Há uma cena que fica. Uma rapariga de catorze anos entra numa audição, engasga-se no monólogo, tropeça no diálogo e prepara-se para ir embora. Pedem-lhe uma improvisação com uma cadeira. Ela pega no pânico que traz dentro e transforma-o em personagem. Faz toda a gente rir. O medo não desapareceu naquele instante. Mudou de função.
Falámos de voz durante quase uma hora e percebi que a voz é o sítio onde as pessoas se traem primeiro. Sobe quando discutimos, mesmo quando tentamos parecer calmos. Desce quando falamos com quem amamos, mesmo quando não queremos que se note.
Inês Castel-Branco diz que a genialidade está na contenção, que os melhores atores são os que dizem pouco. Numa época em que se comunica aos gritos e em maiúsculas, é uma ideia quase subversiva.
No fim perguntei-lhe o que sobra dela depois de tantas personagens. Disse que ainda não sabe responder. Fiquei com a impressão de que essa é a resposta mais honesta que existe.
A conversa completa com Inês Castel-Branco está disponível no Pergunta Simples.
Jorge Correia
00:00
Isto é um episódio da série Essencial, do Pergunta Simples. Neste verão escolhi os episódios de que os ouvintes mais gostaram ao longo dos últimos meses. Todos os episódios estão no RTP Play, no Spotify, no YouTube e em todas as outras plataformas mundiais, incluindo por e-mail em perguntasimples.com.
00:19
Se é ouvinte e ainda não subscreveu na plataforma onde está neste momento a ouvir, faça-o agora. É gratuito e ajuda o programa a chegar a mais pessoas. Boa escuta.
Inês Castel-Branco
00:34
Quando eu trabalho com a voz em rádio, principalmente quando temos estes cascos nos ouvidos, eu tenho a tendência de ir para este tom. Porque estamos a falar ao ouvido das pessoas. Porque estamos a falar ao ouvido das pessoas, porque eu gosto mais deste tom, acho mais bonito e sensual e não tão irritante como o tom agudo.
00:53
Mas numa personagem o agudo servia, nomeadamente personagens cómicas, personagens mais infantiloides. Mais histéricas? Mais histéricas.
01:03
Se servir, eu uso. Eu uso agudos. Não tenho vergonha nenhuma de ser irritante, como não tenho vergonha de estar feia em personagens que tiver de estar, ou de engordar ou de emagrecer.
01:14
Eu acho que isso é que é uma das partes mais extraordinárias da nossa profissão. É nós não sermos nós. É a outra pessoa que está ali.
Jorge Correia
01:24
Pergunta simples. Um programa sobre comunicação. para quem quer boas respostas.
01:33
Algo que fazemos todos os dias sem pensar. Falamos. E ao falar, revelamos coisas que não planeávamos revelar.
01:41
A voz muda quando estamos nervosos, antes de percebermos que estamos nervosos, fica mais doce quando falamos com quem amamos, mesmo que não queiramos que se note, e vai para os agudos quando discutimos, mesmo quando tentamos parecer calmos. Comunicamos antes de decidir que vamos comunicar. A voz não mente, ou então mente de uma forma tão particular que a mentira revela mais do que a verdade.
02:05
Nesta conversa fica-me uma cena. Uma rapariga de 14 anos, tímida, que chega à primeira audição de teatro da sua vida. Corre tudo pessimamente.
02:14
Lenga-lenga decorada, o diálogo por baixo, o entrevista ainda pior. Quando está prestes a ir embora, pede-lhe que improvise com uma cadeira. E ela usa todo o pânico que está dentro de si, toda a emoção.
02:27
E liberta essa emoção. Faz de conta que é uma doente psiquiátrica que se recusa a sentar porque a cadeira é amarela. E faz toda a gente rir.
02:35
Nesse momento, pela primeira vez, sente uma coisa que a moda nunca lhe dera. Ela não sabe bem o que é e por isso ficou 25 anos à procura. A minha convidada de hoje é a atriz Inês Castelo Branco.
02:46
Nunca quis ser atriz, quis ser advogada. Começou como modelo aos 14 anos, a morrer de vergonha em cada sessão fotográfica. Foi uma das vozes que Portugal ouviu todos os dias na publicidade.
02:57
construiu a voz de uma personagem real, Snub Kassiz, que não deixou nenhum arquivo sonoro para ela poder ouvir e a partir de gravações de uma amiga sueca, de uma viagem a Estocolmo, conseguiu compreender como é que os nórdicos comunicam com o corpo. Aprendeu que são contidos, que bebem à noite, para se soltar dessa contenção. E quando lhe pergunto, ao fim de quase uma hora de conversa, o que é que sobra dela depois de tantas personagens, diz-me que ainda não sabe responder.
03:29
Viva, Inês Castelo Branco És atriz Hoje és menina da telefonia Estás aqui na telefonia Estás a falar da voz
Inês Castel-Branco
03:37
Eu gosto do que tu quiseres
Jorge Correia
03:39
Tu gostas deste ambiente? Gostas do estúdio?
Inês Castel-Branco
03:42
Gosto, gosto muito Eu nunca fiz rádio na verdade Quer dizer, fiz os podcasts na verdade Mas era uma coisa feita em estúdio Sozinha com o meu editor, o Paulo E com o tempo e voltávamos atrás e voltávamos à frente era uma coisa mais de pós-produção do que do direto e eu acho que o engraçado da rádio também é o direto
Jorge Correia
04:03
Eu disse, Fernazinho, mas no podcast no que tu gravavas não, tu fazias uma frase ou um trecho e depois repetias?
Inês Castel-Branco
04:08
Não, na verdade eu gravava os meus convidados sem interrupções, portanto não era uma entrevista, eles contavam a história na primeira pessoa e eu gravava-os sem interrupções depois, mas eu estava ao lado deles no final da história se eu achasse que há promenores que podiam ficar interessantes perguntava-lhes esses pormenores e eles gravavam mais essas perguntas e depois numa fase depois desta já o convidado não estava eu gravava a minha narração que eram interrupções ao longo do episódio com informações pertinentes no caso do terremoto sobre qual era a escala de Richter quantas pessoas morreram etc. E tens tudo escrito? Tenho tudo escrito, que eu escrevia A minha narração era a Isabel Lindin, que é uma jornalista que é a minha amiga também. E eu depois alterava para a minha linguagem.
04:59
A linguagem dela é mais jornalística. E eu depois adaptava um bocadinho para mim e para a minha forma de falar. E depois quem fazia a magia da sonoplastia era o meu Paulo Castanhar.
05:12
Eu estava ao lado dele e dizia exatamente o que é que queria. Agora quero aqui um pianinho. Vamos lá às músicas de pianinho.
