Porque é que a rádio ainda não morreu? Pedro Ribeiro

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Porque é que a rádio ainda não morreu? Pedro Ribeiro
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O segredo da rádio

Há vozes que entram na nossa vida sem pedir licença.

Não batem à porta. Não se anunciam. Não pedem atenção.

Simplesmente aparecem.

Estão ali enquanto o café aquece na cozinha. Enquanto o carro avança lentamente no trânsito da manhã. Enquanto a cidade começa a acordar e as pessoas, ainda meio sonolentas, tentam organizar o dia que começa.

Pedro Ribeiro é uma dessas vozes.

Durante mais de duas décadas, ajudou a construir um dos programas de rádio mais ouvidos do país — as Manhãs da Rádio Comercial. Um programa que, para muitos ouvintes, deixou de ser apenas um espaço de entretenimento matinal e passou a ser algo mais íntimo: um ritual.

Uma companhia.

Uma espécie de comunidade invisível feita de humor, música, conversa e pequenas histórias do quotidiano.

Mas afinal, o que faz um programa de rádio funcionar?

Essa é uma das perguntas que atravessa esta conversa com Jorge Correia, no podcast Pergunta Simples.

E a resposta de Pedro Ribeiro começa por desmontar um mito.

Uma máquina… feita de pessoa

Quando se olha de fora para um programa líder de audiências, é fácil imaginar uma grande máquina.

Uma redação cheia de gente. Uma equipa gigantesca. Um sistema sofisticado de produção e planeamento.

Pedro Ribeiro sorri com essa ideia.

Na realidade, explica, as manhãs da Rádio Comercial funcionam com algo muito mais simples: um pequeno grupo de pessoas que se conhece bem.

Ao microfone estão vozes reconhecidas como Nuno Markl, Vasco Palmeirim, Vera Fernandes, César Mourão ou Manuel Cardoso. Atrás deles, dois produtores.

Mais nada.

Não há uma engrenagem invisível cheia de operadores. Não há um exército de técnicos a escrever guiões.

Há pessoas.

E há tempo.

Porque um programa de rádio, diz Pedro Ribeiro, demora anos a afinar.

É preciso aprender o ritmo dos outros. Perceber quando falar e quando deixar espaço. Reconhecer os silêncios, os gestos, as intenções.

Com o tempo, aquilo que parece espontâneo torna-se quase orgânico.

Quem está a ouvir pode pensar que tudo acontece por acaso.

Mas não acontece.

É o resultado de uma confiança construída ao longo de muitos anos.

A regra essencial da rádio

No meio da conversa surge uma ideia simples — mas que ajuda a explicar quase tudo sobre a rádio.

A rádio não fala para multidões.

A rádio fala sempre para uma pessoa de cada vez.

Mesmo quando milhares de pessoas estão a ouvir.

Mesmo quando quatro pessoas estão dentro do mesmo carro.

Cada uma dessas pessoas está a ouvir a emissão de forma diferente. A reagir de forma diferente. A imaginar de forma diferente.

E por isso a rádio funciona melhor quando parece uma conversa íntima.

Não é uma proclamação para a “malta”.

Não é um discurso para “vocês aí desse lado”.

É uma voz que fala diretamente para alguém.

Talvez seja por isso que o meio continua a sobreviver a todas as previsões de morte.

Primeiro foi a televisão.

Depois veio a internet.

Mais tarde surgiram o streaming, os smartphones e as redes sociais.

E, no entanto, a rádio continua aqui.

A verdade como matéria-prima

Pedro Ribeiro acredita que há uma razão simples para essa resistência.

A autenticidade.

Na rádio, diz ele, o público percebe imediatamente quando algo não é verdadeiro.

Se alguém força uma gargalhada, o ouvinte percebe.

Se uma reação é encenada, o público sente.

Se alguém está a fingir ser aquilo que não é, essa distância torna-se audível.

Por isso há uma regra informal nas manhãs da Rádio Comercial:

se não achaste graça, não rias.

Se não gostaste de uma coisa, diz que não gostaste.

A divergência também faz parte da conversa.

Talvez seja por isso que figuras como Nuno Markl — com o seu universo narrativo em O Homem que Mordeu o Cão — ou Vasco Palmeirim, com o seu humor rápido e imprevisível, criaram uma relação tão forte com os ouvintes.

Não são personagens.

São pessoas.

E isso faz toda a diferença.

O que os algoritmos não conseguem fazer

Mas o mundo mudou.

Hoje o consumo de conteúdos é dominado por plataformas digitais e algoritmos que tentam prever o que queremos ouvir.

A rádio perdeu, em grande medida, o papel que teve durante décadas como principal curadora de música.

Agora são os algoritmos que sugerem canções.

Agora são as plataformas que decidem playlists.

E isso cria um desafio real para a rádio.

Mas também revela algo interessante.

Segundo Pedro Ribeiro, os algoritmos têm uma tendência simples: dar-nos sempre mais do mesmo.

Se gostamos de um género musical, recebemos mais desse género.

Se temos determinada opinião, vemos mais opiniões iguais.

O resultado é previsível.

Bolhas.

Repetição.

Conforto.

A rádio, pelo contrário, pode fazer algo diferente: abrir pequenas janelas inesperadas.

Mostrar uma música nova.

Apresentar uma opinião diferente.

Criar momentos que não estavam previstos.

E, sobretudo, criar algo que as máquinas ainda não sabem reproduzir.

Personalidade.

Quando os ouvintes dizem “obrigado”

Há um momento curioso na conversa em que Pedro Ribeiro fala da relação com os ouvintes.

Muitas vezes as pessoas aproximam-se e dizem simplesmente:

“Gosto muito do vosso trabalho.”

É um elogio bonito.

Mas há um momento em que essa relação muda.

Quando alguém chega perto e diz apenas:

“Obrigado.”

Nesse momento, explica Pedro Ribeiro, já não estamos apenas a falar de comunicação.

Estamos a falar de outra coisa.

De companhia.

De presença.

De alguém que esteve ali num momento difícil — talvez numa viagem solitária, talvez numa sala de hospital, talvez numa manhã complicada.

E isso cria uma responsabilidade enorme para quem está ao microfone.

Porque, no fundo, a rádio entra na vida das pessoas de uma forma silenciosa.

Quase invisível.

Mas profundamente real.

Futebol, emoção e irracionalidade

Como acontece muitas vezes nas conversas sobre comunicação, o futebol acaba por aparecer.

E não por acaso.

Pedro Ribeiro fala da relação com o Benfica, da intensidade emocional das bancadas e das memórias que ficam gravadas para sempre.

Momentos como o golo de Carlos Manuel na Alemanha ou a final do Euro 2016 fazem parte dessa memória colectiva.

Mas o futebol também levanta uma pergunta mais inquietante.

Como é que chegámos a um ponto em que a agressividade e a polarização parecem dominar o espaço público?

Pedro Ribeiro observa que vivemos numa época curiosa:

Nunca se falou tanto de empatia.

E talvez nunca tenha havido tão pouca.

O silêncio da rádio

Quase no final da conversa surge uma das ideias mais bonitas do episódio.

Num meio que vive de palavras, música e som, o silêncio parece um erro.

Uma falha técnica.

Um vazio.

Mas Pedro Ribeiro lembra-se de uma lição que recebeu de um dos seus mestres da rádio, Rui Pêgo.

O silêncio pode ser a ferramenta mais poderosa da emissão.

Porque quando a rádio se cala por um instante, algo acontece.

Quem está a ouvir levanta a cabeça.

Algo mudou.

Há uma expectativa.

Uma curiosidade.

Um momento de atenção pura.

E nesse instante percebemos algo essencial.

A rádio nunca foi apenas um meio de comunicação.

É, acima de tudo, uma relação.

Pessoas a falar com pessoas

No final da conversa fica uma ideia simples.

Talvez a rádio continue viva porque, no fundo, nunca tentou ser outra coisa.

Não depende de cenários.

Não depende de imagem.

Não depende de efeitos visuais.

É apenas isto:

Uma voz.

Uma história.

Uma conversa.

Pessoas a falar com pessoas.

