No Fim do Ano, Uma Conversa Sobre o Que Está em Causa
Com Rui Cardoso Martins, no Pergunta Simples
No último dia do ano, o Pergunta Simples oferece uma conversa que nos obriga a parar, escutar e pensar. Num tempo de urgências e distrações, Rui Cardoso Martins senta-se ao microfone para falar da única coisa que nunca sai de moda: a palavra — e tudo o que ela transporta.
Escritor, cronista, argumentista, dramaturgo, repórter de guerra e professor universitário. Rui é um dos mais versáteis criadores da língua portuguesa. Um faz-tudo da escrita, como diz de si mesmo, capaz de passar do teatro à televisão, da reportagem à literatura, do humor à tragédia — sem perder a integridade, nem a humanidade.
Esta conversa percorre décadas de jornalismo, atravessa fronteiras geográficas e morais, revisita tribunais e zonas de guerra, e detém-se naquelas perguntas que importam sempre: o que está em causa aqui? O que fazemos com o que vemos? Como escrevemos a memória?
A Escrita como Resistência
Rui começou no jornalismo nos anos 90, no nascimento do jornal Público. Foi repórter nos Balcãs durante o cerco de Sarajevo, embarcou no Lusitânia Expresso rumo a Timor, e cobriu as primeiras eleições livres na África do Sul. Testemunhou a História em carne viva — e sobreviveu a ela escrevendo. Um olhar atento, uma ironia serena, e uma linguagem afinada como um motor de avião: porque escrever mal, diz ele, pode ser mais perigoso do que um mecânico incompetente.
Do jornalismo passou para a ficção, sem nunca abandonar o rigor. As crónicas judiciais Levante-se o Réu revelaram o teatro trágico e grotesco da justiça portuguesa, num tom que une Fernando Namora e Monty Python. A sua literatura — premiada e traduzida — transporta o peso da experiência, mas também a leveza de quem sabe rir do absurdo.
Rui escreve como quem repara o mundo. De madrugada, antes que os Pokémons acordem, com uma folha branca como animal de companhia. O tempo da escrita é anterior ao ruído, à velocidade, à obrigação. É o momento em que a linguagem ainda não foi contaminada.
A Memória e o Corpo da Palavra
A entrevista percorre também o terreno íntimo da memória. Rui fala do papel dos cadernos, dos rituais, dos mestres como Cardoso Pires e Lobo Antunes — e da descoberta inesperada de que, sim, talvez seja mesmo um escritor. Há pudor, mas não pose. Há humor, mas não cinismo. Há sobretudo uma preocupação com a precisão: “tudo o que acontece no mundo passa pela linguagem”, diz ele. E acrescenta: quando a mentira tem o mesmo peso da verdade, estamos à beira da desgraça.
A sua voz não é a de um moralista, mas a de um observador treinado. Rui descreve Sarajevo como um lugar onde o vizinho passou a ser o inimigo. Fala de genocídio, da escolha de um lado — e da ilusão de neutralidade em tempos de barbárie. Fala da Avenida dos Snipers, dos campos de futebol transformados em cemitérios, da ausência de cães, de gatos, de calor. A sua literatura é feita dessa matéria: o choque entre o que era e o que se tornou.
Do Humor à Tragédia: a Responsabilidade de Dizer
Criador de frases como o célebre “Penso eu de que…”, Rui ajudou a moldar o humor político com Contra-Informação, Herman Enciclopédia e Conversa da Treta. Mas vê nessa sátira algo mais profundo do que entretenimento. O humor é uma forma de resistência. Uma forma de pensar por dentro da linguagem, de devolver o ridículo ao poder, de encontrar o ponto fraco do discurso dominante.
Fala da responsabilidade de quem escreve. De como se pode usar a palavra para curar ou para envenenar. De como a verdade se perde quando todas as versões da realidade parecem ter o mesmo valor. E de como o jornalismo, quando feito com rigor, ainda pode ser um antídoto para a manipulação.
O Mundo que Vem
A conversa fecha com uma pergunta que nos interpela a todos: a Europa está pronta para viver sozinha? Num tempo de guerras em curso, de democracias frágeis e de redes que amplificam o boato, Rui não tem ilusões: ou lutamos pela liberdade, pela educação, pela justiça, ou perdemos. A escrita, nesse contexto, é mais do que estética — é ética.
No fim do episódio, Rui confessa: só quer contar histórias úteis. Úteis no sentido mais profundo da palavra. Histórias que sirvam para entender o mundo e para não esquecer. Histórias que transformem o banal em universal, o pequeno em essencial. Porque, como diz, não há escritor sem memória. E não há futuro sem narrativa.
Este episódio foi originalmente publicado no Pergunta Simples, mas regressa agora como parte da nossa coleção Essencial. Uma conversa profunda, com valor reconhecido. Ouça ou reveja com tempo: continua atual, necessário e transformador.
Esta transcrição foi gerada automaticamente. A sua exatidão pode variar.
0:12
Rui Cardoso Martins: Jornalista, Escritor e o Faz-Tudo da Palavra
Neste episódio, vamos aprender a contar uma boa história, a contar a vida, a usar as técnicas do jornalismo da ficção e a usar a memória esta conversa com Rui Cardoso Martins.
É uma daquelas que nunca se esquecem, porque não se limitou a falar sobre a escrita, falou sobre a vida, sobre o luto, sobre a escuta, sobre o silêncio, sobre como contar uma história sem ferir quem a viveu e sobre como dar palavras às dores que tantas vezes não têm.
0:38
Nome Rui Cardoso Martins é jornalista, cronista, argumentista e, agora, principalmente, escritor.
Mas está aqui, sobretudo como alguém que escuta, que observa, que transforma o caos em sentido, sem trair a realidade de uma testemunha profissional.
É uma conversa Serena, mas cheia.
0:53
Uma conversa para quem acredita que comunicar bem também é saber calar no tempo certo.
Este episódio regressa agora porque há silêncios que merecem ser visitados uma e outra vez.
E porque há histórias.
Que nos obrigam a que?
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1:11
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1:27
Viva Rui Cardoso Martins tens um comboio de funções, escritor, cronista, argumentista, derramaturgo, professor, jornalista.
Que és, Paulo?
O que é que és hoje?
1:38
Pessoa 2
Não faz tudo?
1:39
Pessoa 1
Não faz tudo, porque é que o que é que faz um faz?
1:41
Pessoa 2
Tudo não faz tudo na num, numa visão, uma visão, numa numa perspetiva geral de literatura, que é uma palavra que eu uso sempre no, no bom sentido, no sentido sem, sem, sem rodriguinhos, sem sem jogos florais.
2:00
Sou uma pessoa que que usa a linguagem, a língua portuguesa para para várias, digamos, artes da escrita, e, portanto, são.
Faz tudo no sentido.
Eu gosto muito, faz de tudo, aquelas pessoas que sabem resolver não sei quantos problemas e então está com os mesmos, às vezes com os com os mesmos instrumentos, o meu instrumento, enfim, OA minha maneira de trabalhar é.
2:24
É a língua que uso em em jornalismo, que uso em em literatura, enfim, em em romance, em conto e em em guiões de cinema e de televisão.
2:34
Os Tempos Heroicos do Público e a Influência dos Mestres
Mas há há frequências diferentes, porque quando tu és jornalista puro e duro e tens que dar a notícia é uma coisa, quando te permites fazer as maravilhosas crónicas como tu fazias do levantes, o réu no.
No caso do público, crónicas judiciais.
2:52
Ah, é diferente do que do que fazer depois?
