Pedi-lhe uma frase, uma só, aquela com que quer ser lembrado. Respondeu com uma pergunta. Quem foi? Depois corrigiu-se devagar, como quem muda de ideia no ar. Sou um amigo, e quem vier traz sempre outro amigo também.
Não largo esta frase. Não por ser bonita, embora seja. Mas porque diz sobre comunicação aquilo que nenhum manual diz. A voz que dura não é a que fala mais alto nem a que fala para mais gente. É a que faz cada ouvinte sentir que a conversa foi feita apenas para ele.
Júlio Isidro passou cerca de cem mil horas diante de um microfone e insiste que decidiu muito pouco. Deixou acontecer. Subiu uma rampa a pé aos quinze anos e nunca mais desceu.
Ficou-me também a arte da metáfora, o modo de dizer aquilo que era possível dizer com vontade de dizer um bocadinho mais. Havia censura do lado de dentro e mesmo assim havia recados. Talvez seja essa a definição mais exata de comunicar. Encontrar espaço onde parece não haver nenhum.
A conversa completa com Júlio Isidro está disponível no Pergunta Simples.
Jorge Correia
00:00
Isto é um episódio da série Essencial, do Pergunta Simples. Neste verão escolhi os episódios de que os ouvintes mais gostaram ao longo dos últimos meses. Todos os episódios estão no RTP Play, no Spotify, no YouTube e em todas as outras plataformas mundiais, incluindo por e-mail em perguntasimples.com.
00:19
Se é ouvinte e ainda não subscreveu na plataforma onde está neste momento a ouvir, faça-o agora. É gratuito e ajuda o programa a chegar a mais pessoas. Boa escuta.
00:34
O Júlio é feliz? Não. Não.
Julio Isidro
00:39
Eu estou feliz de vez em quando. Aliás, a felicidade, como se sabe, é um ponto de passagem. São intervalos na vida das pessoas.
00:48
Às vezes os intervalos são maiores, outras vezes são menores. Se forem maiores, o otimista tem a ideia de que é um fulano feliz. Se forem menores, é evidente que é um pessimista.
00:59
Eu sou, quando muito, um pacifista indignado. a
Jorge Correia
03:11
Júlio Isidro
Jorge Correia
03:13
Júlio Isidro Bom, se eu experimentasse agora fazer uma introdução estar a descrevê-lo era quase um insulto para as pessoas Como é que é? Quem é Júlio Isidro?
Julio Isidro
03:23
Quem é Júlio Isidro? É um cidadão que nasceu num dia de invasão mais ou menos à hora do almoço, por aquilo que sei, 5 de janeiro, um baby boomer, portanto, no final da guerra.
Jorge Correia
03:39
Na altura em que havia muitos bebés?
Julio Isidro
03:41
Havia, tinha um tempo para isso, não é? E que se chama Júlio José de Pinho e Zidro do Carmo.
Jorge Correia
03:48
Estávamos a falar um bocadinho da voz. Como é que se tem uma voz assim? Dá para ensinar?
Julio Isidro
03:54
Olha, a voz que eu tenho resulta, para já, da circunstância de quando era jovem e cantava no orfeão de Luís Seu Camões, era primeiro tenor. Depois, ainda na vigência do Luís Seu Camões e do coro, eu passei para segundo tenor, a voz baixou, não é? E, entretanto, eu creio que eduquei a voz trabalhando, eu diria, sem exagero, qualquer coisa como 100 mil horas de rádio, não é? E portanto a minha voz passou a ser radiofónica Acho que é isso E depois preservei a voz nunca fumando E não bebendo, por exemplo E não gritando Não gosto nada de gritar
Jorge Correia
04:36
Porque tem que se ter cuidado com a voz, não é? Para chegar à idade que o Júlio tem Com uma voz tão jovial Há aqui uns cuidados para ter ou não?
Julio Isidro
04:43
Além de não fumar e não beber Não especificamente cuidados Como têm os cantores líricos Que não saem para a rua Se a temperatura for um pouquinho mais baixa põe logo os cascóis todos e não sei o quê. Eu tenho, penso eu uma característica, é que raramente levanto a voz. Se levantar a voz para representar é uma coisa, mas ao nível da exaltação, de estar a ofender as cordas vocais, não é… Já é uma questão de estrutura pessoal, já é uma questão de estrutura psicológica, não é muito o meu hábito. Eu penso que deve ser a única coisa que faz com que eu preserve a voz, não é? Para além de que realmente o não fumar e o não beber deve ajudar muito.
Jorge Correia
05:24
Vamos à história. Com 15 anos, já alguras nos anos 60, o Júlio decide entrar pela televisão adentro, literalmente.
Julio Isidro
05:32
Olha, eu só lhe retiro a palavra decide, porque eu não decidi coisa nenhuma.
Jorge Correia
05:35
Então, porquê é que decidiu?
Julio Isidro
05:36
Na minha vida tenho decidido muito pouco. Isso é bom? Não, acho que não.
05:42
Acho que tenho sido mais conduzido do que tenho sido eu a conduzir. E daqui a dias eu escrevia sobre isso. As coisas importantes da minha vida foram as decisões que eu tomei.
05:51
Eu diria o contrário. As decisões que eu não tomei. O que aconteceu foi que eu era aluno de Liceo Gamões e cantava no Orfeão e o padre Ávila, que era o diretor do grupo, pedia-me normalmente para ser eu a apresentar as cantigas.
06:11
Quando olhamos para uma carreira longa, procuramos um momento, um momento iniciático,
Jorge Correia
06:16
A decisão, o instante em que a pessoa viu aquilo que os outros não viram, escolheu ir por ali. É assim que gostamos de contar as histórias de quem agregamos, como se o talento fosse uma questão de coragem de alguém que soube o que queria e foi em busca. O problema é que essa narrativa raramente corresponde à realidade
Jorge Correia
06:35
e quando encontramos alguém disposto a dizê-lo com clareza, sem falsas modéstias, sem voz, vale a pena parar e ouvir.
Jorge Correia
06:42
João Luzido é uma lenda, tem mais de 60 anos de rádio e televisão e é uma das nossas mais reconhecidas do país. Reconhecida antes de sabermos de onde vem, antes de associarmos um rosto ou um nome.
Jorge Correia
06:52
É o tipo de presença que se instala na memória das pessoas, sem pedir a licença. Construiu um dos maiores fenómenos da televisão portuguesa, o passeio dos alegres, o programa de domingo à tarde, que chegou a ter 90% do chefe, 90% do país inteiro parado à frente do ECA.
Jorge Correia
07:08
Foi uma das votos do dia 25 de abril de 1974, leu os primeiros comunicados do Movimento das Forças Armadas numa rádio ocupada por Nuitares, em uma cidade que ainda não sabia que estava a acontecer. Descobriu António Variações, num cabeleireiro, Adelaide Ferreira, num bar e tantos outros. Abreu o bar e os pais deixaram a agitação inteira de músicos e artigos. E nessa tornando-se a mais sensação de que existiam.
Julio Isidro
07:33
E no entanto, quando lhe perguntamos como é que tudo isto aconteceu,
Jorge Correia
07:36
Como é que se tomam as decisões que o levaram até aqui? A resposta é inesperada. Quase desconcertante.
07:43
Porque João Isidro não acredita que tenha tomado parte das decisões. Acredita que as deixou acontecer. E foi exatamente isso.
07:52
Essa disponibilidade rara para o acaso. Essa ausência de projeto rígido que tornou o resto possível.
Julio Isidro
07:59
Subi a rampa a pé. E dei por mim com uma série de rapaziada. Alguns até também do meu liceu, não é?
08:07
E outros que eu não conhecia. E estivemos lá a prestar provas. Os meus pais não puseram nenhuma objeção.
08:15
Vai à televisão fazer uma coisa. Ainda por cima à televisão, repare-se, estamos no ano de 1960, não é? A televisão já existia.
08:22
Mas não estava muito democratizada, não estava muito… Havia televisão lá em casa? Por tal sinal, nós tínhamos televisão.
08:29
Tínhamos televisão para nós e para o prédio inteiro. Iam lá toda a gente ver. Toda a gente ia ver.
08:33
Portanto, quer dizer, os meus pais deixaram-me ir. Pode ser que tenha graça ele aparecer na televisão. Estava ainda por inventar o gravador, o videotape, nada disso existia.
08:43
Era tudo em direto. Era tudo em direto. Não havia possibilidade, a não ser que fosse em filme.
08:49
Já lhe conto, em filme, aquilo que se transmitia em televisão, que não fosse um direto de estúdio, era filmado. E, portanto, fui concorrer. Eles fizeram uma prova difícil, era o estúdio do telejornal, bastante mais pequeno que esta sala onde nós estamos, com uma mesa, tipo mesa de notário, parecia aquelas mesas em mogo, numa coisa assim, que era onde eu via o Henrique Mendes e o Gomes Ferreira e o Manuel Caetano e o Fialho Gouveia a lerem as notícias.
