Quem nos manda comer mal? Conceição Calhau

OUVIR A CONVERSA
Quem nos manda comer mal? Conceição Calhau
00:00

O frigorífico

Há uma cena que Conceição Calhau conta quase de passagem, como se fosse um pormenor, e que é, na verdade, o centro de tudo. Um dia abriu o frigorífico da sua casa e encontrou produtos light. Iogurte light, queijo creme light. A filha, que tinha doze anos, andava a pesar os alimentos. A preocupar-se com as calorias de uma colher de sopa de azeite. “Andava distraída com o que se andava a passar em casa”, diz ela. A mãe é nutricionista, professora catedrática, investigadora há mais de três décadas. E não tinha visto oqeu estava a acontecer.

Esta pequena história de frigorífico diz mais sobre o estado da alimentação no nosso tempo do que qualquer relatório técnico. Não porque seja uma história sobre nutrição, é uma história sobre comunicação. Sobre o que chega às pessoas, por que canais, com que força. Uma criança de doze anos não estava a seguir os conselhos da mãe especialista em nutrição. Estava a seguir o TikTok.

O paradoxo

O paradoxo que atravessa toda a conversa com Conceição Calhau é este: nunca houve tanta informação sobre alimentação, nunca se falou tanto de dietas, superalimentos, protocolos de jejum e microbiota, e nunca comemos tão mal. Mais de oitenta por cento da população portuguesa não tem adesão à dieta mediterrânica. A principal refeição do dia acontece depois das nove da noite, contra o ritmo biológico de qualquer mamífero diurno. Em 2050, projeta-se que mais de metade das crianças até aos cinco anos terá obesidade. A pergunta óbvia é: se sabemos tudo isto, por que não mudamos?

A resposta de Conceição Calhau é incómoda precisamente porque é simples. Quando lhe perguntam se o problema é falta de informação, falta de motivação ou falta de condições, ela não hesita: “Falta de condições.” Não é uma resposta de nutricionista. É uma resposta política. O bolo no bar da empresa custa menos do que o iogurte e a peça de fruta. O nutricionista não está acessível no centro de saúde. A família que trabalha até às oito da noite não tem como jantar às seis. Dizer a estas pessoas que é uma questão de escolha é, nas suas palavras, hipócrita.

O jardim zoológico

Mas a conversa não fica pelas escolhas. Vai mais fundo, literalmente. A investigação de Conceição Calhau centra-se na microbiota intestinal, o universo de biliões de microrganismos que habitam o nosso intestino e que a maioria de nós trata com uma indiferença que ela compara à de quem tem animais de estimação, mas se esquece de lhes dar de comer. Estes micro-organismos não são passivos. Produzem substâncias que regulam a saciedade, o apetite, o humor. Quando a microbiota está saudável, alimentada com a fibra que a maioria dos portugueses não ingere, o corpo funciona com uma eficiência que parece quase elegante. Quando falha, o corpo entra em modo de sobrevivência. A prioridade passa a ser a reserva. A porta do tecido adiposo fica aberta.

É aqui que a conversa chega a um território que raramente se discute em público: o da liberdade. Quando lhe perguntam se comer um chocolate às onze da noite é uma decisão consciente, Conceição Calhau diz que não. É fome emocional. É bioquímica. O cortisol elevado pelo stress dessensibiliza as vias da dopamina, que pedem mais recompensa, que pedem mais açúcar, que pedem mais cortisol. “A adição ao açúcar é uma toxicodependência”, diz, com a secura de quem diz uma evidência. Só não tem esse nome.

A fome holandesa

Existe uma história que ela conta para explicar até onde vai esta programação do corpo, e é uma das mais perturbadoras da conversa. Entre outubro de 1944 e maio de 1945, a população holandesa foi deliberadamente privada de alimentos como estratégia de guerra. Quinhentas a seiscentas calorias por dia por pessoa. Havia grávidas nessa fome. Os bebés que nasceram durante esse período foram estudados décadas depois, nos anos setenta e oitenta. O que os investigadores descobriram foi que esses adultos tinham mais obesidade, mais diabetes, mais resistência à insulina. O corpo, programado no útero para a escassez, chegou à abundância e ficou em alerta permanente. A reserva como prioridade. A porta sempre aberta.

Esta ideia, de que o que somos metabolicamente começa muito antes de qualquer escolha consciente, muito antes do primeiro iogurte light no frigorífico de uma adolescente, devia mudar a forma como falamos de responsabilidade individual na saúde. Mas não muda. Continuamos a comunicar saúde como se fosse uma questão de disciplina, de força de vontade, de informação suficiente. Continuamos a construir sistemas de saúde desenhados para tratar quem já está doente, em vez de criar condições para que as pessoas não adoeçam. “Dizemos muito que temos direito à saúde, para ter direito ao acesso aos cuidados. Mas eu tenho o dever de cuidar da saúde”, diz Conceição Calhau. A distinção importa. Um é passivo, o outro é ativo. Um espera, o outro age.

O simples

Perto do fim da conversa, quando lhe perguntei qual é a coisa mais simples que alguém pode fazer a partir de amanhã de manhã, ela responde: exercício físico. Não comer melhor, mover-se. Porque o movimento motiva o resto. Porque o músculo é um órgão que produz substâncias que regulam o apetite, a saciedade, o humor. Porque o corpo foi feito para ser usado.

E quando lhe perguntam qual é o seu prato favorito, ela diz tripas à moda do Porto. Feijoada à Transmontana com couves, se puder escolher. Comida de tacho, de tempo, de origem. Agostinho da Silva, a sua inspiração declarada, simplificava o que complicamos. A alimentação, diz ela, é simples. Já não comemos pão, comemos panquecas. Já não comemos iogurte, comemos gelatina. Sofisticámos o essencial até o tornar irreconhecível.

Talvez a pergunta não seja porque comemos tão mal. Talvez seja o que é que perdemos quando decidimos que simples era sinónimo de pouco.

Ler transcrição completa

Conceição Calhau
00:00
Comecei a ver no meu frigorífico produtos light. Comecei a…

Jorge Correia
00:04
E então, isso não é bom?

Conceição Calhau
00:06
Em minha casa, light sou entre o eu, não é? Como eu costumo dizer, magra sou entre o eu. Comecei a ver o queijo creme light, o iogurte light, depois muito preocupada em pesar os alimentos, preocupada em saber quanto é que pesava uma colher de sopa de azeite. Quer dizer, aquela preocupação não era da mãe, porque eu não uso balança, sou bastante mais descontraída com isso e achei que a minha descontração naquilo que era lidar com este tema era suficiente para dar segurança a elas saberem o suficiente. Mas não foi suficiente. Isto agora das ciências comportamentais, eles repetem, consomem tudo o que está no TikTok e no Instagram. Foi o momento em que eu me percebi que andava distraída com o que se andava a passar em casa.

Jorge Correia
00:58
Há uma pergunta que me perseguiu enquanto preparava esta conversa. Nunca na história da humanidade se falou tanto de alimentação. Nunca houve tantos livros, tantos programas, tantos vídeos, tantos conselhos. Nunca soubemos tanto sobre o que devemos comer, a que horas e quanto, em que proporções e mesmo assim, ao mesmo tempo, nunca comemos tão mal. Não é uma opinião, é um facto, é um dado. É o paradoxo que está no centro desta conversa e é a pergunta que hoje, finalmente, tenho uma resposta. Ou várias, nenhuma delas especialmente reconfortante. A minha convidada perdeu a paciência depois de 30 anos a ensinar e a publicar artigos científicos que ninguém lia. talvez só os cientistas, e decidiu que chegou a hora de deixar de escrever apenas para académicos e começar a escrever para toda a gente. Escreveu um livro chamado Deixemo-nos de Tretas e hoje está a prestes a lançar um segundo livro com o título ainda mais direto, Engolir Sapos Engorda. Porque, como vamos perceber, o que engolimos emocionalmente tem, afinal, tanto impacto no metabolismo como aquilo que pulamos no prato e depois comemos. Conceição Calhau é professora catedrática da Nova Medical School, investigadora há mais de três décadas e especialista em microbiota intestinal. Os milhões de micro-organismos que vivem dentro de nós e que, como hoje vamos descobrir, têm muito mais poder sobre as nossas decisões do que alguma vez imaginamos. A conversa que se segue não é sobre dietas, é sobre liberdade, sobre quanto dela temos realmente quando escolhemos o que comer. Conceição Calhau é nutricionista está sempre a estudar aquilo que a comida nos faz e que nós fazemos à comida já agora há coisa que mais nos importa nesta altura que estamos na primavera portanto está toda a gente a olhar para o verão começa a época das dietas da primavera porque é que quanto mais sabemos nós sobre comida pior comemos?

