Neste episódio especial, os papéis invertem-se: sou eu, Jorge Correia quem responde às perguntas.
Numa conversa com Filomena Crespo, na Antena 1, fala sobre a origem do Pergunta Simples, o vício da rádio, a escolha dos convidados e a curiosidade que alimenta cada episódio.
Uma conversa sobre a arte de ouvir, a dificuldade de explicar assuntos complexos de forma simples e aquilo que transforma uma entrevista numa boa conversa.
Entrevista originalmente emitida no programa Duas de Prosa, da Antena 1.
Filomena Crespo
00:00
Ora, hoje no Duas de Prosa temos sugestões de podcasts para ouvir nas férias. Esta é a altura das férias. Vamos espreitar o Pergunta Simples.
00:09
É um podcast do Jorge Correia, porque a rádio não se faz apenas no FM. Já percebemos isso. O Pergunta Simples, tanto quanto eu percebi, é um podcast sobre comunicação, onde se fala de assuntos tão diferentes como sociedade, como política, economia, saúde, educação, com convidados também muito diferentes todas as semanas.
00:28
Jorge Correia, viva, boa tarde. Bem-vindo ao Duas de Prosa.
Jorge Correia
00:30
Ora, viva. Obrigado pelo convite.
Filomena Crespo
00:32
Isto é para matar saudades, é isso?
Jorge Correia
00:34
Isso é.
Filomena Crespo
00:36
Tinhas, sentiste aquela necessidade de voltar a conversar, de voltar a estar com o microfone, de voltar a ter pessoas à tua frente?
Jorge Correia
00:42
Olha, sabes que o vício da rádio é uma coisa que se entranha.
Filomena Crespo
00:46
Pois eu sei, é o bichinho da rádio.
Jorge Correia
00:48
É o bichinho da rádio.
Filomena Crespo
00:49
É por acaso.
Jorge Correia
00:49
É isso mesmo. Portanto, há esta ideia de que tu podes falar ao ouvido das pessoas e contar-lhes uma coisa e saber que do outro lado na realidade não reagem mas nós imaginemos que elas estão a reagir Ah, mas reagem. Reagem, esse é o ponto no meu tempo antigo antes de eu ser jornalista reformado
Filomena Crespo
01:09
quer dizer, agora a minha… Sim, porque para quem não sabe o Jorge Correia já foi jornalista aqui nesta casa e portanto agora já não é mas já foi. E eram 20 anos
Jorge Correia
01:17
com aquela coisa absolutamente mágica no caso das notícias que era nós conseguirmos saber uma notícia, ter essa informação e naqueles dois minutos ou treze, antes de abrir aqui este microfone, dizer assim, eu vou contar às pessoas uma coisa que é interessante, que pode mudar a vida delas, ou vou-lhes explicar alguma coisa que é difícil de explicar, eu trabalhava habitualmente na área da saúde, que é, vou contar a estas pessoas o que é que está acontecendo. Portanto, esse vício de fazer perguntas, de tentar ter respostas, para ter um único objetivo, que é pegar naquilo e contar às pessoas, é uma coisa que não sai de nós nunca.
Filomena Crespo
01:53
Não se perde. E, portanto, este podcast é um bocadinho isso tudo, não é? É sentar-te aqui num estúdio de rádio com microfones, teres uma pessoa diferente todas as semanas, não é? Para conversar sobre aquilo que tu escolhes. Aqui entre nós
Jorge Correia
02:07
que ninguém nos ouve, isto é uma boa desculpa apenas para ligar a pessoas interessantes e tentar ouvir sobre o que é que elas pensam sobre o mundo. Isto apareceu a brincar, a brincar, este podcast
Filomena Crespo
02:17
tem seis anos. Pois já, já tem uma certa idade. Já tem uma certa idade. E vai ter mais.
Jorge Correia
02:22
E como é que aparece o podcast? Na realidade aparece nas alturas da pandemia, em que estamos todos fechados em casa, ninguém conversa com ninguém, e eu tive uma súbita angústia ou nostalgia entre eu preciso de pessoas para conversar, e hoje em dia, com os computadores e à distância,
Filomena Crespo
02:39
não é a mesma coisa gravar num estúdio assim,
Jorge Correia
02:41
olhos nos olhos, lamento, a tecnologia ainda está a perder, portanto a gente precisa dos olhos no olho.
Filomena Crespo
02:46
Sobretudo quando são conversas grandes, conversas profundas, não é?
Jorge Correia
02:49
E há um ritmo. Claro. Tu falas, agora eu paro, agora vamos para a frente.
