Numa sala de reuniões qualquer, numa terça-feira qualquer, há sempre alguém que resolve o problema da atenção subindo o volume. Fala por cima dos outros, repete a ideia, acrescenta um “atenção” antes da frase importante. Resulta durante uns minutos. Depois a sala habitua-se ao ruído como se habitua ao zumbido do ar condicionado, e ninguém ouve mais nada.
O instinto é antigo e percebe-se. Quem grita ocupa espaço, e durante muito tempo ocupar espaço pareceu a mesma coisa que ser ouvido. As redes sociais fizeram desse instinto um método: vence a frase mais alta, o título mais indignado, a opinião que chega primeiro. Vivemos num concurso permanente de decibéis, e o curioso é que ninguém sai de lá mais esclarecido.
António Zambujo fez o caminho contrário. Canta um tom abaixo do que se espera, com a voz quase encostada ao ouvido de quem está na plateia, e isso tem um efeito físico que qualquer pessoa que já o viu ao vivo conhece. A sala cala-se. Quem está sentado percebe depressa que, se não se calar, perde a palavra seguinte. Ele explica-o sem rodeios: “Quem está a escutar tem que estar calado e tem que estar a tentar perceber aquilo que nós estamos a dizer, porque o mais importante num concerto de música é a palavra.”
Há aqui uma inversão que merece ser olhada com calma. Estamos habituados a pensar a atenção como coisa que se arranca a quem ouve, à força. A voz baixa devolve o trabalho ao ouvinte. Obriga-o a inclinar-se, a fazer um esforço pequeno, e esse esforço muda a relação, porque aquilo por que nos esforçamos passa a ser um pouco nosso. Uma frase gritada entra sem pedir licença e sai da mesma maneira. A que é dita baixo temos de ir buscá-la, e o que vamos buscar tende a ficar.
A escola dele foi o fado, e o fado tem regras que parecem de ofício mas que qualquer professor de comunicação assinaria. A primeira é cantar como se estivesse a falar: a palavra tem de soar com os acentos que tem na boca de toda a gente, mesmo quando a melodia puxa para outro lado. A segunda aprendeu-a com os mais velhos das casas de fado de Lisboa, e ele conta-a com uma imagem de infância. Se se dá um rebuçado a uma criança, ela dá-lhe valor. Se se lhe dá a caixa inteira, come-os todos e deixa de querer saber. As voltinhas e os floreados que uma voz treinada sabe fazer são rebuçados. Um, no sítio certo, encanta. Repetidos, enjoam.
Qualquer pessoa que já tenha assistido a uma apresentação com trinta diapositivos cheios de animações, ou a um discurso em que cada frase era anunciada como decisiva, reconhece a caixa de rebuçados. O ornamento repetido deixa de ser ornamento e passa a ser ruído. E o ruído, por definição, é o que deixamos de ouvir.
Zambujo leva a ideia mais longe quando fala dos virtuosos. Havia discos de fado, conta, em que sentia que o cantor “não está aqui para servir a música, está aqui para se servir da música”. A distinção é fina e um pouco cruel. Serve-se da música quem a usa como palco para si próprio. Serve a música quem se põe ao serviço daquilo que ela tem para dizer. Tirada do fado, a frase descreve boa parte da comunicação pública que nos cerca: o político que aproveita a pergunta do jornalista para fazer o discurso que já trazia de casa, o especialista que responde para mostrar quanto sabe em vez de responder para que alguém perceba.
A desconfiança em relação ao excesso tem uma história longa. Em 1952, John Cage pôs um pianista em palco durante quatro minutos e trinta e três segundos sem tocar uma única nota. O que o público ouviu foi a sala: o vento lá fora, a chuva no telhado, as cadeiras, a impaciência. A peça ainda hoje irrita muita gente, mas deixou uma pergunta de pé. Quanto daquilo a que chamamos música, ou conversa, ou comunicação, é apenas o barulho que fazemos para não ouvir o resto?
O momento mais desconcertante da conversa veio quase no fim. O homem que construiu uma carreira sobre o cuidado com a palavra confessa que, sem guitarra, não se sente à vontade com ela. Gostava de responder às perguntas com princípio, meio e fim, como vê fazer nas entrevistas que admira, mas o pensamento, diz, “anda sempre muito mais rápido do que a fala”. A certa altura, resume a sua capacidade de falar em público a uma palavra: zero.
Talvez tenha razão, pelo menos em parte. Mas a confissão diz mais sobre o modelo que temos na cabeça do que sobre ele. Habituámo-nos a admirar quem fala sem hesitar, quem tem a resposta arrumada antes de a pergunta acabar, e confundimos essa fluência com pensamento. A resposta que sai inteira à primeira foi quase sempre preparada antes, e uma conversa feita só de respostas preparadas é uma sucessão de monólogos bem-educados. Aquilo que ele descreve como falha, a ideia que se enrola noutra, a frase que muda de rumo a meio, é o som de alguém a pensar em voz alta. Uma conversa devia soar mais vezes assim.
Ele próprio o sabe, de certa maneira. Os vinte e oito concertos que fez nos coliseus com o Miguel Araújo tinham cinco canções ensaiadas para abrir e três para fechar. O resto era conversa. Uma música lembrava outra, um deles lembrava-se de uma coisa e o outro pegava nela. Queriam que o público se esquecesse do coliseu e se sentisse numa sala de estar. Quando chegou a primeira noite, as vinte e oito já estavam esgotadas.
No fim, falámos de telemóveis. Da facilidade com que podemos ligar a alguém e da frequência com que não ligamos. Da ilusão de que uma mensagem trocada à pressa resolve a solidão, coisa que ele acha assustadora. Prefere o frente a frente, o olho no olho, a cerveja com os amigos ao fim da tarde, num café onde se sabe que vai estar alguém sem ser preciso combinar.
Parece um pormenor de rotina, e talvez explique o resto. Só se fala baixo a quem está perto. Todo o volume que sobra, desconfio, serve para disfarçar a distância.
A conversa completa com António Zambujo está disponível no Pergunta Simples.
António Zambujo
00:00
Eu tive um problema de saúde no início do ano que me afeta um bocadinho a memória. E então foi um bocado frustrante pela primeira vez eu ter que estar com as letras para cantar. Depois a coisa foi passando e foi…
00:15
Nós quando temos um problema qualquer que seja, as coisas negativas nós damos-las sempre como definitivas. Ou vemos-las sempre como definitivas. E achamos sempre que não vai passar e que não…
00:30
E é complicado, há sempre ali uma coisa meio… Dá sempre ali um paniquezinho, mas depois percebes que vai tudo ao normal.
Jorge Correia
00:39
Pergunta simples. Um programa sobre comunicação. Para quem quer boas respostas.
00:48
Já reparou no que acontece numa sala de espetáculos no segundo antes de alguém começar a cantar muito baixo? Toda a gente se inclina para a frente, sem se dar conta. Ninguém pediu esse gesto, mas ele acontece naturalmente.
01:02
É um instante pequeno e diz quase tudo. O António Zambujo construiu uma carreira inteira sobre esse instante. Canta quase a sussurrar e é o sussurro, não o volume, que lhe traz o silêncio da plateia.
01:16
Ele diz uma coisa que parece óbvia, mas não é. O mais importante num concerto é a palavra, não a voz, não o agudo mais difícil, não a proeza, a palavra. E a palavra só chega a quem estiver disposto a calar-se para a receber. Andamos a pensar a comunicação como quantidade, muita quantidade.
01:36
Quanto mais falo, mais comunico. E ele pensa o contrário. Comunicar não é encher o espaço, é criar um vazio onde a mensagem pode aterrar.
01:45
Qualquer bom professor sabe disso. Às vezes ensina-se mais com uma pausa do que com uma explicação. Isso vem da escola do fado onde aprendeu isso, onde os mais velhos o corrigiam até a palavra sair inteira.
01:58
A regra que herdou é quase um mandamento, cantar como se estivesse a falar. Nada de sílabas comidas para caber na música. A palavra tem de sair inteira, mastigada, entregue.