05:18
Agora quero aqui uma travagem brusca. Tudo coisas que eu fazia antes. sozinha e demorava 3 horas e meia para pôr um efeito e ele demorava 4 segundos portanto a minha vida ficou bastante mais facilitada quando passei a trabalhar com ele
Jorge Correia
05:31
sendo que tu num caso em particular num podcast, tu tiveste 3 anos para lançar um podcast
Inês Castel-Branco
05:38
como é que se está 3 anos? o inacreditável primeiro porque eu tive a ideia mas não tinha confiança, autoconfiança achei na altura havia poucos ainda não havia esta moda, achei que as pessoas iam achar que era ridículo, achei que sozinha fui aprender a editar, eu já sabia editar vídeo, portanto editar som não é muito diferente, mas sei lá, achei, tinha aquele síndrome de impostor, não é? Tipo não vai correr bem depois comecei a fazê-lo na mesma depois pandemia e comecei a arranjar formas de gravar à distância com as pessoas em casa no seu telefone, mas a qualidade não era a mesma e eu tinha lhe dado um nome que era Contado Ninguém Acredita e depois fui ao programa aos 5 para a meia-noite no desconfinamento falei do podcast, disse estou a preparar um podcast chama-se Contado Ninguém Acredita e fui contactada por um jornalista que me disse eu tenho um podcast com esse nome não podes lançar que entretanto ele tinha criado porque eu obviamente não escolhi o nome e fui ver se havia e na altura não havia mas demorei tanto tempo que quando falei sobre lançá-lo já havia Então fiquei um bocadinho Aí já tinha tipo quatro episódios gravados E fiquei tão irritada Porque todos os convidados diziam Olá, estou no podcast contado, ninguém acredita E eu fiquei tão irritada desse revés Que deixei-o na gaveta mais um ano Ficaste frustrada Fiquei muito frustrada E depois lá me convenceram a apresentar A ideia, pelo menos os pilotos A uma rádio A minha agente Mandou para a rádio comercial Porque na altura Eu estava a trabalhar E agora estava a trabalhar com a TV E são do mesmo grupo E achámos que fazia sentido vender a primeira ideia A uma marca do grupo E a rádio comercial imediatamente disse Queremos Ela que venha, comece a fazer aqui Com o nosso editor, ajudamos na pré-produção E assim Nasceu e cresceu Foi um sucesso desde o primeiro dia Até hoje, tirando os podcasts do Observador Estes que eu também fiz uma narração Não há muitos podcasts assim com narrativa Com uma história, que contem uma história Normalmente são sempre entrevistas E então foi um sucesso E ainda recebo mensagens hoje em dia a pedirem-me para fazer mais
Jorge Correia
08:06
E tu tens vontade?
Inês Castel-Branco
08:08
Eu tenho vontade, mas eu não quero fazer Se não tiver histórias boas E as histórias que me começaram a chegar não eram tão boas Agora ando com muita vontade de fazer um de crime
Jorge Correia
08:17
De crime verdadeiro ou de crime imaginário?
Inês Castel-Branco
08:20
Pois, a minha dúvida é essa Porque o True Crime vende muito E eu sou-me fã Mas a forma como nós podemos aceder às provas E ao caso nos Estados Unidos não é como cá E se calhar foi um bocadinho como agora este do Carlos Castro Que eu estive a ouvir Que eu sou fascinada por essa história informação que está nesses seis episódios eu já a tinha é só fazer uma pequena pesquisa então estou na duvida se faço true crime ou se faço fake crime a fingir que é true crime
Jorge Correia
08:55
e achas que se nota se fizermos uma coisa ou outra quando nós estamos a falar de casos reais obviamente é que mais reportagens nós queremos saber já sabemos qualquer coisa da história mas depois queremos saber qual foi a motivação do criminoso O que é que aconteceu verdadeiramente No fundo o segredo do correr da manhã Não é preciso
Inês Castel-Branco
09:17
Eu também gosto da parte judicial Não só da parte forense Mas da parte de como é que se resolve Em tribunal o caso Também acho super interessante
Jorge Correia
09:26
Como é que eles discutem, como é que os advogados defendem Como é que o Ministério Público acusa
Inês Castel-Branco
09:29
E sim, adoro essa parte também
Jorge Correia
09:32
O teu passado Tem um traço qualquer que podia acabar em advogada Ou não?
Inês Castel-Branco
09:37
Eu queria ser advogada quando andava no décimo décimo primeiro mas eu não era muito académica não gostava muito de estudar portanto comecei a pensar no código penal naquelas leis todas que eu teria de decorar e foi doloroso portanto, na verdade eu estava um bocado perdida, não sabia e eu acho que queria ser advogada por causa dos filmes de advogados e depois comecei a perceber que havia vários ramos da advocacia e era difícil identificar-me com um depois dessa altura identifiquei-me com um de reinsertão social porque sempre tive este lado de querer ajudar as pessoas que não são privilegiadas de querer ajudar mas depois desisti e na altura já trabalhava como modelo já ganhava algum dinheiro embora não gostasse muito de trabalhar como modelo o salto para atriz era meio Óbvio E fui empurrada Não fui eu que dei esse salto Fui literalmente empurrada pela minha buquer
Jorge Correia
10:44
O que é que é uma buquer?
Inês Castel-Branco
10:45
É uma agente, mas de moda
Jorge Correia
10:47
Portanto, quem é que tu descobre? A Jean E descobre porquê? Olha para ti e diz
Inês Castel-Branco
10:53
Esta rapariga é muito bonita Estou a almoçar com a minha mãe num restaurante em Campo de Arico E esta senhora com um aspecto muito fora do normal Com uma boina azul elétrica Vestida de uma forma estranha estamos a falar anos 90 está a olhar para mim o almoço todo e eu comecei a ficar um bocado desconfortável e ela disse, levantou-se foi direto à minha mãe e pediu se me importava de me levantar dar uma voltinha e a minha mãe como é esperta já tinha percebido onde é que aquilo estava a ir e ela disse eu trabalho numa agência de modelos que é a Elite e gostávamos muito que tu fosses para a agência achamos que tens potencial e está aqui o meu cartão Quando quiseres é só ligar e marcamos o encontro
Jorge Correia
11:39
Tirou-te uma pinta rapidamente num restaurante
Inês Castel-Branco
11:41
Sim, mas eu não estava nem aí Achei aquilo tipo ridículo Quantos anos é que tinhas? 14, 15, 14 Eu andava de patins em linha com calças largas Era inliner e andava na rua sempre com um grupo de putos Era tudo menos aquilo que eu queria
Jorge Correia
11:57
Portanto eras uma dread
Inês Castel-Branco
11:58
Não tinhas nada esse o perfil Ou tentava fugir à beta sendo uma dread
Jorge Correia
12:04
Mas há aí uns tracinhos de beta, certo?
Inês Castel-Branco
12:06
Sim, não posso fugir às minhas origens
Jorge Correia
12:10
E portanto ela olha para ti e diz Ok, está aqui alguém que tem perfil de modelo Apesar de tu não seres muito alta
Inês Castel-Branco
12:18
Não, eu acho que ela basicamente deve ter achado que eu tinha uns olhos muito bonitos Uma pele bonita, não sei, não sei Não posso responder por ela Na verdade eu percebi, porque eu ainda trabalhei com ela uns anos Ela infelizmente já morreu Mas eu percebi que ela se identificava Ela via-me como ela era quando era jovem. Portanto, ela tinha uma preferência por mim. Um efeito espelho.
12:40
Porque se identificava, sim. E eu gostava muito dela e ela deu-me imensa coisa. O que é que tu aprendeste com ela?
12:47
Olha, fiquei com um bocadinho mais de autoestima. Ah, depois a minha mãe esperou um ano, porque eu disse, claro que não, não quero. E depois, passado um ano, um dia disse-me, vou-te levar a um sítio.
12:57
E levou-me lá. E estava a Ana Borges, que era a diretora da agência, a receber-me. e o Ricardo Pereira que tinha acabado de ganhar o Elite Model Look que também não era ator com um fatinho branco nunca mais me esqueço super simpático e ele disse isto é o Ricardo, acabou de ganhar o Elite Model Look nós queríamos fazer uma sessão fotográfica sem compromisso e depois vês como é que te sentes tu e eu?