E num mundo cheio de ruído, talvez seja precisamente isso que ainda faz falta.

Uma voz verdadeira.

A falar connosco.

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[00:00] Pedro Ribeiro (Excerto inicial): Há uma regra simples que explica quase tudo sobre a rádio e quase ninguém fora da rádio a conhece. Eu tenho sempre uma frase que a equipa está farta de ouvir, que é: eu não quero locutores. Não quero o “Bom, cá estamos” e tal. Não quero alguém que tenha o tom de quem está numa cátedra e está a falar para o povo. Por isso, também por isso, é que nós não tratamos os ouvintes por “vocês”. Porque se dizes “vocês que estão aí”, colocas-te num ponto superior, estás a falar para a plebe, estás a falar para a geral. E a rádio não é para a geral. A rádio é para uma pessoa de cada vez. E por isso falas para uma pessoa.

[00:46] Locução de Abertura: Há uma ideia curiosa sobre a rádio. Se perguntarmos a alguém o que é a rádio, é provável que a resposta seja simples: um meio de comunicação para muita gente. Milhares de ouvintes, às vezes milhões. Mas quem faz rádio há muito tempo costuma dizer exatamente o contrário: a rádio não é para toda a gente, a rádio é sempre para uma pessoa, apenas uma pessoa de cada vez. É para alguém que está a conduzir sozinho de manhã, para alguém que está na cozinha a preparar o pequeno-almoço, para quem está numa sala de espera ou simplesmente para quem precisa de companhia enquanto o dia começa ou acaba. Talvez seja por isso que a rádio continua viva. Primeiro disseram que ia desaparecer com a televisão, depois com a internet, depois com os vários clubes de vídeo digital como o Netflix, os telefones espertos ou os algoritmos. E, no entanto, a rádio continua aqui.

[01:41] Locução (cont.): Antes de continuarmos, um pequeno pedido. Muitas pessoas que ouvem regularmente o Pergunta Simples ainda não carregaram no botão “seguir” ou “subscrever” na aplicação onde estão a ouvir. E esse gesto simples faz toda a diferença. Ajuda o podcast a chegar a mais pessoas e garante que não perde os próximos episódios. Além disso, quando segue o podcast, as plataformas passam a mostrar-lhe primeiro os episódios mais ouvidos, mais partilhados e mais comentados. Se gosta destas conversas, tire um segundo agora mesmo e carregue em “seguir”. É gratuito, demora um instante e ajuda-nos muito a continuar a melhorar o Pergunta Simples.

[02:22] Locução (cont.): Há vozes que entram na nossa vida sem pedir licença. Não batem à porta, não se anunciam, simplesmente aparecem. Estão ali enquanto o café aquece na cozinha, enquanto o carro avança lentamente no trânsito de manhã, enquanto a cidade começa a acordar. Pedro Ribeiro é uma dessas vozes. Durante mais de duas décadas, foi ajudando a construir um dos programas mais ouvidos da rádio portuguesa: as Manhãs da Rádio Comercial, ao lado de nomes como Nuno Markl, Vasco Palmeirim, Vera Fernandes, César Mourão ou Manuel Cardoso. Para muitos ouvintes, aquilo deixou de ser apenas um programa, passou a ser um ritual, uma espécie de comunidade invisível feita de humor, música, conversa e companhia.

[03:09] Locução (cont.): Mas afinal o que é que faz um programa de rádio funcionar? Um programa de rádio de grande sucesso? Como se constrói uma relação tão forte com quem está do outro lado? Nesta conversa do Pergunta Simples, Pedro Ribeiro fala sobre os bastidores da rádio, sobre a relação com os ouvintes e sobre aquilo que talvez continue a ser a grande força deste meio: as pessoas. Pessoas como Nuno Markl, que conta histórias há anos no Homem Que Mordeu o Cão, pessoas como Vasco Palmeirim, cuja rapidez e humor fazem parte da identidade do programa. Mas também as pessoas do outro lado, os ouvintes. E talvez no fundo esta conversa seja sobre isso: sobre autenticidade, sobre atenção, sobre comunidade e sobre uma ideia simples: porque é que no meio de tanto ruído digital continuamos a precisar de ouvir uma voz? Pedro Ribeiro, bem-vindo ao Pergunta Simples.

[04:09] PR: Para mim um podcast é uma conversa. E uma conversa não tem necessariamente guião das duas partes. Tem de uma delas e depois é o que a conversa der. Eu estou convencido de que olhando aí para esses papéis, tu tens aí, sei lá, 20 perguntas, mas se calhar vais fazer duas.

[04:25] JC: São 140 e faremos pelo menos sete. O resto tem vida própria. Olhe, apresentar-te é muito fácil. Podia dizer: Pedro Ribeiro é a pessoa que me acorda todas as manhãs.

[04:37] PR: Já se pode dizer isto aqui neste edifício.

[04:39] JC: Não se pode? Claro que se pode dizer, pode dizer-se em todo o lado, pelo amor de Deus. És aquele que faz a cola de trabalhar no programa mais ouvido neste momento, o programa da manhã. Tenho uma curiosidade inicial que é: que máquina é aquela ali à volta? Porque aquilo não é só gente gira a dar umas larachas. Aquilo tem uma máquina.

[05:01] PR: Não sei se lhe posso chamar máquina, parece-me bastante ambicioso. O que aquilo tem, na verdade, vai muito ao encontro de uma ideia que eu tenho, que é: eu acho sempre mais eficaz ter equipas mais pequenas do que ter uma multidão de gente. E portanto aquilo são os “estradolas” que estão no microfone e mais dois produtores. Só. E é o que é.

[05:25] JC: Mas depois conseguem produzir vídeos para a internet, conseguem…

[05:28] PR: Depois há uma equipa do digital que vai lá estar, está lá sempre uma pessoa de manhã. Nós temos um sistema também de multicâmaras semelhante a este que faz os “cuts” à partida, e depois a equipa de vídeo trabalha esses “cuts” para as redes sociais. Mas o programa de rádio são os “estradolas” que estão no microfone mais dois produtores.

[05:47] JC: Olha, há um “estradola” em particular do qual nós dois gostamos muito, que subitamente decidiu meter umas férias, disse: “Bom, eu tive aqui um susto”. Como é que está o Markl? Como é que está o Nuno?

[05:59] PR: Pá, eu não sei quando é que isto vai para o ar, mas a ideia que eu posso dar é de que está a fazer o seu caminho. Aquilo foi um susto gigante para ele, por maioria de razão, mas para todos nós também. E ele acabou por ter um segundo AVC depois de um primeiro que não foi tão grave e portanto o segundo trouxe um grau de desafio maior para a recuperação. E ele está a fazer o caminho dele, ciente de que é um caminho muito lento, de que o tempo de recuperação deste tipo de lesões não é o tempo a que estamos habituados. Nós vivemos com muita pressa e com uma cadência de meses, semanas, dias, segundos, e aquele tempo de recuperação não é esse. É um tempo de meses, de muito tempo, de muita paciência. E ele está a fazer esse caminho. A boa notícia é que ele tem uma evolução fantástica no último mês ao nível da mobilidade e tal, e portanto nós estamos animados no sentido de que ele está a fazer o caminho e não andou para trás.

[06:55] JC: Olha, o que é que tu fazes, o que é que tu tens que fazer, o que é que tu podes partilhar da tua amizade com ele e do que é que tu estás a fazer agora? Porque tu agora tens uma função, tu e os amigos mais próximos que estão ali à volta dele.

[07:11] PR: É só estar. Estar e animar, estar com ele, visitá-lo sempre que se pode. Falamos muito, trazê-lo para a rádio, que é uma coisa que eu sei que é importante para ele, para o equilíbrio emocional dele e para ter algum foco que não apenas aquela batalha em que ele está, uma batalha física e mental. De repente tu abrires uma janela para “anda lá fazer um bocadinho da rádio”…

[07:35] JC: É um ar fresco.

