Para que serve o humor quando a vida dói? Eduardo Madeira

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Para que serve o humor quando a vida dói? Eduardo Madeira
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Seis segundos. Não mais. É o tempo que um comediante pode dar ao público para recuperar depois de um momento pesado. Dois segundos a mais e o ritmo morre. Dois segundos a mais e as pessoas ficam sozinhas com o peso, sem quem as puxe de volta. Eduardo Madeira sabe isto de cor. Conta-o com a precisão de quem calibrou a medida ao longo de noites inúmeras, e há qualquer coisa nessa exatidão, nessa diferença de dois segundos entre o que funciona e o que desaba, que revela mais sobre a comédia do que muita teoria consegue.

O humor é uma técnica. Mas não é só isso. É também uma língua, com a sua gramática própria, os seus ritmos, os seus silêncios obrigatórios. Uma língua que se fala, como todas as outras, com mais fluência do que se explica. E que serve, entre outras coisas, para dizer o que não cabe em mais nenhuma outra forma de expressão.

Eduardo Madeira passou anos a escrever falas para outros. Argumentista, depois ator por insistência alheia, depois comediante em palco. Aos cinquenta anos, decidiu contar as histórias verdadeiras. As que envolvem pessoas reais. As que têm peso. O espetáculo chama-se “Grande Entre os Assassinos” e é dedicado ao irmão que morreu. Na noite da estreia, o pai faleceu. No segundo espetáculo, já eram dois.

Há um paradoxo no centro disto. Contar histórias de morte num espetáculo de comédia não é provocação, nem é cinismo. É, como Eduardo define, uma forma de desafio. “Quando te ris da morte, estás a desafiá-la. Estás a dizer-lhe que ela não te paralisa.” O riso como resposta ao medo mais fundo. Não a resposta que anula o medo, mas a que recusa ser anulada por ele. Ficamos de pé, ainda que só por seis segundos de pausa calculada.

Há uma tradição longa nisto. Os gregos perceberam cedo que a tragédia e a comédia eram vizinhas, não opostas. Aristóteles dizia que a comédia imita os homens piores do que são, a tragédia imita-os melhores. Mas no fundo as duas lidam com o mesmo material: a falibilidade humana, o limite, a perda. A diferença está apenas na distância que se põe entre quem olha e o que se vê. E o comediante, ao contrário do que parece, é quem põe menos distância. É quem se aproxima mais. Eduardo chama-lhes ornitólogos, os comediantes. “Somos ornitólogos das pessoas e do comportamento humano.” Observam. Catalogam. Encontram o gancho, o tique, o padrão que identifica alguém antes de ele próprio se reconhecer. E depois exageram, como na caricatura, até ao ponto em que a essência fica exposta.

Mas a observação tem um preço. Quem passa a vida a ver os outros acaba por ver-se também, com a mesma frieza clínica. Eduardo fala da persona pública que construiu, do Eduardo que as pessoas conhecem, e distingue-o do Eduardo que só o Eduardo conhece. “Tudo o resto és tu a funcionar perante o outro.” A frase é dita com leveza, mas tem dentro dela algo perturbante: a ideia de que a maior parte do que comunicamos não somos nós, é a versão de nós que o outro consegue suportar. A persona não é mentira, é negociação.

Há aqui uma questão de comunicação que raramente se nomeia. O que dizemos ao outro é sempre uma versão editada de nós próprios. A edição pode ser conscienciosa ou instintiva, mais ou menos honesta, mais ou menos corajosa. O que muda com a idade, ou com certas perdas, é a disposição para editar menos. Eduardo esperou doze anos para contar as suas histórias verdadeiras. Não por falta de material. Por excesso de prudência. E quando finalmente escreveu, escreveu de forma torrencial. Como se o que estava represado não precisasse de mais força, precisava apenas de espaço.

A cisterna é uma imagem que ele usa para o que ainda não saiu. Admite, quase de passagem, que está prestes a encher. Que há perdas acumuladas, mortos, problemas não nomeados, e que algures, em algum momento, vai ter de fazer a limpeza. Os homens portugueses têm uma relação particular com este tipo de acumulação. A cultura ensinou-lhes que mostrar emoções era fraqueza, e o humor tornou-se, ao longo de gerações, o único canal autorizado para as deixar escapar. A piada sobre a situação grave. O riso antes do abraço. O comentário que desvia antes de chegar demasiado perto. É um kit de sobrevivência, diz Eduardo. E também é uma prisão com as paredes almofadadas.

Mas este kit está em risco. Não porque os homens aprenderam a chorar mais, mas porque a ironia, que é a ferramenta mais sofisticada do humor, está a perder-se. Eduardo fala de piadas sobre racismo que são confundidas com racismo. Da dificuldade crescente em distinguir a representação da posição. Do momento mais perigoso de todos: aquele em que o comediante hesita antes de dizer a piada inconveniente. “Isso é o pior que pode haver.” A autocensura não é apenas uma questão política. É uma questão de linguagem. Quando se retira à comédia a capacidade de dizer o que não se pode dizer a direito, retira-se-lhe a função mais séria que tem. Fica o entretenimento. Perde-se o diagnóstico.

No final da conversa, Eduardo conta que recebeu um telefonema com uma notícia que não devia ter graça. Riu dez minutos. A chorar. Sem conseguir parar. “Não me devia estar a rir disto. E agora? Já está.” E acrescenta que até ao último suspiro, o cérebro vai estar a procurar o que tem graça na sala onde estiver. No quarto de hospital, se for preciso. Na enfermeira mais triste do corredor.

Comecei com uma pergunta: para que serve o humor quando a vida dói? Talvez para isto: para que haja sempre alguém na sala a procurar a saída. Mesmo quando a sala é um quarto de hospital. Mesmo quando a notícia não devia ter graça.

Especialmente então.

A conversa completa com Eduardo Madeira está disponível no Pergunta Simples.

Ler transcrição completa

Eduardo Madeira
00:00
Quando tu te rires da morte, estás a desafiá-la quase. Estás a dizer-lhe que ela não te paralisa, não te deixa num sítio amedrontado. Ou seja, é quase estares a enfrentar o teu maior medo, a rir.

Jorge Correia
00:26
Pergunta simples. Um programa sobre comunicação. Para quem quer boas respostas.