Conceição Calhau
03:05
Bom, eu vou… aqui já temos vários desafios logo nesta nota introdutória. Desde logo é a questão de… a saúde não é sazonal, e portanto a questão das dietas estarem associadas ou a preocupação com a alimentação vem sazonalmente, e portanto isso a mim já me faz logo alguma confusão, como é que nós pensamos na saúde de forma sazonal.

Jorge Correia
03:27
É uma natureza humana, não é?

Conceição Calhau
03:28
Para depois já estarmos quase a dizer que estamos a pensar na saúde do ponto de vista estético, que também é outra noção que me faz imensa confusão, nós devemos ter aqui um respeito maior sobre a saúde e a alimentação associada à saúde já não é negociável, já não é questionável e principalmente com a Covid-19 acho que ficou muito claro o quanto a alimentação nos condiciona quando temos um momento de crise nós temos de estar em forma e portanto, sem dúvida nenhuma, que não pode ser sazonal, nem podemos pensar na alimentação num contexto até restritivo de dieta e de verão.

Jorge Correia
04:02
Portanto, somos uns bichos mal comportados, no fundo.

Conceição Calhau
04:06
Pois isso, em termos de comportamento, isso a dimensão comportamental é outra área, que também não é muito a minha área de conhecimento, mas sem dúvida que a minha área de conhecimento toca muito no comportamental, porque basta estarmos a falar em alimentação, estamos a falar em hábitos, em comportamentos, em rotinas, em emoções, e tudo que seja mudança, tem de facto uma ciência comportamental associada, e portanto, sempre que falamos em alimentação, temos que compreender que estamos a falar muito mais ou também muito nessa dimensão.

Jorge Correia
04:36
Neste momento numa carreira muito mais ligada à investigação, mas não sei se na prática comum continua a haver pessoas que vão bater a sua porta e dizer ajude-me lá a perder uns quilitos.

Conceição Calhau
04:45
Eu já não estou muito associada agora à prática clínica, de facto tenho tido mais funções agora de back-office e estou sobretudo no ensino e na investigação.

Jorge Correia
04:55
Para tentar entender, e tu como é que se ensina alunos que depois nos podem ajudar e que vão lidar com essas pessoas, como uns mortais, como eu, por exemplo, que posso dizer, agora é que me dava jeito mesmo perder aqui 5 quilinhos para a barriga do verão ou porque vou ter um evento especial e gostava muito de conseguir, rapidamente e em força, com algum sacrifício, conseguir ficar em forma.

Conceição Calhau
05:18
Se calhar aqui num parênteses para as pessoas também saberem com quem é que estão ou quem estão a ouvir e a verdade é que a minha formação de base é Ciências da Nutrição, dou aulas numa faculdade de medicina, aliás dei aulas durante 23 anos no Porto, Faculdade de Medicina do Porto, e agora em Lisboa, e agora em Lisboa abrimos, e aí se tem a responsabilidade de ter sido a fundadora da Licenciatura de Ciências da Nutrição numa escola médica também, exatamente para dar a formação aos nutricionistas e aos médicos numa maior proximidade que é muito conveniente. Até porque estamos muito a falar de uma medicina de prevenção, que é completamente atual, necessária naquilo que é longevidade, mas voltando àquilo que é a formação destes profissionais, e na nossa escola claramente é isso que nós temos, que é formar em todas estas dimensões, também ciências comportamentais. Os nossos licenciados não são psicólogos, mas têm competências nessa área e têm que trabalhar também numa grande proximidade com os psicólogos e porque estas são matérias que estão sempre todas muito associadas. Mas sem dúvida nenhuma que eles são desafiados a fazer toda esta gestão de conhecimento, desde nós nutricionistas podermos ajudar a indústria a fazer produtos medicamentos, melhores, a podermos ajudar na clínica as pessoas que têm dúvidas de como comer melhor, como em variedíssimas outras áreas, sim.

Jorge Correia
06:32
O que é que a irritou de tal maneira que a levou a escrever um livro cujo título é Deixemo-nos de Tretas?

Conceição Calhau
06:41
Pois, e é exatamente isso, é que fiquei mesmo irritada depois de 30 anos a ensinar, e a minha vida foi a escrever artigos científicos, não propriamente livros, e até achei que não ia acrescentar muito, até porque como sabemos vamos a uma livraria, o que não falta é livros sobre receitas e sobre dietas e etc, etc, e portanto eu não iria nunca escrever um livro para essa gama. Aquilo que mais me desafiou sem dúvida nenhuma que é o fenómeno de toda a gente percebe hoje em dia imenso de alimentação quase que eu diria e vai um bocado agora, porque é que toda a gente fala temos tanto conhecimento e ninguém faz, mas já lá vamos que é um bocadinho associado às redes sociais mas eu diria que antigamente nós dizíamos que de médico e de louco todos têm um pouco. Agora eu diria que de nutricionistas e de loucos, todos temos bastante. E depois as pessoas acham muito que como comem sabem de comida. Pronto. Sem dúvida nenhuma que temos muito ruído, temos cada vez mais

Jorge Correia
07:33
ruído. E não sabemos? Isso

Conceição Calhau
07:35
desafia ou nós não sabemos fazer ou se calhar não sabemos estar a dar o exemplo. E por isso é que eu acho que as redes sociais têm tanto sucesso por duas razões. Porque eu preciso de saber mais sobre nutrição e não tenho os profissionais de saúde acessíveis. E aqui uma mensagem muito política de que temos que investir na medicina de prevenção, temos que investir em contratar nutricionistas para variedíssimas áreas.

Jorge Correia
07:57
Portanto, mesmo que eu sinta a necessidade, mesmo que eu perceba que há alguém que sabe daquilo, depois, quando precisa de uma porta para bater, não há.

Conceição Calhau
08:04
Não tem. E é muito mais fácil, rápido e se calhar até mais financeiramente vantajoso eu estar num Instagram a recolher dietas milagrosas. E portanto, eu acho que este sucesso das redes sociais nesta área tem a ver com isso, com uma lacuna e portanto a oferta é feita pela procura E por outro lado, e eu não tenho dúvidas nenhumas, que é pelo exemplo, eu vou fazer a dieta ou vou ter aquele comportamento porque quero ficar igual àquela pessoa. Aquela pessoa pode nem fazer aquilo, mas é aquilo que eu vou por emocionalmente, eu vou ficar mais motivada em repetir comportamentos para ficar igual. E eu acho que é daqui, devemos tirar a lição de que nós, e aqui a sua responsabilidade enquanto profissional de saúde e enquanto professora, nós devemos, nós temos uma responsabilidade de dar o exemplo. Ou seja, aquilo que muitas vezes nos falta é a coerência, porque dizemos uma coisa e estamos a fazer outra. E, portanto, as pessoas procuram ter acesso a quem realmente tem comportamentos para depois ficar saudável. E, portanto, o livro também vem nesse resultado e noutro, que agora é um bocadinho mais de privado, que é ter duas filhas que consomem redes sociais, principalmente a minha filha mais nova, E eu comecei-me a perceber que isso tinha mais impacto nos comportamentos alimentares dela do que propriamente a mãe, que já agora era quem disponibilizava alimentos e refeições. E isso fez-me refletir que se calhar eu teria que sair da minha zona de conforto e pôr, como eu digo no livro, colocar os plantos no sixo.

