Viva a Rádio!
Há um silêncio particular que só existe nos estúdios de rádio antes de a luz vermelha se acender. É um hiato breve, quase impercetível para quem ouve, mas denso para quem fala. Nesse intervalo, o mundo lá fora — com a sua pressa, o ruído das redes sociais e a vertigem das imagens que se atropelam — parece suspenso. No território da voz, a verdade não precisa de artifícios visuais; ela sustenta-se na intenção, na pausa e na confiança de que, do outro lado, alguém escolheu parar para ouvir.
É nesta geografia de intimidade que Manuel Marques se move há quase três décadas. Conhecemo-lo pelas mil caras que a televisão lhe emprestou, mas é na rádio que o seu trabalho de observador atinge uma pureza quase cirúrgica. Para quem o escuta diariamente em programas de sátira como o Portugalex, na Antena 1, o riso surge como um reflexo automático de reconhecimento. Mas por trás daquela galeria de vozes que parecem habitar a sua alma, existe um processo invisível de escuta ativa e um rigor que Manuel transporta desde os tempos em que, ainda adolescente, percorria os corredores da Rádio Azul, em Setúbal.
A comunicação, para Manuel Marques, não é um exercício de exibição, mas de mimese. Quando ele encarna uma figura pública, não está apenas a decalcar um sotaque ou um tique verbal; está a tentar compreender a psicologia de um país. É um trabalho de “esponja”, como ele próprio descreve, que exige observar o detalhe num restaurante ou o ritmo de uma conversa casual na rua para depois devolver essa realidade, distorcida pela lente da sátira, ao espaço público.
Vivemos num tempo de polarização extrema, onde as nuances parecem ter sido banidas do debate. O espectro de cores reduziu-se ao preto e ao branco, e a ironia, essa ferramenta tão nobre da inteligência humana, vive hoje sob o cerco do cancelamento e da literalidade. É aqui que a função do humorista se torna cívica. Ao dar corpo às contradições do poder, Manuel Marques não está apenas a entreter; está a abrir um espaço de sanidade onde o riso permite uma distância crítica que o discurso sério, tantas vezes dogmático, já não consegue proporcionar.
Neste momento, Manuel vive num cruzamento de linguagens que ilustra bem a exigência do seu ofício. Enquanto grava as crónicas diárias de rádio em cima da atualidade — por vezes sem saber ainda o desfecho de umas eleições ou o resultado de uma crise — dedica as suas manhãs ao ensaio de um espetáculo teatral de grande fôlego. Senhor Engenheiro, a peça que estreia a 1 de abril, é uma farsa musical que mergulha nos factos e nas interpretações sobre uma das figuras mais complexas da política portuguesa recente. É o teatro a servir de continuação ao espanto da rádio: uma forma de transformar a espuma dos dias em matéria cénica permanente.
Há no seu discurso uma melancolia atenta, uma preocupação de quem vê o mundo a regredir e a memória histórica a falhar. Para Manuel, o humor é um escape, sim, mas também pode ser uma arma contra o esquecimento. Quando recorda a obsessão com que estudou a voz de António Silva para o seu primeiro direto, ou a forma como o “mestre” Herman José lhe ensinou que o brilho de um elenco depende da generosidade da escrita, percebemos que a sua longevidade não é fruto do acaso, mas de um perfeccionismo que raramente se chateia com os outros, mas que é implacável consigo mesmo.
Este é um convite para entrar no ateliê interno de um comunicador que prefere a clareza à pose. Manuel Marques fala-nos da importância de saber o que se quer dizer antes de abrir o microfone, da vulnerabilidade que se sente no palco e do magnetismo que nasce quando um artista se permite falhar.
No fim desta conversa, talvez fiquemos com a sensação de que ouvir é, de facto, um ato ativo. Num tempo em que todos querem ser vistos, Manuel Marques lembra-nos da nobreza de quem sabe escutar. Afinal, a rádio continua a ser o lugar onde a voz manda e onde a imaginação ainda tem permissão para trabalhar sozinha. Fica a pergunta, suspensa como o silêncio que antecede a luz vermelha: no meio de tanto ruído, seremos ainda capazes de reconhecer a verdade num tom de voz?
Manuel Marques: O humor é, é um escape. Eu falo em escape porque neste momento é um escape da realidade que estamos a viver, que é muito dura. Não, não é só um escape, às vezes também pode ser uma arma, mas neste momento eu vejo o humor como um escape de tudo o que estamos a viver. Sinto que há, há uma energia muito negativa, mas também é o contexto, o contexto que estamos a viver. O facto de haver essa energia também hoje em dia não podemos brincar com isto ou com aquilo, está tudo, o mundo está todo muito polarizado. Há uma coisa quase ditatorial, não há, não há, não há um espectro de cores, há preto ou branco, há duas formas de pensar.
Jorge Correia: Diz-se que a rádio é o único palco onde a luz nunca encandeia o espectador, porque a imagem é desenhada traço a traço na imaginação de quem escuta. É um teatro da mente, onde a voz não tem de se esconder, é a última fronteira da intimidade humana, essa arte de nos falar ao ouvido.
Jorge Correia: Nesta semana em que celebramos o Dia Mundial da Rádio, importa recordar que num mundo saturado dos ecrãs, o éter e a telefonia continuam a ser um sítio onde a verdade não precisa de artifícios para se fazer ouvir. E em Portugal, a rádio, a rádio pública Antena 1, tem um diário satírico de humor que resiste à erosão do tempo há quase 20 anos. Em maio deste ano completam-se precisamente duas décadas que o Portugalex nos entra pela casa ou pelo carro adentro todos os dias.
Jorge Correia: É um exercício de equilibrismo democrático gravar a atualidade em cima do acontecimento, muitas vezes sem saber o desfecho de uma eleição ou de uma crise, confiando apenas no instinto e na elasticidade do talento de quem faz o programa. O meu convidado de hoje é um dos arquitetos desse universo invisível: Manuel Marques, voz principal da telefonia e mil vozes no Portugalex na Antena 1. Ele é um colecionador de almas, um ator que habita a televisão com o mestre Herman José, onde provou que a comédia de luxo é, afinal, uma orquestra profissional afinada, exigente e rigorosa.