02:10
E depois deu-me uma imagem que me ficou na cabeça. O talento é uma caixa de reboçados. Se dás um reboçado a uma criança, ela valoriza.
02:18
Se lhe dás uma caixa inteira, come tudo e deixa de querer saber. Quem sublinha tudo, não sublinha nada. Há um segundo fim da conversa e ele é mais desconfortável.
02:29
Se só damos valor ao que nos chega já aplaudido lá de fora, falta-nos um bocadinho de autoestima e falta-nos, diz ele, pensamento crítico. Isto não é um lamento sobre este país, Portugal, é uma observação sobre a forma como comunicamos uns com os outros. Esperamos que alguém lá longe diga o que prestamos para acreditamos nisso.
02:50
Uma sociedade que espera a chancel dos outros para se reconhecer, não escuta. Da próxima vez que sentir vontade de subir a voz num diálogo ou numa conversa, experimente fazer o contrário. Baixe a voz e vê que alguém se vai aproximar.
03:08
Convosco, no Pergunta Simples, António Zambujo. Gosta-te a ideia do silêncio e da pausa? Que vem de onde?
António Zambujo
03:22
essa parte vem essencialmente das minhas referências daquelas pessoas que eu escolhi para seguir uma estética começando pelo João Gilberto e pelo Chet Baker que são dois cantores que eu que eu tento que sempre foram grandes referências para mim depois passando para o Caetano Veloso aqui em Portugal o Max Que era um cantor que eu admiro bastante O Carlos Ramos Mais Malta dos Fados E foi sempre um bocadinho por aí E desde o início que eu me lembro de falar Falando com o Ricardo Cruz Que era o meu parceiro de produção dos discos E falando com o Ricardo Cruz E dizíamos sempre assim Os discos têm que ter sempre o silêncio e caos Um bocadinho de caos É uma mistura das duas coisas Que é para equilibrar E sempre foi essa cena estética Que eu tentei seguir ao máximo Que eu tento seguir, continuo a tentar seguir ao máximo
Jorge Correia
04:29
Mas é criar uma tensão Entre esse caos sonoro E essa pausa ou silêncio Ou a maneira como tu colocas a voz Porque é sempre um tom abaixo Obriga-nos quase a parar para te ouvir
António Zambujo
04:41
Para já menos é mais E depois É isso Eu acho que facilita também na minha forma de na dicção, facilita na forma das pessoas perceberem as palavras eu acho que sim, eu acho que quem está a escutar tem que estar calado e tem que estar a tentar perceber aquilo que nós estamos a dizer porque o mais importante num concerto de música é a palavra, é aquilo que nós tentamos transmitir às pessoas. Há uma coisa curiosa
Jorge Correia
05:08
quando eu te ouço é que há músicos que nós ouvimos os ingleses ou anglo-saxónicos são os eiros e viseiros em fazer contrações em cortar sílabas e quando eu te ouço, eu ouço-te dizer e a mastigar as sílabas todas ali do início ao fim, que é, tomem lá, esta é a palavra inteira.
António Zambujo
05:26
A Natália Correia dizia, a poesia é para comer, não é? Eu lembro-me sempre muito disso. E é de facto, mas isso vem da escola do fado. Eu quando comecei a vir cantar para Lisboa há um bocadinho aquela é quase como uma formação, não é? Quando tu começas a cantar nas casas de fado, apanhas sempre os mais velhos a dar-te na cabeça no bom sentido a explicar-te o que é que tu podes fazer a tentar tirar o máximo a tentar tirar o máximo daquilo que tu podes dar.
Jorge Correia
05:58
Mas é um canon? É uma regra? Ah, é sim,
António Zambujo
06:00
sim, sim Tu tens que cantar como se estivesse a falar Não é? Ainda ontem ouvi uma música do Zé Mário Branco que falava sobre isso que é meio a brincar com a forma como alguns cantores cantam que Agora não me lembro de palavra nenhuma, mas que dizem que cantando não dizem a palavra da mesma maneira como se estivessem a falar. Por causa das acentuações, por causa da métrica da própria música.
Jorge Correia
06:32
Mas isso é porque a palavra não cabe naquela música?
António Zambujo
06:35
É tipo meio aldrabado, sim.
Jorge Correia
06:36
É uma batota.
António Zambujo
06:38
Sei lá, não sei se é batota, é como a pessoa fez a música. Mas nós nos fados Tínhamos sempre que arranjar Que arranjar artimanhas Ou arranjar uma forma De que a palavra saísse bem Dentro daquilo Principalmente os fatos tradicionais Os fatos tradicionais têm uma métrica E tu Dentro daquela estrutura musical Que existe Que é uma estrutura standard Como são os standard jazz
Jorge Correia
07:07
E é rígida ou não?
António Zambujo
07:09
Não, é flexível mas tu tens que ter a inteligência para conseguir colocar lá as palavras da maneira certa.
Jorge Correia
07:15
E tu levavas na cabeça porquê?
António Zambujo
07:17
Sei lá, porque eu comecei a cantar muito novo e não cantava da forma como canto hoje. Não tinha talvez a capacidade para perceber que as coisas eram assim. E em algumas palavras, em algumas coisas, há sempre aquela coisa dos…
07:34
Quando tu estás a cantar fada, achas que é dos Rodriguinhos e das voltinhas, tens que mostrar isso ao máximo, também me diziam assim. Isto é como se fosse, como se desse, como se estivesse a dar um repossado a uma criança. Se tu deres só um repossado, aquela criança vai valorizar o repossado.
07:53
Se tu deres uma caixa de repossados, ela vai comer os repossados todos e não vai querer saber. Ou seja, se tu fizeres repetidamente aquelas voltinhas que até são bonitas, mas que se tornam banais porque as repetes de forma exaustiva, estás a estragar tudo.
Jorge Correia
08:07
Eu lembro, por exemplo, da Amália, cantar era quase uma frustração, não me mal entendam, que é, ela não fazia quase trejeito nenhum, abria a boca e cantava.
António Zambujo
08:17
Sim, estamos a falar da Amália, não é? A Amália tinha essa capacidade e depois a Amália também abriu uma porta que eu acho que foi muito importante sem querer tirar valor aos poetas populares. Mas a Amália com o Alan Humann nessa altura deu uma profundidade maior à música ao introduzir os poetas eruditos o Camões começando pelo Camões e depois o Anilo, Pessoa a própria Amália também tinha letras fantásticas existe até um livro dela só com os fados que são letras dela, por exemplo Estranha Forma de Vida, A Lágrima
Jorge Correia
08:59
Apesar de tudo eram fatos para o povo que o povo entendia e gostava mas subindo nessa erudição
António Zambujo
09:05
No caso dela não, estás a ver No caso dela é quase como é o tal caos que eu estava a falar é pegar um bocadinho é pegar numa coisa que as pessoas… Porque o público também tem que ser desafiado não é só tu que te desafias a ti próprio
Jorge Correia
09:22
E a dizer desafiada ou educada?
António Zambujo
09:25
É um bocadinho as duas coisas não é? Eu acho que é importante as pessoas não serem preguiçosas. Preguiçosas no sentido de querer conhecer mais, conhecer melhor.
Jorge Correia
09:38
E os públicos de hoje em dia, na maneira como consomem música, como consomem cultura, ainda estão aí ávidos e capazes de suportar, no fundo, o caminho necessário para entender um salto?
António Zambujo
09:54
Há tudo. Eu acho que há tudo. tens um público que não quer, que vai um bocadinho, a malta costuma dizer assim na da carneirada, que vai um bocadinho atrás das modas e daquela música que passa muito na rádio e tal, e há outro público, há bastante público muito interessado e muito… É uma coisa mais geracional, não é? Por exemplo, eu tenho um filho que tem 27 anos e ele gosta muito de ir a alguns festivais, gosta muito de ir a paredes de cora, gosta muito de…
Jorge Correia
10:29
Eu bem, no meu minha.