Jorge Correia
09:33
Quantos anos é que ela tem?

Conceição Calhau
09:34
Na altura ela tinha 12, agora já tem 16.

Jorge Correia
09:37
O que é que ela lhe dizia?

Conceição Calhau
09:39
Não era o que ela dizia, foi o que eu comecei a perceber. A perceber o que é que ela fazia? Exatamente, comecei a ver no meu frigorífico produtos light. Comecei a…

Jorge Correia
09:48
E então, isso não é bom?

Conceição Calhau
09:50
Em minha casa, light sou entre o eu, não é? Como eu costumo dizer, magra sou entre o eu Portanto, é o natural, o iogurte é natural Mas é inteiro, não é propriamente… Usamos alimentos não muito sofisticados E portanto, comecei a ver o queijo creme light, o iogurte light Depois muito preocupada em pesar os alimentos preocupada em saber quanto é que pesava uma colher de sopa de azeite quer dizer, aquela preocupação não era da mãe porque eu não uso balança, sou bastante mais descontraída com isso e achei que a minha descontração naquilo que era lidar com este tema era suficiente para dar segurança a elas saberem o suficiente

Jorge Correia
10:30
E porquê que ela fazia isso?

Conceição Calhau
10:33
Isto agora das ciências comportamentais, eles repetem, consomem tudo o que está no TikTok e no Instagram obviamente que hoje em dia já não acontece o mesmo até porque as minhas filhas também já têm outra idade e tiveram outra consciência daquilo que se estava a passar mas foi o momento em que eu me percebi que andava distraída com o que se andava a passar em casa.

Jorge Correia
10:51
Há alguém na família que já disse deixa lá os conselhos e deixa-me comer em paz?

Conceição Calhau
10:56
Na família não, mas às vezes isso ouço e está uma boa reflexão que é o bullying que me fazem socialmente que é eu por ser magra na realidade ou até se calhar neste caso por ser nutricionista aquilo que invariavelmente me fazem quando eu estou a fazer refeições é essa pressão, mas o que é que vais comer mas não deves comer nada, e comes alface deixa-te lá de tretas, agora colívo é deixa-te tretas e come e eu obviamente como comidas normais, quer dizer, se for preciso Jorge, sim, janto tripas à moda do Porto, cozida à portuguesa, essa comida que eu gosto mas há muito esse bullying de pressão, por exemplo provavelmente não me venha comer uma sobremesa doce, me venha comer fruta, mas lá eu tenho a liberdade de escolher a fruta, não tenho que estar a ouvir os comentários de que estou a comer fruta porque estou em dieta, não, porque não gosto de comer o bolo, portanto não me vão fazer esse bullying, mas fazem muito.

Jorge Correia
11:52
Nós estamos num país onde se come bem e muito, ou bem no sentido de come-se bem saboroso, não estou a dizer-se que se come bem na ótica da nutrição, estas dietas que andam por aí, que andam nas redes sociais, a dieta do palé ou a dieta dos ovos, podemos fazer uma lista infinita, são úteis ou são um risco?

Conceição Calhau
12:18
São um risco, e essas dietas existem exatamente porque existe esta procura, há um excesso de peso, há obesidade, há muita diabetes, há muito risco cardiovascular, isso existe, e aliás quando diz, nós somos um país onde se come bem porque é saboroso, mas a Direção-Geral de Saúde, anualmente, coloca no seu relatório que temos hábitos alimentares inadequados como um segundo fator de risco. Sabemos que mais de 80% da população não tem adesão à dieta mediterrânea. Mas isso é o quê? Na prática, não é? O que é que isso quer dizer? O que é que isso quer dizer? E na verdade, na prática, o que eu quero dizer é que devemos ter no prato as hortícolas, as leguminosas, um pouco de carne ou de peixe, um pouco de arroz ou batata, devemos ter muito mais diversidade durante a semana de alimentos de origem vegetal, comeres sempre a mesma coisa e há de facto uma falta de dar o exemplo e uma falta de cultura, de rotina nesse sentido. Portanto, comemos mal e sim, estas dietas são perigosas porque na realidade levam a comportamentos erráticos, levam a obsessão, as pessoas que fazem adesão a este tipo de dietas claramente já são pessoas que estão a precisar de ajuda de um profissional de saúde, a maioria das vezes.

Jorge Correia
13:28
Há pessoas que têm obsessão com a comida e com o peso e com a dieta.

Conceição Calhau
13:31
Quando há adesão a estas dietas, as pessoas precisam de ajuda. E portanto, já provavelmente o que têm é uma má relação com a alimentação, porque atribuem à alimentação aquilo que é não condição de saúde. E portanto, quando se atribui à alimentação a sua falta de saúde, então têm que procurar um profissional de saúde. Têm que procurar para saber o que é que lhe está a faltar para não terem saúde. E provavelmente até não será apenas e somente a alimentação.

Jorge Correia
13:56
Então e se eu quiser agora perder aqui 5 quilinhas para o meu verão, até por razões de saúde, obviamente, o que é que eu posso fazer?

Conceição Calhau
14:04
A pergunta quase sempre é de perder gordura. Muito raramente a pergunta é como é que eu ganho massa muscular. E a massa muscular é subejamente mais importante do que falar de tecida de hipose. Ou seja, é pensarmos que quando nós comemos, e essa se calhar depois também explica porque é que duas pessoas comem exatamente a mesma coisa e têm resultados diferentes, basta pensarmos só numa forma muito simples, que é, estou a entrar, está a entrar o mesmo tipo de alimento, mas num sítio eu tenho duas portas abertas, noutro sítio só tenho uma porta. Ou em cada um vão ter portas diferentes, ou seja, a comida vai para o compartimento que está aberto,

Jorge Correia
14:42
ou vai para a barriguinha ou pode ir aqui para os braços,

Conceição Calhau
14:44
ou para as pernas. O tecido adiposo está aberto, é essa sala que vai guardar. O tecido muscular existe e precisa da comida, vai para lá. Se eu não faço exercício, aqui é um bocadinho a função, faz o órgão. Eu não treino, não tenho massa muscular, a minha prioridade é a reserva. E portanto esta questão de contar calorias, mais uma vez reforçar principalmente para as pessoas que têm a preocupação de perder peso, para já devemos ter a preocupação de ter mais saúde. Depois ter de facto mais massa muscular. Comer melhor em qualidade e comer já agora na hora correta e não propriamente fora da hora. E depois isto significa atividade física, significa comer melhor qualidade e à hora certa, significa gestão de stress, significa gestão de sono, por isso é que agora o novo livro, que vem na sequência um bocadinho do Deixemos Estretas a ilusão da comida saudável, é Engolir Sapos Engorda, porque de facto não é só a comida, mas também trazer toda a bioquímica para aquilo que é a nossa priorização. A comida entra, mas qual é a prioridade daquela máquina? É fazer gordura, é fazer massa muscular, e essa prioridade é muito gerida também pelas nossas emoções.

Jorge Correia
15:51
Bom, na minha terra diz-se que até o ar engorda, não é?

