Ainda podemos rir de tudo? Manuel Marques

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Ainda podemos rir de tudo? Manuel Marques
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Viva a Rádio!

Há um silêncio particular que só existe nos estúdios de rádio antes de a luz vermelha se acender. É um hiato breve, quase impercetível para quem ouve, mas denso para quem fala. Nesse intervalo, o mundo lá fora — com a sua pressa, o ruído das redes sociais e a vertigem das imagens que se atropelam — parece suspenso. No território da voz, a verdade não precisa de artifícios visuais; ela sustenta-se na intenção, na pausa e na confiança de que, do outro lado, alguém escolheu parar para ouvir.

É nesta geografia de intimidade que Manuel Marques se move há quase três décadas. Conhecemo-lo pelas mil caras que a televisão lhe emprestou, mas é na rádio que o seu trabalho de observador atinge uma pureza quase cirúrgica. Para quem o escuta diariamente em programas de sátira como o Portugalex, na Antena 1, o riso surge como um reflexo automático de reconhecimento. Mas por trás daquela galeria de vozes que parecem habitar a sua alma, existe um processo invisível de escuta ativa e um rigor que Manuel transporta desde os tempos em que, ainda adolescente, percorria os corredores da Rádio Azul, em Setúbal.

A comunicação, para Manuel Marques, não é um exercício de exibição, mas de mimese. Quando ele encarna uma figura pública, não está apenas a decalcar um sotaque ou um tique verbal; está a tentar compreender a psicologia de um país. É um trabalho de “esponja”, como ele próprio descreve, que exige observar o detalhe num restaurante ou o ritmo de uma conversa casual na rua para depois devolver essa realidade, distorcida pela lente da sátira, ao espaço público.

Vivemos num tempo de polarização extrema, onde as nuances parecem ter sido banidas do debate. O espectro de cores reduziu-se ao preto e ao branco, e a ironia, essa ferramenta tão nobre da inteligência humana, vive hoje sob o cerco do cancelamento e da literalidade. É aqui que a função do humorista se torna cívica. Ao dar corpo às contradições do poder, Manuel Marques não está apenas a entreter; está a abrir um espaço de sanidade onde o riso permite uma distância crítica que o discurso sério, tantas vezes dogmático, já não consegue proporcionar.

Neste momento, Manuel vive num cruzamento de linguagens que ilustra bem a exigência do seu ofício. Enquanto grava as crónicas diárias de rádio em cima da atualidade — por vezes sem saber ainda o desfecho de umas eleições ou o resultado de uma crise — dedica as suas manhãs ao ensaio de um espetáculo teatral de grande fôlego. Senhor Engenheiro, a peça que estreia a 1 de abril, é uma farsa musical que mergulha nos factos e nas interpretações sobre uma das figuras mais complexas da política portuguesa recente. É o teatro a servir de continuação ao espanto da rádio: uma forma de transformar a espuma dos dias em matéria cénica permanente.

Há no seu discurso uma melancolia atenta, uma preocupação de quem vê o mundo a regredir e a memória histórica a falhar. Para Manuel, o humor é um escape, sim, mas também pode ser uma arma contra o esquecimento. Quando recorda a obsessão com que estudou a voz de António Silva para o seu primeiro direto, ou a forma como o “mestre” Herman José lhe ensinou que o brilho de um elenco depende da generosidade da escrita, percebemos que a sua longevidade não é fruto do acaso, mas de um perfeccionismo que raramente se chateia com os outros, mas que é implacável consigo mesmo.

Este é um convite para entrar no ateliê interno de um comunicador que prefere a clareza à pose. Manuel Marques fala-nos da importância de saber o que se quer dizer antes de abrir o microfone, da vulnerabilidade que se sente no palco e do magnetismo que nasce quando um artista se permite falhar.

No fim desta conversa, talvez fiquemos com a sensação de que ouvir é, de facto, um ato ativo. Num tempo em que todos querem ser vistos, Manuel Marques lembra-nos da nobreza de quem sabe escutar. Afinal, a rádio continua a ser o lugar onde a voz manda e onde a imaginação ainda tem permissão para trabalhar sozinha. Fica a pergunta, suspensa como o silêncio que antecede a luz vermelha: no meio de tanto ruído, seremos ainda capazes de reconhecer a verdade num tom de voz?

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