Há uma diferença entre as perguntas que acabam em ponto de interrogação e as perguntas que acabam em reticências. As primeiras obrigam a responder. As segundas dão espaço para se dizer o que já se queria dizer. Pode parecer uma distinção menor, gramatical, indiferente. Não é. É talvez a fronteira mais útil que conheço para perceber o estado da nossa comunicação pública.
Quem ainda se lembra do que é uma boa pergunta?
Sentei-me com Carlos Daniel numa tarde de maio, em estúdio, com microfones pelo meio. Ele faz perguntas em direto há mais de trinta anos. Em telejornais, em debates, em entrevistas que toda a gente viu e algumas que toda a gente preferia esquecer. Apresentou pela primeira vez o Jornal da Tarde aos vinte e quatro anos, no dia a seguir à morte de Ayrton Senna. Saiu mais cedo da última queima das fitas. Bebeu menos. Não podia falhar. Hoje, é o rosto mais reconhecível dos grandes debates da televisão pública, e uma das poucas pessoas em Portugal que pode dizer, com legitimidade, que conhece o ofício de perguntar por dentro.
Pedi-lhe que me dissesse o que distingue uma boa pergunta de uma má pergunta, e ele respondeu sem hesitar. Acaba com um ponto de interrogação. As reticências, explicou, são o convite à fuga. Quem responde a uma pergunta vaga pode dizer o que quiser. Quem responde a uma pergunta precisa, ou responde, ou desvia-se de forma visível. E neste tempo em que vivemos, em que toda a gente está treinada para passar mensagens prontas independentemente do que lhe perguntem, a forma da pergunta passou a ser quase tudo o que separa a conversa do ruído.
“Nós apostamos na pergunta“, disse-me. “Eles apostam na resposta.”
A frase é um pequeno diagnóstico do nosso tempo. Os entrevistados de hoje, sobretudo os que representam instituições, partidos, empresas, governos, sabem a mensagem que querem passar antes de ouvirem o que lhes vai ser perguntado. Os melhores respeitam a pergunta e derivam, com elegância, para a mensagem ensaiada. Os outros, mais brutos, ignoram a pergunta de todo. O resultado é o mesmo. A conversa pública tornou-se uma sequência de monólogos preparados em assessoria, interrompidos pontualmente por perguntas que servem apenas como gatilho.
Não é só um problema dos jornalistas. É um problema de qualquer pessoa que precise de obter informação real de alguém treinado para a não dar. Gestores em reuniões. Professores em sala. Médicos em consulta. Pais à mesa do jantar. A profissionalização da resposta tornou-se transversal, e quem pergunta mal aceita o que lhe é servido.
Há outra frase, mais política, que o Carlos Daniel disse a meio da conversa, e que continuou a ecoar depois de ele se ir embora. A lealdade mais importante do jornalista é com o público. Não é ao chefe. Não é ao patrão. O jornalismo só é essencial para a liberdade e para a democracia precisamente pela capacidade de, em algum momento, dizeres: eu não tenho que obedecer a uma instrução.
Esta resposta podia ter sido formulada nos anos sessenta. Podia ter sido escrita num manifesto. Mas não foi. Foi dita, com naturalidade, por alguém que continua a entrar em estúdio todas as semanas, num país em que as redacções se esvaziam, em que os jornais fecham, em que a confiança nos media é mais frágil do que era. E é precisamente por isso que importa. Porque já não há muitos rostos públicos a dizê-lo sem que pareça encenação.
A credibilidade, disse-me ele, constrói-se por acumulação. Não há atalho. Faz-se bem todos os dias e ao fim de muitos anos as pessoas começam a confiar. Mas perde-se num único erro, num único dia, numa única decisão. Esta assimetria, entre a lentidão da construção e a rapidez da queda, define a vida de quem trabalha em direto, sem rede, e devia talvez definir um pouco mais a forma como olhamos para as instituições que ainda merecem que se construa, em vez de se destruir.
Pensei muito, depois desta conversa, nas perguntas que faço mal. Nas que termino em reticências. Nas que respondo sozinho antes que o outro tenha hipótese. Nas que coloco já com a resposta lá dentro, à espera apenas de confirmação. E pensei também, talvez sobretudo, naquelas que não faço.
Há uma frase que Carlos Daniel disse quase como se fosse um aparte. Nós escrevemos para dizer, não escrevemos para ler. Falava do seu trabalho de pivô, da maneira como prepara os textos que vai ler no telejornal. Mas a frase é maior do que isso. É um princípio de comunicação. Quem escreve para ser dito, escreve para a respiração de alguém. Quem escreve para ser lido, escreve para um olho silencioso. São duas economias diferentes, e a maior parte das pessoas confunde-as sem saber. Daí muito do que ouvimos, em discursos, em apresentações, em sermões, em entrevistas, soar a papel a ser engolido, em vez de palavra a ser dita.
Talvez seja esta, no fim, a verdadeira pergunta deste episódio. Não como é que se pergunta bem, mas a quem se está a falar quando se pergunta. Porque a forma da pergunta depende sempre de quem a vai ouvir. Um ponto de interrogação só obriga a responder se a pessoa do outro lado se sentir mesmo interpelada. Caso contrário, qualquer pergunta acaba sempre em reticências, mesmo que a pontuação diga o contrário.
E o ouvinte, do outro lado, também tem responsabilidade. Aceitar as respostas prontas é, à sua maneira, perguntar mal.
A conversa completa com Carlos Daniel está disponível no Pergunta Simples.
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Carlos Daniel
00:00
A nossa lealdade mais importante não é ao chefe nem ao patrão. A lealdade mais importante do jornalista, e é por isso que o jornalismo é diferente, é com o público. É aqueles a quem nós servimos ou devemos servir. Nem que o chefe não goste muito. Nem que o chefe não goste muito, exatamente. O jornalismo só é essencial para a liberdade e para a democracia precisamente pela capacidade de, em algum momento, dizeres eu não tenho que obedecer a uma instrução.
Jorge Correia
00:23
Pergunta simples. Um programa sobre comunicação. Para quem quer boas respostas. O que é uma boa pergunta? Há uma diferença pequena entre uma pergunta que acaba em ponto de interrogação e uma pergunta que acaba em reticências. Pode parecer um detalhe, mas não é. Uma obriga a responder a pergunta feita com ponto de interrogação. A outra, com os três pontinhos, com as reticências, dá espaço para se dizer o que já se queria dizer, para meter a cassete. É nessa diferença mínima, quase invisível, que se joga grande parte da comunicação pública dos nossos dias. Quem pergunta bem, recebe respostas a sério. Quem pergunta de forma vaga, recebe partituras pré-ensaiadas. Convidei o jornalista Carlos Daniel para esta conversa porque há mais de 30 anos que ele faz perguntas em direto a milhares de pessoas, em momentos altos da vida do país, em debates eleitorais, em telejornais, em entrevistas difíceis. E porque, ouvindo-o explicar como pensaste o ofício do jornalismo, percebi que ele tem palavras para uma coisa que muita gente faz mal, sem saber o porquê. A arte de fazer boas perguntas. Carlos Daniel é jornalista de rádio e da televisão desde os 19 anos. Apresentou, pela primeira vez, o jornal da tarde na RTP, quando tinha 24 anos de idade. Hoje é a cara mais reconhecível dos grandes debates da RTP e uma das vozes mais respeitadas do jornalismo português. Antes de começar, um pedido. Se gosta do Pergunta Simples, se gostar deste episódio, subscreva aí na aplicação onde nos está a ouvir. No RTP Play, no Spotify, no YouTube. Em forma mais simples de não perder os próximos episódios e a maior ajuda que pode dar a este trabalho. Aqui está a conversa com o Carlos Daniel. Viva! Carlos Daniel, tu não precisas de ser apresentado. Tu és jornalista, tu és cara de jornal televisivo e tu és moderador de debates difíceis. E eu quero falar sobre isso, que é para saber como é que se mantém a calma no meio daqueles debates em que toda a gente te parece apostada em querer dar cabo do teu trabalho. Ainda gostas de ser jornalista?