13:22
não, ele que por acaso estava lá eu e um fotógrafo profissional com maquiadora com stylist, com tudo e eu fiz, e lembro-me de morrer de vergonha Nessa primeira sessão de fotografias Aliás eu morri de vergonha Durante os primeiros anos todos da moda Eu era um caco tímida Mas nessa sessão fotográfica Houve uma fotografia que foi escolhida Para ser capa de revista E a partir daí Comecei a trabalhar bastante em fotografia Nunca em desfiles, em fotografia E agindo sempre a puxar por mim Sempre a puxar por mim Até que um dia ela disse Houve um verão que ela disse Eu acho que tu devias tirar um curso de atriz porque acho que nós sentimos aqui que tu podias ganhar com sair um bocado da casca com perder um bocado dessa timidez como modelo, os clientes também dizem o mesmo que tu és muito bonita mas falta-te atitude e tens muita timidez e se calhar resolvia-se com um curso de teatro tudo o que a Gim diz hoje em dia eu respeito portanto lá fui eu fazer uma audição para entrar num curso da Patrícia Vasconcelos fala-me dessa audição Esse por acaso foi nessa audição que eu descobri que se calhar o meu caminho era por aqui Porque eu tinha de preparar um monólogo e um diálogo E depois quando te chegavas tinhas assim um corpo docente Que era a Patrícia, o António Pedro Vasconcelos, o Vítor Norte, a Elsa Valentim E acho que eram estes quatro E são tribunal E imagina eu que nunca tinha feito nada na vida e foi aquela coisa típica aquele erro principiante do, bem, começa pelo menólogo se te enganares não volto-se atrás e eu cada vez que me enganava voltava atrás porque tinha aprendido uma lenga-lenga não tinha decorado aquilo com uma lenga-lenga depois se eu para o diálogo correu pessimamente depois eles fizeram uma pequena entrevista péssimo e quando eu estava a ir embora já tinha desistido da ideia de ficar eles perguntaram, disseram, espera, falta aqui uma improvisação Tens de improvisar com essa cadeira E aconteceu de facto ali uma magia qualquer Em que eu usei os meus nervos e a cadeira E fiz todos rir muito Eu fingi que era uma paciente Que ia a uma consulta de psiquiatria E que me recusava a sentar na cadeira Porque a cadeira era amarela Então usei os meus nervos para fazer de maluquinha Basicamente E usei a cadeira como objeto da minha repulsa ele fez-me a mim também ter uma sensação que eu nunca tinha tido na moda e que estava a ter pela primeira vez naquela audição. E depois fiquei, fui fazer esse curso e a partir daí não parei de fazer curso até que comecei a trabalhar e depois não parei de trabalhar até hoje.
Jorge Correia
16:14
Mas o que teve de especial essa sensação? É curioso porque tu descreves-te como alguém com uma autoestima baixa, que tem medo, que precisa de ser validada. E eu olho para ti agora e digo assim, quer dizer, ela está aqui, ela está-me a contar aqui uma fábula da sua vida juvenil.
Inês Castel-Branco
16:32
Passaram 30 anos, eu agora tenho 44.
Jorge Correia
16:34
E portanto agora já não…
Inês Castel-Branco
16:36
Estou muito melhor, estou muito melhor. E o facto de ter lançado o podcast e ter corrido bem trouxe-me uma força e agora já não tenho medo de lançar o próximo. E há muita coisa que a idade me trouxe.
16:49
Eu sempre tive muito medo da validação dos meus pares. E agora já me estou mais nas tintas. Claro que dou importância, principalmente se são pessoas que eu admiro, dou importância à validação deles, mas já não é isso que me move.
17:04
E acho que a idade trouxe-me isso. E o facto de achar que profissionalmente dou sempre o meu melhor. É raro o trabalho em que eu digo, ah, podia ter feito, podia ter dado mais, podia ter feito de outra maneira.
17:21
Mas dado mais, acho que dou sempre o meu melhor.
Jorge Correia
17:23
O que é que é dar? Porque no fundo Tu tens ferramentas, tens trabalhos que te pedem Mas quando tu estás a fazer Imagino uma telenovela Aquilo é uma pressão quase industrial Não há muito tempo de pausa De construção
Inês Castel-Branco
17:37
Mas eu também gosto Há tempo de construção no início Há alguns ensaios, muito poucos Mas eu gosto de fazer esse trabalho em casa Esse trabalho de casa Se a personagem sabe fazer joias Aprender a fazer joias Se a personagem cozinha a aprender a cozinhar se a personagem é advogada, ir para um tribunal ver como é que se comportam os advogados eu gosto de fazer esse trabalho de pesquisa adoro, acho que é das partes mais divertidas na novela de facto entre novela cinema e teatro a novela é de facto uma fábrica muito rápida de fazer
Jorge Correia
18:11
quantas horas é que são normalmente? um dia de trabalho?
Inês Castel-Branco
18:14
10 a 12 antigamente eram 12, depois o sindicato veio refilar e agora já são menos 10 a 12, sim, está sempre aí no meio Mas uma das coisas que eu gosto em fazer novela É precisamente essa adrenalina De ter de fazer bem em pouco tempo e rapidamente Aliás, eu gosto muito de bater os meus próprios recordes Então, falo meus recordes Nesta novela, por exemplo, imagina Consegui fazer 12 cenas até à 1 da tarde E vou almoçar, tipo, fiz 12 cenas até à 1 da tarde 12 cenas? Sim, bati-me o recorde pessoal nesta novela várias vezes Como é que se faz duas cenas numa manhã? Tente-se saber muito bem o texto E o colega que está a contracionar connosco também Não estamos a fazer nada sozinhos E a equipa também tem de estar muito concentrada Para não haver erros E às vezes acontece essa magia Estamos todos muito alinhados E conseguimos ser rápidos e bons Outras vezes a rapidez não está necessariamente associada à qualidade Às vezes estamos a fazer rápido e não fica tão bom
Jorge Correia
19:21
E porque é preciso fazer mesmo mais rápido É mais fácil suspeito Trabalhar à segunda e à terça-feira Do que propriamente à sexta-feira
Inês Castel-Branco
19:28
Eu odeio segundas Adoro sextas Eu chego à sexta com uma pica brutal Porque vem o fim de semana E chega à segunda Tipo, já acabou o fim de semana Ondeio segundas
Jorge Correia
19:42
Ficas com aquele síndrome do domingo à noite
Inês Castel-Branco
19:45
Eu acho que as semanas de trabalho só deviam ter quatro dias
Jorge Correia
19:49
não é uma má ideia e a trabalhar 12 horas por dia como tu, as coisas não são nada fáceis olha, é curioso na tua transformação na tua crisálida até borboleta passas por uma fase em que a tua voz é gozada na adolescência bom, se calhar as nossas vozes todas são gozadas na adolescência porque elas estão aqui a tentar ajustar e desgraçar
Inês Castel-Branco
20:12
eu própria, no outro dia ouvi um vídeo o meu filho O vídeo tem para aí 13 anos 12, 13 anos E a minha voz irritou-me
Jorge Correia
20:22
Mas isso era falta de produção?
