Quem Decide o que Mereces Perceber? João Maria Jonet

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Quem Decide o que Mereces Perceber? João Maria Jonet
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Já saiu de uma consulta médica com a sensação de que te disseram tudo, e não percebeu nada?

Já assistiu a uma reunião onde as palavras encheram a sala durante uma hora e no fim ninguém sabia exactamente o que tinha sido decidido?

Já ouviste um político responder durante dois minutos a uma pergunta simples, e percebeu, a meio, que não respondia a nada?
Não és tu.

É a linguagem.


Existe um mecanismo tão antigo quanto o poder e tão invisível quanto o ar. Quem sabe utiliza o que sabe para manter os outros fora da conversa. Não com violência, com palavras. Com complexidade que não é necessária. Com jargão que só os iniciados reconhecem. Com respostas que soam a explicação, mas que foram construídas, cuidadosamente, para não explicar nada.

E o resultado é sempre o mesmo: os que estão dentro percebem, os que estão fora ficam de fora. E muitas vezes nem sabem que ficaram.
Não é incompetência. É arquitetura
João Maria Jonet disse uma frase nesta conversa que resume tudo em quinze palavras. “As coisas que são difíceis de compreender são mais fáceis de controlar pelos poucos que compreendem.” Disse-a a propósito da política — mas a frase não tem fronteiras. Funciona no consultório médico onde o diagnóstico chega em latim. Funciona na empresa onde a estratégia é apresentada em diapositivos que só o consultor externo percebe. Funciona em qualquer lugar onde alguém que sabe mais decide, consciente ou não, usar esse saber como muralha em vez de ponte.


A clareza é sempre uma escolha. E quem não a escolhe está a decidir quem merece participar na conversa.
O que torna esta conversa singular é que Jonet não fala deste mecanismo de fora. Atravessou-o de todos os lados. Passou anos a estudar eleições americanas com a obsessão de quem precisa de perceber o mundo antes de nele entrar — o laboratório mais exigente para compreender como a linguagem política conquista, manipula e exclui. Foi comentador na televisão durante cinco anos, a traduzir o que os políticos dizem para quem não consegue perceber o que está realmente a ser dito. Trabalhou como consultor de candidatos, aprendeu por dentro o que se diz e o que se ensaia para não dizer. E depois fez o que poucos analistas têm coragem de fazer — entrou em campo, candidatou-se e foi eleito.


E o que a conversa vai revelando, peça a peça, é que atravessar o mecanismo de todos os lados não o tornou imune a ele. Tornou-o mais consciente. O que é diferente — e é mais honesto.
Há um momento em que essa honestidade se torna incómoda para ambos os lados da conversa. Quando Jonet admite que omite. Não mente — omite. Há posições que tem e não proclama porque sabe que serão descontextualizadas, cortadas, transformadas em munição. “Porque sei que as pessoas vão gravar o bocadinho e não vão querer perceber o todo.” É a descrição mais precisa da omissão estratégica que já ouvi dita na primeira pessoa. Não é uma mentira. É a verdade incompleta escolhida com cuidado, embrulhada em silêncio, entregue como se fosse a conversa inteira.


E é aqui que o mecanismo se torna mais perigoso — porque é o mais difícil de detectar. A mentira é visível. A omissão não. A mentira pode ser desmentida. A omissão não tem prova. E quem ouve não sabe o que não ouviu.
Do outro lado desta equação está quem ouve. E é aqui que a conversa se torna mais incómoda ainda — porque a responsabilidade não é só de quem fala.
Os estudos pós-eleitorais americanos que Jonet cita quase de passagem dizem algo que devia parar qualquer conversa sobre democracia. Quanto mais uma pessoa consumia informação — notícias, debates, entrevistas — mais provável era tomar uma decisão informada. Por vinte, trinta pontos percentuais. Quanto menos consumia, mais provável era ser apanhada pela vibe. Pela sensação. Pela fotografia que vale mais do que o programa. Não é uma opinião sobre quem votou certo ou errado. É uma medição sobre o que a atenção faz à capacidade de decidir.


Mas porque é que as pessoas decidem não ouvir? A resposta fácil é o desinteresse. A resposta honesta é outra: porque a linguagem que chega até elas foi construída, durante anos, para as deixar de fora. E quando alguém percebe que a conversa não era para ele — que as palavras soam a informação mas chegam como ruído, a decisão de parar de ouvir não é preguiça. É uma resposta racional a um sistema que o excluiu primeiro.
É este o círculo vicioso que nenhum discurso político consegue romper por dentro. Quanto mais hermética é a linguagem do poder, menos as pessoas ouvem. Quanto menos ouvem, menos exigem clareza. Quanto menos exigem clareza, mais o poder se fecha sobre si próprio. E o degrau cresce.


Nós vivemos num mundo das vibes”, diz Jonet. Dois minutos chegam para sentir. Não chegam para perceber. E quando a comunicação pública se adapta a dois minutos de atenção — quando comprime, dramatiza, simplifica até não sobrar nada — não está apenas a perder profundidade. Está a dizer, implicitamente, que a complexidade não merece tempo. Que a nuance é um luxo. Que quem precisa de mais para perceber pode ficar de fora.
No final da conversa há um momento pequeno que vale mais do que todos os diagnósticos. Jonet diz, quase em voz baixa, que ainda hoje há pessoas que lhe dizem que se interessaram por política porque o seguiam. Que escolheram cursos por causa disso. “Isso para mim já vale tudo, porque era a ideia.”


Comunicar bem não é controlar a mensagem. Não é gerir a percepção. Não é simplificar até não sobrar nada.
É fazer com que alguém que nunca quis saber decida querer saber.
É diminuir o degrau uma palavra de cada vez.
A conversa completa com João Maria Jonet está disponível no Pergunta Simples.

Ler transcrição completa

João M Jonet
00:00
Nós vivemos num mundo, por usar a expressão inglesa que eu acho que define a nossa era, porque o inglês define a nossa era, das vibes. É vibes. As pessoas dão a vibe de ser isto e, portanto, está ótimo. Não é preciso ouvir, não é preciso prestar mais do que dois minutos de atenção. Eu já peguei aqui a vibe, é isto.

Jorge Correia
00:18
Pergunta simples. Um programa sobre comunicação. Para quem quer boas respostas. Quando um poderoso fala, o que é que está realmente a dizer? Não a frase que saiu, não as palavras escolhidas, mas o que está por baixo, o que é subliminar, o que foi decidido não dizer, o que foi treinado para soar natural e não é. Esta é uma conversa sobre comunicação, sobre o degrau entre quem fala e quem ouve, sobre quem tem poder e quem depende dele. E o nosso convidado conhece esse degrau melhor do que quase ninguém, porque o atravessou nos dois sentidos. João Maria Joné ainda não tem sequer 30 anos, mas aos oito já se sentava a ver o canal Parlamento quando os outros miúdos viam desenhos animados. Não porque alguém lhe o pedisse, mas porque queria compreender como o mundo funciona. Em 2020 lançou o Parágrafo, uma página do Instagram para explicar política em cinco segundos. E a premissa era simples. A política não é difícil, é difícil de propósito. Passou vários anos como comentador da televisão, estudou as eleições norte-americanas com profundidade rara, o laboratório mais exigente do mundo para perceber como a linguagem política conquista ou exclui. Trabalhou como consultor, preparou candidatos, aprendeu por dentro o que se diz e o que se ensaia para não dizer. E depois fez uma coisa que poucos analistas têm coragem de fazer. Entrou em jogo, entrou em campo, candidatou-se de forma independente e foi eleito vereador da Câmara de Cascais. O que torna esta conversa diferente não é o percurso, é a tensão que este percurso produz. Joanei dedicou a carreira a explicar como a linguagem do poder mantém os cidadãos dentro ou fora da conversa e depois entrou no poder. O que é que isso muda? O que é que se prende? O que é que se perde? Essa é a pergunta subliminar por debaixo desta conversa com João Maria Joné no Pergunta Simples. Viva! João Maria Joné, tens 28 anos e um percurso muito curioso. Aos 8 anos de idade como um telespectador do canal Parlamento vai-se lá saber porquê, eu gostava de saber porquê. Na altura da pandemia, lanças um parágrafo, que é um conteúdo digital para explicar política às pessoas. És comentador, és consultor e houve uma determinada altura da tua vida que decidiste saltar para a arena política e tu próprio seres candidato e eu gostava de te ouvir também sobre isso. O que é que motiva alguém aos 8 anos de idade para ver o canal Parlamento e não estar a ver os desenhos animados de RTP2 ou o canal Disney?