Carlos Daniel
02:41
Gosto muito, gosto muito. Eu estou mesmo convencido que é das fases em que me sinto mais feliz a fazer jornalismo. porventura terá a ver com alguma maturidade, com hoje não pensar tanto no que é que eu quero ser daqui a um tempo, quero fazer bem o que faço hoje, e nesse sentido sinto-me, se quiseres, por um lado mais responsabilizado, tenho noção de que o meu percurso me responsabiliza, e portanto se calhar sofro um bocadinho mais por antecipação em relação aos trabalhos do que sofri antes, porque sinto que não posso defraudar quem acredita que eu faço normalmente um trabalho, pelo menos profissional, e competente, mas por outro lado sinto um gozo imenso em estar na antena, em moderar os debates, em fazer jornais, tenho feito menos e tenho saudades disso, e estou mesmo numa fase em que continuo a acordar feliz para ir trabalhar.
Jorge Correia
03:31
Como é que te refrescas mentalmente? Porque ao fim de 30 anos de estar no Ecrã, de estar a fazer a mesma coisa, com algumas variações, como é que te refrescas mentalmente?
Carlos Daniel
03:41
Se quiseres de duas maneiras, uma protegendo o mais possível os fins de semana. A minha vida divide-se hoje muito entre semana e fim de semana. Semana com preocupação permanente com o trabalho, não desligas, mesmo que quando chego a casa e é a segunda parte, tento encontrar o meu espaço, abrir a gaveta do nada, ficar ali algum tempo com um livro, com uma música, com os papéis que é preciso arrumar, e portanto tenho esse meu reduto diário, um respirar às vezes no meio do turbilhão da informação e de tanta coisa que é preciso fazer, mas sobretudo protegendo o espaço que deixo para o lazer, para ver os jogos de futebol que me apetece, para ir ao cinema, ao teatro, sobretudo jantar muitas vezes com amigos, juntar a família e esses são, creio que, os momentos que me permitem depois focar e não sofrer com o facto de ter uma atividade que é, como tu sabes, absorvente, mas se calhar todas são, a nossa é de determinada maneira.
Jorge Correia
04:32
Quando se acaba um debate daqueles complicados, ou um debate eleitoral, ou um jornal televisivo em que acontecem várias coisas e que tu estás com uma adrenalina no máximo, que tu estás, no fundo, a dar tudo de ti, Como é que tu acabas esse momento, esse dia? O que é que acontece nestes minutos a seguir?
Carlos Daniel
04:50
Nesses minutos a seguir acontece vontade de não falar muito do que acaba de acontecer, mesmo que tenha corrido bem e que haja uma série de mensagens simpáticas a tentar fechar o dossiê e normalmente um copo de vinho tinto ajuda a relaxar e a ficar só a pensar em outras coisas, a falar de outros temas com pessoas de quem gosto. Procuro muito isso. raramente vou dormir, se quiseres mesmo, num programa destes semanais, vou dormir logo a seguir ao programa. Há ali um momento de relaxamento que é indispensável para mim, mas para me deslocar um bocadinho do que acabei de fazer. Se quiseres, o exemplo óbvio é ler alguma coisa de ficção. Por exemplo, não estar a pensar logo outra vez em notícias. Ou então há um jogo de futebol que ficou por ver, porque deu à mesma hora, e é um ótimo momento. Ou então discuti-se sobre futebol, ou sobre política com um amigo, mas nada a ver com as coisas que acabei de fazer.
Jorge Correia
05:41
Ligas-te seguramente ao teu WhatsApp da vida e vais batendo umas bolas.
Carlos Daniel
05:45
Olha, menos quando são esses debates. Aí fujo um pouco disso. Não gosto de ter logo aquela catadupa de reações.
Jorge Correia
05:51
Sobre o teu trabalho. Mas tu relevas o que é que as pessoas pensam de ti e do teu trabalho?
Carlos Daniel
05:56
Sim. Tento gerir de forma, sobretudo, a relativizar o que é menos bom. Porque nós tendemos a sobrevalorizar a pessoa que diz que não gostou. Mesmo que não nos diga diretamente. É normal. Mas se tiveres 100 mensagens a dizer ótimo, foste muito bem e há duas que tu não gostaste, vais dormir a pensar naquelas duas e naquele dia é bom não ires a pensar em nada ires a pensar apenas que fizeste de acordo com a tua consciência o melhor que pudeste e falar com duas ou três pessoas que são as que são verdadeiramente
Jorge Correia
06:22
importantes na tua vida. A menos que seja a tua mulher a dizer ao Carlos, diz tu as…
Carlos Daniel
06:27
Sim, mas sim claro, mas sim, a minha mulher sim um ou dois amigos também com quem regularmente falo e que gosto de ter aquela opinião imediata porque… Porque dizem a verdade, não é? Porque me dizem exatamente, o que é que correu bem e menos bem
Jorge Correia
06:38
Olha, no jornalismo a única verdade jornalística é a verdade do quotidiano ou há outra verdade? Há uma verdade jornalística?
Carlos Daniel
06:46
Pois, é uma bela pergunta. Essa verdade provisória, se quiseres, do quotidiano existe e é essa que nós devemos procurar permanentemente. O aqui e o agora. O aqui e o agora, ter a noção, nós podemos não estar a dizer a verdade, mas temos de estar completamente convencidos de que nos aproximamos o mais possível dela. Fala-me disso, não? Eu creio que… Isto tem muito a ver com a ética, se tu quiseres, que é a base maior da profissão. Como é que concretizas a ética? Nós podemos dizer, ah, eu tenho os meus valores, a minha educação, os meus princípios, aquilo que eu aprendi na escola, mas depois tens que executar isto todos os dias. E eu creio que a forma de tu concretizares a tua preocupação ética e deontológica é através de uma ideia de rigor. É a palavra que eu encontro mais concreta para chegares àquilo que é concretizares as tuas obrigações de respeito para o pluralismo, de respeito desde logo por quem nos vê ou ouve, que é a nossa lealdade mais importante, não é ao chefe nem ao patrão, a lealdade mais importante ao jornalista, e é por isso que o jornalismo é diferente, é com o público. É aqueles a quem nós servimos, ou devemos servir. Nem que o chefe não goste muito. Nem que o chefe não goste muito, exatamente. O jornalismo só é essencial para a liberdade e para a democracia, precisamente pela capacidade de, em algum momento, dizeres, eu não tenho que obedecer a uma instrução.
Jorge Correia
07:54
Olha, e quando há essa incerteza, porque ela existe todos os dias, está a acontecer alguma coisa, essa realidade é fragmentária, essa informação vai chegando aos poucos, como é que tu decides, o que é que tu decides dizer ou não dizer quando tu tens apenas ferrapos, apenas pedaços
Carlos Daniel
08:12
dessa realidade? Para já, eu acho que temos que ser justos. Nós temos ferramentas à disposição que nunca nenhum jornalista noutras eras teve para checar a informação, para ter a certeza de alguma coisa que está a dizer. E apesar disso? E apesar disso, não, raras vezes, também pela pressão do tempo, pelo pouco, um número de pessoas que nem sempre é o ideal para alguns trabalhos que existem no jornalismo, como tu sabes, acaba por haver um acelerar por um lado e não raras vezes associado a isto a um certo facilitismo. Eu tento viver o acelerado, mas combater o facilitismo.
Jorge Correia
08:39
Porque não há maneira de dizer às pessoas, olha, esperem aí um bocadinho, que eu agora, durante as próximas três horas, vou aqui investigar a fundo isto, e depois trago-vos aqui 30 segundos.
Carlos Daniel
08:46
Mas daí vais ao início, se quiseres, da minha resposta. Eu tenho é que ter a certeza que nas três horas anteriores eu fiz tudo o que me era possível para ter o máximo de informação sobre os temas que ia tratar. Depois eu posso não ter conseguido chegar à informação toda. Mas a minha aproximação à verdade foi, dentro das minhas possibilidades, o máximo que eu consegui. E essa ideia de rigor, ou seja, eu sobre este tema pode ser a coisa mais simples, mais óbvia que é como é que se diz o nome de alguém de um político estrangeiro como é que se pronuncia? como é que se pronuncia, exatamente eu não gosto de falhar isso tu deves isso às pessoas? deves isso às pessoas o rigor pode ser uma coisa simples como esta mas é obviamente também de saberes como é que se votou na Constituinte nas eleições para a Constituinte que deram a nossa Constituição de 77
Jorge Correia
09:28
mas isso é um acervo de informação gigantesca e com tantas fontes, por um lado com tantas fontes documentais com tanta rapidez e também com um fenómeno novo que é um fenómeno de fontes que não são só interessadas, mas estão interessadas em manipular a informação que passa. São interceiras também. É mais do que isso, não é? Quer dizer, ok, eu defendo este interesse, vou contar uma história ao Carlos Daniel porque me dá jeito, mas aqui já é outra coisa. Eu vou, de uma forma deliberada, não diga enganar-te, mas vou enganar um público através de uma verdade que não é verdade. Uma pós-verdade.