Jorge Correia: Mas a sua curiosidade não se esgota no pequeno ecrã. Ele é o homem que observa um gesto quotidiano num restaurante, por exemplo, e o guarda no seu disco rígido mental que, por necessidade profissional, tem de ser limpo de tempos a tempos e formatado todas as semanas para dar lugar ao próximo boneco. Agora prepara-se para o espelho mais frontal da sua carreira. Vai subir novamente a palco para dar corpo, voz e música ao protagonista da peça Senhor Engenheiro, Alegadamente um Musical. Uma peça que disseca, através do riso, uma das figuras mais complexas, polémicas e polarizadoras da nossa história política recente: alegadamente, José Sócrates.
Jorge Correia: Nesta conversa, vamos tentar perceber como é que se constrói uma caricatura que não fere, mas que revela. Vamos falar sobre a exigência de quem se martiriza pela perfeição de um sotaque e sobre a coragem de manter a ironia viva num tempo que parece ter perdido o sentido de nuance e de ironia.
Jorge Correia: Viva! Olá! Manuel Marques, ator, humorista, mil e uma vozes que tu carregas na tua… ai meu Deus! Há 20 anos a fazer o Portugalex?
Manuel Marques: Ah, vai fazer 20 anos o Portugalex agora em 2026, em maio, em 8 de maio. Faz 8 de maio, eu sei que é 8 de maio porque é um dia antes dos meus anos, que eu faço a 9.
Jorge Correia: Como é que aquilo se grava todos… aquilo grava-se todas as semanas?
Manuel Marques: Aquilo grava-se todas as semanas e, para não perder atualidade, nós gravamos, tipo, lá ver… os programas de terça e quarta-feira gravamos no domingo à noite. Na terça à noite gravamos os de… não, gravamos os de terça e quarta-feira, depois na terça gravamos os de quinta e sexta-feira, e sexta-feira gravamos os de segunda-feira. Ou seja, às vezes vimos a estúdio gravar o Portugalex, outras vezes fazemos em casa porque hoje as tecnologias já evoluíram e cada um faz em sua casa e aqui o nosso sonoplasta reúne as duas vozes e faz magia.
Jorge Correia: Portanto isso é mesmo gravado em cima da atualidade?
Manuel Marques: É mesmo gravado em cima da atualidade. Às vezes temos de dizer, quando são as eleições, como o de segunda-feira é gravado à sexta-feira, às vezes temos de dizer: “ao momento em que estamos a gravar não sabemos quem é que ganhou as eleições de domingo”. Mas são raras, é só nesta altura, são exceções.
Jorge Correia: Podes fazer uma previsão astrológica, dizes: “eu prevejo…”
Manuel Marques: Sim, fazemos, fazemos. Fazemos um fórum, “quem é que achas que vai ganhar?”
Jorge Correia: E aquele maravilhoso som do telemóvel, o “tiri-ri-ri”?
Manuel Marques: Exatamente, esse é o Machado que costuma fazer.
Jorge Correia: Mas vocês fazem aquilo com as vozes?
Manuel Marques: Fazemos tudo, praticamente os sons todos. Há alguns que é a sonoplastia, outros fazemos nós, sim.
Jorge Correia: Olha, como é que é? Tu recebes o texto?
Manuel Marques: Recebo o texto, sim.
Jorge Correia: E depois fazes alguma coisa com ele? Interpretas o texto ou também dás as tuas achegas? Como é que isso funciona?
Manuel Marques: A Patrícia escreve tão bem… a Patrícia Castanheira escreve tão bem que às vezes não, não há espaço para fazer… o texto já está tão bom e ela já nos conhece há muitos anos, sabe muito bem o que é que, se nós puséssemos alguma coisa de novo ela sabe muito bem. Portanto o texto já vem muito adaptado a cada um de nós, tanto a mim como ao António.
Jorge Correia: Portanto ela escreve para vocês, para a vossa voz, pelo vosso modo, pelas vossas pausas?
Manuel Marques: Sim, sim, sim. Ela já sabe mais ou menos as personagens, as imitações que vamos fazer. Nós gravamos o programa totalmente. Eu só salto às vezes as falas do António e o António salta as minhas, mas às vezes fazemos os dois e depois a Patrícia acaba por escolher quem é que faz quem na edição.
Jorge Correia: Olha, e quais são as personagens que te dão gozo fazer? Aqueles que te divertem mesmo, quando tu lês: “agora este personagem… ih, este é que me vai sair bem”? Ou tu não tens isso?
Manuel Marques: Tenho, tenho. Eu gosto muito de fazer, por exemplo, agora o Seguro, porque nós já fazíamos o Seguro na altura em que era presidente do partido. Depois saiu, depois teve a fase Costa, mas na altura fazíamos o Seguro e temos aquela frase famosa do Seguro: “Qual é o preço?”
Jorge Correia: “Qual é o preço?”
Manuel Marques: E depois tu… e agora felizmente acho que vamos ter mais Seguro no Portugalex.
Jorge Correia: Portanto compraste um bilhete já para os próximos anos, não é?
Jorge Correia: Olha, como é que se agarra as vozes destas personas públicas?
Manuel Marques: É preciso ouvir muitas vezes. Em televisão temos de apanhar os gestos, temos de apanhar… para rádio é só a voz, não é? Mas temos de ouvir muitas vezes, dá muito trabalho, não é? Há vozes que aparecem logo. Por exemplo, eu lembro-me há muitos anos quando comecei a imitar o Santana Lopes, tinha saído do banho com o cabelo todo penteado, lambido para trás, e vi-me ao espelho e comecei a fazer o Santana Lopes. Foi uma coisa imediata. Há outras que dão muito trabalho. Por exemplo, eu quando comecei a fazer o Herman ainda na SIC, o meu primeiro trabalho com o Herman, nós fazíamos o HermanSIC que era o programa de domingo, mas nesse domingo em que eu ia entrar pela primeira vez não era o HermanSIC, eram os Globos de Ouro. E então ele pôs-nos a fazer sketches nos Globos de Ouro, pequenos quadros com figuras dos filmes antigos portugueses.