02:52
Nessa altura da pandemia, eu disse, ok, estamos aqui a comunicar pouco. O que é isto de comunicar? Vamos falar de comunicação.
03:00
E nós podemos falar de comunicação de duas maneiras. Ou vamos aqui em busca dos especialistas, quem é que são, os semiólogos, os grandes comunicadores, o que é que são os jornalistas, o que é que são os professores, enfim, todos aqueles que sabem sobre comunicação. Ou então vamos à procura de pessoas que, sendo da comunicação ou não sendo da comunicação, na realidade comunicam todos os dias.
03:20
E sentem uma coisa que são os chamados dilemas da comunicação. Que é, como é que eu vou dizer uma determinada coisa? Ou como é que eu vou ouvir?
03:30
Porque comunicar também é ouvir. E chegou à conclusão rapidamente de que todos nós sabemos comunicar e todos nós não sabemos comunicar.
Filomena Crespo
03:40
Temos dúvidas, não é? Sabemos, mas temos dúvidas.
Jorge Correia
03:42
Ou então sabemos comunicar e depois espalhamos ao comprido. Que é, eu disse uma coisa, eu queria dizer uma determinada coisa e a outra pessoa entendeu a outra. Os chamados mal entendidos também fazem parte desta conversa.
03:54
Eu fui um bocadinho à procura de perceber que sinais e sintomas têm este ato tão natural de comunicador. Um bebê nasce e começa a chorar. Este é um ato de comunicação.
Filomena Crespo
04:04
Tudo é comunicação.
Jorge Correia
04:06
E, portanto, tentar encontrar aqui bons pretextos para perceber o que é comunicação para aquela pessoa, o que é comunicação para nós, e depois escolhendo temas que podem ser temas, não são temas da atualidade eu não ando atrás da atualidade mas ando atrás da contemporaneidade, no fundo dizer quais são os problemas que hoje nos preocupam bom, nós preocupamos a tecnologia então eu vou aqui à procura
Filomena Crespo
04:32
da lista das pessoas que me aprecia
Jorge Correia
04:35
e que têm curiosidade de perguntar e vou-lhes telefonar e dizer assim venha lá à telefonia para termos uma conversa
Filomena Crespo
04:42
É assim que tu escolhes os teus convidados eu gostava de falar com esta pessoa eu gostava de falar sobre este assunto mas às vezes não é fácil porque essa coisa, eu vou lá telefonar às vezes tens que ultrapassar ali umas barreiras porque se calhar não está tão disponível tão próximo, não é tão fácil essa comunicação. Sabes, isso no início
Jorge Correia
04:58
foi mais verdade do que é agora porque agora há uma coisinha chamada tradição eu ouvi uma vez alguém dizer que esta coisa de se fazer uma coisa bem feita, em grande parte é o tempo que está a ser feito portanto, se tu fizeres 20 anos de uma determinada coisa em princípio esse tempo concorre para que uma coisa possa ser bem construída. Sempre que tu ligas a alguém com uma ideia honesta para falar de um determinado tema, em princípio o grande problema das pessoas chama-se agenda. Tempo.
05:31
Tempo, não é? Quando é que eu tenho tempo? Mas o tempo aqui, no caso de um podcast, também é mais ou menos elástico.
05:37
Porque nós podemos gravar vários episódios, porque nós podemos, este convidado agora aceita, mas só pode gravar daqui a dois meses e a gente espera dois meses para poder gravar. Ou então, vou dar um exemplo muito concreto no convidado que eu gravei esta semana. É uma pessoa muitíssimo ocupada.
05:53
Eu pensei, vou fazer este convite e vou ficar três meses à espera. E a pessoa respondeu o e-mail
Filomena Crespo
05:59
dois minutos depois de eu ter mandado o e-mail. Isso está ordinário.
Jorge Correia
06:02
Num domingo à tarde, a dizer está com sorte, eu tenho um buraquinho da agenda
Filomena Crespo
06:07
precisamente a essa hora.
Jorge Correia
06:08
E veio, portanto, só isso é extraordinário. Quando tu dizes, olha, venha à telefonia falar sobre comunicação, sobre a ideia de comunicação. Primeiro eu acho que é uma coisa que surpreende as pessoas e que é. O que é que nós vamos fazer?
06:21
E depois, quando se faz o trabalho de preparação, normalmente o programa tem 45 minutos a uma hora, como está nas plataformas, ao contrário da rádio só, o podcast permite alguma liberdade mais à volta disso, e eu organizo para aí 100 perguntas. eu já sei que só vão fazer 8 ou 10 e depois as chamadas perguntas de seguimento. Mas aquilo que me norteia principalmente é qual é a curiosidade infinita?
