das notícias, em que os jornalistas são muitas vezes pressionados, e os dados dizem-nos isto, para muitas vezes publicar as notícias, não tendo tempo suficiente, às vezes, para aprofundar a investigação, para tentar validar as fontes de uma forma mais triangulada e, por outro lado, também fazer uma investigação mais rigorosa à volta das coisas. Portanto, é do género. Temos que publicar muito, rapidamente, e não tanto a questão da qualidade e do rigor.
11:34
Eu penso, às vezes penso, porque é que nós vamos para a psicologia? Porque queremos ajudar as pessoas, queremos compreender as pessoas. E eu, por outro lado, também penso que o jornalista, quando pensa que vai para jornalismo, também tem aquela ideia da missão, da verdade.
Jorge Correia
11:45
O serviço público, no fundo, aquilo que nós temos que fazer, que é aquilo que o nosso coração diz que é isto, é a tua missão na tua vida.
Tânia Gaspar
11:51
É uma missão. É uma missão de conseguir, para as pessoas que não têm acesso à informação, poderem dar-lhes a verdade, dar-lhes como é, fazer um acesso a todas as pessoas, dentro das suas diversas condições, terem acesso à informação verídica, para poderem depois tomar decisões, refletir, etc. E, portanto, se não conseguem fazer isso, é por isso que eu acho que existe esta questão de um desencanto, não é? Que é exatamente quando depois chegam à profissão, às vezes, debatem-se com essa dificuldade. Eu, se calhar, então, não consigo ter tempo para conseguir fazer esta investigação rigorosa. eu se calhar não consigo ter o cuidado de diversificar a minha abordagem para conseguir ir a vários públicos e que várias pessoas tenham acesso à informação.
Jorge Correia
12:32
É uma espécie de rolo compressor, no fundo. Tens que publicar muito, muitas vezes, durante muitas horas, porque o relógio das redes sociais é um relógio de 24 horas, aqui e agora depressa, sem garantir, no fundo, tudo aquilo que tu achas que devias ter feito.
Tânia Gaspar
12:51
E outra coisa que é os temas, não é? Às vezes os temas do seu interesse ou os temas que são pertinentes para o jornalista às vezes não são aqueles que estão em cima da mesa ou que estão na moda e portanto às vezes há aqui uma ideia eu gostava de trabalhar isto tenho curiosidade por esta área acho que esta área devia ser explorada mas não posso porque tenho que estar a fazer outras coisas que se calhar não são tanto do meu interesse
Jorge Correia
13:13
Há uma espécie de perda da autonomia da capacidade no fundo sendo uma profissão intelectual de eu não posso no fundo fazer aquilo que me der na gana num determinado momento que eu acho que justifica a função profissão do jornalista?
Tânia Gaspar
13:27
Acho que podia haver um equilíbrio nisso, ou seja, eu acho que temos que pensar que nem todos nós fazemos sempre aquilo que queremos, ou seja, acho que nenhuma profissão conseguimos estar sempre a fazer aquilo que queremos, não é? Mas, por exemplo, no outro dia uma jornalista que me estava a entrevistar disse-me olha, estou muito satisfeita porque agora realmente estamos a dar mais autonomia e mais liberdade de nós irmos podendo escolher alguns temas. Portanto, isto é uma diferença, ou seja, eu também compreendo que se calhar há temas que têm que ser, não é?
13:50
Que estão em cima da mesa, mas que haja algum espaço para dizer, ok, então faz estes três temas que têm que ser, mas depois escolhes um quarto que é aquilo que tu queres desenvolver. Portanto, haver aqui um compromisso entre aquilo que tem que ser feito e que, no fundo, responda um bocadinho ao que é preciso neste momento, mas por outro também dar um espaço ao jornalista para conseguir fazer aquilo que também é importante para ele. E é neste equilíbrio e nesta capacidade que a organização tem de parar e pensar, ok, temos que ir nos dois caminhos.
14:17
Temos que ir no caminho de responder ao negócio, à situação atual, mas também responder àquilo que os nossos trabalhadores acham que é importante, até porque podem realmente acrescentar um valor e acrescentar rigor àquilo que estamos a fazer.
Jorge Correia
14:29
Quando 80% dos jornalistas assume que já pensou em desistir da profissão, isto é um sinal de resistência, porque eles se mantêm, no fundo, a trabalhar enquanto jornalistas, ou de resignação? Olha, é assim, é a vida.
Tânia Gaspar
14:41
Olha, eu tenho vários contactos jornalistas na minha rede e quando mandei o questionário para responderem, Houve vários que me dizem, olha, já não sou, já deixei, sou ex-jornalista, não é? E, portanto, algumas pessoas que realmente acabam por ter outras opções e sentir-se mais desiludidas, não sabemos, pode haver três hipóteses, não é? Pode haver uma desilusão, pode haver outra proposta que tenha sido interessante e a pessoa tenha ido para alguma coisa até mais gira, ou efetivamente a pessoa ter feito um afastamento e depois possa voltar já com outra perspetiva mais realista e conseguir conciliar melhor os seus ideais com aquilo que depois também acontece na realidade.
Jorge Correia
15:18
Porque muitos dos que saem sonham, lá está. Eu até gostava de voltar a fazer jornalismo ou a ser jornalista. Portanto, lá está. Essa marca da paixão mantém-se lá.
