Em 2008, a Arca de Fernando Pessoa foi a leilão. O baú de madeira onde o poeta guardou quase tudo o que escreveu — rascunhos, fragmentos, heterónimos inacabados, cartas por enviar, teorias que nunca chegaram a ser livro — foi comprado por um colecionador privado que nunca se identificou. O Estado português não acompanhou os preços. A Arca partiu. E algures no mundo existe uma pessoa, ou talvez uma empresa, ou talvez um herdeiro que nem sabe bem o que tem, na posse do maior repositório de inacabamento da literatura portuguesa.
Há qualquer coisa de adequado nisto. Fernando Pessoa passou a vida a guardar. Não por timidez, não por preguiça, não por medo do julgamento alheio. Ricardo Belo de Morais, que dedicou anos a estudar o espólio pessoano, tem uma explicação mais precisa: Pessoa só deixava publicar o que considerava duzentos por cento perfeito. O que não estava pronto ficava. E quase nada estava. Havia rascunhos sobre rascunhos, textos passados a limpo e imediatamente emendados, poemas já publicados em jornais que ele corrigia por cima, a caneta, como quem diz: ainda não. Sempre ainda não.
O paradoxo é imediato. O homem que mais pensou sobre comunicação em Portugal no século vinte foi também o que menos comunicou. Ou assim parece, enquanto não percebemos que a recusa de publicar o que não está pronto é, em si, uma decisão sobre comunicação. Uma das mais exigentes que alguém pode tomar.
Hoje circulam nas redes sociais dezenas de frases atribuídas a Fernando Pessoa que ele nunca escreveu. A mais famosa: Pedras no caminho, guardo-as todas, um dia vou construir um castelo. A frase é de um blogger brasileiro que acrescentou dois versos a um poema de Ricardo Reis e assistiu, em silêncio, à viralização do resultado. Mais tarde veio a público confirmar a autoria. Não adiantou. A frase já estava em painéis de vinil em restaurantes, em epígrafes de livros, em discursos políticos, em canções gravadas. Continua a circular. A ironia é total: o poeta que nunca guardou pedras, que era mais de castelos no ar e de derrotas até nos sonhos, tornou-se o rosto de um pensamento positivo que nunca teve.
Ricardo Belo de Morais tem hoje uma tolerância relativamente alta para os apócrifos. Percebeu, com o tempo, que quem os propaga não o faz por desonestidade, mas por amor. Um amor que não leu o suficiente para distinguir o Pessoa real do Pessoa que gostaria que existisse. E isso, diz ele, diz mais sobre nós do que sobre o poeta. A frase que Pessoa nunca escreveu revela o Pessoa que precisamos. O Pessoa de autoajuda, consolador e fácil, que nunca existiu porque Pessoa era outra coisa: alguém que sofreu derrotas até nos sonhos e continuou na mesma, não porque acreditasse na resiliência como valor, mas porque a alternativa era o silêncio completo, e esse era o único fracasso que não conseguia aceitar.
A estranheza de Fernando Pessoa começa cedo. Quando ainda adolescente, em Durban, onde viveu vários anos com a mãe e o padrasto, começa a inventar companhias. Não amigos imaginários no sentido ingénuo da expressão, mas criaturas com biografia, personalidade e estilo literário próprios. Quando regressa a Portugal e começa a escrever a sério, essa tendência explode. Não se divide: multiplica-se. Ricardo Reis, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos. Cada um com uma visão do mundo irredutível à dos outros. Cada um incapaz de ter sido escrito pelo mesmo homem, se não soubéssemos que foi. Belo de Morais utiliza a imagem de um encenador que se espalha por um tabuleiro de xadrez, controlando todas as peças a partir de fora. Uma divisão consciente, não patológica. Uma forma de ser tudo ao mesmo tempo, sentir tudo de todas as maneiras, ver tudo de todos os lados, sem que nenhuma perspetiva anule as outras.
Mas o que nos diz isto sobre comunicação? Talvez isto: que a multiplicidade não é fraqueza. Que ser muitas coisas ao mesmo tempo, habitar perspetivas contraditórias, recusar a identidade única e coerente que o mundo exige, pode ser a condição mais honesta de pensar. Pessoa percebeu que uma única voz, por mais rica que fosse, nunca chegaria a tudo. Por isso inventou outras. E por isso também, ao escrever o que escrevia, utilizava uma técnica que descreveu numa frase que Belo de Morais cita como central: escrever como quem vê a terra do espaço. Quanto mais distante do objeto, maior o campo de visão. Quanto mais afastado de si mesmo, mais perto chegava do leitor.
É aqui que o fingimento poético se torna uma teoria da comunicação. O poeta finge tão completamente que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente. A distância não é desonestidade. É o instrumento pelo qual a experiência privada se torna experiência partilhável. A máscara que permite dizer mais do que o rosto nu alguma vez conseguiria. Pessoas que nunca sofreram o que Pessoa sofreu reconhecem-se nos seus versos. Isso não seria possível se ele apenas tivesse descrito o que sentiu. Foi preciso fingir para que a verdade chegasse.
Pessoa morreu em 1935, com quarenta e sete anos, em quartos miseráveis, com pouco dinheiro para comer e uma Arca cheia de obra inacabada. Ofélia Queirós, a única mulher que amou de forma documentada, escreveu-lhe uma última carta que é das frases mais demolidoras da correspondência portuguesa: Culpa tem o Fernando que um dia tivesse a triste ideia de gostar de si. Décadas depois, já muito idosa e com a morte próxima, quis deixar o seu testemunho. Não havia hostilidade. Havia ferida. E havia, estranhamente, uma espécie de paz com o homem que escolheu a obra e ficou por cumprir quase tudo o resto.
Hoje Fernando Pessoa é best-seller em dezenas de países. Alguma coisa correu bem, como Belo de Morais observa no fim da conversa, no meio de todas as coisas que correram mal. A pergunta que fica não é sobre o sucesso póstumo. É sobre o preço. E sobre se há uma forma de ser muitas pessoas ao mesmo tempo, sem que algumas delas fiquem sempre por viver.