Eduardo Madeira
00:37
Sou um artista. Sou um artista, um comediante, que gosta de fazer comédia, de expressar através da comédia, que descobriu a certa altura, começou por escrever, mas descobriu a certa altura que podia fazer comédia de qualquer forma, Inclusive como ator Portanto, tudo na minha vida é um bocado por acidente A parte da ator foi totalmente inesperada Quando começo a ver os grandes atores a dizerem-me Que eu tinha que ser a fazer certos papéis Porque era o que fazia melhor Tiraram-te a pinta? Tiraram-me a pinta Eu acho que eles começaram a olhar para mim e disseram O que é que te descobre? Olha, eu acho que começa ainda nas produções fictícias quando eu li os textos para certos atores eles começaram a dizer mas tu fazes isto melhor que nós e eu achava que era só uma brincadeira e entretanto eu começo mesmo a participar em coisas como ator cada vez mais e há um período em que a minha parte de autor fica ao contrário, fica residual eu passo a ser praticamente um ator de comédia mas também autor sempre e também performer ao vivo, tanto como ator em peças como stand-up comedian.

Jorge Correia
01:57
Eu descubro-te nos contemporâneos, foi um dia em que eu digo assim, os contemporâneos são uma coisa extraordinária e vejo-te a fazer isso. A escrever para ti próprio ou não? Já a dizer os textos dos outros?

Eduardo Madeira
02:12
Eu aí, nos contemporâneos, ainda escrevia. Ou seja, eu estava aí com uma tripla função De primeiro comecei por escrever E também fazer algumas musiquetas que apareciam E depois como ator E depois de repente, ou seja, a função que ao início era a principal Passou a ser secundária Porque aí é o Nuno Lopes principalmente Que fazia a direcção de atores Que começa a dizer Tenho que ser o Eduardo a fazer isto Inclusive imitações que era uma surpresa para mim. E ele disse, o Eduardo consegue fazer isso. E eu faço ali logo três ou quatro imitações que ficaram logo, eu próprio fiquei surpreendido, que foi o António Lobo Antunes. Maravilhoso. Sim. E o Jorge Jesus também, pronto. O Vasco Luiz Valente. E creio que ainda há outra, pelo menos outra, que também na altura ficou assim muito…

Jorge Correia
03:10
Como é que se apanha os tiques? O boneco do António Lobo Antunes é absolutamente extraordinário. A respiração, o olhar, o enfado do António Lobo Antunes. Como é que tu apanhas aquilo?

Eduardo Madeira
03:25
Olha, eu acho que é observação. Os comediantes têm que observar muito. Quase como as pequenas pessoas que observam os pássaros, não é? E depois escrevem livros, enciclopédias sobre o comportamento dos pássaros. É o que nós fazemos sobre as pessoas e o mundo. Portanto, nós somos tipo ornitólogos, não é? Acho que é ornitólogos Nós somos ornitólogos das pessoas e do comportamento humano Observando E há logo sempre uma coisa que nos salta à vista E isso que estavas a falar é precisamente O gancho que eu apanhei logo Que é o ar de que o mundo cansa O mundo chateia O mundo morrece E o António Louvain Antunes tinha um bocado isso

Jorge Correia
04:11
Estava cansado do mundo Tu olhas, tu no fundo vês características que a pessoa tem, mas depois a persona que tu requerias carrega nas tintas em algumas coisas.

Eduardo Madeira
04:23
Sim. Isso faz parte da caricatura. Assim como fazes uma caricatura no papel em que a pessoa que tem um nariz ligeiramente maior passa a ter um narigão e as orelhas ligeiramente maiores passam a ter umas grandes… Assim fazemos nós na comédia. exageramos os traços para que sejam reconhecíveis e irrisíveis. Ou seja, as pessoas olham e dizem, realmente há qualquer coisa.

Jorge Correia
04:50
Olha, o que é que faz um comediante como tu rir? O que é que te dá vontade de rir?

Eduardo Madeira
04:56
Eu rimo muito precisamente com as pessoas. Há coisas, ou seja, às vezes estou a ouvir conversas em restaurantes, em oficinas, em consultórios médicos e todo lado eu lembro-me uma vez de uma conversa com um médico num consultório em que ele me disse ele perguntou-me o que é que você faz? eu na altura disse-lhe sou argumentista e o que é que faz um argumentista? argumenta e eu disse-lhe o que faz um argumentista é o seguinte se isto fosse um filme eu tinha escrito a sua pergunta o que é que faz um argumentista? Porque ele foi ao ponto? Porque ele conseguiu descortinar-te? Não, não. Ele perguntou-me o que faz um argumentista. O que é que o argumentista faz na vida? E eu disse-lhe que se isto fosse um filme, eu tinha escrito a sua pergunta. Eu tinha feito a tua fala, no fundo. Tinha feito a sua fala. Ou seja, e é isso que eu faço. Escrevo as falas das séries e dos filmes.

Jorge Correia
05:56
Mas uma coisa é aquilo que tu te dá vontade de rir. Outra coisa é aquilo que faz as pessoas rir. E nós rimos por coisas diferentes em momentos diferentes. Há uma fórmula?

Eduardo Madeira
06:11
Há uma fórmula Há uma fórmula Nem sempre estás muito inspirado E tens técnicas Mais ou menos que resultam Mas eu acredito muito Que aquilo que faz a diferença Seja uma inspiração Ou seja, a inspiração É descobrir a frase? Pode ser uma frase Pode ser a maneira como diz a frase Pode ser o timing Eu acho que na comédia o timing é precioso Ou seja, o tempo e o sítio E às vezes até o silêncio E a frase antes e depois E a reação Tudo timings que podem ser perfeitos E podes fazer isso intuitivamente Ou podes aprender a fazê-lo É melhor ser intuitivo Porque demonstra que és mais talentoso E esse soltou o ponto, tu és um intuitivo Eu creio que sou mais intuitivo Do que sou um trabalhador Daqueles incansáveis que chega lá pelo trabalho. Naquela velha questão Messi, Cristiano Ronaldo, eu estaria se calhar mais do lado do Messi, no sentido que é mais intuitivo, é mais, sai-me mais as coisas por instinto. Mas também com os anos aprendi que o trabalho faz muita falta. Porquê? Eu não me estou a comparar ao Messi, calma, senão daqui a bocado estão as pessoas… Estou a explicar, estou só a explicar. Mas com os anos tu percebes Que não podes confiar só no instinto Nem na intuição Nem nada disso E tens de trabalhar muito Para quê? Para preparares Para preparares os improvisos Para preparares tudo Para não ser surpreendido Tu tens um texto escrito e depois improvisas sobre esse texto? É, é um bocadinho como a jazz Eles pegam nos standards, não é? E depois em cima daquilo Fazem aqueles solos Que podem ser sempre diferentes De acordo com a inspiração do momento Mas há uma parte escrita e há uma parte improviso

Jorge Correia
08:04
O que é que tu fazes Se as pessoas não rirem? Ou não rirem quando tu estás à espera? Ou não rirem com a intensidade Que tu estás à espera?

