Sexo: falamos, ou ficamos a perder? Mafalda Cruz

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Sexo: falamos, ou ficamos a perder? Mafalda Cruz
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Numa mesa de jantar, em Portugal, é normal dizer que se anda cansado, que se dormiu mal, que a vida anda difícil. Não é normal dizer que se tem secura vaginal. A médica e sexóloga Mafalda Cruz ouviu isso mesmo, há poucos dias, de alguém que lhe explicava as regras não escritas de uma conversa entre amigos: humor em baixo, aceitável, corpo e desejo, não. A regra não está escrita em lado nenhum. Está em todos os lados.

Mafalda Cruz é médica radio-oncologista de formação. A especialidade que escolheu primeiro exige que se fale, todos os dias, de doença, de morte, de prognósticos difíceis. A sexologia, que veio depois e ficou, exige outra coisa: falar do que quase ninguém diz a mais ninguém. Nem ao parceiro. Às vezes nem ao próprio médico.

O que se ouve no consultório dela, ano após ano, não é o que se imagina. Não é falta de desejo, na maior parte dos casos. É falta de vocabulário para o pedir. “Se não souber que termos há de utilizar, pode usar o calão, porque nós vamos-nos entender”, diz Cruz a quem chega à consulta a gaguejar. Prefere ouvir uma palavra errada dita com clareza do que um silêncio educado. O silêncio, explica, é o que mais lhe custa desfazer.

Esse silêncio tem uma arquitetura. Chama-se, na sexologia, um guião: preliminares, depois penetração, depois o fim. As pessoas seguem-no sem o questionar, como se fosse uma instrução de fábrica em vez de uma escolha. E é dentro deste guião que mora o problema mais incómodo de toda a conversa: para a maioria das mulheres, a penetração não é a atividade sexual que dá mais prazer. É antes o que se chama, com uma condescendência que ninguém repara, os preliminares. Chamar pré-sexo àquilo que é, na prática, o centro do prazer, é uma forma de linguagem que decide, sem ninguém ter decidido nada, o que conta e o que não conta.

Há aqui um paralelo que interessa a este programa mais do que qualquer outro: usamos as palavras que temos, e as palavras que temos moldam o que achamos que é importante. Se uma palavra empurra uma experiência para a categoria do acessório, essa experiência torna-se acessória, mesmo quando não é. Isto não é exclusivo do sexo. É como qualquer organização trata o que chama de competências “soft”, ou como qualquer relação trata o que chama de conversas difíceis. O nome que damos às coisas decide o lugar que lhes damos.

A segunda ideia que fica desta conversa é mais desconfortável ainda: mentimos, quase todos, sobre a nossa vida sexual, e mentimos nas duas direções. Exageramos ao jantar, para não parecer que temos menos do que os outros. Cruz conta que ela própria, um dia, num questionário anónimo de faculdade, mentiu para baixo, por não se sentir segura. “As pessoas mentem. Em tudo”, diz, sem drama, como quem descreve um facto do tempo. E é um facto incómodo, porque grande parte do sofrimento que ela vê no consultório nasce exatamente daqui: alguém que se compara com uma história que ouviu, sem saber que a história era, ela própria, uma mentira feita para impressionar.

Depois há o que raramente se diz em voz alta: o desejo não aparece do nada. Precisa de estímulo, precisa de espaço, precisa de uma vida que não esteja inteiramente ocupada a sobreviver. Uma das histórias que mais marcou Cruz recentemente foi a de uma mulher perto dos cinquenta anos, professora universitária, vítima de um concurso fraudulento, sem dinheiro para chegar ao fim do mês, a entrar na menopausa. A queixa que a trouxe à consulta era sexual. O problema, como quase sempre, era outro. Como é que alguém usufrui da própria sexualidade quando a única pergunta que a cabeça consegue fazer é como é que se chega ao dia trinta.

Há uma terceira ideia, mais leve à superfície e mais séria por baixo. As fantasias sexuais, diz Cruz, não pedem licença a ninguém. Imaginar um cenário extremo, ou uma pessoa fora da relação, não significa querer vivê-lo, nem estar insatisfeito com quem se tem ao lado. O cérebro, nas palavras dela, não tem limites, e não é preciso dar explicações a ninguém sobre o que se passa lá dentro. O problema não são as fantasias. É a ideia de que tê-las já é uma traição, o que empurra mais um assunto para a lista do que não se diz.

É por isto que Cruz recomenda, a casais, um exercício que parece banal e não é: escrever, cada um na sua folha, o que já fez e gostou, o que já fez e não quer repetir, o que nunca fez mas gostaria de experimentar, e onde estão os limites. Depois trocam as folhas. Não é, insiste, um convite a experimentar tudo. É um pretexto para conversarem sobre coisas de que normalmente não falam. A ferramenta não é o sexo. É a conversa que o sexo obriga a ter.

Fica, no fim desta conversa, uma frase que custa a largar: ninguém sonha com uma pescada cozida. Não é sobre comida. É sobre repetição, sobre aquilo de que gostamos ter de saber para o podermos voltar a procurar, e sobre o que acontece quando nunca descobrimos, sozinhos ou com outra pessoa, o que realmente nos sabe bem. Fica também uma pergunta menos confortável do que parece à primeira vista, e que não é sobre sexo, ou não é só: o que é que ainda não dissemos, por medo de que alguém, ao ouvir, fique ofendido? E quanto é que já perdemos, cada um de nós, só por causa disso?

A conversa completa com Mafalda Cruz está disponível no Pergunta Simples.

Ler transcrição completa

Mafalda Cruz
00:00
As fantasias mais comuns são sexo com múltiplos parceiros, portanto o sexo a três, o swing, sexo em grupo, são as fantasias mais comuns. Depois temos as fantasias do proibido, por exemplo, que são coisas muito eróticas e que excitam muito as pessoas. Fantasias românticas, depois as fantasias dividem-se aqui com pessoas que conhecem, com pessoas que não conheço. E depois temos aquelas fantasias das profissões, não é? O fantasiar com a farda do bombeiro, com o sexo nas alturas, também é uma fantasia muito comum. E temos as fantasias BDSM, bondade, sadomasoquismo, que se vai vendo também. E pronto, fantasiar com pessoas que conhecemos.

Jorge Correia
00:55
Oh diabo! Pergunta simples. Um programa sobre comunicação. Para quem quer boas respostas. Há coisas que dizemos sem pensar duas vezes. À mesa, um amigo ou um colega. Frases como ando cansado, ando embaixo, dormi mal, o dia não me está a correr especialmente bem. E há uma frase, ou uma palavra, que trava na garganta mesmo antes de sair. Sexo. Ou sexualidade. Mesmo dita a um médico. Expressões como tenho andado sem desejo, sem prazer, tenho dores, já não sei o que é que me dá mais prazer, se calhar nunca soube. Ninguém nos programou para isso, para falar do tema. Foi-nos ensinado devagar, ao longo da vida, que disto não se fala à mesa, na realidade nem num consultório, nem sequer às vezes com quem dormimos. Desta conversa fica uma frase na memória, ninguém sonha com uma pescada cozida. Parece-me uma piada sobre comida, mas não é. É a explicação mais simples que eu ouvi para o motivo pelo qual o desejo pode desaparecer de uma vida. E porque insistimos em chamar preliminares àquilo que, para a maioria das mulheres, é precisamente o centro do prazer e não a antecâmara dele. Fico também com uma ideia mais incómoda de que tudo o que se perde numa vida sexual começa muito antes da cama, começa naquilo que não se diz. Mafalda Cruz é médica, radio-oncologista de formação e sexóloga por escolha. E todos os dias ouve num consultório aquilo que a maioria de nós não consegue dizer a ninguém. Nem ao parceiro, nem ao amigo e às vezes nem a si própria. Afinal, o que desejas tu? Mafalda Cruz, sexóloga, é agora também podcaster e percebeu, ao longo dos anos, uma coisa incómoda. O problema raramente está no corpo, está no vocabulário que nos falta para pedir aquilo que queremos e no medo de que, ao dizê-lo em voz alta, alguém fique ofendido. Ou pior, zangado connosco. Já perceberam? Este programa é um belo pretexto para falar de sexo. De sexo e de comunicação. E deixam aviso aos mais sensíveis. Usamos todas as palavras. Todas. Não é explícito, mas só há uma maneira de dizer as coisas, usando as palavras que todos entendemos. Viva, Mafalda Cruz, médica, médica, radio-oncologista e sexóloga, tu és agora conhecida por ser sexóloga e, portanto, és uma voz pública à volta disso, porquê que temos nós tanta vergonha de falar do desejo e do sexo? O que é que nos fizeram? Quem é que nos programou para termos vergonha de falar sobre isto? Não temos vergonha de falar sobre a comida, não temos vergonha de falar sobre mil coisas, mas aqui o desejo e o sexo é logo, ficamos logo meio encabulados.