Tânia Gaspar
15:27
E depois a questão é a capacidade que a pessoa tem, ela própria e a organização que a recebe, de encontrar um consenso. Porque no fundo é assim, se calhar o ideal não vai acontecer. Mas depois se calhar também não pode ser uma coisa em que nós sentimos que tudo aquilo que é importante para nós está a ser triturado. E portanto, a ver aqui este compromisso. eu vou ter um espaço para fazer aquilo que eu realmente acredito e quero e depois dentro dos limites vou fazer aquilo que hoje em dia é o mainstream e que é a exigência do dia-a-dia jornalístico.
Jorge Correia
15:55
Quando eu li este estudo e está lá muito marcado o que é que são fatores de burnout, vou traduzir por esgotamento no fundo das pessoas, e uma das coisas que mais me surpreendeu, até porque eu estava à espera que, como em qualquer profissão e qualquer vida, há determinadas coisas que é uma canseira a vida, no fundo, não é? Que é perceber que os jornalistas não têm um, não têm dois, têm vários fatores de esgotamento ao mesmo tempo e que estão ali muito claras. Que sintomas são estes?
Tânia Gaspar
16:31
São aqueles que referimos há pouco, não é? Portanto, ou seja, normalmente nós avalamos o burnout por fatores de exaustão física e psicológica, Ou seja, a pessoa estar cansada, acordar cansada.
Jorge Correia
16:41
Não é, hoje estou cansada, o dia foi duro.
Tânia Gaspar
16:43
Não, portanto, aquilo nós falamos, a pergunta é feita nas últimas quatro semanas, portanto, no fundo, não é uma coisa que a pessoa hoje acordou. É, portanto, é algo que até preocupa todos nós, há dias que acordamos mais ou menos animados. Mas se começarmos a sentir que é uma, duas, três, quatro semanas, já não é saudável, não é?
16:58
Portanto, são estes sintomas de exaustão física e psicológica. Depois, o burnout está muitas vezes associado à irritabilidade, ou seja, nós começámos mais a ser intolerantes as coisas que as pessoas dizem ou as coisas normais do dia a dia as pessoas ficam irritadas e depois às vezes acaba por haver uma desistência uma tristeza, não é? E aqui nós, no fundo, estes cinquenta e tal por cento são pessoas que acumulam estas quatro sintomas portanto, ou seja, nós temos uma porcentagem que diz que está por isto outros que dizem que estão irritados isto pode ser às vezes até por género, não é?
17:28
Ou seja, é interessante que o burnout de maior parte das variáveis da saúde mental as mulheres têm muito mais do que os homens aqui embora também haja diferenças de género Mas como inclui esta questão da exaustão física e da irritabilidade, também temos uma grande porcentagem de homens que também consegue expressar o seu mal-estar psicológico através desta forma.
Jorge Correia
17:46
E neste momento a profissão está muitíssimo mais feminina, como de resto na maioria das profissões, e portanto isso sente-se mais. Pessoas que têm, neste caso jornalistas que têm, este conjunto de sintomas continuados, precisam claramente de ajuda, certo?
Tânia Gaspar
18:03
Claro. Ou seja, nós já precisamos destes sintomas, tivermos, de uma forma, imagina, duas semanas seguidas, este tipo de sintoma já devemos, de alguma forma, parar e refletir e pensar o que é que está a pesar, não é? O que é que realmente está a conduzir a estes sintomas.
18:17
Se mantivermos estes sintomas durante quatro semanas, um mês, acaba por ser algo que as pessoas devem procurar ajuda. Depois, depende, há alturas em que a ajuda, por exemplo, com os colegas, com a liderança, com a família, é suficiente. desde que a pessoa consiga parar, identificar e começar a inverter todos os fatores que estavam a conduzir e por vezes esta ajuda já não é suficiente e terá que procurar uma ajuda profissional.
Jorge Correia
18:45
E se ela não acontecer, a fuga para o álcool, que é uma coisa tradicional do jornalismo, ainda continua a acontecer?
Tânia Gaspar
18:52
Temos aqui cerca de 50%, mais de 50% que consome mais álcool do que a OMS recomenda, que são dois copos de bebidas alcoólicas por dia.
Jorge Correia
19:01
Mas podemos estar a falar de uma dependência já? ou apenas um hábito excessivo? Consegues ter essa perceção?
Tânia Gaspar
19:08
Aqui com estes dados não, ou seja, nós temos um indicador que é o que a OMS diz, que é beber, portanto este instrumento não é próprio, mas temos, por exemplo, 25% que toma psicotrópicos, o que de alguma maneira também nos dá a indicação que um quarto já está a utilizar psicotrópicos.
Jorge Correia
19:23
Portanto, há uma dor existencial e do trabalho que depois redunda nestas pontos de saída.
Tânia Gaspar
19:28
Isto no fundo às vezes são instrumentos que a pessoa utiliza para lidar rapidamente, não é? Ou seja, imagina, estou de uma senti cansada, não consigo dormir. Por exemplo, a taxa de hábitos de sono pouco saudável é elevadíssima.
19:40
A questão também do sedentarismo também, o tempo a computador também. E nós sabemos que todos estes fatores influenciam o saúde mental e o bem-estar. E, portanto, se a pessoa não consegue dormir, se calhar toma algo para ajudar a dormir.
19:51
Depois, se a pessoa está muito cansada, toma algo para ficar mais estimulado. Ou seja, a medicação acaba por ser um ramendo que a pessoa utiliza para se ir aguentando. Mas o facto é que se não faz algo mais substancial, a cidade já não aguenta, não é?
