Há um instante, em certas conversas, em que a pessoa que responde chega ao fim de uma frase e não percebe que ainda não acabou. Fica ali, suspensa, à espera de que a outra avance, encha o espaço, faça a pergunta seguinte. Se a outra não avançar, se ficar quieta, acontece uma coisa rara. A frase recomeça sozinha. Aparece o que não estava previsto, muitas vezes o melhor de tudo o que vai ser dito. Foi esse instante, e não um qualquer truque de estúdio, que a Júlia Pinheiro passou quarenta anos a afinar.
Vivemos com medo desse instante. Enchemos os intervalos e as filas, os segundos entre uma pergunta e a resposta, como se o vazio fosse um erro a corrigir. A rádio, que foi a escola dela, tem até um nome para o pânico: a branca. Um segundo sem som e o coração dispara. E contudo é nesse buraco que evitamos que costuma nascer a coisa mais verdadeira que alguém tem para dizer.
Ela aprendeu a resistir-lhe. “Tenho a noção de até que ponto posso aguentar o silêncio para que resulte qualquer coisa do outro lado.” O verbo diz tudo. Aguentar. Para quem comunica a sério, o silêncio é uma forma de trabalho, e das mais exigentes. Obriga a pessoa que pergunta a dominar o próprio impulso de preencher, de brilhar, de despejar a pergunta que já traz pronta. Custa mais calar do que falar.
Talvez por isso recuse a palavra entrevista. “Eu não entrevisto hoje, eu converso.” A distinção parece pequena e engana. Uma entrevista traz um guião, e o guião prende quem responde tanto quanto quem pergunta, porque os dois passam a servir uma lista em vez de servirem o momento que têm à frente. A conversa entrega-se ao que está a acontecer. E o que está a acontecer, com frequência, é silêncio.
Há qualquer coisa de contraintuitivo nisto para quem trabalha com palavras. Passamos a vida a preparar o que vamos dizer e quase nunca o que vamos ouvir. Kapuściński, que fez do escutar um método, dizia que as melhores histórias raramente se arrancam, esperam-se. A Júlia chegou ao mesmo por outro caminho, o da televisão em direto, onde o tempo é caro e a tentação de encher anda sempre à espreita. Que tenha escolhido, apesar disso, defender o vazio, diz muito sobre aquilo que aprendeu.
Simone Weil escreveu que a atenção é a forma mais rara e mais pura de generosidade. Cita-se muito, pratica-se pouco, porque a atenção a sério é desconfortável e obriga a sair de nós. A Júlia descreve o gesto sem solenidade: nos minutos que passa com alguém, diz, não está atenta a mais nada, está inteira ali. Numa época que fez da distração o estado natural, ficar inteiro diante de outra pessoa tornou-se quase um gesto de teimosia.
O silêncio tem um parente próximo, o tom. Ela conta que passou a baixar a voz de propósito, e que, quanto mais a baixa, mais a pessoa do outro lado se abre. Uma voz que desce obriga o ouvinte a chegar-se à frente e desenha um círculo pequeno onde só cabem duas pessoas. O silêncio trabalha da mesma maneira, por outro caminho. Recusa a pressa e a vontade de impressionar, e aposta que a proximidade rende mais do que o efeito.
Há uma armadilha que ela nomeia sem rodeios: a vaidade. Quem comunica gosta de se ouvir, gosta de saber que está a ser ouvido, e anda sempre uma projeção do ego pelo meio. A questão é o que se faz com isso. “Depois tens que sair da equação”, diz, deixar de ser o dono da conversa para ser apenas quem recebe a visita. O silêncio é a prova dessa saída. Só aguenta o vazio quem já não precisa de o encher para existir.
O contraste com o tempo que habitamos é violento. Ela recorda que a atenção de quem nos ouve encolheu de dez ou quinze segundos para dois ou três. Somos treinados, dia após dia, a decidir num relance se algo merece a nossa permanência. Nesse regime, o silêncio é uma afronta. Pede que fiquemos sem recompensa imediata, à espera de uma resposta que talvez nem chegue, o oposto exato daquilo que os ecrãs nos ensinaram a desejar.
Daqui vem a pergunta que dá título à conversa. Poderá o silêncio ser, ele próprio, uma pergunta? Um silêncio que ocupa o lugar da pergunta e a substitui. Quem se cala e aguenta está a dizer, sem palavras, continua, eu ainda estou aqui, o que disseste ainda não chega. É a mais difícil de fazer, porque não se formula. E é a única a que o outro não consegue responder no automático, com a frase que trazia decorada.
Ela conta o caso de uma mulher que entrevistou, uma vida dura, que nunca se tinha permitido pensar em si própria. Perante certas perguntas, ficava perplexa, porque ninguém lhe pedira antes para se olhar por dentro. E depois, no espaço que se abriu, começou a falar. O que a soltou foi o lugar seguro que se criou, e o tempo, e o silêncio de quem estava do outro lado sem pressa de a interromper. Nenhuma pergunta engenhosa teria chegado lá.
Fico a pensar no que isto nos pede, longe dos estúdios. Nas cozinhas e nas reuniões, nas mensagens que respondemos a meio de outra coisa. Se a melhor pergunta for mesmo o silêncio, então falhamos quase todos os dias, menos por falta de boas perguntas do que por excesso de pressa. E a pergunta que fica talvez não seja sobre ela nem sobre a rádio. Seja esta: de que temos mais medo, do silêncio dos outros, ou daquilo que apareceria no nosso se o deixássemos ficar.
A conversa completa com Júlia Pinheiro está disponível no Pergunta Simples.
Ler transcrição completa
Júlia Pinheiro
00:00
Tem tudo a ver com empatia. Tem a ver muito com empatia, tem a ver com curiosidade. Não se pode nunca pôr uma conversa sem ter curiosidade.
00:07
Tu tens que estar curioso em relação àquele indivíduo, à pessoa que está à tua frente, e depois tem que ser uma coisa de… não tens nenhum tipo de preconceito. Não tens nenhuma outra leitura, não podes ter.
00:20
E aqueles 60, 50 minutos úteis que eu tenho ali com aquela pessoa, hoje já tive várias formatações, tive duas horas, duas horas e meia, com vários entrevistados, e aqueles minutos pertencem-lhes. Eu não estou atenta a mais nada. Eu estou completamente centrada naquela pessoa.
00:39
E isso resulta.
Jorge Correia
00:41
Pergunta simples. Um programa sobre comunicação. Para quem quer boas respostas.
00:51
Já reparou como é raro alguém estar assim, inteiro, à nossa frente, dedicando-nos toda a sua plena atenção. Vivemos distraídos a responder antes de ouvir, a encher cada pausa como se o silêncio fosse uma falha a corrigir. E é muitas vezes ali, na atenção que já não damos e no silêncio que evitamos, que aparece a coisa mais verdadeira que alguém tem para dizer.