Mafalda Cruz
03:36
Olá, obrigada Jorge pelo convite. Temos aqui um cruzamento de podcasts, que vai ser, espero que seja interessante. Essa questão da vergonha é uma questão com a qual eu me debato muito também. E que é, de facto Nós crescemos com esta ideia De que tudo o que tem a ver com a sexualidade É íntimo, é privado E portanto não tem cabimento num jantar Não tem cabimento Aqui, por exemplo, que me ainda hoje me disseram Se eu chegar aqui e dizer Tenho andado um bocado embaixo, um bocado triste É uma coisa Se eu chegar aqui e dizer Tenho andado com secura vaginal, é outra

Jorge Correia
04:11
Fica toda a gente com os olhos arregalados Fica toda a gente atrapalhada

Mafalda Cruz
04:15
Toda a gente atrapalhada As pessoas não sabem como reagir como responder.

Jorge Correia
04:20
Fica toda a gente a desconfersar.

Mafalda Cruz
04:22
E até ficam a pensar o que é essa cura vaginal, porque muitas vezes nem se sabe bem o que é que é isso. E, portanto, esta questão da vergonha tem muito a ver com a forma como fomos educados, socializados, com a nossa cultura também. Eu posso partilhar aqui, por exemplo, eu no primeiro ano da faculdade vivi, tive a sorte de partilhar a casa com cinco finlandeses que estavam cá em Erasmus. E eu aí tive um contacto com uma relação, a relação que eles tinham com os corpos deles era completamente diferente da nossa. Eles andavam nus em casa, na nossa casa, com muita naturalidade.

Jorge Correia
04:58
Já agora qual foi a tua primeira reação?

Mafalda Cruz
05:00
Eles explicaram-me, olha, nós fazemos isto por nós, é tudo ok, é um corpo nu. E portanto, é para nós percebermos que isto tem muito de cultural e muito da forma como somos educados. Aquilo que eu noto também, acho que nós vamos falar de comunicação, de linguagem, é uma dificuldade, que as pessoas têm uma dificuldade orgânica em falar sobre sexualidade, porque também não sabem que termos é que iam de usar, e como têm medo de usar termos incorretos, acabam por ficar com vergonha de falar sobre isto, e, portanto, o mais fácil é não falar.

Jorge Correia
05:33
Olha, isso é curioso, porque tu, na tua experiência, na tua consulta, quais são as situações mais comuns em que as pessoas, pura e simplesmente, não encontram as palavras para te dizer aquilo que querem dizer. E que vão dizendo o quê? Vão dizendo inuendos? Vão arranjando analogias? Como é que se sobrevive?

Mafalda Cruz
05:51
Sim, é uma pergunta interessante, porque eu noto muitas dificuldades orgânicas de comunicação. Desde eu ter perguntado a uma pessoa da minha idade que não consegue ter sexo com penetração porque tem dores e eu tento dar a explorar, mas o seu problema é mesmo só com a penetração. e ela não perceber o que é que eu estava a perguntar ou seja, não percebia o que é que eu queria dizer com penetração

Jorge Correia
06:16
um problema de conceito logo?

Mafalda Cruz
06:17
de conceito, não percebe a palavra penetração

Jorge Correia
06:20
e como é que tu te sobrevives nisso?

Mafalda Cruz
06:22
quer dizer, como uma pessoa não está da tua idade

Jorge Correia
06:24
é mais fácil, imagino, ou não?

Mafalda Cruz
06:26
para mim é igual sim, aqui a questão da idade para mim não é uma barreira eu geralmente começo a consulta quando vejo que a pessoa está particularmente ansiosa depois vamos tendo truques também tens truques aqui no podcast certeza, para deixar as pessoas mais confortáveis e eu na consulta também tenho esses truques, então eu começo logo por, em muitos casos, por explicar, olha, estamos aqui a falar de assuntos que são íntimos que para si provavelmente são difíceis de falar mas eu falo sobre isto todos os dias portanto pode estar à vontade e se não souber que termos é que há de utilizar, pode usar o calão porque nós vamos nos entender

Jorge Correia
07:02
Ah é? Tu abres logo essa porta? Abro porque é preferível

Mafalda Cruz
07:05
que a pessoa use um calão à minha frente do que não diga nada não é? E porque a pessoa e para resolver os seus problemas sexuais não vai ficar com um problema por resolver porque não me sabe dizer os termos científicos então sim, eu ouço muito calão eu conheço o calão e às vezes eu próprio tenho que recorrer a ele porque ou é isso ou a pessoa não vai perceber o que é que eu estou a dizer por exemplo, eu detesto usar o termo ah, sente-se molhada eu detesto esse termo, mas se calhar se eu perguntar como é que está a sua lubrificação a pessoa não vai entender o que é que eu estou a dizer

Jorge Correia
07:37
porque parece muito mais técnico, não é? Não é uma coisa que lá está que se usa no dia-a-dia.

Mafalda Cruz
07:41
E não se aprende na escola, não se fala disto. Portanto, as pessoas não vão ouvindo estes termos. E como é que é onde ouvir estes termos? Onde é que é onde ouvir estes termos de lubrificação? Nos filmes que veem? Não. Não usam estes termos. Nas telenovelas também não se vê. Portanto, aquilo que as pessoas consomem, onde é que isto virá? Não vem, porque como não há educação sexual nas escolas, em casa também não. Não vamos ouvindo os termos corretos. Outro termo, ereção, que para mim é o termo a utilizar. E que na consulta às vezes temos mesmo que falar em tesão.

Jorge Correia
08:15
Que é aquilo que, lá está, automaticamente faz clique.

Mafalda Cruz
08:19
Faz clique, pois.

Jorge Correia
08:20
E tu como é que, já agora tenho essa curiosidade que é, mantens uma face serena quando ouvires um calão que nunca tinhas ouvido há algum tempo e que é verdadeiramente radical? Como é que tu consegues manter esse ar sereno e profissional, sabendo, ok, isto faz parte do jogo?

Mafalda Cruz
08:37
Olha, sabes, eu hoje em dia já sinto-me mais à vontade também para eu própria mostrar as minhas emoções na consulta.

Jorge Correia
08:45
Também vala? Tu também partiras as tuas emoções?

Mafalda Cruz
08:48
Eu partilho, porque eu já aprendi que, no início, acho que era assim mais poker face, ou seja, menos emotiva. E dou-te outro exemplo, que é, eu ouço histórias sexuais muito dramáticas. Casos de abuso sexual, nem precisamos dir aí, mas histórias muito dramáticas. E houve uma vez que eu tive uma formação E contei um caso clínico Que era um destes, tristes E os formadores perguntaram-me E como é que tu reagiste?

Jorge Correia
09:17
Boa pergunta

Mafalda Cruz
09:18
Sim, e eu disse Que basicamente não reagi Que a pessoa continuou a falar E que eu mantive a minha cara E continuei a consulta Apoiei, dei as ferramentas E eles assim, mas olha, tu estás a ouvir uma pessoa Da tua idade Que podias ser tu, com um filho pequeno Como eu tinha na altura a contar-te uma história dramática, é natural que isso provoque emoções em ti. Não precisas de as esconder. E eu tive aí um momento de, ok, e se calhar é mais fácil daqui para a frente se eu não esconder as coisas.