Jorge Correia
20:05
Tiveste oportunidade de recolher frases, testemunhos ao vivo, coisas que as pessoas vão dizendo conforme pensam? Sim.
Tânia Gaspar
20:13
O instrumento tem uma parte qualitativa em que as pessoas podem escrever aquilo que dizem.
Jorge Correia
20:17
E o que te dizem os jornalistas?
Tânia Gaspar
20:19
Essencialmente falam muito da questão da flexibilidade e de poderem ter liberdade, de poderem, por exemplo, que as lideranças vão coagir a fazer algo que elas não querem. Também a questão de ter o teletrabalho. Por exemplo, vocês têm um indicador de qualidade de teletrabalho muito mais elevado do que a população normal.
Jorge Correia
20:39
Isto quer dizer o quê? Que o teletrabalho é mais valorizado?
Tânia Gaspar
20:41
É mais valorizado e contribui mais para o bem-estar. Portanto, esta questão da… Porque muitas vezes, hoje em dia, a questão do trabalho em open space, por exemplo…
Jorge Correia
20:51
Na colmeia, no fundo.
Tânia Gaspar
20:51
É muito mais complexo para as pessoas se concentrarem, conseguirem desenvolver o seu trabalho. E, portanto, aqui acabam por ser mais criativos e por conseguir fazer melhor o seu trabalho em teletrabalho.
Jorge Correia
21:01
E valoriza-se mais e conseguem ter acesso a isso? Consegues medir?
Tânia Gaspar
21:05
Ou seja, há mais pessoas em teletrabalho e está muito associado ao bem-estar. Portanto, isto comparado… E depois também as horas…
21:13
Essa parte já não é tão boa, não é? O tempo que passam ao computador também é mais elevado do que muitas outras profissões. Portanto, essa parte é que realmente pode não ser tão saudável porque muito do tempo despendido, mais do que oito horas, é passado ao computador.
Jorge Correia
21:27
Portanto, é um trabalho praticamente escritório, ao invés de lá estar, ir lá contar a reportagem, ver o que é que está a acontecer, trazer de volta. Não é uma novidade em Portugal, é seguramente também uma realidade dos jornalistas, é que há aqui uma questão com o salário. o salário é baixo o número que eu encontrei 1500 euros brutos portanto estamos a falar de 1200 euros grosso modo o que é que um salário comunica como mensagem a uma pessoa além do dinheiro obviamente da sua necessidade quer dizer é preciso ver o preço das casas por exemplo se quisermos conversar isso
Tânia Gaspar
22:06
eu pela parte qualitativa o que eu vejo é que o salário vem à baila mas também muitas vezes por profissionais que falam que não há um acompanhamento do Há Progressão de Carreira. Não há carreira. Exatamente.
22:18
Ou seja, eles sentem que recebem mais ou menos a mesma coisa ao longo do tempo e que isso realmente é considerado uma não valorização. No fundo, uma coisa é tu entrares numa primeira fase e teres um salário mais baixo, mas teres a perspectiva de que se evoluires, se contribuires, se melhorares, etc., que o teu salário vai acompanhar essa evolução. E, portanto, aqui o que eles dizem é que sentem que não há uma evolução entre a carreira e o salário, portanto não acompanha este caminho.
Jorge Correia
22:46
Vais ficando mais experiente, vais ficando melhor profissionalmente, mas apesar disso não te pagam, pelo contrário, se calhar até há uma pressão para te ir embora, para contratar dois mais baratos.
Tânia Gaspar
22:56
E outra questão é que muitas vezes tem trabalho extra, eles falam da questão dos estagiários, ou seja, muitas vezes acabam por ter pessoas a acompanhar, e uma vez uma colega que me contou que os estagiários, como são gerações mais novas, muitas vezes não estão disponíveis a horas fora do trabalho. E portanto ela queria, estava fora do horário de trabalho Tinha que ir cobrir uma reportagem Telefonou ao estagiário Olha, temos que nos encontrar ali às nove E ele, ah não, desculpa lá, eu agora estou aqui com os meus amigos Já estou fora do meu trabalho, amanhã a gente fala E portanto no fundo o estagiário Acaba por não, enfim, enfim
Jorge Correia
23:27
Por ter um problema em vez de dar uma ajuda
Tânia Gaspar
23:30
E portanto no fundo são esses Jornalistas mais séniores Que têm, além do seu trabalho Apoiar outros profissionais Que acabam por fazer aquilo que eles se calhar gostavam de fazer Mas não fazem por uma questão de cultura Por uma questão de hábito
Jorge Correia
23:45
Há aqui um choque geracional também
Tânia Gaspar
23:48
Do modo geral Nós encontramos isto na sociedade E por um lado Os mais jovens são mais frágeis Por exemplo, nós quando comparamos a questão da ansiedade São mais frágeis como? Nesta questão, por exemplo, de lidar Com a adversidade De lidar com a pressão Por exemplo, muitas vezes os jovens Dizem, então o que é um ambiente de trabalho saudável? Ah, não ser pressionado. Portanto, esta questão do chamar pressão, do exigir uma coisa…
Jorge Correia
24:15
E quer nem vir para o jornalismo. É capaz de ser difícil, não é?
Tânia Gaspar
24:17
Pois, jornalismo e mesmo as outras áreas.