Carlos Daniel
09:58
Sim, nós temos que… Aí, não sei se há uma defesa ideal para evitar isso, mas a forma que eu encontro é tu obteres a maior informação sobre o assunto e seres capaz de, conhecendo o tema, destrinçares. É evidente que no jornalismo depois não há apenas a preparação do momento. Por isso eu acredito que se cresce na profissão também com a experiência, com os anos, obviamente, porque vais acumulando conhecimento. Se não servir para isso, também a idade não serve para mais nada. O resto normalmente traz é problemas. O que nos acrescenta é conhecimento. E nós, se tratamos estes temas, e vivemos, sobretudo à volta, meia dúzia de temas, que são os mais relevantes, verdadeiramente, quais são os grandes temas que nós tratamos? É a política e a economia, dentro da sociedade, a educação e a saúde, a segurança, a justiça, e depois convém que tenhamos uns gostos na área da cultura, do desporto, enfim, para vivermos também o lado mais luminoso e lúdico da vida. Portanto, está tudo inventado. Olha, tu falaste de… Mas é nunca desperdiçarmos a oportunidade de saber um pouco mais. Quando, às vezes, os jovens jornalistas fazem aquela pergunta clássica Já te fizeram a ti muitas vezes o conselho. O conselho é acumular conhecimento, não há um conselho melhor que este. E investir no que se gosta, seremos normalmente melhores a tratar os temas de que mais gostamos. Aqueles que não nos pedem tanto esforço, mesmo que seja algum… Não é o esforço de estás a estudar uma coisa que não dominas minimamente, é alguma que até te dá gozo. E a segunda e mais relevante é, sem dúvida, o acumular conhecimento.
Jorge Correia
11:20
Então e a fronteira entre, por um lado, fazeres perguntas a alguém que sabe supostamente muito mais do tema do que tu, e por outro lado, o teu ímpeto, não sei se o tens, de intervir quando percebes que aquela realidade não é factual ou que tu sabes mais qualquer coisa sobre aquele tema. Isto é, tu és mais conservador nesta relação, respeitas mais a voz do outro ou, pelo contrário, gostas aí de um bate-boca e de testar um bocadinho o conhecimento do outro?
Carlos Daniel
11:48
Sem querer a ser aqui absolutamente consensual, eu acho que me encontro mais ou menos a meio termo.
Jorge Correia
11:55
No fundo é se tu entras no debate ou não entras, não é?
Carlos Daniel
11:56
Sim, para já tens que te estrinçar. Estás a fazer uma entrevista ou estás a moderar um debate? São coisas diferentes. Qual é a diferença? A diferença é que uma entrevista tu estás num confronto com o convidado. Vais à procura da notícia? Vais à procura da notícia, vais à procura de criar algum desconforto, até. Normalmente uma entrevista, e estamos aqui a pensar numa entrevista clássica de atualidade política, se não é uma entrevista de vida, não vais criar um desconforto se fores a entrevistar o Cisa Vieira. Não é disso que estamos a falar e eu adoraria fazer uma entrevista de vida ao Cisa Vieira. E ele não fala muito, não é? Não, e ele não fala muito, mas o Souto Moura também serve, já fala mais. Enfim, estes grandes nomes da nossa cultura, neste caso da nossa arquitetura, são, como em tantas áreas do conhecimento, são nomes extraordinários, e se fores fazer uma entrevista de vida é outra coisa, portanto não vamos confundir, a missão do jornalista não é sempre necessariamente criar desconforto. Agora, quando estamos a falar da atualidade política, é evidente que eu mesmo no programa que faço agora, no choque ideológico, eu tento preparar dentro de cada tema aquela pergunta que mais pode perturbar um pouco a resposta de cada um dos comentadores. Outra coisa é, a partir desse momento inicial, que é meu, o lançamento do tema e das perguntas, eu tenho de perceber que o debate não é comigo. O debate, pois, é entre as pessoas que ali estão, com perspectivas do mundo diferentes, ideologias diferentes, opções políticas concretas diferentes, e aí tens que separar as águas. Mas quando fazes uma entrevista mais longa, seja num jornal, seja num programa especial, aí sim, tu vais, depois cada um tem o seu método, mas vais por… Pergunto isto, a resposta pode vir daqui ou dali, Se vier dali eu tenho uma alternativa de nova pergunta. Se vier de outro ponto eu tenho um outro tipo de pergunta que posso. A seguir quero ir a outro tema, mas sou eu que estou ali naquele… Chamo-lhe confronto, mas não confronto literal, porque são sempre posições diferentes. Mas é tu estás a confrontar alguém neste sentido, sim. No caso da moderação tu tens, no fundo, estás como o cozinheiro ali a ver os temperos… E entra a segunda parte do que tu perguntavas. A tua pergunta é ótima, mais uma que é o que eu não posso deixar passar por regra é a inverdade factual. É aquilo que é evidente que hoje vivemos num tempo em que isto da consensualidade e do facto, até isso está a ser discutido, não é? Mas há dados que são objetivos. E quando é objetivo, uma vez tive-me um debate, alguém que dizia, bem, a pandemia só matou, não sei se eram 200 ou 300 pessoas em Portugal. E eu disse, não, na altura os números que estavam contabilizados, era da ordem das 20 mil pessoas que tinham morrido. Umas com Covid, outras em consequência de Covid. Mas não podia deixar que ficasse esta ideia de que só morreram 200 ou 300 pessoas. estas são as inverdades factuais que competem o jornalista não deixar no ar. Outra coisa é tu não concordares nada com o que aquela pessoa está a dizer, ela está a fazer até uma leitura da realidade distorcida, mas é a leitura dela e há lá outras pessoas que vão fazer a leitura delas em confronto e aí não és tu. Portanto, a linha que eu tento traçar é não entrar no debate, respeitar as opiniões e corrigir os factos relevantes que
Jorge Correia
14:48
não são verdadeiros. Já que tu falaste do Cisa Vieira e de outras pessoas que nós sabemos e imaginamos como muito interessantes por tudo para poderem ser objeto de uma entrevista, como é que tu te preparas? Se é que tu te preparas muito? Qual é a parte intuitiva? Qual é a parte racional? Por exemplo, quando tu vais entrevistar alguém com esse calibre, com esta importância?
Carlos Daniel
15:13
Eu sou um pouco obsessivo com a preparação e como te disse logo no início, se calhar hoje responsabilizo-me ainda mais e e trabalho ainda mais a preparar também, porque temos mais fontes para onde ir buscar a informação, porque me desculparei menos se não tiver ido fazer esse trabalho, mas é um trabalho… Normalmente eu acho que tu tens duas dimensões para preparar e que eu aplico, grosso modo, quase tudo o que faço com alguma envergadura. Não apresentar um jornal, não necessariamente, mas que é, por um lado, documentares tu, portanto, pesquisares o máximo, recuperares-te, tens uma ideia de alguma coisa que aconteceu, mas tens de ter a certeza que aconteceu. eu penso que aquela pessoa terá dito isto algum dia. Eu tenho que ir para a entrevista ou para o debate tendo a certeza absoluta do dia em que aquela pessoa disse, onde disse, para se eu quiser usar, naquele momento eu poderia dizer, não, mas disse isto neste dia. Isso te enganares? Como é que lides com isso? Tenho que assumir que me enganei. O erro faz parte, o erro é a nossa liberdade. Voltamos à pergunta. Como é que tu constrais as tuas perguntas? E depois, estava a dizer-te isso, portanto, pesquisa muito individual, depois, duas ou três pessoas que eu gosto de ouvir, dependendo dos temas, Claro que há câmaras de trabalho que sabem mais sobre umas áreas do que sobre outras. Há pessoas da área da academia que são meus amigos e a quem eu recorro quando também tenho dúvidas e quero saber o que é que aconteceu. Pessoas que estão ligadas aos mais variados meios profissionais. Portanto, há ali duas ou três pessoas que em cada tema eu gosto de ouvir porque te ajudam a perceber melhor alguma coisa que tu leste e por falta de background tu não consegues apreender na totalidade.