João M Jonet
03:00
Não é que eu não os visse também, atenção mas eu acho que sempre fui muito curioso sobre como é que o mundo funciona mas sempre mais para para as áreas humanas das coisas e não tanto para as áreas científicas sendo que eu também cheguei a ser uma criança acho que todas as crianças são muito obcecadas com animais mas sempre fui quando era obcecado por animais era em que sítios é que eles viviam, geografia eu sempre fui muito das humanidades e via as pessoas a falarem sobre política não muito imediatamente à minha volta em casa dos meus pais não se falava muito de política mas mais em casa dos meus avós e lembro-me de ter essa curiosidade de querer perceber de querer ler desde muito cedo tive essa curiosidade e acho que sempre a tive por isso é que eu acho que acabei por ter esta necessidade de busca de informação me acabou por levar à política americana que é aquela coisa dentro da política que tem uma quantidade maior de dados e de histórias e de coisas registadas

Jorge Correia
04:16
e portanto tu consegues ir aprender mais

João M Jonet
04:18
sobre aquilo

Jorge Correia
04:19
Sim, no fundo é curiosidade

João M Jonet
04:21
é sempre curiosidade

Jorge Correia
04:23
Consegues colocar-te nesses teus oito anos de idade a perceber, a ver coisas na televisão que em princípio são coisas aborrecidíssimas são longos discursos de matérias completamente incompreensíveis enfim, com aqueles salamaleques porque aquilo tem ali uma praxis no fundo um momento em que os deputados dizem coisas importantes mas um momento em que usam a palavra para atacar o outro lado há uma retórica parlamentar consegues perceber onde é que estava o teu fascínio

João M Jonet
04:54
de ver isto? Eu acho que foi uma altura da história política portuguesa que foi muito interessante e acho que as pessoas se viraram mais para a política desde aí do que se calhar num período um bocadinho mais amorfo e mais cheio de salamaleques antes, eu acho que a altura do fim dos governos do José Sócrates as primeiras eleições que eu me lembro mesmo de seguir são as de 2009 eu acho que aí também o infotainment foi muito importante para uma criança conseguir seguir aquele programa que o Ricardo era hoje para fazer os meus sojos sufrágios que era de 2009 para uma criança é mais fácil infotainment do que informação pura e eu lembro-me disso depois me levar a ouvir as entrevistas dos políticos e depois levava-me a querer a querer ouvir mais Eu quando comecei a ver, foi porque vi aquilo um bocadinho como um jogo. Ganhavam, perdiam, preparavam umas equipas e depois houve isso, houve essa coisa de haver muito infotainment para consumir, de ser uma altura que a pessoa percebia que toda a gente parava e se calhar mais do que hoje, não é? Apesar de hoje em dia mais pessoas votarem e ter havido muitas eleições de seguida, mas aquele período de 2009 a 2013, 2015, é um período super dramático da história de Portugal. E pronto, eu tinha 11 anos, 10 anos no início e 17 anos no fim. E isso foi uma altura em que eu senti que se estavam a passar coisas importantes e que eu queria saber o que é que se estavam a passar.

Jorge Correia
06:37
E olha, quando tu ias para a escola e comentavas com os teus colegas de 8, 9, 10 anos, Isso dava-te direito a quê? O carimbo de intelectual? Ou a grande gozo? Ou a dizer, mas porquê que ele não está a ver jogos de futebol em vez de estar aqui a falar sobre políticos e sobre política?

João M Jonet
06:53
Sim, eu despertei para o futebol mais tarde do que para a política. Portanto, havia de facto uma altura mais com 8, 9, 10 em que eu não tinha muita sorte a conversar com pessoas da minha idade sobre esses assuntos.

Jorge Correia
07:06
E gozavam-te por causa disso ou não?

João M Jonet
07:08
Não, acho que era não participava da parte de jogar à bola de todos os intervalos

Jorge Correia
07:15
E fazias discursos? Já ou não?

João M Jonet
07:17
Não Eu nem sequer não há delegados de turma ainda na primária portanto nem sequer havia muito palco para isso era mais uma coisa de querer falar com os adultos e de me querer sentar na mesa dos adultos no jantar de família, ir para a mesa dos adultos e querer ouvir e querer falar e foi mais por aí, mas depois a partir dos 10 anos comecei a ter um ou dois amigos um que ainda é meu amigo até hoje com que conseguia de facto falar sobre essas coisas porque ele também estava interessado nessas coisas ou pelo menos era também uma pessoa muito curiosa e também queria falar sobre outras coisas e nós conversámos os dois depois com 12 anos mais ainda consegui mais amigos nessa lógica e portanto tive sempre sorte nas escolas em que eu andei de ter pessoas que também alinhavam nessa nessa loucura comigo e lá está, eu acho que isto não é não é o único meu eu conheço mais pessoas que são que eram assim, que eram interessadas e queriam ir para a mesa dos adultos é mais nova, acho que isto depois obviamente é aquela coisa de eu entro neste meio portanto as pessoas que eu vou conhecer vão ser parecidas comigo de alguma forma faz uma tribo no fundo sim, tenho uma amostra maior do que a média da população obviamente muito maior e muito pouco representativa mas não deixa de ser um facto que essas pessoas existem e que hoje em dia se vota mais do que há 10 anos e que as pessoas mais novas de agora eu já não sou a pessoa mais nova já há eleitores com menos 10 anos do que eu mas que esta geração a que eu pertenço e a geração imediatamente a seguir à minha são claramente mais interessadas por política e talvez seja pelo período em que cresceram do que há anterior. Portanto, a ideia de que os jovens não votavam, que era uma ideia da década passada, já não é tanto uma ideia desta década e eu acho que na minha geração isso de facto é mais comum às pessoas querem saber.

Jorge Correia
09:15
Portanto, o discurso de que os jovens não querem saber da política nem dos políticos é um discurso que está enviesado logo à cabeça? Eu acho que está desatualizado. Porque não estamos a fazer a pergunta certa? Porque não estamos a ver o que é que… Que tipo de canais, por exemplo? Tu tens um bom exemplo, que é a criação de um produto digital, o parágrafo que acontece no Instagram, onde o teu objetivo é simplificar, no fundo, a mensagem política. Vou falar de política aplicado a um meio, neste caso o Instagram, que é o último meio do mundo que nós podemos pensar como um sítio bom para discutir política. Mas enganamos-nos todos, porque tu ganhaste uma base fundamental de seguidores aqui.

João M Jonet
09:56
Sim, entretanto eu já não consegui dar sequência ao projeto como eu o fazia, que era interagir todas as semanas e responder às perguntas das pessoas, mas acho que dei sequência na lógica que eu queria enquanto comentador, que é tentar ir falar para a televisão e não falar chinês. E eu acho que na geração mais nova há muita gente interessada em política que se calhar depois não entra facilmente na política partidária ou na política ativa porque ela ainda está muito presa a maneiras de funcionar muito aborrecidas.

Jorge Correia
10:34
De propósito ou por falta de capacidade de comunicação?