[07:36] PR: É uma coisa importante para ele. Portanto todas as semanas há um direto no Homem Que Mordeu o Cão com ele a partir do hospital. E de vez em quando nós temos, tínhamos um programa que é também um podcast, que é o Pares de Jarras, e fizemos um no Natal e agora por sugestão dele, ele é que me disse: “Ó Pedro, vamos fazer um de São Valentim”. E de repente na era em que nós vivemos também permite fazer isso com outra facilidade. Ele grava uns “takes” para o telefone, nós recebemos os “takes”, melhoramos ali o som, misturamos com os meus e aquilo entra, é mais fácil fazer à distância. E já estamos a perspectivar como é que será na fase seguinte da recuperação dele, como é que o poderemos ter todos os dias no Homem Que Mordeu o Cão. Acho que ele fazer a rádio, eu acho que é mesmo muito importante para ele, como é, sei lá, participar como participa no podcast do Bruno Nogueira, ter essa janela aberta para uma certa normalidade que lhe faz muita falta.

[08:29] JC: Olha, tu estás a liderar uma equipa ao longo dos anos com um talento que é teu, que é descobrir pessoas boas e que crescem, mas que agora se tornaram estrelas. O Markl é um bom exemplo, o Palmeirim é um bom exemplo, enfim, podia fazer aqui uma lista de estrelas. Há egos para gerir?

[08:49] PR: Há sempre egos para gerir, de gente que acabou de chegar quanto mais…

[08:52] JC: A sério? “Olá, eu sou o Jorge o estagiário, como é que é isto, eu sou tão bom, Pedro…”.

[08:56] PR: Mas não imaginas gente que chega e que, sei lá, um ano depois diz como é que é possível não ter sido promovido ainda. Isso também existe. Isto é um negócio de pessoas, de facto. E eu costumo dizer e acredito nisto: tu não consegues ser bom nisto se não tiveres de facto uma certa dose de ego. Porque esse ego tem que te permitir sentir dentro de ti que tens aí qualquer coisa.

[09:22] JC: Tem que haver uma vaidade?

[09:23] PR: Tem que haver, tem que haver uma vaidade, tem que haver aqui uma certa chama, um certo espírito de “Olhem uma coisa que eu sei fazer! Olha aqui isto que eu sou capaz de fazer!”. Porque se não tiveres isso, é difícil também pores a cabeça de fora no meio da paisagem circundante.

[09:37] JC: E o contrário? O excesso de velocidade?

[09:40] PR: O excesso também há muito, mas eu por acaso tive que lidar ao longo da vida e tenho que lidar ao longo da vida com o meu próprio ego e com os meus próprios excessos. Porque muitas vezes nós vivemos aqui numa bolha e quem está dentro da bolha não se apercebe bem de como é que a bolha é vista do lado de fora. E é muito importante nós trabalharmos dentro de nós a capacidade de sair de nós e tentar olhar para nós de fora para ver como é que os outros nos vêem, para perceber as figuras ridículas que fazemos e o quão muitas vezes somos isso, ridículos.

[10:14] JC: Fala-me disso, tu és uma estrela, obviamente, alguém que domina as telefonias nas manhãs da rádio, que é reconhecido em todo o lado. Como é que tu geres essa tua autoestima que por um lado tem que estar insuflada por esse brio, essa “eu sou capaz, eu sou capaz de fazer melhor, mais alto, mais ambicioso que os outros todos”, e para isso é preciso uma energia, ainda por cima ao longo dos anos, e ao mesmo tempo perceberes que, “ó diabo, eu se calhar estou a perder o pé”?

[10:43] PR: Há com certeza n exemplos ao longo da vida de todos nós, quem disser o contrário acho que está a ser demasiado vaidoso e não está a ver bem. Há com certeza ocasiões na vida em que nós perdemos o pé, em que nós damos connosco “pá, a sério?”. Mas eu acho que duas coisas: a idade permite-te descortinar isso melhor do que quando tens 30 anos ou 20. E depois o papel, do ponto de vista técnico da emissão que eu tenho, também me obriga a ter muito os pés no chão porque na minha cabeça está sempre: “Tu és a cola e o teu papel aqui é fazer o mais possível para que toda a gente brilhe”. E portanto isso obriga-me a eu não faço o meu número de circo, eu tenho que é permitir que todos os outros tenham o seu momento e que brilhem.

[11:29] JC: Trabalhas no teu próprio desaparecimento dentro da antena?

[11:32] PR: Muitas vezes eu puxo-me um bocado para trás porque percebo que esse é o meu papel. O meu papel é a cola, é mandar o programa para a frente. É cumprir os tempos. Eu sou a única pessoa na equipa que está preocupada com os tempos. Ninguém está preocupado com os tempos e assim é que tem que ser.

[11:47] JC: A sério? Tens uma grelha?

[11:49] PR: Não tenho uma grelha, mas sei que eu tenho que passar a publicidade às 8:20 e tenho que passar às 8:40 e as notícias têm que entrar mais ou menos ali àquela hora. Eles não estão nada preocupados com isso, eles estão na vida deles e está bem e é assim que deve ser. Mas esse papel também me obriga a mim a ter os pés bem assentes na terra e não levantar voo. De vez em quando tenho os meus momentos também de maluquice porque também fazem parte da matriz do programa, mas o facto de ser a cola e ter de ser o mais, entre aspas, responsável também me põe mais os pés na terra.

[12:24] JC: Tens lá as tuas piadas ribeirinhas que também funcionam sempre, piadas secas das quais…

[12:29] PR: Não sei se funcionam, mas estão lá. É tipo uma praga, erva daninha que aparece de vez em quando.

[12:35] JC: Ficas a pensar sobre isso? E aquilo sai ou…

[12:38] PR: Aquilo sai, aquilo sai. Mas sabes que ao fim destes anos uma coisa que está muito afinada é o papel de cada um, o espaço que cada um tem e não só o espaço de cada um de per si, mas a ligação que há entre todos.

[12:52] JC: Como é que isso funciona? Dá-me lá um exemplo muito concreto. Está toda a gente ali à volta da mesa. Tens o Palmeirim, tens o Vasco, tens agora o César Mourão, o Manuel Cardoso, a Vera Fernandes, tens o Markl, às vezes tens o Ricardo Araújo Pereira, ou todos os outros, o pessoal do trânsito, o Palmira ou a Cláudia Macedo ou a Cláudia Capela, o pessoal das notícias…

[13:16] PR: Aquilo é uma máquina de facto muito oleada. Quem às vezes, quando se vê de fora, às vezes temos lá, sei lá, estudantes de comunicação social, não se chama comunicação social agora, chama-se… não importa, enfim, gente que quer estudar para empregos que estão a morrer. E às vezes quando eles vêm falar connosco e nos chamam a atenção para alguns aspetos é que nós notamos que esses aspetos existem, porque para nós é só mais um dia, é uma coisa natural, é implícito. E eles perguntam: “Como é que a Vera sabe que era a sua vez de entrar?”. E nós temos que explicar: não existe uma vez de entrar. É uma coisa orgânica, a pessoa é de olhar, é de percebermos muito bem os “timings” de cada um, de nos conhecermos muito bem. E portanto, por isso é que eu digo sempre: um programa da manhã leva muito tempo a estar oleado.

[14:02] JC: Porque há ali uma relação de confiança entre as peças, mas depois há uma relação de confiança com os ouvintes, com o auditório. Como é que se cria essa relação? Quando nós hoje falamos muito em empatia, olhar nos olhos, conhecermo-nos e afins, a rádio, a telefonia consegue criar isso de uma forma à distância. Quer dizer, hoje já permite que os ouvintes possam dizer coisas, os WhatsApps desta vida ajudam. Como é que se cria essa proximidade? Como é que eu me sinto quando te estou a ouvir parte daquilo?

[14:34] PR: Sim, lá atrás, quando começámos a fazer manhã já há muitos anos, a nossa preocupação passava muito, falávamos disso imensas vezes, na necessidade de evitar estarmos a fazer o programa para nós. Ou seja, aquilo é feito para os ouvintes. Não é para nós nos divertirmos e estarmos a ter uma conversa como se não tivesse ninguém a ouvir. Não é isso. Nós estamos a ter uma conversa como se estivesse gente a ouvir. Não é uma coisa só nossa no sentido de grupo fechado e depois eles gostarem gostam, se não gostarem não gostam. Não, isto é para um público e nós temos sempre o público na cabeça.