Humor, como fizeste nas produções fictícias ou como fazes quando escreves um romance?
2:58
Pessoa 2
Sim, sim, a minha formação é de jornalista.
Porquê?
Porque tirei o curso de comunicação social na universidade nova EE, entrei imediatamente no.
Foi um tempo, um tempo histórico, heroico.
Interessante que foi quando apareceu as candidaturas para um novo jornal, que veio a ser o público e, portanto, entrei como estagiário no público depois de uma. 11.
3:22
Formação de enfim, de de uma seleção.
E aí aprendi tudo da da quase da chamada tarimba.
Ainda há uns vários meses, ainda antes do jornal sair.
Quem?
3:32
Pessoa 1
Quem foram os teus mestres?
3:33
Pessoa 2
Os meus mestres foram em grande parte, os meus mestres no Julio foram o Adelino Gomes, o Rogério Rodrigues, o pai do Tiago Rodrigues, do do teatro, que é um que é um amigo meu, foi o Rogério Vidigal, foi o.
3:50
Foi o Eduardo Rebelo, foi o torcato Sepúlveda e foi obviamente, em grande parte Oo vice Jorge Silva.
Portanto, tive, tive a sorte.
4:00
Pessoa 1
Tive a.
4:01
Pessoa 2
Trabalhar outro, seja a de Camacho.
Agora podia.
Podia continuar a lista.
Éramos uns jovens que estavam ali com com com mestres.
E, portanto, o que é que aprendi a fazer?
4:12
Pessoa 1
O que é que se aprende?
4:13
Pessoa 2
Desde as Breves às notícias e às reportagens, muito cedo começámos.
Eu tive a sorte de começar AA sair de Lisboa, ou ou ir a Lisboa aos bairros de Lisboa, ou ou ir para o estrangeiro escrever reportagem.
4:30
Portanto, tive ainda antes da internet, ainda antes dos computadores.
Hoje parece quase graça, mas eu não consigo escrever coisas à mão.
Não é porquê?
Porque fiz uma transição e uma aprendizagem.
4:41
Pessoa 1
Do analógico para o digital.
4:42
Pessoa 2
Sim, enfim, acho que somos AA última, somos nós, aqueles ali.
A última geração que passou por isso tudo?
4:50
Pessoa 1
Eu quando quando comecei a trabalhar na telefonia, era fita, era era bobines também.
4:54
Pessoa 2
Passei por isso, não havia.
4:55
Pessoa 1
Computadores.
4:56
Pessoa 2
Enfim, nós quando?
4:57
Pessoa 1
Não havia internet.
4:58
Pessoa 2
Tínhamos uns tijolos daquilo que seria depois AAA Macintosh eram os primeiros computadores, hoje são são são relíquias de de tecnologia, como as disquetes, as pessoas, enfim e.
Mas aprendi basicamente a escrever de tudo e.
5:16
Logo na primeira semana do público, tive que tratar 2 coisas diferentes, notícias, reportagens, como jornalista e também como jornalista fazer crónicas de tribunal.
Porquê?
Porque tinha feito uma.
5:32
Uma reportagem que que que o Vicente Jorge Silva achou graça que tinha que se passava num tribunal.
5:37
Pessoa 1
E ele tinha Faro para isso, para perceber.
5:39
Pessoa 2
Tinha tinha imenso Faro, tinha tinha imenso mau feitio, que é uma coisa que às vezes faz falta.
5:44
Pessoa 1
Tinha uma ética fantástica.
O que o que é que era mau feitio maltratava te.
5:49
Pessoa 2
Sim, eu acho que nunca te contei isto, mas uma vez ainda jovem, estagiário, quando ainda não tinha sido decidido, quem é que ficava?
Afrontei o ou defronteio não sei bem o que é que hei de dizer desta palavra.
Era 11 caso em que eu não concordei com ele e eu, cheia de opiniões, confrontei o diante de muitas pessoas, numa espécie de plenário anterior.
6:12
Ele ficou zangado comigo.
Vieram me contar depois precisamente o Rogério Rodrigues, que era um grande repórter e poeta, já agora, infelizmente também já faleceu, que ele tinha ficado muito zangado e dizia.
Achou que eu não servia para para um projeto, ficou amuado o meu amigo Vicente, mas depois mostraram lhe precisamente uma reportagem que eu tinha feito enquanto estagiário.
6:37
Ele disse, Ah, mas isto é bom, o que é que é este tipo, olha, é aquilo que tu queres mandar embora, é só para saberes.
Contaram me isto.
Mais tarde já eu estava no quadro do público e fiquei sempre grande admirador, grande amigo do Vicente, porque era uma força de natureza entre a alta redação.
6:53
Isto é uma desgraça, isto é uma porcaria.
Quem é que não sei quê?
Era surdo que gritava imenso, era assim um era de facto, um momento dramático muito, muito cómico, às vezes difícil para quem ouvia as críticas, mas também era capaz de chegar ao pé de uma pessoa e gritar Belo trabalho à frente de toda a gente.
7:13
Era, de facto, 111 pessoa excecional.
7:16
Pessoa 1
Olha, é é curioso porque tu estás estás me a falar eu, eu estou a recordar me os meus.
Velhos chefes de redação também, que que às vezes até tinham dias mais difíceis, em particular depois do almoço, e gritavam muito isso era assim para gujavam muito, só para.
7:30
Pessoa 2
Dizer eu.
Eu pus isso numa peça de teatro que se chamou última hora.
Toda a gente fumava.
Não havia problema nenhum em ter uma garrafa de whisky Na Na, na secretária.
Quer dizer, acho que parece.
Parece quase maluqueira, não é?
Mas toda a gente trabalhava até à última.
7:48
Ninguém deixava de fazer o seu, o seu trabalho, mesmo que de direta.
Portanto, foram, como eu dizia, tempos heroicos.
Agora, entre isso EEAEA ficção.
É preciso depois saber o que é que se está a fazer.
Não é como.
8:01
Pessoa 1
Eu, como é que tu ligo que te te ligavas ou desligavas quando tu estavas?
AA fazer jornalismo por um lado e por outro lado já a escrever coisas, a escrever romances a escrever, enfim.
8:10
A Epifania do Escritor: Manhãs, Cadernos e a Essência da Memória
Não, isso foi muito mais tarde, isso foi muito mais tarde.
8:12
Pessoa 1
Tiveste que desligar de quase te reformares.
8:14
Pessoa 2
Um bocadinho os romances EEO cinema foram.
Uma consequência da minha aprendizagem como jornalista e também como pessoa e como pessoa que que IA ao cinema e com ao teatro também.
E muitas leituras.
8:31
Mas, mas não, eu não sabia que era escritor.
Essa essa a grande descoberta que acontece.
8:37
Pessoa 1
Quando é que foi a epifania?
8:40
Pessoa 2
Bom, primeiro tive aquela coisa de que qualquer colunista quer, que é aparecer uma pessoa que não conhecemos de lado nenhum.
E dizer, nos eu compro o jornal por causa da sua crónica?
8:52
Pessoa 1
E isso aconteceu te.
8:53
Pessoa 2
Aconteceu me algumas vezes, e não por arrastamento, mas paralelamente apareceram escritores que eu, que eu adorava, não é porque.
Porque os lia a falarem no meu trabalho, nas crónicas.
9:09
O Cardoso pires, o Cardoso pires primeiro que.
9:11
Pessoa 1
Usou uma Bela expressão.
9:13
Pessoa 2
Que é o pá, pá, pá, será isso?