Inês Castel-Branco
20:23
Muitas vezes, quando eu vou para agudos Mesmo nas novelas, quando eu estou a discutir E vou para agudos Irrita-me Eu tenho um timbre Que no agudo é irritante
Jorge Correia
20:35
E tens um timbre nos baixos E nos médias que é absolutamente formidável
Inês Castel-Branco
20:40
Isso eu concordo também Não vou só estar a dizer mal da minha voz Porque ela também tem aqui um gravezinho
Jorge Correia
20:45
Ela tem vudo, ela tem essa coisa E isso significa que Quando trabalhas a tua voz Tentas mantê-la sempre neste perfil Depende da personagem
Inês Castel-Branco
20:55
Quando eu trabalho com a voz em rádio Principalmente quando temos estes cascos nos ouvidos Eu tenho a tendência de Ir para este tom Porque estamos a falar ao ouvido das pessoas Porque eu gosto mais deste tom Acho mais bonito E sensual E não tão irritante como o tom Agudo Mas se uma personagem, o agudo servir Nomeadamente personagens cómicas Personagens mais infantiloides Mais histéricas Mais histéricas Se servir, eu uso Eu uso agudos, não tenho vergonha nenhuma de ser irritante Como não tenho vergonha de estar feia Em personagens que tiver de estar Ou de engordar ou de emagrecer Eu acho que isso é que é uma das partes mais Extraordinárias da nossa profissão É nós não sermos nós É a outra pessoa que está ali
Jorge Correia
21:45
Há momentos em que precisas de engordar ou de emagrecer?
Inês Castel-Branco
21:48
Por acaso aqui em Portugal não há muito isso Mas no estrangeiro Sim, há muitos atores que emagrecem E engordam muito para personagens Aqui já me aconteceu Imagina fazer uma personagem Drogada E emagrecer um bocadinho Porque achei que fazia sentido
Jorge Correia
22:05
Mas podes compor o boneco Podes ficar a olharenta, podes não dormir
Inês Castel-Branco
22:09
Podes não fumar bem, sei lá Esse trabalho é também da caracterização Não é só o meu E por acaso neste caso que foi no Rápido Peixe Serviu bastante a caracterização Mas o facto de eu ter emagrecido Um bocadinho também ajudou Porque este tipo de personagens São mais secas e mais magras
Jorge Correia
22:27
E depois houve as pessoas a dizer Ah, está tão escaselada Quando eu pus a fotografia
Inês Castel-Branco
22:33
No Instagram Da personagem Houve pessoas que não leram Que eu estava a dar a notícia De nova personagem Rápido Peixe E que acharam que eu estava A arrumar carros Que eu estava agarrada Mas eu gosto Acho que isso é uma das magias De representar E eu acho que há dois tipos de atores Há o ator que faz sempre dele próprio E o ator que compõe E não quer dizer que seja mau Tipo o Al Pacino faz sempre dele próprio E faz sempre bem Mas eu prefiro os atores que compõem Como o Sean Penn Como a Meryl Streep São sempre pessoas diferentes
Jorge Correia
23:13
Sim E tu és de que estilo?
Inês Castel-Branco
23:15
Eu gosto de acreditar que acompanho
Jorge Correia
23:17
Não vendo, pensando bem-te em ti No Abcassiz e depois no Rápido Peixe Nos Batanetes Eu gosto de acreditar que acompanho Fala-me de Rápido Peixe Porque eu fiquei apaixonado Pela primeira série A segunda um bocadinho menos Mas se calhar porque fiquei menos surpreendido Não acho que tem a ver com a qualidade daquilo A primeira eu achei aquilo absolutamente Radical Disruptivo em Portugal Aquilo tinha uma maneira Uma forma de contar a história
Inês Castel-Branco
23:50
O Augusto Fraga é maravilhoso E a edição também é muito boa Mas eu acho que a realização acima de tudo Trouxe uma linguagem completamente diferente E que nós estávamos a precisar também Porque é um país de novelas E o formato de novela é um formato em que não dá para criar muito Mas aquilo não é uma novela? Aquilo é uma série e nós estamos finalmente a começar a fazer séries. E é super interessante que essa série tenha surgido, porque é mesmo muito disruptiva.
24:19
Eu acho que eu fiquei também super encantada quando vi. Eu fiz casting para a primeira temporada e não fiquei. Depois não fiz casting para a segunda temporada e depois fiz casting para a terceira.
24:31
E desta vez fiquei. E ainda bem que só fiquei na terceira. Por um lado ainda bem, porque a personagem é uma delícia.
24:37
Por outro lado, é uma pena porque muito menos gente viu a terceira. Mas eu pediria aqui aos nossos ouvintes para verem, porque estou muito vaidosa do que fiz, e eu e o meu partner, que é o Cristóvão Campos, grande ator, eu estou muito orgulhosa daquilo que nós fizemos, e os meus amigos e família que viram também ficaram, portanto, gostava que mais pessoas vissem. Fala-me desse boneco, como é que é compor aquilo?
25:05
O que é que o Augusto Fraga te pediu? Então, na Tércia Pexiga Há uma família muito antiga nos Açores Que se chamam os Pexigas Que estão até associados ao crime Mas é uma coincidência As características destas personagens E essa família É aquela coisa que há factos Que podem ser só coincidências Aquela frase que aparece às vezes
Jorge Correia
25:28
Os argumentistas gostam de colocar lá Como no fim
Inês Castel-Branco
25:31
Um bocadinho também posso defender legalmente
Jorge Correia
25:33
Mas eu acho que é importante dizer
Inês Castel-Branco
25:37
Há coisas que pegam-se na realidade E transformam-se um bocadinho Para o espectador ficar E aquilo que o Augusto Fraga Me disse foi Mais no casting Ele por acaso até Na altura o diretor do casting Que é o Bernardo Almeida Mandou-me uma Referência de um filme Não sei se não era Natural Born Killers Mas era uma personagem assim Artcore também O Augusto disse-me mais ou menos Que queria uma sujeidade Queria que eles fossem desastrados Aqueles são criminosos Mas corre-lhes tudo mal Porque eles fazem mal Depois são violentos Mas ao mesmo tempo são cómicos E amam-se muito E o público também vai ficar ao lado deles Porque eles se amam muito E a verdade é que quem viu Disse-me isso Eles são horríveis Mas nessa altura são os preferidos porque são fofinhos ao mesmo tempo e acho que foi também trabalhar com o Cristóvão também ajudou muito porque o Cristóvão volta a dizer é um grande ator e eu acho que também fui atrás dele e talvez ele atrás de mim, não sei mas eu posso dizer que fui muitas vezes atrás dele e do tom dele e às vezes isso é interessante todos os personagens têm um tom e foi interessante o nosso tom ser parecido porque nós somos um casal e um casal que pensa da mesma maneira mas eu mando um bocado nele eu sou quem veste as calças na relação e depois há um ar muito violento naquilo tudo que é importante também passar sem pudor e que eu adorei cenas de violência de armas, de esfaqueamentos de drogas pronto, também não quero estragar para quem ainda não viu é fácil filmar a violência? Tento-se ensaiar muito Mas sim, eu gosto muito Dá-te gozo? Dá-me imenso gozo Quanto mais distante de mim e da minha vida for Mais gozo me dá
Jorge Correia
27:43
Porque dá para recriar aquilo
Inês Castel-Branco
27:45
Porque é viver outra vida Que eu jamais viveria Jamais mataria alguém Mas ali posso matar alguém Uma das coisas, não posso dizer Não, não vamos estragar
Jorge Correia
27:56
Não, porque senão estragamos isto tudo
Inês Castel-Branco
27:57
Mas há um crime A minha última cena da série Eu pensei Nunca na vida Como é que eu vou fazer isto? É muito difícil Eu basicamente vou imitar A quantidade de vezes que eu vi outros atores A fazer isto
Jorge Correia
28:12
Mas depois há um manual de instruções Do que é que é suposto fazer Ou tu lês o texto E depois pensas Ok, a maneira que eu consigo fazer viver Este texto é A minha proposta criativa é esta?