A conversa completa com Ricardo Belo de Morais está disponível no Pergunta Simples.
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Ricardo Belo de Morais
00:00
publicidade translata, onde Fernando Pessoa está na prática a definir o que seriam as relações públicas, que é, na prática, fazer chegar a mensagem publicitária a todos os públicos, os endinheirados e os não endinheirados, através dos famosos, dos ricos e dos famosos que, absorvendo essa mensagem publicitária ou fazendo parte dela, sendo seus embaixadores, ajudariam a conquistar outros públicos.
Jorge Correia
00:33
Pergunta simples. Um programa sobre comunicação. Para quem quer boas respostas. Fernando Pessoa publicou em vida um único livro de poesia em português. 44 poemas, preparados e borilados durante quase 20 anos. O resto, o resto da obra, ficava. E o resto era quase tudo. Não por timidez, não por medo do julgamento alheio, mas por um critério que ele próprio se impôs. O que chegava ao leitor tinha de ser 200% perfeito. O que não estava pronto ia para a Arca, a célebre Arca da Fernanda Pessoa. E quase nada estava perfeito. Eu nunca tinha pensado dessa forma sobre comunicação, que a decisão de não dizer é também uma decisão sobre o que se diz, que o silêncio pode ser a forma mais exigente de respeitar quem nos ouve ou quem nos lê. Num tempo em que toda a gente publica tudo, sempre em volume, Esta ideia de pessoa parece quase subversiva. É provavelmente a mais útil que trouxe desta conversa. Mas há mais. Nos anos 20 do século passado, Pessoa escreveu uma teoria da publicidade que ainda hoje podia ser lida em qualquer escola de comunicação. Distinguiu três tipos de mensagens publicitárias, antecipou o que hoje chamamos de relações públicas e percebeu, antes de toda a gente, que as celebridades podiam ser embaixadoras de uma ideia. E deixou uma frase que qualquer pessoa que trabalha em comunicação reconhece de imediato que a melhor publicidade é aquela que não parece publicidade. 100 anos de avanço, pelo menos. Se esta conversa lhe diz algo, o Pergunta Simples tem mais. Siga o podcast onde está a ouvir neste momento. É o gesto mais simples para não perder o próximo episódio. O convidado desta semana é Ricardo Bel de Moraes, escritor, investigador e poeta. Passou os últimos anos dentro da arca de Fernando Pessoa, o baú de madeira onde o poeta guardou que ainda não estava pronto para ser lido. Em 2008, esse baú foi leilão, o Estado português não acompanhou os preços e hoje está nas mãos de um colecionador privado que, ao longo dos últimos anos, conseguiu manter-se completamente anónimo. Mas o mais importante ficou e era o que estava dentro da arca, o conteúdo, os textos, os poemas de Fernando Pessoa. Ora, Belo Moraes construiu, através dessa obra, um retrato de pessoa que não é celebração nem inventário, É uma interrogação sobre o que significa comunicar bem, sobre o preço de uma vida entregue à obra e sobre quantas pessoas consegue uma pessoa ser ao mesmo tempo. Por isso, a pergunta continua aberta. Quantas pessoas cabem dentro de uma pessoa? Viva! Ricardo Belo Moraes, escritor, investigador, poeta, dramaturgo. Tens passado a tua vida, no fundo, dentro da arca do Fernando Pessoa.
Ricardo Belo de Morais
03:25
A vida mais recente, pelo menos, Jorge. Olá e obrigado pelo convite.
Jorge Correia
03:30
O que é que lá está lá dentro? De que tanto se fala na arca é mesmo uma coisa física?
Ricardo Belo de Morais
03:34
É mesmo um baú? Sim, sim, sim. É constituída, digamos assim, por um baú de madeira e uma série de malas, algumas malas de viagem anexas, onde já não cabia tudo. Infelizmente, tudo também desaparecido por leilões anteriores, nos quais, apesar do espólio de Fernando Pessoa, os documentos, os papéis terem ficado, obviamente enquanto tesouro nacional, preservados na nossa Biblioteca Nacional de Portugal, o suporte físico da Arca foi vendido para um colecionador em parte incerta, que conseguiu, ao longo destas décadas, manter-se sempre incógnito ou incógnita.
Jorge Correia
04:23
Portanto, não sabemos quem é que tem um pedaço da história da poesia de Portugal?
Ricardo Belo de Morais
04:27
Quem tem, pelo menos, a relíquia dessa história da poesia. O papel? É o papel ou a arca? O baú de Madeira? Ele próprio está com um colecionador ou colecionadora privado desde o leilão de 2008. Quem em raio se lembra de vender a Arca do Fernando Pessoa? A família, tendo esse direito e estando preservada a parte documental, entregue à Biblioteca Nacional, não é? Pode vender a Arca, no fundo. Pode vender a Arca e assim aconteceu. O Estado português não acompanhou, digamos que, os preços em escalada e lá foi a Arca, então, para alguns no mundo.
Jorge Correia
05:12
Talvez um dia volte. Talvez Volta não é Arca da Noé, é Arca da Fernando Pessoa. Fernando Pessoa escreveu muito, pensou muito, deixa-nos um acervo absolutamente mágico. Mas olhando para aquilo que ele fez, ele genericamente, quase tudo que escreveu, guardou na tal Arca e não foi publicando. Isto é um ato de anticomunicação? Como é que é? Ele estava zangado com o mundo?