Eduardo Madeira
08:16
É uma coisa que acontece Pode acontecer Há alguns comediantes Poucos Que têm a tendência de culpar o público Que eu acho notável Se a comida não me presta Só vocês que não sabem O que é que é bom

Jorge Correia
08:33
Eu lembro-me sempre da polémica, já não sei quem eram os atores, vão-me lembrar, a dizer que o público de Viseu não ria, não era? Pronto, o público de Viseu não ri. E que o público de Porto era extraordinário, mas há diferença dos públicos.

Eduardo Madeira
08:47
Isso é verdade. Não estou a dizer que o público de Viseu não ri. Não tenho essa ideia, mas estou a dizer que há públicos mais expansivos e menos expansivos. Claramente o público do Porto e dos arredores do Porto, se calhar do Norte. Riem alto. Não é riem alto. Divertem-se. Não vendem caro a sua diversão. Ou seja, estão ali para se divertirem. E portanto, e fazem-se.

Jorge Correia
09:13
Mas tu tens uma relação com eles, porque cada público respira de uma determinada maneira, rir de uma determinada maneira. O teu espetáculo de stand-up agora está aí por um país fora. Como é que é? Aqueles primeiros minutos, aqueles primeiros segundos em que tu encaras o público e o público que tem cara a ti, como é que é? Como é que é essa relação?

Eduardo Madeira
09:36
Olha, vamos lá ver. Eu, no meu caso, já vão 20 e tal anos de carreira, quase 30 daqui a bocado. Portanto, tu és uma pessoa da casa já? Sim, ou seja, mas não deixa de ser, principalmente quando vais fazer uma coisa nova, ou mesmo uma coisa que já fizeste, mas que não sabes como é que o público ali reage, lá está, pode ser um público de Viseu, entre aspas. Portanto, um público mais difícil. Mais difícil. Mas tu tens a responsabilidade E tens de ter o bril profissional Para fazer um espetáculo Bom, honesto E que em condições normais Seria uma coisa que agradaria ao teu público E às pessoas E se foi um êxito brutal em Viseu Porque é que não há de ser em Faro Em princípio repete-se essa matriz Com algumas nuances os espetáculos correm bem. Mas de dia para dia

Jorge Correia
10:32
de espetáculos para espetáculo tu vais aprendendo coisas novas sobre o timing

Eduardo Madeira
10:36
sobre o texto? Acho que um espetáculo principalmente não uma peça de teatro, uma peça de teatro é mais formatada, mas um espetáculo de stand-up comedy evolui, é quase um work in progress ou seja, o espetáculo que tu estreias não é o espetáculo que tu vais fazer ao fim de 20 datas e com que fechas quando fechas há do espetáculo que é diferente. Portanto, está melhorado? Está melhorado no sentido de encontrar sítios e fórmulas e coisas que têm mais graça do que as outras e tu fazes a coisa quase com instinto de sobrevivência, ou seja, vês que é por ali e vais por ali.

Jorge Correia
11:20
Olha, tu passaste toda a tua existência todos nós usamos personagens personagens sociais, os psicólogos ensinam-nos isso, mas tu fazes isso Conscientemente, tu escolhes personagens, máscaras, tu estás consciente das tuas máscaras, escolhes as tuas máscaras porque elas se colam a ti ou porque queres diversificar a tua maneira de ser?

Eduardo Madeira
11:44
O desafio é maior quando conseguimos diversificar e fazer coisas muito diferentes. É para mim mais estimulante fazer coisas que não são… Ou seja, que fogem um bocadinho daquilo que já fizemos. Estamos sempre a repetir a mesma fórmula que depois cansa. Portanto, é-se arriscar coisas? Eu adoro arriscar. Eu adoro arriscar Às vezes não arrisco Por Por preguiça Não por medo Mas por preguiça Ou seja, é pá, até um tenho que fazer Vamos lá ensaiar E tu dizes aí Mas não por medo Ou seja, gosto muito de arriscar E acho que isso é O oxigênio que nos faz Ter mais longevidade

Jorge Correia
12:35
Em termos artísticos Ouvi-te falar aqui há uns tempos de dizer que tu tinhas um problema no teu detector do perigo e que genericamente ele estava avariado.

Eduardo Madeira
12:46
Sim, sim. É pá, sim. Eu não sei. Eu não consigo explicar isso. Provavelmente só com a ajuda de um psicólogo ou de um psicanalista. Faz para o divã. Já passaste no divã, não? Não, por acaso não. Tenho outra maneira de confrontar os meus demórios e as minhas coisas. Mas na verdade eu acho que Eu nunca percebi muito bem Nunca tive muito bem Essa coisa do avisador de perigo Aquela luzinha que acende no carro Você precisa de óleo E não dá jeito? Dava muito jeito Porque te evita problemas maiores Evita-te meter-se em chatices Mas também te tira uma série de aventuras Porque há muitas aventuras em que eu meti E algumas das quais me arrependo amargamente Mas outras não, são histórias que ficam para a vida Este espetáculo é muito dessas histórias

Jorge Correia
13:37
Fala-me deste espetáculo O espetáculo tem um curioso nome Que é Grande entre os assassinos Grande entre os assassinos Tu és o grande? Os assassinos são os teus amigos? É a tua vida?

Eduardo Madeira
13:52
O espetáculo é um bocadinho a minha vida Sabes que eu andei muitos anos À procura de um ponto de vista Para fazer o meu novo espetáculo Passaram-se 12 anos Porquê 12 anos? Porque entretanto fui ator em séries Em filmes Em teatro Qual foi o clique? O clique foi O Bruno Nogueira E o Salvador Martinha E o Luís Franco Bastas Nós juntamos de vez em quando para fazer Para jantar principalmente E para fazer uns testes de stand-up E umas coisas assim, umas brincadeiras E a conversa deles há anos é Tens que contar as tuas histórias as histórias da tua vida, aquilo que te acontece porque isso é o teu melhor material e eu andei a ouvir aquilo e pensei vão malucos, não há coisas verdadeiras há coisas que eu não posso contar não posso contar, vão arruinar

Jorge Correia
14:46
a minha vida e a minha carreira afinal o teu botãozinho do perigo

Eduardo Madeira
14:50
ainda besou a qualquer coisa afinal está lá mas depois há uns tempos, talvez há um ano e meio hoje, eu pensei cheguei a uma idade em que disse agora já não quer saber E se calhar eles têm razão e vamos a isso. Comecei a escrever. O que é a conclusão? Acho que escrevi para aí três horas e meia de material. Percebes? Porque… E eles tinham a mesma razão. Pois tinham a mesma razão. E o meu trabalho mais difícil foi fazer uma espécie de compilação ou de… Estás a dizer? O melhor do melhor do melhor. Mas se calhar não é. Mas se calhar não é. Se calhar está lá muitas pérolas escondidas. Mas pronto.