Jorge Correia
16:43
Leram eles e tu aproveitas esse conhecimento?
Carlos Daniel
16:45
Sim. Ou eu li e digo, olha, li isto, mas não percebi exatamente o que é que isto quer dizer. ajuda-me lá a perceber. E pode ser uma coisa de saúde como pode ser uma coisa de economia. Não raras vezes me aconteceu isto, como é evidente. E a terceira dimensão é depois fazer as perguntas, preparar as perguntas e tento, e sou eu outra vez juntando, se quiser, o que eu pesquisei, o que eu recolhi e muitas vezes se for um trabalho de maior responsabilidade partilhando depois as questões essenciais com pessoas também que eu confio e que me dirão, pá, eu não ia por aí se calhar perguntava isso, mas de outra maneira quantos são trabalhos de envergadura eu não gosto de… eu fecho muito, muitas horas sozinho, mas não quero ir para o ar sem ouvir
Jorge Correia
17:21
outras opiniões. O que acontece habitualmente nas redações e entra aí em algum momento a tua intuição ou deixas isso para o momento em que estás a conversar, a entrevistar?
Carlos Daniel
17:31
A intuição entra mais no momento no direto, sim, entra mais no momento em que estás ou a gravar ou normalmente a fazer em direto os debates e as entrevistas
Jorge Correia
17:39
Que é o que tu sentes, porque quando tu estás a conversar com alguém, até dependendo do seu ritmo da fala, da maneira como pensa, tu vais ajustando este ritmo…
Carlos Daniel
17:47
Completamente, sempre. E muitas vezes, imagina, o simples facto de estar num debate com 4 pessoas, ou às vezes com 7 ou com 8, tu tens uma espécie de alinhamento que é respeitar para que as pessoas… Mas eu, por exemplo, não gosto que falem sempre na mesma ordem. Acho que é uma mudoura para quem está a ver. Vai saltando. Eu sempre, nunca fiz nenhum debate em que seguisse sempre a mesma ordem. Nem esses com 10 e 11 candidatos. Ficam todos ali ativos, ali a espreitar, ali a coca a ver o que é que… E não raras vezes o exercício difícil, para mim, o mais difícil às vezes quando estou a fazer é estar a pensar na pergunta que vou fazer, estar a ouvir a resposta que me está a ser dada e estar naquele momento a dizer assim, a pessoa que devia falar a seguir no meu alinhamento era esta, mas depois do que esta pessoa está a dizer não faz sentido. E porque tu tens de estar a ouvir o que o moderador existe e sobretudo para criar coerência no debate, para que aquilo não sejam pontas soltas permanentes, senão isto vai criar um desconforto em quem está a ver. E portanto, se me parece que aquela pessoa está a dizer alguma coisa que diretamente mexe com um pensamento ou algo que já foi dito por um outro candidato ou por um outro deputado ou por outro convidado é evidente que naquele momento eu troco. Portanto, tu crias ali uma dinâmica? Sim. E tento sempre variar. Eu faço os alinhamentos, se quiseres, das séries de perguntas dentro de cada tema prevendo que nunca começam os mesmos a sequência nunca é óbvia. E nunca te perguntam… Até porque crias um desfavorecimento, se quiseres. Não debate com muita gente. Se o primeiro for sempre o primeiro e o último, sempre o último, o primeiro está sempre…
Jorge Correia
19:11
Em vantagem?
Carlos Daniel
19:12
ou desvantagem, porque às vezes é surpreendido.
Jorge Correia
19:15
Mas por outro lado controla mais o debate, não é? Porque pode pôr… Por um lado pode condicionar mais. Pode obrigar a que o outro possa respeitar.
Carlos Daniel
19:21
Mas todos os outros vão ter mais tempo para pensar dentro daquele tema o que é que querem dizer e de que forma vão dizer.
Jorge Correia
19:26
E portanto tu vais saltando sempre… Olha, como é que se modera um debate no meio de 10 pessoas que parece que metade estão aportadas em destruir o teu trabalho? Estou a pensar nos debates eleitorais.
Carlos Daniel
19:38
Mas sabes que eu tenho uma sensação que é aquilo que eu vivo na experiência em concreto, que nesses debates por regra, os candidatos tendem a respeitar mais os tempos em que vão falar do que noutros debates com menos gente em que têm quase uma necessidade de intervir. Eu penso que os candidatos interiorizam, não acontece com todos como é evidente, e já tive situações bastante difíceis de gerir na antena inclusive, obviamente, de quase acusações de que eu não estava a deixar falar certo, a pessoa que tinha que dizer aquilo nessa altura, mas isto faz parte, é parte da nossa vida, mas eu creio que por tendência num debate com oito pessoas ou mais, e eu fiz agora vários, quer nas presidenciais, quer nas autárquicas também, de Lisboa e do Porto, antes disso nas duas legislativas seguidas, as pessoas, os candidatos, percebem que se começarem todos a falar num debate com dez, onze pessoas, é impossível. É impossível. E não produz um bom efeito para a pessoa em causa, porque quem está a acompanhar o debate não vai gostar que aquela pessoa permanentemente
Jorge Correia
20:42
esteja a interromper os outros. Mas há algumas pessoas que deliberadamente parecem querer fazer isso, não é?
Carlos Daniel
20:46
Sim, e aí tu tens de impor a tua vida, não tens como. Agora, também me parece que a assertividade e a autoridade que tens de exercer em alguns momentos se faz mais por palavras, por aquilo que tu dizes, do que pelo tom. Eu tento não colocar um tom de grande agressividade, mas isto tem a ver também com a nossa natureza. Eu sou assim, eu não
Jorge Correia
21:04
falseio. Portanto, vais tranquilamente
Carlos Daniel
21:06
e dizes, ok, obrigado, Mas agora não é a sua vez. E essa é a experiência, não é? Que te permite fazer isso. É a experiência que te permite isso e que acabas por adquirir. Também não nego, acho que ao fim de uns anos as pessoas também vão respeitando mais. Eu pelo menos tenho essa ilusão de que vão respeitando um pouco mais o teu trabalho. Não quer dizer que um dia para o outro não me desiluda. Estou também completamente ciente disso. Mas sobretudo, parece-me isto. Em cada momento dizer, percebo, posso compreender que gostasse que isto fosse outra coisa, mas a mim compete dirigir. E eu neste momento entendo que quem deve falar é fulano. A chamada é a vida. É a vida, mas sem colocar, como digo, agressividade. É uma mesma questão das perguntas, se quiseres. A agressividade está na própria pergunta, não tem que estar no tom, na forma como a colocas. E quando as pessoas normalmente dizem mas os jornalistas são muito agressivos, às vezes é mais um ou outro tico de linguagem e uma questão de postura do que a pergunta.
Jorge Correia
21:55
Eu às vezes sinto isso. Não é o teu caso, por isso é que me interessa tanto observar. Não é só a tua técnica de moderação, quer dizer, porque essa como se dizia, quem é do meio consegue perceber onde é que tu tens os teus aceleradores e os teus travões, mas é esse quase esse ar seráfico a dizer ok, está bem, espera lá um bocadinho agora diga lá. Eu não pretendo
Carlos Daniel
22:17
ser exemplar, tenho que dizer isto com maior sinceridade, eu faço aquilo que me parece que é melhor para chegar ao resultado que se pretende cada um desses trabalhos não pretendo ser nenhum modelo se quiseres mas a minha forma de entender é esta, é que tu deves colocar… A agressividade está nas perguntas, está naquilo que tu dizes. Não tens que dizer de uma forma que parece… Tu tens uma questão que tem a ver com conteúdos, não tem a ver com pessoas. E não raras vezes, por exemplo, quando surgem candidatos que as pessoas não identificam porque têm uma representatividade mínima e procuram às vezes ali apenas o seu momento de fama, mas tu tens que respeitar aquelas pessoas que cumpriram regras, estão-me ali. Tu podes não concordar nada com o que elas dizem, podes entender que não têm contributo nenhum a dar à sociedade. Agora, se estão ali, são pessoas que, segundo as leis do Estado e da República, tem o direito de estar ali. E é a democracia.
Jorge Correia
23:04
Mas agora estamos um bocadinho naquela fase que é da polarização, lá está, de haver um Paulo a dizer, não, não, você nem sequer devia estar aqui. E o outro também, quer dizer, que é uma coisa que não faz muito sentido num diálogo e num debate público.