01:15
Passei uma hora à conversa com alguém que faz o contrário da maioria de nós. Ao fim de 40 anos de microfone, de câmera, de televisão, de rádio, aprendeu que não precisa de levar perguntas para o estúdio. Uma espécie de receita pré-feita.
01:30
Senta-se e conversa, como quem fala com o senhor do café, com o vizinho ali ao lado. Fica uma ideia de que quem tem medo do silêncio interrompe sempre a melhor resposta antes mesmo dela nascer. E isso acontece em qualquer tipo de conversa.
01:46
A minha convidada começou na rádio nos anos 80, passou pela televisão que entra em todas as salas, subiu a um palco de teatro já adulta e escreve livros. O currículo é longo, mas não é isso que me traz aqui e não foi definitivamente isso que me fez telefonar-lhe para a convidar. Interessa-me a forma como faz as pessoas falarem de si, muitas vezes de coisas que nunca tinham dito a ninguém, sem truques e só com atenção e curiosidade.
02:13
Falamos de comunicação e de vaidade, de envelhecer e também do amor. Júlia Pinheiro está no Pergunta Simples. Viva Júlia Pinheiro.
02:26
Olá. Toda a gente te conhece, mas tu passaste pelas televisões todas, passaste por esta telefonia, pela Antena 1, com o Bom Dia Bósnia, antes fizeste algumas coisas ainda.
Júlia Pinheiro
02:35
Fiz, fiz. Eu andei por cá logo ali nos inícios de… 80, 79, 80.
02:44
Eu era estagiária, eu fui estagiária na informação desta casa. e postei esta estagiária da área de informação, e foi onde, de facto, falei ao microfone pela primeira vez, e onde conheci pessoas muito marcantes, e que curiosamente vieram a ter uma grande importância no meu percurso televisivo. Porque entre as pessoas que nessa altura estavam na Antena 1, no velho, o Queilhas 10, estava, por exemplo, o Emílio Rangel.
03:11
E foi aí que eu conheci o Emílio, e que mais tarde depois me veio a contratar. Mas por acaso não foi ele que me contratou, foi a Maria Elisa. mas depois me apanhou nos inícios da SIC e foi fantástica.
03:21
A aventura que se conhece.
Jorge Correia
03:22
E ele tinha olho para as pessoas, porque ele passou a vida a garimbar pessoas.
Júlia Pinheiro
03:27
Sim, era um grande identificador de talentos, era um grande identificador de vontades, de energias. Ele percebia e depois tinha uma coisa muito intuitiva, de facto, de como as pessoas mobilizadas por ele acabariam por se transcender. Portanto, ele escolhia, identificava ali que estou aqui a sentir qualquer coisa que vai correr bem.
03:49
E depois dava-nos gás. Portanto, depois dava-nos asas. E em quase todos os casos, recupei.
Jorge Correia
03:55
Não, e essa é uma coisa extraordinária. Olha, imediatamente antes de gravar, lá está, nós da telefonia, os aoscetadores, os cascos, esta ideia de que nós estamos a falar no microfone, mas estamos a ouvir-nos…
Júlia Pinheiro
04:06
A rádio saiu de ti alguma vez? Não, nunca. De resto, estou num caso, eu não estou de ressaca. eu voltei a ter este bichinho muito marcado na minha vida, porque agora, por exemplo, os podcasts, este é um podcast, mas eu participo e sou autora de alguns podcasts na plataforma do Expresso, e pronto, é a mesma lógica, é a mesma linguagem, e sempre que me sinto num estúdio de rádio, há uma vibração em mim que tem a ver com a identificação, que tem a ver com… Eu pertenço também a esta tribo, esta tribo também é minha.
Jorge Correia
04:40
Esta tribo da rádio, claro que sim. O que é que se sabe ao fim de 40 anos de carreira?
Júlia Pinheiro
04:48
Bom, sabemos técnicas. Sabemos alguns truques, não é? Sabemos o que não sabemos, e é isso que nos tem mostrado a atualidade e aquilo que é a mudança do paradigma do nosso negócio, não é?
05:07
O que nós não sabemos é como nos adequar às vezes as nossas capacidades a um tempo que mudou. E não há dúvida nenhuma que a comunicação mudou muito. Nos últimos 20, 15 anos, a maneira mais acelerada, desde que entraram as plataformas de streaming, as redes sociais e por aí fora.
05:24
E, portanto, às vezes é um bocadinho difícil de nos atualizarmos em função dessas novas linguagens. E aí, às vezes, os 40 anos de carreira não servem de grande coisa.
Jorge Correia
05:35
Mas este acto de comunicação mudou assim tanto?
Júlia Pinheiro
05:38
Ah, então não mudou. Quer dizer…
Jorge Correia
05:39
Acelerou, seguramente?
Júlia Pinheiro
05:41
Acelerou. Eu acho que, no essencial, a questão está sempre lá, que é, como a rádio, a rádio é uma comunicação que se faz one-to-one, não é? Era aquilo que tu dizias, é falar ao ouvido, não é?
05:52
E a identificação faz-se de uma maneira muito próxima. Em relação aos tempos atuais, aquilo que as pessoas procuram nas plataformas, todas que existem, por exemplo, nas redes sociais, eu acho que essa também é uma experiência de comunicação muito direta, não é? Quando estamos no Instagram, como estamos nos YouTubes da vida, os TikToks e tudo mais, a pessoa está a ter uma noção, está a ter uma experiência própria.
06:18
Portanto, o essencial está lá. Depois, tem a ver com a duração, tem a ver com a formatação, tem a ver com o conteúdo, tem a ver com aquilo que interessa ou não interessa, às pessoas que eles consomem comunicação. E isso mudou muito.
06:31
Isso não há dúvida nenhuma.
Jorge Correia
06:32
Porque há uma rapidez, no fundo, os miúdos hoje em dia querem ali 3 segundos ou lhes dizes qualquer coisa nos 3, 5 segundos ou então, Zup, já te foste embora e vamos para o outro lado?