Jorge Correia
24:19
Olha, eu queria ir para a emergência médica, mas eu não gosto de pressão nem sangue. Portanto, se não se importa, queria
Tânia Gaspar
24:23
essas duas coisas. Mas está a brincar, mas efetivamente acontece um bocadinho isso, não é? Ou seja, já que esta geração está um bocadinho de sentido. E eu sou professora universitária e sinto isso na universidade.
Jorge Correia
24:33
Então, o que fizemos mal? Como é que nós não preparamos estas gerações? Exatamente para a resiliência E porque há coisas que são difíceis Para fazer, não é?
Tânia Gaspar
24:45
Eu não sei se é mal ou bem, é diferente E depois é um bocadinho geracional Se calhar, quem é que são os pais destes jovens? É a geração X Que foi uma geração que foi um bocadinho Enfim, criada Para a Terceira Guerra Mundial Portanto, ou seja Uma geração que Pronto, ou seja, aquela ideia de Cozinhar a partir do quinto ano De ir a pé para a escola passar a tarde na rua.
Jorge Correia
25:11
Mas enrasca-te no fundo,
Tânia Gaspar
25:12
não é? Exatamente. Estudar com os pais.
25:14
Perguntei lá à nossa geração o que é que estudava com os pais e essas coisas. Não há, não é? E depois, agora de repente os filhos disseram, não, não.
25:21
Eu agora vou fazer isto tudo bem. Portanto, vou estudar com os meus filhos, eles vão ser felizes, o que me interessa é que eles sejam felizes, vou-lhes dar as coisas, porque também essa geração não tinha tanta capacidade económica para dar. Não é tão fácil, não sei se tem a ver com a questão de capacidade económica, mas o acesso não era tão fácil.
25:37
E portanto, estes minhas têm acesso a tudo Grande parte nós perguntamos o que é que queres para o aniversário e eles não querem nada, porque já têm tudo, não é?
Jorge Correia
25:45
Criamos uma redoma com uma almofadinha por baixo. E agora temos um problema.
Tânia Gaspar
25:49
E agora temos um problema, porque temos esta questão. Primeiro se pergunta a percentagem de jovens que continuam em casa e depois isto vai a ver com várias coisas. Claro que as casas estão muito mais caras, mas depois aquele ponto, não é?
26:01
Porque há ali uma questão que a maior parte das pessoas têm que pensar. Quando eu saio de casa, eu vou perder um bocadinho de poder de compra. É natural.
26:08
Faz parte da vida. Faz parte. E aí isto é que às vezes não vai
Jorge Correia
26:11
Até é um bom estímulo para o que é que eu vou construir Da minha vida, as decisões que eu vou tomar Aquilo que eu vou fazer
Tânia Gaspar
26:17
Mas eu conheço jovens que saíram de casa e voltaram para casa A dizer não, não, eu prefiro estar aqui Porque assim eu vou para ali E olha, tenho que pagar as minhas coisas Não posso ir jantar fora Mas isso aconteceu-nos a nós Mas se calhar para nós o equilíbrio O balanço entre uma coisa e outra Se calhar a nossa autonomia tinha um valor Que se calhar hoje em dia pode não ter
Jorge Correia
26:36
E a aventura da vida, no fundo
Tânia Gaspar
26:38
Hoje em dia se calhar o conforto Portanto, ou seja, eu não posso dizer que é pior ou melhor Porque eu acho que todo, porque o facto É que eu cada vez que falo com pessoas Da nossa geração, elas dizem Ah, mas eles é que fazem bem Eu tenho inveja de não conseguir chegar e dizer Olha, tchau, são seis horas, vamos embora
Jorge Correia
26:54
Eu tenho uma melhor qualidade de vida Seguramente e isso resolve Resolve vários problemas A partir do momento em que Esta exaustão Este cansaço se torna um problema, no fundo, sem volta. Conseguimos perceber isso. Porque a sensação, quando te li, é que é um bocadinho de…
27:23
É o Deus dará. Isso é um problema vosso. Estás cansado…
Tânia Gaspar
27:26
E é isso que nós estamos a tentar mudar. Ou seja, é esta a mensagem que se tem que passar, que é a questão do burnout, ou de qualquer sintomologia do trabalhador, é algo do ecossistema. Ou seja, pode ter características do trabalhador, pode ser a altura da vida dele, as expectativas que tinha, as competências que tem, mas é na relação com o trabalho que tem, com as lideranças que tem e com o clima da organização.
Jorge Correia
27:50
Portanto, as empresas deviam cuidar disto e estar preocupadas com isto também.
Tânia Gaspar
27:54
Tanto por elas, porque no fundo se o trabalhador… Eu acho que esta questão da mensagem das organizações perceberem que se os seus trabalhadores não estão bem, também tudo o resto fica mal. Se nós temos uma equipa e há uma pessoa com burnout, toda a equipa fica afetada. Por várias razões. Primeiro porque assiste, se tiver uma relação positiva com os colegas, assiste a uma pessoa que gosta e que não está bem. E angustiamos a todos,
Jorge Correia
28:17
não é?
Tânia Gaspar
28:18
Por outro lado, acaba por subcarregar os outros colegas, que no fundo, como a equipa depois não vai ficar maior, o trabalho sobra para eles.
Jorge Correia
28:24
Vai distribuir.