Conceição Calhau
15:54
Mas isso é aliás uma expressão que eu costumo usar, o só de olhar engorda. É uma expressão que eu uso nas minhas aulas até para explicar, por exemplo, uma realidade que hoje parece que é uma moda, mas não é a ciência, que é a questão do microbiota intestinal. A tal flora intestinal, aliás, é uma das coisas que finalmente está a vir à discussão pública que é saúde intestinal que não temos. As pessoas estão todas a queixar-se de desconforto intestinal e de inchaço. Estão? Estão. É uma realidade. Em Portugal temos 3 milhões de portugueses, saíram agora recentemente o estudo da saúde, 3 milhões que manifestamente têm a saúde digestiva comprometida.

Jorge Correia
16:37
Então e se o nosso intestino nos pudesse falar com palavras, o que é que nos diria?

Conceição Calhau
16:42
O intestino vai dizer, por isso é que eu estava agora a explicar, Jorge, o só de olhar engorda, o que é que isto significa? Significa que quando estou em jejum, e também já agora para as modas dos jejuns,

Jorge Correia
16:54
Intermitentes, vamos deixar não sei quantas horas sem comer

Conceição Calhau
16:56
Intermitentes sempre fizemos Nós não demos uma alimentação contínua Nós posamos pelo menos para dormir Mas voltando à questão do só de olhar Engorda ou mesmo sem comer Engordo Que as pessoas muitas vezes têm estas expressões Significa que quando eu não faço Quando estou em jejum O intestino, esses micro-organismos temos no intestino A visão para dentro Para o corpo Que não há comida Eles têm que avisar logo não há comida, são os primeiros sensores que estamos em jejum. Avisam e o corpo, neste caso o intestino, produz, a nossa parede do intestino produz, o mensageiro que vai ao tecido adiposo fechar a porta. E o que é que isto significa? Significa que o que está em circulação, os lípidos que estão em circulação, não têm como prioridade a reserva. Ora, isto seria num organismo que está a funcionar muito bem. Quando o organismo não está a funcionar muito bem, quando perdemos a qualidade daquele órgão que é o tal microbiota ou flora intestinal, quando todo este jardim zoológico começa a ficar com menos espécies, menos diversidade e com uma dificuldade de comunicação uns com os outros, significa que estou em jejum, mas não passou para dentro a informação. E significa que a porta do tecido é depois, até porque somos espécie humana que precisa de ter a sobrevivência como uma prioridade, é a reserva. E portanto a porta está aberta, a prioridade é a reserva. Portanto, é uma força de expressão que dizer que mesmo sem comer engorda, portanto, obviamente, não entra alimentos, não vou fazer gordura, mas estou a informar o organismo que a prioridade é a reserva.

Jorge Correia
18:31
Bom, então, e fazendo a pergunta ao contrário, como diabo falamos nós aqui com a nossa bicharada do intestino, para que se acalmem e que nos ajudem a fazer exatamente o contrário, a dar até a mensagem de que já há aqui energia que chega, Não é preciso comer mais esse chocolate.

Conceição Calhau
18:50
Estes micro-organismos ancestrais e que nos ajudaram a evoluir com a antespécie humana estão lá desde o início da nossa vida e esses sim informam-nos para nós, por exemplo, não termos a tal fome emocional. Agora, ao longo da vida é que vamos perdendo essa qualidade.

Jorge Correia
19:06
Estamos a dar cabo deles.

Conceição Calhau
19:07
Porque não cuidamos de animais de estimação. Ou damos de comer e eles estão lá, ou não damos de comer. E o que é que damos de comer? Vamos voltar à dieta mediterrânea. nós precisamos de 25 a 30 gramas de fibra por dia. Nós, em princípio, podemos comer suplementos de fibra, mas não comemos fibra, comemos alimentos ricos em fibra. E quais são esses alimentos? São mais ou menos 400 gramas de hortícolas, é comer duas a três colheres de sopa de leguminosas, feijão, grão, lentilhas, ervilhas, é comer as oleaginosas, as amêndoas, os cajos, é comer cereais integrais, é comer fruta. Ora, se eu não faço… Não me parece difícil. É muito difícil. É difícil? difícil porque a maioria das pessoas o que faz de vegetal é fruta, batata ou arroz. E depois, e pão, pão massa. E depois aquilo que faz é de alface, é de tomate, é de cenoura. A maioria das vezes as pessoas ficam todas contentes e comem salada. Isso dá mais ou menos umas 7, 15 gramas de fibra por dia. Dificilmente eu consigo chegar às 25, 30. E portanto, e a fibra é necessária para quê? Para é como olharmos para o jardizológico e eles não comem todos a mesma coisa.

Jorge Correia
20:18
Não estamos a cuidar da bicharada.

Conceição Calhau
20:19
Não estamos a cuidar. E depois o que é que isso significa? Eles produzem substâncias que nos dão saciedade quando chega à comida. Eles produzem substâncias para diminuir o apetite que é para nem sequer termos vontade de comer entre as refeições. Quando isto falha, passamos a ter uma fome emocional.

Jorge Correia
20:35
O que é que é fome emocional?

Conceição Calhau
20:36
A fome emocional é diferente da fome fisiológica porque eu tenho vontade de comer mesmo sem ser necessário. E esta fome que muitas vezes está associada até a uma fome noturna, que é o conforto, passei o dia de stress, até comi pouco, estou de dieta, mas depois é o desvario. Isto também é um sinal, obviamente que o microbiota intestinal tem aqui um papel importante e é central, e como eu dizia, nós temos três mulheres portugueses com, pelo menos estes, com o diagnóstico de doença do eixo intestino-cérebro que está comprometido, mas a verdade é que quando nós temos esta fome também é o corpo a passar a mensagem que precisamos de comer aquilo que não estamos a comer. Eu posso comer chocolate, batatas fritas, hambúrguer, aquela dieta menos equilibrada, mas não comer gordura, comer hidratos de carbono, proteína, até porque as pessoas hoje em dia comem muita bioquímica. Estou a comer alimentos que têm calorias, mas não têm toda a riqueza dos nutrientes. E é o corpo a dizer que me falta fibra, que me falta vitaminas e que me falta minerais, e manda-me comer mais.

Jorge Correia
21:37
Então e por que raio de mecanismo é que quando nós estamos com uma fome tremenda porque não comemos durante o dia ou porque estamos com stress, o chocolate ou o doce nos parece francamente mais apetitoso do que uma taça de salada?

Conceição Calhau
21:53
Porque isso depois tem a ver com a parte mais da neuro-bioquímica, uma fome que vai necessitar, passamos a ter alguma descensibilização, por exemplo, das vias da dopamina, o cortisol também mais elevado que me leva a alguma descensibilização, isto quer dizer o quê? que os neurotransmissores que nos dão a sensação de prazer, de reconforto, de recompensa, são necessários, mas depois eu passo a ter uma necessidade maior porque sensibilizei e portanto vou ter mais necessidade e vou estar muito mais atenta, com mais voracidade, especificamente para alimentos que trazem esta recompensa dopaminérgica.

Jorge Correia
22:29
Somos uma espécie de toxicodependentes?

Conceição Calhau
22:32
A adição ao açúcar é uma tóxica… Nós não temos é muito esta noção de que temos uma adição à comida ou temos a adição ao açúcar. Temos muito mais claro e evidente e categorizada a questão das drogas de adição. Mas a comida pode ser uma droga de adição.

Jorge Correia
22:53
Fazemos uma breve pausa nesta conversa com Conceição Calhau com um pedido muito rápido e honesto. Sabemos que muitas das pessoas que nos ouvem todas as semanas ou chegam até aqui gostam das conversas, mas acabam por se esquecer de um pequeno detalhe, um detalhe importante. Clicar no botão de seguir ou subscrever na aplicação de podcast onde está a ver ou ouvir. Este gesto, que demora apenas um segundo, é uma ferramenta poderosa que pode ajudar o algoritmo e as plataformas deste projeto a mostrar que há valor nestas conversas. É isso que garante o futuro do Pergunta Simples e que nos permite trazer convidados como a Conceição Calhau e que nos ajuda a levar essas conversas a cada vez mais pessoas. Por isso, se gosta de nos ouvir, verifique que no seu telemóvel, agora mesmo, se já nos segue na plataforma onde está neste momento. O nosso problema é a falta de informação, falta de motivação ou falta de condições para escolher bem. Falta de condições. Porque é caro, não é?

