Uma frase ficou a martelar. A tecnologia foi convidada para substituir aquilo que fazemos, e a tentação agora é deixá-la substituir quem somos.
Parecia um bom acordo. A máquina lavava a roupa, fazia as contas, conduzia o carro, e devolvia-nos tempo para pensar, sentir, conversar. Ser humanos, afinal. Valter Hugo Mãe desconfia que o acordo mudou de mãos sem nos avisar.
Falámos de um mundo que comunica cada vez mais e cada vez pior. E de uma ignorância que, ao contrário de todas as outras épocas, deixou de ter vergonha de si própria. Antes, quem não sabia calava-se, porque saber parecia mais digno. Agora chama-se opinião àquilo que não se sabe e exige-se respeito por isso.
No livro há um marquês que fica mais sábio quando o levam à montanha e mais estúpido quando o descem ao rio. Quem escolhe o caminho são os vizinhos. Somos nós. Todos os dias decidimos se queremos aprender ou apenas rir.
A conversa completa com Valter Hugo Mãe está disponível no Pergunta Simples.
Jorge Correia
00:00
Isto é um episódio da série Essencial, do Pergunta Simples. Neste verão escolhi os episódios de que os ouvintes mais gostaram ao longo dos últimos meses. Todos os episódios estão no RTP Play, no Spotify, no YouTube e em todas as outras plataformas mundiais, incluindo por e-mail em perguntasimples.com.
00:19
Se é ouvinte e ainda não subscreveu na plataforma onde está neste momento a ouvir, faça-o agora. É gratuito e ajuda o programa a chegar a mais pessoas. Boa escuta.
Valter Hugo Mae
00:34
O trágico é que ao invés dela potenciar eventualmente a nossa melhoria, ela parece substituir-nos. E esse é o grande dilema, que a tecnologia talvez tenha sido convidada para substituir o que fazemos, mas a tentação neste instante parece ser a de permitir que ela substitua quem somos. E isso desumaniza-nos.
Jorge Correia
01:03
Pergunta simples. Um programa sobre comunicação. Para quem quer boas respostas.
01:12
Demos uma coisa por garantida. Que a tecnologia estava ao nosso serviço. Ponto final.
01:18
Que lavava a roupa, que fazia as contas, que nos levava à casa e deixava connosco aquilo que era só nosso. Pensar, sentir, conversar. Ser humano, afinal.
01:30
Bom, parecia um bom acordo. Valtero Humain, o convidado de hoje, desconfia que este acordo mudou de mãos, que já não se escreve com as mesmas letras, que a máquina deixou de se oferecer para fazer o que fazemos e começou a fazer-se passar por quem somos. Voltei a ouvir a conversa do princípio ao fim e foi muito mais longe do que eu esperava.
01:52
Começou na escrita e foi dar à desumanização. A meio fica uma frase a martelar na minha cabeça. A tecnologia foi convidada para nos substituir nas tarefas e a tentação agora é deixá-la substituirmos a nós.
02:06
Pelo caminho, falamos de um mundo que comunica cada vez mais e cada vez pior de uma ignorância que, ao contrário de todas as outras épocas, deixou de ter vergonha de si própria. E de um marquês que fica mais sábio quando o levam até o alta montanha e mais estúpido quando o descem até o rio. Quem decide para onde é que ele vai, para que lado é que ele vai, para cima ou para baixo, é a vila.
02:31
Somos nós. É o tema do seu novo livro, acabado de publicar. Valtero Gomen é escritor e tem um prémio de nome Saramago, mas não é o currículo que o traz a esta conversa.
02:42
É a forma como diz as coisas. É das poucas pessoas neste país que fala como quem escreve e que pensa em voz alta sem se proteger atrás de uma frase bonita. acaba de publicar O Século dos Imbecis e o título, reparem, não está a apontar só o dedo aos outros.
02:59
Começamos pela forma como ele descreve e foi por aí que entramos em tudo o resto. Walter, há uma curiosidade que eu tenho sobre ti inicial, que é, há pessoas que escrevem como falam e tu és o contrário, tu falas como se estivesse a ditar um livro. Como é que é isto? Isto aconteceu de sempre na tua vida?
Valter Hugo Mae
03:21
antes de mais, obrigado é um prazer estar aqui, obrigado pelo convite para vir à conversa não sei se isso é verdade mas talvez eu, enquanto cidadão fico contaminado com tanta literatura e por isso alguém que tem por destino uma arte que deita mão de uma coisa como a fala que é do cotidiano de toda a gente eminentemente está com a arte no cotidiano
Jorge Correia
04:00
não dá para deixar em casa, digamos assim No teu processo de escrita, tu és daquelas pessoas que está ali, escreve e está calado ou estás a remoer e a reler e em busca da musicalidade
Valter Hugo Mae
04:12
Sim, e fico afónico porque eu leio em voz alta o que vou escrevendo e às vezes respondo assim enquanto leitor porque eu sou o leitor do imediato assim no imediato sou também ao mesmo tempo que autor sou leitor e por isso reajo parece que ainda estou tentando enquanto indivíduo perfeitamente definido faço os meus protestos e mando os meus bitites
Jorge Correia
04:47
resmungas contigo próprio
Valter Hugo Mae
04:48
Resmungo com o livro, mas isso às vezes interfere, às vezes acontece que o Walter Cidadão, conhecido como o Walter Autor, acaba por influenciar a escrita do texto. Mas muitas das vezes é uma espécie de coisa, é uma esquizocóisa, porque eu protesto como cidadão, mas como autor obedeço ao livro.
Jorge Correia
05:15
Portanto, respeitas a tua própria liberdade criativa, ainda que possas amoar contigo próprio.
Valter Hugo Mae
05:20
Ainda que possa protestar que alguma coisa ou é demasiado violenta, ou é demasiado ternurenta, ou alguma personagem acaba de dizer algo muito ingênuo, com que não podemos concordar. Então é tudo um misto, no fundo é uma reação espontânea, é algo que a escrita provoca, porque eu gosto de caminhar pelos livros muito à procura. Não escrevo pelo que sei, escrevo pelo que não sei.
Jorge Correia
05:56
Fazes um mapa disto ou vais fazendo uma arqueologia?