06:50
E a pergunta mais simples que eu posso fazer é esta pessoa para saber o que é que ela sabe, o que é que me pode contar
Filomena Crespo
06:57
sobre o ato de comunicação. E daí o título do podcast, Pergunta Simples. É uma provocação.
Jorge Correia
07:02
Uma evidente.
Filomena Crespo
07:03
As perguntas mais simples são as das crianças, não é?
Jorge Correia
07:05
E que às vezes nos acerapantam, não é? Mas como é que está a fazer esta pergunta? Já ninguém tolera… O meu grande dilema de comunicação é como é que nós podemos falar de coisas complicadas de maneira simples.
Filomena Crespo
07:21
Esse é o meu dilema de comunicação todos os dias. Entre os profissionais. Todos os dias. Que é, eu tenho aqui um assunto que é complicado e agora como é que eu vou passar esta mensagem, esta informação a quem nos está a ouvir? Porque nós sabemos que do outro lado há gente que percebe muito o assunto e há gente que não percebe rigorosamente nada nunca ouviu falar daquele assunto e, portanto, é preciso equilibrar as coisas, não é? É tentar, porque senão estamos a falar para um boneco e ninguém percebe nada e a comunicação
Jorge Correia
07:45
perde-se. É não comunicação. É, exatamente.
Filomena Crespo
07:47
É o oposto. Também pode ser divertido,
Jorge Correia
07:49
porque às vezes a gente também pode fazer um exercício de não comunicação, só que isso, a não comunicação, na prática, exclui-nos.
Filomena Crespo
07:57
Exclui quem nos ouve, muita gente. Retire-nos
Jorge Correia
07:59
da conversa. Exatamente. E eu digo assim, mas eu também quero participar. Então, mas porquê é que não me dão a possibilidade de participar? Então, mas eu também tenho qualquer coisinha a dizer.
08:07
Eu quando hoje em dia olho para as caixas de comentários dos jornais ou das redes sociais, há uma parte de mim que fica irritada porque em cada 10 comentários, 2 são interessantes e relevantes e 8 são lixo.
Filomena Crespo
08:22
É melhor não olhar-se quer?
Jorge Correia
08:23
Mas para mim penso ao contrário, que eu digo assim, mas era melhor não ter? E eu digo, não, eu consigo lidar com isto. Eu prefiro que exista toda a gente a dizer a sua opinião, muitas vezes a coberta ou anonimato, se calhar não me agrada tanto, mas este valor da liberdade de nós podermos dizer o que pensamos, o que queremos e para onde vamos, é um ato de comunicação e permite-nos esta discussão na polis, na cidade, e dizermos coisas inteligentes, coisas pouco inteligentes, se calhar rufos, se calhar amus, mas se calhar faz parte da vida.
Filomena Crespo
08:58
Olha, Jorge, em relação aos teus convidados, são convidados, a maior parte deles, conhecidos? são anónimos, são gente que tu tens muita vontade e curiosidade para conhecer e para conversar com essas pessoas. Como é que são convidados? Diz-me lá.
Jorge Correia
09:14
Faço eu uma lista de celebridades para convidar apenas porque são conhecidos sexys ou estão na moda? Não. Pelo contrário, eu faço uma mistura de…
09:24
Quais são os dois critérios fundamentais para eu encontrar convidados? O primeiro critério fundamental é tem coisas interessantes para partilhar. e o segundo tem capacidade de comunicar porque não temos um problema e eu no fundo vou-se ir andando, não é?
09:41
Eu vou, a espuma dos dias, o que é que diz a espuma dos dias? Olha, a espuma dos dias, hoje está-se a falar muito de inteligência artificial e eu digo assim, então mas quem é que sabe de inteligência artificial? Sabe esta pessoa, sabe aquela, sabe a outra quem é que tem um prisma completamente diferente sobre inteligência artificial?
09:56
Então, eu vou à procura desse convidado que permite falar com clareza de determinados temas que são ou mais complexos ou tabus. Gravei há uma semana, por exemplo, uma conversa com uma sexóloga. E eu pensei assim, bom, isto vai ser muito divertido ou muito arriscado, sabe lá o que é que vai fazer.
10:15
O que é que acontece? Correu bem? Correu muito bem, porque se usaram as palavras todas, porque se desmistificou aquilo que se estava a falar e porque se permite oferecer às pessoas até um pretexto para lá no carro ou lá em casa dizer, olha, tu já ouviste aqui este programa que vale a pena ter uma conversa sobre este tema.