Jorge Correia
09:51
Porque demonstras alguma empatia no fundo.

Mafalda Cruz
09:53
Demonstras a humanidade também, não é?

Jorge Correia
09:55
E onde é que está ali a fronteira, não é? Porque, quer dizer, se eu for agora aqui à tua consulta, conto uma história muito triste e tu começas a chorar, eu vou ficar muito atrapalhado.

Mafalda Cruz
10:03
Mas isso nunca me aconteceu. Meu Deus do céu.

Jorge Correia
10:05
Então, se nem ela me consegue ajudar, se está aqui…

Mafalda Cruz
10:07
Olha, já foi muito difícil conter as lágrimas, mas acho que para mim isso é uma barreira, não é? É uma barreira que eu não quero ultrapassar, porque apesar de tudo eu tenho que ter uma postura profissional e não desabar e não me desfazer em lágrimas.

Jorge Correia
10:23
Que histórias é que te tocam?

Mafalda Cruz
10:27
Olha, recentemente tocou-me muito uma história de uma pessoa perto dos 50 anos, uma mulher perto dos 50 anos, que tem muita insatisfação sexual ela está a entrar na menopausa portanto está a começar a ter muitos problemas sexuais que até aqui não tinha e teve uma história de vida que a mim me tocou porque é uma professora universitária uma pessoa altamente diferenciada que foi vítima agora de um concurso que foi fraudulento e que basicamente uma pessoa com tanta formação, com tanta investigação na área dela não tem dinheiro para sobreviver e está a começar a ter vários problemas na vida pessoal dela e na vida sexual dela e vê-se ali uma angústia enorme de como é que eu vou chegar até ao final do mês tem duas filhas, como é que eu vou chegar até ao final do mês com dinheiro e começou-me a tocar muito porque ela pagou a minha consulta e isso é uma coisa que eu tenho empatia e que percebo que as pessoas passam por muitas dificuldades e esta questão do contexto em que as pessoas vivem Uma mulher que está a começar a ter vários problemas no corpo dela, várias alterações no corpo dela por causa da menopausa, que até aqui pelo menos a sexualidade dela corria bem e ela tinha algum prazer, alguma satisfação, agora nem isso. E a sexualidade dela também fica muito influenciada por este stress constante em que ela vive. Como é que uma pessoa vai usufruir da sua sexualidade se está numa constante preocupação de como é que eu vou sobreviver até ao final do mês?

Jorge Correia
11:56
Portanto, há muitas coisas que são sexo, mas não são sexo. O sexo é, no fundo, o impacto está na sexualidade.

Mafalda Cruz
12:03
É, há muitas consultas em que se fala quase de tudo menos de sexo, porque a pessoa vai lá com um problema sexual, mas depois nós percebemos que o que está a causar este problema sexual é todo o contexto em que esta pessoa está a viver. Às vezes porque não tem tempo, porque desdobra-se em dois e três trabalhos e depois ainda tem que ir buscar os filhos, e às vezes, ou porque não há tempo, não há tempo para as pessoas terem hobbies, para fazerem coisas só pelo seu puro prazer, só por desenvolvimento pessoal. As pessoas vivem assoburbadas com o trabalho, com as responsabilidades e vivem num piloto automático e isto não é compatível com uma boa saúde sexual.

Jorge Correia
12:43
Explica-me lá isso. Então, mas espera lá. Claro, nós não somos compartimentos, não temos aqui agora vamos fazer isto, liga isto, desliga aquilo, mas em princípio é uma atividade que nos dá prazer nos dá muito prazer, em princípio devia ter ali uma salvaguarda não é? Quer dizer, era um… Tem que haver essa disponibilidade mental

Mafalda Cruz
13:02
Tem que haver essa disponibilidade mental que nas mulheres parece ser mais afetada por este tal contexto do que nos homens ou seja os homens eu não gosto nada de generalizar não é isso que eu pretendo fazer, mas o que se vai vendo é que mesmo os homens tendo assim este alto stress no trabalho e tudo mais ainda assim mantém alguma vontade sexual no caso das mulheres temos muito esta questão da carga mental ou seja, trabalhos exigentes, filhos pensarem em coisas dos filhos para aqui e para ali e muito stress e aqui mesmo em termos bioquímicos, em termos cerebrais o stress e a ansiedade são inibidores da resposta sexual

Jorge Correia
13:45
Portanto, a solução é arranjar um bom preliminar que é descansar a cabeça? Férias. Férias?

Mafalda Cruz
13:51
Não, por isso é que muita gente diz que nas férias as coisas correm melhor a nível sexual, não é? Porque há mais tempo, há mais disponibilidade mental e no nosso dia-a-dia é difícil. Agora, a questão é que as pessoas têm… parece-me que as pessoas têm um bocadinho de dificuldade de compreender isto ou se calhar não sabem isto, não é? Se andamos a mil, se andamos permanentemente acelerados se calhar o nosso desejo sexual vai estar mais baixo e depois Na consulta perguntam-me, vamos fazer análise que se calhar eu tenho alguma alteração hormonal. E eu, não, vamos parar, olhar para a sua vida, para o seu dia-a-dia e entender que muito dificilmente há espaço aqui para ter desejo sexual. Até porque o desejo surge muito, nós precisamos de receber estímulos para ter desejo. Esta ideia de que o desejo surge do nada, vamos esquecer.

Jorge Correia
14:43
O que é que nos estimula? O que é que nos dá desejo?

Mafalda Cruz
14:45
Depende de pessoa para pessoa. E eu acho que cada pessoa deve perceber a si própria o que é que a estimula.

Jorge Correia
14:52
E depois implica também falar ao outro, não é?

Mafalda Cruz
14:54
Falar ao outro e depois este exercício que nós tentamos fazer é tentar descobrir o que é que a estimula e rodear-se desses estímulos. Porque se nós no nosso dia-a-dia não passamos por nada, não recebemos nenhum estímulo sexual, dificilmente vamos sentir desejo.

Jorge Correia
15:11
Embora nós estamos numa fase e numa altura da nossa existência onde tudo é hipersexualizado. Estou a pensar na publicidade, por exemplo, onde os estímulos hipersexuais existem em cada cartaz.

Mafalda Cruz
15:24
Mas estímulos para quem?

Jorge Correia
15:26
Ah, porque são mais visuais?

Mafalda Cruz
15:28
E se são mais visuais, geralmente são melhores para os homens.

Jorge Correia
15:31
E não para as mulheres?

Mafalda Cruz
15:31
Pois. As mulheres não parecem ser tão visuais quanto os homens.

Jorge Correia
15:35
Inclusive, por exemplo, estou a pensar nas publicidades à lingerie. Eu acredito que os homens veem uma coisa, se calhar veem mais a modelo do que propriamente a roupa, E se calhar as mulheres ao contrário.

Mafalda Cruz
15:45
E é um estímulo.

Jorge Correia
15:46
Também. Sim. Porque estimula o imaginário.

Mafalda Cruz
15:49
Porque estimula o imaginário, porque recebem um estímulo visual direto, porque faz pensar em alguma coisa que já viram ou que já aconteceu, remete-nos aqui para memórias, para pensamentos. Agora, os estímulos, o que nos estimula é muito pessoal. E o que eu digo é que as pessoas devem saber o que é que isso estimula. Ou seja, isto são as fantasias sexuais.

Jorge Correia
16:12
É disso que estamos a falar, não é? Mais ou menos. Então, tens uma lista de fantasias do que é que… Bom, enfim, é uma generalização, eu já sei. Mas o que é que nos anima?

