Porque ouvimos melhor quem fala baixo? António Zambujo

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Porque ouvimos melhor quem fala baixo? António Zambujo
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Numa sala de reuniões qualquer, numa terça-feira qualquer, há sempre alguém que resolve o problema da atenção subindo o volume. Fala por cima dos outros, repete a ideia, acrescenta um “atenção” antes da frase importante. Resulta durante uns minutos. Depois a sala habitua-se ao ruído como se habitua ao zumbido do ar condicionado, e ninguém ouve mais nada.

O instinto é antigo e percebe-se. Quem grita ocupa espaço, e durante muito tempo ocupar espaço pareceu a mesma coisa que ser ouvido. As redes sociais fizeram desse instinto um método: vence a frase mais alta, o título mais indignado, a opinião que chega primeiro. Vivemos num concurso permanente de decibéis, e o curioso é que ninguém sai de lá mais esclarecido.

António Zambujo fez o caminho contrário. Canta um tom abaixo do que se espera, com a voz quase encostada ao ouvido de quem está na plateia, e isso tem um efeito físico que qualquer pessoa que já o viu ao vivo conhece. A sala cala-se. Quem está sentado percebe depressa que, se não se calar, perde a palavra seguinte. Ele explica-o sem rodeios: “Quem está a escutar tem que estar calado e tem que estar a tentar perceber aquilo que nós estamos a dizer, porque o mais importante num concerto de música é a palavra.”

Há aqui uma inversão que merece ser olhada com calma. Estamos habituados a pensar a atenção como coisa que se arranca a quem ouve, à força. A voz baixa devolve o trabalho ao ouvinte. Obriga-o a inclinar-se, a fazer um esforço pequeno, e esse esforço muda a relação, porque aquilo por que nos esforçamos passa a ser um pouco nosso. Uma frase gritada entra sem pedir licença e sai da mesma maneira. A que é dita baixo temos de ir buscá-la, e o que vamos buscar tende a ficar.

A escola dele foi o fado, e o fado tem regras que parecem de ofício mas que qualquer professor de comunicação assinaria. A primeira é cantar como se estivesse a falar: a palavra tem de soar com os acentos que tem na boca de toda a gente, mesmo quando a melodia puxa para outro lado. A segunda aprendeu-a com os mais velhos das casas de fado de Lisboa, e ele conta-a com uma imagem de infância. Se se dá um rebuçado a uma criança, ela dá-lhe valor. Se se lhe dá a caixa inteira, come-os todos e deixa de querer saber. As voltinhas e os floreados que uma voz treinada sabe fazer são rebuçados. Um, no sítio certo, encanta. Repetidos, enjoam.

Qualquer pessoa que já tenha assistido a uma apresentação com trinta diapositivos cheios de animações, ou a um discurso em que cada frase era anunciada como decisiva, reconhece a caixa de rebuçados. O ornamento repetido deixa de ser ornamento e passa a ser ruído. E o ruído, por definição, é o que deixamos de ouvir.

Zambujo leva a ideia mais longe quando fala dos virtuosos. Havia discos de fado, conta, em que sentia que o cantor “não está aqui para servir a música, está aqui para se servir da música”. A distinção é fina e um pouco cruel. Serve-se da música quem a usa como palco para si próprio. Serve a música quem se põe ao serviço daquilo que ela tem para dizer. Tirada do fado, a frase descreve boa parte da comunicação pública que nos cerca: o político que aproveita a pergunta do jornalista para fazer o discurso que já trazia de casa, o especialista que responde para mostrar quanto sabe em vez de responder para que alguém perceba.

A desconfiança em relação ao excesso tem uma história longa. Em 1952, John Cage pôs um pianista em palco durante quatro minutos e trinta e três segundos sem tocar uma única nota. O que o público ouviu foi a sala: o vento lá fora, a chuva no telhado, as cadeiras, a impaciência. A peça ainda hoje irrita muita gente, mas deixou uma pergunta de pé. Quanto daquilo a que chamamos música, ou conversa, ou comunicação, é apenas o barulho que fazemos para não ouvir o resto?

O momento mais desconcertante da conversa veio quase no fim. O homem que construiu uma carreira sobre o cuidado com a palavra confessa que, sem guitarra, não se sente à vontade com ela. Gostava de responder às perguntas com princípio, meio e fim, como vê fazer nas entrevistas que admira, mas o pensamento, diz, “anda sempre muito mais rápido do que a fala”. A certa altura, resume a sua capacidade de falar em público a uma palavra: zero.

Talvez tenha razão, pelo menos em parte. Mas a confissão diz mais sobre o modelo que temos na cabeça do que sobre ele. Habituámo-nos a admirar quem fala sem hesitar, quem tem a resposta arrumada antes de a pergunta acabar, e confundimos essa fluência com pensamento. A resposta que sai inteira à primeira foi quase sempre preparada antes, e uma conversa feita só de respostas preparadas é uma sucessão de monólogos bem-educados. Aquilo que ele descreve como falha, a ideia que se enrola noutra, a frase que muda de rumo a meio, é o som de alguém a pensar em voz alta. Uma conversa devia soar mais vezes assim.

Ele próprio o sabe, de certa maneira. Os vinte e oito concertos que fez nos coliseus com o Miguel Araújo tinham cinco canções ensaiadas para abrir e três para fechar. O resto era conversa. Uma música lembrava outra, um deles lembrava-se de uma coisa e o outro pegava nela. Queriam que o público se esquecesse do coliseu e se sentisse numa sala de estar. Quando chegou a primeira noite, as vinte e oito já estavam esgotadas.

No fim, falámos de telemóveis. Da facilidade com que podemos ligar a alguém e da frequência com que não ligamos. Da ilusão de que uma mensagem trocada à pressa resolve a solidão, coisa que ele acha assustadora. Prefere o frente a frente, o olho no olho, a cerveja com os amigos ao fim da tarde, num café onde se sabe que vai estar alguém sem ser preciso combinar.

Parece um pormenor de rotina, e talvez explique o resto. Só se fala baixo a quem está perto. Todo o volume que sobra, desconfio, serve para disfarçar a distância.

A conversa completa com António Zambujo está disponível no Pergunta Simples.

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