Valter Hugo Mae
06:00
Faço, curioso, nunca me tinham perguntado. Pensei que sabia que pergunta me ias fazer, mas essa pergunta é diferente, é bonita. Uma arqueologia, curioso. Porque no fundo é, tu podes dizer,
Jorge Correia
06:12
ok, eu vou aqui contar esta história, o teu último livro que está aqui, título maravilhoso O Século dos Impecís, já vamos falar sobre ele que é tu podes ter personagens e uma história já na tua cabeça e depois gastas a tua arte da palavra a tornar aquilo bonito e esteticamente interessante ou pelo contrário tu pões a tua lanterna de mineiro e vais por aí fora em busca dos diamantes que possam aparecer por aí
Valter Hugo Mae
06:34
Eu acho que vou mais com o mineiro mas é curioso porque a arqueologia detecta comunica com o longínquo, não é? E eu gosto dessa ideia. Não tanto o longínquo como passado, mas o longínquo como aquilo que está verdadeiramente à distância da evidência. E por isso eu escrevo assim, eu escrevo caminhando por um certo escuro que só clareia a força do livro.
Jorge Correia
07:07
E depois faz o quê com essa informação? O que encontras?
Valter Hugo Mae
07:10
Essa informação é o próprio livro. É uma aprendizagem, se quiseres. é uma ciência que só a literatura oferece. Se quiseres, talvez seja mais fácil entender assim, o poema é a sua própria ciência, não podes aceder àquele conhecimento, não podes aceder à força de um poema, àquilo que um poema oferece, se não através da escrita de um poema.
Jorge Correia
07:34
Tenha um mistério ele próprio.
Valter Hugo Mae
07:35
É ele em si uma informação, que depende de algo inexplicável, de algo até ilegível, mas que está lá, que é feito sobretudo ou substancialmente de um pressentimento. E que tu podes sentir mesmo sem entender. Exatamente. Que podes oferir, algo de que podes oferir sem sequer saber em que moeda é que aquilo está a ser entregue.
Jorge Correia
08:04
E isso é que é absolutamente extraordinário. Olha, interessa muito ouvir-te falar sobre o ritmo. o ritmo da voz, porque estava a brincar um bocadinho contigo quando dizia que tu falavas como quem escreve, de uma forma muito literata esse ritmo é sempre o mesmo há variações no ritmo, como é que tu fazes isso?
Valter Hugo Mae
08:26
Há variações eu gosto de pensar numa espécie de clima em que o livro instala o seu próprio clima e isso é profundamente intuitivo e há algo que se testa para cada livro. Eu tenho vários avanços, digamos assim. Vou fazendo avanços sucessivos até ter a sensação de que o clima compareceu. Porque é como, talvez seja como um fotógrafo que perante o mesmo diapositivo, o mesmo negativo, digamos assim, vai ensaiando as ampliações, vai testando os químicos até conseguir que o papel e o nitrato de prata entreguem a intensidade da luz e a ausência da luz que ele tem na cabeça de alguma forma, que ele prevê.
Jorge Correia
09:28
E tens tempo para te deixar surpreender por esse processo?
Valter Hugo Mae
09:32
Sim, tenho de ter. A escrita ocupa o lugar central da minha vida, talvez seja quase tudo na minha vida. Eu identifico-me muito com uma antipatia do Miguel Torga. O Miguel Torga era substancialmente antipático e por vezes excepcional, não é? e eu identifico-me muito com a antipatia dele em que ele diz numa passagem do diário ele diz qualquer coisa à mulher como que quer que ela saiba que a ama quero que saibas que te amo mas que em todas as oportunidades te trocarei por um verso é tão horrível não ficou muito popular não, não é muito antipático não consta que se tenha divorciado mas é horroroso de se dizer mas é profundamente honesto e eu estou um pouco assim
Jorge Correia
10:32
sou um pouco assim Então mas isso é quase em contraciclo com os tempos que vivemos, que é no tempo em que somos todos muito agridoces, pelo menos à frente e muito pouco honestos nesta relação crua com os outros o que é que estamos a fazer?
Valter Hugo Mae
10:46
Eu acho que a humanidade anda à deriva e arrisca-se, a humanidade está em risco de passar a ser outra coisa ou de entregar finalmente a ideologia ao lixo e deixar progredir o bicho não como um bicho que caminha para longe de o ser mas para um bicho que regressa à sua animalidade das cavernas? Eu acho que pela primeira vez talvez como um todo estejamos arriscar perder capacidades, valências humanas que são conquistadas por uma maturação, inclusive por uma maturação cultural, que é um trabalho eminentemente humano, não é um trabalho que a natureza faça, é eminentemente um ofício humano, e estamos a arriscar perder essas capacidades em prol de um regresso a um primarismo que nos aproxima outra vez do macaco ao invés de nos distanciar.
Jorge Correia
11:51
Apesar de tudo, estamos numa época de grande tecnologia, de grande desenvolvimento, de grande comunicação, e ao mesmo tempo comunicando cada vez menos?
Valter Hugo Mae
12:01
Ou comunicando cada vez pior, ou de uma maneira cada vez mais falsa. Que sinais é que tu vês no mundo? É preciso ver que a tecnologia é cada vez mais sofisticada, e ao invés dela potenciar a nossa sofisticação também, é preciso ver que primeiro fomos nós que a fizemos.
12:19
Não exatamente eu, que para juntar dois fios apanho um choque elétrico. Mas a tecnologia é cada vez mais sofisticada. O que corresponde, eventualmente, a uma sofisticação maior do ser humano.
12:34
Mas o trágico é que ao invés dela potenciar, eventualmente, a nossa melhoria, ela parece substituir-nos. E esse é o grande dilema. que a tecnologia talvez tenha sido convidada para substituir o que fazemos, mas a tentação neste instante parece ser a de permitir que ela substitua quem somos.
13:00
E isso desumaniza-nos. É como se tivéssemos um património chamado humanidade que de repente, de uma forma inelutável, estivéssemos a entregar a uma dimensão virtual. como se entregássemos à máquina o que é o destino da humanidade e nós nos destituíssemos dessa obrigação e voltássemos a bichos, a macacos.
13:23
Na caverna.
Jorge Correia
13:25
Eu gostava de ouvir muito sobre o advento da inteligência artificial, que é quando isto, a inteligência artificial, dita inteligência artificial, aparece, eu pensei, bom, ótimo, alguém vai resolver as tarefas chatas que eu tenho que fazer no dia-a-dia e eu vou ter mais tempo para pensar, para ouvir.