Mafalda Cruz
16:24
Existem estudos com isso. Portanto, as fantasias são cenários ou pensamentos. Portanto, pensamentos ou cenários mentais que quando nós pensamos neles, isto de alguma forma nos excita. É um estímulo, não é? Só que normalmente as pessoas, quando eu pergunto sobre fantasias, vão para coisas um bocadinho mirabolantes e aquelas coisas, posições sexuais muito difíceis ou sexo no avião ou as fardas mas podem ser coisas simples Acrobacias e fetiches Acrobacias, sim Podem ser coisas simples como, sei lá, um encontro sexual que já tiveram ou os primeiros tempos de namoro coisas mais simples Isso são fantasias, ou seja, nós recuamos nós pensamos, imaginamos aquilo às vezes podemos criar uma história mais ou menos complexa e isso ajuda-nos a ficar excitados e, na consequência disso, ter mais desejos, ter vontade de iniciar uma atividade sexual.

Jorge Correia
17:24
Mas isso depois implica, quando nós… Implica, em primeiro lugar, conhecermos, não é? E saber, e pensar sobre isso e saber quais são os desencadentes. A segunda parte é, em princípio, partindo do pressuposto que esta ideia de sexualidade é com outra pessoa, Hum?

Mafalda Cruz
17:45
Todos nós temos a nossa sexualidade E a nossa sexualidade connosco também é muito importante Estamos a falar aqui de masturbação, da exploração do próprio corpo E as fantasias podem servir para isso também Nós consumirmos algum conteúdo que achemos estimulante Para nos masturbarmos Isso acontece muito

Jorge Correia
18:06
Independentemente do outro parceiro ou sem parceiro? Não interessa?

Mafalda Cruz
18:09
Ah sim, independentemente Porque há pessoas que dizem Se eu estou num relacionamento não preciso me masturbar Não, mas a masturbação continua a ser saudável Mesmo estando num relacionamento Tem vários benefícios Nomeadamente, estou aqui defensora da masturbação Nomeadamente diminuir o stress Para algumas pessoas ajuda a adormecer É muito importante a masturbação para Sobretudo as mulheres perceberem Que estímulo é que lhes dá mais prazer

Jorge Correia
18:40
Encontrar os seus botões

Mafalda Cruz
18:41
Encontrar os botões, sim. E essa descoberta às vezes surge antes até das relações sexuais com outra pessoa, não é?

Jorge Correia
18:49
Olha, este tema interessa-me porque essa questão dos botões, descobrir os botões, descobrir os sítios, é muito interessante conhecê-los, mas dava jeito, se calhar, e isto é comunicação, quando há um parceiro dizer onde é que estão esses botões e o que é que se faz com eles e dá-me a ideia que se fala muito pouco sobre isso.

Mafalda Cruz
19:09
Muito pouco. Primeiro…

Jorge Correia
19:10
Há um não dito, no fundo.

Mafalda Cruz
19:12
Há um não dito e há um, nós chamamos script, ou seja, há um guião sexual que as pessoas seguem à risca, mas não têm que o seguir. O guião é, ok, começar pelos preliminares, entre aspas, detesto esta palavra, se quiser já explico porque é que eu detesto isto. Preliminares, quando se nota que as coisas, ok, já estão quentes. Penetração, penetração, o homem tem um orgasmo, a mulher provavelmente não vai ter porque a penetração não é o seu botão estávamos aqui a falar de botão portanto aumenta aí o orgasmo e vai perder a ereção a seguir e a relação sexual termina normalmente não há discussão sobre isto

Jorge Correia
19:50
E então que guiões alternativos é que nós podíamos ter a esta história?

Mafalda Cruz
19:54
Não existe depois não existe o que é suposto e o que é normal, eu acho que as pessoas têm é que conversar sobre o que é que gostam se calhar não seguir sempre a mesma ordem das coisas na relação sexual. Não estamos aqui a falar de percorrer o Kama Sutra com outras posições. Não é tanto de posições que estamos a falar, mas de diferentes tipos de estímulos. E depois temos aqui a questão de que a penetração geralmente é a forma de os homens terem orgasmo, penetração pénis-vagina, mas para as mulheres não. E portanto nós não devemos só investir nisso na relação sexual. E então tentar perceber, ok, agora estou-me a relacionar com esta pessoa. O que é que te sabe bem? Sabe-te bem assim? E a outra pessoa também conseguir ir direcionando, ir sinalizando. Mais para cima, mais para baixo, com mais pressão, menos pressão, mais velocidade. Isto é comunicação.

Jorge Correia
20:53
Com esses detalhes?

Mafalda Cruz
20:54
Por que não?

Jorge Correia
20:55
Não sei, quer dizer, porque o não dito não impede quase de…

Mafalda Cruz
21:01
Eu acho que ficamos todos a perder se não falarmos, não é?

Jorge Correia
21:04
Posso perguntar-te porquê que não falamos? Se eu gosto assim, se eu gosto desta maneira, se eu gosto que me faça…

Mafalda Cruz
21:12
Mas temos que saber como é que gostamos para conseguir explicar à outra pessoa. Às vezes nem sequer sabemos, não é? Às vezes há pessoas que, quando têm uma relação sexual, recebem o estímulo do seu companheiro e acham que aquilo é o melhor estímulo que podem ter porque não experimentaram sozinhas ou não experimentaram com outra pessoa. E depois nós falamos em masturbação e as pessoas dizem não, mas o meu companheiro satisfaz-me muito. Ok, ninguém está a dizer que o companheiro não satisfaz, mas então e se experimentar outras coisas? Se experimentar sozinha vai perceber que se calhar tem outros botões, outra forma de ser estimulada, que até se vai surpreender. E quando perceber isso, então vai conseguir também explicar a outra pessoa e as coisas vão saber ainda melhor. E é muito importante esta questão do prazer, é importante que as coisas saibam muito bem, porque quando as coisas nos sabem muito bem, Nós libertamos uma substância incrível no nosso cérebro, que é a dopamina, que nos dá uma sensação de bem-estar e de querer repetir a experiência. Portanto, está aqui um grande truque para continuarmos a ter desejo sexual.

Jorge Correia
22:13
A evolução faz o órgão, nós temos que repetir os processos.

Mafalda Cruz
22:16
Não, é os processos saberem-nos bem para querermos repeti-los. É as coisas saberem-nos bem para querermos lá voltar. Ninguém, às vezes digo, ninguém sonha com uma pescada cozida.

Jorge Correia
22:30
Tu queres agora criar uma comunidade de nutricionistas

Mafalda Cruz
22:33
Que nos vão dar a cabeça Já com leitão

Jorge Correia
22:38
Com molho

Mafalda Cruz
22:40
Os preços da boca lá está Se eu nunca provar o leitão Realmente o que eu vou gostar mais é a pescada cozida Departimos para analogias com comida Desculpem

Jorge Correia
22:49
Está tudo bem Aqui a questão é que é assim Essa ideia do imaginário E da experiência e afins nas relações tipicamente monogâmicas estão limitadas ali àquele grupo de pessoas, neste caso duas pessoas Não necessariamente

Mafalda Cruz
23:07
é assim estão limitadas àquela pessoa, agora se for um casal aquilo que os estudos nos mostram é que se for um casal que sabe comunicar sobre sexualidade sabe comunicar o que é que gosta quais os seus limites quais as suas vontades, que também vão mudando ao longo da relação se estivermos a falar numa relação que dura décadas, os desejos de uma pessoa aos 20 vai ser diferente de aos 40 e 60, não é? Se nós soubermos ir comunicando as nossas necessidades e desejos à pessoa com quem estamos, e o casal estiver a evoluir na mesma direção, vão adaptando tudo isso. E depois há pequenas aberturas na relação que há pessoas que estão dispostas a fazer. A monogamia também não é estanque.

Jorge Correia
23:51
Como é que tu navegas nessas águas? Já agora a tua consulta, tens lá as duas pessoinhas? como é que é?