Ricardo Belo de Morais
05:36
Não, ele era muito cuidadoso com o que o mundo poderia pensar dele. o que em termos de comunicação também é muito interessante. Nós sabemos ou conseguimos perceber hoje em dia, pelo menos é esse o entendimento da maior parte da comunidade investigativa pessoana, que ele tinha uma necessidade imperiosa de perfeccionismo. E, portanto, tudo o que escrevia… Em que medida? Tudo o que escrevia que sabia que ia ser lido, ou seja, publicado em jornais, em revistas, em livro, era trabalhado e burilado, vezes sem conta, rascunhos atrás de rascunhos. Há testemunho disso nos próprios papéis da tal arca, os rascunhos passados a limpo e às vezes sucessivamente melhorados e reproduzidos para uma formulação diferente, para que aquilo que de facto visse as páginas de jornais, de revistas ou de livros, fosse, como eu costumo dizer, 200% perfeito. O resto, o que estava em curso, o trabalho em curso, aquilo que Fernando Pessoa entendia que ainda não estava pronto, ia para as gavetas, ou para a Arca, ou para um reservatório qualquer, até que Fernando Pessoa tivesse tempo, alma, cabeça, para voltar àqueles poemas, àqueles textos e completá-los para a publicação. Era obsessivo, Fernando Pessoa? Pode dizer-se que sim, pelo menos neste aspecto do dar o melhor de si ao público leitor e por isso é que ele também publicou tão pouco em vida, tendo em conta a dimensão e a quantidade de documentação que ficou por publicar na Arca.
Jorge Correia
07:38
Apesar de tudo, ele escreve muito, escreve em nome de várias pessoas, os famosos heterónimos. Quando é que a pessoa te fisgou? Quando é que te agarrou?
Ricardo Belo de Morais
07:47
Agarrou-me no fim do liceu, ou como dizemos hoje em dia, no fim do ensino secundário. Havia outros escritores que eram mais prioridade minha nesta altura de formação. Tive a facilidade de ter muitos membros da família que eram professores, não só de português, mas também que me apresentaram a uma série de nomes grandes da literatura portuguesa e mundial. Alguns até não para um miúdo que tem 15, 16 anos, mas eu absorvi tudo. E o Fernando Pessoa estava lá através da mensagem, mas foi só no fim do liceu, à entrada para a faculdade, que me aparece o livro do desassossego e a biografia de Robert Berrichon, O Estranho Estrangeiro, e a partir daí nunca mais deixei de ser raptado por ele.
Jorge Correia
08:46
O desassossego, que não é um poema, mas é uma poesia em prosa, se podemos dizer assim, em que ele pensa sobre todas as coisas, de todas as formas e efetivos, quase de uma maneira sempre profundamente especulativa e sempre à procura de um mundo que é o mundo dele, é o nosso mundo.
Ricardo Belo de Morais
09:04
O mundo dele que é também o nosso mundo e talvez até mais do que isso, a explicação do porquê de nós todos e ele também estarmos cá nesse mundo, um mundo que em termos de enquadramento visual, está reconduzido no caso do Livro do Desassego a Lisboa e menos lato ainda à Rua dos Douradores, que é um pedacinho até dos mais cinzentos da Baixa. E a partir daí, Fernando Pessoa, no Livro do Desassego, naqueles textos, naqueles tantos fragmentos, centenas deles, vai projetar-se como se ele estivesse enrolado num novelo para dentro, como Álvaro de Campos até chega a definir Fernando Pessoa, e a partir dali, pensando na razão de ser da existência, na razão de ser do mundo e do universo, há todas aquelas linhas que são absolutamente prodigiosas. Eu costumo brincar e dizer que se Fernando Pessoa tivesse completado efetivamente o livro do desassossego e publicado em vida, com certeza que ainda tinha chegado ao Prémio Nobel da Literatura. E acabou por não o completar, é um livro incompleto? É um livro incompleto, um livro de mais de 500 fragmentos, quase todos identificados, muitos não com essa identificação, mas consegue perceber-se o que é que pertence ou pode pertencer ao livro do desassossego. E foi um trabalho que Fernando Pessoa começa desde 1913, interrompe em 1919, retoma em 1929 e vai levar até, literalmente, às portas da morte em 1935. Com dois narradores, por assim dizer, diferentes. o Vicente Guedes na primeira fase, e o Bernardo Soares, o ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa, que é o responsável último, pelo menos definido por Fernando Pessoa. Portanto, aquilo era um novelo talvez demasiado exigente para homogeneizar. Fernando Pessoa bem o tentou. E partiu? Partiu isto em dois pedaços? Não, a estrutura do próprio livro do desassossego permite-nos ver isso. Fernando Pessoa não o fez conscientemente. O que ele fez, o que ele estava a desenhar, no princípio, nos anos 1910, na década de 1910, era um livro do desassossego mais entre o mundo real e o mundo onírico. Um ambiente de sonho, de fadas, de ninfas, de regatos, de fontes borbulhantes. e a Alguros também um certo aspecto ligado ao simbolismo, a muito misticismo, e depois daquele hiato, a partir de 1920, são quase 10 anos, 1919-1929, quando Fernando Pessoa já traz para o livro do Desossego Bernardo Soares, que é um homem da cidade de Lisboa, é Lisboa quem se torna de facto a personagem principal do livro do Desassossego e aquele ambiente onírico da primeira fase desaparece e ficam-se as inquietações metafísicas e filosóficas do Bernardo Soares, que vive e trabalha na Rua do Desassossego a metros de distância, praticamente não sai dali, mas vive muito contente dentro do seu próprio mundo interior que projeta constantemente à procura da tal razão da existência humana. Portanto, está à procura de um sentido para a vida. Sim, sim.
Jorge Correia
13:00
E encontra qualquer coisinha, encontras lá alguma pista que nos ajude a nós também a encontrar esse sentido da vida que não seja simplesmente o absurdo?
Ricardo Belo de Morais
13:09
Para alguém como Fernando Pessoa, no livro do desassossego, até na primeira fase, mas mais na fase de Bernardo Soares, na fase última, em muita da poesia, Em vários textos em prosa, em que Fernando Pessoa faz o seu próprio autodiagnóstico, nós encontramos lições de vida absolutas de alguém que tinha aspirações, tinha sonhos, que foi derrotado múltiplas vezes e que, e isto é uma lição que eu dou aos jovens e às jovens do ensino secundário com quem falo, não só eles e elas, mas também, uma capacidade que nós vemos através da escrita de suplantar tudo aquilo que na vida lhe foi turpedeado, roubado, sonegado e aquilo que ele sonhava e nunca conseguiu de facto atingir. Estás me a dizer que o Fernando Pessoa é um derrotado. É um derrotado, em muitos casos sim, mas é também um vencedor porque é um resistente. Repara, ele tem passagens do próprio Ortónimo, Fernando Pessoa ele mesmo, de um Álvaro de Campos que tem uma personalidade muito própria e peculiar, onde fala coisas como até os meus exércitos sonhados sofreram derrotas, até em sonhos. Portanto, nem nos sonhos, muitas vezes, Fernando Pessoa encontrava uma pista ou uma luz ao fundo do túnel e mesmo assim sobreviveu e quis sobreviver e quis continuar a lutar e a saltar por cima desses obstáculos através da escrita, da folha em branco, do desafio de conseguir expressar-se para ser lido por outros e isso é admirável. há conselhos, regras de vida, os conselhos que vão das coisas mais práticas do dia-a-dia até aquela noção de que como se pode viver, não só sobreviver, como é que se pode viver de facto passando uma vida a sofrer derrotas.