Valter Hugo Mae
13:44
O que gostaria em causa, o que desejo é o fazer. Alguém que faça por mim.
Jorge Correia
13:49
O robô que faça qualquer coisa, não é? Que lava a roupa, que conduza o automóvel.
Valter Hugo Mae
13:54
Essa é a primeira tentação. Seria a vantagem imediata.
Jorge Correia
13:58
E eu gosto da ideia.
Valter Hugo Mae
13:59
Vai lá passar a roupa a ferro.
Jorge Correia
14:02
E libertam para ler um livro, no fundo é isto. Mas pelo contrário, o que me parece é que estas inteligências o que dizem é, eu vou fazer melhor do que tu nesta coisa de ser humano.
Valter Hugo Mae
14:14
É pior, é pior. O que parece é, eu vou fazer com que tu sejas desnecessário. E o que começamos a assistir é, por exemplo, pessoas que se dizem apaixonadas por uma plataforma que lhes responde.
14:28
Pessoas que estabelecem relações amorosas ou que satisfazem uma dimensão afetiva, até de parentesco, com um algoritmo que lhes responde e que as trata com respeito que eventualmente nunca encontraram ou presentem ali um reconhecimento que nunca encontraram a pessoa real. O que significa que a tecnologia, a máquina, não só propõe retirar-nos as tarefas, mas propõe retirar-nos a nós do cenário. Paulatinamente, fazer com que nós sejamos desnecessários.
Jorge Correia
15:04
Não namores com outra pessoa, anda cá namorar comigo.
Valter Hugo Mae
15:06
Namora com a máquina. Eu devia entender porque agora durmo com o CEPAP. Eu tenho apneia e tenho andado a dizer que nunca dormi com nada nem ninguém melhor do que aquela máquina. Por isso eu também já estou com um pé na ciberidentidade.
Jorge Correia
15:25
Já és o Walter Bionico a partir de agora. Já sou o Bionico. Olha, eu quero falar aqui do teu livro O Século dos Impecís.
15:33
Suspeito que os imbecis sejamos nós, quem quiser que meta a crepúça, não é? A crepúça a solta. É o que for.
15:39
Este romance, eu vou dizer qualquer coisa sobre ele, é uma vila de montanha onde há cobiça, o boato e onde a fé é frágil. Que livro é este? Que história nos contas tu?
Valter Hugo Mae
15:53
O Século dos Imbecis é uma alegoria assente numa figura principal chamada Agilufo, que é um marquês em tempo de república e que tem a particularidade absurda de abrilhantar quando sobe a montanha e emburrecer, estupidificar quando desce. E que deixa na mão dos seus concidadãos a decisão de saber se vale mais a pena levantá-lo nas montanhas para que ele exponha um maravilhoso conhecimento ou descê-lo nas montanhas para que ele estupidifique e faça rir. Então é um pouco esta…
16:34
E deixa isso nas mãos do povo. Isso fica nas mãos das pessoas. Essa decisão de saber, convidamos o Agilufo para subir à vila, que fica acima da casa dele, ou convidamos o Agilufo para ir nadar ao rio, que fica abaixo da casa dele.
16:49
Se subirem à vila ele vai ficar mais esperto, se descer para nadar no rio ele vai ficar mais burro. E isso, cada concidadão dele, cada, digamos, pessoa amiga, cada vizinho, vai escolher, no fundo, o que prefere. Aprender ou divertir-se com o leviano do lúdico, do ridículo, do risível.
17:17
E eu acho que isso, assim, eu não defino qual é o século dos imbecis, não digo que é exatamente este século, mas… Mas parece muito. talvez seja aproveitoso ponderarmos se não nos arriscamos a sê-lo.
17:32
Não é categoricamente uma vontade de considerar este o século dos imbecis, mas é uma pergunta se não nos estamos a arriscar a ser o século dos imbecis, não tanto porque não tenha havido muitos imbecis em séculos anteriores, mas porque parece que a ignorância na contemporaneidade é cada vez mais orgulhosa, coisa que eventualmente, historicamente, nunca aconteceu. A ignorância foi sempre tímida e teve sempre noção de que saber seria mais vantajoso. Saber seria mais digno, digamos.
Jorge Correia
18:08
E agora pode ser que qualquer pessoa diga uma atuarda do tamanho de um elefante e diz esta é a minha verdade.
Valter Hugo Mae
18:14
E a pessoa fala em percepções e sentimentos, aquilo que sente, como se aquilo que sente fosse uma ciência absoluta e contra todos os factos a pessoa impõe aquilo que quiser impor. E espera por isso muito respeito e uma profunda impunidade. O que de facto pulveriza a estupidez como uma nova ordem mundial.
Jorge Correia
18:42
A ordem mundial do estúpido?
Valter Hugo Mae
18:43
É a ordem mundial dos estúpidos.
Jorge Correia
18:45
Então e os inteligentes que por aí andam, porque não há só os imbecis neste século, o que é que estão a fazer da vida?
Valter Hugo Mae
18:53
Estão eventualmente a procurar lutar ou então simplesmente a procurar respirar. Eu tenho um amigo meu que dizia que passou a vida inteira a tentar mudar o mundo e que agora já só quer que o mundo não o mude a ele. Então eu tenho um pouco a sensação de que a boa gente já só está a tentar já está tão exausta é tão é com tanta estupefação que assistimos à degeneração coletiva que eventualmente a boa gente já só quer sossego
Jorge Correia
19:30
e desistiu de lutar?
Valter Hugo Mae
19:33
lutar acaba por ser isso porque se as grandes massas vê uma coisa a eleição por exemplo do Millet Os grandes imbecis do grande poder do mundo são muito declarados, são muito honestos. Até porque a imbecilidade no seu esplendor é impossível de esconder. O que o Millet está a fazer na Argentina é estranhíssimo.