Carlos Daniel
23:16
Sim, mas isso nós definimos as regras a priori. Claro que numa casa como a nossa, estamos aqui na… RTP é coisa pública? Mas podemos estar na RTP, isto é tudo RTP. Ao serviço público. E, obviamente, com um grau de exigência maior em relação a nós, de escrutínio maior, com o qual temos de lidar, mas que nos obriga, por exemplo, quando tomas opções de definir quem são os candidatos ou os comentadores que vão estar num determinado painel, teres um argumentário preparado para explicar porque é que aquela é a tua decisão profissional.
Jorge Correia
23:45
Já falaste sobre as perguntas. O que é que define uma boa pergunta?
Carlos Daniel
23:50
Eu penso que é acabar com um ponto de interrogação, em vez de acabar com reticências. Então deixa-me provocar. Porque eu vejo tantas perguntas que acabam em reticências. E outras que têm resposta lá dentro já. E outras que têm resposta. Claro que aquela questão da resposta às vezes a duplicidade. Isto é isto ou aquilo que eu também uso. É ou não é? É ou não é, se quiseres. Quando nos ocorreu o nome do programa foi um pouco isto. Isto é ou não é assim? Mas a pergunta quando dizes isto significa isto ou aquilo, tentas que o convidado ou o comentador ou o candidato se posicione. Há uma dicotomia logo. Há uma dicotomia à partida em que tu tentas que ele seja claro em relação ao lado da prata balança em que se coloca. Mas eu gosto de uma pergunta concreta, direta, e que termina num ponto de interrogação.
Jorge Correia
24:34
E aquelas que acabam em três pontinhos são irritantes?
Carlos Daniel
24:37
São perguntas muito abertas que não raras vezes não remetem para a resposta que tu pretendes obter.
Jorge Correia
24:42
Portanto, isso permite depois a quem responde poder dizer o que quiser?
Carlos Daniel
24:46
Nós não temos ilusão, nós vivemos num tempo em que designadamente quem vai muitas vezes à televisão, seja para comentar, mas sobretudo quando representa instituições, desde logo partidos políticos afins, são pessoas hoje muito treinadas. Treinadas para apostar na resposta. Nós apostamos na pergunta, isto que estamos aqui a falar, eles apostam na resposta. Levam a cassete? Nem é uma questão só de cassete. Eles sabem a opção de bait que querem passar, eles sabem a mensagem que querem passar. Independentemente da pergunta que tu lhes vais fazer, tu há um momento que percebes o que ele queria dizer, ele ou ela, era isto. Portanto, começam a responder a pergunta, depois fazem
Jorge Correia
25:15
a ligação àquilo que querem dizer. Os melhores conseguem
Carlos Daniel
25:17
respeitar a tua pergunta e derivar para a resposta que trazem. A tua missão qual é? É não raras vezes, e é por isso que às vezes temos de interromper, não gostam tanto, o público diz, mas porquê é que interrompeu tanto? Porque, em um momento, o que vinha preparado era aquilo, mas a expectativa maior que nós, jornalistas, tentando interpretar aqui uma curiosidade coletiva, entendemos que a questão principal a responder era esta e estava a derivar.
Jorge Correia
25:40
Olha, quando é um debate eleitoral, sério, não quero dizer que os outros não sejam sérios, mas o debate eleitoral entre candidatos a Primeiros-Ministros, por exemplo, ou Presidentes da República, isso pesa-te mais, porque sabes que aquilo vai ter um efeito no eleitorado. Sim, completamente.
Carlos Daniel
25:58
Bastante mais. E estamos num tempo em que tu tens, por muito que eu diga aquilo que disse aqui há uns minutos, que é, tento no fim daquilo isolar-me falar com duas ou três pessoas, quer dizer, vai haver um amigo que te diz, já viste o que é que fulano disse? Mesmo aqueles teus amigos mais próximos, vai haver um que te vai fazer um print qualquer de alguma coisa que alguém disse numa televisão ou que escreveu numa rede social. A bater-te. E, portanto, por isso é que eu tento evitar, pelo menos no momento seguinte, eu tento, quero acreditar, que chego ao fim de cada trabalho com a consciência de que fiz o melhor possível. Nem sempre terei feito o que queria, mas fiz o melhor que consegui. E tento não me martirizar, porque é evidente que nós saímos sempre de um debate com duas horas com dúvidas. Será que aquela pergunta, será que eu não tinha feito o melhor, acontece em tantas coisas na vida, portanto, num trabalho como o nosso e quando é em direto, sem rede, com muita gente, é evidente que tu tens algumas interrogações. Mas o essencial é, se sais convencido que tentaste o melhor possível, não vale a pena estar ali. Porque já basta a sensação de que há este escrutínio e há este feedback agora muito imediato e direto. Chega-te imediatamente.
Jorge Correia
27:02
Nas redes sociais logo, não é?
Carlos Daniel
27:04
E mesmo tu não vas às redes. Elas vêm até ti. Elas vêm até contigo. Por via das pessoas que mais gostam de ti e que se indignam porque alguém disse não sei o que é sobre ti. E tu naquele momento queres tudo, menos aborrecer-te porque tiveste uma preparação exaustiva, que te cansou, em que deste o melhor que conseguias e não quer estar a pensar que alguém que muitas vezes, se calhar, nem merece que percas tempo disse alguma coisa em desabona.
Jorge Correia
27:28
Olha, todo o teu discurso é de um jornalista normal mas o facto, e este sou eu que estou a afirmar, é que tu na realidade com a credibilidade que tens tens um peso social e também político. E o que te pergunto é no fim de uma entrevista de um debate com vou escolher só dois nomes, o António Jéssico o Presidente da República, o Luís Montenegro, o Primeiro-Ministro. O que é que eles te dizem? Quando a Câmara se desligou, quando as luzes fecharam, o que é que eles te dizem?
Carlos Daniel
27:56
Nada de especial, por acaso. Claro que já tive casos, mas as pessoas que são candidatas aos lugares mais relevantes, por norma, são mais, como eu ia dizer, são mais competidas. E, portanto, é um cumprimento simpático. Às vezes fala-se de outra coisa. Já não havia há um tempo aquelas coisas normais. São como tu, não é? Também querem desligar. Sim, também querem desligar. Claro que às vezes já tive o candidato, já falei pouco tempo ou menos tempo e se calhar falei menos uma vez e tal, que é o normal, e como já tive felizmente várias vezes em que fui incumprimentado e disseram, olha, gostei muito do trabalho, acho que o caso dele confirmou aquilo que eu pensava, não sei o quê, isso é simpático. Quando dizem isso antes dos debates é que eu não gosto. Não me diga isso agora. Acho que estão a condicionar. Não, não estão a tentar nada, mas acaba por condicionar
Jorge Correia
28:42
se quiseres um pouco a mim. Mas isso é uma forma portuguesa
Carlos Daniel
28:44
muito, não é? Uma pessoa é tão simpática comigo fábilo e eu tenho ali as tais perguntas para lhe causar desconforto, não é?
Jorge Correia
28:50
Mas isso não muda nada, não é?
Carlos Daniel
28:52
Não, não muda nada. Absolutamente, mas eu prefiro que me digam no fim, se gostaram do trabalho. Infelizmente, tenho tido várias vezes circunstâncias em que pessoas com responsabilidades dizem parabéns pela condição do debate, eu sei que não era fácil e tal, isso é agradável sobretudo quando tu sentes que essa pessoa não pretende obter já devido nenhum. Já tive casos de pessoas destacadas que vieram a dois ou três debates e só no último fizeram questão de dizer, olha, agora já não há mais debate nenhum, deixe-me dizer-lhe isto. E aí sabe-te
Jorge Correia
29:16
melhor. Isso é simpático. É muito simpático
Carlos Daniel
29:18
e é gratificante no sentido em que não te compromete minimamente para nada que vai acontecer
Jorge Correia
29:22
a seguir. Até diria que é um comportamento francamente ético, não é? Completamente. E já aconteceu
Carlos Daniel
29:26
com algumas pessoas. Jogas o jogo
Jorge Correia
29:28
e no fim dizes, ok, vamos embora. Pois disto, estou convencido.