António Zambujo
10:30
É espetacular. Gosta muito de ir assim a coisas e é muito interessado nisso. Gosta da nova geração da música brasileira que tem surgido agora, que é fantástica e ele também procura muito. E é um tipo muito interessado nisso, na parte das letras, na parte dos novos arranjos musicais, porque a música vai-se sempre transformando um bocadinho.
Jorge Correia
10:51
Apesar de tudo é o teu filho e, portanto, estamos aqui com um viés, não é? Logo à cabeça.
António Zambujo
10:55
Não tanto, não. É claro que eu influenciei com algumas coisas, mostrei-lhe algumas coisas mas ele foi muito por ele foi muito procurando por ele aliás, acontece, por exemplo, o Paredes de Cor é agora em Agosto e nós já temos uma tradição de há uns anos para cá que sempre que ele vem e o meu aniversário é em Setembro, dia 19 estou quase a fazer e o meu presente de aniversário é sempre da banda que ele mais gostou no concerto de parede de couro oferece-me um vinil dessa banda porque eu também não conheço às vezes não tenho tanta paciência para procurar como ele procura e ele vai-me ajudando a manter a manter-me atualizado e a conhecer coisas novas e coisas fantásticas que se fazem
Jorge Correia
11:47
Olha, a tua maneira de cantar mais baixo foi uma escolha, foi um instinto O que é que foi?
António Zambujo
11:55
Foi uma escolha. Sim, foi uma opção. Eu tinha sempre aquele dilema nos fados que era aqueles fadistas da gritaria, sabes?
Jorge Correia
12:07
E vão por ali assim, mano?
António Zambujo
12:08
Nunca gostei. Nunca gostei e dizia eu gosto muito das músicas, gosto muito dos fados mas não gosto deste conceito desta forma de mostrar é quase como uma imposição, sabes?
Jorge Correia
12:22
Mas quem tem uma boa voz não tem às tantas essa doce tentação…
António Zambujo
12:26
Fica meio deslumbrado.
Jorge Correia
12:27
Não, tal é qual. Estou mal comparado um bocadinho com os jogadores de futebol. Às tantas, em vez de fazer aquilo que tem para fazer, fazem mais uma finta, mais uma reenga. Porque eu consigo fazer isto.
António Zambujo
12:39
Talvez. Acaba por ser um bocadinho exibicionismo. Acho eu.
12:45
Mas eu não sou grande fã. Não é essa a forma como eu vejo a música. A música, não há nada que seja acima da própria música Nem os virtuosos dos instrumentos, das guitarras Havia alguns discos de fados antigos e novos também Que eu escutava e que eu sentia que esta pessoa não está aqui para servir a música Está aqui para se servir da música para mostrar o seu virtuosismo E isso é uma coisa completamente diferente e é uma coisa que eu não sou grande apreciador, não.
13:23
Então tentei encontrar ali um caminho diferente. Foi um bocadinho… Na altura eu lembro-me que em 2004, quando eu fiz um disco que se chama Por Meu Cante, eu cantava nas casas de fato.
13:36
Cantei em 2004, foi na altura que eu entrei para o Sr. Vinho, estive lá depois de sete anos com a Maria da Fé e com o resto do elenco. E havia muita malta que dizia Tu cantas fados, mas parece-se um brasileiro a cantar fados Ou seja, as pessoas não sabiam muito bem Em que prateleira me deveriam colocar E é isso É ir um bocadinho contra o óbvio
Jorge Correia
14:02
A tua tradição musical Na realidade começa no canto alentejano
António Zambujo
14:08
Sim, a minha primeira memória musical Foi a primeira música que eu escutei
Jorge Correia
14:12
E aí depende, todos dependem de todos Há um maestro
António Zambujo
14:17
há sempre um tipo que é mais ou menos um ensaiador por acaso o meu avô que eu não conhecia, o meu avô Zé ensaiava grupos corais visto contato pela minha avó e a minha avó conhecia também muitas músicas, aliás foi ela que me ensinou era ela que me ensinava as letras, eu escutava as pessoas a cantar na rua lá perto de casa dela e eu depois Trauteava as melodias E ela ensinava umas letras dessas melodias
Jorge Correia
14:50
Mas depois ali há um fenómeno grupal Estão todos juntos, estão todos sempre à espera Da voz anterior para conseguir saber Qual é o seu momento de entrar Como é que é que…
António Zambujo
14:59
Não, existe uma regra no canto alentejano Tu cantas um verso, depois cantas a moda A moda em si
Jorge Correia
15:05
A repetição no fundo, não é?
António Zambujo
15:07
É a moda, é a estrutura central Digamos assim Começa sempre com um verso antes depois na estrutura central entra sempre normalmente o alto que é o tipo que faz a terceira e depois a seguir o alto entra aí ou seja, o alto é mais ou menos quem dá o toque para o resto do pessoal depois entrar depois roda a melodia toda depois tem mais um verso e depois tem isto explicado de uma forma muito básica
Jorge Correia
15:41
Mas isso é um ordenamento que toda a gente entende?
António Zambujo
15:43
Sim, sim, sim. Porque aquilo é uma coisa que está quase no sangue. Quase que nasces a cantar.
Jorge Correia
15:55
Tal como no fado, o cante consegue ser entendido por quem não fala uma palavra de português.
António Zambujo
16:00
Sim, sim. Sim, consegue perfeitamente. Consegue porque transmite… Até mesmo para quem é português e não é de lá, Eu lembro-me que na altura, quando eu era miúdo O canto alentejano O canto alentejano e o fado Não eram músicas muito populares Não eram músicas dos anos 80, 90 Não eram músicas muito Muito aceitas O fado tinha aquela conotação Que nós sabemos O canto alentejano não sei porquê Mas não era uma coisa que estava na moda Então imagina, eu era um miúdo Super popular na minha escola Quando descobriram Quando descobriram que eu cantava Uma das oliginas e que gostava de fados Que escutava Foste com escrita Mais ou menos não foi uma infância muito feliz Mas Mas Lembro-me perfeitamente Anos mais tarde Em 2008 Se não me engano 2007, 2008 O Miguel Lobo Antunes Que estava na Culturgeste E desafiou-me para fazer um concerto E eu lembrei-me Pela primeira vez lembrei-me de desafiar o rancho de cantadores da Aldeia Nova de São Bento para virem cantar comigo umas músicas nesse concerto porque ele queria que eu fizesse uma coisa diferente que nunca tivesse feito antes e tal e eu de facto nunca tinha feito isso e desafiei o rancho de Aldeia Nova e foi uma coisa muito emocionante que é eles cantarem a primeira música e de repente as pessoas começaram a aplaudir sem parar, ou seja, aquilo que chegou de uma maneira… foi muito emocionante.
Jorge Correia
17:49
Chegou ao coração das pessoas?
António Zambujo
17:51
Completamente.
Jorge Correia
17:52
Tu tinhas previsto, calculado ou desenhado?
António Zambujo
17:54
Não, não fazia ideia. Eu escolhi duas modas para cantar com eles. E era assim, era um grupo convidado. Era um bocadinho mostrar as minhas origens mostrar a minha porque é que na verdade foi aquilo que me fez querer cantar foi aquilo que me fez descobrir que gostava de cantar então era mais ou menos isso era mostrar às pessoas como é que tudo começou na minha vida e perceber e perceber essa reação, essa aceitação do público foi muito emocionante
Jorge Correia
18:31
Consegues entender hoje o que é que aconteceu nesse momento?
António Zambujo
18:33
Ah, não faço ideia foi a emoção tal como tu quando vês a arte serve também para isso quando vês um filme quando lês um livro quando ouves um disco quando…
Jorge Correia
18:49
Vibra em nós Eu agora não estou a lembrar, infelizmente, do nome dela de uma miúda que eu vi agora já passou um par de tempo a cantar canta lentejano e eu ouvia durante três segundos e disse uou é isso, é essa emoção
António Zambujo
19:09
é uma coisa que não se explica às vezes é muito chato no início essa história do tu cantas fado mas parece uma coisa as pessoas tentam encontrar uma explicação para as coisas.