João M Jonet
10:40
Acho que há um misto. Acho que de facto as coisas que são difíceis de compreender são mais fáceis de controlar pelos poucos que compreendem, não é? isso é um fenómeno evidente em todos os cenários políticos, em Portugal e no estrangeiro, mas, por outro lado, acho que também não há esse rasgo, porque à medida que os políticos são cada vez mais, e nós vemos no nosso Presidente da República, no nosso Primeiro-Ministro, no nosso Governo, À medida que os políticos fazem um percurso cada vez mais afastado da sociedade civil, é mais normal que eles não conheçam um mundo em que consigam falar de volta,

Jorge Correia
11:24
em que consigam ser entendidos. Estão numa bolha, perguntam ao seu conselheiro, então diga-me lá como é que isto está a correr, e quem está na bolha diz, caro chefe, isto está a correr de uma forma absolutamente extraordinária.

João M Jonet
11:36
Acho que os políticos, até às vezes pela maneira como selecionam pessoas fora da bolha, são muito impressionistas e pouco objetivos na gestão do que é que é uma bolha às vezes decidem e eu falo disso até no meu caso as pessoas às vezes decidem que há determinadas pessoas que representam os jovens e que têm um dedo no pulso dos jovens portanto eu vou chamá-las ou determinadas pessoas que representam a música e a essa altura a ocupação da pessoa é ser o que os políticos acham que é o representante dos músicos ou o que os políticos acham que é o representante dos escritores ou dos jovens. E isso faz parte da dinâmica de profissionalização. E eu acho que também estou obviamente embranhado nela. Eu acho que se não te embranhares minimamente na dinâmica de profissionalização não percebes o mundo o suficiente para explicar cá para fora. Mas tem sempre um pé dentro e um pé fora.

Jorge Correia
12:32
Então aí como é que tu fazes? Porque a tua ideia inicial imagino que tenha sido simplificar a mensagem que é eu vou traduzir isto que está a acontecer no universo de política para que o cidadão comum o possa compreender. Tu, como tradutor, serves mais a ideia, tu pegas na ideia e traduzes essa ideia, ou serves mais o público? O que é que eu quero dizer com isto? Que é, quando ambas entram em conflito, tu fascinas-te mais pela ideia que é absolutamente extraordinária da história que tu queres contar, ou pela audiência que quer se calhar um interesse diferente?

João M Jonet
13:08
É uma ótima pergunta na qual eu nunca tinha pensado muito bem

Jorge Correia
13:11
Porque eu imagino que se possa conflituar Se tu tiveres uma ideia para explicar que o público também quer entender aí parece-me perfeito mas se tu tiveres alguém na bolha política a querer contar uma determinada mensagem mas o teu público dizer ó Joné, calma lá que isto não é bem assim tu já fazes parte do clube e não me estás a ajudar

João M Jonet
13:35
a entender isto? Sim, depende, eu diria, há situações e também depende do meu viés. Estou sempre as pessoas, muitas vezes no meu percurso enquanto comentador e já antes diziam, ah, porque és muito isento. E eu dizia, eu não sou isento. Vocês é que concordam comigo. As pessoas

Jorge Correia
13:55
isentas não existem. Mas tu és implicado porque a tua opinião nunca é neutra. Quer dizer, eu vejo-te, tu atravessas-te.

João M Jonet
14:02
Tu dizes, eu sou contra isto. Eu não gosto de falta de risco. eu acho que as pessoas também nunca veem o suficiente no exemplo das eleições norte-americanas em que eu senti que a tendência geral das pessoas era, lá está, muito impressionista, muito vaga o Trump levou um tiro, saiu com aquela fotografia assim e portanto ele vai ganhar. E eu quis sempre estar a passar a mensagem que era mais ou menos tão provável ele ganhar como a Kamala Harris ganhar e até se calhar seria mais provável ela ganhar não queria dizer que não fosse uma hipótese 50-50 ou 55-45 e que ele não pudesse perfeitamente ganhar mas que era também importante as pessoas terem isso presente. Isso é um risco porque se ela perdesse, como foi o caso, as pessoas vão dizer ah, este gajo enganou-se. E eu, como senti que era mais provável que ela ganhasse, posso dizer, eu enganei-me.

Jorge Correia
14:48
E como é que tu te sentes quando tu fazes um comentário e te implicas e depois, no fundo, o teu vaticínio não se cumpre?

João M Jonet
14:57
Eu nunca não quero dar para profeta, portanto eu nunca é nada saber do vaticínio. Depois, obviamente, lá está. Tenho os meus viés. Eu preferia ter tido razão. Aliás, como os resultados no mundo em que vivemos demonstram bastante bem. Eu preferia ter tido razão. Mas a minha coisa é mais… O que me acaba por inquietar mais e lá está, se calhar aí estou mais casado com a ideia do que com o público é que as pessoas não percebem nuance. E eu às vezes irrito-me com as pessoas por isso. E portanto eu estou mais do lado de querer passar a ideia de nuance e dizer isto não é preto no branco uma pessoa dizer que uma coisa tem 55% de probabilidade de acontecer não é igual a 100 que é o que as pessoas instintivamente assumem sempre, se uma coisa é mais provável que a outra é porque a coisa vai acontecer

Jorge Correia
15:44
Então tu és um cidadão que não estás no teu tempo porque nós estamos no tempo do preto e branco escolhe lá, queres branco ou preto? És a favor ou és contra?

João M Jonet
15:51
Eu acho que por um lado sim, que me sinto muito mal nesse mundo, mas por outro lado tento um bocadinho adaptar-me é verdade que eu não gosto disso, mas e é a minha regra um bocadinho para a vida eu sou uma pessoa bem educada que tem calma, que tem respeito que tem contenção mas se me bates eu bato e foi assim que eu fui educado e não vou deixar de ser diferente não sou muito de fui educado de forma cristã é verdade, portanto se calhar até fui educado e católica, portanto se calhar até fui educado para dar outra face, às vezes tento mas não é a minha reação natural reação natural é se me batez eu bato e portanto eu sinto que às vezes isso me pode levar a perder a nuance, mas eu tento mantê-lo, eu acho que é difícil num programa documentário em que normalmente se quer uma espécie de Benfica Sporting em que uma pessoa é completamente isto e outra pessoa é completamente aquilo às vezes eu não encaixo exatamente nesses moldes porque eu posso ser como sou anti-Trump mas achar que Portugal tem quanto estão do seu dia-a-dia e das suas necessidades e para a sobrevivência nacional de deixar os Estados Unidos usarem a base das leis como os bem entenderem mais coisa menos coisa. A tal real político. E se calhar não encaixa no meu normal desejável idealismo e no meu, na minha normal e desejável, mas encaixa na minha normal e desejável vontade de nuança. Às vezes é ao contrário. Às vezes eu sou muito perentório porque a outra pessoa do outro lado está a ser muito perentório eu digo não, isso é uma estupidez. Se me estás a bater, eu também te bato. Sim.

Jorge Correia
17:31
Olha, então, se tu trabalhas com ideias complexas e trabalhas como comentador na televisão, que lá está, é um meio simplificado, binário, o que é que tu, quando tens que simplificar a mensagem, deixas de fora dessa complexidade, dessa nuance, desse pequeno inuendo da própria mensagem política?

João M Jonet
17:57
Eu acho que as pessoas criaram uma exigência com os comentadores que torna o trabalho um bocadinho difícil, porque os comentadores é suposto irem para lá ser uma espécie de líderes de clac, que eu não dou para esse peditório.

Jorge Correia
18:10
Ligam-te, mandam-te mensagens, insultam-te.

