Cristiano Ronaldo pontapeou a própria reputação? João Gabriel

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Cristiano Ronaldo pontapeou a própria reputação? João Gabriel
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Em três semanas, o capitão da seleção saiu de um estágio, publicou uma carta contra o selecionador e foi castigado pela Federação. O dano maior veio da forma como comunicou.

A 30 de setembro, em Copenhaga, Cristiano Ronaldo deixou o estágio da seleção nacional na véspera do jogo com a Dinamarca, a contar para a Liga das Nações. No jogo anterior, com a Noruega, tinha aquecido cerca de meia hora sem chegar a entrar. Horas antes da saída, o selecionador Jorge Jesus garantira numa conferência de imprensa que não havia “caso” nenhum. Deixou também uma frase que ficou: “Na equipa mando eu.”

Ronaldo anunciou a decisão no Instagram, depois de falar com o presidente da Federação, Pedro Proença, e prometeu explicar-se “a seu tempo”. Portugal ganhou à Dinamarca por 4-2.

A explicação chegou a 6 de outubro, numa carta publicada nas redes sociais. Ronaldo enumerou oito pontos sobre o que diz ter combinado com Jesus para aquela janela de jogos. Acusou o selecionador de ter mudado de tom em público, falou de uma “absoluta quebra de confiança” e de uma atitude de “quero, posso e mando”. Na mesma carta pediu desculpa aos adeptos e admitiu que merecia ser castigado.

A 19 de outubro, o Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol suspendeu-o por 30 dias, de 30 de setembro a 30 de outubro, e aplicou-lhe uma multa de 255 euros. Ronaldo respondeu no Instagram com três palavras: “Dedicar-se ao trabalho.” Pode voltar a ser convocado para os jogos de novembro, com a Dinamarca em Braga e com o País de Gales em Cardiff, se as duas partes o quiserem.

O gesto e o texto

Sair de um estágio é grave, mas tem precedentes. Os conflitos entre estrelas e treinadores são tão antigos como o futebol e quase sempre se resolveram longe das câmaras, com uma conversa e uma reconciliação discreta.

O que mudou a escala desta crise foi a carta. É essa a leitura de João Gabriel, antigo assessor de imprensa do Presidente Jorge Sampaio e diretor de comunicação do Benfica durante oito anos, no episódio desta semana do Pergunta Simples. Para ele, o comunicado foi “terrível”. Os pontos enumerados transmitem, na sua leitura, “prepotência” e “arrogância”, e eram “escusados”, independentemente do que tenha sido dito em privado.

O texto levanta também uma pergunta mais incómoda: se um jogador acha que pode pôr condições a um selecionador para voltar à equipa, que influência terá tido antes?

Alcance sem destinatário

Ronaldo é a pessoa mais seguida do mundo no Instagram. Para falar, não precisa de jornalistas nem da Federação. Num conflito com o selecionador, esse canal tem um efeito duplo. Põe a discussão diante de centenas de milhões de pessoas e transforma uma divergência de balneário numa negociação pública com quem escolhe a equipa.

João Gabriel resume o problema assim: o que a equipa de Ronaldo queria era alcance, e conseguiu-o. O único leitor que contava para resolver a crise, o homem que o podia voltar a convocar, passou a ter de responder diante de todos.

Há outro efeito, menos visível. Um texto escrito fica. A saída do estágio vai-se esquecendo. Os oito pontos continuam a ser citados, comparados e desmontados, como fez o jornal A Bola ponto por ponto.

Uma crise que ninguém fechou a tempo

As grandes organizações têm manuais de crise. A Federação, lembra o convidado, não tinha um para isto, e dificilmente o teria. O caso juntava dois egos fortes, que se conheciam bem do Al-Nassr, onde trabalharam juntos, e adeptos de cada lado à procura de um culpado.

Na leitura de João Gabriel, a crise podia ter terminado quando Jesus reconheceu um erro, o aquecimento prolongado sem entrada em campo. Uma crise “aparece já acesa” e resolve-se antes de chegar ao público. Daí em diante, o que conta é a velocidade e quem dá a cara. O exemplo que dá é o da Starbucks em 2018: o presidente executivo pediu desculpa na televisão na manhã seguinte a um incidente filmado numa loja de Filadélfia.

O que a própria Federação valorizou

Há uma ironia no processo disciplinar. Entre as atenuantes, o Conselho de Disciplina contou o cadastro limpo de Ronaldo, os serviços prestados ao futebol e o contributo para o apuramento da verdade, citando a carta publicada no Instagram. O texto que pesou na reputação ajudou a reduzir o castigo.

O pedido de desculpa aos adeptos também não é um pormenor. Em comunicação de crise, é muitas vezes a parte que se recorda. Neste caso, ficou enterrado no meio de uma acusação ao selecionador.

Então, pontapeou?

Em parte, sim. A reputação de Ronaldo assentou sempre no trabalho, na disciplina e na seleção acima de tudo. Ao sair do estágio, passou a imagem contrária. Com a carta, deu a essa imagem forma escrita, data e assinatura. João Gabriel fala de “uma mancha reputacional que o Ronaldo não vai conseguir apagar”.

O mesmo convidado recusa a ideia de que Ronaldo esteja a sair “pela porta pequena”. Para ele, este será um episódio negativo num livro com muitas páginas, e Ronaldo continuará a ser “a nossa melhor marca”. O que pode ainda mudar a leitura é o que vem a seguir: se volta em novembro, em que condições e com que palavras.

O primeiro impacto de uma crise raramente se controla. O segundo, sim.

A conversa completa com João Gabriel está disponível no Pergunta Simples

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