Carlos Daniel
29:32
Desde logo é aquela, mais do que acharem que tu és um tipo muito bom e talentoso é o respeito pelo que tu fizeste. Ou seja, tu cumpriste a tua missão e aquela pessoa que esteve ali em xeque e que esteve ali exposta sente que tu não tentaste nem favorecê-la nem prejudicá-la. e eu gosto particularmente disto.
Jorge Correia
29:48
Olha, como é que… O que é que se tem que fazer, concretamente, para garantir que as pessoas acreditem em ti? No fundo, como é que tu constroes a tua credibilidade?
Carlos Daniel
30:02
Se quiseres, por acumulação. A resposta mais relevante é por acumulação. Por ir fazendo bem? Por ir fazendo bem. Ir tentando fazer bem sempre. E parece-me que quando o fazeres bem um dia, é evidente que hoje, voltamos a este tempo difícil, em que o dia em que fizeres menos bem, em que verdadeiramente cometeres um erro mais grave, vais ser muito mais penalizado e muito do bem que foste construindo pode ser destruído.
Jorge Correia
30:25
E tu, com a credibilidade que tens, qualquer coisa que tu possas fazer, tem depois, obviamente, uma multiplicada muito maior.
Carlos Daniel
30:31
Daí eu ter dito logo no início que me sinto hoje mais responsabilizado em alguns trabalhos, precisamente, por se quiseres, sentir que há alguma expectativa em relação a esses trabalhos. Pode ser um pouco presunçoso, mas tenho que ter noção de que, com os trabalhos que fui fazendo, com o trajeto que fiz e com a idade que tenho, há uma expectativa em relação a essa ideia de que eu sou pelo menos profissional a fazer as coisas. E eu quero ser muito assim. E por isso, sim, quero que as pessoas confiem em mim e acreditem no que eu estou a dizer. E, portanto, nesse sentido, além da ideia de rigor, comecei por te dizer, esta questão para mim é essencial. Eu sou um bocadinho obsessivo com a equidistância, com a isenção. Portanto, Tento praticar isso. Se eu coloco um candidato de direita a uma pergunta desconfortável, vou colocar um candidato de esquerda a melhor pergunta desconfortável que eu arranjar.
Jorge Correia
31:19
E as tuas convicções ficam ali no lado de fora?
Carlos Daniel
31:23
Tento que fiquem. Nós somos pessoas. A sugestão humana, da filosofia barata, está… Ainda por cima, tu és sociólogo. Eu sou licenciado em sociologia. E isso ajuda-te? Creio que me ajuda, sobretudo a perceber que as regularidades, aquilo que se mantém, aquilo que é constante, Se calhar é mais relevante que o episódio. Sim, se quiser. É aquilo que mais guardei para mim da minha experiência académica, além da diversão. Mas ajudou-me muito no início da minha carreira, sobretudo. Eu era um miúdo que gostava de uma série de coisas. Já gostava de política desde criança. Gostava muito de futebol. Gostava de música. Mas perceber um pouco mais da antropologia, da demografia. Perceber mais estatística. Houve áreas do conhecimento que o curso me deu e que eu não tenho dúvida que foram úteis para mim no exercício do jornalismo.
Jorge Correia
32:12
Porque lá está, a sociologia tenta explicar o porquê das coisas, enquanto que o jornalismo vai tentar mostrar ali aquele exemplo concreto do que está a acontecer.
Carlos Daniel
32:20
É viveres entre o episódico, mas percebes que o episódico normalmente tem uma estrutura que o explica.
Jorge Correia
32:27
Estrutura e conjuntura. Por repetição também, não é?
Carlos Daniel
32:30
Sim, e sobretudo por regularidade. Aquilo que acontece mais vezes é suscetível de ter mais relevância, não é? Do que alguma coisa que só aconteceu
Jorge Correia
32:37
uma vez. Habitualmente tu estás a falar através de um meio de uma câmara, hoje aqui também temos umas câmaras, mas elas estão aqui só com testemunhas a gente já se esqueceu que elas existem o que é que uma câmara faz a uma pessoa? O que é que a câmara te faz?
Carlos Daniel
32:53
Hoje diria que não me produzo um grande efeito no início no início era muito miúdo quando comecei só via RTP, portanto havia quase um fascínio inerente, eu desde miúdo que sonhava trabalhar na comunicação Não sabia se era jornalismo, se era entretenimento, se era outra coisa qualquer, mas eu queria estar na comunicação. Depois veio a rádio, a rádio acabou por me abrir a porta disto, como a tanta gente da nossa geração. A rádio local, na altura, em Paredes, que é a minha terra. Depois abriu uma oportunidade de trabalhar na rádio comercial, que era, na altura, parte da RDP, depois a Antena 1 também, que foi a minha segunda casa profissional e com carinho imenso tem até hoje. Depois TSF e, ao mesmo tempo, RTP, mais tarde outras passagens. SIC, Canal 11, enfim, a minha vida teve vários momentos, mas a RTPE é a minha casa. Mas isto para dizer que, nesse início, um fascínio natural, não é? Um miúdo que tem o brinquedo na mão, com que sempre sonhou, de repente… E depois a questão da notoriedade, que também… Há uma vaidade? Ah, claro que há. Evidente. E que hoje não tenho dúvida que nem sempre terei lidado da melhor maneira com ela, porque há um deslumbramento inerente a isto quando és miúdo e quando começas, de repente, começa a estar a acontecer tudo muito depressa. Eu, aos 24 anos, apresentava o Jornal da Tarde. que era o segundo jornal mais visto no país porque a RTP era líder destacada nas audiências em 1994 e que é uma escola importante tinham saído várias pessoas com o surgimento das privadas foram saindo alguns dos apresentadores eu estava ali na linha de montagem e de repente surgiu uma oportunidade que eu hoje tenho noção que foi um risco para quem apostou em mim e para mim lembras-te do primeiro dia? perfeitamente, é o dia seguinte à morte do Eiro de Mecena e é a minha última queima das fitas é o primeiro dia, uma segunda-feira que é segunda-feira, 2 de maio de 94 fiz já há 30 anos no Jornal da Tarde já vou fazer 31 hoje que dia é Tu és da família já, não é? Já fiz 32 anos que apresentei pela primeira vez o Jornal da Tarde é incrível olhar para trás e poder dizer isto Como é que foi esse primeiro dia? Foi foi tenso mas foi, ao mesmo tempo é dominado por um grande assunto tens um país e um mundo num momento completamente dramático que a perda de um dos maiores ídolos da história do desporto tinha acontecido na véspera.
Jorge Correia
35:04
Há comoção, mas é quase um jornal monotemático.
Carlos Daniel
35:06
É quase um jornal monotemático. Hoje seria não um jornal, hoje seria uma tarde inteira a começaria ao jornal e iríamos ao longo da tarde com o mesmo tema. Na altura está as pré-canais de notícias ainda e portanto não há esta cadência. Mas claro, com muito tempo em direto, com entrevistas, com lançamento de imagens que chegavam do Brasil, daquela comoção inacreditável. Isso é um batismo de fogo. É um batismo de fogo, é. E ainda por cima a queimar-me a queima das fitas, não é? Porque era a minha última. Havia sempre uma grande expectativa para a diversão final. Portanto, tu foste à queima. Hoje, passados estes anos, posso revelar que todos os dias ainda saí um bocadinho. Dei tempo, foi mais cedo que os outros e bem menos. Portanto, lá está o peso da responsabilidade. Exatamente. Não, eu não podia falhar. A oportunidade de fazer o Jornal da Tarde era, na altura, uma coisa absolutamente extraordinária. E, portanto, o mais relevante para mim deixou de ser, obviamente, a última queima e passou a ser o primeiro jornal.
Jorge Correia
35:57
Teimaste um bocadinho da queima, que era para poder usufruir desse teu início de trabalho?
Carlos Daniel
36:03
Usufruir e, sobretudo, não falhar.
Jorge Correia
36:05
Não falhar? Certo. Que redes é que tu tinhas nessa altura? Muito poucas. Disseram muita coisa ao ouvido? Ou nem por isso?
Carlos Daniel
36:11
Não, não havia. É verdade que era um espaço de oportunidade, RTP no Porto e o Jornal da Tarde, mas não era tanto no sentido de ensinarem a escrever ou fazer perguntas. Aprendes a ver? Aprendes a ver, exatamente. A terimba. Os outros. Se o outro pergunta assim, se o outro escreve assim, eu gosto do que aquele tipo escreveu, eu gosto da forma como ele diz as notícias, eu gosto, e tu vais juntando, e estás ali, estás a aprender, num momento com gente muito mais experiente que tu. E nesse sentido, claro que depois depende de nós, conseguimos absorver mais ou menos. Eu digo sempre, e estou convencido, que tu não aprendes com ninguém tanto como aprendes com os teus colegas de trabalho, como aqueles estão à tua volta.