Jorge Correia: Em direto?
Manuel Marques: Em direto, foi o meu primeiro direto na vida. Foi uma montanha-russa.
Jorge Correia: Como é que se sobrevive a isso?
Manuel Marques: É uns nervos que não dá para explicar, é uma adrenalina, eu acho que nunca me senti tão nervoso na vida. Mas a mim foi-me pedido para fazer o António Silva, o mítico ator. Eu sou fã do António Silva. Há pessoas que gostam mais do Vasco Santana, eu gosto mais do António Silva, gosto mais dos tempos de comédia do António Silva. Embora ache que fosse uma pessoa mais reservada que o Vasco Santana, mas adoro o timing do António Silva. E eu queria fazer o António Silva perfeito para aquele quadro que iria aparecer nos Globos de Ouro já mais para o fim, que era a cena do rádio do Costa do Castelo: “Não é você que onde bate na lapa de recua”. Mas eu vi, eu na altura não vi YouTube, eu tive de comprar o DVD ou mesmo cassete tenho impressão, do filme, para ver aquilo várias vezes. Eu não estava descansado enquanto não me saísse uma imitação perfeita do António Silva, e muitos atores já tinham feito.
Jorge Correia: Martirizas-te muito nesse…?
Manuel Marques: Às vezes sou um bocadinho exigente, até que saia, sim.
Jorge Correia: Olha, há bonecos públicos, personas públicas, pessoas que são públicas da política, do futebol, enfim, que têm características da linguagem, de idiossincrasia, que eu imagino que são mais fáceis de decalcar?
Manuel Marques: Sim, às vezes basta pegar numa frase e surge o resto.
Jorge Correia: E exageras depois as frases? Como é que isso funciona?
Manuel Marques: Eu não gosto de fazer a imitação por imitação. Eu gosto, como tenho de tornar essa personagem risível, a imitação só por si não é uma… tem graça, mas eu gosto depois de dar o toque de caricatura em cima da imitação. Ou seja, exagerar um bocadinho sempre, porque aí esse exagero é que tem graça quando se faz esse tipo de personagens.
Jorge Correia: O que é que te faz rir?
Manuel Marques: Faz-me rir coisas muito parvas. Eu rio-me com personalidades, com humoristas como o Herman, o Herman faz-me rir muito, o Ricardo faz-me rir muito. Mas rio-me com coisas às vezes muito parvas como pessoas a cair, rio-me com animais, aqueles vídeos que nos vão aparecendo, rio-me muito com isso. Até aquelas coisas às vezes inteligência artificial, que eu sou totalmente contra a inteligência artificial e aqueles vídeos que se fazem, mas há coisas com muita graça. Os brasileiros, por exemplo, têm vídeos, eles têm uma imaginação às vezes têm vídeos hilariantes.
Jorge Correia: O que nos faz rir é aquilo que é parvo, que nos surpreende?
Manuel Marques: Sim, e rio-me muito com o dia a dia, rio-me com muita coisa do dia a dia.
Jorge Correia: Vais olhando para a realidade e vais dizendo…
Manuel Marques: Sim, vou olhando para a realidade até porque eu sou um bocadinho esponja, estou sempre a observar tudo e todos.
Jorge Correia: Estás o tempo ligado?
Manuel Marques: Às vezes. O meu processo é… eu estou num restaurante, por exemplo, e se calhar alguém já deve ter ficado incomodado de eu estar a olhar para essa pessoa, mas essa pessoa tem uma característica especial, eu fico parado a olhar e a pessoa deve sentir-se mal por eu estar a olhar porque aquilo chamou-me a atenção. Alguma coisa me está a chamar a atenção naquela pessoa.
Jorge Correia: E tu ficas lá e agarra-te um magnetismo?
Manuel Marques: Sim, sim, sim. E que pode ser uma coisa boa ou uma coisa má, depende, mas estou sempre a observar. E depois vou captando, às vezes não serve para nada, outras vezes serve, por exemplo aqui para o Portugalex, há coisas que nós fazemos, o Fórum de Opinião Pública, e às vezes os ouvintes são pessoas, são vozes que oiço na rua, por exemplo.
Jorge Correia: E que depois tu visualizas na tua cabeça, “agora vou falar aqui como o senhor António que acabei de ver ontem”?
Manuel Marques: Sim, às vezes, às vezes até familiares me saem.
Jorge Correia: Oh diabo, é capaz de ser um risco, não?
Manuel Marques: Não, não era. Eu felizmente tenho uma família, tinha uns avós que já não estão cá, infelizmente, mas que eram do Algarve e eu tenho várias… quando o Herman pede para fazer algarvio eu vou sempre buscar os meus avós, quer a minha avó quer o meu avô que tinham um sotaque algarvio e foi aí que eu aprendi o sotaque.
Jorge Correia: Olha, o Manuel Marques pequenino era o palhaço da turma?
Manuel Marques: Era, era. Lá está, os meus avós, esse meu avô algarvio, o avô materno e a avó materna, foram os avós com quem eu convivi mais porque eles viviam mesmo em Setúbal.
Jorge Correia: Portanto és charroco?
Manuel Marques: Sou, sou. E o sotaque de Setúbal também está no sangue, tenho Setúbal no sangue também. Mas o meu avô era o meu maior fã, o meu avô Francisco era: “ah, grande sacana, tu apanhas tudo”. Mas eu fazia imensas partidas ao meu avô, em miúdo era um miúdo travesso.
Jorge Correia: Estamos portanto a beneficiar todos da paciência do teu avô e do estímulo para que…?
Manuel Marques: Sim, uma vez o meu avô trabalhava em seguros e eu gostava de ir desenhar para a secretária do meu avô lá em casa, dos meus avós, e houve uma vez que o meu avô tinha uma gavetinha com as canetas, as borrachas, os clips, e tinha tantos clips que eu fiz uma… entrelacei, uni os clips, fiz uma cadeia de clips que iam de uma ponta da casa até ao quintal lá do outro lado. E o meu avô estava sempre a usar clips e obrigou-me a tirar aquilo tudo depois, porque ele quando foi a tirar os clips estavam todos…
Jorge Correia: Olha, e essa ferramenta de fazer graça, em qualquer sítio, em qualquer ambiente social, antes do teu uso agora profissional, tem essa característica formidável que é ligar-nos aos outros, não é? Por um lado aos nossos colegas, mas por outro lado tem a capacidade de atravessar a fronteira da autoridade, mesmo o professor mais ríspido se a piada for no tempo certo?