Tânia Gaspar
28:25
Portanto, e depois há aqui uma percepção de injustiça, pode passar para as outras equipas. Portanto, no fundo, cuidar dos profissionais, estar atento aos profissionais é algo que é bom. E é uma responsabilidade da empresa, quer para ela própria, quer para as pessoas.
28:39
Agora, nós devíamos trabalhar antes, não é? Ou seja, não precisa… Eu, por exemplo, sou psicóloga clínica e tenho pessoas que me chegam com baixa de burnout.
28:46
E se estas pessoas tivessem lá aparecido seis meses antes, o impacto que tinha tido na sua carreira, na sua autoestima, na sua relação com o trabalho, tinha sido muito diferente.
Jorge Correia
28:56
Só pedimos ajuda quando deixamos cair as coisas até ao chão?
Tânia Gaspar
29:00
E o burnout pode ser uma situação da pessoa onde eu não conseguisse levantar. Não conseguir, não tem força. Não consegue se levantar da cama. Não está a fingir, não é uma preguiça.
Jorge Correia
29:09
É mesmo uma coisa que acontece e diz
Tânia Gaspar
29:12
que eu não consigo levantar. Uma característica interessante que as pessoas referem é que mesmo que às vezes as pessoas dizem que a liderança diz que estás muito cansada, então tira a semana e esta semana pode ficar. A pessoa nem que fique uma semana a dormir não consegue. Ou seja, é quase como se fosse algo que está mesmo muito intrínseco à pessoa. Um cansaço que está tão intrínseco que não é por dormir mais, enfim, nem que seja um fim de semana que a pessoa recupera.
Jorge Correia
29:33
Gastamos o tanque de combustível e agora para conseguir fazer um mínimo…
Tânia Gaspar
29:37
Porque pensa assim, o burnout é o quê? Deixas primeiro de conseguir dormir. Depois começas a ficar muito preocupado e não consegues comer, como deve ser.
29:46
Ou então andas a comer muitas coisas estranhas. Depois acabas por não ter capacidade de relacionar com as outras pessoas. E portanto o fato positivo de ter o apoio de alguém, também não tens porque evitas os outros, afastas os outros, estás farto dos outros, não é?
30:00
Depois, a certa altura, muitas vezes fazias muito bem o teu trabalho e não consegues fazer. Não consegues se concentrar, não consegues escrever algo com qualidade, no caso do jornalismo, porque não consegues encadear os pensamentos, não consegues lidar com os prazos. Portanto, de repente, a pessoa vai acumulando, acumulando, acumulando, e há um dia que o corpo fecha, não é?
30:23
E, portanto, já não funciona.
Jorge Correia
30:25
É uma degradação progressiva?
Tânia Gaspar
30:27
No fundo é como se fosse desligando Vamos desgastando Vamos desgastando a nossa energia Vamos desgastando a nossa capacidade Vamos tentando encontrar outros subterfúgios Por exemplo, medicamentosos, álcool, etc E depois isto Há uma altura em que o nosso organismo Físico e psicológico Não aguenta tudo E portanto há uma altura Agora era muito bom que não chegássemos aí Portanto o ideal Porque efetivamente uma pessoa com burnout Pode demorar quase um ano E voltar a trabalhar Ou seja, as pessoas às vezes vão um mês Vão 15 dias para baixo Depois ficam um mês e às vezes 6 meses, um ano Porque depois a certa altura é como se a pessoa caísse em si De repente o cansaço Que a pessoa andou a tentar mascarar A tentar adiar, mesmo até sem consciência disso Há uma altura em que Desgastou tanto, tanto, tanto Que a pessoa está E eu acho que era interessante a gente às vezes mostrar Claro que não podemos mostrar às pessoas Mas para as pessoas perceberem Como é a descrição de uma pessoa Que se sente completamente desgastada
Jorge Correia
31:28
Eu fiquei exaurida
Tânia Gaspar
31:29
Diz assim, eu não consigo, olha, eu não consigo É como se tivesse um período em que Não consegue fazer nada, não consegue pensar, não consegue planear Não consegue ter expectativas E portanto isto depois é um caminho De reconstrução Que é progressivo E depois a pessoa quando volta não pode voltar ao mesmo
Jorge Correia
31:46
E pode voltar ao mesmo?
Tânia Gaspar
31:48
Assim, normalmente O que nós tentamos fazer Eu normalmente tenho três respostas para as pessoas que me veem com o Bernalto Ou sair da empresa Quando é mesmo uma situação que já tinha antecedentes Que a liderança é completamente, enfim Tóxica, que a própria empresa, enfim Ou sair da empresa Ou então voltar Mas nós fazemos mesmo Digamos, uma reintegração Um processo de reintegração com algumas atividades Com horários, com medidas
Jorge Correia
32:15
Ou seja,
Tânia Gaspar
32:16
mesmo com o Excel Muitas vezes faço mesmo o Excel com as pessoas dicas para gerir o seu dia e para apresentar aos recursos humanos para eles terem isso em conta. Porque há muitas estratégias que nós temos para gerir isto. E por grande surpresa, quase todas as empresas aceitam bem.
32:34
Ou seja, não fazem confusão. Não sei se é porque acreditam-me em desnismo, se é porque também têm receio depois de ter alguma penalização por assédio ou algo assim, se não fizerem. Mas o facto é que até hoje não houve nenhuma empresa que dissesse, não, não vamos seguir isto e não vamos fazer isto.