Jorge Correia
36:53
E há uma redação, lá está, quem apostou em TV o quê?
Carlos Daniel
36:57
Quem apostou em mim na televisão Foi o Manuel Rocha Que já cá não está Mas ele tinha gostado de mim Eu comecei a fazer desporto Depois puseram-me a fazer o programa da manhã Que já ninguém se lembra, só eu me lembro Que fiz ainda o programa da manhã que se chamava pela manhã Durante meio ano Porque entretanto vagou o tal lugar no Jornal da Tarde Ah, portanto, tu na realidade já te tiveste um estágio Fiz ali uma espécie de entretenimento Aquilo eram duas pessoas Eu fazia mais a parte informativa, se quiser As entrevistas e tal, mas também eram entrevistas a cantores e isso deu-me um pouco mais de bagagem de estúdio ou seja, no sentido de evitar o estúdio a questão do improviso que a rádio já me tinha dado e também acho que por natureza sempre tive e é uma daquelas coisas que nos beneficia não há como dizer de outra maneira há pessoas que têm mais facilidade no improviso em não se enervarem, em falarem muito tempo seguido e eu sempre tive um pouco essa característica que a escola da rádio me desenvolveu entrei para a comercial com 19 anos portanto comecei também muito novo na rádio profissionalmente e quando cheguei à RTP já tinha esse traquejo, se quiser, da rádio. Depois acrescentei a vivência de estúdio de um programa da manhã de três horas, não tinha o ritmo dos programas da manhã de hoje, mas era um miúdo com 23 anos a ter que fazer três horas de televisão todos os dias.
Jorge Correia
38:07
E portanto, aguentaste em direto, em olhares a câmara…
Carlos Daniel
38:10
Deve ter-me aguentado porque seguindo ainda apostaram por mim para o jornal.
Jorge Correia
38:13
No caso de um telejornal, tu estás a olhar para uma câmara, onde está um teleponto, onde estão umas letras que tu tens para ler, é diferente a adaptação de estar livremente a falar para uma câmara ou como estás tu hoje nos debates, vestes a ter de ler um teleponto, ou melhor, a falar um teleponto, a falar aquilo que está escrito no teleponto, que é diferente de ler.
Carlos Daniel
38:31
Tocaste já na resposta que eu ia dar, tu já deste a resposta. Eu acabo disto, não é? Péssimo. Não, não, não, não. Permite-me acentuar isso. Lá está uma pergunta com três pontinhos. Permite-me acentuar isso porque eu dei algumas aulas também de jornalismo, durante alguns anos, vou dando algumas formações, e não raras vezes sou o chato de serviço na redação quando vem uma sugestão para o pivô e eu não gosto, e digo, é pá, quem é que escreveu isto? Os meus colegas sabem isso. Normalmente digo pela positiva e com um sorriso. Não é o lado castigador. Mas chamando a atenção para coisas que se calhar há outra maneira mais atraente de dizer. E a essência é essa. Acho que devemos focar nisso. Nós escrevemos para dizer. Não escrevemos para ler. E eu escrevo para eu dizer. Como outra pessoa qualquer escreve para a sua forma de dizer.
Jorge Correia
39:18
Portanto tem uma métrica. Tem uma maneira diferente.
Carlos Daniel
39:21
Não é uma escrita, no fundo. Não pretendo que seja absolutamente singular. Dizem que é diferente da maior parte. Às vezes dizem-me assim, os teus pivôs só tu é que consegues ler. Mas eu tomo isso como um elogio. Eu quero é que se entenda o que eu digo. E tens que estar confortável com aquilo que lá está. Claro. E se o rei do teleponto morrer, às vezes encrava, não é?
Jorge Correia
39:38
A capacidade de improviso aí vem ao de cima.
Carlos Daniel
39:40
Noutros tempos, a minha memória ainda era mais extraordinária, seguramente, do que é hoje. Permitia-me fazer jornais inteiros. Eu tenho alguma leitura fotográfica. portanto consigo fazer muitos pivôs sem teleponto. E se quiseres, por exemplo, agora, tirando programas em que a abertura, por exemplo, tem muitos convidados, ainda fiz a semana passada um debate em Matozinhos, onde tinha sete convidados, e aí escrevo os nomes, até por uma questão da própria regia acompanhar os planos de entrada. Mas normalmente, por exemplo, no Choque Ideológico eu não escrevo nada, não tenho sequer a abertura do programa escrita, são sempre os mesmos convidados, sem enunciar os temas que vamos tratar, há ali uma coloquialidade que eu acho que se ganha de não estares amarrado à leitura de um texto. Normalmente recorro ao texto de abertura apenas nos debates e a partir daí não tenho nada escrito. Só tenho mesmo texto de abertura.
Jorge Correia
40:25
Só isso? Só isso. E depois um ponto com as perguntas.
Carlos Daniel
40:27
E depois são os meus papéis, os meus documentos, com a informação que… com as perguntas.
Jorge Correia
40:32
E vais andando de um lado para o outro. Olha, eu não… Eu sei que tu és um apaixonado pelo futebol. Não se te conhece o clube pelo qual tu publicamente… Não sei se já falaste sobre isso ou não.
Carlos Daniel
40:44
Não é um segredo estado, mas não… Mais uma vez, meus amigos todos sabem, quer dizer, é um segredo polichinelo, mas eu prefiro mesmo que quem me vê ou ouve é um bocadinho, se quiseres, como na política. Também não interessa às pessoas em que partida é que eu voto por regra, sendo que eu não voto sempre no mesmo, nem interessa, nem eu gosto que me oiçam ou vejam em função de eu ter determinadas opções ou escolhas. Como é que vês o jogo? Cada vez mais, se quiseres, com olhos de quem gosta de o entender mais do que de se emocionar com ele. Isto tem um lado extraordinário, que é uma pessoa que irrita-se muito menos quando o nosso clube não ganha. Tem um lado que não é tão bom, porque às vezes eu gostava de voltar a ser aquele adepto que fui quando era mais miúdo e que hoje, por tentar entender mais o jogo e por encontrar nele, na maior parte das vezes, as explicações para o resultado, acabo por não ter aquelas emoções próprias do adepto, que normalmente culpa muito o árbitro, a sorte e outras coisas que tais. só mesmo no limite é que vou em contra dessas explicações, quando me parece que ultrapassam a normalidade eu por regra, passa aqui algum pertenciosismo, eu consigo entender no jogo o que é que aconteceu e normalmente tem a ver com as razões táticas
Jorge Correia
41:54
mas vai ver a tática, quem é que está quem é que vai jogar, aonde, porque é que isto funciona
Carlos Daniel
41:59
sim, eu olho para o jogo a ver espaços e movimentos e onde é que entra a bola, onde é que não entra onde é que as equipas estão a fechar o espaço, onde é que estão a encontrar espaço mas tu és um treinador ou tu és um eu sou um treinador frustrado e durante alguns anos da minha vida achei que virei um dia ainda a poder ser treinador de futebol nós até aos 40 anos achamos que podemos ser tudo na vida menos astronauta porque isso para mesmo mas se quiseres há pedaços da minha vida que eu de uma certa forma lateralmente fui juntando eu também gosto de cantar como é público tenho a minha tertúlia dos 40 eu não sou cantor nunca vou ser não sou um artista de variedades mas gosto de cantar e juntei esse bocadinho à minha vida Se quiseres, sou jornalista, isto é que é a minha vida. Depois o futebol, o comentar futebol, pontualmente, agora está a chegar ao Mundial. Vai ser um momento de uma trabalheira imensa de andar a ver aqueles jogos, mas para mim são momentos de um prazer quase inultrapassável do ponto de vista profissional. Poder comentar o Mundial, ainda por cima, é quando as pessoas ligam mais à tática, aos jogadores. Porque há menos clubito. Somos todos da seleção. E, portanto, a partir de ali estamos a valorizar a qualidade da equipa do Brasil, da Inglaterra, o jogador A, o jogador B. e fazer isto, ler o jogo e ajudar as pessoas a acompanharem, é algo que me dá um gozo imenso. Permite-nos fruir mais o próprio espectáculo. Completamente, irritas-te menos vai fruir mais. Agora, também… Mas tu não sofres? Quando vejo os jogos da seleção eu sofro. Sofro cada vez menos, cada vez menos se quiser, há um momento, eu estive em Paris na final do Euro é impossível naquele dia não sofreres mas até depois do Éder marcar o golo aqueles minutos finais são de uma ansiedade incrível, não é? E festejei como qualquer adepto, abraçado a quem estava mais perto. Tu estavas a ver ou estavas a trabalhar? Estava a trabalhar, a comentar antes e depois, mas depois durante estive a ver. Como é que foi isso? Foi uma experiência maravilhosa. Foi uma sensação muito boa, porque para quem é um apaixonado de futebol desde miúdo, a seleção portuguesa chegar a uma fase final já era uma coisa dificílima. Para teres uma ideia, Portugal… Eu até aos 14 anos nunca vi Portugal numa fase final. Aos 14 anos fomos ao Europeu de França em 84. Depois fomos ao Mundial do México em 86. E depois, até 96, passaram 10 anos sem Portugal ir a nada outra vez.