Jorge Correia
15:27
Posso fazer uma autopsia do teu trabalho? Como é que é esse processo de escrita? Como é que… Quem não conhece, no fundo, a função de argumentista ou de alguém que conta uma história num palco, começa por onde?

Eduardo Madeira
15:40
Olha, este aqui foi mais fácil do que é normal, porque tu não tens uma folha branca e não tens de ter uma ideia. Tens uma folha cheia? Não, tens uma folha em branco, a mesma, mas… Tens de ter… Qual é que é a história que eu vou contar hoje? Ah, é aquela. E a escrita foi torrencial. Eu escrevi, talvez em três meses, vai lá, Eu escrevi essas histórias que dão, por exemplo, para um livro, de certeza, e deram para um espetáculo. E se calhar até dava para um segundo espetáculo, porque, repara, eu antes de estrear, eu tive um grande amigo que me disse vais contar a história assim, assim. E disse, epa, não, essa ficou de fora. Ele disse, epa, não acredito. Isso é das melhores coisas que eu ouvi. E eu fiquei a pensar, mudei ali um bocado o alinhamento, tirei uma coisita que estava na dúvida e pus essa. É um dos melhores momentos do espetáculo. Portanto, ou seja, essa IKEA ficar de fora está no espetáculo e está graças a um amigo que me chamou a atenção. Ou seja, há lá material escondido que teve que ficar de fora por uma questão de tempo. Porque escrevi sobre mim. Não estava a inventar uma história. Estava a relatar. Olha, algumas histórias têm a ver precisamente com o Henrique Dias, que esteve cá há algum tempo, porque nós fizemos o liceu juntos e a faculdade, e depois fomos para as professores de liceu juntos. Houve uma altura que nós andávamos muito juntos, e há histórias com ele que davam para… Só com o Henrique dava para fazer um espetáculo. E depois ainda o resto da vida.

Jorge Correia
17:14
Quando se está muito próximo de um outro argumento, por exemplo, o Henrique, brilhante como tu és, há uma espécie de cérebro comum da escrita?

Eduardo Madeira
17:23
É pá, sim. Havia uma coisa engraçada, que era o Nuno Artur Silva chamava-nos o monstro de duas cabeças a certa altura uma espécie daqueles animais mitológicos portanto há pessoas com quem consegue estabelecer essa química e essa capacidade de criar coisas incríveis eu sei o que é que tu estás a pensar e tu sabes o que eu estou a pensar exatamente, aconteceu-me com várias pessoas, mas talvez o Henrique digas, o Filipe Almey Fonseca é o outro com quem me aconteceu muito isso são pessoas com quem estabelece-se relação e uma química de trabalho e descrita e criativa é quase ali um Lennon-McCartney percebes ali a trabalhar e tu não consegues muito bem dizer mas qual é que foi a nota que o Lennon inventou e qual é que foi… De quem é que foi esta ideia no fundo? Ou de acrescentar e depois ir recriando aquilo? É verdade, eu e o Henrique escrevemos muitas coisas na altura e com o Filipe e com outras pessoas que foram surgentes Quando é que tu percebeste que podias

Jorge Correia
18:21
contar as histórias que estás a contar agora? E algumas delas são muito duras. Porque não há bonecos, não há personagens, não há pessoas verdadeiras. Verdadeiras, verdadeiras. Estás lá tu, mas tu podes decidir o que queres fazer na tua vida, podes arriscar tudo, mas depois há outras pessoas que lá estão.

Eduardo Madeira
18:39
Sabes que eu acho que foi a idade. Acho que foi a idade. Há frases, por exemplo, a Ana Bola disse-me algumas coisas engraçadas que serviram para a vida. Uma delas foi que quando eu fiz 40 anos, ela disse-me a vida começa aos 40 anos, portanto não te preocupes e eu achei aquilo um bocado esparatado e a verdade é que hoje em dia percebo bem o que ela diz a vida começa aos 40 anos porque até aí parece que estás num estágio para o que ainda vem e eu acho que quando fiz 50 eu pensei simplesmente não quer saber vou dar a conhecer um bocadinho mais do verdadeiro Eduardo Madeira. Vou despedir a minha persona, que até hoje, que agradava a muitos e desagradava até a outros tantos, e vou mostrar um Eduardo Madeira mais real, falível. Tu ligas a isso? Àquilo que as pessoas pensam? Toda a gente liga. Nós queríamos sempre uma persona. Nós não somos exatamente a pessoa que as pessoas pensam que nós somos. Fala-me disso.

Jorge Correia
19:39
O que é a tua persona e o que é que tu intuís que é o teu Eduardo?

Eduardo Madeira
19:46
Olha, eu tentei criar uma… A pessoa que eu criei pública não é muito longe do Eduardo, mas também não é o Eduardo, porque o verdadeiro Eduardo, só o Eduardo sabe quem é, percebes? Nós temos ali uma zona que é só nossa e que por muito próximo que tu estejas de qualquer outra pessoa, aquilo é só o nosso, ali é só o nosso. E aí é que tu estás, é nesse sítio que tu és tu próprio. Tudo o resto és tu a funcionar perante o outro.

Jorge Correia
20:19
E o que é que impede que o teu verdadeiro, ou a tua perceção mais próxima, mais verdadeira do Eduardo, possa ser mais oferecido aos outros, mais com os outros?

Eduardo Madeira
20:31
Eu acho que o que nos impede, às vezes, de revelarmos mais é o medo da rejeição, é a necessidade de aceitação e as inseguranças que aqui se acarretam. E depois nos artistas há outro problema ainda, que é o ego. O ego dos artistas é intermitente, e incha muito esvazia até limites mínimos quase portanto, ou seja, o artista consegue ter esses dois momentos às vezes seguidos em questão de demora, ou seja, estão no palco com uma plateia de mil pessoas a aplaudir e depois vão para o camarim e querem cortar os pulsos acredita que isso é muito comum porque é extraordinário receber aquele calor humano das pessoas? Aquilo é uma espécie de… Há uma adrenalina e uma força de vital que parece que estamos num êxtase total. Estamos nos pinkers da existência. E depois vais para o camarim e calma-te a altura que fechou a porta e tu ficas um bocado a limpar-te com as toalhas e a beber-me água e pensas, e agora? Agora não posso levar estas pessoas todas para a minha casa a continuar a bater palmas. Agora vou para casa e sou uma pessoa como qualquer outra. Vou ao frigorífico beber água fresca e vou-me deitar. E parece que essas duas, esses dois, o antípode de Valá, não sei, essas duas diferenças tão abismais são difíceis de gerir, muitas vezes. Daí os suicídios, as drogas, o álcool que muitos artistas recorrem, precisamente para preencher o vazio.