09:27
E era ali, tinha ao lado uma mesinha mínima, com uma cadeira onde as lectoras de continuidade anunciavam aos estimados espectadores a programação do dia. E foi ali que me mandaram ler um texto em português, um texto em francês, um texto em inglês. Depois pediram-me para fazer um improviso sobre um tema qualquer e depois me mandaram embora.
09:57
Pronto, depois disso me mandaram embora. E passados 15 dias, não tenho bem a certeza, já passaram alguns aninhos, mandaram-me chamar a dizer que tínhamos ficado num grupo mais restrito. Pensei que eram 15.
10:13
E voltávamos a fazer provas. Eu, por tal sinal, fiz as segundas provas em condições emocionais um bocado duras, porque tinha morrido a mãe do meu melhor amigo, na véspera. E eu estive com ele, antigamente os velórios eram de noite inteira, e eu estive com ele até de manhã junto à mãe.
10:37
E portanto fui tomar um banho e tal, e fui para a televisão, um miúdo com 15 anos, tem muito mais sono do que eu tenho hoje, não é? E portanto fui um bocado ensonado, não é? E então mandaram-me fazer outra vez as mesmas provas.
10:52
A sensação estranha é porque à minha frente não estava um júri. O júri estava na RG e a RG era no piso de cima, com um vidro que não se via cá para baixo.
Jorge Correia
11:02
Portanto, verdadeiramente uma sensação de televisão. Eu ouvi uma voz que vinha do além,
Julio Isidro
11:07
que era a pessoa que me dizia para eu fazer isto e aquilo e aquilo.
Jorge Correia
11:10
E não ficam ansiosos com essa ideia?
Julio Isidro
11:12
Sabe o quê? A inconsciência é ótima para nós não termos ansiedades. Aliás, o padre António Vieira dizia isso.
11:19
Felizes os que não veem um palmo adiante dos narizes. e portanto eu nem dei por nada. E tinha um operador de som, um operador de imagem, à minha frente, com o ar-me-teu sonado, a aturar os miúdos que estavam ali a dizer uns disparados.
11:31
E então voltei a fazer mais uma vez o texto, mais uma vez um noticiário, algumas leituras de textos noticiários, como não ouvia teleponto, os noticiaristas liam no papel, e eu li também no papel. Para mim fiquei logo muito emocionado, circunstância de estar a ler e sentado na cadeira do Henrique Mendes, do Monal Caetano, coisa extraordinária, e depois pisaram-me em pé à frente dessa secretária e disseram-me para eu fazer uma reportagem. Isso é que é realmente uma coisa que eu ainda hoje teria medo de fazer e não tive medo nem naquela altura.
12:12
Já viu alguma vez, se é que trataram por tudo, já viste alguma vez, era o tal Voz ou além, já viste alguma vez a cerimónia do 10 de junho e eu, por tal sinal, em termos de televisão, já tinha visto.
Jorge Correia
12:23
E portanto lembrava-se do que é que acontecia. Vagamente, não é? Então agora faça uma reportagem
Julio Isidro
12:27
sobre o 10 de junho. Sem nada atrás?
Jorge Correia
12:29
Sem imagem? Sem nada? Vazio?
Julio Isidro
12:31
O que é extraordinário é exatamente isso. Como é que se faz uma reportagem do que se não vê? Mas a memória é fresquinha, portanto eu lembrava-me que tinha desfilado o batalhão da GNR e depois mais o regimento de infantaria e depois mais as medalhas que estavam a ser entregues, em alguns casos já aos mortos da Guerra Colonial, ainda não era, era anos 60, foi no ano em que começou. Mas pronto, medalhas que foram entregues, e portanto eu relatei o Terreno de Passo, que era no Terreno de Passo, lá contei aquilo que não estava a ver, portanto fazia uma reportagem sem estar a ver.
Jorge Correia
13:09
E as coisas saíram bem, e portanto foi aprovado e foi convidado.
Julio Isidro
13:12
Penso que saíram, e depois pior do que tudo, pediram para eu contar uma anedota. É muito mal. Hoje em dia vivemos num tempo de humor, é evidente, mas ninguém faz humor numa sala vazia.
13:24
Fazer humor numa sala vazia é que é mais complicado também. Porque não estava lá ninguém. Eu contei uma anedota muito pífia que, obviamente, nem o operador se riu.
Jorge Correia
13:37
Pronto, então mandaram-me embora. Júlio, posso perguntar-lhe depois quando foi escolhido e quando começou a aparecer regularmente nos ecrãs e voltou à escola Continuava na escola. Naturalmente. E então, como é que é a sensação? Porque a partir desse momento, já não é mais aquele nosso colega que ali está, já é uma estrela de televisão, já aparece-nos.
Julio Isidro
13:57
Sabe, todos esses conceitos foram evoluindo, ou se quiser, evoluindo com o tema. Então inventamos isso.
Jorge Correia
14:04
Inventamos um influenciador.
Julio Isidro
14:05
Ninguém me ligava nenhuma. Entre várias coisas, por seguir. Para já, porque lá está, em cada rua havia se calhar um aparelho de televisão.
14:14
se não o da casa dos meus pais, provavelmente o da pastelaria de esquina, não é? E não mais do que isso. Portanto, a popularidade e depois a cobertura não era do país inteiro.
14:24
E provavelmente os meus colegas nunca tinham visto, ou vi uma vez ou outra, não sei. Mas não me lembro, sinceramente, eu que tenho uma memória relativamente fresca, não me lembro de colegas meus, mas estive-te a ver na televisão. Nada.
Jorge Correia
14:40
Mas não sentia esse orgulho dessa possibilidade de poder ter?
Julio Isidro
14:45
Não, o orgulho não sentia nenhum porque sempre fui demasiadamente crítico em relação a mim próprio e portanto ficava sempre com a ideia que se calhar estava ali numa situação, não digo de favor, porque foi, por contrário, foi de desfavor. Estou aqui a fazer uma coisa provisória porque a primeira coisa que me mandaram fazer sabendo que eu fazia aeromodelismo foi, as primeiras coisas que fiz foi, para além de apresentar globalmente o programa juntamente com dois apresentadores um deles já não está entre nós que era o João Lobo Antunes e a voz feminina e a presença feminina e lindíssima era da Lídia Franco portanto eu fazia a apresentação com a Lídia Franco, com o João e portanto no princípio dizíamos umas coisas e cada um tinha umas rubricas porque o programa tinha hora e meia às seis da tarde sensivelmente, penso eu
Jorge Correia
15:36
Então mas essa capacidade esse criticismo em relação a si próprio esse perfeccionismo não lhe permitiu sentir o gozo daquilo que estava a acontecer?
Julio Isidro
15:46
Ou seja eu não tinha propriamente um grande gozo do que estava a fazer devido à concentração do que estava a fazer portanto quer dizer não saboreava porque quer dizer acho que a maior parte das pessoas que estão ligadas ao meu meio ou uma parte eu quero ser justo estão mais ligadas aos efeitos colaterais da profissão do que à profissão. Portanto, quer dizer, a questão da fama, do proveito, do entrar num sítio qualquer e as pessoas reconhecerem e por ser para si o par de sapatos tem um desconto, quer dizer, percebe? Eu não tinha sequer a noção disso.
16:28
E mais do que isso, eu só tinha visto televisão, curiosamente, na Feira Popular, uns anos antes, quando a televisão começou a ser ensaiada na Feira Popular. Portanto, eu não tinha nada à percepção de que orgulho que tenho de trabalhar em televisão. Não, pronto.
16:45
Tinha uma vantagem. Pagavam-me um cachê semanal. Aliás, a minha vida foi feita de cachês semanais, até à atualidade.
16:54
Mas pagavam-me 200 escudos, o que era muitíssimo bem pago. Muitíssimo bem pago. E mais do que isso, se houvesse repetições, o que infelizmente não havia porque não havia gravação, eles pagavam 10% sobre as repetições.
17:10
Extra, pelo trabalho. Exatamente. Pela transmissão, pela retransmissão.
17:16
Ah, muito bem. É evidente que havia uma coisa ou outra que eu tinha feito em filme e quando era repetido, quando ia à rua de São Domingos ao Lapa, um palacete lindíssimo, levantar o meu cachê, às vezes tinha lá aquela surpresa de mais de 10% que tinham retransmitido não sei o quê. Música
Jorge Correia
18:10
Não deixa de ficar na minha cabeça aquilo que disse há pouco que é eu tomei muito poucas decisões decidiram por mim e eu no fundo deixei-me embalar aqui pelo mundo Há um momento da vida do Júlio que é extraordinário, extraordinário para todos nós mas para o Júlio ainda mais, que é um tal de 25 de Abril de 1974 Pois que o Júlio decidiu estar a trabalhar nesse dia Exatamente aonde?