9:15
Pessoa 1
O pá, pá, pá EE este cabrão escreve.
9:17
Pessoa 2
Como nós, essa de cabrão foi usada sem eu saber.
Só só depois, através do António lobo Antunes, que que ele dizia que eu era um cabrão e que era um canto elogio entre os 2.
Eu, como alentejana, achei, achei, achei de facto um enorme.
9:34
Pessoa 1
Elogio olha o que o que é que estes?
O que é que estes mestres da escrita te te ensinaram?
O que é que tu aprendeste com eles?
Não sei se eles estão, se se estes mestres têm assim grande vontade de ensinar ou se a gente aprende.
Estando com eles e percebendo o que é que eles estão lá a fazer e a escrever.
9:47
Pessoa 2
É, é tudo um pouco.
Eu, eu, o Cardoso pires, infelizmente não, não cheguei a falar com ele.
Li muitos livros dele, li crónicas dele, EE, depois ele deu, recebeu o prémio, o prémio pessoa e deu uma entrevista precisamente a falar das minhas crónicas como um exemplo de uma coisa que estava que era pá, pá, pá, lá está.
10:10
EEA, única ocasião em que tive a oportunidade de lhe falar, tive um pudores, que que agora posso, posso?
10:17
Pessoa 1
Tive esta vergonha.
10:18
Pessoa 2
Tive, tive pudor.
Não é vergonha, não seria vergonha.
Aquele homem tinha dito bem do meu trabalho.
Não tinha bem, não tinha dito bem de mim, tinha dito bem do meu trabalho.
10:28
Pessoa 1
Mas sentiste intimidação, sentiste distância.
10:30
Pessoa 2
É mesmo daquelas coisas AA antiga, eu?
A primeira vez que entrei num num restaurante meio de luxo, porque me apeteceu este restaurante, o Pablo, lá estava ele e eu vou.
Não vou, vou, não vou.
Mas depois vi que ele estava a escrever e não me atrevi, não me atrevia.
10:51
A apresentar me.
10:52
Pessoa 1
Estava a escrever num caderninho, estava a tomar umas.
10:54
Pessoa 2
Notas escrito, estava a beber um uísque e um café.
10:56
Pessoa 1
Olha, já, já agora, para as pessoas que saibam, quer dizer, a primeira coisa que tu disseste quando quando chegaste aqui é, arranja me uma folha de papel, arranja me aí qualquer coisa para para ter aqui.
11:04
Pessoa 2
É só por isso?
11:06
Pessoa 1
É uma espécie de animal de companhia.
Tem que lá estar uma folha em branco, é.
11:08
Pessoa 2
Estou sempre a acusar.
Eu durante muito tempo, nunca tinha um papel para escrever uma caneta.
E era aquela história do espeto de pau.
Punha tantas vezes que agora.
Tenho, tenho rituais.
Não são rituais, são, são, são.
São coisas que é.
É bom ter uma folha de papel sem aparecer alguma alguma coisa digna de registo?
11:27
Nunca se sabe.
11:28
Pessoa 1
Senão a nossa memória vai se embora, desiste.
11:30
Pessoa 2
E sem memória não se escreve nada, não, nenhum.
Lá não há escritores sem memória.
11:34
Pessoa 1
Fala, fala me dos teus rituais.
11:36
Pessoa 2
Há.
11:37
Pessoa 1
Há um, há um, há um que engraçado que é e aquilo que eu gostava de saber, que é o que é que acontece entre as 5 da manhã e o nascer do sol porque para quem não sabe, tu és uma.
Uma ave de de, de, de, de, de, de de grandes manhãs de acordar muito cedo para para, para fazer o quê?
11:54
Pessoa 2
Sim, quando estou a escrever, nem sempre crónicas, mas quando estou a escrever um romance, é a melhor hora.
Eu deito me muito cedo, tento que que a refeição não seja pesada.
EE levanto me cedo porque posso ver o Sol nascer, porque porque não há crianças a pedir os Pokémon?
12:13
Porque não se tem que ir imediatamente levar alguém à escola.
Eu já tive na verdade, 3 gerações de crianças, os meus 2 filhos, a Sério mãe Henrique já tem 26 e 25 já cresceram.
Tenho o tenho Oo Lourenço, o meu enteado, filho que tem 16 e agora tenho um miúdo de 5 anos.
12:33
Portanto, toda a minha vida estive sujeito a de manhã ter que tratar de uma série de coisas, eu, eu e toda a gente lá em casa, como eu ouvi e mas percebi que ali.
Na verdade, para dizer a verdade, acho que aprendi este troco de uma vez, numa numa entrevista do do Gabriel García Márquez, que disse que se levantava às 2 da manhã para escrever.
12:57
Ah, que esquisito.
Então depois percebi que, de facto, de manhã há aquela energia inicial, aquela coisa que é ainda sem comer, sem coisa em que as coisas estão.
Estamos só no mundo.
Não é sem barulhos, sem sem ruído.
13:15
EE percebi que era aí que que essa era para a parte dos livros.
Era a parte do dia também em que eu conseguia avançar.
Porque escrever um livro é diferente de escrever uma notícia, acho que ou mesmo escrever uma crónica?
13:34
Há.
13:34
Pessoa 1
Há até.
Há até aqui uma espécie de quase de contradição, que é na redação, há um bulício, há um barulho, há uma.
Há uma chinfrineira permanente, há os telefones que tocam às pessoas que falam, há uma interação muito grande entre entre os jornalistas.
E, por outro lado, essa quase reclusão de que tu falas, que é sentas, te estás, tu contigo próprio, com o silêncio e com uma página em branco.
13:55
Pessoa 2
Sim, mas mas também também me habituei a trabalhar em qualquer coisa.
Trabalho muito bem em aviões, por exemplo.
Trabalho bem em aviões.
Trabalho, trabalho bem com ruído, desde que não seja a interpelar, me não é?
14:10
Enfim, temos que arranjar espaço para para uma série de coisas que faço diferentes.
Agora, de facto, essa essa energia da manhã permite me, por exemplo, quando eu escrevia o conto de informação e, ao mesmo tempo, estava a escrever um romance.
Eu não não IA escrever o contra informação e depois o romance.
14:27
Tinha que ser o romance antes e o contraformação depois, porque já era assim, uma espécie de Alívio cómico.
Como é que hei de dizer?
Era outra coisa, era outra coisa.
14:37
De ‘Penso Eu de Que’ à Viagem do Lusitânia Expresso
Olha, fala me dessa escrita do humor, tu escreves muito.
És cofundador da das produções fictícias.
14:42
Pessoa 2
Portanto, sim, pode dizer se, embora não tenha entrado na.
14:46
Pessoa 1
Não te vinha, não teres uma coatora, mas mas fazias parte dos da da daquele grupo inicial que lhe conheço.
Escrever humor escreves para o Herman escreves o contra informação lá, lá está podes até ser responsável aqui que um dos um dos candidatos a presidente da República, tu escreveste um dos uma das caricaturas de.
15:03
Pessoa 2
De Marco grande culpa, a minha grande culpa.
15:06
Pessoa 1
Este é o autor da frase que a grande Noia.
15:09
Pessoa 2
Sou eu e o José de Pina.
Já não sei quem é que disse primeiro, até acho que foi o José de Pina, porque ele era professor e é.
De jovens.
EEE trouxe essa, trouxe essa muito.
Muito do trabalho que ali usávamos.
Era coisas que eu víamos na rua.
No caso dele, na escola, o penso eu de que sim, é meu.
15:26
Pessoa 1
Isso é do pinto da Costa.