20:01
Ele acaba de dizer esta semana que a retirada de apoio às crianças em tratamentos pelo cancro é elementar, porque uma criança em tratamento de cancro não merece mais do que qualquer cidadão. E por isso, se qualquer cidadão não tem um apoio, por exemplo, para o transporte, para ser levado a um hospital, uma criança com câncer que esteja a tentar salvar a sua vida também não merece esse apoio por isso o grotesco da ideia é tão grande que é pura desumanização que está que está em curso e as massas escolheram aquele homem que no fundo desde início lá com as motosserras e com tudo o que dizia se declarou desumano e perfeitamente alucinado e não escondeu isso a ninguém? não escondeu isso a ninguém como o Bolsonaro não escondeu a ninguém, como o Trump não escondeu a ninguém.
Jorge Correia
21:02
Então, mas o que eu tenho curiosidade e quero ouvir a tua opinião sobre isso e o teu ponto de vista é como é que nós, perante realidades que são claramente grotescas ou claramente inhumanas ou claramente mentirosas, apesar de tudo, não só não existe um movimento de resistência proporcional, como, pelo contrário, existem hordas de pessoas capazes não só de acreditar como de propagar essa realidade distópica.
Valter Hugo Mae
21:31
Eu tenho para mim, e há muitos anos que tenho vindo a dizer isto, tenho para mim que precisamos de exigir às instituições que cumpram aquilo para que foram mandatadas, para que foram criadas. E isso não está a acontecer. No espectro da liberdade de expressão não cabe muito crime que tem estado a ser cometido.
21:57
E a primeira vez que se permite um insulto racista como normalizado nos meios de comunicação é a entrada do crime na normalização, é a autorização do crime. Porque está tipificado na Constituição, que é proibido, que é crime, e por isso não é negociável. Não é negociável, não devia ser negociável.
22:20
E por isso as instituições que têm o poder de fazer cumprir a lei, de verificar e de fiscalizar, simplesmente não estão a funcionar. Desistiram? Eventualmente, sem o assumir, ou até sem ter entendido, podem estar corrompidas no sentido em que perderam o seu sentido.
Jorge Correia
22:40
E portanto deveriam continuar a existir? Lá está, porque esse é um ponto fundamental.
Valter Hugo Mae
22:44
E deve continuar a existir. Nós precisamos é que elas funcionem como elas deveriam estar a funcionar.
Jorge Correia
22:49
Sendo que todo o sistema, como qualquer sistema complexo, é muito resistente à mudança. Se tu falares em vamos mudar isto…
Valter Hugo Mae
22:58
Mas isso seria mais uma ajuda para pensarmos que, por exemplo, a aplicação imediata, direta da Constituição se fizesse constantemente. Porque a Constituição não é propriamente da última terça-feira.
Jorge Correia
23:10
Implicaria lê-la, não é?
Valter Hugo Mae
23:11
implicaria lê-la, mas as instituições que têm a tutela da lei em Portugal ou em qualquer lugar, já terão lido. E por isso a mim espanta-me que a xenofobia, que o racismo, por exemplo, que a homofobia, que a misoginia, que tudo isso seja praticado cotidianamente, impunemente e que caminhemos para uma descida cada vez a uma treva maior com as instituições absolutamente caladas e sem ação e por isso o Luther King dizia não me assusta o ruído dos maus, assusta-me o silêncio dos bons e de facto os bons deviam começar deviam começar por ser as instituições que foram criadas para essa justiça, que foram criadas para a justiça.
Jorge Correia
24:07
Esta criação da ideia de não confiança nas instituições pode afinal ser um plano muito bem escrito para as destruir? Claro, claro, claro.
Valter Hugo Mae
24:16
Quanto mais se perturbarem as instituições, quanto mais se abandalhar, por exemplo, a Assembleia da República, o Governo, quanto mais abandalhado o diálogo na praça pública, mais fácil é depois declarar a necessidade de uma reforma profunda e de convencer as pessoas que toda a conquista de direitos que foi feita deve ser deitada ao lixo.
Jorge Correia
24:44
Vimos isso em vários momentos da história. Olha, uma das coisas que o tempo moderno, quase a marca do tempo, é que o boato serve muito para passar esta imagem de violência. Esta forma de desinformar é uma forma de violência?
Valter Hugo Mae
25:03
É uma forma de violência, uma forma de poder, não é? Desinformando, primeiro é um modo de criar distração, não é? É preciso, por exemplo, os partidos de extrema-direita não se cansam com vir perturbar minorias e coisas de mera interesse minimamente pessoal, ou sobretudo pessoal.
Jorge Correia
25:33
Para criar um ruído?
Valter Hugo Mae
25:34
Ao invés de estar, para criar um ruído, para instalar assim uma espécie de horror e de algazarra na praça pública, ao invés de efetivamente fazerem alguma coisa pela habitação, pelo emprego, pelo ensino, pela saúde.
Jorge Correia
25:51
Estamos todos a discutir o acessório ao invés de discutir um verdadeiramente importante.
Valter Hugo Mae
25:54
Sim, há não sei quanto tempo que estamos com as bandeiras LGBT e não sei de quê, como se aquilo tivesse relevância, assim, proibir as bandeiras, que é uma coisa absolutamente ridícula, proibir aquelas bandeiras como se aquilo melhorasse a vida das pessoas em alguma coisa, como se colocasse um teto em cima dos desabrigados, ou curasse o cancro aos doentes, ou alimentasse os esfaimados, Quer dizer, é só mesmo, é intencionalmente uma forma de criar uma perturbação.
Jorge Correia
26:28
O que é mais perigoso? É quem lança essas ideias ou somos todos nós que podemos repetir essas mensagens?
Valter Hugo Mae
26:36
É tudo isso. É tudo isso. Eu tenho para mim, é curioso, desde o início do uso mais doméstico da internet, desde o início, quando apareceram, por exemplo, os blogs, eu tive um blog muito antes, inclusive, dos Facebooks e tudo isso, eu fui sempre de opinião, até porque sou licenciado em Direito, fui sempre de opinião que a internet, como todas as dimensões do humano, precisava de estar sujeita a princípios de legalidade.
27:10
E por isso sempre me perguntaram, ah, mas achas que não se pode na internet fazer isto, fazer aquilo, fazer aquilo outro? Para mim, eu nem consigo entender como é que as pessoas colocam essa dúvida, porque o que não podes fazer fora da internet, é óbvio que não podes fazer na internet, porque a internet não existe no planeta Marte. A internet é uma dimensão da nossa vida, aqui inseridos nesta sociedade, debaixo desta lei.