Manuel Marques: Sim, eu nunca me metia muito com os professores, por via das dúvidas mais vale estar sossegado. Mas fazia caricaturas, eu também desenho e fazia caricaturas dos professores e depois aquilo andava pela turma toda.
Jorge Correia: Toda a gente para poder gozar. Olha, para que é que nos serve o humor hoje em dia?
Manuel Marques: O humor é um escape da realidade que estamos a viver que é muito dura. Não é só um escape, às vezes também pode ser uma arma, mas neste momento eu vejo o humor como um escape de tudo o que estamos a viver.
Jorge Correia: Achas que tu sentes uma pressão no ar? No outro dia estava a pensar que nós vamos no carro, no trânsito ou numa loja, e as pessoas têm uma energia negativa?
Manuel Marques: Sim, sinto que há uma energia muito negativa, mas também é o contexto que estamos a viver. E depois também é esta situação de que o mundo está todo muito polarizado, há uma coisa quase ditatorial, não há um espectro de cores, há preto ou branco, há duas formas de pensar.
Jorge Correia: Não se pode brincar com tudo?
Manuel Marques: Infelizmente não se pode brincar com tudo. Há situações que eu percebo que não se pode brincar, por exemplo esta situação do blackface. Hoje em dia eu também já não me vou caracterizar de…
Jorge Correia: Mas isso é porque sentes que isso pode ofender alguém?
Manuel Marques: Sim, e porque de facto também tem de haver espaço para atores negros, por exemplo, tem de haver espaço para eles.
Jorge Correia: Mas tu não achas que isso te pode limitar de alguma maneira?
Manuel Marques: Não, não me importo nada de não o fazer. Tivemos um tempo em que por exemplo tínhamos um programa que era o DDT que nós nos caracterizávamos porque eu fiz uma imitação do Anselmo Ralph. E pronto, e depois acusaram que foi blackface. Eu não encaro como blackface porque blackface era outra coisa.
Jorge Correia: E houve uma discussão sobre isso?
Manuel Marques: Sim, várias situações destas, não só comigo mas com outros colegas, mas eu não vejo como blackface, na altura não vi como blackface, vi como uma caracterização. Mas hoje em dia acho que sim, que cedo bem a que não se faça.
Jorge Correia: Mas não temes que tu enquanto artista, enquanto ator, que o facto de tu te poderes limitar em determinados temas ou determinados assuntos, pode retirar essa capacidade de transformar o mundo nas várias cores que o mundo tem de ter?
Manuel Marques: Pois é isso, pode retirar. Essa por exemplo eu cedi e tem razão de ser. Há outras que eu não entendo, que não se pode brincar com isto ou com aquilo ou com este grupo ou com aquelas pessoas. Há umas que eu cedo porque acho que tenho de ser razoável, mas há outras que não.
Jorge Correia: Mas a função da arte não é romper de alguma maneira alguns…?
Manuel Marques: É, e a função do humor é essa mesma. Eu por exemplo há um programa que foi cancelado da Netflix, uma série de humor que era o Little Britain, em que eles tinham sketches em que tinham uma pessoa de cadeira de rodas que depois se percebia que não era uma pessoa de cadeira de rodas, que estava sempre a fingir que era, ou tinha uma senhora que vomitava porque estava a comer uma bolacha e dizia: “ai, que bom que esta bolacha é, quem é que fez?”. E depois a amiga diz: “foi aquela menina indiana” e ela vomitava. Mas isso era uma arma, isso era o humor a funcionar como uma arma até contra o racismo, porque não se estava a gozar com aquela pessoa, estava-se a gozar e a criticar quem o é. Portanto eu não percebi porque é que esse programa foi cancelado. As coisas estão muito polarizadas e há um exagero tão grande que depois acho que o humor acabou por sofrer com isso também.
Jorge Correia: Ocorre-me uma pergunta que é: quem diabo matou a ironia? Parece que às vezes alguém está a ironizar e…?
Manuel Marques: Pois, é. Isto é muito também culpa das redes sociais e da política de cancelamento, as pessoas estão lá atrás a julgar de uma forma direta. Se fazemos alguma coisa, temos alguma coisa está lá na caixa de comentários a cascar.
Jorge Correia: E se a gente olhar para trás, fenómenos como os Monty Python ou coisas que o Herman fez nos anos 80 ou os Gato Fedorento se calhar não tinham aparecido?
Manuel Marques: Exatamente. Diz-se muito, há coisas que eu vejo no Instagram de sketches antigos nossos e que as pessoas dizem: “hum, isto hoje em dia já não faziam, hoje cancelávamos o programa”.
Jorge Correia: E o que é que te faz rir ainda das coisas que tu vês lá para trás?
Manuel Marques: Tanta coisa. Eu rio-me às vezes das coisas que eu não me lembro que fiz. “Ai eu fiz isto, meu Deus!”
Jorge Correia: E vais lá ver?
Manuel Marques: Vou ver.
Jorge Correia: E depois não te julgas?
Manuel Marques: Julgo muito. Mas eu no início não queria ver e tive de me obrigar a ver os meus trabalhos para corrigir, porque eu tenho de corrigir, tenho de ser exigente com o meu trabalho. E hoje em dia mesmo que não goste eu tenho de me colar a ver.
Jorge Correia: Tu és uma estrela pública… tu acabas de chegar dos ensaios e para quem não quer criar alguma coisa que vai ter um impacto público polémico?
Manuel Marques: Pois é, vai ter. Tu és o personagem principal de uma peça maravilhosa que eu só digo duas… Maravilhosa, ainda não… Eu acho que vai ser maravilhosa. O encenador é o Rui Melo, a peça chama-se Senhor Engenheiro, Alegadamente um Musical, escrita pelo Henrique, que é o homem do Pôr do Sol também, e estreia a 1 de abril, dia da mentira, que grande coincidência.