Conceição Calhau
23:52
Isso se não era hipócrita e eu estar aqui a dizer aliás, eu vejo e assisto e tenho sido bastante crítica nesses fóruns, que é, precisamos de mais literacia, mais literacia, mas qual literacia as pessoas até sabem algumas não saberão, aliás hoje em dia até dificuldade não é ter acesso à informação é perceber o que é que é bom e é mal mas sobretudo falta dar condições políticas, por exemplo, não faz sentido nenhum a taxação não ter isto em consideração ou não faz não faz sentido nenhum em determinados contextos até empresariais ele estar a incentivar a comer bem se depois vou ao bar e uma coisa que é um bolo é mais barata do que um iogurte e uma peça de fruta portanto isto não faz sentido nós temos que ser consequentes e coerentes naquilo que vamos defendendo

Jorge Correia
24:37
e aquilo que nos acontece habitualmente lá está, se é mais fácil, se é mais barato se ele está lá disponível nós obviamente podemos fazer esse percurso nós já falamos das dietas, mas eu fico sempre a pensar se isso depende só da comida e do que nós comemos e dos nossos hábitos e dessas relações bioquímicas que estão a acontecer aqui à nossa volta ou se os cítulos onde nós vamos buscar comida nos supermercados estão especiales

Conceição Calhau
25:12
trabalham o apelo, claro

Jorge Correia
25:14
e portanto isso obriga-nos por um lado a fazer escolhas que nós na realidade nem sequer estamos conscientes do que estamos a fazer

Conceição Calhau
25:21
eles não obrigam mas condicionam nós não obrigam Quer dizer, não obrigam, não há uma obrigatoriedade. Se quiser, e agora passo até a dar o exemplo de um tema que investiguei muito, que é o sal e o dado. Se quiser sal e o dado, na fase em que eu fiz a investigação e houve muita comunicação, eu até encontrava o sal e o dado a meio da prateleira.

Jorge Correia
25:40
Que é o sítio certo, não é?

Conceição Calhau
25:42
Exatamente, ao nível dos olhos. Mas agora já tenho que me baixar e procurar na prateleira do chão. Portanto, esta localização no supermercado, até do circuito, do percurso do cliente, não é inocente de maneira nenhuma. Agora, obviamente que se eu tenho, eu em relação, eu tenho aqui um enviesamento brutal, porque eu não sou propriamente o exemplo, mas obviamente que sendo eu exigente, não vai ser nenhuma dessas manobras que me vai condicionar a escolha. Agora, a parte financeira, nós não podemos nunca esquecer que é o maior determinante nas escolhas. Nós não podemos ser inocentes de achar que, se eu vou dizer que este alimento é melhor de qualidade, que me vai fazer melhor, que daqui a 10 ou 30 anos eu tenho menos cancro se fizer esta alimentação, que no momento de eu fazer a compra, se eu não tenho mais para poder gastar ali, porque vou ter que gastar também noutras coisas, isto é hipócrita eu dizer que isto não pesa, pesa muito mais do que qualquer outra razão.

Jorge Correia
26:35
Quando nós estamos a falar, falamos muitas vezes com pessoas que têm um corpinho absolutamente equilibrado e que comem coisas como se não houver amanhã, e outras que se calhar até têm mais cuidado, ou não tiveram antes, mas que engordam com mais facilidade. essa coisinha chamada metabolismo a nossa máquina, a maneira como ela está organizada pode condicionar de alguma maneira o sucesso ou o insucesso de um bom equilíbrio alimentar e da nossa saúde. Sim, nós no fundo já fomos falando aqui

Conceição Calhau
27:08
destas diferenças entre indivíduos mas um bocadinho de uma analogia do carro dois carros exatamente iguais e agora aqui se calhar nos humanos estamos a falar da genética, mas dois carros exatamente iguais, que saem da garagem a dizer que gastam 5 litros aos 100 e depois depende muito da forma como eu trato o carro, como conduzo o carro, vai passar a gastar 12 litros aos 100, o outro já gasta 14. Quer dizer, isto significa que a nossa genética tem um papel importante e cada vez nós temos que ter a noção de que a medicina de hoje deveria ser a medicina dos 4 P’s. É aquela capaz de predizer, e para isso eu preciso até de conhecer a genética, que me prediz quais são as características desta pessoa que eu consigo predizer que vai ter mais risco de diabetes, vai ter mais risco de obesidade, vai ter…

Jorge Correia
27:53
Então aí podemos dizer que não vale a pena fazer nada, se houver um risco assim tão aumentado. Não, não vale.

Conceição Calhau
27:57
E portanto, uma coisa é predizer trajetórias, e portanto aí posso intervir. O segundo P é capaz de prevenir, portanto é personalizado, que é o terceiro P, e o quarto é muito importante, que é participado, ou seja, eu sei que tenho uma vulnerabilidade geneticamente, uma vulnerabilidade maior para ter uma doença inflamatória do intestino. Portanto, eu vou ter uma consciência diferente logo à partida, na minha juventude, que tenho que ter mais fibra nas refeições, alimentos ricos em fibra, que se eu fizer muita oscilação da fibra, em mim vai ter um impacto maior do que as pessoas que geneticamente não estão

Jorge Correia
28:31
no campo de desportes, por exemplo. No fundo é saber quais são as nossas condições de base para nos adaptar. As nossas características a conhecer,

Conceição Calhau
28:38
como eu costumo dizer, agora voltando aos carros, é a mesma coisa, que alguém me perguntar sobre dieta ou alimentação adequada para mim, e eu não sei, estou a falar de combustível, eu não sei se é um Fiat ou se é um Volvo, mas sei que é um carro. Portanto, eu preciso conhecer estas características genéticas. Depois, estas diferenças de uma pessoa come de tudo e continua magra, tem a ver com as prioridades do metabolismo. Portanto, uma coisa são as características genéticas, mas não é tudo. Depois, estes micro-organismos têm muito mais genes do que nós. Nós temos cerca de 10 vezes mais genes de origem microbiana. Portanto, sem dúvida nenhuma, uma essência de hoje está muito voltada para o intestino, porque mostra claramente, não é a questão de ser o assunto cérebro, que também é, mas é questão de, são muitos micro-organismos que todos os dias mudam principalmente com as nossas mudanças de comida e eles determinam imenso as nossas prioridades. Há bocadinho dei o exemplo de acumular a reserva é uma prioridade ou não é? Isto é uma comunicação destas bactérias. O nosso sistema imunitário também responde a estas bactérias e quando eu tenho um sistema imunitário que está a falhar eu posso estar num estado de inflamação crónica, estou em estado e alerta. Há uma emergência que eu não sei muito bem quando é que vem. Isso é resistência à insulina. Prioridade de engordar. Faço mais exercício ou não faço mais exercício? Durmo ou não durmo? E a questão do sono, cada vez é… Aliás em Portugal já estamos a ter as notícias de que temos de facto muito pouco respeito ao sono. Não só porque vamos dormir mais tarde, como também temos a questão de dormir menos e dormir no horário errado.

Jorge Correia
30:12
E o que é que se tem a ver com a comida? Ou engorda?