Jorge Correia
15:29
A vida de Fernando Pessoa foi uma vida boa? Foi uma vida curta, isso nós percebemos. Foi uma vida curta, sim. Termina também por causa do alcoolismo?
Ricardo Belo de Morais
15:38
Não temos essa certeza. Há muito esse mito. Ainda hoje se fala que Fernando Pessoa morreu de cirrose hepática, sendo que uma coisa que nós podemos saber é que ele não tinha, ao leito de morte, um sintoma que fosse de cirrose hepática. Eu sou dos que se inclina mais para uma situação de potencial cancro do pâncreas. Na altura, o diagnóstico era impossível de fazer. Claro, não havia análises, não havia nada. Exatamente, não é? Sem querer escamutear que, na fase final da vida dele, como de resto muitos homens, ou quase todos os homens daquele tempo, o álcool era um comportamento social tão normal quanto respirar. E a Fernando Pessoa ajudava com certeza o vinho que ele podia beber, necessariamente barato, nos últimos anos, talvez uns anos mais inquinados por este espírito do não conseguir fazer muita coisa daquilo que me propus, ele recorreu à garrafa, por assim dizer, como auxílio. Sempre na sua privacidade, nunca se permitindo ver com um copo a mais em público, em circunstâncias fossem quais fossem, mas sim, na solidão do seu próprio quarto, no silêncio da sua escrita que gritava, mas lá está, era feita ali naquele pequenino universo privado, o álcool era uma companhia e não ajudou a saúde, como não ajudou a saúde os aproximadamente quatro maços de cigarros que sabemos que ele fumava nos últimos três, quatro anos de vida
Jorge Correia
17:30
Portanto, era claramente alguém que não cuidava muito da sua saúde mas de qualquer forma deixa-nos aqui uma obra extraordinária, já volto aos heterónimos, já volto à poesia mas Fernando Pessoa é também um publicitário e escreve provavelmente das mais maravilhosas frases publicitárias de um produto que depois acabou na realidade para não servir de muito porque o produto não foi colocado, não marcado que frase é esta? Qual é a melhor frase de Fernando Pessoa para publicitar um produto?
Ricardo Belo de Morais
18:02
A mais conhecida pelo menos é o primeiro estranha-se depois entranha-se para o copy cola que estaria a entrar em Portugal entre 1927 e 1929, mas que depois acabou por esta campanha de publicidade, cujo copy, primeiro estranha-se, depois entranha-se, era de Fernando Pessoa, e a imagem seria de Manuel Martins da Hora, o fundador da primeira agência de publicidade em Portugal, a Hora, lá está, mais tarde McEnary Ixen e hoje em dia, enfim, tudo desaparecido no tempo, com as aglomerações de multinacionais, mas de facto podemos dizer que havia esta cumplicidade entre Manuel Martins da Hora e Fernando Pessoa, para o Sr. Moitinho de Almeida, o patrão mais longo, importador e exportador, o patrão mais longo de Fernando Pessoa, com escritórios na Rua da Prata. Fernando Pessoa trabalhou ali até 1934 e nunca se furtou a utilização da palavra para a publicidade. Isto, de facto, faz, não só, mas faz de Fernando Pessoa um comunicador e um especialista nesta coisa do que é comunicar para as outras pessoas. Eu já te tinha dito que Fernando Pessoa se recusava e burilava e trabalhava. Às vezes arrependia-se até daquelas coisas que ele entendia que estavam perfeitas para ser publicadas nos jornais e revistas, emendando esses poemas, esses textos, fazendo correções já por sobre a revista ou o jornal, como quem diz, um dia mais tarde em livro, ou numa segunda edição deste livro, eu vou corrigir isto, ainda vou tornar melhor. E a publicidade, com aquela componente também da frase curta, no caso do copy, uma frase como um verso, de certa forma, onde tem de estar a ideia toda contida, Fernando Pessoa era exímio nisso, até nos aforismos que nos deixou, os quase ditados populares, mas bem mais metafísicos. A capacidade que Fernando Pessoa tinha para entender o que era isto de comunicar, Ele teorizou sobre o que é a publicidade e o que é a publicidade bem feita. O que é que ele nos disse sobre isso? O que é que podemos aprender com ele? Podemos aprender o básico da publicidade logo com aquilo que Fernando Pessoa escreve na década de 1920, por exemplo. Há um texto com uma data não concreta, mas sabemos que será dessa década, onde Fernando Pessoa está a pensar no que seria, ou como seria melhor e possível, promover a Costa do Sol para turistas estrangeiros, os turistas mais endinheirados que faltavam ao nosso país, e, por exemplo, em relação a esta região turística.