Jorge Correia: Em que fase estás?
Manuel Marques: Estamos na fase de passar textos. É estarmos à mesa a dizer o texto, a ler as linhas todos os atores e a dissecar todo aquele texto e também ao mesmo tempo nas canções. Eu vou cantar. O grande desafio para mim é dançar. Cantar eu ajeito-me, vá. Agora dançar é pior. Mas atenção, já dancei, já fiz outros musicais e tive de dançar, mas é a parte que demora mais tempo a entrar são os passos de dança. A imitação do Sócrates já cá está porque fiz aqui nos programas da RTP, no DDT e também no Herman, e agora é incorporar a canção e a dança na personagem do senhor engenheiro. Aquilo canta-se ao vivo tudo e com orquestra ao vivo. Vai ser um grande projeto. Somos para aí uns 10, 11 atores.
Jorge Correia: E se tu te constipas, como é que se resolve esse problema?
Manuel Marques: Pois não sei. Provavelmente se um ator não tiver voz, ou se eu não tiver voz, tem de ser cancelado. É uma grande responsabilidade, mas somos humanos e pode acontecer.
Jorge Correia: A banda ainda não está lá, certo?
Manuel Marques: Só piano, fazemos tudo ao piano com o Artur Guimarães.
Jorge Correia: E como é que um encenador, o Rui Melo, o que é que ele te pede?
Manuel Marques: Nesta fase ainda o Rui Melo vai corrigindo, vai acertando o texto connosco, mas ainda não chegamos à parte da marcação, de agora vais para ali, agora vais para aqui, estamos só a dissecar o texto e as indicações do Rui Melo são nesse sentido.
Jorge Correia: Fala-me do Senhor Engenheiro.
Manuel Marques: O Senhor Engenheiro é uma sátira, uma farsa sobre o senhor engenheiro. Tudo o que aconteceu é baseado nos factos que aconteceram e é uma peça sobre Portugal também, sobre a visão dos portugueses sobre o senhor engenheiro. Tu pegas numa personagem que é uma personagem real, mas depois tem uma interpretação satírica, tem um texto como é evidente, há artifícios para tornar aquilo mais engraçado, mais excessivo, mais radical. O engraçado disto é que o processo ainda está a decorrer, portanto é Portugal. O encenador e o argumentista disseram: “pode haver um… podemos fazer o Senhor Engenheiro Parte 2 – O Recurso”.
Jorge Correia: Olha, como é que é? Enquanto que aqui na telefonia, na rádio, tu estás a fazer uma personagem, tu estás a fazer o melhor que sabes, mas na realidade tu não… ninguém ri, ninguém chora, ninguém reclama. Quando estás a fazer teatro, eles estão ali, eles somos nós?
Manuel Marques: Sim, sim, sim. Eu absorvo muito o que o público nos dá. Se o público for bom… a peça é feita sempre da mesma maneira ou tento fazer sempre da mesma forma. Se tiver menos público, às vezes o facto de termos menos público, numa peça cómica, não temos tantos risos e podemos ter aquele choque: “ah, hoje não estamos a ouvir tantos risos” porque nós funcionamos muito com o que o público nos dá. Mas quando isso acontece tento divertir-me e abstrair-me um bocadinho do público e tento divertir-me com os meus colegas para ficar igual. Aquele público pagou bilhete, merece a mesma qualidade de sempre.
Jorge Correia: E tu estás a olhar nos olhos do espectador?
Manuel Marques: Não, não, não. Só se tiver isso marcado. Já tive espetáculos em que percorri o público a falar com as pessoas. Mas nesta que eu estou a fazer, que vamos agora entrar em digressão, que é o Sexyedade, eu não olho, são quatro amigos que estão a conversar, o público não está ali, o público está a ver uma conversa entre amigos.
Jorge Correia: E agora vou dar-te dois públicos extremos. O primeiro é o público sorumbático e profundamente deprimido?
Manuel Marques: Às vezes há público… eu tive um caso de uma pessoa que eu percebi que foi ver a minha peça mas não se estava a rir. E eu fiquei tipo: “não se riu uma única vez”. Mas essa pessoa eu soube que foi ver a peça mas no dia anterior tinha descoberto que tinha uma doença grave. Portanto não estava lá na realidade. Divertiu-se, sim, mas não teve vontade de rir. E há pessoas que não… que riem para dentro.
Jorge Correia: E o contrário, aquele super espectador?
Manuel Marques: Ah, aquele super espectador que se ri, há o espectador histriónico que numa sala de 700 pessoas ouvimos o riso só de uma pessoa. E às vezes têm risos muito peculiares. E às vezes é complicado para nós, ficamos: “ai meu Deus, este riso hoje vai ser tão complicado”. Em comédia fazemos essa gestão porque as pessoas não podem perder nada do texto, se tu falas sobre o riso as pessoas vão perder uma parte do texto.
Jorge Correia: Há bocadinho estavas a falar do António Silva…
Manuel Marques: Por isso é que no teatro é muito importante nós numa peça de comédia fazermos ensaios com público para perceber o timing. Para não ser a seco. A peça anterior a esta do Sexyedade, que foi o Swing, na estreia ou no ensaio solidário nós não tivemos noção que as pessoas iam rir tanto tempo entre falas. Então era ali entre uma fala e outra nós tínhamos de esperar até…
Jorge Correia: E o fantasma de que uma linha te saltou, de que tu não te lembras, que houve um bloqueio?
Manuel Marques: Isso já me aconteceu. No casino eu entrava pela escadaria, era uma peça que eu tinha que era o Crédito, fiz com o Miguel Thiré. O Miguel entrava de uma escadaria, eu entrava na outra por entre o público. Só que as escadas do casino há uma mais larga, há outra mais estreita. Eu vinha a descer a olhar para ele e falhei um degrau e vim à raboleta por ali abaixo até ao palco. Dava a primeira fala em palco: “Não, o que não lhe vou dar o crédito, não sei quê” e não me saiu nada, eu não conseguia parar de rir do espalhanço que dei. E o encenador disse: “Muito bem, é para ficar na peça a partir de agora”.