[15:15] PR (cont.): Mas a verdade é que para chegar ao grau de afinação que eu acho que nós temos hoje, foi preciso aprender, foi preciso cometer muitos erros, foi preciso aprendermos até uns dos outros. Eu vou cair sempre no mesmo discurso, sinto que estou sempre a dizer as mesmas coisas, mas não há outra maneira de dizer. Eu acho que aquilo funciona tão bem como funciona porque aquilo é verdade. Ou seja, eu estou sempre a dizer, mesmo a novos locutores e locutoras que vêm para a rádio comercial, eu tenho sempre uma frase que a equipa está farta de ouvir, que é: eu não quero locutores. No sentido de robótico. Não quero o “Bom, cá estamos” e tal. Não quero alguém que tenha o tom de quem está numa cátedra e está a falar para o povo. Por isso, também por isso, é que nós não tratamos os ouvintes por “vocês”.

[16:04] JC: Então como é que falas? Falas “contigo”?

[16:05] PR: A rádio não é para a geral. A rádio é para uma pessoa de cada vez. E por isso falas para uma pessoa. É “consigo”. Não é “malta”, não é “malta”.

[16:15] JC: E é “consigo”, não “contigo”?

[16:17] PR: Não, “contigo” não. Porquê? Porque esta estação é uma estação adulta e porque eu acho que tu quando chegas a casa de alguém, és convidado para um jantar, mal conheces as pessoas, tu não desatas na vida a tratar as pessoas por “tu”. Isso não acontece.

[16:31] JC: É uma questão cultural portanto?

[16:33] PR: É uma questão de educação. É uma questão de respeito pelo “target”. Se nós temos tantos ouvintes de 35, 45, 55, 60 anos, pá, não vou tratá-los por tu. E porquê? Porque me soaria um bocado a velhinho moderno, estás a ver? Eu vou ser muito fixe e moderno agora, o que é que se diz agora? É baril? Hmm. Pá, e isso tira verdade à coisa. Para mim, quem achar o contrário está tudo certo, mas para mim e para a Rádio Comercial o que nós achamos é que deve ser assim e não nos demos mal com isso. Mas é isto, é mesmo importante passar para quem quer perceber o que é a rádio, é que a rádio é para uma pessoa de cada vez.

[17:15] PR (cont.): Mesmo que estejas num carro. Imagina que estás num carro a ouvir uma emissão qualquer, estás a ouvir a Antena 1 num carro. Tens quatro pessoas no carro. A Filomena Crespo está a falar. Ela está a falar para os quatro e tu dizes “Não, isso é a geral”. Não é não. Porque cada pessoa está a receber aquilo à sua maneira. No limite, cada pessoa está a dar uma cara àquela voz e cada pessoa está a reagir internamente ou externamente individualmente àquilo que está a ouvir. E portanto tu diriges-te a uma pessoa de cada vez, mesmo que sejam quatro num carro, é uma de cada vez dentro do carro.

[17:50] JC: Apesar de tudo, depois tu crias uma comunidade porque quando tu enches o Pavilhão Atlântico com um espetáculo de pessoas que cantam mais ou menos bem…

[18:01] PR: Obrigado por isso, mais ou menos, eu tomo como um elogio.

[18:04] JC: Mas tu, há uma sensação de energia… Eu quando estou no Pavilhão Atlântico… tu já viste o In The Night alguma vez? Já foste? Já fui, duas vezes. Então sabes do que é que estamos a falar. Sei. É… bom…

[18:18] PR: Para já, conteúdo que enche um Altice Arena… Repara, só um artista encheu mais vezes o Altice Arena que as manhãs da Comercial, que é o Tony Carreira.

[18:29] JC: Uau. Qual é o segredo, Pedro?

[18:31] PR: O segredo é de facto essa comunidade e essa proximidade que se cria. E isso é um orgulho que levamos para a vida, que é: é conteúdo que nasce na rádio. Não contrataste uns artistas. Aquilo nasceu na rádio. Somos nós a fazer ao vivo o que fazemos no programa. Isso tem um valor extraordinário porque mostra que na era das internets e das redes sociais e do streaming e tal, a rádio enquanto meio mete todos os anos 15 mil pessoas naquele pavilhão que pagam para lá ir. E pagam e saem de lá felizes. Tu olhas para a cara das pessoas, as pessoas estão contentíssimas. Faz parte do ritual de Natal de famílias inteiras, de várias, mais do que uma geração. Isso só é possível porque ali ou numa emissão no exterior, num festival ou o que seja, os ouvintes percebem que nós muitas vezes dizem o melhor elogio que nos fazem: “Pá, vocês são iguais”. Sim. Porque é o que nós somos, não é plástico.

[19:35] JC: Tu há bocadinho estavas a falar da ideia de verdade. O que é que é essa ideia de verdade? Porque mesmo para aqueles que não trabalham na rádio, nos media, esta ideia de verdade pode ser uma ideia interessante, nas organizações, entre as pessoas. O discurso plástico cola um bocado na vida.

[19:54] PR: Sim, há duas coisas. Quando eu digo que é verdade, claro que há uma dimensão de showbiz ali, há um espetáculo, um embrulho. Tu estás a fazer uma coisa de entretenimento. Agora, quando eu digo que aquilo é verdade, é porque nós temos como mantra: se não achares graça não ris, não forças nada. Não forças uma gargalhada, não forças uma reação. Se não gostas dizes que não gostas. Ou seja, porque isso é que confere verdadeiramente personalidade, isso é que confere a diferença entre as pessoas. Nós não vamos concordar em tudo. E no ar até é muito saudável e muito recomendado que não concordem todos com o mesmo, que tenham opiniões diferentes. Isso é que dá riqueza à coisa. O facto de ser verdade é não mascarares nada. Não te armares numa coisa que não és. Não digas que gostas de uma coisa só porque é moda. Podes dizer: “Pá, o filme que toda a gente está a adorar e toda a gente se comove imenso, se foste ao cinema e não achaste graça diz, não tem problema nenhum”.

[20:53] JC: E vais criar lá está pessoas que se vão identificar contigo porque acharam que o filme de facto também não prestava para nada.

[20:58] PR: Porque durante muito tempo eu acho que houve a ideia errada de fazer a rádio muito formatada, um bocado como boy band e girl band, que este é o do desporto, este é o modelo fotográfico, este é o intelectual, este é… e eu achei que a dada altura as rádios também faziam isso.

[21:20] JC: Só me apetece perguntar quem é que na tua equipa é o modelo fotográfico…

[21:24] PR: E ali não há isso. Ali são só pessoas, percebes? E o facto de serem só pessoas é que acho que as aproxima do público que também são só pessoas, não há distância. Há muita gente que vai ao WhatsApp como tu dizes de manhã, mas muita gente.

[21:40] JC: E vai dizendo o quê?

[21:42] PR: E diz “Olá família”. Isso é uma coisa muito poderosa e que te confere enquanto pessoa que está na rádio e que faz parte desta relação que se criou com os ouvintes uma responsabilidade enorme. Que faz com que mais do que as pessoas que nos encontram na rua ou nos eventos ou nos concertos, falamos disso imensas vezes, é muito comovente que são as pessoas que não nos dizem “Pá, parabéns pelo vosso trabalho”, que já é excelente. Só que quando passas essa fronteira e as pessoas em vez de dizerem “parabéns pelo teu trabalho” chegam ao pé de ti e te dizem “obrigado”. Já estamos noutro nível. Isso é outro grau. É “obrigado”.

[22:31] JC: E cobram-te quando acham que alguma coisa…

[22:34] PR: Ah sim, sim, são muito exigentes. Porque lá está, esta ideia de que tu pertences, a ideia de que aquilo também é teu. Tu quando te zangas com alguém da família zangas-te com alguém da família. E geralmente é uma coisa pesada. E se disseres uma coisa que cai mal, eles vão-te cobrar. Mas felizmente, a esmagadora maioria das reações não é essa. É de… e isto não tem a ver com as manhãs da comercial acho eu, tem a ver com a rádio. Acho que isso acontece neste edifício de certeza absoluta, que são as pessoas que te agradecem porque num determinado momento a rádio foi importante nas vidas delas. Acontece, repito, isto é do meio, não é da estação. É uma pessoa que está a ouvir se calhar este podcast e vem ou vai do IPO da vida. E de repente uma coisa que é aqui dita ou simplesmente a distrai ou as diverte ou as inspira ou as faz pensar ou simplesmente faz com que nestes segundos elas não estejam a pensar naquilo que estão a passar.