Jorge Correia
19:24
Precisamos de um rótulo sempre?
António Zambujo
19:26
Sempre. Por uma questão talvez da organização, não sei. Mental.
19:30
Mas há coisas que não precisam de ter rótulo. Há coisas que nós ou gostamos ou não gostamos. Ponto final.
19:35
É assim que se define. É como tu bebes um vinho. Tu não vais dizer, não vais gostar mais de um vinho porque é um vinho mais caro. Tu vais gostar aquele que te sabe melhor, não é?
19:45
Eu já bebi vinhos de 3 euros que adorei. E já bebi barcas velhas também que adorei e já bebi barcas velhas que não gostei tanto.
Jorge Correia
19:53
É como tu… Há uma subjetividade sempre na experiência.
António Zambujo
19:56
Completamente. Completamente. E há uma…
20:00
E as experiências, As reações têm que ser sempre individuais. Têm que ser sempre de cada um. Aquilo que tu sentes não é a mesma coisa que eu sinto.
20:10
Aquilo que eu gosto não é a mesma coisa que tu gostas. Até pode ser, mas pode não ser.
Jorge Correia
20:15
No tempo da civilização da carneirada em que todos estamos a… Agora vamos para ali. O TikTok diz que agora…
António Zambujo
20:20
É um bocadinho triste essa coisa. É meio preocupante. É como aquela coisa… Existe muito aquela cena Mas isso é transversal à sociedade, não é? Que é a cena do reconhecimento Do que vem de fora, não é?
Jorge Correia
20:37
Ah, bom, mas isso é os transgerados, não é?
António Zambujo
20:39
Se os gajos dizem que isto é bom É porque é bom
Jorge Correia
20:42
Os ambujos, os brasileiros O Globo diz que escreveu Que afinal ele é bom Por acaso eu já tinha notado Mas agora a gente tem certeza Bom, mas isso é a forma portuguesa, não é? É,
António Zambujo
20:54
falta-nos um bocadinho De autoestima, se calhar, não sei De acreditar mais no nosso valor.
Jorge Correia
21:02
De pensamento crítico.
António Zambujo
21:03
Pensamento crítico.
Jorge Correia
21:04
Que temos muito pouco. Tu escolhes as tuas letras como? Onde é que tu vais garimpar?
António Zambujo
21:09
É aquilo que… É aquilo que faz… Existe sempre uma… Eu como só faço músicas a parte das letras é um bocadinho a história que me interessa contar.
Jorge Correia
21:26
Começa pela letra ou começa pela música?
António Zambujo
21:28
Ah, varia. Às vezes eu faço uma música Há sim os parceiros fixos que eu tenho O João Monge, a Maria do Rosário Pedreira O Miguel O Pedro da Silva Martins O que eles oferecem? É isso, às vezes mandam-me-lhes coisas O Miguel muitas vezes manda-me assim O Miguel nós fazemos sempre tudo Mais ou menos em conjunto Ele manda-me uma letra e diz Olha, estou aqui meio atrapalhado com o Referão de uma música Vê lá se te sai alguma coisa
Jorge Correia
21:58
Estou aqui com problema para resolver Toma lá este problema e depois diz-me para qualquer coisinha
António Zambujo
22:03
E outras vezes o que acontece O que acontece é É o contrário Eu faço uma melodia E mando para o monge Ou mando para a Rosário
Jorge Correia
22:14
Como é que é o teu processo criativo?
António Zambujo
22:16
Ah, não tenho regra
Jorge Correia
22:17
Você entra-se para criar ou acontece? Não, não tem regra
António Zambujo
22:20
Eu devia ser um bocadinho mais disciplinado nesse aspecto Mas não tenho Às vezes obrigo-me a ficar ali Com a guitarra um bocadinho pego uns livros de poesia para tentar musicar, ouço muito eu acho que o que mais me inspira é aquilo que mais inspira uma música é escutar escutar outros eu lembro uma vez quando eu fiz o disco até pensei que fosse minha, que era só músicas do Chico Buarque
Jorge Correia
22:50
Adoro o tema, o título
António Zambujo
22:53
na verdade é isso um intérprete acaba por se apropriar um bocadinho daquela música Acaba por se apropriar da canção E dar a sua versão da coisa
Jorge Correia
23:03
E quando o intérprete consegue ainda recriar melhor Aquela canção que foi feita originalmente
António Zambujo
23:08
Subjetivo
Jorge Correia
23:10
Mas pode acontecer, não é?
António Zambujo
23:12
Pode
Jorge Correia
23:12
Mesmo uma coisa genial A gente pode dizer Ah, esta não era a primeira versão Mas esta eu gosto mais
António Zambujo
23:18
Considera esta definitiva Reneque todas as outras
Jorge Correia
23:23
Há tensõezinhas entre os músicos também, ou não?
António Zambujo
23:26
De quando?
Jorge Correia
23:26
Não sei, sempre Tu pegas de uma música Chico Buarque Ou uma outra qualquer Pegas e recrias Dás cavaco a alguém Ligas essa pessoa
António Zambujo
23:38
Nessa parte do Chico Era isso que eu tinha que contar Nesse disco do Chico O que aconteceu foi que ele estava Ele tem as coisas mais ou menos regradas Tem uma temporada que faz o livro Depois acaba o livro Quando acaba o livro começa-se a dedicar à música E começa a compor E ele nessa altura estava meio bloqueado Acontece com toda a gente Não te sai As coisas infelizmente não te saem Só porque queres E eu lembro-me de uma coisa que ele disse Que era estou ouvindo Estou ouvindo os antigos Estou ouvindo os antigos Para ver se me sai qualquer coisa E é isso, é ir ouvindo Ir pegando nos Há discos Não discos Mas obras de músicos às quais eu recorro muitas vezes, por exemplo Tom Waits é um deles, o Chet Baker os discos do João Gilberto do Tom do Tom com o Vinícius as coisas do Tom com o Vinícius do Caetano também
Jorge Correia
24:41
E vais picando?
António Zambujo
24:43
Não, vou ouvindo e vou interiorizando as coisas aqui cá dentro acabam por fazer algum efeito, não é?
Jorge Correia
24:50
E sai qualquer coisa?
António Zambujo
24:51
Acaba por sair
Jorge Correia
24:52
Como é que tu lidas com os teus bloqueios? Ou quando a coisa não está a sair?
António Zambujo
24:56
É aceitar.
Jorge Correia
24:58
É assim de simples.
António Zambujo
24:59
Não há nada a fazer. Às vezes tem a ver com o estado de espírito, tem a ver com a forma como tu estás nesse momento, emocionalmente e tal. Às vezes as coisas ficam meio bloqueadas e ficam meio…
25:16
Sei lá, ficam meio apanhadas. Olha, por exemplo, vou dar um exemplo. Agora, eu tenho uma memória muito boa.
25:23
Sempre tive uma memória muito boa. Visual?
Jorge Correia
25:27
Ou tudo? Tudo Guardas os pormenores todos na cabeça?
António Zambujo
25:30
Sim, normalmente sim E depois faz o que com isso?
Jorge Correia
25:34
Com essa gaveta cheia de coisas
António Zambujo
25:36
Há coisas que estão aqui a mais Depois quer deitá-las fora e não consegue Mas há coisas que são desnecessárias Mas de facto eu tenho uma memória muito boa E há pouco tempo Agora quando gravei este disco O Resposta ao Tempo O Resposta ao Tempo não era só o tempo Eu tive um problema de saúde início do ano, que me afeta um bocadinho a memória. E então foi um bocado frustrante pela primeira vez eu ter que estar com as letras para cantar. Depois a coisa foi passando e agora já não
Jorge Correia
26:09
precisava de olhar para lá como se fosse um ponto
António Zambujo
26:11
precisava e isso para mim, para cantar eu acho que para interpretares uma letra tu tens que ter a letra bem interiorizada para poderes dar o teu ponto de vista. Se não, que é só
Jorge Correia
26:23
a falso?