Jorge Correia
21:12
Portanto, nós a pensar que inventamos agora o turismo, aqui há poucos anos em Portugal,
Ricardo Belo de Morais
21:15
afinal, desde tempos imemoriais. Que Fernando Pessoa já sabia, era dos que sabia. E o que é que ele escreveu? O que é que ele pensou? Escreve coisas que nós hoje vemos nos manuais escolares e universitários. Fala do que a publicidade deve ser, a publicidade direta, aquela publicidade que é composta de anúncios e não te esqueças que estamos a falar de um tempo em que nem sequer emissora nacional havia, portanto estamos a falar de imprensa escrita, a publicidade direta, a publicidade que é publicada, os anúncios publicados nos jornais, a publicidade indireta, que é aquela feita em folhetos, em desdobráveis e outros suportes, e a publicidade translata, onde Fernando Pessoa está na prática a definir o que seriam as relações públicas. Então, ele também falou sobre isso, também te usou sobre as relações públicas. Sobre a publicidade translata, que é, na prática, fazer chegar a mensagem publicitária a todos os públicos, os endinheirados e os não endinheirados, através dos famosos, dos ricos e dos famosos que, absorvendo essa mensagem publicitária ou fazendo parte dela, sendo seus embaixadores, ajudariam a conquistar outros públicos.
Jorge Correia
22:40
Espera, portanto, esta coisa dos influencers, dos influenciadores das redes sociais que nós agora vemos aqui nos Instagrams da nossa vida, Fernando Pessoa já teorizava sobre, tragam-me aí uma estrela de cinema? Sim, sim. E vamos tornar essa pessoa, essa personalidade, essa celebridade como o meio para contar a história e para atrair as pessoas.
Ricardo Belo de Morais
23:04
Na tal ideia da publicidade translata. E hoje em dia há coisas… Aquela ideia do que parece que inventámos agora. Fala-se muito, já desde há uns anos, no storytelling, por exemplo. Contar uma história. Contar uma história. E isso é uma ferramenta de comunicação useira e vezeira, hoje em dia, na atualidade, na contemporaneidade. Quando Fernando Pessoa escreve o seu anúncio para as tintas Barry Lloyd, uma marca especialmente destinada a pinturas automóveis, Fernando Pessoa está a contar a história de um dono de automóvel muito triste com o Estado a que chegou o seu automóvel, que era um enorme investimento, uma coisa para a vida, e através da sua descrição daquilo que acontece na pintura do automóvel, O Fernando Pessoa está a contar uma história de uma experiência vivida por um proprietário que ficou com o seu carro como novo graças às tintas Barry Lloyd. E se fosse só isso, quer dizer, em publicidade, o Fernando Pessoa publicitário, o Fernando Pessoa mestre da palavra, quem é um mestre da palavra tem também de ser um mestre das técnicas publicitárias, efetivamente no terreno, a construir slogans, a constituir claims, histórias, e também na teoria, como te dizia há pouco.
Jorge Correia
24:37
O Fernando Pessoa escreve muitas coisas, mas nós, não contentes com os escritos da Fernando Pessoa, decidimos, enquanto sociedade, sabe Deus lá quem, atribuir muitas coisas, muitas ideias, muitas frases que parecem mesmo da Fernando Pessoa, dizendo que é a Fernando Pessoa, mas afinal não.
Ricardo Belo de Morais
24:57
Os maléficos apócrifos pessoanos Apócrifos pessoanos Maléficos Maléficos São literalmente maléficos Complicam-te com os generos Já me complicaram mais Hoje em dia tenho um maior índice de tolerância Até porque não conseguia sobreviver Se não o tivesse Porque todos os dias Nas redes sociais, nos e-mails Corrente que ainda recebemos Até nos discursos de políticos até em campanhas publicitárias, por vezes, até em canções, em discos gravados, já tudo isso me passou pelas mãos, utilizam-se poemas que Fernando Pessoa nunca escreveu, frases de textos que não são da autoria de Fernando Pessoa, mas que, com o passar dos anos, e não nos esqueçamos que Fernando Pessoa já morreu em 1935, as pessoas foram ou adulterando alguns versos ou aproveitando a ideia da falta, da verificação dos factos, o que hoje em dia se chama também o fact-checking, que está muito em voga, mas infelizmente não vão fazer este fact-checking dos apócrifos. Muita gente, especialmente no Brasil, mas aqui em Portugal também que foi inventando poemas inventando versos ou juntando versos de um poeta e de outro a versos anónimos muitos textos de autoajuda os chamados textos de autoajuda transformados em muitas coisas de prosa de escritores brasileiros que esses textos são partidos em frases mais pequenas e alinhados como se fossem um poema e ao fim de décadas de uso, com o advento das redes sociais em particular, a multiplicação destes apócrifos torna-se quase viral, como hoje em dia também se diz. E a escrita da pessoa? É impossível vencer esta multiplicação como se fosse de um vírus, mas a minha relativa tolerância hoje em dia parte de eu ter percebido isto, talvez com um bocadinho mais de idade, todas estas pessoas que propagam os apócrifos ou que inventam apócrifos, aos quais depois adicionam objetivamente e com intenção de pôr ali a assinatura que não existe de Fernando Pessoa, têm muito uma ideia de paixão ou um referencial tão grande em Fernando Pessoa do tipo pensar, este homem escreveu coisas tão lindas que este texto que a mim me diz muito, mesmo sendo banal, um texto de autoajuda, este texto cheio de açúcar, que Fernando Pessoa nunca escreveu textos desses, mas quando os textos aparecem, esses textos poucos xíneos, de autoajuda, muito açucarados, muito melosos, aparecem com a assinatura falsa de Fernando Pessoa, tocando às pessoas, elas pensam só podia ser ele. Eu gosto tanto dele, daqueles quatro ou cinco poemas mais conhecidos. É uma profecia autorrealizada. Quase por aí. É muito triste fazer apócrifos ou propagar apócrifos. Mas é triste porquê? Não pode ser uma interpretação, no fundo, criativa da obra? Outra coisa que eu tenho dito sempre ao longo dos anos, nós vamos fazendo frases feitas que servem bem. E aquilo que eu costumo dizer é que Fernando Pessoa escreveu o que escreveu. Não escreveu aquilo que nós gostávamos que ele tivesse escrito.
Jorge Correia
29:03
Portanto, dava jeito que as pessoas fossem lendo mais daquilo que está escrito?
Ricardo Belo de Morais
29:07
Mais daquilo que está escrito e identificado em livros sobre Fernando Pessoa. Porque digo-te também com honestidade. Quanto mais tu leis o Fernando Pessoa, realmente Fernando Pessoa, mais és capaz de detectar, cheirar à distância, automaticamente, este poema, esta frase, não pode ser dele. Nem dele, nem de nenhum dos heterónimos.