Conceição Calhau
30:14
Tem a ver com o metabolismo. ou seja, o nosso metabolismo, a nossa taxa, a nossa velocidade de gasto, a nossa prioridade, também é muito, é uma coisa que pensámos numa fábrica com uma linha de montagem, a eficiência da linha implica que os recursos humanos estejam lá, que estejam todos bem acordados e que à noite venha outra equipa a limpar, senão aquilo começa a ficar cheio de entulho e ninguém consegue trabalhar a eficiência da linha de montagem perto. E quando eu estou a dizer isto com a hora de sono tem a ver com a noite, e por isso nós somos animais de dia, e o ritmo circadiano e o jejum intermitente vem muito nesse seguimento, a noite fez-se para dormir e para não ter alimentos. Portanto, uma pausa alimentar. Para quê? Voltando à analogia da empresa. Durante o dia estão a fazer sujidade, e quando esses saem é que entra a empresa da limpeza. Há um restauro. E, portanto, a recuperação de todas as funções acontece nesse momento. Quando eu começo a ter quase tudo a falhar, porque não consigo fazer a reparação, que acontece durante a noite, e que não pode ser com entrada de comida, porque a comida faz, é quase como acender a luz dentro das células, eu passo a ter comprometido o meu funcionamento, começo a dar prioridade a estar em que estava, a estar estacionado. E portanto, duas pessoas têm respostas diferentes, porque foram tratando o carro de forma diferente.

Jorge Correia
31:34
Com tanta programação, com tanta bicharada no nosso intestino e espalhado pelo nosso corpo, ocorreu-se-me agora uma ideia, seguramente uma ideia parva que é então nós que passamos nove meses da nossa vida na barriga das nossas mães fomos provando logo uns alimentos e uns hábitos e umas fórmulas e fomos programados ali durante nove meses da nossa maneira de ser e de estar até enquanto seres que se alimentam. Isso tem impacto?

Conceição Calhau
32:05
A ideia não é nada parva, a ideia é muito científica porque aliás de certeza que a maioria das pessoas que nos estão De certeza já ouviram falar dos primeiros mil dias de vida, os primeiros mil dias de vida como determinantes para muitíssimas coisas, desde logo o sistema imunitário, para a questão de ter mais predisposição para engordar ou não. O que é que são os primeiros mil dias de vida? Os dois primeiros anos e os nove meses de gestação. Portanto, nos anos 90 foi quando claramente a comunidade científica percebeu que há uma programação inútil, ou seja, tudo que acontece naquele ambiente, naquela incubadora, vai programar não só a formação dos órgãos, mas como eles vão funcionar. E porquê nos anos 90? Porque foi quando nós começamos a ter resultados da investigação que veio da fome holandesa. Nós agora com as guerras vamos ter também provavelmente essa situação. A fome holandesa foi entre outubro de 1944 e maio de 1945. Estamos à altura da Segunda Guerra? uma estratégia de guerra de isolar a população holandesa, privando-as de alimentos. E a privação de alimentos naquela altura, no inverno, resultou em cerca de 500 a 600 calorias por dia por pessoa. Obviamente que isso foi uma privação energética muitíssimo… Radical. Radical, muito agressiva. Durante esse período também existiam grávidas. E, portanto, os bebês que foram gerados durante essa fome holandesa foram estudados nos anos 70, 80 e 90. E o que é que se percebeu? Que quem foi gerado nessa altura durante a fome, houve uma programação para a escassez. E portanto, chega-se cá fora, temos a abundância, e então o que é que se percebeu? Que eram adultos que tinham mais obesidade e mais diabetes, mais resistência à insulina.

Jorge Correia
33:52
Comeram como se não fosse amanhã.

Conceição Calhau
33:53
E portanto, claro que também não significa que a grávida então tem que comer por dois, que é para habituar à abundância. Porque aí depois também temos os bebés macrossómicos, que também são os bebés grandes, das hiperglicémias e da diabetes estacional também têm o mesmo risco. Portanto, aí ficou muito claro que os genes pesam mas que a programação de como é que vai funcionar esta máquina acontece muito na vida intrauterina.

Jorge Correia
34:16
E isso é reversível? Nós depois podemos… Ou é um determinante definitivo?

Conceição Calhau
34:22
Mas condiciona muito e por isso é que cada vez mais se fala dos tais primeiros mil dias, porque há dois anos ainda de vida em que ainda vimos imaturos e portanto há muita coisa que se pode consertar ali, que é uma janela de oportunidade enorme para depois podermos travar as doenças de hoje se calhar olharmos mais para esse período

Jorge Correia
34:40
Volto outra vez ao chocolate, a outra coisa qualquer golosa da nossa vida, quando eu como um chocolate às 11 da noite esta é uma decisão minha ou é uma decisão que eu posso

Conceição Calhau
34:50
É uma fome emocional É o organismo que está habituado é a mesma coisa estamos a falar da droga, há um apelo porque eu preciso daquela recompensa porque foi treinando para esta tenho uma adição ao chocolate claro que isto significa fazer o desmame portanto não é dizer não vai comer chocolate, tem que existir estratégias, tem que se perceber também o que é que pode estar emocionalmente na base disso realmente privação de sono, provavelmente má gestão de stress, provavelmente comeu não se saciou ao longo do dia portanto há muitas coisas que se tem que avaliar e não é só dizer não vai comer chocolate às 11 da noite

Jorge Correia
35:28
Os homens e as mulheres Funcionam da mesma maneira Quando olham para a comida?

Conceição Calhau
35:34
Isso é uma pergunta hoje em dia Com a igualdade de género Poderíamos dizer que não há Mas biologicamente somos diferentes Hormonalmente somos diferentes As decisões são controladas por fatores diferentes Eu vou facilitar isto

Jorge Correia
35:46
Eu quando tenho vontade de comer Na realidade não tenho um apetitezinho Eu tenho mesmo uma fome grande Tenho mesmo vontade de comer um javali

Conceição Calhau
35:53
Mas isso provavelmente porque não se sacia nada Porque não comia suficiente Não come a sopa na entrada, não come fibra E portanto está sem fome

Jorge Correia
36:02
Há uma diferença de género não há entre homens e mulheres O córtex pré-frontal

Conceição Calhau
36:06
Ali responde muito A hormonas e há de facto O córtex pré-frontal é muito Importante para o nosso autocontrole E para a nossa capacidade de decisão E portanto quando fala Vou decidir comer chocolate ou não, vou-me controlar ou não É muito nessa zona E isso é muito regulado pelas hormonas, seja pela testosterona Seja pela progesterona portanto de facto há uma diferença. Agora de ponto de vista mais empírico e na clínica eu tenho sempre muito mais os homens motivados para mudar, mudam mesmo as mulheres emocionalmente são muito mais vulneráveis e difíceis e têm normalmente uma relação com a comida diferente e por isso o livro do Engolir Sapos Engorda porque tem muito a ver com esta questão de socialmente a mulher tem um peso diferente tem uma posição diferente, tem expectativas diferentes tem exigências diferentes e portanto a diferença é mais social biológica, também é biológica.

Jorge Correia
36:57
Quer dizer, estamos a olhar para as mulheres e se ela tiver um peso acima é mais olhada, é mais criticada? É disso que estamos a falar, não é? Também é isso, mas

Conceição Calhau
37:05
aqui o peso diferente no sentido de que temos mulheres, muito provavelmente emocionalmente mais instáveis que gerem mal, que não conseguem gerir tão bem o stress e portanto a fome emocional é possível nós encontrámos-la mais facilmente na mulher porque de facto ela culpabiliza-se muito porque não consegue ser a melhor no trabalho, como mãe ou como mulher, há uma exigência muito grande para a figura feminina. E isso temos que ajudar a sociedade a não culpabilizar tanto e as mulheres não se sentirem tão culpadas, até da própria estética, a forma, a aparência, e acho que se resguarda muito mais nesta voracidade alimentar, que muitas vezes acontece de facto mais nas mulheres.

Jorge Correia
37:51
Mas isso é um mecanismo de compensação?

Conceição Calhau
37:53
É um mecanismo de compensação.