Jorge Correia: Olha, o timing, como é que se controla o timing? Tu tens um relógio interno?
Manuel Marques: Isso foi uma coisa que eu aprendi naturalmente, mas eu tenho perfeita noção que aprendi com os grandes mestres. Aprendi com o Herman, aprendi com a Roeff, com o Monchique. A comédia vive do timing, vive das pausas, vive disso, e isso foi uma coisa que eu fui aprendendo ao longo do tempo.
Jorge Correia: Olha, o que é que se aprende com o Herman José?
Manuel Marques: Eu aprendi tudo, aprendi tudo mesmo sem trabalhar com o Herman porque eu desde pequeno conheço os sketches do Herman de cor, desde o Tal Canal que foi a primeira memória que eu tive do Herman. Lembro-me vagamente nos programas do Passeio dos Alegres, mas os sketches que eu sei de cor são desde o Tal Canal, depois o Hermanias, depois o Humor de Perdição, a Pensão Estrelinha e o Hermanias (dois programas de fim de ano): o “Eu é mais bolos”, o Felizberto Waun. Todas aquelas personagens fazem parte do meu imaginário. Por isso eu digo que já na altura já estava a aprender com o Herman.
Jorge Correia: E depois, quando tiveste pela primeira vez, quando te ligou e te disse…?
Manuel Marques: Ah, foi acho que um dos dias mais felizes da minha vida. Fora o nascimento das minhas filhas, acho que foi o dia mais feliz da minha vida tipo: “eu estou a trabalhar com o Herman, eu estou aqui em frente ao meu herói de infância”. Às vezes olhava aos domingos, chegava às gravações do HermanSIC e pensava: “epa, eu estou aqui, eu estou aqui a trabalhar com o meu ídolo”.
Jorge Correia: No princípio a responsabilidade era grande?
Manuel Marques: A responsabilidade era grande e era um misto de sensações. Às vezes vinha destruído: “ai hoje falhei aquela deixa, hoje falhei aquela”. Como eu sou exigente, era quase tipo: “deixei o Herman mal neste…”.
Jorge Correia: Como é que ele é como chefe da tribo?
Manuel Marques: É um maestro. O Herman exige ter a orquestra muito bem afinada. Acho que estamos todos numa frequência mesmo. O clarinete está muito bem, o violino está muito bem, o baterista tem de estar tudo muito bem. Todos trabalhamos muito em casa. Temos papéis atribuídos e temos de os trabalhar em casa porque todas as semanas é uma personagem diferente e temos de trabalhar em casa. E depois lá no estúdio ensaiamos uma vez, gravamos. São vários quadros, o sketch tem várias takes, mas ensaiamos, gravamos, ensaiamos, gravamos. As coisas já têm de vir bem oleadas.
Jorge Correia: Riem-se muito? Desmancham-se muito a rir?
Manuel Marques: Pois, isso sim. Eu sou o pior deles, eu e a Roeff acho que somos os piores, damos cabo daquilo tudo. Mas isso também às vezes é muito engraçado, eu gosto de ver quando nos desmanchamos quando vejo aqui nas redes sociais às vezes posto algumas situações em que nos desmanchamos e é hilariante. E às vezes é, enganamos… rimos, não conseguimos parar e o Herman continua, continua à sapa dele. E depois acaba por ficar aquele e depois nós pensamos: “será que vamos fazer outra vez?” e o Herman: “não, está bom assim, está ótimo, ficou engraçado vocês desmancharem-se”.
Jorge Correia: Às vezes riem e depois pode correr-se o risco de perder o sentido da história do quadro, do sketch, e aí tem de se cortar e fazer de novo. Mas há outras que vai em frente porque ele entende que fica sempre bem. Ele é mesmo, ele sabe mesmo, ele é um génio.
Jorge Correia: Quando tu fazes bonecos que entram, em particular com o Herman mas outros, que entram no fluxo das redes sociais e que são recriados e que hoje os miúdos pegam e fazem um TikTok daquilo e remontam aquilo completamente, tu surpreendes-te com estas narrativas?
Manuel Marques: Sim, há coisas muito criativas nos TikToks. Agora, e agora voltando à inteligência artificial, que eu já nós já não conseguimos distinguir o que é inteligência artificial do que é real. Isso aborrece um bocadinho. Antes de aparecer a inteligência artificial e quando apareceu o TikTok vi coisas muito criativas não só de adultos como miúdos. Até o Herman faz com caras e com filtros, acho que foi dos primeiros o Herman encontrou esse filão no Instagram, ele não punha só o filtro, ele tinha um texto, ele tinha a personagem, nisso também ele foi um bocadinho o pioneiro.
Jorge Correia: Mas o que te assusta é a falsidade da inteligência artificial, é a não criatividade ou é o engodo?
Manuel Marques: É o engodo mesmo. No outro dia os meus pais estavam a ver uma coisa que eu percebi perfeitamente que era inteligência artificial mas eles não perceberam, num programa do America’s Got Talent, os meus pais estavam a ver aquilo: “ai, como é que este homem se transforma agora numa mulher e não sei quê e agora num animal, que bem feito que isto está” e eu: “ah, isto é inteligência artificial mas como é que não percebem?”. “Ah, pois é”. É isso, o engodo choca-me. Cada vez mais criativo e portanto nós cada vez mais a fronteira sem limites, sem fronteiras e perigoso. No sentido de podem pegar na nossa voz e fazer alguma coisa como é possível fazer, com a maior das facilidades. Já vi uma canção do Quim Barreiros com a voz da Amália e era a Amália que estava ali a cantar a canção do Quim Barreiros. Era a voz da Amália. Isso choca-me um bocadinho.
Jorge Correia: Conseguimos fazer hoje uma engenharia artificial de tudo, da nossa voz e da nossa imagem?
Manuel Marques: Sim. Por exemplo quando foram aquelas greves, aquelas manifestações nos Estados Unidos em Hollywood, era pela criatividade contra a inteligência artificial e uma das situações foi o Tom Hanks que tinham feito um anúncio no Japão ou na China com a cara do Tom Hanks sem ele saber. Como é que resolvemos isto?