João M Jonet
18:13
Sim, há essas reações. E eu sinto que há muitos colegas meus comentadores, e eu às vezes também caio um bocadinho nisso, que é, por exemplo, eu estou a analisar esta guerra do Irã. E parece que é preciso fazer uma declaração de fé antes, a dizer, até só eu detesto o regime iraniano, mas… És contra ou a favor o Ayatollah, és contra ou a favor o conflito. E parece que as pessoas, eu às vezes pergunto-me por alguns comentários, eu acho que as pessoas não querem ver comentadores e não querem ver analistas. Eu percebo que haja comentadores a mais, eu até concordo um bocado com isso, mas parece que as pessoas querem ver pessoas que vão lá dizer exatamente o que elas diriam se lá estivessem. Eu até concordo com aquilo, eu quero ver mais o Jornalho porque ele pensa como eu penso, não o contrário. E não esta pessoa levou-me a pensar nisto de determinada maneira, trouxe-me esta informação nova, essas coisas não são minimamente valorizadas na arena de análise que são as redes sociais e até muitas vezes pelos critérios editoriais é mais se há sangue, não é? se há e isso, eu felizmente estou num canal em que acho que não há tanto essa lógica de sangue como noutros mas acho que há muito essa cultura na internet e que muitas pessoas já estão nisso não querem pessoas que se desviem um milímetro daquilo que elas já acham e para os políticos isso também é um bocadinho de verdade e isso para a minha missão enquanto político enquanto eleito ainda é mais real que é às vezes eu estou sempre a dizer isso às pessoas que trabalham comigo e fizeram campanha comigo eu não quero mandar um pensamento de ninguém mas se eu não concordar eu vou dizer e se acharem que eu vou perder votos por isso eu vou dizer a mesma tive o caso do eu acho que o autódromo do Estoril é uma coisa decrépita que é uma perda de espaço e de tempo e de dinheiro do Estado e que devia ser reaproveitado para fazer outra coisa qualquer e as pessoas dizem, ah mas é que o Ayrton Senna ganhou ali o primeiro grande prémio dele e não se pode deitar abaixo. Eu sou muito pouco emocional nessas coisas e acho que essas coisas às vezes custam votos. Até porque os políticos ganham eleições pelas ideias ou ganham pelas emoções? Eu acho que ganham mais pelas emoções. E eu acho que a minha campanha ganhou mais pelas emoções do que pelas ideias. Não ganham eleições, mas ganham votos mais pelas emoções por uma certa ideia de nostalgia, de qualidade de vida, que a minha maneira de pensar representa, se calhar, mas menos pelo… Se calhar há coisas que eu gostava de fazer e que as pessoas não enquadram nessa… E que eu disse que gostava de fazer. Não quero saber o que é que ele pensa sobre isto. Sim, que as pessoas não enquadram nessa qualidade de vida mas não interessa muito bem porque nós vivemos num mundo, usar a expressão inglesa que eu acho que define a nossa era e porque o inglês define a nossa era das vibes. É vibes. As pessoas dão a vibe de ser isto e, portanto, está ótimo. Não é preciso ouvir, não é preciso prestar mais do que dois minutos de atenção, eu já peguei aqui a vibe, é isto. Então e qual é a tua vibração?

Jorge Correia
21:19
O que é que tu achas que inspiras nas pessoas? Porque tu tens isso, não é? Quer dizer, tu tens um pedigree comunicacional, é o que tu dizes. Quer dizer, independentemente do que tu digas, do que tu defendas, na realidade é… Estás na moda. No fundo é isto, não é? Quer dizer, independentemente do que aconteça, eu digo olha, eu se calhar posso votar neste candidato ou não votar em função da minha simpatia por ele. E depois o resto logo se vê.

João M Jonet
21:46
Sim, é um bocadinho difícil eu pôr-me de fora de mim próprio para perceber o que é que será a minha vibe.

Jorge Correia
21:51
Quantos dos teus eleitores é que terão lido as tuas propostas eleitorais? Não, muitos, eu acho.

João M Jonet
21:56
Sendo que eu acho que tenho uma certa sobre-representação em termos de eleitorado em quem está mais informado. Eu sou comentador de um canal de informação, era uma candidatura independente, portanto, em princípio as pessoas que foram votar numa candidatura independente que está assim mais num nicho de informação é porque foram à procura de um bocadinho mais de informação do que o eleitor médio que se calhar vai lá sempre e vota sempre no mesmo partido.

Jorge Correia
22:19
Não foi uma questão de dizer, olha, o tipo da televisão é candidato, olha que engraçado, se calhar vou votar neles

João M Jonet
22:26
os canais de informação não têm essa audiência toda, não é? Ou seja…

Jorge Correia
22:32
É uma lógica de política de reality show que é eu voto num personagem, eu voto naquela persona e não exatamente naquilo que esse candidato me pode servir melhor? Estou pensando em termos comunicacionais.

João M Jonet
22:46
Sim, sim, eu acho que há uma… Ou seja, se… Eu gostava de ter mais testes, por acaso. Honestamente, acho que… Celebridades a sério, que não é, pessoas que estão nos canais generalistas que às vezes dão opiniões políticas, era interessante vê-las a participar mais da política porque nós, normalmente quando temos as pessoas a saltar, Mas estás a pensar aqui nas Cristinas Ferreiras e por aí fora? Sim. Para ver o impacto que isso teria. Testar essas pessoas, elas candidatas a um posto político? Sim, isso é que é o Trump, não é? Ou seja, é uma pessoa que estava no mundo da informação, da comunicação generalista, de massas, e salta para a arena e tem um impacto isso, porque as pessoas acham que conhecem. Eu acho que pessoas que saltam documentadores políticos em canais de informação, apesar de tudo, estão a ouvir de um nicho, às vezes penso nisso, vamos pensar que em média, se eu estiver num horário bom, hoje em dia, estão 200 e tal mil pessoas a ver-me na televisão. 200 e tal, o Cascais tem 2% da população de Portugal, portanto, não dava para testar. Não dava sequer para dar os 3 mil votos que eu tive, portanto, essa parte, mesmo que haja uma sobre-representação, não acho que isso dê para testar a política de reality. Eu acho que pessoas mais… Uma pessoa mais universalmente conhecida daria mais para testar. Marcel deu mais, por exemplo. Portanto, tu sonhas com uma eleição Ricardo Arousa Pereira, Cristina Ferreira? Eu não sonho nada. Era divertido? Eu não sonho nada com isso. Eu não acho isso sequer propriamente bom e acho que o Ricardo pelo menos não terá o menor interesse nisso. Acho só que, para nós testarmos se a nossa política é efetivamente reality show, tinham que ser mais esse tipo de personagens.

Jorge Correia
24:43
E se uma dessas personalidades ganhasse efetivamente a eleição, isso era uma coisa que te surpreenderia, que te deprimiria, ou que tu dirias, eu avisei.

João M Jonet
24:58
Não, eu avisei, não diria, porque eu acho que não estou a avisar nada. É só uma coisa de… Eu acho que isso é o ponto em que os Estados Unidos estão, por exemplo. uma pessoa chegou a presidente porque as pessoas tinham a ideia da televisão que a pessoa era rica e tinha sucesso empresarial e portanto era nós ainda não estamos aí, portanto eu dizer que a nossa política é realidade e show, até quando temos por exemplo um político que é o mais seguido nas redes sociais, provavelmente tem o maior reconhecimento de imagem não só de nome, mas de imagem no país como é o André Ventura e só tem 33% dos votos, eu acho que isso nos diz que a nossa política ainda está bastante longe dessa lógica de reality show. E o outro candidato, António José

Jorge Correia
25:40
Seguro, agora presidente, exatamente o contrário. Sim. Não tem uma pessoa que tem 10 anos afastada. Que não bate exatamente

João M Jonet
25:46
naquilo que é uma estrela de redes sociais. Sim, portanto, eu acho que nós não estamos nesse ponto de política de reality show. Eu acho é que as pessoas vão por estas vibes e os portugueses ainda maioritariamente preferem a vibe calma, moderada. E não correr riscos. e não correr riscos.