[23:44] JC: Há uma leveza?

[23:45] PR: De repente há uma importância que a rádio tem na vida das pessoas que advém do facto de ser o mais orgânico dos meios.

[23:55] JC: Isso não é uma responsabilidade pesada?

[23:57] PR: Enorme, enorme. Porque apesar de nós estarmos rodeados de câmaras, elas são só testemunhas porque na verdade o que nós gostamos é deste microfone e da ideia de que estamos a falar ao ouvido das pessoas. Porque a rádio, se tu pensares, ao contrário da televisão, do cinema e de tudo o que veio foi inventado entretanto, isto que nós estamos a fazer aqui é na essência igualzinho àquilo que era no primeiro dia da existência da rádio. Isto são pessoas a falar com pessoas.

[24:34] JC: Qual é o segredo? É esse mesmo?

[24:36] PR: E isso faz com que isto seja absolutamente orgânico. Ou seja, o canal da voz é só uma voz como se nós não tivéssemos microfone e tivéssemos a falar um com o outro. Não depende de realização, da roupa, do cenário, não dependes de nada disso. É só a tua voz. Está-se a funcionar. São pessoas a falar com pessoas. Isso é poderosíssimo. E vê-se no advento dos podcasts. O advento dos podcasts tem a ver com isso. “Eu quero ouvir estas pessoas a conversar”. É só isso. “Dá-me isso que eu quero ouvir. Estas pessoas interessam-me, deixa-me ouvir o que é que elas estão a dizer”.

[25:20] JC: Como é que tu olhas como industrial da comunicação agora, já dando-te aqui um título, como diretor geral mais do que da rádio comercial, do grupo…

[25:32] PR: Eu já não sou diretor da Rádio Comercial, ouviste bem? Deixei de ser diretor da Rádio Comercial a 1 de janeiro, ao fim de 20 anos.

[25:40] JC: Isso é público?

[25:41] PR: É público, é.

[25:42] JC: Então e agora?

[25:43] PR: Eu agora sou uma coisa pomposa que eles inventaram, chamada VP Content. Que é o quê? É alguém que está responsável pelo conteúdo das estações todas, os podcasts, os vídeos, os eventos. Tem uma visão ampla sobre o portfólio da Bauer, portanto Rádio Comercial, M80, Cidade FM, Batida, Smooth. E portanto há os diretores de estação e depois todos esses diretores de estação eu trabalho com eles e eles comigo. E portanto tive que deixar de ser diretor da rádio comercial ao fim de 20 anos. É um bocado…

[26:15] JC: E a tua vida agora é fazer PowerPoints e fazer discursos em inglês?

[26:18] PR: Não, não, também tem isso. Também tem muito isso. Mas é olhar para o conteúdo das estações todas, ajudar naquilo que eu posso ajudar a pensar no que podemos melhorar, o que podemos dar de melhor também nos eventos, nas redes sociais, mas com uma perspectiva mais ampla e não só da Rádio Comercial.

[26:38] JC: E como é que tu vês aqui o futuro? Estamos num ambiente lá está multimédia onde se mistura a rádio com a televisão com o vídeo com a internet. Manifestamente alguém disse que a rádio morreu, se calhar cá estamos, se calhar dizer que a televisão morreu também pode ser manifestamente exagerado. O que é que vem aí? O que é que nós podemos vislumbrar sobre a maneira como podemos consumir conteúdos que hoje em dia as pessoas acham que são de borla, que não merecem ser pagos porque afinal está tudo gratuitamente na internet? Não percebendo que aqueles conteúdos vêm de um sítio qualquer.

[27:18] PR: E que alguém pensou neles e alguém tem que ser recompensado pelo trabalho que aquilo deu, além da questão da propriedade intelectual das coisas que aquilo não é do ar, não é de uma cloud, aquilo tem um… não vem do Facebook o conteúdo. Eu acho que a rádio tem um desafio gigante nesta altura e que isso sim é uma missão de sobrevivência aquela em que nós estamos. Como é que se paga a conta? Acho que essa é a pergunta.

[27:46] PR (cont.): Acho é que a rádio já mostrou uma resiliência e uma capacidade de resistir… Eu lembro-me de “Aí vem a internet, a rádio vai morrer”. E a rádio o que fez, com a agilidade que tem e com o jogo de cintura que tem, foi pegar nessa coisa apresentada como uma ameaça e transformá-la numa oportunidade de ir buscar mais gente, mais ouvintes. Toda a gente concorre com toda a gente. Uma estação do interior do país, local, de uma aldeia, pode ser ouvida em Lisboa ou no Porto ou em Banguecoque. E isso foi a internet que deu, portanto a rádio aproveitou para crescer.

[28:24] PR (cont.): Só que agora a rádio perdeu uma coisa fundamental, que é: deixou de ser o maior curador de música. Porque agora as plataformas de streaming fazem esse papel usando de armas que a rádio desconhecia como o algoritmo. Que é fornecer às pessoas, perceber o que é que as pessoas gostam e querem para lhes dar a escolher aquilo. Só que o algoritmo dá-te sempre mais do mesmo e torna-se muito aborrecido. E a rádio tem que ter a capacidade de te abrir a cabeça para “eu sei que gostas disto, olha aqui isto ao lado”. Mas é uma luta desigual porque estás a lutar com as Big Techs que têm recursos que a rádio não tem e têm informação, não é? Têm data permanentemente. O que eles não têm, e eu acho que eles adoravam ter, são as personalidades da rádio e aquilo que falávamos há bocadinho que é o tipo de relação que a rádio consegue com os seus ouvintes.

[29:21] JC: Porque isso não é comprável?

[29:23] PR: Isso tu não consegues pôr uma máquina a fazer. Mesmo que repliques a voz. Os podcasts de inteligência artificial são uma coisa aborrecidíssima. Tu só tens o Nuno Markl. Não vais replicá-lo porque há características humanas que fazem do Nuno o que o Nuno é. Ou o Vasco ou quem quer que seja. A rádio vai depender muito das personalidades e da maneira como as personalidades consigam garantir uma relação com o auditório, uma relação humana com o auditório.

[29:56] JC: Olha, tu quando tens que escolher lá está fazer essa curadoria, que música é que eu vou pôr no ar ou que não vou pôr no ar, segues que critérios? Vais pelo gosto geral? Vais pelo teu gosto? Debates isto com a tribo da música?

[30:13] PR: Há uma tribo de música e há conhecimento acumulado de anos e anos. Há testes que nós fazemos ciclicamente à música. A música é testada com ouvintes.

[30:23] JC: Com ouvintes? A sério?

[30:25] PR: A música é testada com ouvintes. Não nasce do “ah, o Pedro Ribeiro acha que deve tocar”. Não é isso. “O senhor diretor tem aqui esta ideia e gosta muito deste álbum”. Isso também existe. Pá, há um álbum novo que sai e eu digo “pá, isto é muito fixe, eu acho que isto pode funcionar para o nosso público”. Nós pomos a tocar e daí a um certo tempo nós testamos. Umas tu acertas, outras tu não acertas. E acontece de tudo, que é toda a gente da rádio pôr todas as fichas naquela música “isto vai dar de certeza” e depois o público diz que não. Ou outras que tu dizes “pá, não sei se isto vai dar”, depois tocas e afinal é uma coisa gigante. E portanto a música, há muito de ciência nisto, mas isto parte sempre de instinto das pessoas que fazem a rádio. Escolhemos a música e depois testamos.

[31:18] JC: É uma intuição?