Jorge Correia
37:55
Se olhamos para a maneira como hoje comemos nós, os portugueses, e pela forma como comíamos há 50 anos, o que é que perdemos? Ou o que é que ganhamos?

Conceição Calhau
38:04
Bem, estamos completamente diferentes, de facto. Até pela hora que comemos. Aliás, o Inquérito Alimentar Nacional em 2015 mostra claramente que a principal ingestão alimentar é depois das nove da noite em Portugal. E são cada? Porque é contra o nosso relógio biológico. E quando eu falo em relógio biológico, nós somos animais de dia, temos um relógio central, que é o núcleo supraquiasmático no cérebro que responde à luz do dia.

Jorge Correia
38:31
Neste momento quatro ouvintes morreram, porque estão a tentar perceber o que é esse núcleo.

Conceição Calhau
38:36
O relógio central que vai estar a abrir as portas todas, ou abrir as janelas, porque a luz do dia acontece.

Jorge Correia
38:44
E nós reagimos a isso?

Conceição Calhau
38:46
E nós reagimos em que ele depois a seguir, que vai dizer a todas as portas do organismo está a haver luz. Quando a luz apaga, e claro que quando apareceu a lâmpada, os computadores, os telemóveis, as televisões, isto foi tudo alterado.

Jorge Correia
39:00
Demos cabo do ritmo.

Conceição Calhau
39:01
Demos cabo do ritmo. Portanto, este relógio central avisa o organismo e então o organismo sabia, entre aspas, que era necessário trabalhar, apagava a luz, sabia que vinha a equipa de limpeza. Nós ultrapassamos isto tudo e já não temos nada em sintonia, que é a questão de jantarmos. tarde de não dormirmos e portanto a qualidade do que comemos é diferente a hora que comemos é diferente e também os alimentos estão diferentes em natureza, porque quando nós falamos das alterações do clima nós não podemos dissociar isso dos alimentos que vêm da natureza que têm uma composição química diferente portanto os alimentos são mais pobres em selênio mais pobres em iodo as vitaminas também estão em menos quantidade portanto de facto não podemos dizer que comemos a mesma coisa

Jorge Correia
39:44
Quando eu olho para a maneira como as crianças hoje estão a comer fico com a ideia de que isto lhes vai custar anos de vida mais à frente faz sentido? isto é, a maneira como as crianças estão a comer a maneira como estão a engordar eu lembro-me do meu tempo da escola éramos todos magros que nem paus e hoje eu vou a uma escola e vejo a tribo muito rechonchudinha

Conceição Calhau
40:08
sim, aliás eu também costumo ter essas fotografias nas aulas uma fotografia de uma escola dos anos 70 e uma fotografia da escola de 2015 ou 2025 se quisermos avançar há 10 anos e é completamente diferente a oferta alimentar, a gestão das famílias e claro que se calhar aí e ainda falando do feminismo quer dizer, a emancipação da mulher tem consequências, nós temos que perceber que temos que ser ajudadas enquanto mulheres porque saímos e é necessário depois perceber como é que uma família se organiza quando dizemos que se tem que jantar cedo que se tem que comer frescos, que se tem que comer locais e sazonais que se tem que fazer as refeições em família, portanto há aqui uma série de imposições que a sociedade de hoje não tem e portanto os miúdos têm ofertas diferentes as escolas também já têm ofertas diferentes e portanto de facto a obesidade já começa a ser se nós não travarmos, em 2050 até aos 5 anos temos mais obesidade do que excesso de peso até agora temos maior porcentagem de excesso de peso do que de obesidade

Jorge Correia
41:06
portanto engordaremos ainda mais?

Conceição Calhau
41:08
estará muito pior se não fizermos nada mas continuamos só a fazer o diagnóstico rastreio, a fotografia mas ou temos medidas que claramente são determinantes mas têm que ser corajosas ou então

Jorge Correia
41:21
continuamos só a fazer o relato. Corajosas porquê? É preciso fazer o quê? De forma radical?

Conceição Calhau
41:25
Tem que haver muita mudança. Tem que haver a mudança de ter oferta alimentar diferente de ter que trazer os pais também para poderem fazer essas compras, as refeições escolares estarem condizentes e não terem oferta depois à volta temos que ter a possibilidade das crianças fazerem mais exercício físico e mais atividades, temos que ter outros horários e portanto a sociedade tem que perceber que ao exigir ou esperar um determinado comportamento tem que dar condições para isso, o preço dos alimentos.

Jorge Correia
41:53
É um bom exemplo, por isso empurramos com a barriga para a frente, neste caso literalmente.

Conceição Calhau
41:56
É literalmente barriga.

Jorge Correia
41:57
Daqui a 30 anos, quando olhamos para trás, o que é que vamos achar que fizemos terrivelmente mal? Conseguimos já ter um vislumbre disso?

Conceição Calhau
42:06
Eu acho que muitas vezes eu faço essa reflexão, estamos a esquecer do essencial que é o simples. Aliás, quando falamos em alimentação, em regra, ou não queremos saber ou sofisticamos. Dificilmente estamos no moderado. Portanto, só pensamos em coisas estranhas ou então achamos que a alimentação não tem problema nenhum. E portanto, o simples, e eu acho que neste momento com tanta inteligência artificial, tantas aplicações, tanta sofisticação, temos que, e espero eu que seja esse o caminho também na inteligência artificial, é dar-nos outra vez lugar básico ao simples que é comer comida

Jorge Correia
42:43
e não sofisticar muito. E não processados e evitar tudo aquilo que…

Conceição Calhau
42:47
Bom, sempre que falamos de processados temos que explicar a quem está a ouvir, quando eu cozinho em casa, faço uma preparação culinária estou a transformar o alimento, estou a processar

Jorge Correia
42:55
Portanto, processar não é necessariamente mau?

Conceição Calhau
42:57
Não, não é mesmo Eu estava pensando no processar industrial Pois, mas mesmo quando eu agora faço esta classificação dos alimentos processados, eu tenho o azeite e o açúcar na mesma categoria e azeite e açúcar branco não tem nada a ver portanto, o processado aqui eu sei quando as pessoas dizem, o ultra processado querem dizer o alimento que não tem nenhum equilíbrio nutricional isso sim, isto é o que nos está a levar a termos a obesidade

Jorge Correia
43:21
e termos… Estamos a falar de quê? Estamos a falar de que alimentos?

Conceição Calhau
43:24
Estamos a falar dos alimentos com muito sal, muita gordura saturada, muito açúcar mas obviamente que aquilo que se calhar é mais importante, até numa mensagem que gosto que seja sempre mais positiva do que negativa é o que é que nós não estamos a comer não é o que é que nós temos que deixar de comer o que é que eu tenho que deixar de comer já me leva logo ao estado de alerta, vão me tirar coisas vão ter que fazer dieta é importante eu explicar o que é que não está a comer que tem que comer mais hortícolas, mais leguminosas mais cereais integrais

Jorge Correia
43:53
tanto acrescentar coisas e não retirar coisas necessariamente

Conceição Calhau
43:55
é que eu acrescentar estas coisas de certeza que eu estou a arrumar com as outras

Jorge Correia
44:00
eu tenho sempre curiosidade porque tenho sempre a percepção, é seguramente um preconceito, de que quando vamos visitar uma nutricionista ou um nutricionista, normalmente são mais mulheres do que homens a conversa é sempre de grande restrição corta isto, corta aquilo, corta, não faça isto não faça isto, não faça isto e essa é uma conversa muito pouco apelativa

Conceição Calhau
44:20
Pois não é positiva por isso é que eu disse da mesma forma que

Jorge Correia
44:25
É um diálogo da proibição, não é?