15:28
Pessoa 2
Pinto da Costa.
Bimbo da Costa.
15:29
Pessoa 1
Bimbo da Costa, claro que.
15:30
Pessoa 2
Resolvi o dizer penso de que e transformei aquilo em frase final.
Ainda há pessoas que se lembram disto cada vez menos, mas é uma.
É uma frase de facto cómica.
Não é porque acaba.
Ninguém pensa de que para acabar uma frase, não é?
15:44
Pessoa 1
E tu, a partir daí, passa a ser um bordão de linguagem.
Portanto, qualquer coisa que ele dizia e dizia, penso eu, de que é quase filosófico.
15:50
Pessoa 2
É é creio mesmo que que é que é o grande contributo.
O meu grande contributo para a língua portuguesa é assim, o este homem não é do norte, isto era de verba na enciclopédia.
Outras coisas na também fiz a conversa de treta.
16:06
Pessoa 1
Isso é maravilhoso.
16:07
Pessoa 2
No, no e estas coisas nasceram de 11 frase que eu vi num padeiro na Austrália.
Eu estava sempre a dizer anyway na Austrália.
Quando foi quando quando foi Oo navio lusitânia expresso que IA tentar pôr umas flores por causa de.
16:25
Pessoa 1
Uma em Timor.
16:26
Pessoa 2
Em Timor, por causa do massacre do díli, e.
16:28
Pessoa 1
Eles nesse barco?
16:29
Pessoa 2
Eu IA.
16:30
Pessoa 1
E então?
Já vamos ao já voltamos ao humor, mas mas eu quero saber, Ah, foi, como é que foi essa viagem?
16:35
Pessoa 2
Foi, foi foi um período de muita espera, quase um mês na Austrália.
16:41
Pessoa 1
No barco ou cá fora?
16:43
Pessoa 2
Cá fora, mas depois, quando embarcamos e nem todos embarcaram aqui entre nós, é sim, porque havia, havia de facto, havia medo.
Houve alguns ataques de pânico, não muitos, houve uns que se resolveram e, bem, eu ainda hoje mantenho uma grande amizade com um jornalista que teve um ataque de pânico.
16:59
Pessoa 1
Dentro do barco.
17:00
Pessoa 2
Antes de de entrar, não conseguia, mas ali conversámos porquê?
Porque, afinal, tínhamos razão.
Aquilo de facto, podia ter corrido muito mal.
Eu só estou.
Só tive a certeza absoluta de que os jovens em Timor preparavam 11 sublevação quando o barco desembarcasse e estavam dispostos a morrer para mostrar ao mundo aquilo já estava num tal estado.
17:24
Eu tive essa confirmação 20 anos, quando voltei lá com o.
Com uma nova missão com o Rui Marques, que foi organizador da primeira.
E nós, quando estávamos no mar, Timor, a 11 milhas náuticas?
EE.
Já tínhamos Timor à nossa frente e, de facto, aquilo foram os dias, uma intensidade brutal.
17:42
Não havia internet para mandar as coisas, portanto, era pela rádio.
Através da onda curta, portanto, também passei por isso tudo.
17:50
Pessoa 1
Era o rádio ditavas as crónicas.
17:51
Pessoa 2
Era por por onda curta palavra a palavra e ou por telefone.
Na Austrália, eram contas de 1000 contos e coisas assim.
Era tempos heroicos de facto, porque AAA internet ainda não funcionava bem.
Eram eram 2 bocais que se colava um ao outro.
18:08
Pessoa 1
Exato, os modems eram eram umas caixas onde se punha o telefone em cima para EE apitava tal e igual como os antigamente para.
Fazia π, π, π, π, π.
18:16
Pessoa 2
Parecia aqueles bichos na no verão, no Alentejo, que parece que estão em contacto com o universo, os rales e as.
18:21
Pessoa 1
Então, como é que era a rotina dentro do barco, como é que?
18:24
Pessoa 2
Foi, estávamos à espera, não havia, não havia, não havia lugar para todos.
Bom, e de repente, quando aparece a as fragatas de guerra indonésias e os aviões de guerra EE, aquele movimento à nossa volta, não deixando o barco passar, o navio passar um bloqueio.
18:41
E havia, de facto, a possibilidade de passarem as culpas se houvesse alguma bomba, por exemplo, passar as culpas para os radicais que estavam dentro do navio.
18:52
Pessoa 1
Portanto, vocês podiam podiam ser objetivamente e subjetivamente.
Os detonadores de uma de uma revolta que estava latente em em climor, em díli.
19:03
Pessoa 2
Mas eu só soube isso 20 anos depois, quando lá voltei e conseguimos finalmente entregar as as as famosas flores no cemitério de díli, naquele massacre de +400 jovem, +400 jovens.
Horrível aquilo, aquilo tudo.
E mas pelo meio houve coisas de de facto.
19:22
No outro dia, lembrei me.
Deste pormenor, aquilo que eu que eu gostava de contar do do do general eanes, que era ex presidente da República e estava ali e eu tinha a tarefa de ir buscar o diário dele todos os dias e passá lo ao público fazer uma leitura um pouco mais.
19:41
Como é que hei de dizer com a minha experiência mais jornalística?
19:44
Pessoa 1
Eras um editor no fundo daquilo, pegava no texto, ele escrevia todos os dias.
19:48
Pessoa 2
Escrevia todos os dias, ele e um estudante, portanto, havia assim uma série de de, de, de pessoas, de representantes, que através de mim, além dos meus textos, não é sobre o que se passava, enviavam para o público o seu diário EE quando quando chega a que chega a frota Indonésia de aviões e de e de fragatas de guerra?
20:11
Eu estava com ele.
Ele diz me assim, bom, agora vou, vou vestir as calças.
E eu, ele estava de calções.
E eu digo porquê, senhor general?
Não me apanharão em calções?
Ele tinha razão.
20:27
Ele tinha razão porque era era 11, ex presidente da República.
Nós estávamos ali com um calor tropical, não é claro, mas ele tinha.
Tinha a noção de que, a partir daí, se por acaso o barco fosse atacado, sim.
Atacado, não diria, mas tomado.
20:43
Era importante não estar em calções.
20:45
Pessoa 1
Há uma há uma espécie de uma espécie de dignidade, até na maneira como simbolicamente eram as calças, mas na realidade, como ele.
20:52
Pessoa 2
Como estava e como general leand?
O ex presidente da República fez agora 90 anos.
Os meus parabéns, mas esta esta foi um momento muito, muito interessante.
21:03
Pessoa 1
Quem é que mandava naquilo, quem mandava no barco?
21:07
Pessoa 2
Era o Capitão, era o Capitão.
Ainda hoje há aqui uma série de coisas mal resolvidas.
Avançar ou não avançar, como é óbvio?
Não.
Não me competia a mim.
A mim competia me acompanhar até ao fim.
21:21
Pessoa 1
Contar no fundo até ao fim a contar a história tiveste.
21:25
Pessoa 2
Medo mas atenção, não há.
Não há hipótese num caso de genocídio, de sermos totalmente independentes.
Não é assim.
Aliás, foi o argumento de alguém que não não embarcou porque supostamente IA cobrir o outro lado.
Um desastre.
Estávamos a falar de 11, regime ditatorial que tinha, portanto.
21:42
Pessoa 1
Implicavam muitas pessoas, muitos melhores.
Uma militância implicava 11 jornalismo de.
21:46
Pessoa 2
Militância?
Não, não digo isso, mas 111 jornalismo consciente de que de que lado é que é preciso estar, se é o lado da democracia e da Liberdade?