Jorge Correia
27:42
Mas há lá uns marcianos, não é? Que põem uma máscara, que usam nomes…
Valter Hugo Mae
27:47
Que usar a máscara e que usar aquela armadura, digamos assim. Ali são bravos guerreiros, não é? Na rua talvez não o fossem.
27:57
Mas isto é de facto uma deturpação da cidadania, de toda a lógica da cidadania. Que as pessoas possam convencer-se que corpo a corpo, num passeio, quando se encontram na rua, não se podem insultar e não podem futricar sobre a vida do outro porque isso de facto poderá ser crime, configurar um crime, mas que depois achem que se o inscreverem numa plataforma digital que por estar ali o crime desaparece porque ali é um território de impunidade profunda. Isso é estupidez e a verdade é que desde o início eu tenho apelado para uma legislação consciente em relação ao uso da internet, mas não houve vontade.
28:47
E eu acho que cada vez é mais claro porque é que não houve vontade.
Jorge Correia
28:50
E achas que há alguma maneira de conseguir regular? Esse uso da linguagem, por exemplo?
Valter Hugo Mae
28:55
Há uma vontade de uma vontade do legislador, tem que haver. Existe maneira de legislar sobre todas as coisas. Há países que bloqueiam plataformas e tudo isso, que num instante podem radicalizar, por exemplo, uma proibição. Se uma plataforma não cumpre a lei, se propaga o ódio, se mostra imagens ofensivas, se é responsável pela disseminação de mentiras, de calúnias, de insultos, de perseguições a pessoas e tudo, há países que simplesmente eliminam a plataforma, ela não existe mais naquelas fronteiras.
Jorge Correia
29:31
Apesar de tudo, a questão do boato, hoje ele está na internet espalhado, tem obviamente um intuito e um fim, mas o boato, eu lembro-me da minha aldeia no Alto Minho, e o boato, e a Cuscovelhice, e saber o que é que fazia A, B e C,
Valter Hugo Mae
29:46
era uma coisa profundamente humana. Claro, pois é profundamente humana, mas era… E desgraçado.
29:51
Mas era feita em Surdina. E só na aldeia. O boato, não, e na cidade também, em qualquer prédio há boato, se for um prédio normal.
30:01
Mas a questão é que o boato passa em Surdina, Quem passa o boato não o assume e nega no passo seguinte. E pressupõe, inclusive, por mais… Aliás, uma das coisas cómicas no boato, e por isso é que ele é ótimo para a literatura, é que quem passa o boato adiante piora a história porque quer fazer o outro acreditar a todo custo.
30:26
Quem se interessa por entregar um boato faz um esforço para transformá-lo numa coisa verdadeira. E interessante. O que significa, interessante, o que significa que no fundo ele já sabe que a probabilidade daquilo ser uma mentira é muito grande.
30:42
O problema na internet é que a pessoa que cria ou a pessoa que propaga, propaga de uma forma absolutamente desinteressada, leviana, impuna, desresponsabilizada.
Jorge Correia
30:55
Não participa no processo.
Valter Hugo Mae
30:56
E sem saber exatamente a dimensão do mal que pode estar a causar.
Jorge Correia
31:03
Portanto, quando nós falamos, lá está, quando se cria um boato, quando se conta um conto acrescenta-se um ponto e nós vamos acrescentando marcas de verdade nesse boato, no fundo nós estamos na construção coletiva de uma fantasia que em determinados momentos sabemos que ela faz mal a alguém.
Valter Hugo Mae
31:23
Sim, claro. Ou estamos na massa do sangue. Eu acho que quem o faz deseja sempre, ou melhor, pode ser mal intencionado, mas muitas das vezes é só uma coceira na língua.
31:36
É só uma vontade de contar uma história picante e ter alguma coisa para dizer à vizinhança. E por isso esse garrido e não sei o que é uma espécie de… Agora saía-me um palavrão.
31:50
Mas é uma espécie de entusiasmo de ser também a lusa, sabes? É uma coisa incontida de… Olha, eu é que sei, eu é que sou tão competente que descortino aqui a chave do mistério.
Jorge Correia
32:07
Nunca deixo que a verdade traga uma boa história. No fundo é isto, quando se conta um boato para passar à frente.
Valter Hugo Mae
32:14
Exatamente. Aliás, para um escritor, uma grande, grande, grande frase impõe-se sempre à verdade.
Jorge Correia
32:24
Mas tu tens o direito a isso, não é? Tu tens o direito à fantasia.
Valter Hugo Mae
32:28
Na última análise eu faço ficção, eu não minto, eu ficciono.
Jorge Correia
32:32
Mas na ficção muitas vezes encontramos mais verdade do que na verdade anunciada.
Valter Hugo Mae
32:36
Porque a ficção pode chapar as coisas com uma certa frontalidade, no sentido em que ela propõe um exercício que em si mesmo é irreal. Ela propõe-nos a entrar numa fantasia, numa certa mentira, e por isso no território da mentira todas as verdades podem ser ditas estão feridas da mentira
Jorge Correia
33:02
quando tu constrais este teu século dos imbecis a minha perceção é que a cobiça fica mais humana do que a própria fé sim achas que sim? achas que nós estamos aqui a estamos a perder a fé ou é mais uma vez um questionamento institucional?
Valter Hugo Mae
33:20
eu acho que estamos a perder a fé eu acho que é a concretude das coisas e a documentação imediata de todas as coisas ou a documentação de todas as coisas retira cada vez mais uma fantasia instalada no cotidiano
Jorge Correia
33:38
E nós precisamos dessa fantasia?
Valter Hugo Mae
33:42
Temos precisado sem essa fantasia talvez não possamos ser a humanidade que temos sido até agora, talvez o paradigma seja mudado, se desloque
Jorge Correia
33:52
Mas a ideia quando eu estou a falar de fé e eu não estou só a falar da ideia de Deus quer dizer, a fé pode ser a fé na humanidade, a fé em ser campeão do mundo de futebol
Valter Hugo Mae
34:01
em acreditar em alguma coisa ou até caminhar na direção de um certo mito de uma certa utopia eu acho que isso fica mais difícil com tanta tecnologia com tanta documentação com tanta informação e tanta prova
Jorge Correia
34:16
estamos a tornar pragmáticos ou cínicos?