Júlia Pinheiro
06:41
Sim, sim, mas o tempo de atenção, acho que há uns anos dizia-se que o tempo de atenção disponível de um telespectador ou de um ouvinte era, julgo eu, 10, 15 segundos. Agora deve estar realmente nos 2 ou 3. Portanto, a complexidade que é tu conseguires em 2 ou 3 segundos dizer qualquer coisa que aquela pessoa sinta que o interessa, que quem está disponível para ouvir quer ficar ali e ver o desenvolvimento, e o desenvolvimento não pode ser muito longo,
Jorge Correia
07:14
senão o interlocutor cansa-se. Mas tu aí tens uma vantagem, porque tu és uma cara conhecida, e portanto tu estás apresentada logo à cabeça, quer dizer, eu mesmo que não ouço os teus dois segundos, eu já olho para os teus olhos, eu já vejo o teu sorriso, já é a Júlia, a Júlia já é lá de casa, No fundo há esta relação
Júlia Pinheiro
07:32
Essa é uma relação Fantástica dos 40 anos Que é a proximidade E uma certa É família Às vezes as pessoas Cumprimentam-me na rua E não sabem exatamente porque é que me estão a cumprimentar Eu conheço-a E depois É fulano de tal Lidas bem com isso? Lidamente É sempre para mim uma coisa comovente Porque eu acho sempre que A comunicação é um Espaço espantoso, mas é um espaço Onde tu te podes deslumbrar Com facilidade com aquilo que é o teu próprio Significado Nessa arena, e portanto tu tens de estar sempre Na expectativa Que um dia, e já está a acontecer Também, há pessoas que não te vão reconhecer Existem imensos miúdos Abaixo dos 30, não têm uma vaga ideia Quando me pedem uma fotografia É para a minha avó Vai lá, te vais te tirar aqui uma fotografia que é para a minha avó
Jorge Correia
08:29
Ou pode ser, olha, está ali a mãe do Rui Pego
Júlia Pinheiro
08:31
Também pode ser, do Rui Maria Pego Sim, também pode acontecer Sim, mas não é tanto A proximidade vem sempre Com As gerações mais velhas Ou se foram os pais que vinham Mas geralmente agora eu estou na equipa das avós
Jorge Correia
08:48
Eu lembro-me sempre Metia-me sempre com a Catarina Furtado Que eu sou do tempo de Joaquim Furtado Que era a personalidade e a voz aqui posta de comando das Forças Armadas e subitamente passou a ser o pai da Catarina Furtado, o que é uma coisa quase uma inversão. Mas lá está, os públicos estão aí, os públicos vão mudando. Li uma declaração tua de que numa determinada altura percebeste que era mais interessante conversar com as pessoas do que propriamente entrevistá-las.
Júlia Pinheiro
09:18
Isso é para mim uma constatação absoluta. Ou seja, as entrevistas têm um guião. por vezes, não é?
09:27
E as perguntas já foram elaboradas na cabeça do entrevistador. E isso às vezes condiciona-nos. Portanto, quando se já tem, enfim, algum traquejo, jogo de cintura, eu prefiro mil vezes, aliás, o meu método de trabalho diário, eu não levo nada fechado e preparado com perguntas prévias.
09:46
Eu entro no estúdio, sento-me e arranco a conversar.
Jorge Correia
09:51
E não tens medo do vazio? Quer dizer, e agora… Isto agora não tenho uma pergunta para fazer.
Júlia Pinheiro
09:57
Não, não, mas eu tenho uma pergunta. Se estiveres a conversar, se estiveres a conversar e for de facto um verdadeiro momento de temperatura comunicacional, tu falas. Como falas com o senhor do café, como falas com a pessoa que encontras no consultório do médico, ou um interlocutor qualquer que tu encontras em qualquer sítio. Arranjas sempre, tens de ter alguma experiência. Eu não digo para toda a gente fazer isto, não é? Tens de ter alguma experiência e tens, por exemplo, de ter, assim, as técnicas, uns desbloqueadores de conversa, assim, umas coisas que tu sabes que quando lanças para a frente a pessoa reage com emotividade, às vezes na defensiva, portanto, eu faço sempre, tenho, acho que não tenho dúvida nenhuma que eu não entrevisto hoje,
Jorge Correia
10:41
eu converso. Mas quando vais para um programa, tu tens uma ideia ou uma estrutura de perguntas que preparas antes?
Júlia Pinheiro
10:46
Eu tenho manchas, tenho manchas, tenho manchas, imagina, quem está comigo, eu tenho sempre uma, Há alguém no auricular, não é? Portanto, há uma editora de regi que me ajuda no controle dos tempos sobre as manchas de conversa. Portanto, imagina, eu hoje tive uma senhora, eu hoje fiz o programa, não é? Indireto.
11:05
E eu hoje tive uma senhora que tinha, primeiro falámos das dificuldades dela na adolescência porque é que se desencadeou uma série de acontecimentos. Adolescência. Depois, idade adulta.
11:15
Depois vamos ali, damos ali uma voltinha e o que me vai dando, portanto, o tempo destas manchas, é a minha editora de regi, que quando me vê em dificuldades, e às vezes acontece, por exemplo, é muito útil nos nomes, nas datas. Foi em 1962. Um contexto qualquer.
11:36
Uma informação que é útil para ajudar a enquadrar aquela pessoa. E às vezes, quando estou em dificuldades, quem está na regi comigo dá-me ali o input muito rápido, porque isto tem que ser, são propostas muito rápidas. Infância, falo do pai, sei lá, este tipo de coisas.
11:57
Portanto, são caminhos, no fundo. São pistas, abre ali, para onde é que vamos a seguir, e aquilo ajuda a continuar a conversa.
Jorge Correia
12:04
Sendo que isso depende muito também da pessoa que tu tens ali à tua frente, e que pode, num determinado momento, ou bloquear ou surpreender-te, no fundo é isto, não é? Essa é a magia,
Júlia Pinheiro
12:17
Jorge, essa é a magia. Tu entras e há pessoas que tu dirias que tu sentes pela postura física, entram defensivas, com os braços fechados, e eu já sei ler isso tudo. Isso é o que, cá está, é a experiência, são os anos.
12:32
Ali sentada. E eu já sei ler isso tudo. Portanto, tento descontrair, tento brincar às vezes, e depois tens surpresas espantosas.
12:40
As pessoas que tu achas que às vezes não são capazes de uma grande elaboração sobre os… Às vezes, por exemplo, a senhora que eu tive hoje foi comovedora. Era uma história de vida espantosa Muito difícil A senhora não estava habituada a falar dela própria E sempre que eu lhe punha questões Que tinham muito a ver com A sua dimensão enquanto mulher Enquanto Nas expectativas da vida dela Do que é que ela tinha sonhado Ela ficava um bocadinho perplexa Porque ela nunca se tinha permitido Pensar no que eu lhe estava a perguntar De forma pessoal Que tinha a ver com ela Portanto ela não estava habituada a falar de si própria Ela não tinha um raciocínio Sobre si próprio E surpreendeu-me E começou e falou E de repente Eu nessa altura nunca tinha pensado nisso Sim E foi Eu costumo dizer a brincar que sou uma psicóloga de pacotilha Porque eu acho que Imagino que isto passe muito naquilo que é Psicologia clínica Eu não tenho nenhuma preparação de psicologia clínica Mas acho que tem a ver um bocadinho com isto Que é tu identificares a determinada altura, na forma como a conversa está a decorrer, onde é que aquela pessoa te está a dar abertura?