[31:20] PR: Há muito de intuição nisto, claro, e há muito erro. Há muita música que ou nos surpreende pela positiva ou pela negativa naquilo que é a reação do público à música. Isso também faz parte do desafio. Agora, com os anos que nós já temos e com os resultados que a estação tem, vais aprendendo o que é que o teu público-alvo gosta mais ou gosta menos, e portanto há uma certa segurança também e uma certa baliza dentro das coisas que tu escolhes pôr a tocar. Mas por exemplo, vou-te dar um exemplo muito prático: nós tocamos hoje na Rádio Comercial muito mais hip-hop do que jamais tocámos. Se me dissessem há cinco anos que a Rádio Comercial ia tocar Dillaz, Slow J, Piruka, Bispo…

[32:05] JC: Eu descobri essa gente com o meu filho de 16 anos…

[32:07] PR: Van Zee, Papillon… eu diria “mas vai mudar de formato?”. Não. O que há é uma noção de que o gosto geral também mudou, de que há música nova a chegar e de que há outros géneros ou outros artistas que entretanto foram passar a ser menos apreciados pelo auditório e a estação vai flutuando também de acordo com a maneira como o gosto vai evoluindo. Sem problema nenhum.

[32:32] JC: Do que é que gostamos nós? Quer dizer, eu se pensar artistas portugueses, há determinados artistas que são orelhudos. Eu oiço três acordes, oiço um bocadinho de voz deles e digo assim “ok, eu gosto disto”. Ponto final. Aquilo está, posso ir de Jorge Palma a Quim Barreiros se quisermos, de uma forma muito radical. O que é que estabelece o nosso gosto?

[32:55] PR: Na verdade não sei. Porque muitas vezes na indústria da música temos muitas conversas dessas com artistas, com agentes, a perguntarem “qual é a fórmula?”. E a fórmula não existe. As pessoas gostam ou não gostam. Não há, “se eu fizer assim ou assado…”. Há é às vezes a ideia de que, pá, vais pôr um solo de guitarra de dois minutos nessa música, é difícil que as pessoas aguentem. Nós temos que ganhar os ouvintes a três minutos de cada vez. Sim, isso existe. Se calhar reduzias aí o solo porque há boa possibilidade da malta ir ver o que é que está a dar do outro lado. E isso é tudo o que nós não queremos. Se quiseres, se não quiseres vai assim também e depois logo vemos. Mas essa é o limite a que vamos. E eu não sinto que isso seja violar a obra do artista. Somos nós a dizer “pá, nós achamos que isto é mais eficaz para ir buscar mais gente se for assim”. Mas não é um deal breaker, ou seja, não queres ir assim, queres manter tal qual está, queres a mix de seis minutos? Pá, não vamos tocar uma música de seis minutos na Rádio Comercial.

[34:03] JC: Porque não há tempo para isso?

[34:05] PR: Não há tempo para isso. Seis minutos são duas músicas, às vezes três. Essa é outra coisa. A música antiga, até ao final dos anos 90, tinha uma duração padrão e agora tem outra. Nós temos singles que tocamos que têm 1 minuto e 59.

[34:20] JC: Portanto estamos a acelerar o tempo no fundo.

[34:23] PR: Como o tempo à nossa volta acelerou. É como a taxa de permanência das pessoas a ver os vídeos que nós publicamos. Aquilo é muito chocante. É média: aguentam seis segundos. Despacha-te.

[34:40] JC: Sabes que eu tive uma lição da minha vida quando estava a conduzir e a falar com uma pessoa das multimédias desta vida e com o meu filho Martinho ao lado, e essa pessoa estava a dizer-me “Pá, por que é que não pões os clips aqui do Pergunta Simples no TikTok?”. Estávamos a debater aquilo, uma conversa de velho na realidade era o que estava a acontecer. Eu desliguei a chamada e o meu filho disse rapidamente “Não vai funcionar”. E eu disse “Mas não vai funcionar como?”. “Isto não tem interesse em três segundos”. E eu disse obrigado, pomos a viola no saco e…

[35:10] PR: É difícil, um grande desafio. Mas isso não quer dizer, lá está, isso não quer dizer que tu faças tudo para formatos que têm uma retenção de atenção de 10 segundos ou de cinco. Podes tentar alargar o leque. Quando nós todos os anos fazemos uma homenagem a um nome grande da música portuguesa e é uma coisa de grande fôlego…

[35:36] JC: Carlos do Carmo ficou-me na memória fabuloso.

[35:39] PR (cont.): Carlos do Carmo, Jorge Palma, Sérgio Godinho, GNR, Sétima Legião, Rui Veloso. Quando fazes um vídeo daqueles que é uma coisa pá, de que nós temos muito orgulho naquilo, é o papel também da estação e que vai para lá do seu formato musical. Mas aquilo é profundamente emocional. É a nossa homenagem enquanto rádio número um do país, mesmo que sejam artistas que por formato musical nem aumentam tocam na estação. Mas isso não interessa. O que interessa é que a estação é maior que o seu formato. E portanto cria aqueles vídeos que são de grande fôlego, independentemente de saber que a maior parte da malta vai ver uns segundos.

[36:18] JC: O Pedro Ribeiro racional, pensador, homem dos conteúdos, é outra coisa quando se senta na bancada do teu clube de futebol, o Benfica.

[36:28] PR: Sou no sentido de que sou emocional. Mas tenho limites muito bem traçados. Aliás vimos de uma semana negra em que eu vi acontecerem coisas na bancada que eu não, apesar de saber que vivemos tempos em que toda a gente acha que tudo é permitido e não há limites para a má educação e para, enfim… vi coisas na bancada esta semana que eu pensei que não fosse ver. Que me levaram a pensar: eu quero fazer parte disto? Porque de repente já se perdeu não sei, acho que nós vivemos tempos mesmo muito complicados. E o futebol que tem essa coisa tribal e parece normal… parece normal tu no futebol dizeres umas asneiradas e refilares com o treinador e “mete este e mete aquele”, e o árbitro “como é que é possível pá, ladrão!”. Isso… mas há um limite a partir do qual já é outra coisa. Já não tem a ver com futebol.

[37:34] JC: Perdeu-se a humanidade, a fronteira de humanidade nesta conversa?

[37:38] PR: E a noção. Acho que a noção daquilo que é a fronteira mínima da civilidade. Acho que estamos num ponto em que dei comigo a olhar para o lado e duas filas atrás de mim está um senhor que tem seguramente mais de 80 anos e que nós conhecemos ali da bancada há mais de 20 anos que temos lugar ali. E o homem é um doce sempre. É um, toda a gente o cumprimenta quando chega à bancada, pá é um amor o senhor. Pá eu vi o senhor aos gritos com as veias do pescoço a sair a dizer coisas neste jogo especificamente que eu pensei “como é que este senhor, que tem filhos e netos e até hoje foi um amor de pessoa, está aqui a insultar alguém desta maneira?”. Não é o árbitro é ladrão, não é isso. Já é um, está a fazer urros. Está com comportamentos completamente animalescos.

[38:40] JC: Consegues compreender? Estamos a falar do jogo Benfica-Real Madrid já agora. Sim. O que é que aconteceu no fundo? O que é que estamos a fazer todos?

[38:48] PR: Algo que nós devíamos todos reflectir, os clubes por maioria de razão e os seus agentes deviam todos reflectir no papel que têm que ter para dar o exemplo às massas. E temos todos que ter uma grande reflexão ou ainda hoje vinha para aqui, vinha a ouvir, pá houve um jogo de futsal entre o Benfica e o Sporting e houve uma batalha campal. “Mas espera aí, como é que chegámos aqui? Como é que isto aconteceu?”. Portanto quando perguntas como é que eu sou na bancada, claro que refilo e digo asneiras, mas há um ponto a partir do qual aquilo se torna fisicamente incomodativo.

[39:27] JC: Isto é reversível? Eu estou a olhar para a tensão, já nem sequer olhando para a alta competição. Quando eu vejo os jogos de miúdos de 10 anos, 12 anos em que os pais na bancada quase andam à pancada…

[39:41] PR: Sim, sim. E dizem aos filhos para bater nos adversários e para bater no árbitro. Que é uma coisa chocante, não é? Mas tu reparas, tu tens o presidente da maior nação do mundo a colocar nas redes sociais um vídeo em que o seu antecessor é apresentado como um macaco. Portanto isto não é só do futebol. Isto é o estado a que chegámos. Isto é… eu não sei, eu nunca pensei, é uma lição de história de facto. Eu nunca pensei que em 2026 o mundo estivesse como está. Já não estou a falar da política, estou a falar dos costumes. Estou a falar da linguagem que se usa, da maneira como se trata o adversário. Da indelicadeza ou da falta dela neste caso. Não existe.