Valter Hugo Mae
34:18
não, por exemplo, sim as duas coisas também e muito difícil somos cada vez mais difíceis de convencer porque tudo pode pressupomos que praticamente todas as coisas são mentira e gostamos de acreditar no que acreditamos por uma espécie de inclinação emotiva quando as coisas são terríveis enfim, se eu gostar de uma determinada pessoa, se vir uma notícia sobre ela, eu vou ficar ofendido se a notícia for má, e ao contrário eu vou ficar feliz se a notícia for má e eu não gostar da pessoa. Mas a emoção faz parte deste… E é tudo muito emotivo.
35:04
Mas vê, por exemplo, desde que temos estes gatos, todos fotográficos e filmadores e gravadores e não sei o quê, acabaram as aparições de Nossa Senhora e as visões de não sei o quê, acabaram substancialmente os ovnis, ainda no outro dia houve mocinho que ouviu uma não sei o quê, mas imediatamente se percebe o que é e o que não é e o que não sei o que mais. Acabaram os avistamentos, já não há o Bigfoot, já não há o Homem das Neves, já não há o Lagunés, já não há porcaria nenhuma. Isso é bom porque no fundo é mais difícil que nos mintam, porque se quiserem, com algumas coisas, se nos quiserem mentir, vão ter de fazer um esforço maior. Por outro lado, esgota uma certa dimensão de um imaginário mais à solta, que fertiliza muito a nossa, que fertilizava muito a nossa vida e que atribuía muita maravilha à vida.
36:06
Eu acho que a fé vem muito daí, não é? Se tu construires uma maravilha, se conceberes uma maravilha em relação a alguma coisa, quando estiveres diante dela, vais tender a ver essa maravilha. E mesmo que ela não seja uma evidência, que não esteja em pedra alguma, tu vais sentir, serás levado ou convidado a um pressentimento de uma força, de uma energia, de uma qualquer coisa.
36:34
Porquê? Porque vens impressionado com alguma coisa anterior. É como ouvires falar dos templos de Angkor no Camboja, que são deslumbrantes e conta-se tanto e fala-se tanto sobre uma espectralidade que quando de facto chegas lá e aquilo não são senão uns templos bonitos num espanto cheio de turistas, eventualmente consegues achar que quase vezes os quemeres de um lado para o outro e que essa espectralidade existe porque ela está inscrita na tua própria imaginação e por isso a partir daí tu acreditas numa dimensão imaterial do que está ali evidente.
37:17
Há um efeito de sugestão no fundo? Há um profundo efeito de sugestão.
Jorge Correia
37:21
Eu estou a pensar isto porque quando penso num país, quando penso em Portugal, penso sempre que nas nossas mitologias no fundo, não é? Quer dizer, o conjunto das coisas, os portugueses grandiosos nos descobrimentos, mas depois não necessariamente nas coisas negativas.
Valter Hugo Mae
37:39
Grandiosos na bravura, tanto na bravura quanto na crueldade, não é?
Jorge Correia
37:43
Claro, mas não há essa ascensão, não é? Nessa mitologia.
Valter Hugo Mae
37:47
É porque, sim, existe. Mas tu hoje com os telefones já é mais difícil que te digam assim, olha, fomos grandiosos a fazer não sei o quê. Porque alguém vai mostrar um vídeo e eventualmente vais perceber que…
Jorge Correia
38:02
Que não era assim.
Valter Hugo Mae
38:03
Enfim, de facto chegaram ali, mas talvez tenham pisado na cabeça da foca que estava sossegada.
Jorge Correia
38:11
Eu estou a falar disto porque nós estamos em tempos de Mundial de Futebol e eu fiz algumas perguntas sobre isso a pessoas que acompanham o futebol a propósito da mitologia, não é? daqueles grandes jogadores que fiziam coisas extraordinárias. E essa pessoa disse-me, pois é verdade, mas é que nesse tempo não havia jogos a toda a hora, nós não víamos todos os minutos, nós víamos apenas uma crónica num jornal que relatava o ato heroico de um jogador de um jogo que nós não víamos.
Valter Hugo Mae
38:38
E o jornal galvanizava propositadamente, entusiasmava, criava uma sensação E por isso, eventualmente, o repórter tinha por missão fazer a maravilha, escrever a maravilha, exatamente para que os leitores pudessem apaixonar-se por uma determinada escrita.
Jorge Correia
38:59
No fundo, como eu disse a Ilíada, contar o ato heroico.
Valter Hugo Mae
39:03
Exatamente. Mas essa é a força da linguagem, não é? É a força da linguagem.
39:06
Eu há uns tempos escrevendo sobre os Lusíadas dizia que o Camões teve uma proeza heroica porque ele conseguiu mostrar que escrever um poema poderia ser uma proeza tão heroica quanto efetivamente dobrar o cabo da Boa Esperança e conquistar o Adamastor, abater o Adamastor. E por isso o saber contar, o modo como se conta alguma coisa é em si a construção do herói. É em si a sedimentação, se quiseres, da dimensão do herói.
Jorge Correia
39:49
De onde é que vêm as tuas ideias?
Valter Hugo Mae
39:52
De toda a parte, de uma insatisfação, de uma angústia, de uma incompletude, de um pressentimento, de um desassossego, como diria o Fernando Pessoa e o José Saramago, de todas as coisas, mas sobretudo das coisas silentes ou das pessoas silentes. É curioso.
Jorge Correia
40:14
Que pessoas são essas ou que momentos são esses?
Valter Hugo Mae
40:16
As que me provocam, aquelas que eu vejo mas que não se pronunciam, as que calam antes de qualquer resposta as que não entregam não entregam sequer o nome há qualquer coisa há qualquer coisa em quem eu vejo e sobre quem não sei nada que me maravilha que te interpela?
Jorge Correia
40:37
sim, sim e tu precisas de fazer perguntas a esses momentos?
Valter Hugo Mae
40:39
não, não, não, eu invento tudo o que as pessoas são tu requerias aquilo que conseguiste percepcionar? quando a parte para os livros muitas das vezes as personagens são pessoas que eu estive que eu observei durante às vezes uns breves minutos não sei, nunca mais vi Mas ouviste-as? Não, não preciso de ouvir nada são pessoas que me impressionam pela maneira como estão que têm algum tipo de estranheza alguma subtilé alguma nuance, algum detalhe que de repente parece uma especificidade qual eu nunca tinha reparado, ou que me oferecem uma pergunta.