EEE não.
Do lado do do genocídio, não é?
Acho que isto é elementar, parece me que que é difícil manter as distâncias e acho que não se deve fazê lo sequer, desde que se assuma.
22:07
Pessoa 1
Não é?
22:08
Testemunhando a Desumanidade: Sarajevo, Snipers e a Ética
Olha tu, tu estiveste aí fizeste jornalismo Internacional estiveste em cera a Evo na altura da da guerra no coração da da da Europa.
A guerra continua no coração da Europa.
Parece que não parece que o que que não aprendemos nada.
22:23
Oo que é o que é que se vê em cera a Evo?
O que é que se vê na no coração da Europa?
Culta e evoluída, onde subitamente 3 grupos de etnias de de culturas começam a matar o seu vizinho ao lado e tornam aquilo massacres sucessivos ao longo de vários anos.
22:40
Pessoa 2
É, era foi uma grande aprendizagem.
Porquê?
Porque eu quando tinha menos 5 anos do que quando lá foi eu, eu tinha feito o interrail e fui lá.
Fui lá passear.
22:55
Pessoa 1
Ainda não havia guerra ainda.
22:56
Pessoa 2
Não havia guerra e ainda era um regime socialista?
Era era um regime socialista.
23:00
Pessoa 1
Do Tito ainda?
23:01
Pessoa 2
Do Tito, portanto, mas já estava na transição.
23:04
Pessoa 1
Portanto, Bósnia a Sérvia, como nós conhecemos, Montenegro, tudo aquilo era a jugoslávia.
23:08
Pessoa 2
Tudo aquilo era a.
23:09
Pessoa 1
Jugoslávia e então porque é que?
23:10
Pessoa 2
Assim, coisas super curiosas as mulheres pareciam, com todo o respeito.
Por estas senhoras tinham assim um ar brilhante, vistoso, um pouco de cabeleireiras, não é?
Espero que ninguém leve a mal.
23:22
Pessoa 1
Estavam o quê?
Estavam muito bem arranjadas.
23:24
Pessoa 2
Muito.
Aquele estilo era aquele estilo de leste, não é?
E assistir, por exemplo, muito.
23:29
Pessoa 1
Brancas com, com, normalmente com.
23:31
Pessoa 2
Os com os muito bem arranjadas muito.
23:34
Pessoa 1
Um grande cuidado.
23:35
Pessoa 2
Um grande cuidado, que era uma coisa importante que eu depois voltei a encontrar.
Quando lá voltei é extraordinário.
E já estava no cerco e já estava a guerra e estavam a morrer.
Muitas pessoas por dia estavam um frio danado e eu que estava em split antes de embarcar para lá, me custou bastante, consegui convencer, enfim, não podemos estar aqui a explicar tudo, mas foi muito difícil ir para ser Evo num avião c 130, cair a pique por causa das bombas, subir a pique, tudo isso e estava convencido que me iam pedir para levar vívores, isto é comida, comida.
24:12
Queijos atuns, eu estava disposto a comprar isso.
24:14
Pessoa 1
Estávamos na altura do cerco, portanto tu chegas a saraívo já na altura da guerra, foi.
24:18
Pessoa 2
Foi logo ali No No no na, na passagem do ano Natal 93 para 94, período terrível.
Vi, por, por exemplo, ainda a arder a grande biblioteca islâmica de de de saraívo.
Ainda ainda apanhei manuscritos do século 13, queimados, uma coisa horrível é 11, coisa horrível e.
24:40
Mas o que me pediram para levar foi com os médicos e desinfetantes para senhoras EE coisas que permitiam às às senhoras manter a sua dignidade.
Não era comida, eu não estava à espera disto.
É uma grande aprendizagem.
Eu tinha estado lá em em, em em férias, em interrail.
24:58
Assisto a uma cidade desenvolvida, ótima música, uma educação.
25:03
Pessoa 1
Uma cidade europeia?
25:04
Pessoa 2
Uma cidade europeia como qualquer como Lisboa, um bocado estranhas.
EE paranoicas que tinha o regime soviético em princípio, nós, longe de mim fazer fazer Oo elogio de tanto genocídio que aconteceu, por exemplo, na União Soviética.
25:22
A Rússia é outro caso que depois conheci melhor e recentemente, mas assisti, por exemplo, durante essa primeira viagem, a 111 grupo de soldados, todos muito bem compostos, todos com 1 m e 90.
25:38
E eu disse, é pá, os soldados aqui são.
Eu não gostava nada de enfrentar estes homens a marchar.
E então explicaram me que que que eles não, que eles nunca iam para a Batalha, que eles serviam só para mostrar nas paradas.
É só para se ver também um bocadinho a.
25:51
Pessoa 1
Era 11 espécie de encenação do regime.
25:53
Pessoa 2
Era aqueles tipos que marcham em passo de ganso de uma forma absolutamente genial, mas que não serviam para combater esses esses que se fossem esses, gastem ao campo de Batalha, não combatiam nada.
Eram grandes demais.
Eram grandes demais.
E.
Quando voltei, saraívo, já como repórter do público, EE vejo uma senhora morta no caminho da do aeroporto, com uma bala na cabeça e vou ao ao hospital onde estava, aliás, antes de de ter fugido para as Montanhas para bombardear a cidade, o famoso médico doutor carajis.
26:27
Pessoa 1
Depois condenado em em sede do tribunal Internacional.
26:30
Pessoa 2
Nado EE vejo uma criança com com o joelho rebentado que eles.
Disparavam contra os joelhos das crianças.
26:40
Pessoa 1
De forma anárquica, de forma não era.
26:42
Pessoa 2
Porque chamando isso, conseguiam obrigar outra pessoa a ir lá tentar tirar a criança.
Podiam matar essa pessoa.
Era uma coisa horrível.
26:49
Pessoa 1
Havia AA célebre, havia uma avenida em Saraiva, onde a avenida dos snipers, onde é basicamente batiam pessoas.
Porque sim.
26:57
Pessoa 2
Sim, mas também à espera.
Não as matavam logo, porque?
Porque depois, quem fosse lá tentar tirar essa pessoa que estava ali, ou agonizante ou com um tiro na rótula.
Transformava se num segundo alvo, não é?
E estamos a falar, alguns deles, de de atiradores olímpicos, porque a primeira vez que eu lá estive tinha havido os Jogos Olímpicos.
27:16
Serei a vinda.
Tinha lá as as rampas do.
Sei que isto tinha isso tudo.
27:20
Pessoa 1
Chegaste a falar.
27:20
Pessoa 2
Com menos 17 e menos 25°.
27:22
Pessoa 1
Com alguma destas pessoas, não das vítimas das, mas das pessoas que disparavam.
27:28
Pessoa 2
Não, mas li.
Li li os relatos depois de de vários, e há e há também um documentário sobre 11 grande escritor russo, mas que esteve desse lado e esteve lá, a disparar contra as pessoas cá em cima e filmado.
27:46
É o é Oo edvar de limonov, que é um grande escritor, mas que e que foi foi adversário de Putin e tudo já morreu.
E que fundou um partido completamente maluco em são Petersburgo, que era ao mesmo tempo nazi, EEE, marxista, aquelas coisas que.
28:09
Pessoa 1
É uma percussão quase do do populismo, não é?
Quer dizer.
28:12
Pessoa 2
Era, mas ele era inteligente e depois era casado com uma grande poeta, enfim.
Mas esse homem disparou e o e o disparou contra contra a cidade na altura em que ele lá estava.
Portanto, foi assim.