Jorge Correia
22:14
A questão do ego é para mim importante e gostava de te ouvir sobre isso, que é… Alguém consegue fazer um trabalho de alta competição e genial, como é o teu, como é das… Enfim, de todas as pessoas que nós conhecemos, sem ter um ego bastante substantivo?

Eduardo Madeira
22:34
Eu acho que todos temos, mesmo as pessoas que conseguem controlá-lo. Mas nota-se mais naqueles que têm uma vida pública. Nota-se mais no que tem uma vida pública Nota-se mais no que tem uma vida pública E nota-se muito Nos artistas Eu estou a falar do que eu me conheço melhor Não quer dizer que um político ou um desportista Não tenham egos Estamos o nosso cristiano

Jorge Correia
22:57
Eu sou o maior, sai da frente

Eduardo Madeira
22:59
Mas lá está, se calhar o facto De ele precisar de alimentar o ego dele Leva-o a atingir Limites e limites E recordes e recordes Se calhar é aquilo que é a gasolina que o alimenta Mas o facto… Agora, há os momentos em que tu te confrontas com a solidão, o vazio, aquilo de ser uma coisa temporária, uma coisa limitada, enfim, a falta de empatia, de amor, de tudo que as pessoas podem sentir quando estão sozinhas, não é? Tu não consegues ver uma pessoa na televisão, ou num palco, ou mesmo num campo de futebol, não consegues saber o que é que há O que é que depois é essa pessoa que vai fazer para casa? Com quem é que está? Com quem é que fala? Às vezes não estão com ninguém, nem falam com ninguém. E isso é duríssimo, duríssimo.

Jorge Correia
23:51
Embora no teu caso, quer dizer, eu entuo que a tua mulher, os teus filhos fazem parte dessa tribo que está do lado do ar.

Eduardo Madeira
23:59
Sim, no meu caso eu devo confessar… E os teus amigos? Sim, os meus amigos. Mas devo confessar que muitas vezes eu procuro a solidão. Ainda vais para o mar? Vou para o mar. A minha mulher há uns tempos queria que eu Levasse-me uma coisa que permite O telemóvel está no dentro de água Dentro de uma bolsa A minha cara foi de pânico Foi eu vou matar o indivíduo Que inventou essa porcaria Porque é o único momento em que ninguém me pode telefonar E há um gajo Há alguns no mundo Que vai inventar uma porcaria de um saco E vai estar dentro de água Não Mas eu procuro a solidar Porque a minha vida é propensa a estar sempre Eu às vezes digo que vivo num musical do La Fera Nascemos todos a cantar e aos gritos E choram, riem, gritam, falam, dançam Eu às vezes só quero estar sossegadinho num canto Mas é um bom problema Eu vou procurar momentos para estar sossegado E consegues lá estar Consigo um bocadinho E depois também sinto a falta do resto

Jorge Correia
25:14
E fazer aquilo que só os homens fazem Que é olhar para o mar sem pensar em nada Olhar para o mar sem pensar em nada

Eduardo Madeira
25:20
Que é uma coisa que as mulheres não conseguem conceber E a minha mulher às vezes pergunta Estás a pensar no quê? Estás à hora de olhar para o mar Estás a pensar no quê? Não estou a pensar em nada Impossível, estás a pensar em qualquer coisa E o problema é que isso é absolutamente verdadeiro É verdadeiro, eu acho que o homem tem essa capacidade De não pensar em nada estar absolutamente absurdo. E a mulher não. A mulher está sempre a pensar em 20 coisas. É uma diferença, sei lá. Não gosto de explicar isso.

Jorge Correia
25:49
Aliás, a propósito de homens e mulheres, os homens portugueses falam muito pouco emocionalmente, certo? E usam o humor precisamente como kit de sobrevivência. É.

Eduardo Madeira
26:02
Eu acho que tem a ver com uma coisa cultural, não é? Não nos deixaram? Não, nos deixaram a nós mostrar as emoções Ou seja, mostrar as emoções Era muitas vezes no passado considerado uma coisa de mulheres Havia aquela, não é? Homem não chora Um homem não chora, um menino não chora Uma série de patacoadas Com que fomos entupidos e bombardeados Mas um homem chora Quando tem que chorar, chora E faz muito bem conseguir fazer isso eu tenho dificuldade como qualquer homem em chorar, mas também me acontece às vezes de 3 em 3 anos quando menos se espera, chorar e aí quando eu estou a chorar eu deixo-me ir porque é parar eu penso assim, isto agora só daqui a 3 ou 4 anos é que eu volto a fazer porquê? porque eu acho que a gente acumula e esse bocadinho é um bocadinho um momento de escape E eu posso-me acontecer isso com a coisa mais parva E desabas? Desabo, desabo A ver se for preciso um filme de animação Mas não estás a chorar por causa do filme? Eu acho que não é Eu acho que o filme leva-me ali um ponto E é uma espécie de gota de água E a partir daí sai tudo De preferência no escurinho, sem ninguém ver? Não, vai onde calhar Vai onde calhar Mas normalmente é em casa não me acontece isso em todo lado eu acho que neste momento vou-te fazer aqui uma confissão eu acho que neste momento estou precisamente num ponto em que a minha cisterna está quase cheia e eu não consigo perceber qual vai ser o momento em que eu vou abrir a cisterna ou seja, estou a atingir aqueles 3, 4 anos em que eu faço esse… o que é que lá está lá dentro dessa sistémia? Ah, muita coisa, muita coisa muitos problemas mortos de pessoas próximas problemas de todos os géneros que tu possas imaginar que lá está, que não faço questão de passar para o público há uma ou outra coisa que as pessoas percebem e sabem e até porque eu faço questão de exorcizar a coisa no momento, se não o faço eu faz a minha mulher pequenos problemas que nos vão surgindo mas há uma série de coisas acumuladas e que eu sei perfeitamente que alguns em algum momento eu vou ter que fazer a limpeza porque eu acho que faz parte da vida, nós temos que é um momento catártico, eu acho que se calhar também este espetáculo também tem um bocado isso

Jorge Correia
28:50
Tu aqui neste espetáculo falas da morte de duas pessoas

Eduardo Madeira
28:52
Eu acho que sim, pois este espetáculo há esse lado é um espetáculo também É confissional, é um espetáculo Sim, quer dizer Eu não fugir É um tema que é a morte E não é fácil Num espetáculo que você anda por coma Quando tu abordas esse tema Como é que tu te rires da morte? Como é que tu te rires da morte?