41:24
As pessoas, no fundo, só deixam as perguntas, eu não posso perguntar nada, porque todas as respostas que me descem são desnecessárias. Eu preciso das perguntas, eu preciso que elas me ofereçam as perguntas. Por isso, eu não faço inquérito, não faço pesquisa nesse sentido.
Jorge Correia
41:38
Estás num sítio, estás a olhar, estás a olhar o mundo, estás a olhar aquela pessoa que fala, ou aquela pessoa que se… Sim, às vezes encontro assim, olha, posso dizer, por exemplo,
Valter Hugo Mae
41:45
a Isaura de um dos meus livros do Filho de Mil Homens ela vai buscar o nome a uma leitora de Lisboa que na altura eu não conhecia, que foi uma senhora que me pediu para assinar o livro e que me disse chamar-se Isaura mas a figura daquela mulher como ela está desenhada, a personalidade daquela mulher como está desenhada no livro vem de uma senhora que viajou sentada no comboio à minha frente numa viagem de cerca de 50 minutos E falaste com ela? Não, não, ela estava na vida dela, estava na minha vida, mas eu achei a mulher estranhamente acoçada, estranhamente desconfortável, mas ao mesmo tempo não era um desconforto que fosse triste, era resignado era assim um misto de eventualmente não se sentir bonita talvez não estar saudável mas ao mesmo tempo não era idosa também não parecia estar morredoira era qualquer coisa naquela mulher que me fazia sentir uma solidão profunda e uma viagem na qual ela não acreditava, que não adiantaria nada, como se estivesse em movimento para ir ao encontro de alguma coisa que não seria solução nenhuma. E aquilo impressionou-me tanto, a imagem daquela mulher ali encurralada, em movimento, mas entalada na vida, encurralada num canto da vida sem saber sair dali que ela virou uma personagem do meu livro
Jorge Correia
43:31
como é que se tira tanta informação de uma pessoa?
Valter Hugo Mae
43:35
as pessoas por vezes são intensas são tensas e intensas há qualquer coisa em determinados instantes da vida que valem por anos inteiros de distração, digamos assim
Jorge Correia
43:48
e estão-te a dizer tudo, no fundo tu estás ali frente a frente
Valter Hugo Mae
43:50
há uma vulnerabilidade em que entregam muita coisa, porque eventualmente a cidadania faz-se de uma dimensão cosmética de uma espécie de disciplina que montamos, que aprendemos para sair à rua e por isso
Jorge Correia
44:06
Como é que tu estás tão bem?
Valter Hugo Mae
44:07
O que vemos na rua normalmente não é literário a pessoa que passa na rua a maneira como passa e aquilo que carrega na expressão normalmente não é literário porque não é que não seja sincero porque é uma armação que as pessoas conseguem mas não é transparente, não transparece em absoluto mas bem reparado e em determinadas situações encontras sempre alguém, cada dia encontras alguém que está desarmado na rua
Jorge Correia
44:37
Como é que tu se consegue ser uma esponja como tu és como acabaste de demonstrar cativando as almas das pessoas como o Belimunda e depois levas isso
Valter Hugo Mae
44:48
É uma espécie de ladroagem, depois de tanta conversa sobre a Constituição e a lei É uma espécie de ladroagem, porque é uma espécie de roubo feito em cima dos recontos secretos das pessoas.
Jorge Correia
45:03
Toda a gente tem a sua história, certo?
Valter Hugo Mae
45:04
Toda a gente tem história. Mas sabes que é um exercício muito interessante, porque por vezes eu escrevo coisas para alguns amigos. Acontece de vez em quando alguém precisar de escrever alguma coisa, precisa de relatar ou de se explicar ou sobre si ou sobre o que pensa ou sobre o que quer portanto tu és o Sirão de Bergerac não ele era mais feio do que eu, mais sensual
Jorge Correia
45:34
e então escreves desculpa
Valter Hugo Mae
45:37
escreves para os seus amigos eu às vezes ajudo a escrever e as pessoas dizem assim, é porque eu precisava de explicar mas eu também não sei eu também não sei mas é sobre não sei o que eu preciso de me apresentar E é muito curioso que… Eu não sei se é por eu poder usar uma plasticidade das palavras, uma elasticidade das palavras, mas depois de lançadas as palavras ao texto, é muito curioso ver que as pessoas normalmente identificam-se e acham que esclarecia alguma coisa que elas não conseguiriam dizer. É um efeito espelho?
46:19
é um efeito espelho, mas é muito curioso porque é um pouco como acontece no horóscopo, sabes? Tu se fores direto, eu sou o balança. Se eu ler o horóscopo de hoje para o balança, eu vou tender a achar, ah sim, isto pode ser. Mas se eu fosse ler o caranguejo ou o carneiro ou o touro não sei do que, aplica-se tudo dá tudo certo. E a sensação que eu tenho é que nós somos muito mais universais do que nos convencemos e por isso quando temos uma certa angústia de explicação, a explicação que possa ser feita, se for minimamente se deitar mão de algumas forças que são comuns, que são inevitáveis tanto serve para um amigo como para uma amiga como para o 19º andar para a vizinha que eu nem sei bem quem é.
Jorge Correia
47:11
Deixa-me destruir a tua falsa modéstia. Aquilo que tu tens é a escrever uma fábula da nossa vida com o qual todos nos reconhecemos e isso é uma habilidade
Valter Hugo Mae
47:24
suprema. Talvez, não sei ser, não sei ser suprema mas é talvez acreditar que há uma forma de nos explicarmos a todos, talvez.
Jorge Correia
47:38
No fundo tu pegas naquilo que cativas cada um de nós das nossas dores, dos não ditos e pegas nessa ferramenta em ti muito elástica que é a linguagem para plasmar isto num livro.
Valter Hugo Mae
47:51
E depois os livros funcionam porque de alguma forma todos nós cabemos ali num canto qualquer.
Jorge Correia
47:59
E funcionam quando acabaram de estar escritos ou apenas quando são lidos?