13:51
Onde é que ela vai permitir que aconteça aquela coisa bonita que é, de facto, duas pessoas que não se conhecem estão a conversar às vezes coisas sobre coisas muito íntimas que sabem que estão a ser vistas na televisão portanto tem uma amplificação enorme
Jorge Correia
14:05
Mas não se esquecem por vezes? Esquecem-se Porque a minha sensação é que tu hipnotizas as pessoas Tu estás a olhar para as pessoas na realidade e estás a dizer olha, estou aqui, olá, eu sou a querida Júlia estamos aqui os dois, por acaso está aqui umas câmaras e afins, mas… Não,
Júlia Pinheiro
14:20
não, eu não tenho eu acho que as pessoas se esquecem às vezes porque estão confortáveis acontece muito as pessoas entretas dizem, ai, estou muito nervoso ou estou muito nervosa e tu sentes toda uma aflição física, não é? Parece-me normal,
Jorge Correia
14:31
não é?
Júlia Pinheiro
14:31
Completamente, e depois eu digo sempre, ai, por onde é que eu olho? Olho para mim ai, mas não olho para as câmaras os senhores apanham, eles estão ali e apanham-nos que são as câmaras, não é? E depois, aquilo quando a pessoa se esquece deixa de estar alerta em relação àquele friso ali de técnicos e começa a entregar-se é fantástico, mas eu não quer dizer, isso tem só a ver com capacidade de nos entendermos, de sermos de conseguimos ficar próximos Tem a ver com empatia?
15:04
Tem tudo a ver com empatia, tem a ver muito com empatia tem a ver com curiosidade não se pode nunca pôr uma conversa sem ter curiosidade. Tu tens que estar curioso em relação àquele indivíduo, à pessoa que está à tua frente e depois tem que ser uma coisa de… não tens nenhum tipo de preconceito.
15:22
Não tens nenhuma outra leitura, não podes ter. E aqueles 60, 50 minutos úteis que eu tenho ali com aquela pessoa, já tive várias formatações, tive duas horas, duas horas e meia, com vários entrevistados e aqueles minutos pertencem-lhes. Eu não estou atenta a mais nada.
15:40
Eu estou completamente centrada naquela pessoa.
Jorge Correia
15:43
Isso resulta… Olha, deixa-me dar um passo atrás, que é todas as pessoas que têm uma vida pública e uma exposição na televisão como tu tens, há bocadinho estavas a falar da questão da vaidade, não é?
Júlia Pinheiro
15:53
Que é tramada. Pode ser uma armadilha muito difícil.
Jorge Correia
15:56
Mas há alguma maneira de fazer boa comunicação sem ser vaidoso?
Júlia Pinheiro
16:00
Olha, é uma pergunta interessante. Muito interessante essa. E eu acho que sim, tens razão.
16:05
Acho que há sempre uma pontinha de vaidade. mas tem que ser uma vaidade muito trabalhada, porque, de facto, gostamos de nos ouvir, gostamos de saber que estamos a ser ouvidos, e há sempre uma projeção qualquer do teu ego. Sim, parece-me razoável.
16:23
Mas depois, tu tens que sair da equação. O rei da conversa é quem te visita.
Jorge Correia
16:31
Como é que fazes isso?
Júlia Pinheiro
16:32
Com empatia. Com empatia, com entrega.
Jorge Correia
16:36
No fundo, como é que tu trabalhas o teu apagamento, que é disto que estamos a falar, para fazer vibrar essa ideia de curiosidade? Eu quero saber tudo sobre ti, sobre o que é que tu sentes, como é que tu funcionas.
Júlia Pinheiro
16:49
Neste registro que eu estou atualmente, tem muito a ver com o tom de voz. Falando disso. Quanto mais baixares a voz, eu fui conhecida no passado por ter voz da Pito. O Herman José fez 50 mil sketches a brincar com a minha voz, coisa que muito me honra porque acho sempre que a caricatura é o melhor elogio mas com os anos e principalmente com o passar com a idade a minha voz foi ficando um bocadinho mais grave coisa que hoje me orgulho muito é bonita agora estou aqui um bocadinho à solta mas por exemplo no programa quando estou em função vou baixando a voz e conforme vou baixando a voz aquilo dá uma uma sensação de alguma intimidade dá alguma sensação depois tem muito a ver também com a gestão dos silêncios se tu não podes fazer logo a pergunta umas atrás das outras
Jorge Correia
17:46
Mas tens vontade? Não, não Já consegues dominar isso? Completamente É que eu estou a pensar aqui que as pessoas da escola da rádio têm um horror ao silêncio
Júlia Pinheiro
17:55
Eu sei a branca, a branca, a branca Sim, claro, eu ainda hoje tenho isso mas não é nas conversas, já aprendi não, eu tenho por exemplo é quando estou a fazer outro tipo de programas aquela coisa de um pivô em cadeia ou outro, eu estou e não sei o que, aquela sensação horrível, agora há aqui uma espécie de um nano segundo silêncio e eu fico terrorizada, eu não deixo que aconteça por exemplo, para gravar, dá uma voz de ação e eu quase não dou espaço carreguem no play para gravar ainda não estou devidamente misticada, mas nas entrevistas não, nas entrevistas sei sei perfeitamente como é que perfeitamente, ai parece que estou aqui, meu Deus mas tenho a noção que o silêncio até que ponto é que posso aguentar o silêncio para que ele resulte qualquer coisa do outro lado
Jorge Correia
18:42
E aquelas pessoas que dizem uma determinada coisa e depois param e tu percebes que a resposta boa está ali do outro lado está mesmo ali a sair e portanto é melhor esperar
Júlia Pinheiro
18:52
Se for possível Porque entretanto essa editora de rejei dizer-te não, não falta o tempo
Jorge Correia
18:58
O que é uma pressão grande sempre para conseguir…
Júlia Pinheiro
19:02
Sim, para conseguir que aqui uma conversa tenha uma determinada, eu gosto da palavra temperatura, porque eu costumo dizer que é quando fica quentinho, é quando tu sentes que está a levantar fervura e que está a haver troca.
Jorge Correia
19:17
E as entrevistas têm isso? Quer dizer, partem do frio para o muito quente ou são uma espécie de ondas com ritmos diferentes?
Júlia Pinheiro
19:25
Se correr bem é uma progressão sempre ascendente. Se correr bem, às vezes não. Às vezes não.
19:33
Há pessoas que se vigiam muito, que entregam muito no início e depois a seguir escondem-se um bocadinho. Há pessoas que nunca deixam de estar tensas e, portanto, é difícil. Prefiro mil vezes entrevistar pessoas anónimas, por exemplo, do que figuras públicas, gente desta área ou da área de espetáculo.
19:52
Os treinados. Os treinados. Esse é muito difícil, porque realmente já vêm completamente amestrados, não é?