Jorge Correia
26:05
Olha, o que é que Trump tem em termos de comunicação, como comunicador, o que é que ele sabe que nós, ambos do universo da comunicação, não conseguimos entender? O que ele sabe que eu não consigo entender,

João M Jonet
26:21
como diria o Donald Rumsfeld, eu não sei. Agora, o que ele tem e que eu consigo entender é um instinto quase animalesco primário de busca por audiências, por interesse por ter por criar um constante abismo em que nós estamos quase a cair e nos manter constantemente interessados é um circo constante e eu acho que ele tem jeito para o espetáculo

Jorge Correia
26:56
antecipa aquilo que pode acontecer, aquilo que pode preocupar as pessoas e tenta, ora uma resposta, ora uma manobra de diversão

João M Jonet
27:03
eu acho que ele antecipar não antecipa nada porque eu acho que ele não pensa, por aí a lei eu acho que aquilo é mesmo uma coisa de o que ele pensa é em manter as coisas num limbo e a mexer-se, no fundo e quanto mais tempo tiverem num limbo e quanto mais coisas dramáticas acontecerem nesse limbo melhor e portanto lembro-me desde o primeiro mandato acho que Donald Trump está um comunicador muitíssimo pior

Jorge Correia
27:29
piora? Sim

João M Jonet
27:31
melhorou. Eu acho que piorou imenso mas que vive um bocadinho lá está das vibes que foram

Jorge Correia
27:38
conquistadas há 10 anos. Ele antigamente, o início dos tempos além de um programa de televisão muito conhecido o estagiário em que ele é uma estrela de televisão depois vem a era dos tweets pequenas mensagens muito no tempo do tweet é a dos 140 caracteres muito certeiras, muito civilinas, muito diretas, comunicação muito direta e hoje quando vemos a comunicação dele, vemos lençóis gigantescos de comunicação. Faz lembrar de Gole entre o início da guerra e o fim da guerra, os discursos das doze palavras por parágrafo e depois os longuíssimos discursos.

João M Jonet
28:21
Sim, eu acho que há uma… Acho que ele está a ficar mais velho. Acho que há uma falta de energia na maneira como ele debate, como ele responde. Quando nós comparamos a maneira como ele insulta da primeira republicana de 15 e 16 para agora, Donald Trump é hoje uma pessoa muito mais aborrecida. Com menos energia. Está um tédio no fundo. Sim. E eu acho que isso também se nota nos textos. Lá está ele. Nós estamos a gravar isto. Posso ser o dia? Claro que sim. Sexta-feira, dia 10 de abril, lá à noite de dia 9, quinta-feira, disse… Fez um texto a criticar os influencers de extrema direita que o estão a criticar a ele. Um texto gigantesco. Que é a base de apoio dele, que são os MAGA ou não? Sim, ele diz que não pertencem, mas… Intelectuais da direita norte-americana. Sim, pseudo, os podcasters, Tucker Carlson, Candace Owens, Megan Kelly. E ainda se nota ali algumas das coisas que faziam com que Donald Trump cativasse por ter graça, por ser incisivo, mas num texto tão longo que se perdem. pelo meio de dizer que eles não servem para nada e pronto, atacar cada um deles individualmente em longas mensagens, a vez de lá está as pequeninas mensagens que o Twitter antes lhe dava, diz e já agora a Candace Owen está sempre a dizer que a mulher do Presidente de França é um homem eu espero que ela perca muito dinheiro no processo que vai ter e já agora eu acho que a mulher do Presidente de França é muito mais bonita que ela isto é uma coisa… E tu achas que isso tem um objetivo, criar esse ruído?

Jorge Correia
29:58
ou achas que é uma coisa intuitiva?

João M Jonet
29:59
Apetece-lhe dizer. Apetece-lhe dizer, mas o Trump dá 10 anos se quisesse mandar vir com a Candace Owens não escrevia 27 frases. Escrevia a mulher do presidente de França é muito mais bonita que a Candace Owens. Tinha graça, era do nada, ninguém percebia. Era uma provocação. Era uma provocação. E eu acho que ele ainda vive um bocadinho dessa aura, também para usar uma expressão muito de género, alfa, para ter esta influência política que levou a ganhar esta eleição agora. Ele viveu muito da nostalgia do pré-Covid e do Trump pré-Covid, que já não existe. Mas não acho que ele hoje em dia tenha uma comunicação muito boa. A única coisa que ainda se agarra da estratégia dele de comunicação do primeiro mandato, as únicas duas coisas, são fazer coisas muito chocantes,

Jorge Correia
30:56
que distraem da falta de substância que elas tiveram. E, portanto, atrai os médias, atrai as redes sociais? Há uma polarização também?

João M Jonet
31:03
Sim, é lembrar aquela reunião com o Kim Jong-un. Esta reunião, agora que poderá existir com o Irão, lembra um bocadinho isso. Agora vai dizer, esta foi a primeira vez que altos dirigentes dos Estados Unidos reuniram desta maneira com altos dirigentes do Irão. Depois, se a substância não produzir nada, é indiferente, porque a fotografia é de um homem da paz e, portanto, a vibe é de um homem… A fotografia com o Kim Jong-un vale muito mais do que ele não ter conseguido absolutamente nada em relação ao programa nuclear da Coreia do Norte ou isolamento da Coreia do Norte. Ele não conseguiu nada daquela fotografia. Mas a fotografia foi usada na campanha como uma coisa útil. Ele conseguiu falar com o Kim Jong-un, que era uma coisa que, se todos os presidentes americanos quisessem antes dele, teriam feito. Mas não achavam que fosse relevante dar-lhe essa possibilidade de se reunir com eles sem receber nada em troca.

Jorge Correia
31:55
Donald Trump precisa só da fotografia, precisa só da imagem. E isso cria uma imaginação na cabeça dos eleitores e dos cidadãos que, no fundo, captam essa vibração e dizem ok, está aqui uma história bem contada.

João M Jonet
32:06
Sim, essa é a coisa que ele mantém, de alguma forma, eu acho. A outra é perceber quando um assunto é pior para ele do que outro, mesmo que ou os dois maus, é bom chutar para aquele outro assunto e mudar o mal menor. Ele tem muito jeito para isso. Está tudo chateado com o Epstein, então vou fazer uma coisa sobre o Irão. Está tudo chateado com o Irão, então lembram-se do Epstein. Ele sabe reorientar a atenção, e eu acho que a imprensa cai muito nisso também com muita facilidade, mas tem essa capacidade de reorientar a atenção, de forma a que o holofote nunca esteja muito tempo no calcanhar daquilo dele.

Jorge Correia
32:47
Olha, estamos no mundo das redes sociais, estamos no mundo seguramente da polarização, da comunicação por impulso, por tweet, por momento, a comunicação da fotografia, lá está, a foto do Instagram, se calhar a conseguir não sei quantas mais visualizações do que uma grande ideia. As redes recompensam quem é mais assertivo e penalizam quem tem dúvidas. Estou perguntando-te porque tu foste treinado, tu treinaste-te neste modelo Instagram.

João M Jonet
33:16
E no Twitter.

Jorge Correia
33:17
E no Twitter. Portanto, o Twitter, lá está, o fogacho, os 140 caracteres de hora à coisa brilhante, hora à canelada na alguém e depois a ferramenta visual que é o Instagram. O que é que esse treino fez ao teu pensamento?