10:37
É esse o pretexto que é ligar essas pessoas. Portanto, misturo muito pessoas de áreas diferentes, de níveis diferentes, de gerações diferentes, porque há linguagens diferentes.
Filomena Crespo
10:46
Claro, também é importante.
Jorge Correia
10:47
Quando nós fazemos uma conversa com um emérito professor que tem 80 anos e tem netos e filhos, uma carreira profissional completamente concluída e uma vida longa, Ou vais entrevistar uma miúda de 20 anos que está agora… A linguagem é diferente. Os tempos são diferentes. Os temas são diferentes.
Filomena Crespo
11:09
E a profundidade também é diferente, obviamente.
Jorge Correia
11:12
E se tu tivesse essa capacidade de ouvir, de comunicar estando calado… Eu lembro-me sempre… A minha definição perfeita de uma boa conversa é quando eu consigo estar calado 90% do tempo. E a outra pessoa falou 90%. Isso é uma boa conversa.
Filomena Crespo
11:32
Muito bem. Há alguém, deixa-me só perguntar, isto é uma curiosidade minha, há alguém que tu gostasses muito de ter aqui no podcast e que ainda não conseguiste? Andas atrás dessa pessoa há meses ou há anos e ainda não conseguiste?
Jorge Correia
11:42
Tenho uma lista infinita de pessoas que eu quero ouvir sempre. tenho grande vontade de ouvir o professor Marcelo Rebelo de Sousa não como ex-presidente, mas como comunicador que era muito ainda não conseguiste, mas não há de ser difícil é preciso às vezes encontrar o tempo certo para que aconteça algo certo mas tu me perguntas assim e há convidados que também não me apetece ter
Filomena Crespo
12:18
ah, claro
Jorge Correia
12:20
e há alguns que são celebridades
Filomena Crespo
12:22
claro
Jorge Correia
12:23
mas felizmente és tu que escolhes
Filomena Crespo
12:25
portanto esses não têm que vir
Jorge Correia
12:26
olha, por exemplo, gostava muito de ouvir o Manoel Luís Goxa que acho que é o melhor entrevistador português é um bom comunicador, sim e é um grande entrevistador, acho que é absolutamente extraordinário acho que não me apeteceria entrevistar Cristiano Ronaldo por mais estranho que isto possa parecer portanto, porquê? exatamente por causa disso que é traria alguma coisa de mais interessante ou relevante daquilo que nós já conhecemos e vemos, haveria um fator de surpresa, havia um prisma diferente que uma minha pergunta pudesse transformar aquilo numa grande conversa.
Filomena Crespo
12:58
Porque se calhar os atributos que ele tem são outros e não propriamente a comunicação, não é?
Jorge Correia
13:03
E tudo o resto é público. Portanto, lá está. A lógica do que é que tu… No fundo, se um convidado vier aqui só fazer do boneco que é o próprio convidado tem menos interesse do que alguém que tu vais à procura e que tu dizes, olha, nem conhecia esta pessoa, isto que esta pessoa está a dizer é interessante e eu estou mais próximo e eu quero participar.
Filomena Crespo
13:27
Imagino que tenhas aprendido muito ao longo destes anos com os teus convidados todos. Já não temos muito mais tempo, Jorge, deixa-me só perguntar-te quando é que nós podemos ouvir, quando é que saem os novos episódios, a que dia da semana?
Jorge Correia
13:39
Sempre à quarta-feira, às seis da manhã e agora, neste tempo moderno, o podcast está em todo lado. Na RTP Play
Filomena Crespo
13:47
em primeiro lugar, sítio fabuloso
Jorge Correia
13:49
para se descobrir conteúdos nos spotifys, nos youtubes está em todo lado, a toda hora, a todo momento com aquela tremenda vantagem em relação à rádio, não acontece a ninguém que é poder escolher o momento, o tempo e a plataforma onde podes ouvir
Filomena Crespo
14:05
mas isso é só o canal
Jorge Correia
14:07
porque no fundo, no fundo, isto é a rádio
Filomena Crespo
14:10
Exatamente, é isso mesmo e o Jorge Correia está a matar saudades neste podcast, chama-se Pergunta Simples passo por lá para espreitares quantos episódios é que estão disponíveis? não imaginas, são seis anos
Jorge Correia
14:21
quase 300, 280
Filomena Crespo
14:24
com muitos assuntos diferentes com boas conversas, não tenho dúvidas sobre isso, é uma sustão para este verão, se tiver ali um tempinho são 45 minutos, espreito há muitas perguntas simples para fazer e muitas respostas certamente eu acredito complexas e extraordinárias Jorge, obrigada por teres vindo à TN1.
Jorge Correia
14:42
Obrigado.