32:50
e continuar na mesma equipa, mas com estas adaptações. Outra forma é ir para a mesma empresa, dependendo da dimensão, para outra equipa, ou seja, para outras funções.
Jorge Correia
32:58
Haver um refrescamento no fundo.
Tânia Gaspar
32:59
Exatamente, ou seja, portanto, tu podes sair, podes ir para o mesmo sítio e para a mesma equipa, mas com todo este reajuste, ou podes ir para a mesma empresa, mas para outro departamento, com outras pessoas, com outro ritmo. Portanto, há estas várias razões, pois cada pessoa tem que ver dentro de si e das suas opções.
Jorge Correia
33:15
Olha, uma das coisas que é fundamental em qualquer comunidade ou comunidade de trabalho, e neste caso os juristas também, mas não deixa de ser curioso para não dizer surrealista, é que os jornalistas querem, obviamente, toda a informação, informação transparente para poder partilhar com a sociedade, mas quando tu navegas e vais à procura de perceber quão bem informados estão os jornalistas enquanto trabalhadores dentro da sua própria organização, a surpresa é que a informação é deficiente. Quão deficiente?
Tânia Gaspar
33:46
Portanto, nós temos aqui também a pergunta, trabalhámos neste estudo com o sindicato dos jornalistas, mas tentámos dar uma forma que houvesse pessoas que eram do sindicato e não, e portanto conseguimos 50-50, ou seja, metade da amostra não é e metade da amostra é. Isso também é bom para conseguirmos perceber a diversidade dos profissionais. Agora, muitas vezes, e aliás nós temos outros estudos que também revelam que as pessoas têm muita dificuldade em ter acesso à informação, por exemplo, legal, à informação dos seus direitos, aos próprios sintomas das doenças. Portanto, enfim, mas até profissionais de saúde. Nós, por exemplo, a literacia em saúde, nós fizemos um estudos sobre a literacia em saúde e os personais de saúde não tinham mais literacia em saúde do que outros profissionais.
Jorge Correia
34:30
Portanto, em casa de Ferreira, respeito de Paulo.
Tânia Gaspar
34:32
Muitas vezes isto acontece, não é? A pessoa não vai… Ou seja, ou não consegue perceber, ou não quer aceitar, ou a informação se calhar também não está…
34:42
Por exemplo, se nós formos a ver a informação, muitas vezes não está tão acessível. Nós temos estado a trabalhar, por acaso, num projeto que é sobre os profissionais com doença oncológica, que é um projeto muito interessante, e começámos a tentar perceber onde é que estava a legislação e está completamente dispersa e perdida. Portanto, mesmo que uma pessoa queira fazer esse estudo, a informação acaba por estar difícil acesso.
35:07
E não sei, o jornalista só poderia aceder a isso, se calhar por um motivo profissional, se calhar por um motivo pessoal, acaba por não ser suficiente para ir à procura disso.
Jorge Correia
35:16
Há uma espécie de inibição de fazer perguntas sobre estes temas, porque este número de 20%, só 20% diz que é informado com antecedência de coisas importantes dentro do seu cosmos da sua redação, portanto 80% diz que não se sente informado, de resto os jornalistas contavam como piada que quando queres saber alguma coisa do teu órgão de comunicação social vais ler no outro, não no teu. Isto é um sintoma quase de uma doença dentro de uma comunidade, onde essa informação devia circular.
Tânia Gaspar
35:51
Ou seja, a comunicação interna é dos indicadores menos positivos nas várias organizações. Não é que não é bizarro. Mas é uma questão, ou seja, 20% é mais, ou seja, vocês mais uma vez têm mais, uma menor percentagem do que as outras pessoas.
36:05
Ainda é pior? Pior do que as outras, ou seja, normalmente é 36%, da média nacional é 36%. O que é que está a passar?
Jorge Correia
36:12
Qual é a tua ideia?
Tânia Gaspar
36:14
Por causa da comunicação. Ou seja, a questão é que dentro de uma empresa, como é que a comunicação é feita? Portanto, a comunicação muitas vezes é feita por internet, por e-mail, que ninguém vê, porque, enfim, temos muitas informações. E muitas vezes essa própria informação…
Jorge Correia
36:30
E a Rádio Alcatifa.
Tânia Gaspar
36:31
E não é só isso. É informação… E o que essa pergunta também revela é que a informação chega, quando chega, e já é uma decisão. Ou seja, no fundo, os trabalhadores recebem factos consumados. Quando o modelo da OMS refere, do shelf workplaces, que é um dos indicadores de ambiente de trabalho saudável, os trabalhadores serem envolvidos e haver uma voz dos trabalhadores nas decisões.
Jorge Correia
36:55
Portanto, tu poderes no fundo contribuir e participar do processo de decisão e não só seres um objeto. Exatamente. Que acontece
Tânia Gaspar
37:01
A para B e ponto final. E em termos de gestão isso não faz sentido porque nós todos sabemos que se os trabalhadores forem envolvidos tanto na análise dos problemas como encontro das alternativas e na seleção das prioridades e das soluções eles vão estar muito mais envolvidos em resolver o problema e portanto se de repente chegas e dizes, olha isto vai ser assim seja bom ou seja mau há uma tendência para a pessoa travar e dizer, não estive envolvida vou rejeitar esta situação, portanto em termos estratégicos seria muito mais interessante, digamos assim envolver as pessoas, porque no fundo às vezes as empresas tratam as pessoas como se fossem crianças, não é? Do género. Olha, eles não vão perceber.