Jorge Correia: Pomos um carimbo a dizer “inteligência artificial”?
Manuel Marques: Eu acho que tudo tem de ter leis e limites e não há leis e limites nem nas redes sociais nem na inteligência artificial e eu acho que é imperativo haver uma organização, qualquer coisa que não deixe que tudo se faça, senão a internet é uma anarquia.
Jorge Correia: E nós descobrimos se calhar tarde que de facto é uma anarquia?
Manuel Marques: Pois, eu tenho medo que seja tarde demais depois. A tecnologia está aí, está à distância de um clique, nós todos conseguimos fazer. E para nós artistas é muito complicado, por exemplo um maquilhador, esta coisa dos filtros é muito bonita mas o maquilhador faz o seu trabalho. Eu no outro dia postei uma caracterização de quem nos faz a caracterização, que é o Sérgio Alxeredo e a equipa dele lá no Herman, aqueles bonecos maravilhosos. E eu fiz um post que ele pôs-me de Ebenezer Scrooge, em que foram horas de caracterização a pôr-me um nariz, a envelhecer-me, colar cabelos, que demorou horas e eu disse: “isto é uma caracterização, não há aqui inteligência artificial. Isto é um trabalho artístico”. E é o trabalho artístico que eu acho que tem de prevalecer e acho que vai prevalecer.
Jorge Correia: Estás a dizer que aquilo demora horas a fazer?
Manuel Marques: Algumas caracterizações demoram horas, sim.
Jorge Correia: Uau! Como é que se aguenta isso?
Manuel Marques: Tem de se aguentar, põe-se uns fones e vai-se estando e faz-se umas pausas para café, mas tem de se aguentar. Portanto vai no fundo montando o teu rosto pecinha a pecinha. Sim, sim.
Jorge Correia: Já te ouvi fazer dobragens?
Manuel Marques: Sim, faço muitas. Eu adoro fazer. E felizmente tenho feito muitas já de alguns anos para cá e tenho assim alguns sucessos, sim.
Jorge Correia: Qual é o desafio daquilo? É que normalmente, por exemplo quando estamos a falar de filmes de animação feitos em Hollywood, primeiro gravam a voz?
Manuel Marques: Primeiro gravam a voz, pois, exatamente. Torna a coisa mais fácil, não é? Têm um storyboard, gravam a voz e a seguir o boneco ajusta… a animação é feita em cima da voz e do que o ator dá. E aqui ao contrário, aqui temos de ir atrás do ator.
Jorge Correia: Como é que se acerta aquilo tudo?
Manuel Marques: É fala a fala, mas tem de ser com muita rapidez, é um trabalho muito difícil e muito cansativo. Tu tens o texto, tens o microfone e o ecrã e aquilo tem de ser ali no timing. Hoje em dia também já a tecnologia também evoluiu e depois os técnicos também põem às vezes se nós atrasamos um bocadinho a fala põem no lugar. Imagina quando era fita era uma chatice, quando era tape. Portanto é preciso fazer o sincronismo entre a boca e a fala. E temos o diretor de dobragem que: “agora faz mais assim, agora faz mais assado”.
Jorge Correia: É difícil e cansativo por causa disso? Mas eu gosto. Para tu fazeres durante um filme de duas horas, por exemplo, ou de hora e meia, aquilo é uma coisa para te durar quanto tempo de trabalho?
Manuel Marques: Tenho de ir, se for o protagonista tenho de ir duas, três vezes a estúdio. Mas com o tempo já me tornei rápido a fazer. Às vezes as pessoas do estúdio, eu saio da cabine do estúdio: “já acabaste?”. “Já, já acabei”. Digo com orgulho: “já acabei, já acabei, vou-me embora, isto é o Speed González”. São máquinas.
Jorge Correia: E tu olhas para a versão original, ouves o som ou não?
Manuel Marques: Oiço o som original, sim. E tento colar ao timbre, à intenção, mas depois temos de fazer também temos de transformar a canção americana em canção portuguesa. Os americanos têm uma canção a dizer uma coisa, a canção é a maneira de… e nós temos de transformar também em português, não podemos ir atrás da canção americana da forma como ele disse, temos de transformar em português. Portanto tem a ver com esse ritmo, com essa musicalidade? Sim, exatamente, sim, também temos de fazer isso.
Jorge Correia: E depois tu não tens imediatamente acesso ao teu produto final, no fundo. Tu gravas e ficas à espera de ver na estreia.
Manuel Marques: E às vezes temos espaço para pôr algumas coisas de improviso, às vezes temos esse espaço e depois os estrangeiros, os produtores do filme podem gostar ou não. Eles têm de ouvir, eles têm de ver se está tudo bem. É um trabalho que eles têm que ouvir. E validar.
Manuel Marques: Por exemplo, eu fiz o, depois quando o Nicolau morreu, o Nicolau era a voz do Gru o Maldisposto, e passei a ser eu o Gru o Maldisposto. Não era só a voz, até a própria fisionomia. E entrei no três, comecei a fazer a partir do três. E tive fui até Madrid para ser entrevistado pelo Mário Augusto em conjunto com o Steve Carell que é o que faz a voz original na promoção do filme. E houve uma coisa que eu fiz que já não me lembro o que é que foi, mas que acrescentei e que estava a falar com o Steve Carell sobre isso na própria entrevista e ele disse: “Olha, isso é giro porque não me lembrei de ter feito isso”. Às vezes nas dobragens estrangeiras nós apercebemo-nos de coisas diferentes ou dispositivos que o dobrador faz que era giro até nos lembrarmos disso.
Jorge Correia: Onde é que tu te sentes melhor com a tua voz? Tu sentes-te um homem da rádio, um homem das dobragens, um homem do teatro, um homem do cinema?
Manuel Marques: Eu sinto-me bem em todas desde que me divirta no que estou a fazer e desde que acredite no que estou a fazer. Eu até a cortar relva sinto-me bem, que é uma coisa que me dá gozo. Mas eu gosto de trabalhar e quando estou a trabalhar naquilo que gosto é por mim. Agora há registos diferentes: cinema, teatro, televisão. O registo para cinema é um registo diferente do teatro, televisão.