Tive algumas experiências.
Estranhas, não é?
28:27
Mas AA mais importante ainda, hoje me serve de aprendizagem.
Foi AA diferença entre a civilização, digamos assim, EAAA perda e a guerra e a destruição, como vemos agora na Ucrânia, numa escala muito maior, Na Na Ucrânia e em Gaza, obviamente, isto é, podemos estar relativamente seguros.
28:49
E esta sensação de que de repente, de repente, em 1 mês menos tudo se pode escaqueirar.
Que é um bocado aquilo que está em causa.
É uma pergunta que eu faço sempre para tudo, para tudo o que escrevo, o que é que está em causa aqui.
E esta sensação de que estimo um sítio em paz e depois volto é uma desolação, mortos, frio, falta de eletricidade, os, os, os Campos de futebol transformados em cemitérios, nem cães, nem gatos, alguma coisa.
29:17
Isto quer dizer um bocadinho, aquelas imagens que na Segunda Guerra Mundial ou veem Lenin grato, por exemplo.
29:24
Pessoa 1
Há bocadinho estavas a forte desse poeta, que tu que tu dizes era um poeta inteligente.
Que forma esse esse partido, mas também é um poeta, sim.
AAA inteligência pode coincidir com a falta de ética.
29:39
O Impacto da Linguagem: Da Moral da Sorte à Manipulação
Eu acho que sim.
Estou te a ouro.
Bom, basta ver.
Basta ver os serões nazis de basta ver AO facto do do grande.
Agora nem me lembro do nome dele, mas até a zona de influência, o filme.
Da casa que agora até vai ser aberta.
29:56
Do o grande chefe de de Auschwitz.
Gostava de música, gostava de gostava de o preço.
Muitos deles gostava nem todos.
Não é isso?
Podcast também um bocado a mitologia, aquela obsessão que o Wagner, por exemplo, era muito.
30:11
Pessoa 1
Do Hitler da elite também, não é?
30:13
Pessoa 2
Da elite, mas, mas a eles conseguiam separar uma vida.
Quase doméstica, com a maior atrocidade que já aconteceu na humanidade.
Portanto, sim, é possível.
É possível também ser estúpido e ser um bom poeta.
30:31
Há uma, há uma personagem de outro escritor russo que é Oo, Mikhail bugakov, Margaret e O Mestre, muitos portugueses conhecem.
Felizmente, é um Belo livro e ela é uma personagem no que vai a um restaurante, consegue esse esse é um restaurante da massolite que é.
30:48
O restaurante da da da união dos escritores soviéticos, que eu por acaso tive, tive o gosto lá de jantar e bem e mas ele é é estúpido, só que tem uma sensibilidade qualquer que que nós não aprendemos EEOEOO livro descreve o como um tipo muito estúpido, mas 11 extraordinário poeta.
31:06
Pessoa 1
Olha quando tu estás, mas estás AAAAA falar.
Desse lado negro da da alma humana, que é disso que estamos a falar.
Quando tu fazes a pergunta, o que é que está em causa aqui?
Como é que tu depois consegues viver, julgar ou não julgar?
31:24
Quando tens que contar nos teus personagens, quando tens que contar nas tuas crónicas aquilo que é o lado mais brilhante, que imagino que seja mais fácil de contar e ao mesmo tempo ter que contar o lado mais negro daquela personagem ou daquela pessoa que tu estás a ver?
31:40
Pessoa 2
Aqui é preciso dizer que que grande parte da minha experiência jornalística é também pequenita aqui em Lisboa, no nos tribunais, o levante do réu é feito com pessoas banais ou ricas ou pobres, normalmente mais pobres, que vivem os dramas que já existiam com os gregos, com os romanos.
32:00
Isto é ciúme, traição, um amigo que enganou um amigo, uma mulher que trai o marido.
Falta de dinheiro e violência doméstica.
Eu assisto a isso e continuo a assistir todas as semanas namorados de vindos que destroem a sua vida com palavras a mais, com gestos a mais coisas de de um absurdo que só que só ouvido, não é.
32:23
Peço que não se acredite e às vezes as pessoas acham que eu invento as histórias que contam.
Ainda agora, numa sucessão de violência, há uma mulher que infelizmente começou.
AA namorar com com com um amigo de 25 anos e aquilo correu muito mal.
32:45
Agora que sai do que estamos aqui a falar até do dias de namorados, não é por esta altura.
E o que é que ela fez?
Foi à esquadra com o resto do do cuspo da saliva que ele tinha deixado no para brisas e queria que a polícia desenvolvesse uma investigação para provar que tinha cedo ele.
33:02
A cuspir lhe no para brisas.
33:04
Pessoa 1
Uma investigação do a DNTC1 crime dramático evidente num quadro, num contexto.
33:09
Pessoa 2
De loucura, em que há sacos de lixo trocados, há.
Há, há acusações, há, há empurrões, há, há conversas de todo o bairro.
Porque é que eles deixam essas histórias?
Porque são humanas.
E o princípio agora, voltando, o que ao que está em causa é que desde o princípio tive a noção de que são histórias que podiam acontecer.
33:32
Com alguém próximo, podiam acontecer me a mim, por exemplo.
Muitas histórias são tragédias que começam em coisas básicas, como deixarmos de dormir num carro.
Não é não pode acontecer, já me aconteceu.
E o que é que pode acontecer depois disto?
33:48
Há até há até 11 linha filosófica que foi, que foi inventada, foi há pouco tempo, que tem a ver com a.
Como é que é?
A moral da sorte?
34:04
A moral da sorte, a moral da sorte.
34:05
Pessoa 1
Como é que é isso?
34:06
Pessoa 2
Em inglês.
Agora, infelizmente, esqueci me do nome dele.
Acontece me, eu sou péssimo com os nomes?
Bom.
34:11
Pessoa 1
Depois eu vou à procura e ponho e ponho me na moral da sorte.
Moral da sorte.
34:15
Pessoa 2
O que é que é a moral ou sorte moral?
O que é que é isto?
É nós passarmos por uma situação.
Por exemplo, ele dá este exemplo, um homem vai num carro, bebeu uns copos, quase atropela alguém não atropela, vai para casa, a vida continua.
34:31
Mesmo a situação, mas a pessoa atravessa à frente EEE.
34:35
Pessoa 1
E acontece.
34:36
Pessoa 2
E acontece.
E a partir daí é é uma cascata, um cachorlete cachorlete por, por sinal, quer dizer cocktail em português, de de desgraças, e, portanto, ele não fez mais nem menos do que o outro que se safou e por isso, mas.
34:54
Pessoa 1
Teve azar?
34:54
Pessoa 2
Teve azar, e esse azar transforma se em em em moral.
34:58
Pessoa 1
E em intestino?
34:58
Pessoa 2
Fez tudo, foi em intestino.
Eu assistia me coisas, destas eu vi um homem que os polícias não lhe queriam dizer o que é que tinha acontecido no desastre.
Ele tinha, a filha dele tinha tinha morrido, mas ele ainda não sabia.
IA ser julgado a seguir, ainda não tinha noção do que tinha feito.
35:16
Isto também tem a ver com sorte, e a sorte é que junta se à moral.
E eu estou sempre a assistir a coisas destas, não é aquele momento em que acontece uma coisa, não acontece.
E isso estamos, como dizia OOO Gil, de lousa à altura daquilo que nos acontece.
35:32
Pessoa 1
Portanto, tu, tu estás no fundo a dizer me aqui que um dia as sucessivas pequenas negligências que nós fazemos todos os dias estamos no limiar de que alguma possa correr demasiado mal.