20:00
E têm uma noção da sua comunicação muito formatada e às vezes muito fria. E está melhor. Ultimamente está melhor.
20:08
Há gente agora que já é mais… Eu costumo dizer que são mais generosos. Numa conversa é preciso ser generoso.
20:13
Senão a coisa não resulta.
Jorge Correia
20:14
Se traz o guião, se traz a cassete…
Júlia Pinheiro
20:16
Não, e não me pergunto sobre isso. E agora tenho um travão aqui, e agora tenho o travão lá, e agora é um problema.
Jorge Correia
20:22
Ainda bem que me pergunta isso, não é?
Júlia Pinheiro
20:23
Isso é mais a área de informação, não é? Que tem no fundo mensagens para entregar. Nestas entrevistas da área do entretenimento, raramente há uma coisa do ainda bem que me perguntam, porque à partida não há… Agora, quando meto políticos, também já tive a minha dose, não sou particularmente feliz, porque esses são muito difíceis. Olha, como é que se escolhe alguém
Jorge Correia
20:46
para aparecer no teu programa?
Júlia Pinheiro
20:49
Tem a ver… Os critérios são simples. Atualmente, os critérios são simples, têm que ser histórias que são substantivas no sentido que são vidas cheias, ou que alguém que vem contar uma situação que é extraordinária.
21:03
Hoje em dia, no passado, mudou muito, olha, eu estava a falar da diferença de comunicação, por exemplo, no passado, e não é um passado como de anos, 20 anos, 15, era difícil limiteres a alguém que sentasse, por exemplo, a falar de violência doméstica, porque as pessoas não queriam, eram muito invasivo, expunham-se assim, ou desfiar as suas histórias familiares E há assuntos que são tabu? Atualmente, vou-te dizer, não sei se há algum assunto tabu Eu acho que aí permito-me um elogio aos nossos colegas àqueles que estamos nesta indústria, na área de informação e de entretenimento, que com o tempo e com a forma como as coisas evoluíram para conseguirmos pesquisar muito difíceis no passado, mas olha, aí devo muito, por exemplo, à minha relação de conteúdos, que faz um trabalho extraordinário, a pesquisar, a descobrir, a identificar pessoas que têm coisas para contar. Atualmente temos histórias quase sempre extraordinárias, porque é tão, o crivo é tão fino, tão fino, tão fino, que hoje em dia tenho sempre uma história que as pessoas dizem isto não era possível, isto não é possível, isto não aconteceu.
Jorge Correia
22:17
E isso implica que a equipa de produção contacte essas pessoas, faça alguma conversa com elas, se retire…
Júlia Pinheiro
22:23
Sim, sim, sim. Nós temos uma metodologia de trabalho, pelo menos nesta produção, neste programa temos uma metodologia de pesquisa que é os jornalistas procuram identificam, andam à procura e depois, antes da pessoa vir a estúdio são entrevistadas por eles portanto são validadas as informações. Temos um jornalismo eu digo de excelência e fico às vezes muito irritada já, agora que estou ao microfone, aproveito para dizer que fico muito irritada quando desvalorizam este tipo de jornalismo.
22:57
Se quer, é de propósito, não é? Eu não diria que é de propósito, eu diria que é desconhecimento puro. Porque faz-se coisas extraordinárias.
23:05
Nós temos, no meu programa, mas também com certeza nos outros, na área do treinamento, peças que podiam, honravam, davam um brilho imenso a qualquer jornal. Então os jornais atuais são, de facto, às vezes, são um bocadinho… Secos?
23:23
Não. Eu acho um jornalismo fácil. Que é um que não se mexe muito.
Jorge Correia
23:31
O jornalismo de sentado na cadeira. Um bocadinho. A minha sensação é que hoje tenho alguma dificuldade.
23:38
Bem, enfim, Portugal deve ser o país com mais canais de notícias do planeta. Sim, do mundo. Sem nenhuma dúvida.
23:44
Portanto, nós conseguimos sempre ir vendo notícias ao longo do dia. mas quando me apanho a ver os telejornais a minha sensação é exatamente essa ou de não novidade, mas isso a culpa é minha por outro lado de não me surpreender de não dizer, olha está aqui uma história olha está aqui uma pessoa
Júlia Pinheiro
24:00
Eu sei, eu sei, eu sei porque tive funções executivas e sei que é muito caro fazer um jornalismo de investigação sistemático de ter peças que têm muito trabalho Porque há um imediatismo para responder e há o confronto e a competição constante e a captação da audiência. Eu sei isso tudo. Mas às vezes fico tristíssima porque acho que não cumpre a função.
24:33
Não cumpre a função. Tudo acelerou por causa das redes sociais. Portanto, quando chega a hora do jornal, já sabemos tudo.
Jorge Correia
24:39
Já vimos tudo.
Júlia Pinheiro
24:40
Por amor de Deus, explica-nos. Vão buscar o que ainda não vimos. Vão buscar aquilo que ainda não entendemos.
24:48
Não se fique pelo fácil. E despacha-me uma peça de um minuto sobre o assunto A ou B. Eu sei que também é preciso, às vezes, um jornal na televisão hoje em dia, por exemplo, pode ter uma hora e meia. Isto é muito difícil.
25:03
E isso tem a ver com rácios de negócio. É preciso preencher aquele slot. Mas perde-se depois o olhar sobre coisas que eu acho que fazia falta ver.
Jorge Correia
25:16
Porque há tantos assuntos são repetições, das repetições, das repetições.
Júlia Pinheiro
25:19
Mais ou então peças, enfim, abordagens muito simplistas de coisas que já vimos.
Jorge Correia
25:24
Estou a lembrar-me agora de um debate que é importante e que se teve em Portugal a propósito, à volta das questões das reformas, e que nós ouvimos foi são de baites, são de baites, são de baites, a favor, contra, a favor, contra. E eu disse, então e quem é que me parece aqui a explicar o que está a passar? E o que é que me pode acontecer? E o que é que vai acontecer? E porquê que a Wade ser a favor ou contra? No fundo é isto,
Júlia Pinheiro
25:48
não é? Exatamente, a informação é isso mesmo, é descodificar para nós entendermos. Mas, por exemplo, eu como tenho muito este lado das histórias de vida, eu não consigo entender, lembras-te do que aconteceu neste verão, quando aqueles dois miúdos, aqueles pequeninos, foram abandonados ali na zona da comporta, e aquele padeiro, aquele senhor fantástico, os acolheu.
26:09
É uma história extraordinária. Eu vi alguns cinco repórteres Na propriedade Não, não, não Na terra de origem Naquela vila, cidade De onde provinha a mãe com as crianças Mas não vi ninguém A cavar Que história que está aqui O que é isto? Eu vi umas considerações Estava nesta escola O presidente da câmara, o maestro A dizer, pois, e tal, segurança social E tal, identificou-se Mas depois a história A história daquela família A história daquelas pessoas O que é que aconteceu?