Julio Isidro
18:35
Olha, aí sim, no Rádio Clube Português, é evidente, mas essas já são outras decisões. Não é uma decisão de carreira, essa foi uma decisão emocional, muito mais do que racional, uma decisão emocional e uma decisão que eu previa como uma grande mudança na nossa vida, na minha vida.
Jorge Correia
18:58
Mas sabia que aquilo estava ali prestes a acontecer?
Julio Isidro
19:00
Não, não. A única coisa que eu sabia é que tinha ido com os Green Windows a Londres. Penso que pela segunda vez tinha que ter pedido à APID um documento para me deixarem sair sabendo que eu voltaria para a tropa. Isto porque eu já tinha estado na tropa, mas como não tinha ido para a guerra colonial por razões meramente circunstanciais, não teve nada a ver, não houve cunhas, não houve nada, pelo contrário, tinha condições até físicas para não ir, porque tinha luxação crónica do ombro direito, mas nem mesmo assim escapei. E fui com os Winnie Windows, eles vieram para Portugal e eu fiquei em casa de Matia, porque iria ser mobilizado como capitão quando chegasse aos 30 anos.
Jorge Correia
19:57
E, portanto, ia para a guerra.
Julio Isidro
19:59
E aí era inevitável porque ia… Aliás, a origem do movimento dos capitães tem também a ver com os capitães milicianos. e portanto eu iria em determinada altura mesmo comandar uma companhia para a África e aí pensei duas vezes é demais e vou ficar em casa da minha tia mas curiosamente dá-se o 16 de Março e eu estava em casa da minha tia em Hollywood Road e ela tinha-me arranjado a possibilidade a eventualidade de eu ser mordomo o turista e tudo e tudo, de algumas vedetas internacionais.
20:42
Uma delas era a Eva Gardner, que estava a viver em Londres, o final da sua carreira e da sua decadência também. Mas com dinheiro mandado, penso que eu mensalmente, pelo Frank Sinatra, que tinha por ela uma grande paixão, e pagava-lhe a estadia em Londres. Também poderia ter tido uma hipótese com o Danger Man, que era o Danger Man, era o nome da série, era o Patrick McGowan, também na qualidade de mordomo e motorista e não sei o quê.
21:19
E, das 16 de março, eu tinha ido à BBC portuguesa e tinha ouvido as informações, as notícias mais puras, mais bem passadas. Sem censura, portanto. Exatamente, mais bem passadas do que tinha acontecido.
21:37
com o 16 de março, a marcha das calas da rainha sobre Lisboa, e portanto o fracasso naquela altura, o aparente fracasso do movimento, e liguei para o Luís Filipe Costa, que era o meu chefe, naquela altura tinha que ir a uma cabine telefónica e levar uma série de moedas de cêntimos ou de libras para poder fazer uma chamada e disse oh chefe, diga-me uma coisa isto dá para voltar? foi só que eu disse e ele disse dá e eu comprei o bilhete e porque tinha tinha comprado bilhete e dei volta para despistar é evidente mas o de volta já tinha caducado portanto a ideia era mesmo ficar em Londres
Jorge Correia
22:28
E certamente não era nesta profissão para o público.
Jorge Correia
22:31
Sabemos que muitas das pessoas que nos ouvem
Jorge Correia
22:33
e chegam até aqui gostam das conversas
Jorge Correia
22:35
mas acabam por se esquecer de um pequeno detalhe.
Jorge Correia
22:38
Clicar no botão de seguir ou subscrever na aplicação do podcast este gesto que demora literalmente um segundo é realmente a mais poderosa do dia 25
Jorge Correia
22:46
para dizer ao algoritmo das plataformas o que é que se lembra em valor. É isso que é grande o futuro do Pergunta 5 e por que trazer convidados extraordinários e nos ajudar a levar estas conversas Fazia noticiários por além.
Julio Isidro
22:58
Naquela altura fazíamos tudo, portanto eu fazia noticiários, fazia o entretenimento, programas de produção, etc. Trabalhava muitas horas por dia porque ganhava a hora. Ali nem sequer era a semana, ganhava a hora. E 27 escudos e 50 centavos não se podem deitar fora. E portanto eu estava casado muito recentemente e então fazia noticiários, depois ia fazer o Clube das Donas de Casa e depois fazia A Noite É Nossa e depois fazia, mais tarde vinha fazer logo o Em Órbita enfim, fazia o Clube Agogô que era outro programa também que fazia uns em FM, outros em Onda Man
Jorge Correia
23:35
Portanto havia que ganhar dinheiro, havia que trabalhar havia que andar para frente
Julio Isidro
23:38
E oferecia-me voluntariamente para fazer as férias dos outros portanto, os meus colegas que tinham já um estatuto mais consolidado que o meu iam de férias e eu oferecia-me voluntário, ficava lá fazia dois períodos noticiários por exemplo, seguidos 19h01, 1h07 19h01, 1h07 da manhã fazia isso com muita frequência dobrava os turnos, portanto exatamente, ficava ali lanchava, comia lá umas coisas e tal podiam situar-nos nesse… e então nesse dia ou nessa noite eu estava em princípio estava 1h07 da manhã quem fazia o horário com uma letra lindíssima era o Luís Filipe Costa e para a vossa informação no dia 25 de Abril o número de noticiaristas dentro do rádio português era de sete pessoas. Sete pessoas?
24:31
Sete pessoas para garantirem 24 horas de informação por dia. O que significava que cada um de nós estava sozinho. Porque dois estavam de folga. Ah!
24:41
Pois, quer dizer, eu fazia seis horas de noticiário absolutamente
Jorge Correia
24:45
sozinho. Não havia
Julio Isidro
24:47
redundância no fundo? Não, recebia telex, esperava ou não que a censura mandasse o seu diagnóstico sobre o conteúdo dos telexes às vezes não respeitávamos isso era uma questão intuitiva outras vezes era uma questão provocatória dava para soltar
Jorge Correia
25:08
dava para pagar em alguns telexes e poder ler eram telexes internacionais? eram telexes
Julio Isidro
25:15
da agência portuguesa telexes da Reuters telexes da France Press para aí fora e portanto quer dizer o problema é que os que vinham lá de fora estavam completamente libertos por natureza a redação contava a verdade das coisas daqui não podia ser a verdade das coisas mas de qualquer das maneiras nós regíamos aquilo sobretudo com uma premissa que eu defendi desde sempre que é a arte da metáfora e portanto às vezes andávamos ali
Jorge Correia
25:44
O que é a arte da metáfora?
Julio Isidro
25:46
A arte da metáfora é dizer mais ou menos aquilo que se pode dizer mas com vontade de dizer um bocadinho mais
Jorge Correia
25:53
E as pessoas percebem isso também, não é?
Julio Isidro
25:55
Sim, havia muitos recados e o Filipe Costa adorava também ainda por cima faço trocadilhos com muita facilidade e alguns eram muito eficazes
Jorge Correia
26:04
E a tribo da PIDE não se zangava de vez em quando? Não ficava asiada?
Julio Isidro
26:09
Não porque nós tínhamos censura interna
Jorge Correia
26:12
Estava lá dentro?
Julio Isidro
26:13
Alguns apelidos são conhecidos, mas eu não vou citar
Jorge Correia
26:16
De pessoas que trabalhavam…
Julio Isidro
26:17
Não, havia lá um gabinete de censura. Dentro da rádio? Dentro do rádio Clube Português. Deviam ser muito populados, portanto. É, gente gostava muito deles.
Jorge Correia
26:29
O que é que acontece na horária?
Julio Isidro
26:31
Às vezes o senhor entrava e olhava por cima do ombro. O que é que você está aí a escrever? O senhor, não vou dizer nomes, os apelitos são muito conhecidos.
26:43
Ah, tu escrevesse assim, assim. Mas logo é que dá a escrever. Está bem, pronto.