35:46
Pessoa 2
Sim, pode acontecer a mim, a ti, às minhas queridas irmãs.
35:51
Pessoa 1
A qualquer pessoa, a.
35:52
Pessoa 2
Qualquer pessoa, há coisas que nós fazemos.
Que de repente se podem transformar noutra coisa?
35:57
Pessoa 1
Eu estava a pensar, agora aqui, lá está no pequeno excesso de velocidade, Na Na estrada, no usar o telemóvel 50 vezes e não acontece nada.
EE há a 51ª acontece.
36:09
Pessoa 2
É isto é EE ele com isso, com essa com esse remorso do do que aconteceu com com quando se se pode ou não pensar, porque depois, quando uma, quando quando uma bala passa por cima da cabeça, aconteceu me, esse era erro precisamente.
36:25
Bom, meti a bola, a bala, o é.
É quase uma espécie de helicóptero que passa precisamente porque estava à noite.
Tive que fugir por um sítio e isto começaram a disparar sobre sobre nós e a ONU, na altura tinha nos fechado a porta porque tinha contingências políticas, tinha sido assassinado. 11 vice ministro não é?
36:47
Estamos a falar de dessas alturas, mas isto tudo se repete a toda a hora, não é?
36:52
Pessoa 1
E tu ouviste a bala?
36:52
Pessoa 2
Ouvi a bala, a bala passou por cima ao lado, uma bala que eu já tinha ouvido porque tinha visto um velhote nessa avenida dos sniper, precisamente a atravessá la e de repente ele parou e ouvimos a bala a passar perto dele.
Ele olhou para mim, eu olhei para ele, fiz lhe assim, venha cá, venha cá, estou a fazer gestos de venha, venha, ele safou se, portanto, estes momentos que estão sempre a acontecer, até porque numa guerra civil.
37:18
Eu, eu aqui parece até que tenho muita experiência.
Não tive, mas tive lá uns dias tremendos pronto, assim, daquelas injeções de realidade.
Não, não estive, não.
Não havia meios para para estar ali muito tempo.
Nem sequer tenho um sangue ou disposição para andar a arriscar a minha vida nisso.
37:38
Pessoa 1
Há um perfil de repórter?
37:39
Pessoa 2
Guerra são fantásticos, alguns outros grandes partes são malucos, pronto, malucos, malucos, pronto.
E que acabam por ficar viciados naquilo nunca.
37:47
Pessoa 1
Há uma adrenalina.
37:49
Pessoa 2
Ah, eu pareceu.
Pareceu me que sim.
Há uma espécie de uma espécie de exaltação?
Sim.
37:56
Pessoa 1
É quase um ato heroico de eu eu vou lá ver para contar EEE para e para para contar, eu.
Perco a noção da realidade e, portanto, vou arriscar, se calhar muito.
38:07
Pessoa 2
Sim, mas por outro lado, também há reportas que que muito estimo e aliás, já disse isto, algures.
Mas vou dizer outra vez, uma das coisas que me que me espantou e que me que que me deixou satisfeito nos últimos tempos, se é que se pode falar insatisfeito numa situação destas.
38:26
Mas foi.
A maneira como tantos repórteres portugueses entraram Na Na cobertura da da invasão da Ucrânia teve que ser, teve que ser.
Mas fizeram no de uma forma que eu não estava à espera que não tempo e posso citar já aqui, ninguém ficou ofendido comigo.
38:41
A Cândida pinto faz um ótimo trabalho de de arriscado.
38:45
Pessoa 1
Ela é uma repórter o.
38:46
Pessoa 2
António Mateus, o António Mateus, que eu conheci nas eleições da África do Sul em 94.
38:53
Pessoa 1
Com o Mandela?
38:54
Pessoa 2
Com o Mandela, eu.
Eu fui lá.
Ele foi me esperar o aeroporto passámos pelo centro dos Joanesburgo e logo ali vimos um morto no meio da rua.
Pronto, EOEOEO António Mateus tem uma experiência fantástica também.
39:07
Pessoa 1
EE aí é preciso lá está estar em grupo também para para nos protegermos uns aos outros para.
39:11
Pessoa 2
Pronto, não posso falar mais porque de agora até parece que estou a falar com o meu repórter.
Não, eu estou a falar de de há 30 anos, não.
39:18
Pessoa 1
É, sim, mas, mas isso, essa é a tua experiência.
Porque tu depois transformas a experiência transportaste nos a todos, a mim, a nós, que é quem nos está a ouvir.
Parece a rua de Sara Evo, onde o velho ouve a bala, a zunir na nas olhas a tua sensação do medo.
39:33
Por outro lado, o contraste com.
Quase o mundo do kusturica, das mulheres muito belas, de vermelho, de de, de lábios pintados, de de, de vermelho.
Há há esse, essa escrita e tu consegues pegar nessas ideias, nessas impressões, nessas perceções e levá la para uma página de de de um livro ou de uma crónica.
39:57
Pessoa 2
Esse, esse é.
Esse é o trabalho, é o é o mister, é o.
É o ofício do do escritor.
40:04
Pessoa 1
E esse é um é um trabalho.
40:05
Pessoa 2
É, é.
40:06
Pessoa 1
Dói te é difícil fazer.
40:08
Pessoa 2
É, mas também fazer uns sapatos bem feitos.
O sapateiro também saberá que que às vezes é difícil.
40:13
Pessoa 1
Ou partir a Pedra mais difícil de Pedra?
40:15
Pessoa 2
Ou outro exemplo que eu gosto?
Um escritor é o é como 11 mecânico de aviões tem que tem que tem que arranjar as que tem que o fazer bem feitas, porque se 11 mecânico de de motores de avião não for não for profissional, temos um grande problema.
40:32
Pessoa 1
Mais vale umas linhas mal escritas do que do que o mecânico dos aviões.
40:35
Pessoa 2
Não sei, às vezes as linhas mal escritas dão cabo do mundo.
40:39
Pessoa 1
Pesam as palavras.
40:40
Pessoa 2
Sim, as as palavras, tudo o que acontece no mundo passa por uma linguagem.
40:47
Pessoa 1
Explica me isso?
40:48
Pessoa 2
Tudo, tudo tem que ser transmitido por linguagem, até até os os, os, os sinais, eletrónicos.
Tem que ter, por assim dizer, uma linguagem por trás.
41:00
Pessoa 1
Portanto, tu tens uma ideia?
41:01
Pessoa 2
A matemática tem que ser expressada também com com palavras, não é?
Também tem que ser.
41:07
Pessoa 1
Mas isso tem o muito Belo que é tu podes usar a palavra para, para unir, para estimular, para para ser maior do que.
Ou, pelo contrário, tu podes usar a palavra para envenenar?
41:21
Pessoa 2
Então não.
Então, se for mentira.
E então quando a mentira ganha o mesmo valor da verdade, quando nos tentam convencer disso, estamos sempre à beira da da desgraça.
Grande parte da desgraça da humanidade foi baseada em em boatos e em e em informações falsas, não é?
41:43
Isso agora é mais fácil de fazer.
Por exemplo, esta história toda do deep fake, podem pôr me a mim ou a ti a fazer.
41:52
Pessoa 1
Com a nossa voz, com a nossa imagem, a dizer qualquer coisa.
41:55
Pessoa 2
E muito rapidamente chegaremos AA este a esta salada de já não sabemos distinguir se sim, se não, mas quando se mete a suspeita, quando se mete esse veneno?
Quando?
Quando se se muda a narrativa, pá.