Inês Castel-Branco
28:25
Eu tenho uma proposta e depois o realizador tem A proposta mais importante é a do realizador Eu sou um peão nas mãos do realizador Aliás, a primeira proposta é do autor Que é muito importante O autor é o princípio de tudo Depois do autor É o realizador E só no fim é que está a minha proposta Muitas vezes as três unem-se E acontece uma magia Há outras vezes que a minha proposta Se calhar é rejeitada E eu tenho de ver com isso Porque eu sou a última Sou do fim da linha mas normalmente quando há uma ligação entre o realizador e o ator fixe o realizador ouve-nos sempre e se nos respeita põe sempre em cima da mesa a nossa proposta
Jorge Correia
29:07
até porque escolheu também, não é? no casting e portanto a partir desse momento
Inês Castel-Branco
29:10
também há limitações técnicas imagina, no rabo de peixe eu tenho uma cena de pancada que é dentro de uma floresta num dia de chuva, nós tínhamos de ter bombeiros a fazer de chuva, tínhamos de ter a luz a chegar lá, tínhamos de ter a comunicação a funcionar e às vezes essas coisas todas, há uma que falha e nós temos de improvisar. E de repente a luta que nós tínhamos ensaiado quando a distância é menor muda tudo e já há uma possibilidade de eu me magoar e o colchão já não vai estar no sítio certo e há um risco maior. Portanto, há também sempre o risco do que acontece
Jorge Correia
29:46
no momento. Mas podes aleijar-te
Inês Castel-Branco
29:47
nestas brincadeiras? Sim, sim, já me aleijei e já aleijei pessoas e tenho saído muitas histórias, tipo, tenho um amigo que trabalhou com um cão e o cão mordeu há muitas histórias em que às vezes corre mal há um risco, tanto que nós somos obrigados a ter seguro há um risco sempre inerente a esta profissão e há trabalhos muito físicos
Jorge Correia
30:09
e que tu lá estás, empenhas-te estás a fazer aquilo e aquilo pode sair mal de uma temporada
Inês Castel-Branco
30:15
sim, sim há atores que não fazem cenas dessas, que pedem duplos eu por exemplo adoro fazer No rabo de peixe houve uma cena de perseguição De carro Que o duplo estava a almoçar e eu disse assim Por favor, deixa-me fazer Foste tu a conduzir? Sim E foi das minhas cenas favoritas de fazer na vida
Jorge Correia
30:36
E foi perigoso?
Inês Castel-Branco
30:37
Foi, quer dizer
Jorge Correia
30:38
Portanto, quando te virmos de uma perseguição automóvel nesta série És mesmo tu que estás a conduzir o carro
Inês Castel-Branco
30:42
Sim, há uma série em que eu estou a ir Tenho de ir em contramão contra outro carro E no outro carro estava um duplo Mas no meu estou mesmo eu E à última o duplo desvia-se de mim
Jorge Correia
30:53
E isso é real Não é uma ilusão de câmara Não, não, não Pode mesmo acontecer um espatifão Sim
Inês Castel-Branco
31:02
E o colega ator Também quis ir comigo, também não quis duplo Portanto eu estou com outro, com ele no carro Vocês são grandes malucos, não é? O Tom Cruise faz tudo sozinho Não faz tudo sem duplos E faz as missões impossíveis todas
Jorge Correia
31:16
Não, pois é isso que me está aqui a preocupar Eu estava a pensar que aquilo era tudo Uma grande ilusão E afinal tu acabas de me dizer
Inês Castel-Branco
31:23
Eu adoro essa adrenalina Das cenas de ação e de perseguição E de porrada Uma vez fiz uma personagem que era da PJ E a PJ recebeu-nos E tivemos um dia inteiro lá Aprendi a fazer rusgas Aprendi a fazer inquéritos E aprendi a disparar uma arma E eu adorei O autor que estava comigo Nós tínhamos ideia de tipo a 5 tiros cada um E ele não quis fazer os 5 E eu posso fazer os dele por favor Mas é um bala real? Sim, no Shooting Range Não sei como é
Jorge Correia
31:56
Carreira de tiro
Inês Castel-Branco
31:57
Carreira de tiro
Jorge Correia
31:58
Mais segura, boa, quer dizer, nos Estados Unidos Conhecemos a história daquele caso que correu mal Com uma arma em que foi feito Efetivamente um disparo e que matou Uma pessoa de
Inês Castel-Branco
32:08
Ah, pois foi do Alec Baldunha
Jorge Correia
32:10
Portanto, lá está Por isso é que eu estou aqui a pensar Que vocês passam a vida a fingir
Inês Castel-Branco
32:15
Não, mas nós, no caso das armas Isto é importante dizer, no caso das armas Sempre que nós trabalhamos com armas tínhamos de dispará-las ou não vem sempre um polícia com a arma e antes da cena mostra-nos o cartucho vazio dá vários tiros para o chão para testar à nossa frente a arma ensina-nos tudo sobre a arma e está sempre presente durante o uso da arma se tivemos de dar tiros com pólvora seca que é o que acontece quando temos de dar tiros temos tampões nos ouvidos todas as medidas de segurança são respeitadas Porque já aconteceram acidentes, tipo um ator disparar uma arma e furar um timpano, porque não estava protegido para o tamanho do barulho, ou ser projetado por uma caçadeira. Nós estamos sempre, as produções normalmente são sempre muito preocupadas com a segurança e no caso das armas nós fazemos aquilo de uma forma muito cuidada.
Jorge Correia
33:12
Espero que sim. De qualquer maneira, quer dizer, com um histórico de uma perseguição automóvel ou de um choque frontal potencial, não sei se tu tens muitos argumentos Para usar. Olha, uma das personagens que mais me fascinou em ti, a pessoa é absolutamente fascinante e tu fizeste-la de uma forma mágica, é Senua Bacassi em 2019.
33:33
Li alguma coisa de que tu, quando tentaste fazer a composição da personagem, descobriste que não havia voz de Senua em lado nenhum gravado. Não, não. E então?
33:42
É porque aquela voz para mim é perfeita. Aquela era a voz da Senua.
Inês Castel-Branco
33:46
Foi muito complicado, não só pela voz, mas pelo sotaque. Porque ela era uma dinamarquesa que viveu na Suécia a vida toda, estudou em Inglaterra, casou com um português, com quem só falava inglês, e veio viver para Portugal. Tipo, como é que eu faço o sotaque?
34:04
Com o que é que tu falaste? Então, tenho uma amiga sueca, fui ter com ela e gravei-a a dizer o texto todo. Depois fui ter com uma dinamarquesa e gravei-a a dizer, esta não era a minha amiga, mas foi muito querida, e gravei-a a dizer o texto todo depois juntei um bocadinho os sons que as duas tinham em comum que era muito o Zoja e a editora ela fazia sempre o editora o editora, o editora e disse, pá, não vou inventar muito eu vou arranjar aqui em dois sons fonéticos e vou agarrar-me a esses dois que normalmente era sempre o A com snooker, dizer esperta e não abria muito as vogais também e juntei essas duas Comecei a dizer o texto em casa, tipo maluca Vou começar a falar como ela, tipo maluca E cheguei a este sotaque Que eu vou dizer, eu vejo o filme Eu sou muito profissionista E há uma parte que não está bem no filme Mas pronto, mas isso sou eu que sou muito profissionista O que é isso de não estar bem?