26:47
E, entretanto, eu estava na noite de 24 para 25 de Abril, eu estava noticiários da 1 às 7 da manhã, o que significava que ia ser mesmo o primeiro a ler, o primeiro comunicado do MFA. Só que o Joaquim Furtado, que também pertencia à equipa dos noticiaristas, o Joaquim Furtado trabalhava também na televisão, na RTP, e estava nos noticiários da televisão como redator. E disse-me para aí um dia ou dois dias antes, olha, eu vou fazer o noticiário, o último noticiário da RTP, que é o da meia-noite tu não te importas de trocar comigo, tu faz o 19-1 e eu faço o 1-7 da manhã trocaram o turno, portanto e trocámos turno, portanto eu saí a 1 e 1 quarto sensivelmente, quem já tinha entrado, passei-lhe a pasta o que é que tinha feito aliás, tínhamos uma uma enfim, uma zona da nossa secretária eles iam acumulando os noticiários que já tinha lido e vim embora ao meu quarto e soube posteriormente que os militares ao meu quarto já estavam na placa central da Sampaio Pina dentro do carro e que assim lá não está a sair o Julio Zidra mas eu não fui logo para casa naquela altura eu já estava divorciado foi viver um bocadinho da vida fui para casa dos meus pais
Jorge Correia
28:11
pensei que tinha ido dar uma volta pela cidade
Julio Isidro
28:13
tem toda a razão fui para casa dos meus pais, depois de ter ido ao Porão do Anau que era a discoteca onde eu costumava gastar e portanto fui até ao Porão do Anau onde mexia em bebidas vi para aí uma laranjada e Coca-Cola não que estava proibida pelo regime mas se calhar um Canadá atrás, portanto fiz aí uma mistura explosiva, não pedia mais nada, ouvi um bocado de música e fui para casa por volta das três ou três e tal da manhã dos meus pais onde os meus pais tinham deixado ficar o meu quarto incólme porque tinham a pretensão que um dia voltaria e não sei se era a pretensão era provavelmente a perspectiva de que isso podia acontecer a possibilidade e então eu fui fui-me deitar, a minha mãe tinha insónias e ouvia a rádio durante a noite e por volta aí das cinco e tal da manhã, a minha mãe bateu à porta do meu quarto e acordou-me olha, eu tenho estado a ouvir o quarto de português estou a ouvir ali umas músicas que não têm nada a ver com aquilo que habitualmente se passa, ou seja, o que é que se passa? Passava-se a noite é nossa, que era um programa que eu fiz inúmeras vezes das três às seis da manhã a produção de Rui Castelar Só que as músicas já eram outras? Eram outras, eram marchas militares e tal e eu fui ouvir e ouvi de repente aqui posto comando as forças armadas está a acontecer uma coisa fui até à casa de banho tomei um ducho para ir lavado para uma revolução vale sempre a pena ir lavado, quanto mais não seja na consciência e fui fui a pé eu morava na João Crisóstomo e fui a pé, atravessando o Parque Eduardo VII até à Sampaio Pina entrei lá, eram seis e tal da manhã ou assim estava lá uma certa agitação a rua estava vedada de um lado e do outro com chaimites não tenho certeza se fossem todas chaimites mas enfim, com carros de combate e havia um ninho de treinadoras pelo menos um que eu tive a ocasião de ver do prédio de esquina, no último andar entrei, pronto, os meus colegas estavam lá alguns estavam poucos e estava essencialmente estavam os ocupantes que eram muito mais militares da Força Aérea do que do Exército ali concretamente havia mais de… eu penso que sim ou pelo menos estavam equivalentes e deu para entrar e então pronto, entrei para os licenciais o que é que é preciso fazer e passado um bocado, eu tenho ainda esse documento histórico para mim, não vai para a Torre do Tombo fica só para mim atendíamos as chamadas telefónicas indas exatamente do posto de comando do Movimento das Forças Armadas.
31:10
A dizer o que era preciso dizer na rádio. Ditavam-nos, ditavam-nos. E então eu tenho um ali escrito por mim com uma letra olorosa, a dizer qualquer coisa como mantenham-se em calma, com calma, a revolução está em marcha, não sei, uma coisa qualquer, nem sei, que eu tenho ali guardado, com uma letra péssima.
31:31
depois entreguei ao meu chefe e ele acrescentou com aquela letra linda uma sugestão de que fiquem em casa estejam tranquilos, uma mensagem de calma foi dada por ele com a letra dele mas está a minha no comunicado mais um acrescento que eu fiz então lá fui para o microfone e fui lendo durante o dia os comunicados das Forças Armadas íamos passando depois das marchas militares já se podiam passar os cantores de intervenção da época que estavam normalmente silenciados, não é? E, portanto, ouviu-se muito José Cafolso, ouviu-se muito Sérgio Godinho, ouviu-se muito José Mário Branco e tal. E a tal marcha do MFA, que é um mero acaso, o José Ribeiro, que era técnico de som, foi ao armário das marchas de desporto para os domingos desportivos, tirou de lá o cadeado e tirou uma marcha.
32:28
E sempre que nós líamos o comunicado do momento das Forças Armadas, metíamos aquela marcha, a marcha do MFA.
Jorge Correia
32:34
Portanto, não havia uma coreografia? Não foi sequer pensado para isso? Nada, foi tudo de improviso.
32:40
À boa maneira portuguesa. Bom, de improviso nós podemos falar de uma coisa que acontece anos mais tarde e que é um programa que é mítico, que é o Passeio dos Alegres. Mas eu estive a ler algumas coisas sobre o Passeio dos Alegres.
32:51
E fiquei, primeiro, absolutamente fascinado por ser um programa que é montado genericamente no espaço de uma ou duas semanas e é um programa diário no domingo à tarde, semanal de domenical, de 5 ou 6 horas, sempre no ar. 4 horas e meia primeiro, passou logo para 5, 5 horas. Mas o o que me fascina aqui e a história dá sempre estas voltas agora que nós estamos todos a olhar para o preço da gasolina e do gás óleo, descobri uma nota histórica a dizer que uma das razões pelas quais a gente tinha a ver tinha a ver com uma preocupação do Ministério de Energia para que todos poupássemos gasolina.
Julio Isidro
33:27
Não, isso é uma informação completamente subvertida.
Jorge Correia
33:30
Temos um fake news, temos aqui uma informação que não…
Julio Isidro
33:33
É uma fake news, é uma má interpretação, digamos. O que aconteceu foi o seguinte, eu chamei àquele programa Passeio dos Alegres e quando chamei àquele Passeio dos Alegres tudo isso subentendia um conceito. Qual era o conceito?
33:48
O conceito era muito simples, a ideia que eu tinha é que as pessoas perdiam muito tempo não tinham alegria aborreciam-se as famílias, mas apesar de tudo faziam saindo ao domingo, vamos dar utilidade ao carro, que estava parado muitas vezes até quase todos com cobertura com aqueles plásticos, com aquelas lonas cinzentas e portanto as pessoas saiam ao domingo, o pai e a mãe normalmente a sogra a sogra e os miúdos iam dar uma volta, saiam iam até à estrada de Sintra dava uma volta, comprava umas queijadas o pai ouvia o relato os miúdos não se podiam mexer nem falar porque ou não sempre a pedir para fazer xixi paravam num sítio qualquer e os miúdos iam fazer xixi atrás nos arbustos a sogra estava eventualmente até a fazer crochê lá atrás e eu pensei isto é o chamado Passeio dos Tristes eu vou criar um programa que reúne as pessoas em casa de uma forma alegre, vou-lhe chamar Passeios Alegres vamos animar a malta E depois, o que ficou na minha cabeça foi o seguinte, paralelamente a isto, portanto, o excesso de energia não tem nada a ver com isto, só de outra maneira, já vou contar como, eu disse paralelamente a isto, eu estou a poupar imenso combustível ao país. Pensei, estou a poupar muito combustível no país. Não é que houvesse a crise que está a haver neste momento, e outras cíclicas têm acontecido, mas é isso que eu estou a fazer.
35:18
Daí que, muito perto do final da primeira série, não, no final da primeira série, eu provoquei, de uma forma bem disposta, obviamente, o Ministro da Energia, fazendo um mapa à mão, não havia essas tecnologias todas no programa dizendo assim ora bem, nós temos não sei quantas pessoas a ver o programa, que era uma coisa o programa tinha cerca de 90% de share, o que significava que 90% do país estava parado para ver o programa eu sei que há não sei quantas pessoas a ver, isto deve corresponder a um número X de automóveis se todos os automóveis forem cheios fazem não sei quantos quilómetros o consumo é este, o programa esteve no ar até agora, não sei quantos meses eu poupei ao país este, não o valor, mas esta quantidade de combustível. Portanto, cria uma narrativa à volta daquilo. Portanto, o que eu fiz foi dizer ao Sr. Ministro, não tenho nada que agradecer, mas já agora pouparam durante estes meses este valor, que eu penso que era muito volumoso, de dinheiro em combustível.
36:29
Provavelmente, se for fazer contas sobre o imposto que cai sobre a gasolina, teria também prejudicado o governo é verdade, é melhor não ter essa conversa naquela altura eu não pensei nisso
Jorge Correia
36:40
é uma curiosidade
Julio Isidro
36:42
é o contrário daquilo que é voz corrente
Jorge Correia
36:46
a minha curiosidade tem a ver com a criatividade que é criar coisas no fundo de uma semana para outra ter uma semana para criar 5 horas de emissão de onde é que vêm as ideias? como é que o Júlio organiza a cabeça para conseguir ter este conjunto de ideias, de rubricas, de coisas que podem animar-nos e que naquela altura fixou tanta gente a ver televisão?
Julio Isidro
37:11
Olha, eu também gostava de me perguntar isso, mas eu penso que só vou rebater a expressão de como é que organiza as ideias. Eu penso que as ideias estavam desorganizadas. Havia um caos das ideias?
37:21
O que eu pensava era de que maneira é que eu na próxima semana, e não era bem assim, nisso eu sou bastante programado, como é que daqui a 15 dias eu vou animar a malta. Portanto, quer dizer, era importante pensar nisso. O que é que eu pensava?