Mafalda Cruz
23:59
Depende, às vezes a pessoa vem sozinha outras vezes se preferir vem com o companheiro eu na primeira consulta prefiro quando as queixas são de um dos elementos prefiro que ele vá sozinho para ouvir e porque acho que a pessoa estará mais confortável em partilhar coisas que se calhar com o parceiro ao lado não estaria confortável depois se virmos que há aqui questões de casal a trabalhar terapia sexual com os dois convido o companheiro a estar presente numa próxima consulta. E perdi-me agora.

Jorge Correia
24:33
Não, quer dizer, nós estávamos a falar aqui de, lá está, as relações quadradas. Ah, da monogamia. Nós fazemos a mesma coisa e também temos tradicionalmente as relações monogâmicas e subitamente algum membro do casal aparecer com uma técnica ou com uma fantasia absolutamente lunática e o outro diz mas espera lá, mas onde é que tu foste buscar essa…

Mafalda Cruz
24:54
Pois, sabes que há um exercício aqui das fantasias que eu às vezes peço aos casais para fazerem, que é escreverem mesmo, cada um escreve na sua folha de papel coisas sexuais ou íntimas que já fez e que gostou, que já fez mas não gostou e, portanto, não quer repetir, que não fez mas quer fazer, portanto, as fantasias e que também não quer fazer, portanto, os limites. E os casais podem fazer isto, mostrarem um ao outro o que é que escreveram e discutirem do que está ali, o que é que um e o outro estão dispostos a fazer. E percebem também o que é que um e o outro gostam.

Jorge Correia
25:36
Tenho curiosidade. Onde é que estão as coisas mais comuns de que as pessoas gostam de fazer ou não gostam de fazer? Onde é que estão os limites?

Mafalda Cruz
25:43
Em termos de fantasias, as fantasias mais comuns são sexo com múltiplos parceiros. Portanto, o sexo a três, o swing, sexo em grupo, são as fantasias mais comuns. Depois temos as fantasias do proibido, por exemplo, que são coisas muito eróticas e que excitam muito as pessoas. Fantasias românticas, depois as fantasias dividem-se aqui com pessoas que conheço e com pessoas que não conheço. Temos as fantasias românticas, que é aquilo que eu estava a dizer de pensar nos primeiros tempos de namoro, pensar num encontro bonito que tenha tido com o meu companheiro.

Jorge Correia
26:24
Fantasias históricas, no fundo.

Mafalda Cruz
26:26
Sim, sim. E depois temos aquelas fantasias das profissões, não é? O fantasiar com a farda do bombeiro, com o sexo nas alturas também é uma fantasia muito comum. E temos as fantasias BDSM Bondar, sadomasoquismo Que se vai vendo também E pronto, fantasiar com pessoas que conhecemos

Jorge Correia
26:53
Oh diabo, mas essas podem ser uma carga de trabalhos ou não

Mafalda Cruz
26:56
Sim, mas sabes que fantasiar com pessoas Se estivermos numa relação E se fantasiarmos com uma pessoa de fora da relação Isso não quer dizer que estejamos mal na nossa relação Nem as fantasias querem dizer que queiramos mesmo Pôr aquilo em prática Então? Não, é que lá está, o nosso cérebro não tem limites E portanto É uma coisa boa das fantasias é que nós podemos ir para onde quisermos E não temos que dar explicações a ninguém

Jorge Correia
27:20
Quer dizer, o facto de nós fantasiarmos com uma determinada coisa Não quer dizer que objetivamente Realizemos a ideia De que aquilo aconteça efetivamente

Mafalda Cruz
27:29
Verdade, olha, por exemplo Doutor, um exemplo simples, muita gente fantasia Com atores ou cantores muito conhecidos Não quer dizer que o vá fazer Até porque não tem essa hipótese, não é?

Jorge Correia
27:39
E estão lá longe, não é?

Mafalda Cruz
27:40
Mas é uma fantasia, se servir para nos excitar, para termos mais prazer, está tudo certo. Não quer dizer que estejamos mal na nossa relação, nem que eu necessariamente agora vá para os Estados Unidos ter com o cantor tal que eu adoro. Não, são fantasias, ficam ali num lugar bonito do cérebro para as usarmos quando quisermos.

Jorge Correia
27:59
Olha, então e essas folhas que foram preenchidas por uma pessoa e outra que ali estão à tua frente, o que é que acontece quando se cruzam e quando vão ler aquilo?

Mafalda Cruz
28:08
Sim, depois as pessoas descobrem, olha, temos aqui um ponto em comum, tu gostarias de, sei lá, experimentar sexo a 13 e eu também, então vamos perceber como é que podemos fazer isso.

Jorge Correia
28:19
Vamos ali à doutora perguntar como é que é, como é que se…

Mafalda Cruz
28:23
Ou tu escreveste aqui que gostavas, sei lá, de experimentar sexo anal, que nós nunca experimentámos e eu também gostava. Portanto, vamos ver como é que podemos fazer isso, começar com calma. E por outro lado também estas folhas servem para as pessoas verem, explicarem os seus limites. Olha, eu daqui não passo. E isso deve ser respeitado, logicamente.

Jorge Correia
28:46
Portanto, tu querias um belo pretexto para que aconteçam coisas.

Mafalda Cruz
28:48
Para conversarem.

Jorge Correia
28:50
É?

Mafalda Cruz
28:50
Porque isto é só para pôr as pessoas a conversarem.

Jorge Correia
28:52
É essa a tua tática?

Mafalda Cruz
28:53
Isto é uma ajuda, sim Para as pessoas conversarem sobre coisas que normalmente não conversam

Jorge Correia
28:58
Quer dizer, mas Porquê que o tabu Porquê que esse tabu Ocupa tanto da nossa existência?

Mafalda Cruz
29:05
Eu acho que pode haver medo de ofender a outra pessoa Ou por exemplo Há pessoas que têm muito medo Imagina, estás numa relação heterossexual Homem a estimular o clitóris da mulher Mas está a estimular mal para ela Porque ela nem sequer está a gostar Às vezes até está a incomodar E ela não diz porque não quer que ele fique ofendido. Não quer que ele fique a achar… Não quer ferir o ego da outra pessoa.

Jorge Correia
29:30
Mas isso também conta, não é?

Mafalda Cruz
29:32
Pois conta, mas aqui perdem os dois, não é?

Jorge Correia
29:35
Que é uma longa paciência, já diria Julio Machado Vaz. O amor é uma longa paciência. Tu, Alcatinho, falavas que preliminares é uma palavra, é um conceito que te irrita. É palavra?

Mafalda Cruz
29:45
É, é palavra. Sim. Porque normalmente as pessoas chamam preliminares ao que acontece antes da penetração. Certo?

Jorge Correia
29:54
Ok, sim, pré

Mafalda Cruz
29:55
Pré-penetração Então estamos a dizer que o sexo começa quando há penetração

Jorge Correia
30:00
E antes nada

Mafalda Cruz
30:01
E antes não conta

Jorge Correia
30:03
Isso é quase uma definição jurídica, não é?

Mafalda Cruz
30:04
Verdade, só que não te esqueça

Jorge Correia
30:08
Bill Clinton usou essa tática, não é? Que tinha dito Mas não houve penetração Não houve sexo, lá está É uma definição jurídica

Mafalda Cruz
30:17
Exatamente Só que volto aqui a explicar a penetração não é a atividade sexual que dá prazer à maioria das mulheres. E, portanto, nós não devemos chamar a isso o sexo e o resto um pré-sexo. Percebes? Porque aquilo que se chama preliminares, geralmente as pessoas falam em, sei lá, sexo oral, ou estimulação do clitóris com os dedos, com a boca, com brinquedos. Chamam a isso preliminares. Esse momento, provavelmente, é o momento da relação sexual em que a mulher está a ter o seu máximo de prazer. Se nós pensarmos neste guião Eu faço isto um bocadinho no início E quando eu vi que as coisas já estão bem Partimos para a penetração Então aí a mulher não vai voltar a ter o seu máximo de prazer Embora não haja um guião que eu recomendo Primeiro deixar de chamar preliminares Isso já é sexo Até porque se perguntarmos a uma pessoa assim, se teve sexo só sem explicar o que é que estamos a perguntar e a pessoa nunca teve sexo com penetração a pessoa pode nos dizer que não teve sexo

Jorge Correia
31:22
Mais uma vez os conceitos

Mafalda Cruz
31:24
E eu enquanto médica às vezes posso estar à procura de riscos de infecções sexualmente transmissíveis e se a pessoa me disse que não teve sexo eu posso assumir que não há nenhum risco de ter tido uma infecção sexualmente transmissível

Jorge Correia
31:34
Quando ele pode ter acontecido?