Valter Hugo Mae
48:04
Para mim funcionam logo ali mas depois o objetivo máximo de um livro é convidar ao diálogo. Não exatamente desta forma, porque um dia eu não estarei cá e não poderão falar comigo, mas o próprio livro, a própria leitura de um livro é de facto um gesto de diálogo. E por isso, de facto, ler Dostoevsky é estar à conversa com Dostoevsky. E essa é uma das grandes magias da literatura.
Jorge Correia
48:39
Há um diálogo, no fundo, que está ali montado, que não é um diálogo surdo, é eu vou tendo coisas, vou fazendo perguntas?
Valter Hugo Mae
48:45
Há uma espécie de cadeia de emissão e recepção recíproca, porque o livro é alimentado pelo leitor também. No fundo, isso que perguntavas se o livro só se consuma quando é lido, o livro só pode ser alimentado pelo leitor, e por isso, enquanto tal, o livro está vazio e é o leitor que ocupa os seus espaços e ocupa com aquilo que sabe. No fundo, cada pessoa só lê o que sabe ler. Podemos estar a ler o mesmo livro, mas eu leio o que eu sei e tu lerás o que sabes. E por isso estamos diante de um interlocutor que tem a força que nós soubermos dar-lhe.
Jorge Correia
49:40
E isso aplica-se também às crianças. Tu escreveste livros também para crianças, não é? Sim, sim. As crianças são uns leitores, uns destinatários bastante…
Valter Hugo Mae
49:48
Exigentes, porque aquilo que não opera efeito, elas acusam imediato. Não querem saber? É de fugir. A criança é muito sincera e não tem estratégias para atacar defendendo o outro.
Jorge Correia
50:05
Não maquilham a coisa.
Valter Hugo Mae
50:06
Nós tendemos a dar respostas às vezes contundentes, mas defendendo, digamos assim, o adversário, eu diria o interlocutor. A criança não tem essa maturação e por isso ao responder ou ao rebater, normalmente ataca de uma forma violenta. E isso assusta e faz com que muitos autores não queiram escrever para crianças ou não saibam escrever para crianças e eu devo dizer que eu durante muitos anos não escrevi e passei a escrever depois de um menino numa escola me ter perguntado que lata era a minha de estar ali a falar com eles sem nunca ter escrito para
Jorge Correia
50:55
para eles. No fundo é falas falas falas mas ainda não fizeste nada para mim
Valter Hugo Mae
50:59
mas não fizeste nada que eu possa ler por isso o que é que estás aqui a fazer porque eu ia muito às escolas imbuido daquele espírito de convidar os alunos para a leitura, de fazer assim uma espécie de trabalho cívico e depois levei nas trombas daquele menino que devia ter pai uns seis anos e disse, então, mas conta lá uma história e eu não sei, mas não tens um livro, não escreveste um livro, escrevi livros mas são histórias muito esquisitas, não dá para contar aqui
Jorge Correia
51:31
E não são para ti.
Valter Hugo Mae
51:32
E não são para ti. Nunca escreveste um livro para crianças. Não escrevia.
51:35
Então é o que estás aqui a fazer? Olha que vergonha. Mas isso é uma grande pergunta.
51:39
Porquê é que não escreves? Exatamente. E porquê é que não escreves?
51:42
De facto, porquê é que eu não escrevo? Eu acho que não escrevia para crianças porque eu não sabia. Por mais que falasse com elas e achasse que me entendia na conversa com elas, eu não estava muito convencido e ainda não estou muito convencido de que me é fácil entender o lugar da criança, aquilo que a criança necessita.
Jorge Correia
52:08
Elas têm umas portas especiais?
Valter Hugo Mae
52:10
Têm umas portas especiais e depois são muito dispares. A infância é muito terrível.
Jorge Correia
52:17
Mas isso é uma boa notícia ou não?
Valter Hugo Mae
52:19
É uma boa notícia, mas é terrível para quem quer igualar ou criar paridade num grupo de 30
Jorge Correia
52:31
crianças. Eu vou escrever uma história que todos vós, os 30, vão conseguir perceber do que é que eu estou a falar.
Valter Hugo Mae
52:36
Sim, mas o problema é que podes ter 30 crianças metidas numa sala com 8 anos de idade, por exemplo. E dependendo da métrica que usas para a idade de cada um, os vão ter 15 anos e outros vão ter 3. Porque são muito diferentes maturidade dos meninos, aquilo que eles já trazem de casa, as suas sensibilidades e então no que diz respeito aos rapazes e às raparigas, é abissal. Uma menina com 10 anos está substancialmente preparada para sobreviver nem que seja uma semana e um menino com 10 anos não sobrevive nem 10 minutos.
Jorge Correia
53:20
Isso não é bom para o nosso género. Acabas de destruir qualquer possibilidade de…
Valter Hugo Mae
53:26
É que as meninas são, de todas as maneiras, assim, isto é uma generalização, é desfavor dos rapazes, mas as meninas parecem ser, de todas as maneiras, muito mais amadurecer, muito mais depressa e parecem ser ampliar as suas capacidades de uma forma panorâmica.
Jorge Correia
53:50
Não há expressa para nós, é isso que tu estás a dizer.
Valter Hugo Mae
53:51
Mas vamos sendo especializados assim, à vez e perante uma e outra qualidade. E as meninas parece que melhoram em tudo muito mais depressa.
Jorge Correia
54:03
Nós podemos sempre aproveitar disto. Olha, além de escritor pintas, já cantaste também, vais…
Valter Hugo Mae
54:10
São experiências, não são coisas sérias. Para recolher o quê? Para me divertir.
54:17
Para sentir o que seria a vida de outra forma e o quanto é interessante, o quanto seria interessante ser o Caravaggio fazendo um burrão. O que é que te diverte? Olha, eu preciso muito de rir, de não me levar demasiado a sério, de achar que as coisas atrozes que inevitavelmente acontecem só se justificam se nós nos levantarmos outra vez para uma certa felicidade, para uma certa alegria.
54:55
E por isso gosto muito de encontrar as minhas pessoas, gosto muito de as descompor com as neiras e manter a impressão de que vou envelhecendo sem amargurar, sem me tornar casmurro e maldisposto e ingrato. sobretudo a questão da gratidão é muito importante para mim, manter-me grato porque de alguma forma a minha vida tem sido bastante privilegiada Walter Gomen, obrigado obrigado eu, foi um prazer
Jorge Correia
55:33
Pergunta simples um programa sobre comunicação para quem quer boas respostas