37:36
No mundo que estava à minha volta, nas músicas que iam saindo, nos filmes que estavam na berra, eventualmente em filmes que tinham passado na própria RTP e a partir daí arranjava temas que de alguma maneira, ou então até antecipando uma espécie de cartaz de televisão, cartaz de TV, antecipando a programação da próxima semana onde vai passar o filme X ou Y ou Z.
Jorge Correia
38:01
Era um filhotinho cultural dentro de um programa de televisão?
Julio Isidro
38:04
Era, era. Aliás, foi sempre. Aquilo que eu fiz, não foi sem querer, mas foi de propósito, foi fazer com que a cultura fosse muito acessível às pessoas.
38:13
Porque a cultura, como disse uma vez a Helena Paz da Silva, quando eu a entrevistei com a minha rainha da festa, a cultura é saber onde é que fica o carburador do automóvel. Portanto, quer dizer, eu continuo a pensar assim. Portanto, o que eu fornecia às pessoas era um entretenimento inteligente, o que já não é nada mau.
38:30
para aquilo que se usa. E entre as várias descobertas que… E portanto ia fazendo ia criando situações lembro perfeitamente que ia passar nesse domingo ia passar um filme da Pantera Cor-de-Rosa e eu fiz um programa todo em volta disso, sei que fiz um programa também indicado ao Snoopy, por exemplo estou agora a lembrar-me, quer dizer e depois ia ou então ia sair um disco muito curioso que tinha um nome curioso qualquer e eu a partir daí criava também situações de competição entre aspas também havia isso, as pessoas iam lá participar, não iam competir porque aquilo que nós oferecíamos ou eram singles ou eram LPs ou era pouco mais do que isso portanto as pessoas iam porque gostavam de ir quer dizer, eu acho que isso foi talvez o grande trunfo que eu consegui foi que as pessoas se divertissem sem terem uma ideia hoje em dia competir para um concurso é para receber o automóvel, para receber uns milhares e não sei o quê nunca houve automóvel, o único automóvel que houve foi o Mini, que eu me lembrei porque eu sabia que em Oxford os estudantes de Oxford faziam um concurso para quantos dentro de uma cabine telefónica daquelas velhas cabines telefónicas vermelhas que os ingleses ainda têm uma ou outra eu disse, então se isso for em vez de ser dentro de uma cabine telefónica e se for dentro de um automóvel e pronto, e depois consegui o automóvel mais pequeno que tínhamos na altura sem estar a falar da Izeta que não era um automóvel era uma moto com carroçaria mas portanto era o Mini e portanto lembrei-me e contratei a British Leyland naquela altura a Mini era representada em Portugal pela British Leyland e emprestaram-me o carro e depois aconteceu o que aconteceu. Quantos coberam lá?
40:20
Finalmente depois de várias semanas entraram 27 dentro do carro
Jorge Correia
40:25
Uau! É absolutamente extraordinário. O programa é feito, vários programas, mas este em particular, da descoberta de pessoas, de talentos. Em particular, há um que me fascina, António Variações, que não aparece propriamente no programa primeiro, não é? Quer dizer, lá está, aparece algures na vida do Júlio.
Julio Isidro
40:49
Pois, como aliás alguns também. Porque esta questão de que é o meu orgulho de vida, sem dúvida nenhuma, que é o ter proporcionado esta coisa, o Júlio lançou, eu remeto isso para os historiadores, aquilo que eu acho é que foi sempre um meio e não um fim.
Jorge Correia
41:08
Mas é verdade que descobriu e que potenciou e que mostrou.
Julio Isidro
41:11
Exatamente, ia lançando pessoas, ia promovendo sonhos, ia abrindo a porta para sonhos de pessoas, era isso. Mas acontecia em duas dimensões. é a lei da oferta e da procura.
41:25
Numa fase inicial era eu que ia à procura. E onde é que eu procurava? Procurava essencialmente nos bares em Lisboa.
41:32
Nos bares? Pois, porque os bares tinham muita gente que cantava. Hoje em dia já é menos vulgar, não é?
41:37
Tem a ver com, lá está, a criatividade, o talento estava lá. E ia buscar gente. Por exemplo, o Fernando Pereira fui encontrá-lo num bar chamado Berro.
41:46
Penso que ainda existe até. E fui lá a ver e vejo um fulano, vi mal, porque a nuvem de fumo era muito grande, mas ele estava lá a cantar, a imitar a Liza Minel. E depois fui falar com ele e convidei para ir ao programa e criei um cenário no programa muito semelhante ao Cabaré, para ele poder cantar uma coisa encontrada no filme Cabaré.
42:09
Portanto, quer dizer, fiz isso inúmeras vezes. Depois, em determinada altura, como eu fazia, não se pode desligar isto da rádio, da minha querida rádio, é porque eu estava a fazer também a febre de sábado de manhã. E na febre de sábado de manhã, todos os sábados eu apresentava gente nova.
42:27
E essa gente nova normalmente mandava-me cassetes que eu ouvia exaustivamente e com muita paciência. E portanto, ouvia essas cassetes e depois contratava a rapaziada para ir à febre de sábado de manhã. Quando comecei a ter o passeio dos alegres, Depois era o dois em um.
42:46
Eles faziam a febre e passado uma semana, normalmente passado uma semana, para não ser logo assim uma coisa derrumpante, faziam depois também o passeio dos elégues.
Jorge Correia
42:58
Então e o António Variações? Onde é que ele aparece?
Julio Isidro
43:00
O António Variações, curiosamente, foi um percurso ao contrário. O António Variações lá está, é a lei da oferta e da procura. Neste caso foi a oferta dele. Estavam a cortar o cabelo num sítio onde em princípio nunca iria porque era Isabel Queiroz do Val tinha no IMAVIS tinha um cabeleireiro unissexo para a época era completamente revolucionário e ela tinha contrato com a televisão e um dia disseram-me na televisão ô Júlio, quando quiser cortar o cabelo vá lá porque há um patrocínio e então eu já corto sempre o cabelo no senhor Júlio que era o meu barbado então vou ali ao IMAVIS e fui lá ao IMAVIS e quem me cortou o cabelo foi o tal António Variações e ao cortar-me o cabelo sabe uma coisa, sabe que eu faço umas cantigas eu achei interessante não pela voz porque a voz falada era velada ele até falava muito baixinho a figura? exatamente, o que me desfortou isto é um ótimo boneco no bom sentido do termo utilizamos esta expressão muitas vezes é um character, é uma personagem como quiser
Jorge Correia
44:09
vai ficar bem na televisão
Julio Isidro
44:11
foi essa a ideia e disse, olha, tem alguma coisa gravada? Não tenho, mas gravo. Então faça favor.
44:19
E passado pouco tempo, 15 dias, tanto, já nessa altura vivia em casa dos meus pais e estava num restaurante muito perto da casa dos meus pais, a jantar sozinho. Ele entrou para a porta adentro, vinha com uma capa alentejana e vinha com uma bengala bem grossa, não era para amagardir, com certeza. Traziu o cajado.
44:42
Era um cajado, era mais ou menos isso. Tirou do bolso uma cassete. Olha, já gravei, está aqui.
44:49
E eu fui para casa a ouvir, no meu leitor de cassetes. Achei muito interessante as duas cantigas, mas particularmente a primeira, o comprimido. E ele tinha-me deixado o número de telefone e eu telefonei ainda nessa noite.
45:06
Ele era o homem da noite. Telefonei ainda essa noite a dizer assim, olha, apareça na próxima quarta-feira na reunião de produção da televisão. E ele apareceu na quarta-feira.
45:17
Porquê? Porque eu já tinha o programa escrito e a reunião de quarta-feira era só para acertar detalhes do programa de domingo. E para apresentar o programa do domingo seguinte.
Jorge Correia
45:27
Portanto, foi uma descoberta que o obrigou ao Júlio a colocar ali…
Julio Isidro
45:31
Eu alterei imediatamente o guião.
Jorge Correia
45:33
Na própria reunião. O que tinha este aumento extraordinário?
Julio Isidro
45:36
Porque, olha, ele entrou para a porta dentro e deixou em silêncio a mesa de trabalho. Onde estava o realizador, a anotadora, o associado de realização, o estenografista, o operador de som. De fascínio ou de susto.
45:51
Porque ele entrou também com uma roupa completamente diferente daquelas duas que eu já conhecia. A do dia em que me cortou o cabelo e a outra da samarra, ou da capa, não era uma samarra, era uma capa comprida. E do cajado.