Mafalda Cruz
31:35
Claro, porque se houve sexo oral

Jorge Correia
31:38
Deixa-me ir ao fronteiro um bocadinho atrás largar a fronteira ou se pomos aqui um limite nesta conversa o beijo também beijo de boca, beijo de língua também é sexo?

Mafalda Cruz
31:53
Pois o que é que é sexo, não é?

Jorge Correia
31:54
Isso é o ponto, não é? Onde é que está esta fronteira? Lá está a questão da comprenação ou não resolve um problema, um problema prático objetivável, é fácil de objetivar o que tu estás a dizer é não, não atenção que isto conta desde o momento zero, conta desde a fantasia

Mafalda Cruz
32:11
Desde quando é que conta, não é?

Jorge Correia
32:12
É que depois eu também não te posso dizer

Mafalda Cruz
32:14
que as coisas contam a partir do momento que se toca nos genitais. Também não é preciso tocar nos genitais para haver sexo.

Jorge Correia
32:21
Precisamos de um Pantagruel. Precisamos de um livro para explicar estes conceitos todos. Olha, aqui a diferença entre desejo e expectativa. Porque uma coisa é o que eu posso desejar, outra coisa é a expectativa daquilo que eu posso ter. No fundo é esta coisa do desejo e da expectativa. Pode ser treinável, pode ser ensinável? Ou cada um que se desenraste?

Mafalda Cruz
32:46
Eu acho que a expectativa pode fazer um bocadinho mal ao desejo.

Jorge Correia
32:53
Mania das grandezas. E isto agora é que vai ser extraordinário.

Mafalda Cruz
32:55
Eu não consigo muito uma coisa à outra, mas acho que daquilo que vejo, é assim, as pessoas, é um dos grandes problemas, é uma das principais queixas na consulta, é a falta de desejo. Porque as pessoas têm as expectativas também muito lá em cima. percebes de que eu deveria ter este nível de desejo

Jorge Correia
33:15
quantas vezes é que é normal por semana

Mafalda Cruz
33:17
ou porque se comparam com quem não se deviam comparar e as pessoas e depois sofrem muito com isto porque há pessoas que não sentem muito desejo mas queriam ter desejo querem corresponder às expectativas da pessoa com quem estão e depois eu pergunto sempre ok, mas tem baixo desejo, baixo desejo em relação a quem? em relação a quê?

Jorge Correia
33:39
Aos amigos que contam umas histórias mirabolantes.

Mafalda Cruz
33:40
Exato, e eu explico sempre que as pessoas mentem. Ok? Toda a gente mente.

Jorge Correia
33:45
As pessoas mentem? Mentem em quê?

Mafalda Cruz
33:48
Em tudo.

Jorge Correia
33:49
Em tudo?

Mafalda Cruz
33:50
Mas sabes que, olha, eu vou dar aqui uma meia-culpa. Eu já, eu acho que já contesto. Uma vez fizeram-me um questionário, estava eu na faculdade, um questionário anónimo sobre sexualidade e eu menti nesse questionário.

Jorge Correia
34:02
De propósito?

Mafalda Cruz
34:04
Sim.

Jorge Correia
34:05
Porque não sentiste segurança?

Mafalda Cruz
34:06
Não me senti segura. E portanto, se as pessoas mentem num questionário anónimo, também mentem nos jantares com amigos. E mentem sempre para cima. Nos jantares com amigos é para cima. Era o meu questionário que foi para baixo.

Jorge Correia
34:21
Então se alguém havia de mentir, se fosse para ser uma coisa gloriosa, a gente te conta uma coisa gloriosa.

Mafalda Cruz
34:27
Mas já visto o sofrimento que isto pode dar noutras pessoas. Casais que num jantares estão a dizer porque nós na última semana foi quatro vezes e depois temos ali um outro casal que já há dois meses que não se passa nada. É difícil

Jorge Correia
34:40
Mas cada casal é um casal

Mafalda Cruz
34:42
O contexto de uns não é o contexto de outros Se calhar o casal que tem relações sexuais mais vezes Vive numa casa enorme e já tem filhos maiores Que dormem a noite toda O outro casal se calhar vive num ter um Em que o filho dorme ali ao lado E acorda com um barulhinho pequeno

Jorge Correia
35:02
As nossas circunstâncias

Mafalda Cruz
35:04
As circunstâncias são muito importantes aqui Portanto, ouvirmos um casal a dizer Ah, eu tenho sexo quatro vezes por semana Isto não diz nada sobre a saúde daquele casal

Jorge Correia
35:12
Olha, a propósito do barulho do som e do falar o ouvido O som conta no meio desta coisa?

Mafalda Cruz
35:18
Sim, o som Estás a falar do som durante a razão O som, o que as pessoas dizem

Jorge Correia
35:22
O que as pessoas…

Mafalda Cruz
35:26
Contribui para o erotismo

Jorge Correia
35:27
Contribui?

Mafalda Cruz
35:28
Contribui para o erotismo, para a excitação Pode contribuir se as pessoas gostarem de ouvir pessoas que não gostam de ouvir nem de emitir sons mas é um estímulo assim como é o estímulo visual e há espelhos nos quartos e isso pode funcionar como um estímulo também estar a ver o que está a acontecer estar a ouvir e por exemplo esse estímulo auditivo para as mulheres até às vezes resulta muito bem existem até umas aplicações que têm se calhar esta não sabias que têm uma espécie de audionovela erótica Aquilo é muito giro

Jorge Correia
36:06
Desculpa, vou pôr aqui o Spotify E está aqui a tocar uma novela Que subitamente acontecem coisas

Mafalda Cruz
36:12
E isso pode funcionar até para uma pessoa Que não estava com desejo Ouviu aquilo, recebeu um estímulo que gostou E começou a ter desejo

Jorge Correia
36:19
Portanto, um bom jantar Umas velas, um ambiente calmo e sereno Umas férias e uma novela erótica Portanto, já temos aqui uma receta Temos várias coisas Mafalda, como é que é a Mafalda de sexóloga que está nesse jantar dos amigos. Então qual é o teu papel? No fundo é o papel da heroína, o papel de quem é chamado para explicar as coisas todas, o árbitro. Qual é o teu papel?

Mafalda Cruz
36:45
Olha, eu vinha a pensar nisso, não sabia que me ias fazer essa pergunta, mas eu vinha a pensar aqui nesta questão de falar sobre sexualidade.

Jorge Correia
36:51
Já agora porque o capítulo da conversa de um dos capítulos era vida pessoal e tu deves ter pensado oh meu Deus, agora vai-me perguntar aqui coisas íntimas mas não de todo, mas interessa-me o teu papel aqui na tua tribo.

Mafalda Cruz
37:03
Sim, falar sobre sexualidade é uma coisa que eu tenho vindo a fazer nos últimos anos. Falo muito sobre sexualidade e que para mim é muito fácil. Eu adoro falar de sexualidade na consulta, adoro este um para um em que estou aqui a desconstruir coisas com os doentes, a quebrar mitos, a pôr as pessoas a olhar fora da caixa, a pensar de outra maneira. Para mim é muito fácil. E não tenho dificuldade nenhuma em usar os termos todos e jaculei, tenho orgasmo e não sei o quê. Pronto, tudo. É muito fácil para mim falar de sexualidade nas redes sociais para milhares de pessoas. Não tenho problema nenhum com isso. Estou muito à vontade. E também é muito fácil para mim falar em congressos para colegas, dar formação. E às vezes penso mesmo estou aqui a fazer uma apresentação num congresso e isto nem dois minutos tenho e eu já estou a falar de orgasmo e de coisas assim.