[40:34] PR (cont.): Ao mesmo tempo que nunca se falou tanto de empatia, nunca houve tão pouca. Se calhar temos que falar dela por causa disso, não é? E portanto não consegues, agora nas presidenciais falou-se muito das notáveis presidenciais de 86. Mas é que tu não consegues ao dia de hoje ter um debate como tinham o Freitas e o Soares em 86, por muito duro que tenha sido, e houve coisas muito duras. Houve patifarias que foram feitas em debates e coisas que foram ditas que são… mas há uma fronteira que não se passava. E tu conseguias discutir com o adversário sem o tratar como inimigo. E hoje em dia tu não, há famílias onde as pessoas se zangaram por causa da política nos últimos anos porque não dá para não há pontos de debate.

[41:31] JC: Eu lembro-me sempre da discussão que era “não se fala de política à mesa”, muito no resquícios do pós-25 de abril de que não se falava. Mas essa polarização, lá está, essa polarização gera a tensão, essa tensão leva a que o algoritmo adora isso, não é?

[41:48] PR: O algoritmo… ficamos lá mais tempo. Tu se puseres gatinhos no algoritmo ele despreza-te. Mas se puseres lá expressões que incitem ao ódio, à discussão, a soberba, a excesso, tudo o que seja excesso, tudo o que seja tragédia, tudo o que seja levado ao extremo põe o algoritmo em ácidos e portanto vive disso.

[42:12] JC: A nossa natureza. E dá-te mais do mesmo. Alimenta preconceitos.

[42:17] PR: Porque há mais gente que lá está e o algoritmo percebe “ah, esta pessoa gosta disto”. Então só te dá pessoas que pensam como tu pensas. Não te dá o contraditório. Isso é completamente asfixiante. Eu estava a pensar, estava a ouvir-te agora, eu tinha colocado um clipe da conversa com a Inês Lopes Gonçalves em que ela diz uma coisa interessante sobre a relação com o mundo digital e podermos ficar em casa basicamente sem falar com ninguém, a comida chega e ninguém fala com ninguém. E o pedaço de “trend” de comentários, há centenas de comentários, mas há lá uma pessoa que diz “pois, mas eu não gosto é do teu cabelo”. E então há para aí 15 comentários não sobre o tópico, não sobre o que estamos a falar, não sobre a ideia inteligente, mas porque alguém se lembrou de dizer uma atoarda.

[43:08] PR (cont.): Isso é muito fácil, é da vida. É, sabes quando se dizia que quando uma coisa fica escrita… não é escrita em pedra, mas ganha existência, ganha capilaridade como se diz agora. Mas a questão aqui para mim é: também temos que ter a noção de que, sei lá, quando temos muitas vezes essa conversa lá por causa das redes sociais. Tu vais na rua, chateias-te no trânsito. É um tipo qualquer que te manda à merda num sinal qualquer ou porque tu não puseste pisca, uma coisa qualquer. Apitas, bracejas. Dura três segundos. E cinco segundos depois tu vais na tua vida, ele vai na dele e não… mas se ele numa rede social te mandar à merda, disser a mesma coisa, fica lá escrito. E a seguir àquele vêm mais não sei quantos. Portanto eu acho que nós também temos que nos temos que dar a devida importância àquilo porque aquilo não é a vida. Percebes o que eu digo? Aquilo não é a vida. Aquilo é só o que é. E portanto não hiper-valorizes o mau e o bom. Não hiper-valorizes aquilo porque aquilo é só o que é. É só gente que mandou uma boca.

[44:17] JC: Como é que é a tua relação com as redes?

[44:19] PR: É essa. Aprendi ao longo dos anos a não valorizar demasiado. Vês e desligas. Vais-te embora e não… a maior parte das vezes nem vejo os comentários todos porque pronto, não… eu respondo àqueles que me parecem que merece a pena responder, outros às tantas olho para a paisagem e penso “pronto, cá estão os do costume, pronto, é o que é”. E não vais.

[44:42] JC: Não vais. Olha, não quero sair do futebol porque o futebol tem essa coisa extraordinária. Tu tens um podcast, ainda tens no ar o podcast sobre o futebol?

[44:53] PR: Tenho um podcast de futebol com o Pedro Henriques e o Pedro Barbosa.

[44:56] JC: Que é uma bênção.

[44:57] PR: E tenho outro que se chama O Meu Clube é o Maior, em que recebo adeptos que vêm explicar por que é que o clube deles é o maior.

[45:06] JC: E são fervorosos?

[45:08] PR: Pá, tem sido maravilhoso porque sei lá, esta semana o episódio é com o Rui Reininho. Que me vem explicar por que é que o Futebol Clube do Porto é o maior. E vem-me recordar Kelvin. Meu Deus. Pausa dramática. Golo minuto 97 que deu um campeonato ao FCP em frente ao Benfica e Jesus ajoelha. Uma dor até hoje.

[45:34] JC: Até hoje? Tu não ultrapassas isso?

[45:36] PR: Não. Noutro dia revi, apareceu-me esse vídeo à frente e pá, a dor é para sempre. E depois tenho o, sei lá, tive a semana passada o Júlio Isidro a dizer uma coisa notável. Estávamos a falar do Estádio de Alvalade e das memórias do estádio antigo e ele: “Atenção. Quando comecei a ver futebol”, dizia o grande Júlio Isidro, “o Sporting jogava no Campo Grande”. Ele viu, com o, ia com o avô ao futebol, ele não ouviu falar, ele viu os Cinco Violinos a jogar. Uau. Quando tens uma pessoa à frente que tem essa bagagem de memória, estar a falar com ele é indiferente de que clube é. Se tu gostas de futebol tu estás a beber o que ele está a contar.

[46:25] JC: É a beleza do jogo no fundo, não é? E da ligação emocional única de facto que tu tens a um clube de futebol. Porque não tem comparação com mais nada, nem a partidos políticos nem… é uma coisa tão irracional. Qual é o segredo da coisa? Tu és do Benfica porquê?

[46:44] PR: Pois não sei. Pois não sei. Não me imagino a ser outra coisa. Mas não há, a relação com um clube é uma relação de amor e portanto tu não tens forma muito racional de explicar. É o que é. Por que é que há tantos adeptos de clubes que não ganham nada? Não é porque… quer dizer, se estás à espera de ganhar coisas para ser adepto de um clube também estás feito. Mas há ali uma coisa qualquer que desperta em ti e que fica para a vida toda, não mudas de clube, não é? Fica para sempre. Eu não sei por que é que sou do Benfica, mas ainda bem que sou.

[47:19] JC (cont.): Olha, e este fenómeno recente, já passou aqui pelo podcast e foi uma conversa maravilhosa, Cândido Costa. Que é um jogador de futebol que tem uma carreira profissional, mas não é uma carreira profissional de topo de selecção nacional, passou no Porto, passou no Belenenses obviamente. Mas que subitamente o descobrimos como um entertainer, como um homem de televisão, como um homem de rádio. O que é que é aquilo?

[47:50] PR: Pá, é o maior. Mas sabes uma coisa? Tem a ver com aquilo que dizia há bocado: é porque é verdade. É porque é verdade. Ele é aquilo. Não inventou uma personagem. Ele é aquilo. E as pessoas notam isso, não é? A autenticidade e a verdade que está em tudo o que ele faz. Claro que ele tem a técnica de comunicação que foi desenvolvendo, com certeza que sim, mas a essência está lá. Ele é aquela pessoa. E é extraordinário. É um exemplo de alguém que lá está, que se reinventa enquanto atividade profissional e que ganha uma dimensão absolutamente inesperada mas amplamente merecida. Pá, eu adoro o Cândido, acho que ele é um talento extraordinário e além de um talento extraordinário é, e é cada vez mais raro, é um grande talento e é um ser humano incrível.