João M Jonet
33:36
Eu, quando comecei a fazer respostas a perguntas sobre a política que as pessoas me faziam no Instagram, os vídeos do Instagram de uma story só podiam ter 15 segundos. Bom treino. entretanto ficou um bocadinho diferente mas eu acho que isso é um treino e é um treino que eu admito que em parte perdi portanto eu também acho que estou a passar um bocadinho pelo mesmo processo que o Donald Trump que é a pessoa acaba por se alongar um bocadinho, eu no Twitter ainda tenho isso recuso-me a pagar para ter aquilo portanto continuo com a minha limitação os teus 140 caracteres ou 200 e picos já nem sei o que aquilo é mas acaba por ser mais curto eu acho que o Twitter recompensa muito ser polémico acho que o Instagram também mas menos acho que o mas o Twitter é neste momento uma coisa a morrer a pessoa já só está um bocadinho pela nostalgia sempre o hábito

Jorge Correia
34:31
as redes sociais ensinaram-te a comunicar ou ensinaram-te a reagir?

João M Jonet
34:39
eu acho que foi bom para aprender a Eu acho que foi muito bom eu reagir tão incisivamente no início do meu percurso E, entretanto, foi bom para mim aprender a ganhar um bocadinho de autocontrole com… Escrever mensagens e apagar antes de as publicar? Não, eu não faço muito isso Ou publicar e dizer dias depois Não era isto que eu devia ter publicado Há uma coisa interessante, que eu acho que toda a gente passa um bocadinho É um bocadinho com mais bandas e aquelas pessoas que só gostam de ouvir bandas quando não têm mil pessoas ouvi-las no Spotify. Quando começam a dar concertos grandes as pessoas já não gostam. Os indies? Sim, eu acho que há uma lógica um bocadinho indie no meu percurso original de internet que depois com umas bandas, para conseguir chegar a uma audiência maior e para começar a trabalhar com uma audiência maior se desvirtua um bocadinho. Hoje em dia tem muito menos problemas se eu fizer um vídeo de dois minutos porque há muito mais gente mais velha gente mais velha vê televisão, porque gente mais velha vota e ouça até sou de um dos conselhos mais envelhecidos do país. E porque tu já tens uma tribo? Sim, e que ela também se tornou mais velha. Eu acho que me tornei, acho que cresci nesse sentido e acho que ficou menos híndi, não é? Ficou menos… E depois também tens a coisa humana, que eu tento não me deixar condicionar, mas que é difícil, que é… Uma coisa é que tu estás a dizer mal do secretário-geral do PS e dizias que anda burro e tens 19 anos e não o conheces de lado nenhum outra coisa é se tu o conheceres isso também afeta a tua comunicação se calhar a família dele vai ver isto eu lembro uma vez ter criticado o Bruno de Carvalho, que é uma pessoa que eu não gostei nada que fosse presente do Sporting eu sou muito do Sporting isso parece uma doença eu sou muito do Sporting e ele mandou-me uma mensagem a dizer minha filha viu isto e gosta muito das tuas coisas e eu depois até fui café com ele e pedi-lhe desculpa porque é chato. Eu de facto detestei que ele fosse presidente do Sporting fiz-me sócio do Sporting com o meu dinheiro para pagar as minhas cotas para votar contra ele mas quando se entra mais em contacto com o lado humano quando se deixa de ser um guerreiro de teclado que eu acho que foi um processo que eu também passei, também se perde um bocadinho essa essa atitude mais no limite que acaba por atrair muita gente O guerreiro de teclado? Sim, é uma expressão Como é que é um guerreiro de teclado? É aquela pessoa que vive para chamar nomes. Existem muitos. Eu noto isso no dia a dia, não é? Há muita gente que me dirige os maiores insultos nas redes sociais e não há uma única pessoa que me insulte na rua. Eu calculo que alguns sejam botes, mas até às vezes há pessoas que escrevem nas redes sociais que se cruzaram comigo na rua e quase me disseram alguma coisa. E que têm nojo de serem minhas vizinhas ou coisas assim. E eu peço, esta pessoa tem assim estes sentimentos tão fortes e tão corajosa para insultar desta maneira. De facto, se um dia se cruzasse comigo, podia dizer qualquer coisa. E não diz. Nunca diz. Há uma espécie de covardia quando estamos todos atrás de um teclado e de um necrã. No meu caso, acho que era falta de noção. Acho que com a distância para os políticos, tu esqueces de que eles são pessoas.

Jorge Correia
37:59
São pessoas. Sim. Não são pessoas. Não são bonecos. Bonecos no sentido de representam um papel social.

João M Jonet
38:07
É disso que eu estou a falar.

Jorge Correia
38:08
Mesmo nas pessoas com quem eu sou mais duro,

João M Jonet
38:13
pessoas do Chega, o Primeiro-Ministro, as pessoas do Chega às vezes até ficam espantadas com isso, que é eu tento pessoalizar no mínimo. Eu já fui muito mais agressivo e insultuoso do que sou hoje em dia. Tu fazes uma racionalização do teu processo de comunicação. Sim. Eu, por exemplo, no outro dia o vereador do Chega lá em Cascais acabou uma reunião e veio até comigo e disse assim Epá, tu és um antifascista muito estranho porque se eu fosse… Eu sou antifascista, dizia-me o do Chega. E dizia, se eu fosse antifascista e visse um fascista, eu não era simpático com ela. Ele disse-me isto à frente. Era mais agressivo. Estou à vontade para dizer, porque ele disse-me à frente a outras pessoas, era mais agressivo. E eu disse-lhe o que eu acho sinunamente, que é, eu não acho que até ao dia em que seja preciso ser agressivo, eu tenha que ser agressivo. Eu acho que nós garimimos argumentos. Eu sou contra o fascismo, acho mal, mas acho que ele tem direito a ser fascista. E hei de argumentar enquanto ele estiver a jogar com as regras do jogo da democracia. Se eventualmente houver um dia em que ele deixar de jogar com as regras do jogo da democracia, E se calhar aí teremos que passar a outras maneiras de funcionar. Mas eu acho que há aqui uma necessidade de respeito que as pessoas às vezes confundem com hipocrisia. Mas que eu acho que é importante separar o que é que é o combate de ideias do que é que é um combate que é pessoal.

Jorge Correia
39:46
O que me faz perguntar-te se aquela conversa de que nós vemos na televisão, lá está muito polarizada de branco e preto para a esquerda ou para a direita se na discussão tu fazes parte da bolha na discussão dos políticos quando as câmaras e os microfones não estão ligados se a conversa é do mesmo nível ou é completamente diferente? Depende, há pessoas que se odeiam Que se odeiam mesmo? Pessoalmente? Sim, sim, sim Não é uma questão de pensamento?

João M Jonet
40:17
Não é uma questão de mensagem? Não, há pessoas que pelo choque de pensamento se passam a odiar E eu já tive situações limite comigo em que o debate do outro lado passou para uma coisa um bocadinho ad hominem que fica mal. E eu digo sempre que acho mal. Mas eu não sou de rancores. E dois, acho mesmo que são duas coisas diferentes. Eu não concordo nada com o Miguel Morgado e com as ideias dele. Mas pessoalmente não tenho absolutamente nada contra ele. acho que se um dia houvesse uma guerra civil e nós tivéssemos que andar à pancada se calhar andávamos mas eu espero que não e acho que é saudável pessoas com ideias diferentes agora acho que é verdade que a comunicação atual procura um bocadinho pessoas que às vezes têm uma tendência um bocadinho antissocial de pessoalizar debates que são de ideias e de se odiarem de chocarem mesmo de forma pessoal e mesquinha. Lá está, as redes sociais depois também polarizam isso. Sim, e as pessoas, a esmagadora maioria das pessoas que hoje em dia comentam na televisão, eu fui e sou criticado por isso, por vir das redes sociais, mas quase toda a gente da geração de 10, 15 anos mais velha que eu, 20 anos mais velha que eu, veio dos blogs.

Jorge Correia
41:43
Portanto, é o mesmo percurso no fundo, não é?

João M Jonet
41:44
Sim, todas as pessoas que publicam a opinião são as pessoas que depois as pessoas que procuram opinião encontram.