António Zambujo
26:24
Para mim sim Acho que sim, não sei. Mas há muita gente que nunca memorizou. Olha, por exemplo, o Neymar de Grosso nunca memorizou uma letra.
26:32
O Miguel Araújo não tem dificuldade em memorizar também. Mas é uma coisa que é natural que eles aceitam. O Milton Nascimento nunca memorizou letras, sei lá.
26:42
E cantam da maneira que cantam, não é? Cantam muito bem. Mas a mim não me deixa muito confortável.
Jorge Correia
26:50
Portanto, tu tens ali uma parte do teu cérebro onde está programada a música. E que ainda por cima é uma memória também física porque tu também estás a tocar ao mesmo tempo e ao mesmo tempo há lá uma outra parte que é o teu teleponto mental onde as tuas e portanto o facto de posso chamar de uma fragilidade ainda que momentânea, lembrou-te do tempo no fundo do tempo que passa
António Zambujo
27:13
É um bocado complicado essa coisa é assim porque nós quando temos um problema qualquer que seja as coisas negativas nós damos-las sempre como definitivas ou vemos-las sempre como definitivas e achamos sempre que não vai passar e que não e é complicado há sempre ali uma coisa meio dá sempre ali um paniquezinho mas depois percebes que vai tudo ao normal
Jorge Correia
27:40
Tu ficares a pensar e agora o que é que eu vou fazer sem memória, oh diabo, e agora como é que eu me recrio agora como é que eu vou conseguir bom, entretanto as coisas passaram E ainda bem que estás recuperado A voz ao longo do tempo vai mudando, certo?
António Zambujo
27:56
A minha não tem mudado muito A minha muda A forma como eu uso a voz vai mudando A voz não A voz em si não É isso, é a forma como nós usamos Sei lá, vai explorando Vai explorando outros registros Por exemplo, nós Voltando ao fado Nós nos fados, no início Há sempre aquela coisa Há uma, não sei se é uma regra, há um hábito nos fados, que é que tu tiras sempre os tons no limite mais agudo. Ou seja, tu achas que o tom para ti é até chegar ao ponto agudo que tu consegues chegar.
Jorge Correia
28:42
E esse é o melhor ou é o referencial?
António Zambujo
28:44
Era o referencial, mas isto tem uma explicação. Como tu cantavas a cantar nas casas de fato, cantas acústico, então tens que projetar mais a voz. Para projetar mais a voz é mais fácil nos registros agudos do que nos registros graves.
Jorge Correia
28:57
Os agudos penetram mais, no fundo.
António Zambujo
28:59
É, não é?
Jorge Correia
29:00
Rasgam mais o ambiente. Exatamente.
António Zambujo
29:01
Tal como no teatro também tinhas isso, não é? Tu no teatro tinhas que projetar a voz para a pessoa que estava na última fila do teatro. Então é natural que isso aconteça.
29:12
Mas lá está. Para aquilo, em função das músicas que eu ouvi, das minhas influências musicais, eu achava que aquilo não fazia grande sentido. Então decidi começar a explorar registros mais graves.
29:24
E isso era uma coisa que eu não fazia antes. Portanto, daí a minha voz também ter mudado um pouco, ou a forma como eu usei a voz mudou um pouco, porque preferi explorar outros registros que não explorava anteriormente.
Jorge Correia
29:37
Mas a elasticidade do instrumento… Ah, não, isso é tudo igual. É tudo igual?
António Zambujo
29:41
É. Quer dizer, acho que sim. No meu caso é. No meu caso tem sido.
Jorge Correia
29:44
Mas o sortudo, portanto…
António Zambujo
29:45
Não, acho que não. Olha o Quetano Veloso com 84 anos. Olha o Nemato Grosso. O Nemato Grosso não canta, não muda. Canta nos mesmos tons que canta com 84 anos.
Jorge Correia
29:53
E como é que eles conseguem manter essa jubilada? Tu treinas, proteges, cuidas do teu instrumento?
António Zambujo
30:00
Não, nada, nada. Nunca tive aulas de canto. Estudei no conservatório, mas estudei um instrumento de clarinite. Mas de canto, não.
Jorge Correia
30:10
É para proteger, no fundo, a voz e a maneira como tu dizes? Os tons, a maneira como
António Zambujo
30:16
Mas acaba por se ir protegendo ela própria Em dois estava ouvindo uma coisa De um podcast Do Gregório do Vivier E ele estava a dizer Ele estava a fazer Aquela turné Daquela peça teatro Da fala, como é que se chama? Não me lembro agora o nome
Jorge Correia
30:36
Bom, ok Não era o céu da língua não
António Zambujo
30:40
Estava fazendo uma turné do céu da língua
Jorge Correia
30:42
E que faz sozinho em palco
António Zambujo
30:44
Eu vi cá em Portugal, por acaso, achei espetacular E ele estava a dizer que teve um problema de voz E teve que ir a uma médica E a médica estava a lhe dizer Você tem que cuidar agora Porque a voz é muito mais frágil do que qualquer outro instrumento Imagina, um pianista não leva o piano para jantar fora Para beber vinho Um guitarrista não leva a guitarra E nós temos que andar com a voz por todo lado Portanto temos que ter certos cuidados E de facto eu tenho tido sorte porque não tenho cuidado nenhum e as coisas têm corrido têm corrido bem
Jorge Correia
31:17
o que é ótimo, olha, fala-me dessa experiência que foi gravar com o Keitan
António Zambujo
31:23
opa, é gravar-se com um ídolo, não é? é tipo é isso é gravar-se com um ídolo, gravar-se com a pessoa que tu achas que é o melhor cantor do mundo vou gravar com o melhor cantor do mundo tenho a sorte de estar a gravar com o melhor cantor do mundo
Jorge Correia
31:39
como é que isso se fez? como é que isso se organizou?
António Zambujo
31:43
Eu já conheci o Caetano, aliás, o Caetano foi uma das pessoas responsáveis pela minha primeira ida ao Brasil, porque ele, ainda antes de eu ir para o Brasil, ele tinha um blog na altura que se chamava Obra em Progresso, e por alguma razão alguém lhe fez chegar um disco meu, alguém acho que foi acho que na altura foi a Marília e Gabriela que veio a Portugal e comprou um disco meu na FNAC e levou para oferecer, ou melhor comprou dois diz, comprou dois discos, um para ela
Jorge Correia
32:20
uma velha embaixadora
António Zambujo
32:21
para oferecer ao Keitano Veloso e o Keitano Veloso depois uns tempos depois acabou por escrever sobre o disco e sobre aquilo que ele tinha achado do disco e ele obviamente tem muita visibilidade e despertou a curiosidade das pessoas lá depois mais tarde, pouco tempo depois conheci um um agente de lá que é o agente do Ney Mato Grosso, foi do Milton Nascimento que trouxe que produziu o concerto do Tom Jubino, o Mosteiro de Jerónimos e essas coisas todas e eu conheci ficámos amigos, também foi mais ou menos por acaso porque foram jantar ao Sr. Vinho e ouviram-me E depois juntaram-se as duas histórias e pronto, ele decidiu convidar-me para fazer os primeiros concertos lá no… Na altura foi no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Jorge Correia
33:14
Já volto aqui. A tua vida é uma coincidência? É o que parece, não é?
António Zambujo
33:19
É um feliz acaso. É aquela coisa dos… Os ingleses têm uma palavra muito bonita para isso, que é serendipity, não é?
Jorge Correia
33:29
Exato. O conseguir ver tudo ao mesmo tempo num determinado altura e tudo se conjuga para que algo aconteça.
António Zambujo
33:34
É isso, é isso. Mas desde o início, sabes, eu cantava, eu comecei a cantar. O primeiro sítio onde me pagaram para cantar foi na pousada dos Loios, em Évora. Eu ia lá duas vezes por semana.
Jorge Correia
33:45
Isso é importante, não é? O primeiro sítio onde me convidaram e me pagaram para cantar.