Jorge Correia
29:33
Mas isso é para um especialista como tu? A maioria de nós?
Ricardo Belo de Morais
29:36
Há muita gente dentro dos leitores ditos médios, o chamado leitor médio, que percebe a diferença.
Jorge Correia
29:44
Eu quero arriscar a pergunta mais herege desta edição, que é, há algum dito apócrifo que te fascina ou que te irrite profundamente?
Ricardo Belo de Morais
29:57
O mais conhecido, mais universal deles todos, também porque teve um truque muito interessante na Génese, Foi uma frase, dois versos acrescentados a um poema de Ricardo Reis por um blogger brasileiro que mais tarde veio ao público dizer não, não, isto não é de Fernando Pessoa, fui eu assistindo à viralização daquilo que é o infame Pedras no Caminho, guardo-as todas. Um dia vou construir um castelo. E, portanto, isto é tão multiplicado. Ainda hoje continua a ser reproduzido até em painéis de vinil, em espaços públicos, em restaurantes, coisas que são vendidas para as pessoas porem lá na sala de casa, já para não falar nos discursos dos políticos ou nas epígrafes de livros. Portanto, continua a aparecer. Quando nós temos um Fernando Pessoa que, Meu Deus, ele nunca guardou as pedras em que tropeçava no caminho, nem nunca pensou em construir esse castelo. Ele era mais de castelos no ar e era mais de fazer o possível por ignorar as tais dificuldades, as tais derrotas e não colecionar os testemunhos desse percurso sinuoso. Mas há muitos. Eu, aliás, fiz um levantamento dos principais, já há as dezenas, eles são muito mais que isso, mas os principais fiz um levantamento desses apócrifos no meu livro Fernando Pessoa para Todas as Pessoas, também há muitos anos programa de rádio, para ajudar a combater esta proliferação, mas com as redes sociais e a velocidade das redes sociais é virtualmente impossível combater isto. se as pessoas não lerem mais e as pessoas cada vez leem menos e cada vez leem com menos cuidado.
Jorge Correia
31:59
Esta falsidade, no fundo, ou esta recriação de Fernando Pessoa ou esta apropriação, não pode ser uma porta para pessoas que nunca lhe passaram os olhos por pessoa poderem dizer, ok, isto é uma frase de autoajuda, eu nem sequer sei se ele escreveu ou não, mas tenho curiosidade de ler agora mais qualquer coisa sobre Fernando Pessoa.
Ricardo Belo de Morais
32:18
Provavelmente vão defraudar-se se a porta de entrada for essa. eu costumo, por exemplo, recomendar sempre, porque me perguntam isso muita vez. Começamos por onde? Para começar por Fernando Pessoa, o poeta, o poeta múltiplo, o poeta dos heterónimos, nós vamos ter dois livros essenciais. Um deles é A Mensagem. O único livro de poesia em português que Fernando Pessoa publicou em vida, lá está o que ele andou quase 20 anos a preparar e a burilar, 44 poemas apenas trabalhados durante quase 20 anos, só podia resultar num livro de facto fantástico em termos de poemas. O que nos conta a mensagem? a mensagem conta-nos ou fala-nos das aspirações de um Portugal futuro que consiga voltar a ser grande como já não era no tempo em que Fernando Pessoa era vivo portanto nos anos 1930 não era grande em Portugal por causa do antigo regime que estava instaurado e a dar os seus primeiros passos na ditadura. É a mitologia de Portugal, no fundo. Numa vertente muito pessoana, uma vertente do Quinto Império, portanto, uma recuperação da história, um Camões 2.0, se quiseres, um Lusíadas 2.0, uma versão mais abreviada, e onde a ideia do combate, a ideia da guerra, a ideia da conquista, da colonização, não é defendida agora por Fernando Pessoa, e onde há parece que uma teorização de que se, apesar dos males das colonizações portuguesas do mundo, nós fizemos uma coisa que foi espalhar a língua pelas quatro partidas da Terra, vamos usar isso, essa língua comum, espalhada ao redor do globo, para fazer um quinto império da paz, da cultura e da língua portuguesa, porque temos esse chão comum. Um chão que foi espalhado por Portugal, como outros impérios, o francês, o belga, o inglês, o espanhol. Mas sem aproveitar a cultura para passar essa mensagem expressa para a humanidade. Exatamente, e da humanidade em geral e dos portugueses em particular ou dos falantes de português, porque Fernando Pessoa tinha muito respeito pela população brasileira e pela quantidade incomensurável de brasileiros e brasileiras, comparando com os números da população portuguesa. Portanto, havia muito esta ideia de que nós não precisamos de colónias. Aliás, Fernando Pessoa chegou a entendê-las como o maior pecado dos ditos descobrimentos portugueses, mas o chão comum da língua, o chão comum da cultura, da literatura, que seria a base deste Portugal novo, um Portugal que já não precisava de Dom Sebastião, porque todos nós, juntos, é que éramos pedacinhos de um Dom Sebastião que faríamos esta nova alvorada de um Portugal nacionalista quase místico. E quando falo em nacionalista, obviamente que estou a falar na nação sem segundos entendidos, na pátria. Sem segundos entendidos e sem ideia de política. nomeadamente, Minha Pátria é a Língua Portuguesa. É outra das frases que Fernando Pessoa deixa no livro do Desassossego, curiosamente. Lá está.
Jorge Correia
36:08
E depois lá veio o Acordo Ortográfico para dar aqui uma ajuda ou para mudar aqui o prisma. Essa é a primeira grande obra e a segunda que nós temos mesmo que ler de Fernando Pessoa?