Jorge Correia
44:14
Que sequia.
Carlos Daniel
44:15
E aí já fui fazer pela TSF o Campeonato de Europa à Inglaterra. Mas depois voltas a não ir em 98, que é o Mundial em França. E portanto, Portugal não era este habitual das grandes fases finais. Muito menos era um favorito a ganhar alguma coisa. Quando, de repente, hoje Portugal, qualquer grande especialista do mundo coloca Portugal entre as cinco principais seleções candidatas a ganhar o campeonato do mundo. Isto é uma coisa incrível para um país como o nosso. Nós destratamos tantas vezes o futebol e o futebol é uma marca absolutamente imbatível que o país tem. Não é só o Ronaldo, o Mourinho e o Jornal dos Nomes, é o futebol em si. O futebol português é uma marca incrível. E nessa altura foi, se quiseres, o topo. Foi o topo. Foi o momento em que a seleção nacional ganhou. Foi ameaçando. Meias finais em 84, meias finais em 2000, final do Euro em 2004, meia final do Mundial 2006. Andávamos ali, grandes gerações, mas nunca ganhávamos. E de repente a França, que era a besta negra, que nos eliminou em 84, em 2000 e em 2006, tirou nos três finais. E depois fomos lá, a França ganhar. Se quiseres ali, o miúdo que chorou no dia em que os dois golos do Jordão e os jogados do Solana não bastaram para ganhar à França, sentiu-se, como tantos em Portugal, aqui redimido, vingado.
Jorge Correia
45:26
Vingado quase. Tu punhas as fichas no Éder? Não, também não.
Carlos Daniel
45:31
Eu tive uma epifania antes do jogo Aliás, é muito engraçado, isso está na gravação do jogo da RTP Porque quem comentou o jogo com o Manoel Fernandes Silva É o António Tadeia e o Rui Costa E o Rui Costa logo assira o golo Portanto, isto é comprovável na gravação Fizeram-me ouvir isso há pouco tempo Portanto, eu tenho a certeza que não é só a minha memória que está a dizer isto O Rui Costa diz qualquer coisa como Realmente, o Carlos Daniel tinha dito que íamos ganhar com um golo do Éder Bem, eu disse isto Ele ouviu e eu disse Mas foi absolutamente a brincar Foi uma coisa a dizer isto tem corrido tão bem que ainda vamos ganhar com o golo do Éder era um pouco esta a ideia, o Éder era um patinho feio não era visto como um grande goleador, era um recurso hoje provavelmente nunca seria convocado para a seleção por razões de qualidade ou técnicas temos outros jogadores com mais qualidade e que têm dificuldade em ser chamados mas o facto é que ele no momento na hora H sim, mas eu não tive premonição nenhuma, eu fui um palpite de brincadeira mas de facto eu disse se ainda vamos ganhar com o golo do Éder o que é que se sente quando aquela bola entra na baliza? é incrível, é aquela a sensação de que é o orgulho, se quiser, do país de sermos aqui do cantinho de uma coisa relativamente pequena, mas que naquele momento o mundo vai falar de Portugal.
Jorge Correia
46:41
Isso é sempre simpático. E a pagar a toda infel.
Carlos Daniel
46:44
E tu e agora? Ganhamos o Caneco? Tenho dificuldade em dizer que somos os maiores favoritos, não digo. Acho que a França é a maior favorita, a Espanha é a outra equipa que joga melhor. Se não for nenhuma destas a campear do mundo, reconheço que me surpreende, mas depois, na linha seguinte, Portugal faz parte. Brasil, Argentina, Alemanha, Portugal. E é extraordinário tu teres um país como o nosso. Vê os países que eu estou a dizer. Argentina, tricampeado do mundo. Brasil, pentacampeão do mundo. Alemanha,
Jorge Correia
47:11
tetracampeado do mundo. Nem sequer faz sentido
Carlos Daniel
47:13
lá estar Portugal. Porque é que Portugal está ali que nunca ganhou. Mesmo a Espanha já foi campeado do mundo.
Jorge Correia
47:17
E eu agora estou fascinado com um jogador que é o João Neves, que é uma coisa… E nós temos vários. Incrível. João Neves é extraordinário.
Carlos Daniel
47:23
Vitinho é um jogador incrível. No meio campo de Portugal são dois baixinhos que jogam, que gerem os tempos, que gerem o jogo, que percebem o espaço, que se entendem, se ligam, percebe-se que gostam até um do outro. Percebe-se no jogo que eles gostam e jogam juntos no País em São Germán, que se não é a melhor equipa do mundo, é uma das duas melhores equipas do mundo.
Jorge Correia
47:39
Então e o Ronaldo? É o 11º, o 1º ou o 12º jogador?
Carlos Daniel
47:43
Depende muito da circunstância em que ele se apresentar. Eu creio que o Ronaldo hoje não tem condições para ser um titular indiscutível da seleção, mas que o estatuto vai remetê-lo para titular indiscutível. Agora vamos ver como é que ele entra no Mundial. Muito bem. Caro Cristiano Ronaldo dos debates…
Jorge Correia
48:00
Nada disso O que é que te falta fazer?
Carlos Daniel
48:05
É como te dizia no início Se quiseres, voltamos ao início Não olho hoje tanto para a frente Com essa ideia De o que é que me falta fazer Eu neste momento também tenho funções de direção Na RTP no Porto, por exemplo E há algo que me tem complementado Ou seja, eu também estou num momento de alguma Se quiseres de alguma realização, de alguma felicidade A palavra mais bonita é felicidade É bom sermos felizes e assumirmos de vez em quando que estamos felizes Porque gosto do que faço em antena gosto de ajudar a construir alguma coisa que há de ficar na nossa empresa. E hoje, creio ter ajudado a que a RTP a Norte seja hoje uma realidade mais… não só do ponto de vista técnico e de equipamentos mais atual e mais atualizada e mais capaz de responder aos desafios, mas onde se respira um ambiente bom, com vontade de fazer coisas diferentes, de acrescentar, olha, formatos de podcast, formatos de outros conteúdos, que não aqueles que se fizeram ao longo de anos, mantendo esses. E, portanto, não me falta, neste momento, não me falta, falta-me continuar a ser feliz.
Jorge Correia
49:03
Verdadeiramente é isso que me faz falta. O que é que ainda te faz querer entrar no estúdio amanhã de manhã?
Carlos Daniel
49:11
Por um lado, o continuar a acreditar que o jornalismo faz sentido e que a sociedade precisa dele, se calhar mais do que nunca. E por outro, a vontade de acrescentar alguma coisa minha, dentro do que me é possível, a uma missão de serviço público, eu também acho que é absolutamente indispensável ao país. Eu acho que com a crise que vivemos nos médios e com a dificuldade de tantos órgãos de comunicação social, os órgãos públicos têm uma responsabilidade acrescida e, no caso do jornalismo, de o fazermos de uma forma rigorosa, atenta, mais próxima das pessoas e, portanto, eu acredito que não só o jornalismo hoje nos deve motivar, porque é uma função nobre e decisiva, como acho que o jornalismo de serviço público é absolutamente relevante, mais ainda num país como o nosso. Carlos Daniel, obrigado. Jorge, foi um gosto grande. Obrigado.