46:06
e portanto entrou com uma jaleca preta e com um chapéu amazantino de toureiro
Jorge Correia
46:12
portanto para marcar exatamente a cametina
Julio Isidro
46:15
eu estava no meio da reunião e disseram-me está lá fora um senhor que o Júlio Isidro disse para vir cá falar com ele sim senhor então faz favor de entrar e quando ele entrou eu já tinha dito hoje vamos ter aqui um convidado porque provavelmente vamos mexer no guião que é evidente num programa de 5 horas mexer no guião é fácil claro, há sempre espaço para colocar mais qualquer coisa mas eu mesmo assim tirei uma rubrica tirei uma rubrica vamos reescrever só aqui este bocadinho ele entrou, vou cortar dentro e tal e então eu pus o gravador no meio da mesa pus a cassete toda a gente ouviu e disse, olha, eu faço questão que ele entre já esta semana não era nenhuma ordem a equipa que trabalhava comigo era a minha cúmplice, que é uma coisa completamente diferente. Eu aparecia com ideias malucas, digamos, e todos eles diziam, hoje ali vamos embora. O que é um clima…
47:13
Acompanhavam? É um clima extraordinário. Isso é que é uma equipa, não é? E um líder?
47:17
Particularmente a sonografia e adereços, que é uma coisa que implica muito a mão de obra, estavam sempre comigo. Às vezes o senhor dos adereços, eu criei um adereço para Adelaide Ferreira cantar o Baby Suicida, mas lembrei-me de pôr teias de aranha porque ela vinha com uma capa preta parecia um pouco uma figura fantasmagórica ou da família, sei lá, do Drácula ou coisa assim, ela tinha assim um ar estranho e na estreia dela em televisão eu quis fazer umas teias de aranha e havia um adrecista que fazia muito bem teias de aranha artificiais hoje é quarta-feira teias de aranha para domingo mas eu faço, eu faço e realmente eu tenho só fotografias porque a RTP esquecendo-se um pouco de uma coisa que se chama preservação da memória, apagou todos os meus programas portanto, só existe um
Jorge Correia
48:13
apagou? apagou todos
Julio Isidro
48:15
todos os programas do Passeio dos Alegres foram todos apagados e portanto, tenha fotografias e tenha realmente a Adelaide Ferreira a cantar com isso portanto, no caso do António Variações não havia nenhuma mudança especial eu tirei uma rubrica e o Otório Verções foi lá cantar e depois é que foi à febre de sábado de manhã normalmente era ao contrário, em primeiro à rádio e depois faziam televisão
Jorge Correia
48:38
O que é que se sente perante esse apagamento da memória?
Julio Isidro
48:43
O que é que eu sinto? Eu sinto que um bom pedaço da história da televisão em Portugal foi realmente eliminado não por mim quer dizer, podiam ter apagado todas as minhas participações, as apresentações agora quem lá foi algumas coisas absolutamente fora de série nunca mais lá estarão eu tenho apenas fotografias, sei lá, por exemplo eu estreei no Passeio dos Alegres a Missa Crioula, que vieram de propósito da Argentina iam para Paris e fizeram um desvio para vir o programa de um tal Julio Isidro e então vieram uma atuação só com flautas de pano e percussões tenho fotografias e veio com o próprio compositor
Jorge Correia
49:31
portanto, se nós quisermos recordar agora
Julio Isidro
49:34
como por exemplo, veio uma vez uma orquestra da República pela da China isso é só para lhe falar de estrangeiros e os portugueses que foram descobertos e os portugueses também o ZUHF não tem nada do GNR, tem a fotografia deles todos, a estreia do GNR também, sim senhor, a cantarem o Portugal na CE, que me criou problemas até imediatamente com a censura porque apesar de tudo houve censura depois de 25 de Abril
Jorge Correia
50:00
Houve?
Julio Isidro
50:01
Então não houve Havia outra censura? Há outras formas mas o Hermano José é um exemplo disso, como sabe, pelas histórias que ele tem contado o GNR foi lá cantar Portugal na CEE e o vocalista levava um QP da GNR na cabeça isso provocou enorme, com protestos e não sei o quê, e que eles já não podiam voltar à televisão. Só para dar um exemplo.
50:34
No fundo, isso é sempre uma forma de censura quando nós nos censuramos a nós próprios. Eu não ia nisso, mas, por exemplo, a Amália também se restriou no meu programa, o que me parece uma coisa quase abarrante. Amália era a maior embaixadora da cultura portuguesa do cantar em português no mundo inteiro e depois do 25 de Abril ficou de uma forma implícita em silêncio porque há determinadas formas de calar as pessoas sem lhes dizer nem que sim nem que não e portanto Amália não ia à televisão e voltou no programa de julho voltou pela minha mão voltou pela minha mão passado um tempo passei dos alegres sou convidado para ir ao Valentim de Carvalho falar com o Sr. Belchior que era o account da Amália, o homem que só tratava das questões da Amália e com o Mário Martins, o grande produtor recentemente desaparecido quem eu tinha uma admiração e uma amizade profunda e chamaram-me a um gabinete e disseram, olha Júlio, gostava que eu visse isto aqui assim, e deram-me a ouvir uma coisa que era o senhor extraterrestre cantado pela Amália que era uma composição do Peão uma coisinha, uma brincadeira uma brincadeira muito bem feita porque o Peão tinha imenso talento Amália e não era um fado Amália gravou isto aqui gostava-me de saber se o Júlio podia levar Amália ao Passeio dos Alegres E eu fiz uma pausa e disse, desculpe, eu não estou a ouvir bem.
52:19
Se eu posso levar a Amália? Não, eu tenho a maior honra em levar a Amália. Mas eu sabia o que é que estava por trás.
52:28
E pronto, e a Amália foi ao programa. E aí, curiosamente, está no YouTube por outra razão que eu lhe vou explicar. Ela foi ao programa mascarada, não foi vestida de Amália.
52:39
Não levava os celos vestidos pretos dela com uma grande roda. e o Shailo, não sei o que, não. Foi mascarada com um chapéu de palha na cabeça, e de camponesa, e com um avental, e tivemos que criar uma situação dela estar a apanhar roupa, uma corda com roupa estendida, e não sei o quê.
Jorge Correia
52:57
Pode não se ter percebido imediatamente que era a Amália?
Julio Isidro
53:01
Ela estava a tentar desvanecer ao máximo a imagem da diva. Que era o que ela era? Não se pode dizer que era.
53:08
E que era. E então lá foi, conversou comigo um bocadinho, cantou o senhor extraterrestre e depois no final, num dos intervalos do programa, ela foi para o seu camarim e eu fui lá agradecer-lhe e ela disse uma coisa assim, Júlio, eu virei a todos os programas seus sempre que quiser. Sim, mas ouça, mas agora nós não lhe pagámos nada, mas no futuro eu não tenho dinheiro, não é, não é, o programa não era pago para mim, eu recebia só o meu cachê, sim, mas a televisão não deve ter dinheiro para lhe pagar. Não, Júlio, deu-me umas flores que eu vou.
53:47
E ficámos assim. E foi mais vezes. Depois foi ao final do Passeio dos Aleigos também.
53:52
Um ato de gratidão seguramente. Mas pronto, tinha apenas a ver com a circunstância de ela estar silenciada.
Jorge Correia
54:00
Falamos da rádio e da televisão, lá está a febre de sábado à noite. Sábado de manhã. Chegou a encher um estádio de futebol, não é?
Julio Isidro
54:10
A Febre de Sábado de Manhã começou no Cinema Nimas, que tinha 180 lugares. Para ser mais rigoroso, ela começou numa discoteca que cheirava muito a perfume barato. Ficamos por aqui.
Jorge Correia
54:26
Uma metáfora.
Julio Isidro
54:26
Que chamava-se Noite e Dia, na Pascoal de Melo.
Jorge Correia
54:31
Portanto, vejamos. Só pontuar isto aqui.
Julio Isidro
54:33
E fizemos só esse aí, nesse dia. Depois passou a ser feita no Nimas.
Jorge Correia
54:39
O Júlio não fumava, não bebia, mas conhecia todos os recantos da cidade.
Julio Isidro
54:43
Ah, sim. Fumei bastante cigarros de outro, não é? Conta-lhe.
54:48
E então ela começou ali e depois o segundo programa já foi no Nimas. E depois, ao terceiro programa, em vez de estarem 180, estavam 360, porque alguns já sentavam os dois na mesma cadeira e tal. Com a cumplicidade do polícia e do bombeiro, que nos pescavam o olho e tal.
55:06
Deixa-se a entrar a rapaziada e tal. E o meu assistente de realização que era E de produção e tudo O meu amigo António Barre Já morreu há um ano Estava à porta e ia gerindo aquilo e tal E depois aquilo foi crescendo Fez pavilhões de gimnodes esportivos Fez campos de esportivos Campos de futebol, estádios de futebol Por exemplo o estádio do Barreirense Ou da Cuf, da Cuf de Barreiro
Jorge Correia
55:30
E estava muita gente?
Julio Isidro
55:32
Estava sempre cheio E culminou Depois fiz mais Mas culminou em termos de número No estado de Avalade com 50 mil jovens a assistir Um programa de rádio
Jorge Correia
55:43
Qual Rolling Stone no fundo, não é?