35:07
Eu não estava segura no sotaque e se vê-se Eu vejo, há uma cena que não está bem Mas pronto, a verdade
Jorge Correia
35:13
Eu posso olhar para aquilo e dizer Olha, a seno também era
Inês Castel-Branco
35:19
Não, e o que a realizadora me disse Na altura foi Mas as pessoas quando estão nervosas Falam de forma diferente As pessoas quando estão tristes falam de forma diferente As pessoas quando estão excitadas falam de forma diferente Eu tive de lhe dar razão E tentei não pensar muito no assunto
Jorge Correia
35:34
Mas aqui entre nós Mas tu vais ver sempre as coisas que fazes? Sim, sempre Para te martirizar ou para tentar melhorar?
Inês Castel-Branco
35:40
Não, para mim é a conclusão do trabalho Ah, o fim do trabalho é ver Fisionamento é a conclusão, para ver exatamente o que é que eu posso fazer melhor. Como é que eu me posicionei para a câmera? Como é que eu me posicionei para a luz?
35:52
Como é que eu usei a minha voz? Como é que a minha dicção estava ali? O que é que eu tirei do outro ator?
35:59
Há sempre coisas a aprender no fisionamento.
Jorge Correia
36:01
E no cinema lá está. Quer dizer, aquilo que tu podes fazer no teatro, com os braços, com a cara, é uma coisa… No cinema não. No cinema aquilo está tudo ali muito contido.
Inês Castel-Branco
36:12
Sim. Eu fiz muito pouco cinema. Infelizmente Agora para cá estou a fazer um filme E te vou adorar Mas fiz muito pouco cinema Sim, João Pedro Rodrigues O Sorriso de Afonso Estamos em plena rodagem E da Terra Terra Trem Terra Trem Não me lembro do nome da produtora Corta esta parte, por favor
Jorge Correia
36:38
Vamos à procura, pomos nos créditos
Inês Castel-Branco
36:40
Sim Acho que é Terra Trem Não interessa Eu fiz muito pouco cinema e de facto no cinema há um tempo que é completamente diferente das outras linguagens Há um cuidado com a luz que não existe nas outras linguagens Falta-nos ainda aqui a publicidade, também não falámos Que normalmente é uma luz muito mais chapão, muito mais comercial
Jorge Correia
37:02
Que é para atrair
Inês Castel-Branco
37:03
No cinema é tudo feito com um cuidado milimétrico, mesmo, literalmente Às vezes tem uma fita métrica a medir a tua distância da câmera Para o foco e para a luz É uma coisa Por isso é que me fascina tanto e por isso é que eu gostava de fazer mais É uma coisa muito bonita E muito cuidada É mesmo arte Eu vejo sempre quando olho para um plano em cinema Vejo quadros E é muito Para mim é aquilo que fica O cenu para mim é o que os meus netos vão poder ver Não quer dizer que não cheguem Com a internet, graças a Deus Não quer dizer que não cheguem a uma novela É uma série que eu fiz, mas o cinema fica para sempre. E neste caso, que é um filme da época que se nu, e que retrata, é um biópico, não é? Que retrata uma era, não só para Portugal, mas uma pessoa que existiu.
37:58
Ainda mais fica. Os meus netos daqui a 30 anos vão ter a avó a contar esta história. Tu apaixonaste pela Senu?
38:07
Completamente. Completamente. Ela é apaixonante.
38:11
Era uma mulher apaixonante. Embora muito diferente de mim, era uma mulher que tentou trazer muitas mulheres em Portugal. Tentou educar muito mulheres que estavam enclausuradas por uma ditadura e pelos seus maridos e pela cultura conservadora e patriarcal que existia na altura.
Jorge Correia
38:30
Já agora, responsável por uma editora, mulher cultíssima, não casada, mas a viver com o primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro. Portanto, importa só para dar aqui contexto de quem é.
Inês Castel-Branco
38:42
Criou a Dom Quixote e numa altura em que ainda não tinha havido a revolução, tentava publicar livros que a PIDE constantemente proibia. E com coragem, não é? Com muita coragem.
38:54
Com muita coragem também. Vinha de uma família muito intelectual e bem situada. Portanto, acho que a falta de medo também vinha daí.
39:06
Mas eu admiro-a imenso. E não só isso, como é o interesse dela pelo Portugal pós-revolução Ela criou várias coleções com todos os políticos de todos os partidos Desde o Mário Soares ou o Sá Carneiro Ela quis entrevistar cada um deles para que o país percebesse as várias saídas que tinha E de uma forma bastante imparcial Por mais que a tivesse apaixonada pelo Sá Carneiro Mas acho que o Sá Carneiro também era apaixonante Era magnético, como se diz no filme
Jorge Correia
39:40
Portanto, havia ali uma grande energia Olha, confirma-me aqui que uma realizadora te amarrou as mãos
Inês Castel-Branco
39:47
Na verdade foi a diretora de atores, a Sara Carinhas, na SNU Estava-me a ajudar em um dos primeiros ensaios
Jorge Correia
39:54
Estava-te a ajudar a amarrar-te as mãos?
Inês Castel-Branco
39:56
Não, ela estava a ajudar a Patrícia a fazer direção de atores E ajudou-me muito a mim na construção da SNU, a Sara A Sara é extraordinária E num dos primeiros ensaios Eu sou uma atriz que representa muito com as mãos Sou muito latina nesse aspecto E ela é muito nórdica Era muito nórdica, portanto tinha de haver uma contenção Que eu não estava ainda a conseguir dar
Jorge Correia
40:20
Aquele retrato só da tua cara, não é? Que mesmo sem falar já fala
Inês Castel-Branco
40:24
Sim, e é uma contenção nórdica mesmo Os nórdicos são muito diferentes dos latinos E eu percebi isso, depois fui a Estocolmo Em que estava a preparar o personagem Fui à casa onde ela cresceu Ao bairro onde ela viveu E conheci Pessoas de lá, fui sozinha E fui mesmo com este objetivo de perceber Como é que é esta cultura E não podiam ser mais diferentes de nós Por isso é que também Estou a dizer isto com base na minha opinião Uma especulação Por isso é que eu acho que eles bebem Quando fica a noite eles começam a beber Para se soltarem Daquela contenção O que eu acho muito bonito no cinema É essa contenção E a maior parte das personagens Que me marcaram São personagens que conseguem Passar tudo em contenção Sem dizer nada Não só sem dizer nada, dizer pouco Não precisa de ser uma personagem Sempre histriónica e aos berros e a chorar Para ser incrível E para mim Na contenção está a genialidade Um bom ator na contenção que é genial na contenção para mim são os melhores atores de todos
Jorge Correia
41:38
onde é que está o teu potenciómetro? como é que tu controlas isso?
Inês Castel-Branco
41:42
em mim própria tenho muita dificuldade porque eu não sou muito contida nem na vida nem como atriz a minha sensação é que tu incendeias tudo
Jorge Correia
41:50
que à volta vai tudo arder
Inês Castel-Branco
41:52
mas na verdade por isso é que a Senu foi tão surpreendente para ti também foi surpreendente? para mim também e eu encontrei essa contenção nesse primeiro ensaio em que me prenderam as mãos Foi o início de uma procura. E depois aí das de como foi outra.
42:08
E depois tudo o que eu li sobre ela. O livro que a mãe dela escreveu sobre ela. Os vídeos que havia dela no arquivo da RTP.