26:47
A minha curiosidade sobre aquilo é imensa Não fiquei satisfeita Em nenhum dos canais que vi Em nada
Jorge Correia
26:55
Tens um método para ensinar a curiosidade aos miúdos que aparecem?
Júlia Pinheiro
26:59
Paixão Eu sou muita paixão Estás a ver, já estou aqui toda acelerada Eu tenho uma grande paixão Para aquilo que nós fazemos Porque acho que ainda somos ainda somos, de facto, uma espécie de… apontamos um caminho, porque temos mais, ou devíamos ter mais tempo para refletir sobre as questões que o cidadão comum não tem. É por isso que nós somos jornalistas.
27:21
É por isso que nós somos profissionais da área da comunicação. Portanto, este espaço é duro. Há bocadinho este estúdio é um espanto.
27:30
O tempo que nós vamos estar aqui é um momento de privilégio. E sempre que vamos à antena fazer seja o que for, é um momento de privilégio, assim como poder os meios para irmos fazer pesquisa e não é pesquisa só fazer perguntas ao JGPT ou fazer pesquisa no digital, não, é pesquisa mesmo, é cheirar a história portanto, é isto que eu fui formadora durante muito tempo, fiz formação mais na área da apresentação, não no jornalismo mas a todos passei a mesma fórmula paixão, paixão no momento em que tu estás lá, agarra e dá para ensinar isso? dá para mostrar Pois cada um assimila ou não O meu entusiasmo Espero que sim, que tenha sido muito transparente E espero que tenha contaminado alguém
Jorge Correia
28:17
E seguramente é contagioso, lá está Mas esse ponto Dessa curiosidade, dessa passagem E do fim de 40 anos estar
Júlia Pinheiro
28:25
Estar ainda quase intacta Não
Jorge Correia
28:29
O que é que fazes nos momentos em que Em que dizes Ufa, outra vez Porque há esses momentos Como é evidente
Júlia Pinheiro
28:38
Porque entendo que a repetição acontece. Toda esta atividade também é feita de muitas repetições e de passarmos a mesma mensagem muitas vezes.
Jorge Correia
28:50
E é alta competição, quer dizer, tu…
Júlia Pinheiro
28:53
Mas pronto, faz parte do jogo. Nós sabemos que há dias que os assuntos não são tão interessantes como noutros. Mas agora, é a tua função.
29:02
Teu dever. Mostras a tua capacidade para lhes dar um toquezinho de frescura. lhes dar qualquer coisinha que as pessoas diziam já tinha ouvido, foi este tipo a falar ou esta história a ser contada, mas houve aqui qualquer coisa que me surpreendeu.
29:15
É essa a tua competência.
Jorge Correia
29:17
E é isso que tu tens que fazer verdadeiramente para conseguir no fundo alimentar aquilo que está a acontecer. Quando a televisão às tantas te baixou um bocadinho o nível de paixão, decidiste ir para o teatro para cima do palco.
Júlia Pinheiro
29:30
Sim, sim. Isso tem a ver… E foi assustador.
29:36
Porque o Poco é assustador. O Poco é assustador. Eu não tinha noção.
29:40
Eu não tinha noção.
Jorge Correia
29:41
Sais da casinha?
Júlia Pinheiro
29:42
É mais do que sair da casinha. É uma exposição inteiramente diferente. É outro privilégio.
29:49
É um momento que não se repete. Não se repete. Aquele espetáculo feito daquela maneira naquela noite ou naquela tarde nunca se repetirá da mesma forma.
29:58
Porque na noite seguinte farás-se seguramente de maneira diferente. Depende do público? Depende do público. Depende de nós.
30:03
Depende da… Por exemplo, nesta última peça que fiz tinha muito a ver com a contracena e eu tenho tido muita sorte. Porque todas as pessoas com que eu tenho trabalhado no teatro têm sido espantosos professores e têm tido a grande generosidade e a grande abertura de me ensinar, porque eu não sei nada daquilo.
Jorge Correia
30:21
Contracenas com profissionais? Com atas profissionais?
Júlia Pinheiro
30:23
Com atas profissionais, sim. Excelentes. E sempre que… Sei que vou para a palca e que estamos… Aprendi a confiar e que estou respaldada pelos outros. Mas aquilo é sempre muito assustador Porque há momentos para já Porque aquilo Tu tens docentes quando a sala está interessada
Jorge Correia
30:43
Consegues ver isso no público?
Júlia Pinheiro
30:45
Não consegues Há um grande colega e amigo Que é o Heitor Lourenço Que teve na última peça que eu fiz Ainda antes de entrarmos em palco Ainda não tinha descerrado a cortina Portanto a cortina não tinha sido levantada Ele depunha-se Já estou a ouvir-lhes Ah, isto não vai dar hoje Isto não vai dar hoje Ele conseguiu identificar É a bela respiração das pessoas a falarem, aquela broá, sabe? Aquele broá das pessoas a sentarem, não sei o que. Ele dizia, estou a cheirar isto não. Estas hoje são espantosas. Vais vir isto hoje, vais correr maravilhosamente.
Jorge Correia
31:15
E quase sempre tinha razão. E depois há uma interligação. Isto é, tu estás em palco e alimentas-te o público e vice-versa.
Júlia Pinheiro
31:22
Sim, sim, sim. Completamente. Tu percebes, tu tens…
31:26
Tu consegues lê-los. Lê-los. Eu pensei no início, que quando comecei a fazer teatro que não via as pessoas.
31:35
Portanto, eu estava no palco a luz é tão forte, a iluminação é tão forte que tu não vias as pessoas. Mas vês. Vês? Vês.
31:42
Se tiver num momento de pausa num momento de pausa qualquer tu consegues ver se as pessoas estão atentas se não estão se vão Há uma coisa horrível que algumas pessoas vão para o teatro e mexem no telemóvel, que é uma coisa que eu queria pedir aqui não façam isso em um espetáculo Vês a luz, não é? Vês a luz Ficamos perfeitamente desconcentrados Ficamos com uma sensação de intrusão Há qualquer coisa que não está a resultar E aquilo desequilibra Também é muito chato As pessoas que vão comer repressados Que fazem Porque tudo está amplificado Quando está em palco E as coisas mais extraordinárias Por exemplo, aconteceu nesta última peça Que eu fiz, a mais velha profissão Houve um casal Tem uma história que eu acho que nunca contei Um casal que é tão entusiasta Tô entusiasta do teatro mesmo tendo uma criança de seis meses levou-a para o teatro escondida debaixo de um casaco portanto, estamos nós em palco e eu tinha um momento de confrontação com a Paula Guedes e estávamos ali as duas quase, nariz com nariz e de repente ouvimos na plateia e nós as duas a tentar enfim, não desmanchar não desmanchar, não desmanchar e o primeiro raciocínio Isto é um telemóvel. É alguém que tem um som de um bebê no telemóvel.