Jorge Correia
41:50
Há uma gramática invisível na linguagem política. Isto é, há coisas que na política se usam recorrentemente como chavões e outras de que não se fala nem ninguém quer falar. Há uma espécie de trato geral da linguagem para evitar determinados assuntos ou para falar de outros?

João M Jonet
42:11
Eu acho que… Acho que hoje em dia não. acho que se calhar há estas preocupações excessivas como eu já falei que é esta espécie de credo que os comentadores têm que professar antes de antes de falar sobre os assuntos que é, atenção que eu não estou a dizer que apoie este regime atenção que eu não essas coisas porque é que precisamos de fazer esse contexto? eu acho que é porque assumem que as pessoas são burras que é uma coisa que me irrita e as pessoas não são? não esta coisa de tratar as pessoas como se fossem bebés que precisam de ser guiados pela lógica do 1 para o 2 para o 3 para o 4 para o 5 e não podem, de repente, uma pessoa dizer 4 vezes 6 e a pessoa chegar lá. Ninguém sabe fazer essa conta, não é? Tem que ser tudo muito devagarinho e muito… Eu acho que é muito infantilizadora do espectador e que cria-se estabus de não se pode dizer coisas muito complicadas. Eu me arrem muito nisso. Aliás, no espaço que eu tenho em que tenho a minha liberdade editorial às sextas-feiras, às nove e meia da noite, normalmente falo das coisas mais específicas dos Estados Unidos que possam existir, porque eu acho que elas de facto são… É relevante comunicá-las e é relevante tentar que elas se percebam. Como é que tu escolhes os assuntos? Quais são os teus critérios? O que é que te mozina? Tenho 15 minutos por semana. Estamos a falar num dia em que eu preparei isso. Eu só preparo no próprio dia de manhã, porque a realidade anda de mudada. de rápido para outra coisa. Mas vou pensando ao longo da semana, gostei deste tema, gostei deste tema depois faço assim uma… faço uns resumos de cada um enquanto eles vão aparecendo e depois no dia faço uma espécie de classificação e quem ficar nos quatro primeiros vai parar aos quatro primeiros slides e aos quatro temas e o resto sai fora, se calhar fica para a semana, se calhar não. E aquilo que te apaixona, aquilo que tu compreendes, aquilo que tu não compreendes? Eu tento sempre ser a coisa que seja uma coisa em que eu consigo explicar, sinto que consigo explicar bem em que eu estou confortável. Portanto, eu prefiro muito mais coisas eleitorais, que é a minha área de estudo que eu gosto, do que coisas económicas. Mas eu procurei aprender muito mais sobre a economia para poder falar sobre estes assuntos. Até porque a economia conta, não é? Claro, claro. E se calhar depois o judicial, mas também procurei nos Estados Unidos procurar muito por dentro do sistema judicial e como é que ele funciona. E por aí em diante, se fosse se calhar um religioso e se me foste perguntar grandes diferenças teológicas entre um metodista e um episcopal eu às vezes penso, se calhar eu para perceber melhor a sociologia desta gente devia estar mais aprofundado nisto mas lá está, vou por ordem das coisas que eu estou mais preparado mas por outro lado, tento sempre coisas que não sinto que toda a gente tem estado a falar na televisão a semana inteira que já estão gastas? sim, e ângulos diferentes eu tento sempre, e que acho que há uma coisa que a profissão de comentador a tempo e até, que é uma coisa que eu não sou, mas a profissão criou um bocadinho, é uma espécie de, porque é mais fácil porque não há tempo para tudo porque é muito mais prático criar uma espécie de guião semanal e um guião semanal é esta semana eu escrevi um artigo de opinião no Jornal X no sábado e depois no meu programa de rádio da segunda-feira vou dizer exatamente a mesma coisa, no meu programa de televisão de quarta-feira vou dizer exatamente a mesma coisa Ou seja, as pessoas prestam tão pouca atenção às coisas e a mensagem está tão fraturada que isso é relevante isso é importante enquanto estratégia de comunicação para passar uma mensagem. Mantens a mensagem e vais repetir Isso é o que todos os profissionais de comunicação dizem para fazer. Deve-se fazer? Eu acho que do ponto de vista de eficácia da mensagem sem dúvida nenhuma, do ponto de vista de não ter uma vida aborrecida e de gostar-se do que se está a fazer, não se deve fazer

Jorge Correia
46:00
de maneira nenhuma. Então e porquê que os consultores de políticas estão sempre a explicar aos políticos que a melhor coisa que podem fazer é ou não responder à pergunta ou arranjar umas boas técnicas para

João M Jonet
46:10
fugir àquela pergunta e colocar

Jorge Correia
46:12
outra resposta. A disciplina

João M Jonet
46:14
é muito mais fácil controlar uma coisa disciplinada e portanto mas eu acho que há um esforço de obrigar as pessoas públicas as políticas e os políticos a desumanizarem-se estão a ficar robôs? Sim, por causa da técnica não se comprometem, eu vejo no primeiro-ministro de inglês, por exemplo eu não faço a menor ideia do que é que ele acha sobre assunto nenhum e eu acho que ele também não, e portanto um governo que tem uma maioria absoluta gigantesca não sabe para onde é que quer ir porque foi feito para não se comprometer e como não se comprometeu conquistou uma maioria gigante mas eu acho que isto tem que ser um processo conjunto por um lado os políticos têm que começar a arriscar o que eu estava a falar há bocado, dizer coisas apesar de acharem que lhes vão custar votos, se é o que eles acham. Não vão gostar de mim se eu disser isto. Sim, os políticos têm que começar a achar coisas. Acho que o Chega e coisas parecidas também crescem muito com base nisso. Que é, ao menos estas pessoas estão a dizer o que lhes vai na alma. Pode ser uma estupidez, mas é o que lhes vai na alma. Enquanto que os outros políticos mais moderados, no fundo, estão sempre em cima do muro. Mas mesmo os comentadores. E isso é que eu acho, estão com essa disciplina da agenda da semana. Nesta semana eu tento cada vez que lá vou e sei que às vezes me repito porque estou a passar a mesma ideia e tem que ser, mas tento cada vez que lá vou pensar numa frase, pelo menos numa ideia que lance que seja diferente da anterior. Nem sempre me sai bem, quase. Nem um pouco mais ou menos mas é uma coisa que eu acho que é um desafio importante. Ir arriscando, ir tentando ir fazendo coisas diferentes. Eu acho que as pessoas estão muito fartas dessa inautenticidade. Por outro lado tem que se começar a responsabilizar um bocadinho os eleitores porque se eu por um lado critico comentadores e políticos por tratarem as pessoas como crianças também tenho que criticar eleitores por se deixarem tratar como crianças e por terem reações muito infantis não querem nem saber, reagir? não, eu acho que como crianças no sentido em que não querem ouvir coisas que não gostem e têm uma reação de birra não querem ser desafiados, não querem pensar era o que eu estava a falar no início

Jorge Correia
48:25
Mas isso coloca aqui uma questão entre a mensagem e a verdade, não é? Quer dizer, se tu percebes que os teus eleitores não querem ouvir toda a verdade ou que vão a moar, há uma grande tentação para adorar a pílula, para contar só metade da história.

João M Jonet
48:39
Claro, não, acho que a tentação é evidente, acho que os políticos estão a responder à procura que há no mercado. Há uma oferta e procura. Diz-me coisas que me encantem e guarda mais a chance. Há oferta e procura de pessoas que parecem genuínas e que digam e que prometam o céu e a terra e daí os movimentos populistas o sonho e há oferta e procura de pessoas que não comprometam, não chateiem, nada muda e eu acho que os portugueses ainda estão mais nesta segunda coisa mas na dúvida deixa estar não podia nem estar na coisa de querer uma pessoa que ache o mínimo de coisas possíveis porque se achar muitas coisas eu depois vou concordar com umas e discordar de outras e, portanto, já não gosta da pessoa porque ela é demasiado polémica e opinativa. Aqui o eleitorado está a ser infantil, não está a reconhecer a necessidade de nuance na pessoa aborrecida. E o mérito também de quem toma posições mais abertas. Eu lembro, quando estive num partido, achava sempre isso, que as pessoas que avançavam mais eram quem se comprometia com o mínimo de opiniões possível. Isso é uma tática de sobrevivência. Claro. Mas eu acho que as pessoas têm que deixar de recompensar isso, os eleitores. Por outro lado, também têm que deixar de recompensar esta pseudo-alternativa que há pessoas que lhes prometem o céu na terra.