Jorge Correia
29:17
Neste caso estamos a falar da morte do teu irmão A quem tu dedicas o espetáculo E de uma namorada Como é que tu abordas isto? Como é que tu falas disso? No fundo, como é que tu fazes que as pessoas se riam de uma coisa absolutamente terrível?

Eduardo Madeira
29:35
Pois, é um momento difícil, mas… E que eu muitas vezes estive a dúvida se não devia-te retirá-lo. Porquê? Porque as pessoas estão-se a divertir muito e de repente vão para um tema que as deixa… Como é que eu ia dizer? Angustiadas. Angustiadas, as pessoas ficam… Solidariamente angustiadas, não é? Sim, as pessoas ficam, há ali um peso de repente E depois o meu trabalho, que é um trabalho muito complicado Mas foi uma opção artística É voltar a pôr as pessoas lá em cima, apesar disso E, na verdade, explicar que a vida Só uma coisa, a vida, a morte faz parte da vida Não há nada, aliás, não há nada mais certo depois de nasceres Que um dia vais morrer Apesar do Elon Musk andar a contrariar isso um bocado Ele diz que brevemente Nós vamos viver muito mais Está a ser otimista, se calhar Mas há uns muito, muito ricos

Jorge Correia
30:35
A fazer umas dietas malucas E uns sonos E uns suplementos Sim, tudo, tudo Eu prefiro o Jesus Cristo, que transformava água em vinho

Eduardo Madeira
30:45
Não sei Eu acho que é mais Banha da cobra Mas embalada de ter nova tecnologia

Jorge Correia
30:53
É uma ideia sexy Estamos todos no fundo Neste mundo acelerado A vender coisas que não Enfim, que se nós olhamos com alguma atenção

Eduardo Madeira
31:03
Não fazemos sentido Eu acho que o mundo tornou-se muito rápido E nós, o cérebro Tenta acompanhar e vai perdendo coisas Vai deixando de aprofundar Coisas E vai querendo apanhar o máximo possível E acaba por não apanhar nada É difícil, não é? É, acaba por não apanhar nada

Jorge Correia
31:24
Porque no fundo como é que nós gerimos os nossos tempos entre este fernizinho todo e a capacidade de parar e de pensar o que é que é só e o que é que é fundamental se é que é preciso fazer isso, se calhar não é preciso nada

Eduardo Madeira
31:33
Hoje em dia, por exemplo, hoje em dia eu fico estupefacto com as pessoas que me dizem, ah já vi este filme aqueles, não sei o quê, ou vi o disco e eu fico a pensar assim E eu trabalhei Que tempo é que este indivíduo tem? Se calhar tem Se calhar tem, para fazer tudo isto quando eu 50 mil coisas, lá consigo às vezes meter meio episódio de uma série mas já é cancadíssimo, cheio de sono pronto eu acho que há pessoas que têm uma predisposição incrível para acompanhar tudo o que está a acontecer eu já o fiz no passado hoje em dia, confesso-me, absolutamente incapaz de fazer

Jorge Correia
32:14
mas não precisas disso não precisas de ir ver alguns livros ou algum filme até para te inspirar, até para te nutrir para te cultivar

Eduardo Madeira
32:21
eu sempre tenho inspiração eu continuo a procurar coisas, mas Está-me a acontecer outra coisa que acontece com a idade e que há pouco tempo li num ensaio do Julian Barnes, que é uma coisa da idade, que é tu às vezes lês um livro aos 20 anos e descobres o livro aos 60. Faz uma releitura. Porque aquele jovem de 20 anos não tinha capacidade de perceber tudo o que estava naquele livro. E eu estou a começar a aproximar-me disso, ou seja, Estou a começar a reler livros e a perceber que são muito melhores do que eu pensava, alguns. Porque não estávamos preparado para os leres. E que não estavam naquela altura minimamente preparados para a mensagem para o que está ali, para o poder daquele livro. E há outros que eu leio e que achei na altura fenomenais

Jorge Correia
33:12
e que agora leio e digo… Ah! Ah!

Eduardo Madeira
33:15
Piu, xerupado. Portanto, a maturidade está a me dar um bocadinho isso.

Jorge Correia
33:20
Eu não quero… Quero só fechar aqui o tema da dor. O que é que o humor faz que o choro não consegue ou não conseguiu, no teu caso? Porque é que tu, no fundo, tens primeira dúvida e depois a certeza de pôr no teu espetáculo algo tão doloroso?

Eduardo Madeira
33:37
Porque eu acho que quando tu te rires da morte, estás a desafiá-la quase. Estás a dizer-lhe que ela não te paralisa, Não te deixa num sítio amedrontado. Ou seja, é quase estares a enfrentar o teu maior medo. A rir. Também é útil? A rir na cara da morte. Não. Não tenho medo particular da morte. Tenho medo. Não é medo. Tenho tristeza de pensar que há certas pessoas, talvez mais os meus filhos, não sei, mas outras também, amigos e isso. Mas os meus filhos, a minha mulher e tal. que vão sentir muito a minha falta e vão precisar de mim a certa altura isso não é um medo é tristeza, é pensar que não vou poder ajudá-los porque já cá não estou

Jorge Correia
34:31
porque sobra o vazio no fundo aquilo que tu hoje sentes por outros importantes terem partido

Eduardo Madeira
34:36
exatamente eu não vou estar lá e assim como não estão cá as pessoas que partiram sabes que quando eu estreiei este espetáculo aconteceu uma coisa incrível o espetáculo era, como tu diz e bem dedicado ao Miguel na noite em que eu estreia o espetáculo o meu pai faleceu portanto, de repente eu passei a ter, de repente no segundo espetáculo que eu faço uma semana depois quando eu vou dedicar o espetáculo ao Miguel já não era só a ele, era também ao meu pai e portanto aquilo ainda ganha uma dimensão maior e talvez esse momento seja um momento em que as pessoas levam um urro no estômago, mas No espetáculo lá vão várias vezes murros no estômago E também muita cócega Também faço muitas cócegas

Jorge Correia
35:24
Então tu no fundo querias uma montanha russa Em termos de narrativa

Eduardo Madeira
35:28
É perigosa às vezes Porque as pessoas podem não recuperar De certas coisas Mas tenho conseguido E dás-lhes tempo Para recuperar? Há algum tempo Não posso dar muito tempo Não posso deixá-los ficar completamente Não queres perder o ritmo do espetáculo Não posso perder o ritmo do espetáculo, é isso mesmo É uma questão de ritmo Eu sei perfeitamente que A pausa é É de segundos Não pode ser oito segundos, tem que ser seis

Jorge Correia
36:00
És assim tão frico do controle Tão maníaco da… Mais uma vez é intuitivo