42:17
Sem som, mas havia alguns. Dela na Feira do Livro. O que as amigas dela me contaram.
42:24
Que ainda falei com algumas. A secretária do Sacraneiro. Enfim, tudo o que eu reuni.
42:32
E eu comecei a perceber que era nessa contenção que ia estar o meu maior desafio da Senu.
Jorge Correia
42:39
E recebeste feedback das pessoas que a conheciam?
Inês Castel-Branco
42:44
De quem eu queria, não. Eu queria muito da família, mas eu imagino que seja bastante traumático isto tudo para eles. E então acredito que não tenham visto sequer. Mas se calhar um dia, então vão ver. Não sei.
Jorge Correia
42:59
Pode haver sempre essa hipótese. Olha, falamos de publicidade, obviamente mais histriónica, mais luxo, sendo que tu foste durante longos anos voz de uma marca em particular.
Inês Castel-Branco
43:08
E cara. Voz e cara.
Jorge Correia
43:10
Voz e cara. Como é que é isto de as tantas… Bom, a minha pergunta na realidade é que se uma voz e uma cara se pode alugar durante um tempo tão longo como o teu caso, sem depois as tantas coisas se juntarem um bocadinho uma à outra.
Inês Castel-Branco
43:26
Eu acho que eu tive muito essa dúvida durante esses anos que fui cara da… Posso dizer? Claro que sim. Cara do mel.
Jorge Correia
43:34
Durante esses anos… Porque uma coisa é fazer uma campanha num determinado momento, outra coisa é durante vários anos… À certa altura eu pensei,
Inês Castel-Branco
43:41
será que isto me está a prejudicar como atriz? Será que há coisas, por exemplo, cinema, que eu não estou a fazer porque estou muito associada à publicidade?
Jorge Correia
43:49
Porque uma ideia de gastar a tua imagem e a tua voz e a tua presença?
Inês Castel-Branco
43:53
Pensei nisso várias vezes, mas depois estás uma coisa, Jorge? Eu já fiz tudo e mais alguma coisa Eu acho que O preconceito irrita-me imenso Irrita-me imenso Eu passei por todos eles Sobre ti? Sim É porque é modelo, é porque é bonita É porque é filha da apresentadora É porque tem cunha É porque namorou com não sei quem Enfim Imagino que incomoda muita gente Às vezes o sucesso Então tens de arranjar desculpas E a facto de fazer publicidade durante muitos anos, não vou ser hipócrita. Eu tenho uma casa à paladice.
Jorge Correia
44:32
E provavelmente uma liberdade para fazer as outras coisas que te apetece fazer.
Inês Castel-Branco
44:35
Claro. Desde então, é por causa dos meus anos no Mel, que eu desde então tenho liberdade para dizer que não. E isso é a minha coisa do mundo. E se há realizadores que não quiseram trabalhar comigo porque eu fiz um anúncio do Mel, eu também não quero trabalhar com eles. Não me interessam.
Jorge Correia
44:54
É fácil dizer que não?
Inês Castel-Branco
44:57
Agora sim Agora sim Quando era mais nova não E ainda tenho um bocadinho de medo quando digo que não Mas cada vez
Jorge Correia
45:05
Agora estou a passar por uma fase que é
Inês Castel-Branco
45:11
Eu quando digo que não Eu quero estar mais com a minha família Eu trabalhei muito durante muitos anos Eu agora quero estar mais com a minha família E eu tenho um filho adolescente Que não terei por perto Durante muito mais tempo Ele vai à vida dele Com todo o direito É o normal
Jorge Correia
45:31
Como é que é a vossa relação?
Inês Castel-Branco
45:32
É espetacular É mesmo fixe Tenho muito orgulho nele E acho que ele também tem orgulho em mim Zangon-se
Jorge Correia
45:38
É muito raro Que tipo de mãe é que és tu?
Inês Castel-Branco
45:42
Eu acho que sou Acho que dou liberdade Mas também dou muita responsabilidade Sou uma mãe que diz palavrões Mas que Mas ao mesmo tempo é muito exigente Eu acho que sou uma fiche Acho que sou uma fiche Mas às vezes há coisas que eu sou chata Mas no geral acho que sou fiche Acho que se ele me descrever aos amigos É capaz de dizer A minha mãe é fiche
Jorge Correia
46:09
Sabes que eu estou a perguntar-te isto Porque os pais da nossa geração Podemos ter cometido um erro capital Em relação à próxima geração Que é demos-lhes tudo
Inês Castel-Branco
46:20
Sim, eu às vezes tenho esse medo Mas ao mesmo tempo autonomia e liberdade e ele surpreende-me imenso e acho que ele é um miúdo com uma boa cabeça mas às vezes também o co-parenting também não ajuda, não é? eu posso não lhe dar tudo, mas se o pai lhe dar tudo não há muito que eu possa fazer acho que ele também eu estou sempre a dizer ao meu filho é de aprender a trabalhar como eu aprendi eu não quero que ele herde nada de mim dinheiro de casas quer que ele aprenda a trabalhar como aprendi, também não ordei nada ninguém me deu nada
Jorge Correia
46:56
o que é que ele quer ser quando for grande?
Inês Castel-Branco
46:58
ainda está à procura, mas gosta muito da publicidade ele é um ótimo comunicador eu acho que ele dava um bom diplomata mas não sei, eu acho que ele vai ter de ser o que quiser ser, o que fizer feliz desde que não seja incompetente, não é incompetente desde que não seja desde que trabalho que não esteja em casa a não fazer nenhum preguiçoso preguiçoso, sim Só não suporto A ideia de um filho Que acha que pode viver às minhas custas E não trabalhar Isso não é possível
Jorge Correia
47:33
Mas projetas neles todos os Ele é o teu filho único Projetas neles todos os sonhos do mundo Tudo aquilo que tu achas que ele deve ser Quando for grande
Inês Castel-Branco
47:41
Eu acho que nós queremos sempre que os nossos filhos Sejam aquilo que nós não conseguimos ser E eu acho que isso não é justo Portanto eu tento não projetar muito E quando ele me pede a minha opinião Tipo, mãe, achas que deve ir para a publicidade? Eu respondo sempre Eu não tenho de achar nada Porque eu achar alguma coisa vai-te influenciar Isso é normal, mãe Eu acho que tu tens jeito para isto, isto, isto E lá no meio está a publicidade Sim, mas acho que não deves fechar Com esta idade já nessa ideia Porque tu estás sempre a mudar E esta ideia Esta idade traz muitas mudanças E o que hoje podes fazer sentido Amanhã pode ser outra coisa Não te feches nisso
Jorge Correia
48:20
Sendo que nós os influenciamos sempre de alguma maneira, positiva ou negativa Li um trecho muito curioso da vontade dele de ir ao ginásio Porque estava a se sentir como um esparguete
Inês Castel-Branco
48:34
Uma das coisas que eu acho que sou Que eu não gosto em mim A minha mãe fazia o mesmo e ele queixa-se Eu acho que eu falo demais às vezes sobre ele E me vergonho, tipo, sou desbocada E quando eu disse isso nessa entrevista acho que fui um bocado desbocada
Jorge Correia
48:50
E portanto ele zangou-se contigo
Inês Castel-Branco
48:52
Ele não se zangou porque ele não vê as entrevistas Graças a Deus
Jorge Correia
48:56
Defende-se E tu vais vendo o que é que
Inês Castel-Branco
49:00
Eu odeio dar entrevistas Jorge Tu tentaste seis meses até conseguir
Jorge Correia
49:04
Pois é