Julio Isidro
55:44
Pois, mas era rádio Portanto eu disse que as pessoas não foram ver Um programa de rádio, foram ouver Um programa de rádio
Jorge Correia
55:51
O que é uma coisa absolutamente extraordinária O que é que a rádio lhe deu que a televisão Nunca lhe poderia ter dado?
Julio Isidro
55:58
Olha, a rádio deu-me a liberdade De não ter que fazer a barba E não ter que pintar a cara Não é isso, quer dizer é que realmente estar aqui com o microfone a fazer, evidentemente, estamos a ver o podcast também tem a imagem. Estamos a fazer rádio. Mas estamos a fazer rádio, no fundo.
56:17
Permito-me uma coisa que é, se há alguma coisa que eu sei fazer bem na vida, é comunicar com as pessoas. E, portanto, o uso da palavra continua a ser, para mim, um grande privilégio do ser humano. É natural que o meu Picasso também se deve entender, que o que se cruza, começam os dois a ladrar, devem estar a dialogar uns com os outros.
56:34
Mas nós temos esse raríssimo privilégio. E eu ainda hoje me sinto quase desatualizado, quase não, verdadeiramente desatualizado, porque sempre quero falar com alguém, pego no telemóvel e ligo para a pessoa para falar de viva voz. E hoje em dia, já em muitos casos não atendem. Mas se eu for imediatamente e mandar um SMS, a pessoa já responde. O que significa que estamos a evitar o nosso diálogo. A evitar uma das coisas belíssimas que é a utilização da voz. Quer dizer, esta comunicação bonita que existe entre as menins e a laringe, não é verdade.
57:11
Mas, para mim, a rádio tem esse fascínio. E tem a possibilidade de eu ir falando com as pessoas e criando imagens. Eu acho que a rádio tem um privilégio.
57:23
É oferecer às pessoas a possibilidade de se imaginarem em aulas próprias e aos ambientes onde estejamos eventualmente. Eu fiz inúmeros programas de rádio, até também com concursos do tipo daquilo que fiz em televisão, e tinha que estar a descrever. E descrever é uma forma brilhante de transmitir aos outros a capacidade de imaginarem.
57:47
É como quando nós estamos a ler um livro, a leitura que eu faço de uma qualquer descrição no livro será certamente diferente da sua. Não se descalca. Daí aquele mito de que fui ver o filme baseado no romance, não tem nada a ver.
58:02
Porque nós imaginamos uma coisa diferente, não é? E normalmente está pior. A imagem que as pessoas têm é que normalmente está pior.
58:09
Portanto, quer dizer, eu sou um homem de televisão, mas o meu coração bate pela rádio.
Jorge Correia
58:16
E a língua portuguesa? É uma ferramenta ou é um santuário que tem que ser muito respeitado e cultivado? Vês duas coisas. Sempre que eu ouço e tenho esse privilégio, vejo sempre que é muito cuidado, é muito… Diz as palavras todas, com as sílabas todas, com as vírgulas todas, com os verbos no sítio certo, com os sujeitos no sítio certo.
Julio Isidro
58:42
Eu falo como escrevo e escrevo como falo. Aliás, as pessoas gostam muito daquilo que eu escrevo e no fundo aquilo que eu escrevo é um colóquio. Eu faço um texto coloquial, porque eu não sei fazer literatura.
58:56
E, portanto, as pessoas adoram aquilo que eu escrevo e fazem-me mais rasgados e ilusões. E, sobretudo, por exemplo, quando eu escrevo e descrevo alguma coisa. Vou ver uma estreia de cinema e gosto do filme.
59:13
Não sou obrigado a escrever, é evidente. Gosto do filme. E, então, conto alguma coisa sobre isso.
59:19
De maneira também a não tirar o véu do suspense, da expectativa que o filme possa ter.
Jorge Correia
59:27
E não estragar o filme no fundo.
Julio Isidro
59:28
Claro, se não, às vezes acontece isto assim e assim, é contar a história, mas não. E portanto, quer dizer, aquilo que eu faço é, para já, alicerçado na minha ideia de que o português, aqui ao microfone, é uma ferramenta, mas é também, como disse, um santuário. Eu continuo a escrever à moda antiga, peço as maiores desculpas, mas eu não consigo escrever facto sem ser.
59:56
Porque eu não consigo vestir um facto. Eu visto é um fato. E pronto.
01:00:02
E o acordo ortográfico pode ter dado cabo aqui? Acho que o acordo ortográfico foi o maior desacordo que se conseguiu criar em relação até à nossa Portugalidade. Porque isto foi uma cedência especialmente à língua portuguesa espalhada pelo mundo.
01:00:21
Não, quer dizer, a língua portuguesa espalhada pelo mundo, existem variantes que têm a ver com a língua portuguesa. A mãe, que é esta que nós praticamos. Estropiamos a língua, de alguma maneira?
01:00:32
Agora está a ver televisão e o comentador que está no Médio Oriente é brasileiro e diz o Irã. É o Irão. E portanto, quer dizer, não há nada a fazer.
01:00:46
E disse várias expressões, eu até estava a constatar e a relatar isso à minha mulher, quer dizer, ele disse uma série de coisas que não têm nada a ver com a nossa língua. Mas o brasileiro é mesmo uma língua. É o português do Brasil, mas é uma língua.
01:01:03
E portanto tentar uniformizar isto tudo deu as meiras. Tentar uniformizar isto tudo acabou por não uniformizar nada. Nada, porque há vocábulos que nem sequer existem.
01:01:12
Não se praticam na língua portuguesa. E, portanto, quer dizer, eu isso devo ao meu pai. Porque o meu pai era um discretíssimo funcionário de uma companhia de seguros, onde foi funcionário toda a vida, até a ser expulso por excesso de idade, quer dizer, expulso no sentido eterno da palavra, porque o meu pai adorava estar na companhia.
01:01:39
E, meu pai, mas em compensação, ou em descompensação, meu pai era formado em filologia clássica e em histórico-filosóficas. E, portanto, quer dizer, particularmente o que mais mente se sabe era a questão da filologia clássica. E nós, muitas vezes, à mesa, eu ponho-lhe uma questão qualquer sobre um vocábulo português, e meu pai disse, bem, a origem disso é latim, e a declinação da palavra na origem é esta, assim, assim.
01:02:04
E se houvesse uma dúvida, ele levantava-se e ia buscar um dicionário de latim ou de grego porque muitos vocábulos nossos também têm origem grego para me dizer como é que se dizia portanto ia à procura e nunca me obrigou nunca me obrigou a coisa nenhuma o que é que eu com a cabeça fresquinha ia arquivando isso tudo
Jorge Correia
01:02:27
e lá está e o exemplo obviamente Júlio, qual é a pergunta que o Júlio gostava que alguma vez lhe fizessem e que nunca ninguém se lembrou dizer isto aqui é que era mesmo uma coisa boa para perguntar ao Jalil.
Julio Isidro
01:02:41
Isso, por acaso, é curioso. Tenho-me feito várias perguntas, mas até, de uma maneira enquadrada no tempo em que estamos a viver, e eu penso que ainda e só, eu direi que nos sopros finais de um vendaval de maldicência foi criado em torno do vestido da mulher do Presidente da República, eu digo da mulher do Presidente da República porque a senhora não quis ser, e muito bem, Primeira-Dama, eu comecei a pensar no que tem sido a minha vida e de que maneira é que eu não me iria sujeitar a esse tipo de coisas. Portanto, a primeira é que se sou conhecido, se tenho alguma notoriedade, é só como consequência natural do meu trabalho.
01:03:37
Não é a minha causa. É um efeito apenas. E depois porque perante o mundo em que nós estamos a viver de enorme ostentação, e não é o caso da senhora, não é ostentação nenhuma.
01:03:53
Não é nenhuma ostentação. O mundo em que estamos a viver, em que as pessoas se qualificam pelo ter, e eu gosto muito mais do ser, estava ali deitado, numa das minhas brevíssimas insónias a pensar o seguinte eu corto o cabelo no Sr. Morgado em Algês e pago 13 euros por cortar o cabelo em frente tem um restaurantezinho do Sr. Joaquim onde eu vou comer gasto 15 euros arranjo os pés na Dona Mila porque tenho problemas de coluna e tenho dificuldade em estar a arranjar os pés, é a única coisa, e a Dona Mila leva-me 20 euros por arranjar os pés. Leva-me a roupa ao Sr. Adolfo para me ajustar a roupa porque não gosto de estar fora de fatos que eu acho que têm qualidade.
01:04:55
Cá em casa, por natureza, temos muitas refeições em que eu pergunto à minha mulher então o que é, porque tem esse enorme defeito, não sei cozinhar, o que é o nosso chantarinho, e a minha mulher diz, é redon, ou seja, restos de ontem, e nós comemos o redon. Não é nem miserabilismo, nem exemplo de vida austera e espartana, nada disso, é a ideia de que tudo aquilo que eu esbanjar está a fazer falta a outros. E, portanto, quer dizer, se me perguntasse a pergunta que nunca ninguém me fez, eu dei-lhe agora uma resposta.