33:02
Passado um bocadinho. Era mesmo o bebê. Ou seja, as pessoas provavelmente tinham que comprar os bilhetes, não tiveram onde deixar a criança, e levaram a criança era a mesma.
33:10
E muito bem. E muito bem nada. Nós tivemos desorientados o tempo todo, e no final estava toda a gente quase a ter uma síncope para perguntar, mas era um bebê?
33:20
Como é que o bebê entrou? Pronto. Porque aquilo também é um espaço.
33:23
É um espaço de enorme… Nós não temos proteção nenhuma.
Jorge Correia
33:27
Há uma liturgia e, portanto, o palco no fundo…
Júlia Pinheiro
33:30
É uma liturgia, é uma liturgia. E nós não temos, se alguém quiser, pois os meus colegas, estes meus colegas, que eram todos muito sénios, a Helena Isabel, a Paula Guedes, a Paula Moura, o Heitor Lourenço e a Valerie Bradel, era a turminha da mais velha profissão. E eles contaram imensas histórias.
33:45
Pessoas que entraram em palco. Uma vez uma pessoa, a Helena Isabel, uma vez numa revista, um tipo subiu para cima do palco para insultar. E tu tens que dar contra-se-na a isso também.
33:55
Mas imagina que era para outra coisa qualquer, que era para te degredir. É um espaço de uma enorme, enorme, enorme exposição. Ainda mais velha profissão, houve um momento lindíssimo, era sobre a prostituição.
34:07
E a prostituição, aquela prostituição sofrida, que ainda hoje existe, hoje será um bocadinho diferente, mas eram, portanto, mulheres muito sofridas, muito batidas pela vida, pela economia, uma metáfora para a economia capitalista. E no final, estamos lá no momento aplausos, que é sempre muito quentinho, arranca uma senhora pela plateia, com um ar decidido e que ninguém ia parar.
Jorge Correia
34:33
Com um ar louco.
Júlia Pinheiro
34:34
Sim, com um ar de uma… eu tenho que dizer que é os aplausos, aquele momento também faz parte da liturgia, é sagrado. E ela tira-se para cima do palco, mas ainda ficando um bocadinho num plano abaixo, tira-me um ramo de flores e diz isto é por todas nós.
34:51
Eu fiquei completamente, mas completamente escuroçoada E não consegui identificar o que é que ela me estava a dizer naquele momento. Fiquei comovidíssima. E depois achei que, de facto, ela me estava a adorar outra mensagem.
35:05
E ela vinha de outro mundo. E tinha ficado emocionada e grata por estarmos a retratar qualquer coisa que…
Jorge Correia
35:12
No fundo, a mostrar o mundo dela.
Júlia Pinheiro
35:14
Provavelmente.
Jorge Correia
35:16
E tu consegues estar no palco esquecendo-te que és a Júlia Pinheiro?
Júlia Pinheiro
35:20
Sou a Júlia Pinheiro, sim. Sou a Júlia que está a entregar Bem aquele momento Da liturgia, como tu dizes Às vezes tenho imensas dúvidas Aliás, acaba-se sempre com imensas dúvidas Há uns dias em que achas que entras completamente Está muito bem, estou muito bem disposta Estou muito bem disposta Não me esqueço, tinha pavor das brancas Tinha pavor de esquecer o texto
Jorge Correia
35:42
Mas aí tens ali uma rede importante
Júlia Pinheiro
35:45
Não, às vezes perdemos o texto Mas os colegas ajudam Agora, por exemplo, imagina, um monólogo Um monólogo é uma coisa que eu nem quero imaginar mas tinha duas atrizes comigo. Eu fiz os Menólogos da Vagina, que foi a primeira experiência, e eu tinha ali grandes náquitos de texto. E isso mete um bocadinho medo de tudo.
36:02
De repente aquilo sair da tua cabeça. E não conseguires preferir aquilo. Mas depois arranjei também.
36:08
Estás respaldado. Os colegas ajudam. E aquilo avança.
36:12
E quando saltamos? E fazemos a peça andar mais depressa. Ou retardamos.
36:17
Ou porque não entramos no momento certo. Por isso é que eu acabava sempre com uma sensação, podia ter morrido e não morri.
Jorge Correia
36:24
E sobrevivi lá,
Júlia Pinheiro
36:25
ganhaste essa emoção. E venho outra vez à manhã.
Jorge Correia
36:28
Que remédio tem que ser. Esta peça sobre a consciência destas mulheres muito vulneráveis, é fácil ser mulher hoje, em 2026?
Júlia Pinheiro
36:40
Não. Não, não. Não estou nada tranquila em relação a isso.
36:44
Aliás, há estamos a dar passos que me assustam profundamente, porque grandes grandes questões que pareciam estar resolvidas parece que não estão há uma coisa que me deixa muito triste que é esta esta erupção outra vez muito marcada do machismo retrógrado de uma espécie de de comportamento muito muito despropositado e rude daquilo que são as manifestações masculinas? Consigo. Acho que sim.
37:26
Acho que tem a ver com mediadores. Ou seja, as famílias hoje provavelmente não conseguem entregar da mesma forma naquilo que é a educação dos seus filhos. Depois há a questão das redes sociais, que é crucial nisto tudo.
37:42
A polarização. A polarização e, sobretudo, a disseminação de modelos de comportamento que, na ausência de qualquer outra referência, os jovens começam a incorporar como sendo aquilo que é um objetivo a atingir, é daquela forma que se devem comportar. Portanto, fico muito triste que isto aconteça, porque eu sempre achei que vivíamos…
38:08
As mulheres nunca estão exatamente seguras. É uma coisa que eu só…
Jorge Correia
38:12
Fala-me disso, mas porquê? Tu seguramente és uma mulher especial e, portanto,
Júlia Pinheiro
38:18
Também tens esta sensação? Não, não tenho. Mas lembra-me da minha adolescência.
38:24
Havia olhares. Há olhares sobre o corpo feminino. Do lado masculino.
38:31
Que são muito desagradáveis.
Jorge Correia
38:33
Fala-me desses olhares. Porque pode haver um olhar de admiração?
Júlia Pinheiro
38:36
Um olhar de desejo? Não, não, não. Tem a ver com…
38:40
De posse? Sim, com uma… Não há ali nada de saudável, sabes?
38:47
E portanto hoje e no passado, eu por acaso não tinha muito refletido, se não há mais para trás na minha vida, mas sim, seguramente houve situações em que adolescente ou ali no início da idade adulta, transportes públicos, é sempre um sítio onde pode acontecer coisas muito desagradáveis e que hoje, no passado, isto era punido. Hoje, não tem uma punição pública, não é uma punição pública, não é a palavra certa, não há uma espécie de crítica pública muito vincada sobre isto.