Ricardo Belo de Morais
36:19
Ainda em poesia eu recomendo sempre um livro em particular que está no mercado, passa publicidade. É uma edição da Assírio e Alvin, chamada Ficções do Interlúdio, onde se vai antologiar tudo aquilo que Fernando Pessoa publicou em vida. E porquê é que eu dou destaque a este livro? Porque, como te falei no início da nossa conversa, aquilo que Fernando Pessoa, de facto, deixava publicar de seu, estava trabalhado, ao ponto de, na cabeça de Fernando Pessoa, se pensar, sim, isto é 200% perfeito portanto, esses poemas dão-nos um espelho do melhor o best of, se quiser ser pop o best of que ele escolheu para fazer sair em vida ao encontro dos seus leitores. Não conhecendo esse livro
Jorge Correia
37:13
em particular, espero que lá esteja o Guardador de Rebanhos porque é um dos meus poemas favoritos. Alberto Queira
Ricardo Belo de Morais
37:19
está lá, não é? O Guardador de Rebanhos é um livro bastante extenso a obra maior de Alberto Caeiro. E a primeira, esta ideia dos heterónimos, portanto os heterónimos também têm o seu corpus de obra criada que Fernando Pessoa ainda conseguiu publicar. O Alberto Caeiro e o Ricardo Reis ainda foram publicados em vida de Fernando Pessoa também, na revista Atena, entre 1924 e 1925. Fez agora há pouco tempo 100 anos.
Jorge Correia
37:54
Porquê que este homem precisa de tanta gente para falar? Porquê que ele cria tantos personagens, tantas identidades, tantos escritos diferentes que não parecem filhos do mesmo pai, intelectual?
Ricardo Belo de Morais
38:07
A ideia da multiplicidade, do ser tudo ao mesmo tempo, sentir tudo de todas as maneiras, e estou a citar um verso pessoano, ver tudo de todos os lados, portanto esta ideia de uma vida que é filosoficamente e escriticamente 360 graus todos os dias, Só podia existir num homem como Fernando Pessoa, que sempre teve uma inclinação para a despersonalização, desde criança, para inventar os amigos imaginários, que depois foram multiplicando-se, quando Fernando Pessoa viveu em terras sul-africanas, em Durban, ajudado com certeza pela sua própria natureza introspectiva, pela sua solidão, por não lhe ser fácil a socialização e o fazer amizades, porque não inventar estas criaturas que dão substância ao meu ao redor, não é? E quando se chega ao adulto, um homem que escreve e que leu os maiores escritores da história da literatura do mundo àquela altura, em 1910, portanto nessa década, a ideia de explodir multiplicando-se, não se dividindo, portanto nada a ver com doenças como a esquizofrenia, há aqui uma divisão consciente, como se Fernando Pessoa se quisesse espalhar num tabuleiro de xadrez, onde era ele, em último caso, a dominar tudo, mas as peças eram todas pequenos retalhos. Como um grande encenador? Como um grande encenador. Aliás, Fernando Pessoa chegou a considerar-se fundamentalmente um dramaturgo, não é? Mas sim, absolutamente encenador de todas estas criaturas que ele inventou, o Ricardo Reis, o Alberto Caeiro e o Álvaro de Campos, os três heterónimos, os seus irmãos literários, o semi-heterónimo Bernardo Soares do Livro do Desassossego e depois dezenas e dezenas e dezenas de personagens literárias que nunca chegaram a ter o carimbo oficial de heterónimo, nunca produziram tanta coisa e nunca tiveram uma biografia e um posicionamento no tal tabuleiro de xadrez. Fernando Pessoa só fez os seus desafios maiores com estes três heterónimos e o Bernardo Soares do Desassossego.
Jorge Correia
40:50
Hoje em dia continuamos a ter que fingir para dizer a verdade. Aprendemos isso com Fernando Pessoa ou Fernando Pessoa topou-nos à légua e percebeu que para dizer determinadas verdades devemos fingir com graciosidade e com gênio no caso dele.
Ricardo Belo de Morais
41:08
Olha, outra coisa da graciosidade e do gênio, aquilo dizia que a publicidade, por exemplo, tinha de ter. Portanto, que a mensagem publicitária não podia ser à bruta. E, aliás, a melhor publicidade era aquela que não parecia publicidade quando chegava aos seus públicos-alvo. Tinha uma narrativa que, no fundo, se encrustava dentro de nós. Exatamente. E cativava as pessoas, quanto mais elaborada, elegante e menos vendilhona fosse. Mas esta ideia da verdade e da mentira levava-nos a uma conversa de horas, Jorge. Literalmente isso. Porque Fernando Pessoa nunca foi desonesto e, portanto, a ideia da mentira, como nós a entendemos, que ocorre hoje em dia, não existiria muito em Fernando Pessoa. Existiu muita mentira por necessidade ou omissão às coisas que ele omitiu à família, nomeadamente quando perdeu a herança da avó na falência da sua primeira empresa e teve de inventar histórias para a sua mãe que estava a viver em Durban na altura, não quis confessar essa vergonha, nem essa desgraça, nem os problemas que isso lhe trazia. Uma vida monástica, uma vida de um trabalhador freelancer que escolhe ser terefeiro para poder continuar a ter tempo de ler e escrever, mas que tem necessariamente pouco dinheiro para viver e vive em quartos miseráveis e às vezes mal come porque não tem dinheiro para isso. Mas é muito a mentira protetora. Aqui existe a mentira ou a omissão protetora. Porque do lado, depois da escrita, há uma mentira que entra mais na origem etimológica disto do mentir, que vai levar-nos para o fingimento. O fingimento poético, que Fernando Pessoa utiliza desde muito jovem e que lhe serve para fazer, em particular poesia, cada vez mais brilhante ao longo dos anos e ao longo da experiência de vida. Aquela ideia do sentir sinta quem lê. Portanto, o poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. E por aí fora, e por aí fora. É, portanto, um fingimento para contar a verdade. É um artifício. Para contar a verdade. E a verdade até mais próxima dos leitores. lá está aquela preocupação do comunicador Fernando Pessoa, eu tenho de fazer com que as minhas palavras toquem o mais possível aos leitores e ao maior número de leitores. Portanto, quanto eu posso sentir a minha realidade, experienciar Lisboa, viver o dia-a-dia e escrever sobre ele, mas quanto mais eu me puser longe, longe, longe, como que a voar sobre e a ver como nós, quando vemos as imagens da Terra à vista do espaço, Fernando Pessoa escreve muita poesia como isto, como quem contempla a poesia, a realidade, vista do espaço, e, portanto, está numa posição muito mais privilegiada para ver o conjunto, escrever sobre isso e chegar melhor às pessoas.