Conceição Calhau
44:27
Sim, ainda há pouco tempo a propósito até de uma de um self-care que existiu em Lisboa, do autocuidado portanto um momento de reflexão em que o lema este ano foi dizer sim. E de facto é porque nós aprendemos, nós temos que aprender a dizer que não, a dizer que não aos outros, mas o dizer que não aos outros com culpa, não estamos a dizer, está-nos a fazer mal. Mais importante do que dizer não aos outros com culpa, é dizer sim a mim próprio. E aqui um bocado em relação à alimentação é a mesma coisa. Não é eu não vou comer, sei lá, o rissol, não vou comer a bola de berlim, eu vou comer isto, e o isto é outra coisa, porque me vai fazer bem e é importante para mim. E, portanto, se eu focar naquilo que as pessoas não estão a comer, é mais importante do que aquilo que… Claro que o primeiro tem que fazer o diagnóstico para perceber porque é que aconteceu esta trajetória nestas pessoas.

Jorge Correia
45:19
Como é que se faz um diagnóstico?

Conceição Calhau
45:21
Com muitas perguntas, não consulta, muitas perguntas. Eu olho desde logo, uma bocadinha, dizia, como é que é o seu trânsito intestinal? Como é que são as suas fezes? Mostra uma escala de Bristol, que as pessoas ficam logo horrorizadas a dizer, mas eu sei lá como é que é o meu cocó, não sei, nunca olho. é importantíssima, a saúde intestinal é muito importante. E nós não estamos nada à vontade

Jorge Correia
45:36
para falar disso. Mas temos que falar disso numa consulta. Portanto, começa por aí.

Conceição Calhau
45:40
Isso, saber quais são os medicamentos, quais são as doenças que já teve, toda a trajetória de saúde, depois toma medicamentos, toma suplementos, quais são as suas rotinas, quer de sono, quer de atividade física e exercício físico, quer os hábitos alimentares, isso é fundamental para nós, depois muitas vezes, se tomou muitos antibióticos, se teve experiências nos primeiros mil dias de vida, nos primeiros dois anos tive muitas otites, muitas amigdalites, eu tenho que perceber porque, e tenho que conhecer as análises, eu tenho que perceber aquela trajetória para depois compreender o que é que pode estar acontecendo errado e sobretudo dar aquilo que está a faltar. Isso é muito importante é dar mensagens positivas do que é que

Jorge Correia
46:20
tem que passar a fazer. Portanto, uma receita mais de compensação e de reequilíbrio, fazer mais exercício, comer mais verduras… Fazer mais exercício

Conceição Calhau
46:28
é fundamental até porque o músculo que há bocadinho dizia, falámos pouco dele liberta substâncias que nos dão prazer, saciedade diminui o apetite. A minha sensação

Jorge Correia
46:38
quando vou ao ginásio não é muito de prazer aquilo dá mais dor mas…

Conceição Calhau
46:44
Mas a autoestima melhora e primeiro estranha-se, depois estranha-se e nós temos mesmo que ter a noção de que isto é importante para a saúde nós conquistamos longevidade, nós conquistamos maior esperança

Jorge Correia
46:56
de vida, mas… Dá para alargar isso?

Conceição Calhau
46:58
Os mais anos, eu acho que neste momento não temos que estar focados em mais anos, temos que estar focados em mais anos com saúde.

Jorge Correia
47:05
Estamos a envelhecer mal?

Conceição Calhau
47:06
Estamos a envelhecer claramente mal. Nós temos, em 2030, milhões e milhões. Temos 25% da população em 2030 com mais de 60 anos. E com mais de 80 temos também, acho que são, estima-se 500 e qualquer coisa, milhões de pessoas com mais de 80 anos. portanto nós não precisamos de mais anos, nós precisamos e vamos andar a arrastar, não é? O Sistema Nacional de Saúde mostra isto que é nós temos não propriamente a saúde é da doença, portanto já não temos como sustentar tanta doença de facto somos o país da OCDE que as pessoas com mais de 65 anos têm menos saúde

Jorge Correia
47:44
O que definitivamente não é uma grande notícia se pudéssemos escolher uma coisa que temos que fazer a partir da manhã e que fosse muito fácil que nos oferecesse qualquer coisa de bom para a nossa vida era fazer o quê? É mexer-nos?

Conceição Calhau
48:01
Bom, quer dizer, eu não sabendo qual é que é a fotografia da população que posso estar a falar, mas a verdade é que de todas as variáveis, que é alimentação, sono, gestão de stress e exercício físico, nós não vamos ter a ambição de querer fazer tudo. Mas eu se calhar começava pelo exercício físico, ainda que pensassem que eu dissesse que era comer melhor. Porque sem dúvida nenhuma que eu vou estar motivada para comer melhor, sem dúvida nenhuma que eu, se estiver cansada vou ter que dormir mais cedo e portanto, claramente, aquilo que está a faltar é respeitarmos mais a nossa saúde, porque dizemos muito tenho direito à saúde, para ter direito ao acesso aos cuidados, mas eu tenho o dever de cuidar da saúde portanto, fazer exercício físico e adesão à dieta mediterrânea que era simples

Jorge Correia
48:46
Relativamente Li que Agostinho da Silva é uma inspiração declarada

Conceição Calhau
48:51
Sim, sim

Jorge Correia
48:53
O que oferece Agostinho da Silva, filósofo?

Conceição Calhau
48:56
Mas porque falava destas coisas simples, que é a essência da coisa da alimentação. A alimentação é muito simples, nós sofisticamos. Ele normalmente simplificava aquilo que era, que nós complicamos e, portanto, sem dúvida nenhuma, que a alimentação é simples e nós estamos a sofisticar. As pessoas hoje já não comem pão, comem panqueca, já não comem o iogurte, comem gelatina. de ter tudo sofisticado e falta o grão no prato o bacalhau as couvas, os grelos e portanto de facto andamos a sofisticar

Jorge Correia
49:31
o simples. Qual é o alimento favorito de uma nutricionista?

Conceição Calhau
49:34
De uma nutricionista? Eu não posso generalizar.

Jorge Correia
49:36
De esta que está aqui à minha frente?

Conceição Calhau
49:39
Eu falaria mais em refeição Ah, uma refeição. Então podemos fazer uma

Jorge Correia
49:43
refeição de prato favorito?

Conceição Calhau
49:45
Ah, isso podemos. Aliás, já é público porque já em vários fóruns eu disse Eu sou do Norte e a tripas à moda do Porto, e sem dúvida nenhuma. Mas se for feijoada à Transmontana com couves, ainda melhor. Sem dúvida nenhuma que eu gosto de imenso feijão.

Jorge Correia
49:59
Tripas à moda do Porto, feijoada à Transmontana com couves, tudo me parece francamente apetitoso, mas não era a resposta que eu estava à espera de uma investigadora que passou 30 anos a estudar o que a comida nos faz. Mas talvez seja exatamente por isso que faz sentido. Porque o que ficou desta conversa não é uma lista de alimentos a evitar, nenhum protocolo de jejum, nenhuma aplicação de contagem de calorias. O que ficou é uma ideia muito mais simples e muito mais difícil de praticar. Que a alimentação é simples, mas que nós a sofisticamos. Que já não comemos pão, comemos panquecas. Que já não comemos iogurte, comemos gelatina. E que há algures neste caminho entre o TikTok e o supermercado, entre o stress e a fome emocional, entre o que sabemos e o que fazemos, perdemos o fio da conversa. Conceição Calhau deixou-me com uma pergunta que não é sobre comida. É sobre o que acontece quando uma sociedade sofistica tudo o que era simples e depois não percebe porque está doente. Não tenho uma resposta, mas agora tenho talvez a pergunta certa. Se esta conversa ficou consigo, partilhe-a com alguém, não porque nos ajuda no algoritmo, embora também ajude, mas porque algumas perguntas são melhores quando são feitas em conjunto. O Pergunta Simples está disponível em todas as plataformas de podcast e no YouTube. Até a próxima semana.

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

 

Voltar ao Topo