Jorge Correia
37:56
E já está tudo na canta de risota.

Mafalda Cruz
37:57
Não, estão tipo, ok, eu não estava preparada

Jorge Correia
38:00
Agora é que eu vou ficar aqui nesta conferência até o fim

Mafalda Cruz
38:04
Eu vou muito a congressos de oncologia Porque é a minha área, não é? E estás numa sessão sobre o último fármaco XPTO da quimioterapia E depois chego eu Ok, agora vamos falar de sexualidade E depois há o orgasmo e depois isto e aquilo E as pessoas não estavam sintonizadas para isso Mas recebem sempre muito bem Curiosamente Em jantares com amigos Para mim é onde é mais difícil falar De sexo Ah, isso interessa-me Sim, para mim é muito difícil

Jorge Correia
38:32
Portanto, a supermafalda Que fala em todo lado, nas redes sociais Que tem um podcast, que fala para centenas de pessoas E para milhares de pessoas

Mafalda Cruz
38:38
Chega ao jantar dos amigos Porque é um tema, pronto, as pessoas, claro, inevitável Estou ali e falam Ou vêm, olha já agora, estou aqui com Uma dificuldade

Jorge Correia
38:48
Podem fazer uma consulta?

Mafalda Cruz
38:49
Sim, e eu não tenho problemas com isso Mas para mim é mesmo difícil Porque conheço a pessoa de outros contextos

Jorge Correia
38:57
Conheço o namorado ou a namorada da pessoa

Mafalda Cruz
38:59
Sim, ou porque, sei lá, não estamos ali numa consulta Com princípio, meio e fim E eu recebo aquela informação Mas depois também não tenho tempo para explorar tudo o que precisava Ou porque, e isto é verdade Ou porque às vezes os meus amigos nos jantares Fazem de advogado do diabo E…

Jorge Correia
39:15
Vamos irritar a sexóloga

Mafalda Cruz
39:17
Vamos irritar a sexóloga

Jorge Correia
39:18
Eu acho que podia fazer esse papel, acho que era bem divertido

Mafalda Cruz
39:21
Porque a verdade é que nos congressos Estou ali numa posição de autoridade a passar a minha mensagem Que ninguém questiona nas redes sociais a mesma coisa e na consulta o médico apesar de tudo é ali aquela figura de autoridade que ninguém questiona muito chega aos jantar dos amigos e eles muitas vezes não concordam com o que eu ando a dizer e eu, balagista, agora está-me a dar mais trabalho

Jorge Correia
39:40
e discutei lá está, porque na roda de amigos todos estão especialistas das nossas áreas aquilo não é nada fácil

Mafalda Cruz
39:46
e estão à vontade para me contradizer e para dar pancada à vontade

Jorge Correia
39:52
é sempre engraçado saber que eles podem Eles podem, obviamente, fazer perguntas E às vezes podem fazer perguntas difíceis De coisas que tu se calhar dispensarias saber Naquele contexto

Mafalda Cruz
40:05
Sim, sim, sim Ou informação que me dão Que é muito íntima Que às vezes é too much information

Jorge Correia
40:12
E o que é que tu fazes com isso?

Mafalda Cruz
40:15
Eu guardo para mim E tenho que guardar para mim E é clínico Tenho que olhar para isso Do ponto de vista clínico Mas sim, as pessoas sentem-se É engraçado porque as pessoas sentem-se logo muito à vontade Para partilhar coisas da sua vida sexual E amorosa E comigo

Jorge Correia
40:35
E tu dizes, não, não

Mafalda Cruz
40:36
Eu só vim aqui beber-me um caneco

Jorge Correia
40:39
Quer dizer, deixem-me

Mafalda Cruz
40:40
Não, eu deixo E eu próprio tenho muita curiosidade pessoal Com os comportamentos humanos E tudo isso Mas é que eu depois não devolvo Porque as pessoas contam-me a sua vida Mas eu não lhes conto a minha

Jorge Correia
40:56
Mas perguntam também a ti diretamente coisas?

Mafalda Cruz
40:59
Estão à espera

Jorge Correia
41:02
No fundo vão criar uma narrativa Uma história Na expectativa e na esperança De que tu também deixes que aí qualquer coisinha

Mafalda Cruz
41:09
Vou ver sim, mas a minha vida não é assim tão interessante

Jorge Correia
41:11
Mas há a curiosidade E a curiosidade é uma coisa tremenda Olha, como é que foi evoluindo A tua maneira de fazer perguntas? Porque me interessa

Mafalda Cruz
41:20
E na consulta?

Jorge Correia
41:22
Não tem todo lado Há uma mafalda da consulta e uma mafalda fora da consulta A fazer perguntas?

Mafalda Cruz
41:28
Não, acho que não Diria que não Eu acho que fui afunilando Fui canalizando, ou seja Há perguntas que eu antes fazia de uma forma Que agora sei, a pessoa não vai entender assim Portanto vou fazer de outra forma Mesmo o tempo da consulta É uma coisa que eu agora consigo gerir muito melhor E depois, por exemplo Eu acho que há perguntas que eu antes fazia que agora não faço porque antes achava que eram importantes, agora não acho coisas como olha, sei lá número de parceiros sexuais eu não acho isso muito importante na minha consulta mas antes fazia e a minha maneira as consultas as minhas consultas têm aqui um ritmo e um percurso que eu acho curioso e que se calhar muita gente não nota ou pode não ter atenção, não ficar com essa noção que é, há ali umas perguntas que são bastante mais sensíveis podem ir para temas traumáticos e isso não pode ser o final da consulta, porque eu não posso depois deixar a pessoa ir embora com este tema

Jorge Correia
42:36
aberto. Pode ser uma espécie de psicoterapia no fundo que começa…

Mafalda Cruz
42:39
Não, ao falarmos de traumas sexuais, por exemplo, ou de abuso sexual eu fazer estas perguntas eu costumo perguntar não pergunto logo diretamente se foi vítima de abuso sexual, mas começo por explorar como é que foi a infância, como é que é a relação com os pais e sigo para, e a sua infância foi segura.

Jorge Correia
43:00
Portanto, vais fazendo uma aproximação, uma exploração.

Mafalda Cruz
43:03
E vou apalpando terreno e depois pergunto-te normalmente se houve segurança na infância e estamos a falar de segurança, sei lá, de haver um teto, de haver comida ou de haver segurança sexual.

Jorge Correia
43:17
E se tu descobrires ou se te for revelado que aconteceu algo, uma coisa que aconteceu há 10 anos, há 20 anos ou há 30 anos, o que é que se faz com isso?

Mafalda Cruz
43:28
Eu aí paro imediatamente de escrever o que estou a escrever.

Jorge Correia
43:32
Vais-te mando notas?

Mafalda Cruz
43:33
Vou, vou. Tem que ser.

Jorge Correia
43:34
Computadora?

Mafalda Cruz
43:35
De computador, senão não tenho tempo para fazer tudo.

Jorge Correia
43:37
E como é que tu consegues tirar notas e olhar para as pessoas? É difícil ou não?

Mafalda Cruz
43:40
Ah, mas os médicos habituam-se rapidamente a isso. Escrevo sem olhar. Dá perfeitamente para fazer isso Mas quando começa a surgir um assunto Mais doloroso, mais sensível Aí acho uma falta de respeito Eu continuar a escrever

Jorge Correia
43:54
E vir-me para a pessoa e para o que estou a fazer

Mafalda Cruz
43:57
E dou atenção plena ao que a pessoa Me está a dizer Acontece muito de ser ali aquele momento Em que a pessoa está a partilhar isto O primeiro momento em que a pessoa está a partilhar isto Que nunca partilhou com ninguém E isso é bom para mim Porque sente-se confortável Sente o segurança, sente o conforto Para partilhar isto ali na consulta e percebeu que há confidencialidade também. Mas eu aí tenho que dar a minha plena atenção e aquilo que eu estava a dizer das emoções, eu aí não posso fazer cara de pau, percebes? Eu tenho que mostrar à pessoa que realmente aquilo é das piores coisas que nos pode acontecer, que eu lamento muito que aquilo tenha acontecido, que é horrível, que a pessoa não devia ter passado por aquilo. E eu sinto-me revoltada e eu acho que tenho direito de mostrar essa revolta na consulta.