Jorge Correia
37:43
É paternalista?
Tânia Gaspar
37:44
Um bocadinho paternalista, não é? Portanto, eles não vão perceber e nós vamos informar.
Jorge Correia
37:48
Sendo que eu também estou a pensar aqui qual era a das redações, quem é que aceitaria que uma newsletter ou uma intranet fosse feita por não-jornalistas? Também poderia haver aqui este conflito quase dogmático, não é?
Tânia Gaspar
38:00
Sim, deste caso, no vosso caso concreto, ainda poderá ser mais esse ponto.
Jorge Correia
38:03
E jornalistas que não querem escrever newsletters, como é evidente,
Tânia Gaspar
38:06
não é o meu trabalho,
Jorge Correia
38:07
não é?
Tânia Gaspar
38:07
Mas se calhar podíamos parar e dizer, Então, olha, vamos sentar aqui. Acham que as newsletters são algo interessante? Sim ou não?
38:14
Então, quem é que faria estas newsletters? Será que faria um estagiário com supervisão de? Será que seria uma pessoa… Portanto, ou seja, decidirem em conjunto.
Jorge Correia
38:21
Conhecendo bem as redações, isso seria uma discussão aí para seis meses e sem qualquer qualquer decisão no fim.
Tânia Gaspar
38:28
Sim, mas no fundo sabe, a democracia tem esses problemas, não é? Demora mais tempo e às vezes é mais difícil. Mas, por outro lado, quando se consegue encontrar…
38:40
Mas, por exemplo, imagina, nós podemos pôr prazo, há bocado estávamos a falar disso, não é? Podemos dizer assim, nós temos esta questão em cima da mesa, temos que resolver, vamos dar este espaço, se não conseguirmos resolver, passamos a seguir. Mas haver um espaço e um momento…
38:53
Porque, por exemplo, o facto é que é verdade que no dia-a-dia, as pessoas que estão subindo a burocracia, quase todas, não é? É um clássico. Um clássico.
39:01
E não há ninguém que perceba melhor como é que é os empecilhos da burocracia como quem está ali, não é? Agora, por outro lado, quem definiu aquela burocracia, esperemos nós que tivesse alguma lógica.
Jorge Correia
39:11
E alguma razão para o fazer.
Tânia Gaspar
39:12
No fundo tem que haver aqui uma articulação entre as pessoas que estão lá a executar a burocracia conceptualizada por alguém, encontrar aqui porque é que aquilo acontece e se calhar se a pessoa perceber porque é que aquilo acontece já faz com outro sentido, ou então perceber que se calhar há coisas que são realmente repetitivas e que na prática se verifica que não vale a pena. É este encontro, esta comunicação interna, que é fundamental.
Jorge Correia
39:34
Olha, os jornalistas são bons líderes, maus líderes ou não aprenderam nada sobre liderança?
Tânia Gaspar
39:40
Segundo a percepção dos jornalistas sobre os seus líderes, têm muito a aprender.
Jorge Correia
39:45
Também é um clássico.
Tânia Gaspar
39:46
É um facto. Vocês têm dos valores mais baixos sobre, por exemplo, há uma pergunta que é, o meu líder preocupa-se com o meu bem-estar e a porcentagem é mais baixa do que a média nacional.
Jorge Correia
39:57
Isso é exigência ou de facto as coisas não correm bem?
Tânia Gaspar
40:00
É muito fácil o líder ser o bote expiatório também, porque no fundo a liderança acaba por colocar limites, por de alguma forma guiar o trabalho que as pessoas fazem e isso é natural que é sentido de uma forma mais desconfortável. As próprias lideranças também são pessoas e também estão pressionadas com os objetivos que vêm de cima.
Jorge Correia
40:23
Uma sanduíche, portanto.
Tânia Gaspar
40:24
Exatamente. Portanto, no fundo, isso era importante, que as próprias lideranças tivessem espaço para refletir sobre o seu papel e terem tempo para ser lideranças.
Jorge Correia
40:33
E autonomia para isso também, não é?
Tânia Gaspar
40:35
Autonomia em dois limites. Primeiro por causa do tempo. Ou seja, se nós formos ver qual é o papel da liderança, tudo tem a ver com tempo.
40:42
Conhecer a sua equipa, pôr as pessoas a fazer o que elas acharem melhor, ajudar a gerir e prevenir conflitos, não é? Organizar o trabalho, planear o trabalho. Isto tudo precisa de tempo, que não há.
40:53
Porque muitas vezes a liderança também é executiva. Também tem que fazer. Também tem que fazer porque tem que fazer.
40:57
Tem que fazer porque há pessoas que não fazem ela sente que tem que fazer, essas coisas todas. Por outro lado, muitas vezes não há uma perceção de liderança no sentido das qualidades daquela liderança, ou seja, a sua equipa não acha que aquele líder devia estar ali, não é? E que muitas vezes vai para lá por razões que a equipa, do momento certo ou não, acham que não são aquelas que são as melhores.
Jorge Correia
41:19
Portanto, não reconhecem o líder enquanto líder.
Tânia Gaspar
41:21
Não reconhecem o líder como líder, mas têm que reconhecer numa perspectiva formal.
Jorge Correia
41:24
E lá está o caldo entornado, porque se não respeitas o líder achas que o líder foi escolhido pelas más razões?