[48:42] JC: É um fenómeno de amor coletivo que está a acontecer.

[48:44] PR: Eu acho que sim, eu acho que ele é o… pá não vejo ninguém que diga “pá não gosto do Cândido Costa”. Acho difícil não gostar dele. Porque lá está, ele tem graça, ele tem uma capacidade que é “eu sei qual é o fim da história que ele vai contar porque eu já ouvi aquela história”, mas ele é isso, ele é um contador de histórias extraordinário. E eu acho aquilo extraordinário. Ele a imitar o Jorge Jesus… quando vi a primeira vez aquele programa que ele tinha no 11 com o Carraça e com o Toni, o Sagrado Balneário, eu pensei “pá, isto é ouro”. Pá, Cândido Costa, encontrou-se aqui alguém que não é comparável com mais ninguém, não tem sucedâneos, não tem… é isto, é este rapaz. Vê-lo no Taskmaster, vê-lo… pá ele é espetacular. Gosto muito dele.

[49:36] JC: Há uma vibração ali. Há uma vibração ali muito especial que tem a ver com a proximidade de novo, a proximidade. Tu se vais na rua, mesmo que não conheças o Cândido, o teu impulso é ir lá dar-lhe um abraço. E isso é absolutamente extraordinário. Isso é raríssimo. Olha, histórias. Boas histórias, como é que se conta uma boa história?

[50:03] PR: Pá não sei, se calhar não sou o melhor contador de histórias.

[50:07] JC: Achas que não és? Se perguntar ao Cândido e ao Markl que conta muito bem histórias…

[50:11] PR: Não sei se sou um grande contador de histórias na verdade. Mas pá, se for uma coisa genuína, acho que tem muito mais hipótese de captar a atenção do que se estiveres a armar ao pingarelho.

[50:23] JC: A televisão nunca te apaixonou a sério?

[50:26] PR: Não quando comparas com a rádio. Não estão sequer no mesmo… porque a rádio é uma coisa que me corre nas veias, eu sou da rádio, não é? E portanto eu divirto-me muito mais a fazer rádio, acho que tenho muito mais jeito para fazer rádio do que para fazer televisão e porque a dada altura da minha vida tive que fazer ali uma escolha e não houve hesitação nenhuma e escolhi fazer mais rádio do que televisão. Mas eu gosto de fazer televisão também, acho que e fui aprendendo acho eu a fazer melhor ao longo dos anos. Mas a rádio é outra coisa. A rádio é outra coisa.

[51:10] JC: Como é que alguém se levanta às 5 da manhã todos os dias há 30 anos? Só custam os primeiros 20.

[51:19] PR (cont.): Estou a pensar nos recentes temporais. Como é que tu acordas e dizes “ok, eu agora tenho que ir para a telefonia”. Mas aí nos temporais é, há uma motivação extra, não é? É no sentido de tu tens uma missão. Porque rádio também é serviço. Tu não podes falhar às pessoas. Sobretudo as pessoas que ficaram sem eletricidade e só têm o rádio a pilhas, não lhes podes falhar. Tens que estar com elas, tens que as pôr a falar umas com as outras e de repente no meio de uma rádio musical de repente tivemos manhãs com diretos com presidentes da câmara, com a proteção civil, com bombeiros. Tens esse papel, tens que as acompanhar.

[52:05] JC: Mas não é o formato pois não? Tu reformataste…

[52:07] PR: Não é o formato mas é o que está a acontecer. E a rádio tem que a rádio tem que ter relação permanente com a vida das pessoas. Se há uma desgraça, se há e se as pessoas estão em dificuldade a rádio tem que ir ao encontro delas. Não há outra hipótese, tem que servir aquelas pessoas. Tem que ter essa noção de serviço permanentemente em tudo o que faz. E portanto se nessa altura é preciso isso, é passar menos três músicas, claro que é passar menos três músicas. E vamos ouvir mais pessoas.

[52:40] JC: Olha, para alguém da rádio, do som, da música, do ruído, de tudo isto que acontece, o silêncio. Como é que tu lidas com o silêncio? O momento em que tu terminaste o teu dia, em que tu vais no carro para casa, não sei se vais ouvir alguma coisa ou se há momentos em que desligas tudo e vais simplesmente ouvir…

[53:06] PR: Há muitas vezes de manhã quando saio de casa que vou até à rádio não oiço nada.

[53:10] JC: Em silêncio?

[53:11] PR: Silêncio. Ao fim do dia oiço sempre qualquer coisa. Nem que seja um podcast ou música só. Oiço menos rádio no regresso a casa. Estou cansado, já ouvi muita rádio o dia todo, quero respirar também e ter o meu momento, ouvir a minha música, etc. Muito podcast. Mas o silêncio é curioso falas disso do silêncio porque Mestre Rui Pêgo, meu primeiro diretor e um dos mestres deste ofício, explicou-me uma vez uma coisa que eu depois explico às gerações mais novas com quem trabalho, que é: a coisa mais poderosa da rádio é o silêncio. Se tu na rádio fizeres silêncio… não há nada de mais poderoso para chamar a atenção. Se tu te calares uns segundos. Deixa lá ver o que é que aconteceu.

[54:02] PR (cont.): Estás a ver? Quem estava a ouvir o podcast durante aqui um segundo levantou a sobrancelha “Oi, o que é que aconteceu?”. O megafone maior da rádio é o silêncio. Isso é muito curioso.

[54:14] JC: Ainda continuas a tocar vinis em casa?

[54:16] PR: Sim, sim, cada vez mais estou maluco com isso. Minha mulher ofereceu-me aqui há uns anos um gira-discos, há dois ou três anos, e arrependeu-se depois da coleção. Pá estou maluco porque como eu aprendi a ouvir música com o vinil, pá eu acho mesmo que aquilo tem um som diferente. Aquilo é outra coisa. É muito mais é menos compactado o som, é muito mais orgânico. Pá pegar no disco, a capa grande, ler os agradecimentos, pôr a agulha, a coisa mecânica… adoro isso. Agora quando fiz anos os meus filhos mais velhos ofereceram-me aquele lendário disco dos Fleetwood Mac ao vivo, pá e eu ponho aquilo a tocar agora todos os dias como se o disco tivesse saído agora. Como quando éramos crianças e tínhamos o disco novo e ouvias aquilo vezes sem conta até ganhar areia. Pá o vinil deu-me isso de volta.

[55:10] JC: Senhor Rádio, muito obrigado.

[55:13] PR: Tomo isso como um elogio.

[55:15] JC: Tu és o Senhor Rádio. Quer dizer, não vale falar só do António Sala e do Júlio Isidro.

[55:20] PR: Grandes mestres pá, grandes mestres. É importante. Obrigado por teres vindo. Muito obrigado, foi um gosto.

[55:27] Locução de Encerramento: Há uma coisa curiosa sobre a rádio. Mesmo quando está a falar para milhares de pessoas, a sensação continua a ser sempre a mesma: alguém está a falar connosco. Talvez seja por isso que a rádio continua a fazer companhia a tanta gente. No carro, na cozinha, num dia difícil ou simplesmente numa manhã igual a tantas outras. Ao longo desta conversa, Pedro Ribeiro falou da rádio, de equipas, de autenticidade e de vozes que se tornam familiares. Vozes como as de Nuno Markl, Vasco Palmeirim, Vera Fernandes, que todos os dias entram na vida de milhares de ouvintes. Nas outras rádios também, nas outras telefonias. São pessoas que nós conhecemos, pessoas lá de casa. No fundo, tudo regressa à mesma ideia simples de sempre: a rádio nunca foi apenas um meio, é uma relação. Pessoas a falar com pessoas.

[56:32] Locução (cont.): Antes de terminar, um pequeno pedido. Se gosta destas conversas do Pergunta Simples, carregue em “seguir” ou “subscrever” na aplicação onde está a ouvir neste momento. Assim não perde nenhum episódio e ajuda este podcast a chegar a mais pessoas. É gratuito, demora apenas um segundo e faz mesmo a diferença. Obrigado por estarem desse lado e até à próxima semana.

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