Jorge Correia
44:39
E isso cria proximidade?

Mafalda Cruz
44:41
Cria, sem dúvida. Mas tem que haver esta proximidade. Eu não tenho problemas nenhuns com esta proximidade. Olha, no outro dia, não costumo fazer isto, mas no outro dia dei mesmo o meu número de telemóvel a uma doente que eu sinto que ela não está em segurança. E não que haja nenhum perigo, assim, óbvio, porque se fosse e fosse tínhamos que ir à polícia, mas porque irá passar por uma retura no relacionamento e pareceu-me que ela não iria estar em segurança em algum ponto e dei-lhe o meu número caso ela precisasse de falar ou de dizer alguma coisa e eu não tenho problemas nenhum com isto

Jorge Correia
45:18
Uma tábua no fundo de salvação para que alguém possa dizer qualquer coisa Olha, no teu cadastro de histórias quais são as que te marcaram mais?

Mafalda Cruz
45:32
Marcam-me as histórias de pessoas parecidas comigo em que depois nós fazemos aqui uma espécie chama-se transferência

Jorge Correia
45:39
É um espelho?

Mafalda Cruz
45:41
Uma transferência do que aquela pessoa está a dizer Que podia ter sido comigo Marcam-me Marcam-me histórias de perdas gestacionais Porque eu passei por uma há pouco tempo E neste momento São histórias que me marcam E fiquei surpreendida porque as histórias De endometriose Marcam-me muito Porque eu não tinha noção que esta é uma doença Tão chata, tão difícil E que tira tanta qualidade de vida Às mulheres e eu fico mesmo muito emocionada e marcada com estas histórias porque acho que há ali um sofrimento que se houvesse investimento na investigação científica se houvesse investimento clínico em perceber melhor esta doença não se demorava em média 10 anos até a diagnosticá-la

Jorge Correia
46:25
Porque há muitas doenças e sofrimentos que as pessoas guardam para si e são silenciosas

Mafalda Cruz
46:29
Sim, muito. A dor sexual, a dor nas relações sexuais é uma queixa que às vezes as pessoas demoram anos às vezes 10 ou mais anos até ir procurar ajuda

Jorge Correia
46:39
Porque acham que é normal?

Mafalda Cruz
46:40
Porque acham que é normal, porque se calhar a mãe disse olha, a mim também me doía e eu fazia. Ou porque acham que não há tratamento. E então demoram muito tempo a ir procurar ajuda, mas às vezes a ajuda é muito simples, é muito fácil de resolver. Tem é que mesmo não se conformar com a dor e procurar ajuda.

Jorge Correia
47:02
Olha, já falamos de preliminares, já falamos de comunicação, já falamos de fetiches, já falamos de relações. E depois do coito, o sexo acaba? Ou ainda há umas coisinhas que a gente pode fazer?

Mafalda Cruz
47:14
Olha, sabe o que é que começa depois do coito?

Jorge Correia
47:16
O amor.

Mafalda Cruz
47:17
Os preliminares. Os preliminares, para mim, e para a malta da sexologia, é a preparação para a relação sexual seguinte. Que é, que tem a ver com a atenção que o casal dá um ao outro, a comunicação do casal, o irem-se picando um ao outro, fazer aqueles joguinhos, aquelas palavras que façam com que uma pessoa antecipa a próxima relação sexual. Portanto, depois do coito, geralmente a nível fisiológico, há o período refratário, que é aquele período em que não há sequer vontade de ter uma relação sexual. Se houver um estímulo, as pessoas não conseguem ficar excitadas, porque ali, fisiologicamente, as coisas vão abaixo. Estão de barriga cheia. Estão de barriga cheia. Este período refratário normalmente aumenta com a idade. Portanto, nas pessoas mais velhas, décadas de 60, 70, o período refratário pode demorar dias, ou seja, podem demorar alguns dias até conseguir ter uma nova ereção, por exemplo. Mas quando termina uma relação sexual, continua a vida do casal, se estivermos a falar de um casal, e devem cuidar um do outro, preocuparem-se com o outro e amarem-se um ao outro, para que haja vontade de ter a próxima relação sexual.

Jorge Correia
48:30
Portanto, é uma programação já para a próxima voltinha.

Mafalda Cruz
48:32
Sim, é aquecer a coisa.

Jorge Correia
48:34
Olha, e como é que tu explicas aqueles casais que andam sempre à porra e à massa, sempre a discutir, sempre nas grandes pantufadas, mas depois, na cama, são atletas olímpicos e idam-se maravilhosamente bem, e quando aquilo acaba, volta outra vez a ser uma grande confusão.

Mafalda Cruz
48:47
Olha, eu não tenho paciência, porque não é mesmo o meu estilo de relação. Agora, são questões de personalidade, às vezes é assim que os casais estão melhor, se entendem, e se calhar o facto de andarem a discutir até pode ser um aquecimento para o sexo Eu lembrei-me disso por causa da tua

Jorge Correia
49:07
vou picar-te, vou ver como é que acontece

Mafalda Cruz
49:09
Esta raiva, a discussão e o sexo pode ser uma forma de fazerem as pazes Estamos aqui num limite entre o que é saudável e o que é tóxico mas se funcionar se não deres sofrimento a nenhum dos elementos ok, não é o meu estilo não acho saudável mas há alguns casos é mesmo assim que estão bem, não é?

Jorge Correia
49:29
Olha, estamos a fechar, cara, podcaster também como é que te estás a dar neste universo de fazer podcast de fazer telefonia, de fazer rádio também

Mafalda Cruz
49:37
Ai, olha, eu estou a adorar é muito interessante adoro preparar as conversas acho que faltava um podcast em que se pudesse falar assim de sexualidade com mais tempo tenho liberdade para escolher os temas, para escolher os convidados para levar as conversas para onde eu quiser e isso é maravilhoso, é um privilégio dá trabalho, sim mas Isto para mim é uma das melhores formas de fazer literacia em saúde sexual, que é dar informação às pessoas de forma relativamente democrática, não é 100% democrático porque nem toda a gente tem acesso a redes sociais, mas acho que desta forma conseguimos fazer comunicação em saúde em larga escala, que é uma coisa que eu gosto. Para muita gente. No consultório é de um para um, mas eu gosto muito de fazer comunicação para muita gente e pegarem especialistas nesta área e pô-los a mostrar o que eles sabem e a partilhar o conhecimento também para muita gente.

Jorge Correia
50:38
Olha, e a tua fauna nas redes sociais, como é que é? Levas com muito lixo?

Mafalda Cruz
50:43
Na minha página não, agora claro que começando o podcast, e o podcast é recente, nas redes sociais do Expresso apanhamos com tudo, não é? E eu lido bem com isso porque, como te estava a dizer, o meu pai é jornalista e sempre me ensinou que, esquece os comentários, não é para ler, porque vai sempre haver alguma coisa, ninguém vai estar, há sempre um, ou seja, não há nenhum tema neutro, vai criar insatisfação em alguém, e claro, falando de sexualidade, ainda pior.

Jorge Correia
51:11
Uma porta gigante.

Mafalda Cruz
51:13
É uma bomba, não é? São temas que dizem muito às pessoas e, portanto, eu não tenho outra alternativa a não ser não ligar ao que estão a dizer, porque senão vou ficar condicionada por isso e não quero. Mafalda, obrigado. Obrigado. Obrigada eu. Até à próxima.

Jorge Correia
51:30
Pergunta simples

Jorge Correia
51:31
um programa sobre comunicação para quem quer boas respostas Legenda Adriana Zanotto

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