01:05:35
Como é que é o seu conceito de felicidade? É entre ter e ser? Eu já lhe respondi, é entre ser.
Jorge Correia
01:05:42
O Júlio é feliz? Não. Não.
Julio Isidro
01:05:47
Eu estou feliz de vez em quando. Aliás, a felicidade, como se sabe, é um ponto de passagem. São intervalos na vida das pessoas.
01:05:56
Às vezes os intervalos são maiores, outras vezes são menores. Se forem maiores, o otimista tem a ideia de que é um fulano feliz. Se forem menores, é evidente que é um pessimista.
01:06:08
Eu sou, quando muito, um pacifista indignado. O que já me explicou o que é que se passa pela minha cabeça, não é? É evidente que eu não posso dizer assim, eu sou feliz porque vão-me pôr numa bolha.
01:06:24
O que é que me interessa o genocídio de Gaza? O que é que eu tenho a ver com mais de meio milhão de soldados de um lado e do outro que já morreram na Ucrânia e na Rússia, o que é que eu tenho a ver com os milhões de bebés que morrem em África todos os anos porque não têm uma gota de água nem um pedacinho de comida não me venham depois com a demagogia o Júlio está a dizer isto, então dê o que tiverem não, não, é que não são aqueles que vivem razoavelmente bem e eu considero que quando chego a esta fase da vida estou a viver razoavelmente bem e portanto não tenho nenhuma razão de queixo não tenho que pedir nada mais às forças divinas deem-me mais ou ir rezar para ter um automóvel que não tenho, o automóvel da minha mulher tem 11 anos, o meu tem 5 e há de chegar à idade dela com certeza porque eu penso que é muito mais seria muito mais fácil para as pessoas serem capazes de repartir aqueles que são 1% da população mundial e que têm 95% da riqueza mundial
Jorge Correia
01:07:43
há um egoísmo portanto aqui à volta
Julio Isidro
01:07:46
olha eu penso que é um egoísmo e é uma outra coisa que é a ideia de algumas pessoas de que a circunstância de terem o que têm lhes vai prolongar uma coisa que é inevitável que é a vida face ao conceito da morte. Portanto, quer dizer, para que ter tanto para deixar aos outros? Então, os outros que nós criámos, os nossos filhos, temos que lhes dar as ferramentas para eles também serem capazes de fazer alguma coisa. Agora, imaginar pessoas com tanto dinheiro, isto não tem nada a ver com política. Isto tem a ver, sabe com o quê?
01:08:29
Com a doutrina social da Igreja. e não está a falar com um católico praticante. Sou um católico não praticante, mas que tenho tempo para pensar nestas coisas.
01:08:41
Eu acho que é absolutamente desnecessário ter demais. Ter demais, quer dizer… E, portanto, as pessoas encaminharem-se para o final dos seus dias, eu tenho este mundo e o outro…
01:08:57
Não tenham, não tenham. Quer dizer, foi dizer, bem há poucos dias, li uma frase da Dama de Ferro, nós estamos a falar agora de um dirigente político de esquerda ou… Margaret Thatcher.
01:09:16
Pois, sei lá, exatamente. Ela dizia que um Estado nunca pode progredir se exigir em termos de impostos aos seus cidadãos mais do que aquilo que eles podem dar. Esta é uma frase dela.
Jorge Correia
01:09:32
Suspeito que é o que está acontecendo.
Julio Isidro
01:09:33
Uma mulher de direita. E dizendo outra coisa, muito interessante, dizendo assim, o Estado não tem dinheiro. O dinheiro é vosso.
01:09:44
O Estado tem que gerir o dinheiro que vocês lhe dão. Isto é um conceito de uma mulher que foi tida como, digamos, para alguns, um monstro de reacionarismo. estes conceitos não sei se são.
01:09:59
Não sei se são. Acho que não são com certeza. E portanto é isto que eu penso.
Jorge Correia
01:10:04
Júlio, pensa muito na questão da finitude?
Julio Isidro
01:10:09
Olha… Ou como é que olha para isso? Como é que se olha?
01:10:14
Olha, nós estamos a fazer uma entrevista que daqui a umas semanas estará no ar e portanto já estamos praticamente na missa do do 30º dia do Mário Zambuchal. Eu ontem ouviu dizer de viva voz uma coisa extraordinária, a nossa vida é um trabalho a recibo verde. Eu acho que é uma definição maravilhosa.
Jorge Correia
01:10:39
É um trabalho precário.
Julio Isidro
01:10:40
É uma passagem precária, não é? Que temos dificuldade em perceber porque… Sebastião da Gama disse com razão num poema lindíssimo que eu gosto de reler, E dizia com razão que no dia em que eu nasci ficou tudo como estava.
01:11:02
Não é? E no dia em que nós partimos pode haver a cerimónia e tal, mas depois fica tudo como estava. As árvores ficam no sítio e os lagos também.
01:11:10
Portanto, este poema dele diz tudo, mas já que estou a citar poetas, olha, o José Gomes Ferreira dizia que tem um poema dele também muito bonito, viver sempre também cansa. E portanto gostava de desaparecer, fazer umas pausas e depois recomeçar outra vez. Enfim, para os crentes, muito crentes, provavelmente haverá depois da pausa um outro retorno.
01:11:36
Eu sobre isso tenho alguma dúvida, porque isto é uma matéria… Nós somos biodegradáveis. Não acredito que seja isso, muito embora tenha convicções religiosas.
Jorge Correia
01:11:48
Então e qual é o sentido da vida, Julio?
Julio Isidro
01:11:51
Olha, o sentido da vida é uma história de um flanco que não era crente e que foi a um templo budista e foi falar com um iminente budista que estava sentado no trono e disse, olha, tenho andado aqui com uma dúvida essencial, O que é o sentido da vida? E o próprio budista disse, eu não sei o que é o sentido da vida. E o homem respondeu, eu tenho ideia que o sentido da vida é um rio a correr para o mar.
01:12:38
Ele disse, olha, boa ideia, vamos ficar com essa. Que é o que temos? É o que se pode ter.
01:12:46
Estou aqui num sorrilho de citações, Mas olha, o Groucho Marx estava hospitalizado. O Groucho Marx tinha um senso de humor absolutamente extraordinário. Eu leio insistentemente e obsessivamente.
01:13:02
E o Groucho Marx não estava a tomar os medicamentos. E a enfermeira foi ter com ele, e disse, estão aqui os medicamentos na mesa de cabeceira. Não tomou os medicamentos.
01:13:14
Se não tomou os medicamentos, o senhor morre. Morrer? Isso era a última coisa que eu fazia na vida.
Jorge Correia
01:13:22
E fica logo resolvido. No fundo, o Júlio comunica para ser ouvido ou para ser amado?
Julio Isidro
01:13:34
Olha, eu acho que uma coisa e a outra coincidem. Se nos ouvem é porque gostam. Gostam de nós.
01:13:43
se ninguém ouve para construir imagens de ódio. O discurso do ódio não entra pelos ouvidos. Deve entrar pela pele, por outro sítio qualquer, mas não entra pelos ouvidos.
01:14:00
E muito menos entra pela capacidade que nós temos de pensar. Portanto, quer dizer, é evidente que aquilo que eu digo, e porque é normalmente consensual, e porque é normalmente harmonioso, faz com que as pessoas gostem de mim. Se me perguntar se eu gosto de ser amado, obcecadamente.
Jorge Correia
01:14:26
Há uma frase para nós escrevermos, para nos lembrarmos quem é Julizida.
Julio Isidro
01:14:34
Quem foi? Quem foi, mas agora passamos a escrever o presente. Não, não. Ah, não, quem é? Eu acho que sou um amigo e quem vier sempre
Jorge Correia
01:14:48
traz outro amigo também. Perto do fim desta conversa pedia Júlio Isidro uma frase, uma só, aquela com que quer ser lembrado. E ele, provocador, disse-me quem foi?
01:14:57
Como quem diz, quem foi Júlio Isidro? Depois corrigiu-se devagar, como quem muda de ideia no ar. Disse sou um amigo e quem vier traz sempre outro amigo também.
01:15:09
Fiquei com esta frase e não a consigo largar. Não porque ela seja bonita, claro que a frase é bonita, mas porque diz algo sobre comunicação que nenhum manual diz, que a voz mais duradoura não é a que fala mais alto, nem é a que fala para mais pessoas, é aquela que faz com que cada ouvinte sinta que a conversa foi feita apenas para ele. Que havia ali alguém disponível, verdadeiramente disponível para o encontro.
01:15:32
Júlio Isidro passou 100 mil horas com o microfone à frente e a única coisa que ficou foi esta, a ideia de que não estava a transmitir para uma audiência, estava a falar com um amigo e que esse amigo trazia sempre outro. Até à próxima semana.