42:12
Eu acho que o Donald Trump é especialista nisso.
Não é transformar um ataque antidemocrático numa festa de de Liberdade como foi no Capitólio, e depois ter o os poderes todos para para mudar tudo.
Não é para para anular sentenças criminais.
42:30
Pessoa 1
O que, o que é que nos faz a nós, supostamente pessoas avisadas?
Embarcar nessas coisas, acreditar em histórias mirabolantes.
Eu estou.
Estou a pensar aqui num exemplo que é muito mais prosaico do que do que a grande política, os os os, os, os futeboys da vida, os Benfica sportings e que é coisas tão simples e objetivas como foi pênalti ou não foi.
42:54
Subitamente nós temos 2 grupos de pessoas que, por sinal, vestem umas camisolas de cores diferentes, a advogarem sobre a opinarem sobre um facto que é claro e óbvio.
Da mesma maneira, apaixonada e acreditando que a sua visão do mundo é mais verdadeira que a do outro, ao invés de haver uma espécie de conciliação dos factos e das perceções.
43:18
Lutar pela Liberdade: O Papel das Histórias no Mundo Incerto
Eu ainda acredito que no futebol eu sou adepto do Benfica e a até assisti uma coisa muito bonita que estive naquele jogo em que o Simão sabrosa e o mikholi meteram 2 golos no em Liverpool e a festa que foi a seguir eu estava lá.
43:35
E até me lembro muito bem do momento salomónico, em que havia 2 benfiquistas a lutar pela camisola do Michael e no fim, e a minha, a minha, a minha e à minha frente.
Um diz assim, vamos, vamos cortá lo ao meio.
E o outro diz, nunca leva a comissão.
43:52
Digamos que é eu, eu costumo, eu costumo usar este exemplo como da.
Da dignidade benfiquista.
Mas eu, por outro lado, também saí do Benfica.
Quando?
Quando 11 canalha que está aí na política começou a falar em nome do Benfica.
44:05
Pessoa 1
E tu chateaste te e tiveste embora sim eSIM, mas continuas a ser benfiquista sim, sim.
44:09
Pessoa 2
Claro que sou, claro que sou, mas mas reconheço que que é difícil.
Mas isto?
Estamos ainda no mundo do futebol.
Depois, o problema é quando isto se transforma na política ou ou ou na sociedade.
Eh pá.
Quer dizer, no futebol, acho que temos que ter uma certa Liberdade para o para o fanatismo não é porque, enfim.
44:26
Pessoa 1
É uma é 11 espécie de Painel depressão.
Nós olhamos hoje para as redes sociais, para a maneira como tudo estamos a consumir informação, para para o descrédito das instituições, e isto parece muito imprevisível.
Podemos.
Não sei se a expressão, se essa palavra é é certa.
44:43
Pessoa 2
É tão imprevisível que eu já disse lá em casa à minha mulher, à Inês, e já disse a outras pessoas.
Que estou disposto a ter uma vida mais saudável nos próximos 20 anos.
Porque quero mesmo ver o que é que vai acontecer, porque neste momento não sabemos nada do que vai acontecer.
Estamos a assistir a uma revolução com AA inteligência artificial e com AA captação pela pelos fascistas para simplificar a questão.
45:07
Pessoa 1
É que nós estamos lá dentro da.
45:08
Pessoa 2
Realidade e nós estamos cá dentro, mas disposto a.
Enfim, eu lá, vou dizer assim, 11 coisa um bocado exagerada, mas sim, estou disposto.
AA dar a vida pela Liberdade, porque se a Liberdade também, isto é uma chatice.
45:23
Há pessoas que abdicam facilmente da Liberdade por dinheiro ou por pronto ou pela vidinha.
Mas, mas, enfim, acho que faz parte.
Se é, se é que os se é que os o escritor serve para alguma coisa, acho que faz pelo menos parte.
45:42
Da da ideia de que deve lutar por alguma coisa.
As crianças precisam de histórias.
Portanto, há um lado.
Precisam sempre de histórias narrativas.
Por isso é que estão sempre a pedir à noite.
45:54
Pessoa 1
Conta me uma história.
45:55
Pessoa 2
Conta me uma história, preciso de conto, lê me isto, lê me aquilo.
EE isto é essencial.
É isto que faz nós humanos.
E, portanto, tendo entrado nesse mundo em que conto histórias para simplificar, não acho que a literatura seja simplesmente contar histórias.
46:12
É muito a forma como se conta, a forma como se olha para o mundo, a forma como falamos do que nos acontece e do que vemos à nossa volta, mas também a forma como criamos, a partir daí, coisas novas que não existiam.
EE, uma delas é, na minha opinião, é é que.
46:31
Eu costumo definir o que é, que é uma coisa literária, literária sempre.
No bom sentido, é, é aquele, é um poema ou 11, romance ou uma crónica, porque não?
Nós começamos a ler e, quando acabamos, estamos transformados noutra coisa.
46:47
Às vezes não dura muito, não é?
Mas estamos transformados noutra coisa maior, uma coisa que nos.
46:52
Pessoa 1
Mudou, é uma epifania.
É um vislumbrante.
46:55
Pessoa 2
Eu não sei.
A epifania é assim, um é um bocadinho grande, religioso, grandioso, mas sim, é qualquer coisa que.
Todos nós passamos por isso.
Aquele aquele livro mudou me aquele aquele filme mudou, me fez me melhor, ou aquele filme foi de tal modo tremendo que alterou para pior as as a perceção que eu tinha disto e daquilo.
47:17
Portanto, é, são coisas que alteram EE.
47:20
Pessoa 1
E.
47:21
Pessoa 2
É assim que vale a pena?
Se não vale a pena, andarmos a gastar.
Matar árvores?
Não.
47:26
Pessoa 1
É olha para fecharmos o que é que importa, o que é que é, o que é, o que é que importa para os próximos tempos.
47:31
Pessoa 2
O que importa é saber se a Europa vai estar à altura de viver sozinha.
Já se percebeu que vai ter que ser assim e se está disposta e pronta?
Tenho as minhas dúvidas, infelizmente.
47:47
AA lutar pela pela democracia, pelos direitos humanos, pela não imposição da da lei do mais forte, pelo estado social, pela educação.
O mais gratuita que for possível para todos.
48:03
Pessoa 1
Essa é a definição de.
48:04
Pessoa 2
Foram lutas e lutas e lutas, e anes e séculos de aristocratas, no fundo, a explorar os outros, mas também do outro lado de de de lá está más epifanias que levaram AA ideias que se transformaram em violência, porque não Vale Tudo.
48:23
Eu estou a falar, por exemplo, do regime de estalino.
Não é que ainda há tipos que que na verdade.
Se projetam quando olham para o para 11 facínora como é o Putin daquilo?
E isso eu não consigo entender.
Não, não, não consigo.
E, portanto, quero estar aqui assim, tenho a saúde.
48:42
Pessoa 1
Para contar a história?
48:42
Pessoa 2
Para contar a história e para ver o que é que acontece.
E depois se se me der e mails se tiver, puder contar EE, transformar em qualquer coisa útil.
48:54
Pessoa 1
No mundo onde a informação circula, há uma velocidade alucinante e onde a verdade.
Se torna, muitas vezes, uma questão de opinião.
Rui Cardoso Martins mantém se fiel a uma ideia simples, e eu aprendi as palavras importam me.
Ele acredita que a escrita pode ser um escudo, uma arma e um testemunho.
49:11
E que se há algo pelo qual vale a pena lutar, é pela Liberdade de contar histórias até para a semana.