Eduardo Madeira
36:05
Mas não pode ser mais

Jorge Correia
36:06
Tu sentes isso e portanto dás um segundo, dois segundos Entre excesso durante três segundos E daqui a bocadinho tens de estar a rir outra vez

Eduardo Madeira
36:13
Tem que puxá-los para cima

Jorge Correia
36:14
Portanto tu és uma espécie de vitinha Da comédia, não é? Ou do Rui Costa Que é aquele que controla o ritmo Daquilo que está a acontecer

Eduardo Madeira
36:25
Faço isso, sim O Rui Costa é um bom exemplo É um maestro É o registra, dizem os italianos Aquele que marca o ritmo Exatamente, eu acho que a gente tem essa responsabilidade Que é para o espetáculo ser uma coisa equilibrada E ser, como tu dizes, uma montanha-russa Ou seja, gargalhados, gargalhados De repente tem um tema difícil As pessoas… e tu sentes e depois puxado outra vez para cima às vezes e de repente acabamos outra vez todos em alto

Jorge Correia
36:54
e o que tu sentes quando estás a fazer o espetáculo tu sentes o que? A solidariedade do público a raiva do público o medo no fundo como é que tu geres as tuas próprias emoções nessa relação com aquelas pessoas que estão ali

Eduardo Madeira
37:10
eu quero essencialmente que as pessoas sintam que assistiram um grande espetáculo o que é isso? como é que se define um grande espetáculo? é que mexe muito com as pessoas que as toca muito que as faz sair de lá a recordar vários momentos que não as deixem diferentes que daqui a 10 anos eu estava lá e estava lá quando ele disse aquilo e eu arrepiei-me e eu estava lá quando ele disse não sei o que e eu ia caindo da cadeira a rir é isso que eu quero que as pessoas tenham memórias dessas não é gravarem coisas eu a falar em telemóvel ou com o telemóvel estarem-me a gravar a falar, é ficar aqui ficar aqui

Jorge Correia
37:54
Sim, com essa ideia de hoje em dia nos concertos e afins, as pessoas não estão

Eduardo Madeira
37:59
a usufruir o momento as pessoas perdem os melhores momentos

Jorge Correia
38:04
E fazem o que com aquilo? A minha pergunta é sempre essa

Eduardo Madeira
38:07
É uma imagem péssima, mas eu acho que é uma coisa uma necessidade de demonstrar lá e que filmaram

Jorge Correia
38:13
Eu agora, a propósito dos grandes concertos, este do Sr. Bunny no Jornal da Luz não sou especial fã mas isso não interessa nada mas o que me pôs de boca aberta foi a ideia de que havia um artista e os seus músicos a tocar e a cantar uma experiência que tu também tens Cebola Moll, Inesquecível, Queima das Fitas Nunca mais me esquecerei E há uma casa no centro do palco Cheia de vedetas E eu estive a pensar Mas que espetáculo de ostentação é este Para aquelas pessoas, para as outras

Eduardo Madeira
38:55
Sabe o que é que eu pensei em relação a isso? Dessa casa? Só estrago uma casa Pronto

Jorge Correia
39:07
Acabamos de ter uma demonstração perfeita para que é que serve o amor? Que é para nos salvar quando estamos a ficar completamente a sossegar, completamente a afogar-nos. É isso. A casa do colhinho. Só se estraga uma casa e fica já a questão resolvida. Olha, porquê que temos tanto medo do ridículo? De parecermos ridículos?

Eduardo Madeira
39:31
De sermos ridículos? Porque nos expõe muito. Ficas muito exposto quando tu tornas muito ridículo. e isso não é bom as pessoas não se sentem confortáveis nem sempre se sentem confortáveis com isso no caso dos comediantes atenção nem todos o que é estranho mas no caso dos comediantes eles vivem têm que partir do pressuposto que o ridículo é que lhes paga as contas ou seja, eles serem ridículos e o que eles fazem ser ridículos é normalmente ser alguns não fazem isso

Jorge Correia
40:06
Tu estás-me a dizer que há comediantes que não têm sentido humor?

Eduardo Madeira
40:09
Que não aceitam ser abusados? Comediantes que não têm sentido humor quando as coisas tocam. Não têm nenhuma espécie de humor autodepreciativo. Nenhum. Mas levam-se demasiado a sério? Demasiado a sério, sim, claro. Como em tudo na vida. No caso do humor, devia ser um pressuposto para não entrares na profissão. Devia haver um baracadeira. Com números clausos. Devia haver um bastonário. Bastonário dos humoristas. Com um pau. Você não passou nos psicotécnicos Até aqui para trás Há colegas que se levam Demasiado a sério Que são incapazes de fazer O exercício de autocrítica E autodepreciativo E de se rir em si próprios Mas a maioria dos comediantes Sabem à partida que o ridículo é que os alimenta E usam essa ferramenta Claro, obviamente Começas por destruir a ti próprio e depois vais destruindo o resto do mundo.

Jorge Correia
41:07
Para criar uma ideia de superioridade do público em relação a ter, olha, aquele talha acontecer isto, olha, posso me rir dele.

Eduardo Madeira
41:13
As pessoas riem-se muito da desgraça, não é? Se tu te puseres num pedestal, essa desgraça não é tão forte. Muitas das coisas que a gente conta são coisas em que nos pomos em causa a nós próprios, não é? Foram momentos constrangedores para nós. E isso faz o público rir. E a nossa visão, muitas vezes, também é muito parva. Daí não se poder criticar uma piada, porque muitas vezes a nossa visão das coisas é propositadamente estúpida, grotesca, idiota, para que as pessoas digam tipo, isto não

Jorge Correia
41:44
pode ser. E portanto, até muitas vezes quando aparece uma piada alegadamente racista e as pessoas não conseguem perceber a diferença entre o que é que é uma narrativa criada para criticar e demonstrar o racismo e não dizer, olha, aquele é racista.

Eduardo Madeira
42:04
Exatamente. A intenção de expor Um problema humano Como o racismo Ou como o machismo Sei lá, um problema humano E hoje em dia, como se perdeu Um bocado o sentido de ironia As pessoas pensam, epá, o gajo está a ser machista Não, eu estou a dizer Aquilo que um machista diz E a demonstrar porque é que ele é burro Ou um racista Mas pronto, mas é um trabalho Que nós também temos que fazer Ou seja, continuar a lutar para que as pessoas percebam que as piadas servem para expor os verdadeiros… Ou seja, quem é verdadeiramente racista não está a brincar. Quem está a brincar, a fazer uma piada com o racismo, está a expor as pessoas que falam assim a sério. A criar uma caricatura também. É uma caricatura do racista.