António Zambujo
33:49
Onde me contrataram, um profissional. Foi na pousada dos Loios e um dos músicos que tocava na pousada dos Loios, aquilo era cedo, era durante o jantar, e num dos dias tinha que acabar lá e vir para Lisboa porque ia substituir um músico que tocava no clube de fado em Alfama e desafiou-me para vir e eu como não conhecia ainda não conhecia Casas de Fado vim e depois no final da noite o Mário Pacheco muito simpático, obviamente desafiou-me para cantar porque o meu amigo disse que eu cantava e tal, cantei e a partir daí comecei a vir ao clube de fado
Jorge Correia
34:27
E apagado está a quem?
António Zambujo
34:29
Sim, acabei por ficar lá pouco tempo porque, por coincidência também, a produção do Filipe La Féria andava pelas casas de fada à procura de pessoas para integrar o elenco do musical Amália. Com olheiros.
Jorge Correia
34:43
Ou de olheiros, não é? Vamos aqui a ver em busca de…
António Zambujo
34:47
Exatamente. E eles, numa das noites, que eu não ia todas as noites, eu ia só fazer substituições de fadistas que não podiam ir. E numa das noites eu, por acaso, estava lá E eles foram E ouviram-me e desafiaram-me Para ir Ao teatro politema Para conhecer o Filipe lá Eu sou o maior canastrão que tu podes imaginar Na vida
Jorge Correia
35:12
Não acredito, mas está bem
António Zambujo
35:14
É verdade, no teatro Mas é para fazer teatro E eles diziam, não, não, é para cantar Ou para cantar, pronto Talvez consiga safar Então fui lá, cantei dois fados O Filipe gostou, desafiou-me para integrar o elenco e de repente estou nos ensaios e o meu papel era muito mais de representação do que de fazer uns duetos com a Amália e com as Amálias
Jorge Correia
35:41
E como é que foi essa aprendizagem?
António Zambujo
35:43
Foi muito boa e foi determinante porque eu tinha sempre um enorme desconforto quando ia para cima do palco e ali…
Jorge Correia
35:53
Quem diria?
António Zambujo
35:54
Sim, tinha
Jorge Correia
35:55
Desconforto como?
António Zambujo
35:56
Não me sentia bem Por exemplo, hoje toco com a guitarra Foi quase como um escudo Não foi porque eu tinha que tocar Porque eu estava rodeado de músicos E felizmente estou sempre rodeado de músicos fantásticos
Jorge Correia
36:11
Mas nessa relação com o público Sentes-te exposto? O despido?
António Zambujo
36:16
Não sei, não é uma coisa que me deixa confortável Eu tinha sempre aquela coisa do As pernas tremiam quando eu estava de pé Aquele cantor que canta à frente de toda a gente
Jorge Correia
36:26
E ali foi o vai ou racha?
António Zambujo
36:27
extremamente desconfortável e ali foi a vai à racha, no início foi difícil mas depois adaptei-me e fui gostando daquilo e depois fizemos mais de mil representações por todo lado foi uma experiência adquiri experiência para o que veio depois depois comecei a fazer os meus concertos e já estava muito mais confortável
Jorge Correia
36:46
Como é que foi trabalhar com o treinador Filipe lá à férias?
António Zambujo
36:49
Foi ótimo
Jorge Correia
36:51
É que me dá a ideia que ele é exigente é de gancho como se costuma dizer
António Zambujo
36:56
E é um tipo super talentoso É um gênio E a coisa dele Por exemplo, aquilo que mais me fascinava nele Era a parte da direção de atores A parte como ele nos dirigia Como ele nos explicava O que queria de nós em cena E sempre achei muito Sempre achei deslumbrante
Jorge Correia
37:19
Os tempos, os cítulos onde estás Sim, os tempos
António Zambujo
37:22
A forma como pisas o palco a forma como tu dizeres uma coisa de uma maneira ou dizeres uma coisa de outra tem um peso completamente diferente e nós não temos muita noção disso e ele sabia nos explicar ele fazia aquilo que queria, aquilo que queria que nós
Jorge Correia
37:38
fizesse. Portanto ele mostrava no fundo antes de dizer, não era só especulativo, era eu quero que até porque lá está, os encenadores são muito sensíveis a essa ideia de pisar o palco de não fazer barulho
António Zambujo
37:50
é o pisar o palco, é mesmo isso é o pisar, a forma como nós pisávamos o palco, nós temos que transmitir segurança para as pessoas. Nós não estamos ali em nome próprio. Nós estamos a representar um personagem. Então esse personagem tem que ser quem nos está a ver tem que acreditar que
Jorge Correia
38:06
aquele personagem existe. Que é para entrar dentro da própria história.
António Zambujo
38:08
É para além do ator,
Jorge Correia
38:10
no caso. À frente do Pauli Teama estão os coliseus. Sim. Que tu um dia decidiste alugar, tipo, agora vou alugar isto aqui um ano inteiro, eu e o Miguel e vamos fazer aqui quantos?
António Zambujo
38:22
Foram 28.
Jorge Correia
38:24
O que é que aconteceu?
António Zambujo
38:25
Não faço ideia. E são coisas que fogem do nosso que fogem do nosso controle. Felizmente.
Jorge Correia
38:32
Era para si o quê? Um, dois?
António Zambujo
38:34
Sim, na altura. Era um em Lisboa e um no Porto.
Jorge Correia
38:37
Ponto.
António Zambujo
38:38
Aliás, no início nós até achávamos que era demasiado ambicioso fazer os coliseus. Pensávamos que fosse talvez fazer uma sala mais pequena, sei lá. Mas na altura decidiram-se os coliseus. Pronto, e depois foi o que foi. Os concertos iam esgotando E nós íamos, olha, vamos
Jorge Correia
39:02
E mais um
António Zambujo
39:04
Como eu tinha tido a experiência do Amália O Amália foi a peça teatro que teve mais tempo em cena
Jorge Correia
39:09
Quem fez mil espetáculos do Amália também Eu dizia,
António Zambujo
39:12
olha que isto quando pega Pela minha experiência do Amália Isto quando pega, as pessoas não largam mais
Jorge Correia
39:18
Fala-me disso
António Zambujo
39:19
Porque eles diziam Vamos fazer Eu lembro, foi para aí na quinta Já estávamos para aí na quinta Na quinta data
Jorge Correia
39:28
Já faziam aquilo de olhos fechados
António Zambujo
39:30
Não, não, estou a falar dos coliseus Porque os coliseus grotaram antes de nós Tocarmos sequer
Jorge Correia
39:36
Antes de ver o primeiro espetáculo
António Zambujo
39:37
Ninguém sabia o que é que Nem nós sabíamos o que é que ia acontecer
Jorge Correia
39:42
Esse é um fenômeno quase pop, não é?
António Zambujo
39:43
Os concertos foram anunciados E na altura, quando nós fizemos a primeira data As 28 já estavam esgotadas
Jorge Correia
39:51
não tem que ver essa popularidade. Estávamos a fazer o quê? Estávamos a apresentar alguma coisa na televisão? Não,
António Zambujo
39:54
estávamos a cantar e a tocar por aí. Andávamos a fazer uns concertos. Não sei, foi qualquer coisa.
40:00
Porque aconteceu ali um fenómeno. Depois houve uma altura que teve uma boa promoção também. A rádio pegou nisto?
40:07
E deu o gás? Sim, a rádio comercial principalmente, na altura. Mas nem havia aquela coisa de cartazes na rua, nem nada dessas coisas. Foi um boca-a-boca?
40:19
de redes sociais e pouco mais e depois nós íamos fazendo algumas apresentações íamos mostrando e eu e o Miguel às vezes marcávamos ensaios mas depois abríamos uma garrafa de vinho começávamos na palheta e não tocavamos nada e era assim
Jorge Correia
40:35
isso não era no espetáculo? era antes?