Jorge Correia
49:55
E que nós todos sabemos que, como é evidente, é manifestamente exagerado.

João M Jonet
49:59
Claro. E eu, nesse sentido, acho que as últimas eleições presidenciais americanas são um ótimo exemplo disso, que é, pronto, o Trump ganhou por 1,5 pontos percentuais. Portanto, foi uma vitória muito à tangente, apesar das pessoas não quererem processar isso por várias razões. Mas depois eles têm uma lógica de Estados e de Colégio Eleitoral. Sim, mas mesmo no colégio eleitoral a vitória foi por 1.7.

Jorge Correia
50:26
Engraçado que eu tenho a sensação, lá está a perceção, de que foi uma vitória esmagadora.

João M Jonet
50:32
Porquê? Porque ele repete isso 90 mil vezes. E porque é muito melhor para muitas pessoas que fazem opinião passar uma coisa sem nuance de o Trump ganhou e portanto isto quer dizer não sei o quê. Há uma história romântica no fundo à volta disto. Sim, o Trump ganhou. A história do herói. Tem que querer dizer que ele ganhou por muito e os americanos são assim. Quando nós vamos ver os resultados objetivos ele teve 49,9% contra 48,5%. Foi mesmo a tangente, tangente, tangente. Não foi de toda uma das maiores vitórias eleitorais de sempre.

Jorge Correia
51:02
Já agora o que é que tu intuis, acho que é a melhor maneira de perguntar isto, que possa acontecer agora nestas eleições do meio do mandato? Intercalares. Que são historicamente difíceis para os presidentes?

João M Jonet
51:15
São historicamente difíceis para os presidentes e os presidentes em média perdem um número considerável de lugares na Câmara dos Representantes e às vezes lugares no Senado, sendo que isso é mais complexo. Os sinais que nós estamos a ter é que vai ser muito mais difícil do que é normal porque a popularidade do Donald Trump está mesmo, mesmo, mesmo abaixo do que é normal.

Jorge Correia
51:37
E lá está a economia também a ter o seu papel.

João M Jonet
51:39
Sim, mas lá está. Porque os eleitores aí votaram. 49,9% votou numa pessoa que lhes prometeu que os preços iam baixar, que é uma impossibilidade económica, sem que provocar uma crise gigantesca, não é? A deflação que ninguém quer. Votaram no céu e na terra. E quem não votou no céu e na terra, votou na alternativa que era uma pessoa que não se comprometia com praticamente nada para se manter a agradar ao máximo de pessoas possíveis. Também tinha uma escolha difícil. Em ambos os casos, eu acho que a escolha não era difícil do ponto de vista de querer manter um país estável e funcional, como aqui em Portugal também não foi nas presidenciais. Mas tal como os eleitores não podem dar o sinal ao sistema de que aceitam ser vergonhosamente aldravados como alternativa ao sistema, também não podem dar o sinal à alternativa ao sistema de que o que vão construir é uma coisa amorfa, indiferente, que não dá bem para perceber o que é que é, porque quanto menos pessoas desagradar, mais pessoas vai agradar minimamente e, portanto, vai passar. Há aqui uma necessidade dos eleitores serem um bocadinho mais exigentes e o que é curioso, eu acho que a escolha não era difícil, e o que é curioso em termos de comunicação e informação é que há estudos pós-eleitorais que dizem quanto mais uma pessoa consumisse informação, programas eleitorais, notícias, entrevistas, debates, comícios, mais provável era ter votado na Kamala Harris. Mas por 20, 10, 15, 20, 30 pontos, quanto menos informação consumisse, mais provável era ter votado no Donald Trump. E diz-nos muito sobre a exigência que o eleitorado tem que ter também.

Jorge Correia
53:21
Eu tenho duas perguntas finais para esta nossa conversa. Tu já disseste alguma vez alguma coisa, agora no teu apelo político, alguma coisa em público que não acreditavas verdadeiramente só porque funcionava? Eu acho que não. Alguém que te diga, diz isto porque isto aqui é aquilo que os teus eleitores querem ouvir.

João M Jonet
53:47
Eu acho que não, porque eu sou um bocado teimoso. Acho que já omiti, às vezes omito sim, coisas que eu acho. Não omito sempre, é público. Eu estou sempre a dizer coisas. Portanto, se alguém seguisse todas as coisas que eu digo… Consegue fazer um puzzle. Sim. Agora, eu acho que às vezes em determinadas discussões posso omitir uma coisa que é muitíssimo impopular em qualquer sítio. Posso dizer aqui, porque já disse em mil outros sítios e não há uma coisa que eu esconda. É só uma coisa que eu não estou sempre a fazer um grande alarde à volta porque eu sei que as pessoas… É uma discussão complicada, que as pessoas vão gravar o bocadinho e não vão querer perceber o todo. Mas eu sou uma pessoa a favor de maior densidade nos centros urbanos. Ou seja, sou a favor de construção mais em altura para conseguir que à volta dos centros urbanos existam mais espaços verdes, existam mais espaço para a natureza, porque as pessoas são concentradas num espaço mais pequeno. As pessoas odeiam prédios. Odeiam. Os prédios são a opção mais racional. Dá para construir sistemas de transportes mais eficientes, dá para ter menos lojas e serviços espalhados por todo lado e dá principalmente para proteger o património natural. Eu sou de um conselho em que uma boa porcentagem é um parque natural.

Jorge Correia
55:03
Mas não é uma ideia popular, não é?

João M Jonet
55:05
Quanto mais gente vivesse em torres para deixar o parque natural sossegado, melhor, em vez de se andar a construir para cima do parque natural. Agora, se tu cortares isto e dizias, este gajo adora torres e quer pôr torres à frente do… Choné quer fazer… Torres à frente da linha toda e arranha-se ao junto à praia. feira em Cascais, não quero nem sequer até acho que devia ter uma uma trajetória crescente em que a proximidade da praia fosse mais limitada em termos de altura portanto eu tenho uma posição com a nuance mas é daquelas coisas que eu omito Já está, a nuance já foi

Jorge Correia
55:40
Porque sim, não dá Olha, fechamos Contribuíste mais para a solução ou para o problema que queres resolver? No fundo, que a política seja uma boa arte de comunicação e de cidadania, de aproximação aos cidadãos?

João M Jonet
55:56
Eu acho que houve muitas vezes Em que ter estado mal E ter sido excessivamente agressivo E pronto Mas as pessoas nem sempre têm toda a paciência do mundo E acho que Não tenho tempo Para fazer da maneira como eu gostava E para me adaptar às novas técnicas de comunicação Coisas mais Tipo Tik Tok Já não é da minha geração

Jorge Correia
56:19
Compreendes aquela linguagem do Tik Tok?

João M Jonet
56:21
Compreendo, eu compreendo perfeitamente só que já não é da minha geração tanto, ainda é, mas não tanto produzir conteúdos daquela maneira e portanto acho que nesse sentido posso ter ficado um bocadinho para trás em algumas coisas mas espero ter feito o melhor que eu podia para que pessoas percebessem, ainda hoje há pessoas que me dizem que se interessaram por política, que escolheram cursos porque me seguiam e isso para mim já vale tudo, porque era a ideia. João Maria Joné, muito obrigado. Obrigado.

 

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