Jorge Correia
44:36
E achas que ele tinha uma noção e um pensamento sobre a audiência e para quem é que ele estava a escrever? Ou basicamente ele escrevia porque sim e ia em frente independentemente de quem quisesse lê-lo ou não?
Ricardo Belo de Morais
44:50
Era um bocadinho de blasé nesse aspecto. E sim, sabia que a sua missão na Terra era deixar obra feita. Portanto, ele faria essa obra, digo eu, tivesse ou não leitores e tivesse ou não um clube de fãs, ou neste caso um clube de amigos, um clube de companheiros, que foi tendo sempre admiradores confessos e suspirantes e ilugiantes, desde a revista Orfeu até, literalmente, ao final da sua vida, com a revista Presença e todas as outras revistas e jornais onde ele foi colaborando ao longo do tempo. Mas há outras coisas que Fernando Pessoa nos deixa na correspondência, por exemplo, onde se refere jocosamente à sua própria saúde, contando histórias sobre a ginástica sueca que fez quando era adolescente, quando voltou a Lisboa, e que, de repente, com aquelas técnicas, a saúde dele ficou uma coisa fantástica, e ele remata este pensamento, ele está a falar da sua saúde, e remata o pensamento a escrever ao interlocutor, com que benefícios para a sociedade ocidental, não sei. Mas veremos, não é? Há uma ironia. Há uma ironia, portanto. Mas Fernando Pessoa refere inúmeras vezes, na fase final da vida, o Prémio Nobel. Achas que era um desejo, não? Não tem um… Tinha esse desejo, não? Isto ainda não tem o nível, mas lá chegaremos. Ou pode ser que… Portanto, tinha esse desejo. E tinha essa autoconsciência da qualidade do seu trabalho. tinha essa autoconsciência. Ajudada também por alguns dos seus mais próximos. Estou a ser muito redutor, mas se pensarmos no Mário de Sá Carneiro, que morre em 1916, mas vive intensamente a fase do Orfeu com Fernando Pessoa, de 1912 a 1916, e um Almada Negreiros, que acompanha Fernando Pessoa toda a sua vida, em várias aventuras livreiras e de imprensa escrita, eles são, talvez, os testemunhos mais interessantes que nos sobram hoje de outros homens geniais que dizem que Fernando Pessoa era N vezes superior a eles próprios. E Almada Negrejo tinha um ego do tamanho do mundo. Os egos chocavam desta gente? Não, não, não. Porque a missão deles era maior do que isso. Era levar a cultura e a literatura às pessoas. A revista Orfeu é uma revista de egos que se aniquilam para fazer um projeto comum. Eles tinham todos, uns tinham projetos de jornais de revistas em nome próprio que abandonam e metem no congelador durante o tempo da revista e mais tempo houvesse mais da xariam com certeza porque aquilo que lhes interessava era fazer qualquer coisa de novo, de realmente novo, de diferente, que ajudasse as pessoas a subir da bitola baixa.
Jorge Correia
48:12
Estamos praticamente a fechar. E Ofélia, como é que é? Ficou frustrada, ficou zangada este seu apaixonado? Escreve-lhe umas cartas muito belas,
Ricardo Belo de Morais
48:21
mas que diabo, nunca se chegou muito à frente, não é? Foi um romance muito puro. Não temos razões. A própria Ofélia nunca teve razões na sua muita idade. Ela morre já nos seus noventas e tais anos e quis deixar esse testemunho de um Fernando Pessoa que amou muito e tem a certeza de ter sido amada e houve muito desejo. A própria Ofélia contar-nos isto é de facto porque ela precisava de pôr isso cá fora. Portanto, foi uma relação efetivamente muito sólida que esbarrou numa série de dificuldades. A falta de dinheiro de Fernando Pessoa, a mãe e a irmã de Fernando Pessoa que voltam da África do Sul quando o romance, na primeira fase com Ofélia, está a entrar em velocidade de cruzeiro. Ofélia, que já nessa altura sabia que era a única mulher ou a mulher principal da vida de Fernando, aceitando um segundo lugar face à literatura e à escrita, mas que depois enfrenta o regresso da mãe e da irmã de Fernando Pessoa, a quem ele tinha necessariamente de dar atenção, e a literatura, o deixar obra feita e organizada, esta prioridade de Fernando Pessoa que nunca o abandonou e que prejudicou muito o namoro nas duas fases. É um bocadinho triste até nós pensarmos que a última carta que a Ofélia escreve a Fernando Pessoa, na prática ela diz-lhe que culpa tem o Fernando que um dia tivesse a triste ideia de gostar de si. Isto é demolidor. Mostra bem o ferido que está a esta mulher, mas tantas décadas mais tarde, depois de estar casada, depois de passar o acidentado, uma Ofélia às portas, não vou dizer às portas da morte, mas muito, muito idosa e já com a morte muito próxima, querer contar a sua versão da verdade. E não haver uma palavra de hostilidade ao namorado Fernando, antes pelo contrário, diz muito daquilo que foi. E desta personalidade, olha, se quiser, estranha, muito peculiar, que tinha uma missão na vida. E a missão na vida era monástica, era escrever, era isto de deixar obra feita. E a verdade é que hoje em dia nós continuamos a celebrá-lo e não somos só nós, somos todos os falantes de língua portuguesa, mas dezenas e dezenas de países onde Fernando Pessoa está traduzido e é best-seller. Portanto, alguma coisa correu bem no meio de todas as coisas que a vida sempre nos faz correr não tão bem com Fernando Pessoa.
Jorge Correia
51:30
Ricardo Bel de Moraes, muito obrigado.
Ricardo Belo de Morais
51:33
Obrigado, eu, Jorge. Foi um gosto.
Jorge Correia
51:36
Pergunta simples. Um programa sobre comunicação. para quem quer boas respostas.