Inês Castel-Branco
49:05
Eu odeio dar entrevistas
Jorge Correia
49:06
Tu és provavelmente a convidada mais difícil Deste programa Mas eu não desisti
Inês Castel-Branco
49:14
É verdade E venceste Eu vou-te explicar Eu acho que não tenho nada de interessante para dizer Arrependo-me sempre de coisas que disse E hoje em dia vivemos numa era Em que é muito fácil retirar alguma coisa do contexto E ser cancelado E eu às vezes digo Merda Às vezes digo asneira
Jorge Correia
49:35
E ficas preocupada, eu sou do alto mínimo Portanto, para mim são vírgulas
Inês Castel-Branco
49:40
Não é digo palavrões É digo asneiras, digo coisas que não fazem sentido Que depois me arrependo Como nós às vezes dizemos isto em conversas nós não somos perfeitos e as minhas opiniões estão sempre a mudar eu há mesmo politicamente eu já fui de direita e agora sou de esquerda tipo o crescimento também é isso nós podemos mudar de opinião, não estamos estanques e muitas vezes como eu dou entrevistas há 25 anos há coisas que eu ouço e digo assim ai que vergonha disso aquilo por isso é que eu odeio dar entrevistas porque agora se calhar daqui a 20 anos vou estar a ouvir esta e a dizer Ai que vergonha disso aquilo
Jorge Correia
50:18
Não, não me parece Acho que não vai acontecer de todo Não vai ser seguramente isso que vai acontecer Quando a tua imagem pública lá está Começa como alguém muito bonito Que é catrapiscado num restaurante Porque tem logo uma aura e uma luz própria Conforme envelhecemos E em particular as atrizes Conforme envelhecem Há uma pressão muito grande para retocar a beleza, para proteger ou pelo contrário o envelhecimento é um processo normal e natural
Inês Castel-Branco
50:52
eu não acho que seja acho que em Hollywood sem dúvida que deve haver os próprios agentes devem dizer isso eu acho que aqui em Portugal eu não posso dizer que é a profissão que traz essa pressão, eu acho que é a cultura que traz essa pressão, acho que as mulheres todas no geral trazem dessa pressão, eu ouço muito amigas minhas preocupadas com isso e com o envelhecer a retocarem, a porem isto, a porem aquilo eu não julgo nada, atenção acho que cada pessoa deve fazer aquilo que entende para se sentir melhor mas acho que essa pressão é muito maior nas mulheres do que nos homens e dá-me muita pena porque é que uma mulher não pode envelhecer sem recorrer sem retardar envelhecer só eu não quero retardar tu queres, ótimo, estás linda Eu não quero. Porque é que toda a gente, quando olha para mim, tem de dizer ai, está velha. Sim, agora tenho 44.
51:54
A 6 vou ter 50. Eu vou envelhecer. E porquê que isso é mau?
51:59
Porquê que uma mulher velha não pode ser bonita?
Jorge Correia
52:02
Mas há essa, por um lado, a idealização da beleza como um valor elevado. Não é só de mercado, é um valor importante. E, por outro lado, essa crítica social ou essa pressão grande sobre esse envelhecimento, sobre as ruas?
Inês Castel-Branco
52:17
Eu acho que como há tanta essa pressão e como as raparigas estão cada vez mais novas a retocarem-se isto é verdade, eu conheço miúdas de 20 anos a retocarem-se. Estão cedo? Sim, porque é na prevenção que está o antienvelhecimento Mas isso é um marketing de certo É isso que se vende. Eu não sou médica não faço ideia, se calhar é verdade mas a verdade é que tu já não vês há uma idade agora que é ali dos 50 aos 70 que essas mulheres deixaram de ter idade tu já não sabes que idade é que têm a não ser que tu saibas mesmo porque trabalhas com elas porque conheceste quando elas eram quando andaste no liceu com elas há uma idade, deixou de existir tipo mulheres dos 50 aos 70 e isso é estranho em primeiro lugar, para mim é ótimo porque eu vou poder trabalhar imenso a fazer de mim é de 60 anos E então estou a ver isso como uma coisa positiva Tipo, quando chegámos ali aos 60 E precisarem de uma mulher de 60 Vou ser eu Como é que tu lides com a fama? Cada vez melhor
Jorge Correia
53:26
Cada vez melhor, é uma bela declaração
Inês Castel-Branco
53:27
Cada vez melhor Quando era mais nova não lidava nada bem Os mídias sempre me fizeram muita confusão As coisas que são capazes de dizer sobre ti Podem ser muito cruéis Que mídia? Eu comecei dos revistas cor-de-rosa Dos tabloides Na minha altura que eu comecei havia ainda 24 horas
Jorge Correia
53:46
Mas isso não é bem jornalismo, não é? Sim, mas é o jornalismo da minha área Mas a contar que é meterem-se na tua vida
Inês Castel-Branco
53:54
Paparazzi E de repente estou numa praia Estou numa praia com o meu filho E passado duas semanas estou numa capa de uma revista Num paparazzi e pensar que Houve uma pessoa que teve como objetivo A ver o meu filho na praia Tipo, tudo isso para mim era muito promiscuo sofria muito com isso, mas de facto o aparecimento das redes sociais veio controlar um bocadinho esse tipo de mídia. E hoje em dia eu respeito muito o trabalho deles e acho que eles também respeitam o meu. Ainda acho que existem coisas feias, mas isso em todos os meios.
54:25
E acho que até respeitam bastante. Como há tantas pessoas que gostam de mostrar tudo, eu acho que respeitam muito quem não gosta de mostrar tudo e já há lugar para todos. Eu não tenho nada contra quem gosta de mostrar tudo.
54:39
Aliás, tenho muitas amigas que o fazem E que eu admiro imenso Vou dar um exemplo, a Inês Arispreira Que aproveita muito do seu dia-a-dia Para falar com os seus fãs no telefone Cria uma narrativa ela própria Há uma mitologia de Inês Arispreira Mas eu adoro-a Porque ela é exatamente como está ali Não é uma máscara É a Inês a ser Inês E eu acho aquilo Eu admiro Não é um risco? Isso é sempre Uma exposição brutal pode ser sempre um risco Porque depois está muito mais Está muito mais Exposta a crítica Sabe uma coisa que ocorre mal Que cai-lhe tudo em cima Mas eu acho que ela também sabe destes riscos Mas também eu acho que as coisas melhores Acabam por ser maiores do que as piores
Jorge Correia
55:31
Olha vamos fechar Depois de tantas personagens O que é que sobra da Inês? O que é que há de Inês aqui?
Inês Castel-Branco
55:41
Eu acho que ainda não sei responder a essa pergunta Juro Consigo-te replicar um bocadinho O que os meus amigos dizem de mim Sou uma pessoa que gosta de cuidar dos outros Que gosta de agradar os outros I’m a people person Sou uma pessoa de pessoas Gosto muito de convívio, gosto muito de agregar Gosto muito de conversar De bevinho, de dançar De ver arte de viver em Lisboa e de pronto é isso acho que sou simples, acho que sou mesmo uma pessoa simples e que não gosta de dar entrevistas
Jorge Correia
56:18
não se nota nada obrigado Inês
Inês Castel-Branco
56:22
obrigado a eu Jorge
Jorge Correia
56:25
Pergunta Simples
Jorge Correia
56:26
um programa sobre comunicação para quem quer boas respostas