Jorge Correia: É diferente da televisão?
Manuel Marques: É muito diferente porque sobretudo o cinema é uma tela gigante e temos de ter as coisas têm de ser feitas em menos, não ser tão expressivo. No teatro somos superexpressivos porque tem de passar para o público, temos de fazer tudo em grande. No cinema temos de fazer em mais pequenino, os realizadores querem que façamos em mais pequenino, porque se eu tenho um grande plano eu não posso estar sempre a piscar os olhos tanta vez porque isso para o público parece um exagero. Nós no cinema temos de nos fazer à câmara, ou seja, não podemos abrir tanto a boca. O cinema tem esse preciosismo de quando são grandes planos. Quando são planos abertos aí se calhar temos de fazer mais e temos de um gesto tem de ser mais desenhado. Mas se for um plano mais apertado tem de ser tudo muito mais pequenino e os olhos não podem abrir demasiado. Isso às vezes é uma coisa que eu como ainda fiz para o tempo que tenho de ator é o que fiz menos cinema ainda é uma coisa que eu tenho mais dificuldade mas que adoro explorar esse lado. Quem foi um professor nesse sentido que já trabalhei com ele várias vezes foi o Leonel Vieira.
Jorge Correia: O que é que ele te ensinou?
Manuel Marques: “Epa agora não te mexas tanto pá, não entres…” e tu mexeste? Eu mexo muito, eu sou muito elástico. “Não te mexas tanto aqui, controla mais a tua expressão facial, controla mais porque isto é um plano fechado. Agora aqui estás a ver, agora aqui podias fazer o gesto mais desenhado porque isto está aberto, estou num plano aberto, aqui tens de fazer mais desenhado”. E o cinema eu ainda estou a aprender a fazer cinema.
Jorge Correia: Há uma linguagem, sim, completamente diferente da televisão e do… outra coisa, eu nunca tinha feito novela, fiz o Festa é Festa há cinco anos e novela eu nunca tinha feito e é outra linguagem também completamente diferente.
Jorge Correia: Aí é uma máquina, não é?
Manuel Marques: Aí é uma máquina, temos de fazer x cenas e vamos embora e tem de cumprir as horas e sabes sabes, não sabes não sabes, portanto tem de se ir muito bem preparado, mas como para tudo. O Tom Hanks no outro dia estava a dizer uma história com um realizador que embirrou com ele já não sei porquê e o realizador só lhe disse: “tu tens de vir para aqui com três regras: saberes o texto, chegares um bocadinho antes do tempo e teres uma ideia”. E o Tom Hanks olha: “eu sou capaz de fazer isto”. Ter uma ideia para a personagem do que vou fazer, não é chegar lá em branco e: “ah, foi porque perguntaram ao realizador como é que quer que eu faça isto?”. “Então não estudaste o texto? Não estiveste em casa? Não tens a ideia da personagem?”. Não, um realizador já está a realizar, a ver o foco, as câmaras, portanto o realizador também quer que, embora seja também um diretor de atores, mas quer que o ator traga uma ideia e tu ofereças qualquer coisa.
Jorge Correia: Como é que é o teu processo criativo?
Manuel Marques: O meu processo criativo primeiro de tudo é saber o texto. E depois acrescentar as outras camadas, o corpo, a voz, mas o texto tem de estar decorado. Tem de estar assumido. E isso não é só o que lá está escrito mas é a métrica, a maneira de dizer, depois é que vais acrescentando camadas. Sim, e depois vou acrescentando camadas. Mesmo a decorar um texto é por camadas, é a primeira página está decorada, ok vou à segunda página, depois volto outra vez à primeira, vou à segunda, depois volto outra vez à primeira, vou à segunda, vou à terceira. É um bocadinho assim. E se me perguntarem depois de um sketch ou depois de uma cena de novela o texto, eu já não sei dizê-lo. Depois de gravar já não sei dizê-lo. Eu acho que o nosso cérebro tem esse mecanismo, ou pelo menos o meu tem esse mecanismo tipo: “já está, acabou, já não sei”. O disco rígido limpa e está pronto para o próximo? Pronto para o próximo, sim.
Jorge Correia: Tu não levas a personagem para casa?
Manuel Marques: Não, não, não. Ficam lá todos. Só se for uma personagem de continuidade num filme, convém. Convém viver com a personagem.
Jorge Correia: Caro Manuel Marques, Senhor Engenheiro, muito obrigado por teres vindo, estou expectante para te ver nesta peça e entretanto vou-me rindo à tua conta no Portugalex porque é sempre maravilhoso. Obrigado.
Manuel Marques: Ora obrigado, obrigado.
Jorge Correia: No fim de contas talvez seja isto que a rádio ainda nos ensina: que a escuta é um ato de confiança. Confiamos numa voz que não vemos, numa intenção que não vem sublinhada, numa ironia que exige inteligência de quem fala e de quem ouve. Ao longo desta conversa com Manuel Marques atravessamos o humor como técnica mas sobretudo como ética. A precisão de um sotaque, o rigor de uma pausa, a responsabilidade de rir do poder sem desumanizar ninguém. O riso quando é sério dá trabalho, exige carácter. Num tempo acelerado de indignações instantâneas e certezas ruidosas, o Portugalex continua lembrando-nos que a sátira não serve para gritar mais alto, serve para pensar melhor. E que a rádio, mesmo sem um palco visível, continua a ser um lugar onde a palavra pesa e ecoa e fica. Celebrar o Dia Mundial da Rádio é também celebrar esta forma rara de atenção: a atenção à voz, à nuance, à complexidade.
Jorge Correia: Se esta conversa o fez pensar, sorrir ou escutar de outra maneira, subscreva o Pergunta Simples. É a melhor maneira de garantir que estas conversas continuam a existir: no RTP Play, no Spotify, na Apple Podcasts, no YouTube ou em qualquer outro lugar, por exemplo no perguntasimples.com. Porque enquanto houver quem escute a rádio continua viva e enquanto houver quem pense antes de rir o humor continua livre. Até para a semana.