António Zambujo
40:38
no espetáculo também rolava uma garrafinha de vinho eu, eu, ele por acaso ele estava com um problema de tinha que estar a tomar medicamentos
Jorge Correia
40:46
e precisava de ler as letras
António Zambujo
40:52
Mas foi muito divertido Foi muito divertido porque Lá está Hoje em dia há uma pressão Que te faz ter uma expectativa Faz-te criar uma expectativa Que tanto eu como o Miguel nunca tivemos A nossa natureza é assim Mas nunca pensámos Isto tem que dar certo A gente vai lá e faz aquilo É o que for Aliás, o concerto O concerto estava preparado Na altura, nós tínhamos tipo 5 músicas Para a abertura E tínhamos tipo as 3 últimas Era mais ou menos assim O resto era tudo completamente improvisado Era tipo uma conversa Aquilo que nós queríamos, a ideia que nós tínhamos Era Nós já somos amigos há muitos anos E fazemos assim uns jantares e tal E depois a seguir ao jantar Rola sempre uma guitarrinha Cada um pega na sua guitarra, começamos a tocar Ele lembra-se de uma coisa Eu lembro-me de outra E vai sendo assim, não é? E era isso que nós queríamos que passasse Para quem visse o concerto
Jorge Correia
41:58
Queriam fazer uma festa de família, no fundo
António Zambujo
41:59
É como se as pessoas, em vez de estar no coliseiro Estivéssemos na nossa sala Na sala de estar E portanto,
Jorge Correia
42:06
tinham cinco músicas iniciais?
António Zambujo
42:08
Sim, foi o que deu os ensaios
Jorge Correia
42:13
E o que é que aparecia depois?
António Zambujo
42:15
Aparecia conversa e a partir da conversa, sei lá, imagina, acabava a última música e aquela música lembrava-me outra. E eu pegava naquela. Depois o Miguel lembrava-se de outra. E ia sempre assim.
Jorge Correia
42:28
Portanto, os 28 espetáculos, na realidade, são…
António Zambujo
42:31
Pois o espetáculo, obviamente, ia ganhando uma estrutura ao longo do tempo. Mas nunca teve um alinhamento fechado. Porque o próprio espetáculo em si não podia viver com o alinhamento fechado. Tinha que ser uma coisa mais livre, mais informal.
Jorge Correia
42:48
E ao fim dos 28 fecharam aquilo com o público contrariado?
António Zambujo
42:53
Ou já estavam todos fartos? Não sei se nós tivéssemos continuado. Não sei se não teríamos feito mais algumas datas, mas na altura não lembro porquê. Talvez por disponibilidade de sala, por alguma razão, nós ficámos nos 28.
Jorge Correia
43:08
Deixei algumas perguntas aqui por fazer a propósito do doente Com o Caetano Veloso Com o Miguel, obviamente, vocês têm uma irmandade Estão ali dois iguais a cantar Com o Caetano Veloso a coisa É diferente porque estás a cantar com o mestre? Ou a linguagem é a mesma?
António Zambujo
43:26
Não, a linguagem é a mesma Tem que ser a mesma Não pode haver Não pode haver hierarquias Quando estamos juntos
Jorge Correia
43:36
Não há uma hierarquia?
António Zambujo
43:37
Há uma admiração gigante
Jorge Correia
43:40
Mas isso de ti em relação a ele É muito fácil de compreender Mas o contrário Quer dizer, o Quetano tem Lá está, há muitos Muitos anos de vir a Frangos
António Zambujo
43:50
Sim, mas é isso Sei lá Olha, quando nós Acabámos a gravação da música Nós gravámos A parte instrumental Foi gravada aqui em Lisboa Mas depois a parte Os duetos, eu gosto de fazer Gosto de cantar Porque é mais giro É mais orgânico E alguma coisa que ele faça Vai me Fazer Cantar de outra maneira Para ligar melhor
Jorge Correia
44:22
A gravação é feita ao mesmo tempo? Frente a frente? Vais ouvindo e vão modelando?
António Zambujo
44:29
É, é isso E isso é muito mais estimulante E depois o que aconteceu a seguir Quando acabámos a gravação estamos satisfeitos, ok, vamos embora vamos lá tomar um vinho e ficámos ali a conversar o que é um grande apaixonado pela música portuguesa e eu já vi vários concertos dele também e conheço e ele também conhece algumas coisas antigas brasileiras que eu gosto de o facto de gostar do João Gilberto dá-me uma grande vantagem em relação ao cancioneiro brasileiro porque o João Gilberto embora tenha começado ali naquele momento da Bossa Nova, mas ele vai buscar muitas coisas anteriores e então através do João Gilberto eu vou conhecendo e depois ao conhecer a versão do João Gilberto vou querer conhecer a versão original depois vou querer conhecer os discos daquele artista
Jorge Correia
45:22
e aproveitas a enciclopédia que é o Caetano Veloso para conseguir
António Zambujo
45:25
acrescentar mais um bocadinho e então foi isso depois a seguir também ficámos ali a conversar e a tocar e a cantar e é sempre as coisas boas acabam por ser sempre assim
Jorge Correia
45:37
Olha, o disco chama-se Oração ao Tempo. Como é que é a tua relação com o tempo?
António Zambujo
45:46
Até aqui sempre foi muito tranquila. Eu acho que a partir daqui começa a ser um bocadinho mais conflituosa. Acho que é natural à medida que nos vamos aproximando do final.
45:58
Ao que vamos sentindo que… Por exemplo, fiz 50 anos o ano passado e… Os 50 anos, apesar de os 50 hoje em dia serem completamente diferentes dos 50 há 20 ou 30 anos atrás, mas faz-nos pensar, faz-nos pensar de outra forma e o tempo também nos vai moldando. Tu vais tendo experiência, vais percebendo também que existe um certo preconceito em relação à idade, em relação a tudo, não é?
46:34
Por exemplo, eu faço exercício físico todos os dias.
Jorge Correia
46:38
Por prazer ou por necessidade?
António Zambujo
46:40
Não, por prazer. Gosto muito. E a malta…
46:45
Sinto que a malta… Pô, tua idade estás muito bem. Vai começando a aparecer essas…
46:51
Quando eu tinha 49 ninguém dizia nada. Quando passei até 50 já dizia… Pá, tua idade estás porra.
Jorge Correia
46:56
Tipo um alívio. Estás em boa forma. Isso é extraordinário. Eu acho que o que nos envelhece na realidade são os filhos. Porque eles crescem
António Zambujo
47:04
Pois é, e os meus cresceram bastante Passam os dois bem mais altos do que eu
Jorge Correia
47:09
Foram bem alimentados Bem alimentados, exato E neste Neste tempo, lá está, é um tempo de balanço Necessariamente, ficas a pensar O que é que eu já fiz, o que é que eu preciso de fazer Não, não, não Tens uma crise existencial
António Zambujo
47:24
Nunca fico a pensar no passado Nem no que já foi feito Também é uma coisa que eu entendo Por exemplo, nesta entrevista nós estamos a falar de coisas que eu já fiz E que felizmente foram boas E se calhar se eu não tivesse feito isto Tu não me terias convidado para vir aqui Mas Para mim é uma coisa que está feita Que está arrumada Não gosto Faz-me sempre um bocado de confusão Aquela coisa de viver dos louros Sabes? Viver do que foi feito
Jorge Correia
47:53
Mas tu hoje és uma celebridade
António Zambujo
47:55
Mas eu penso sempre que Eu tenho que olhar para a frente E compor e cantar, tocar E estar com malta nova E estar com malta da minha idade
Jorge Correia
48:05
Estar com malta nova que os velhos já não se aguentam
António Zambujo
48:07
Não, com malta nova e com malta da minha idade também E há malta mais velha também Olha o Caetano O Paulo de Carvalho, também fiz um duete com o Paulo de Carvalho
Jorge Correia
48:14
Mas estás a falar de espíritos jovens, não é? Eles têm uma idade de identidade
António Zambujo
48:19
Artistas, sabes? Eu acho que um artista nunca envelhece
Jorge Correia
48:23
Mas tem que ter essa procura Essa curiosidade infinita Como é que tu alimentas essa curiosidade infinita? Eu fico sempre um dos meus fantasmas é um dia estar aqui a conversar com alguém, não por causa de dizer-se alguém com quem estou a conversar e agora já não tenho nenhuma curiosidade sobre esta pessoa é um fantasma não tem nada a ver com a pessoa e agora o que é que eu faço? se não há essa…
António Zambujo
48:45
Acabou, chegámos a uma parede
Jorge Correia
48:46
e acabou, eu nada, agora não é o que é que tem para perguntar nada, não tenho, olha agora
António Zambujo
48:51
eu tinha às vezes um bocado essa coisa com as respostas, eu ficava muito atrapalhado sei lá via sempre uma conversa como uma… havia sempre uma entrevista como uma coisa mais… uma coisa formal na minha cabeça, sabes?