Tânia Gaspar
41:30
Uma coisa que nós chamamos agressivo-passivo, que é, está bem, está bem vou fazendo, mas vou fazer como eu quero, não é? E portanto acabam depois fica tudo desorganizado, não é? Porque a liderança haveria de ter um objetivo as pessoas vão fazendo as coisas como consideram que conseguem ajustar e às vezes há aqui um desencontro que depois no resultado final enfim, não é bom para ninguém da equipa
Jorge Correia
41:50
E quando não querem fazer, obviamente jogam para o empate e não querem saber do que é que está a acontecer. De todas as afirmações que recolheste, a que reuniu uma concordância maior é que o trabalho do jornalismo, do jornalista, tem um impacto positivo na sociedade. Isto é uma boa notícia.
Tânia Gaspar
42:09
É uma ótima notícia.
Jorge Correia
42:11
É uma missão, portanto, apesar de tudo, apesar dos burnouts, das desgraças, da canseira, do salário que é mau e por aí fora, a missão mantém-se viva. Isto pode ser a melhor das notícias para nós e a pior da notícia para os monolistas?
Tânia Gaspar
42:26
Nem por isso, porque é assim, por um lado, no fundo, há um alinhamento, não é? Portanto, escolheram a profissão por causa dessa tal missão e tentam mantê-la. Por vezes depois confrontam-se com a realidade e há uns que desistem e há outros que se mantêm e há outros que reacucionam a situação e depois tentam encarar a situação de uma perspectiva mais realista.
42:46
Mas, no fundo, ver a nossa capacidade de nós perseguirmos um objetivo, acreditarmos naquilo que estamos a fazer, é um fator positivo, é um fator protetor. Por outro lado, há aqui um problema. Nós, se formos correlacionar o burnout com o engagement, ou seja, o envolvimento no trabalho com o burnout, há ali um grupo de pessoas que têm elevado engagement e elevado burnout.
43:09
Portanto, o grande problema aqui é se a pessoa sentir que o seu trabalho tem um objetivo, é uma missão e que tem que se empenhar nele, mas depois não tem as condições de saúde laboral à volta, Gasta-se. Leva ao Bernal. Porquê? Porque eu vou continuar a lutar por uma coisa que eu acredito, com muito afinco, mas depois, efetivamente, humanamente, em termos físicos e psicológicos, não consigo aguentar.
43:34
Portanto, o ideal era as empresas aproveitarem essas pessoas, que efetivamente têm uma missão, têm um empenho e têm uma grande dedicação, e dar-lhes condições para elas poderem continuar a fazer isso saudáveis.
Jorge Correia
43:45
Quero fechar esta nossa conversa. Como é que salvamos os jornalistas?
Tânia Gaspar
43:49
Por um lado, acho que é importante também haver uma união. Aqui no fundo a união profissional é interessante e sentarem-se um pouco a perceber como é que vão ultrapassar os desafios que têm. Porque é um facto que os jornalistas têm desafios e todas estas alterações laborais afetam muito os jornalistas.
44:09
Como eles trabalham com pessoas e com a sociedade, todas as alterações na sociedade também afetam a sua. Há outra questão, por exemplo, aqui importante, que é que lidam com situações muito sensíveis. No fundo, o jornalista…
Jorge Correia
44:21
São esponjas e vão levando aquilo para casa também.
Tânia Gaspar
44:24
Exatamente. Ou seja, não têm a formação de psicologia para gerir isso. E, portanto, no fundo, há aqui a referir que muitas vezes, cerca de 40%, refere que já teve situações em que precisou de apoio psicológico por causa do trabalho que desenvolve e não teve.
44:37
Portanto, no fundo, também haver aqui uma… Nós temos o trabalho, por exemplo, com as equipas de emergência médica que passam por um psicólogo quando estão em situações de risco, se calhar também era importante quando há situações de grande, quer fisicamente, por exemplo, quando houve esta questão das cheias, etc. As pessoas que estavam continuamente a cobrir estas questões, não é possível, não é? Tem que haver aqui…
44:57
Ou seja, nós conseguimos lidar com o stress e quando há profissões stressantes, elas têm que existir e nós temos que estar capazes de lidar com elas, mas tem que haver condições para nós conseguirmos lidar com elas de forma saudável. Portanto, aqui, no fundo, penso que os jornalistas devem parar um pouco e perceber que têm realmente que reavaliar a sua profissão na situação laboral e da sociedade neste momento.
Jorge Correia
45:24
E no fim disto tudo, tu manteste-te otimista ou pessimista em relação ao futuro de quem nos informa?
Tânia Gaspar
45:32
Eu sou uma otimista, portanto, tenho sempre que acreditar que as pessoas conseguem. que te quero como psicóloga, portanto acredito sempre na transformação e que as pessoas conseguem o seu potencial agora, há duas situações, há três uma é a pessoa sucumbir outra é a pessoa sobreviver e outra é a pessoa viver com qualidade e portanto aí o que é que a gente quer que as pessoas vivam com qualidade e aí é que já não sei, ou seja, sucumbir algumas, viver e sobreviver, se calhar grande parte, e viver com qualidade é aquele desafio
Jorge Correia
46:06
Tânia Gaspar, obrigado
Tânia Gaspar
46:07
Obrigada
Jorge Correia
46:10
Pergunta simples um programa sobre comunicação para quem quer boas respostas Legenda Adriana Zanotto