Jorge Correia
42:56
Aí, nesse sítio onde tu estás sentado, esteve o Nuno Márcio, que exatamente falava sobre isso. Falava de o princípio da ironia, da nuance… Está-se a perder, estamos a ficar não quer dizer todos binários e as redes sociais não têm cor não têm cheiro, não têm cara e estamos a transformar aqui numa espécie de brontossauro da comunicação Sim, eu acho que estamos

Eduardo Madeira
43:18
a ter alguma dificuldade em em passar a ideia atenção, eu já não sei de quem é que é a culpa mas estamos a ter alguma dificuldade em passar essa coisa da ironia da comédia versus realidade ou seja, a gente faz uma piada e as pessoas dizem, afinal tu também pensas assim não, estou a fazer uma piada eu não me penso assim mas tem que explicar isso é estranho

Jorge Correia
43:50
se nós olharmos para para séries o Herman é um bom exemplo há muitos anos há algumas coisas que ali estão quer dizer, algumas peças foram censuradas mas algumas que hoje em dia, se alguém tentasse fazer

Eduardo Madeira
44:02
aí é o Carme Trinado Olha, na bocada deste exemplo, os contemporâneos uma grande parte de coisas que passaram nos contemporâneos hoje, infelizmente assim, não é tudo, porque a vida também evolui as cabeças das pessoas evoluem e há coisas que não fazem sentido, se calhar hoje em dia mas há muita coisa que tem muita graça e que não tem mal nenhum e que vai no meio da enxurrada das coisas ah não, agora não se pode gozar com isso agora não se pode gozar com aquilo De repente tu tens um índex Tens um… Piadas que não se podem contar Temas Você não pode usar com isto Isto não se pode usar E tu de repente estás Numa caixa não é? Estás ali tipo Não se pode usar com nada

Jorge Correia
44:50
Ou mesmo que tu queiras fazer Tu podes dizer não, é melhor eu não vou chatear

Eduardo Madeira
44:54
E também há isso que é o pior Tudo é o pior veneno É quando nós estamos e eu tenho certeza que nós todos já tivemos isso aquele momento em que dizemos será que diga esta piada? isso é o pior que pode haver, porquê? porque um comediante, o que faz um comediante é precisamente dizer a piada inconveniente a piada que vai deixar as pessoas aquela que nos dói a piada que não vai deixar o público indiferente exatamente, a que vai ele disse isto é isso E se a gente ceder, ceder, ceder, de repente estamos lixados.

Jorge Correia
45:34
E portanto podemos ficar com menos interesse?

Eduardo Madeira
45:40
Ou não? Sim, repara. O Ricardo Araújo Pereira dizia há tempos uma coisa engraçada, que é uma imagem muito forte, que é quando tu fazes uma piada sobre um racista, Sobre uma coisa racista É a mesma coisa que fazes um papel no cinema De um tipo que é racista Ou seja, és o vilão da história O que é que nos pode levar a este pensamento? É, não vamos pôr o homem racista Vamos só pôr pessoas boas Não vamos pôr o vilão Mas isso é esconder a realidade? É, de repente o que nos estão a pedir é

Jorge Correia
46:21
Vamos fazer um mundo só de coisas boas É o politicamente correto? É não fales disto e não mostres aquilo porque a linguagem tem essa capacidade e todos nós sabemos de contaminar e de informação de passado

Eduardo Madeira
46:34
eu acho que sim, um bocadinho eu acho que é um nadinha do politicamente correto levado ao extremo porque o problema tudo começa sempre pelos extremismos quando tu vais para os extremos para afustar ah, vocês estão todos errados, é que onde eu estou é que estou bem não estás nada aqui ao centro olhando para os lados e vendo em cada caso o que é que é melhor é que está bem não é nem num extremo nem no outro

Jorge Correia
47:01
depois do riso sobra o quê?

Eduardo Madeira
47:05
depois do riso vem então a cova quando uma pessoa deixa de rir ou de querer fazer rir não resta muito mais eu acho que até o meu último suspiro o meu cérebro estará sempre a olhar em volta e a ver o que é que realmente tem graça naquele quarto do hospital ou naquele quarto não sei o que, onde eu estiver uma enfermeira mais dejetada vou estar sempre com essa visão porque isso não me abandona nunca mesmo nos piores momentos da minha vida eu estou sempre a olhar para alguma coisa que A minha vista O meu olhar, o meu campo de visão Estou assim, não é? Estou não vivendo um momento mau E aqui passa uma coisa qualquer Que me destrai logo E eu começo a olhar disfarçadamente E então é uma pessoa Que vem e que já fala De uma maneira, estás a ver E eu, o meu cérebro já está ali E já estou a absorver aquilo E portanto, isso Eu não sei porque é que eu tenho isso Mas sei que isso vai-me acompanhar a vida toda É um kit de sobrevivência O humor aproximou-te mais das pessoas? Sim, talvez Eu acho que sim, eu acho que o humor me aproxima mais das pessoas Porque foi para mim Uma espécie de Maneira de baixar As barreiras De destruir muros De estabelecer pontes Muita gente que não gostava muito de mim Ou que não tinha Grande simpatia por mim E não sei o quê Eu através do humor consegui aproximar-me delas depois elas conhecerem melhor e vencermos aquela primeira imagem que às vezes é uma imagem

Jorge Correia
48:56
errada das pessoas. Até porque nos rimos às vezes sem querer ou de uma forma a rir de uma piada, quer dizer, por amor de Deus eu não me devia estar a rir disto.

Eduardo Madeira
49:04
Claro, claro. E ainda ontem me disseram uma coisa ao telefone e disseram-me, pá, não te rias disto porque senão vais parar ao inferno. E assim que me disseram ia caindo da cadeira a baixo a rir tive-me a rir 10 minutos a chorar a rir claro que não me devia rir daquilo claro que não obviamente que aquilo é uma coisa que não devia rir daquilo e agora? já está? foi um momento pronto, e é isto basicamente é isto que a gente faz e é tão bom não trocava isso por nada quer dizer, aquele momento em que eu me estive a rir Completamente descontrolado E com as lágrimas a caírem Não de tristeza, não a tal lágrima catártica Mas outra lágrima Esse momento é único, é incrível

Jorge Correia
50:01
E Eduardo Bandeira, obrigado Vai para o mar, não leves o telefone E se houver um tal inventor que queira desgraçar a nossa vida E esses tempos mortos para conseguirmos respirar Fala comigo, vamos lá os dois com o bastão do bastonário que é para resolver esse problema rapidamente. Obrigado. Obrigado. Pergunta simples um programa sobre comunicação para quem quer boas respostas Legenda Adriana Zanotto

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