Jorge Correia
49:04
Que tens que ocupar o espaço.
António Zambujo
49:06
E depois havia sempre a sensação de que bloqueava.
Jorge Correia
49:09
Isso eu não sei a resposta.
António Zambujo
49:10
Não, e ficava… há sempre uma coisa… há sempre uma cena de…
49:14
Mas o que é que eu estou aqui a fazer? Não tenho nada para contar. Que raia que me convidou.
49:19
Às vezes vejo tipos a dar entrevistas com uma conversa super interessante que nos prendem do princípio ao fim e eu penso assim Eu nunca vou conseguir fazer isto Nunca vou conseguir ser assim
Jorge Correia
49:31
Mas tu não achas que não tens essa capacidade E essa articulação?
António Zambujo
49:35
A falar? Zero Se eu não cantasse
Jorge Correia
49:41
Espera, esta conversa teve Histórias, pessoas Emoções Palavras, silêncios, poesia
António Zambujo
49:48
É da idade, é porque já fiz 50 Já vou tendo outra maturidade
Jorge Correia
49:51
Há um gravitas Exato Há umas pessoas que eu gosto todos gostamos de bons comunicadores mas depois há os bons comunicadores que nos ensinam coisas, que nos encantam mas não é só a métrica de falar, quer dizer há umas pessoas que se adaptam ao…
António Zambujo
50:09
Há uma estrutura, há uma forma como tu estruturas as respostas que eu sinto que não tenho essa capacidade
Jorge Correia
50:15
Mas tu não gostas da anarquia?
António Zambujo
50:18
Em algumas coisas, calma mas nisto aqui por exemplo, tu fazes-me uma pergunta eu gostaria de construir uma uma resposta com princípio, meio e fim
Jorge Correia
50:32
Tipo Aristóteles?
António Zambujo
50:34
Não sei, é como eu vejo as pessoas de quem eu gosto de ver entrevistas fazer mas depois há sempre aquela coisa o pensamento anda sempre muito mais rápido do que a fala e de repente eu estou a responder uma coisa mas já estou a falar noutra e entre tantas coisas já se enleiam umas nas outras e sinto que depois às vezes quando é muito raro ouvir as coisas que eu faço
Jorge Correia
51:02
não gostas ou não tens tempo? os discos também?
António Zambujo
51:04
é muito raro, depois de estarem feitos é muito raro
Jorge Correia
51:07
mas porquê? porque achas que vais lá encontrar alguma coisa que não gostaste? não,
António Zambujo
51:10
porque acho que é mais é mais importante eu perder o meu tempo a inspirar-me no que os outros fazem porque aquilo que eu fiz eu sei o que é que fiz
Jorge Correia
51:17
e a recriar outra vez
António Zambujo
51:19
é, é isso
Jorge Correia
51:20
uma conversa um bocado como os teus conceitos com o Miguel quer dizer, sabes as primeiras cinco palavras e assim sabe Deus o que é que vai acontecer olha, onde é que gastas o teu tempo agora? andas a fazer o quê?
António Zambujo
51:31
eu tento, como nós como nós andamos sempre é sempre muitas viagens e muitos concertos e muitas coisas, eu sempre que tenho sempre que tenho oportunidade, tento ritualizar o meu o meu dia a dia tento fazer sempre as mesmas coisas, acordar de manhã cedo fazer o meu treininho agora são férias mas quando o meu filho mais novo o João tem escola acordo de manhã com ele tomo um pequeno almoço, ele vai para a escola eu vou para o treino depois tiro as manhãs para mim, fico lá para fazer os meus treininhos depois volto e depois vou para casa e faço aquilo que gosto que é ler, ver cinema até que ele chegue da escola Ver filmes Ver uma outra série Não gosto tanto de séries, gosto mais de filmes Mas de vez em quando há uma sériezinha que me prende E de vez em quando estar com os amigos Sabes que é uma coisa que eu noto com o tempo Com este tempo Este tempo que estamos a viver hoje em dia Sinto que as pessoas vivem de forma mais individualizada
Jorge Correia
52:50
Estamos a atomizar-nos?
António Zambujo
52:51
Acho que sim. Talvez Lisboa tenha um bocadinho isso. Eu, por exemplo, quando vou para uma cidade pequena ou quando vou para outro sítio, existe uma maior preocupação na parte social.
Jorge Correia
53:03
Há lá o café central também.
António Zambujo
53:04
Exatamente. Há aquela coisa do… Como eu fazia em vez.
53:07
O terreiro. Há aquela malta que… Há aquele sítio, há aquele café…
Jorge Correia
53:11
Nem percebemos de combinar.
António Zambujo
53:12
Não havia telemóveis na altura, não é? Não precisas dizer a ninguém, chegas lá e sabes que encontras lá alguém e estás ali à conversa e tal. Em Lisboa não existe isso. não existe muito isso. Então nós acabamos por tentar, por também dar a volta, fazendo mais ou menos a mesma coisa.
Jorge Correia
53:29
Paradoxalmente, é muito fácil. Pegamos no telemóvel e ligamos a alguém, mas não ligamos.
António Zambujo
53:34
E achamos que estamos a… que estamos a conseguir combater a solidão com isso, que é uma coisa assustadora.
Jorge Correia
53:43
Perturba-te?
António Zambujo
53:44
Bastante. Bastante. Eu sou muito mais do frente a frente Do olho no olho Da risada De beber uma cerveja Olha, agora se calhar saio daqui Vou ter com os amigos E vou beber uma cervejinha com eles E estamos ali um bocadinho à conversa E é isso que me alimenta
Jorge Correia
54:07
Quero Zambujo Obrigado por teres vindo
António Zambujo
54:10
Obrigado eu
Jorge Correia
54:11
Não foi fácil a gente encontrar aqui uma data Mas também não importa, a gente espera
António Zambujo
54:15
Não, foram paico Dois meses,
Jorge Correia
54:17
um mês e meio
António Zambujo
54:18
Mas não tivemos só um adiamento
Jorge Correia
54:20
É verdade, não, mas tranquilíssimo As boas coisas também é o que é
António Zambujo
54:26
Tu és domingo de onde?
Jorge Correia
54:27
Eu sou domingo de caminha
António Zambujo
54:29
Levanta-te e caminha Tu que é lá agora Num festival muito cheiro No Viral de Mons, não No Forte Forte de qualquer coisa Ah não, foi em Valença, desculpa
Jorge Correia
54:43
E isso é literalmente na fronteira
António Zambujo
54:47
Não foi em caminho, foi em Valência Mas já toquei em caminho várias vezes também Gosto bastante, eu adoro o Minho Adoro o Minho, adoro as pessoas de lá O Minho e os galeicos, os minhotos e os galeicos
Jorge Correia
54:56
Nós somos a mesma coisa, claro Quer dizer, portanto, tu que és um alentejano Vai ao Minho e gosta do Minho E eu que sou um minhoto, venho ao Alentejo buscar a minha mulher
António Zambujo
55:06
Estás a ver?
Jorge Correia
55:07
Portanto, é uma forma que o país tem
António Zambujo
55:09
Vieste cá a roubar-nos uma
Jorge Correia
55:12
É mais vira
António Zambujo
55:13
E este cara me forso lá.
Jorge Correia
55:15
Obrigado por teres vindo.
António Zambujo
55:16
Obrigado, um abraço.
Jorge Correia
55:19
Pergunta simples. Um programa sobre comunicação. Para quem quer boas respostas.