Jorge Correia
39:26
Há uma tolerância?
Júlia Pinheiro
39:27
É uma tolerância. Não é tolerância, é uma indiferença. Faz parte.
39:32
Faz parte. E, de facto, toda esta mudança de comportamento sobre os códigos de vestuário, quer dizer, nós conquistamos a liberdade há 50 anos, justamente para ninguém se preocupar. Levou imenso tempo.
39:48
Levou imenso tempo até que tudo isso fosse simplificado e que até nas relações interpessoais, as questões da posse e da forma como as pessoas se controlam entre o masculino e o feminino e as relações de poder dentro de um casal, tudo isso fosse vivido de outra maneira e quem evoluiu, evoluiu, e quem não evoluiu, fez o podo. Pronto. Agora sinto ameaça.
40:11
sinto ameaça, sinto que estas coisas, no dia alguém me contava, que os miúdos no namoro têm as localizações onde está a namorada, onde está o namorado. É uma coisa de controle que eu acho tristíssima. Nunca ouvi-te lá disto?
Jorge Correia
40:29
Eu ouvi das trocas de passos
Júlia Pinheiro
40:31
dos telemóveis e ver as mensagens. Também. É a mesma coisa que no passado tu abris uma carta de algo que não te era dirigida. Só que eu acho que hoje é muito mais invasivo.
Jorge Correia
40:40
É uma violação da própria intimidade.
Júlia Pinheiro
40:42
É uma violação da própria identidade, não é da intimidade.
Jorge Correia
40:46
Mas consegues perceber, no fundo, uma pergunta quase sociológica, que é o que é que pode estar em causa para haver este movimento retrógrado? Isto é, quem tem interesse…
Júlia Pinheiro
40:59
Porque estamos aqui num momento muito de radicalização ideológica, no fundo, não é? E, portanto, estamos a estremar. Deixou de haver um centro político, sociológico.
41:14
Há aqui uma série de coisas que foram todas para os extremos e no meio há um vazio. E esse vazio foi ocupado pelas redes sociais. E as redes sociais estão sempre a enviar mensagens para padronizar um determinado tipo de comportamento que vai para um lado ou vai para o outro.
Jorge Correia
41:29
Que é aquilo que atrai mais tempo lá na rede social.
Júlia Pinheiro
41:31
Exatamente, dá-te mais baitos, mais cliques, aquelas coisas.
Jorge Correia
41:34
Olha, tu reeditas um livro que tinhas escrito há 17 anos. Com quatro gerações de mulheres
Júlia Pinheiro
41:40
Cá está, cá está Está lá tudo
Jorge Correia
41:43
Mas isso é um problema no sentido de que Não estou lá às redes sociais Releste antes de aceitar Repubblicar, releste?
Júlia Pinheiro
41:51
Reli, claro Não podia ser de outra maneira Não, não, não Reli O livro há 17, 18 anos Teve um assinalável sucesso Teve sete edições, correu muito bem E depois foi esquecido. Como acontece, não é? Foi esquecido. E eu nunca mais tinha pensado no assunto, mas agora fui abordada, este ano fui abordada pela Planeta, para reeditarmos o livro e, portanto, revê-lo outra vez toda e ver se havia coisas para tirar ou propor.
Jorge Correia
42:25
Ainda reescreveste alguma coisa?
Júlia Pinheiro
42:26
Nada. Nada. Nada, nada, nada, nada.
42:28
Achei que o livro era honesto, que tudo o que eu tinha escrito à época eu não alterava Hoje, a minha leitura mesmo, passados quase 20 anos, sobre aquilo, essencialmente, são quatro gerações, começam ali no final dos anos 30 e depois vão para ali fora até ao 25 de Abril, um bocadinho mais à frente o 25 de Abril. E tudo aquilo que eu pensava e escrevi na altura, está certo ainda, ainda está certo. Não sei se eu com ainda mais reedições, mas para a frente.
43:01
Não, está certo aquilo é um retrato da época. É sobretudo um retrato da época.
Jorge Correia
43:04
São 60 anos?
Júlia Pinheiro
43:05
São 60, 70 anos. É um espaço doméstico O meu intuito com aquele livro foi Contar a história por dentro E fala-se do silêncio, não é? Porque há silêncio nas casas E fala-se da falta de amor
Jorge Correia
43:21
Há não dito nas casas, nas famílias?
Júlia Pinheiro
43:24
Não há, é o que há mais O meu objetivo era contar A história dos últimos 70 anos De uma forma singela porque não tenho a intenção de ser mais do que isso, um retrato, o meu retrato, aquilo que eu… Porque muito do que ali está são histórias que eu ouvi. São histórias que me foram próximas, de uma maneira ou de outra.
Jorge Correia
43:48
E fizeste um plano ou foste escrevendo?
Júlia Pinheiro
43:51
Fiz. Eu tinha mais ou menos um esquisso da evolução das personagens, mas depois aquilo foi surgindo. Há muita coisa que surge no momento. Havia uma fluidez, digamos assim Que temos hoje não ter Não escrevo com tanta facilidade
Jorge Correia
44:07
Não te apetece?
Júlia Pinheiro
44:09
Não, não, não estou a escrever
Jorge Correia
44:10
Estás?
Júlia Pinheiro
44:11
Estou a escrever, mas não está a ser tão fácil Mais difícil? Sim, agora é mais difícil
Jorge Correia
44:16
Mas porque o tema é mais difícil?
Júlia Pinheiro
44:17
Não, porque tenho muito mais informação Porque li muito mais, eu leio muito Eu leio imenso
Jorge Correia
44:23
Tu tens um clube, o clube da Juliana
Júlia Pinheiro
44:25
Tenho um clube de leitura Que é um clube virtual? Ainda não é bem um clube, vai ser
Jorge Correia
44:31
Rio-me sempre com os meus óculos Vou tirar os óculos, vou pôr os óculos antes de falar
Júlia Pinheiro
44:35
Tem a ver com o cuidado Com a necessidade Com a luz
Jorge Correia
44:40
Como é que tu escolhes os livros? Os que pões lá na tua curadoria
Júlia Pinheiro
44:44
Eu sou a chamada leitora homenífera Ou seja, eu leio tudo Tudo o que vem O bom e o mau e o que eu vejo E sim, acho que sou particularmente
Jorge Correia
44:53
Em papel ou já nos eletrónicos?
Júlia Pinheiro
44:54
Não, não, não, papel Não tenho paciência, não tem graça nenhuma Não cheira, não toca Não, não é físico Mas podes levar a biblioteca inteira Eu carrego atrás de mil livros Um caçaco de livros Qual de férias? Eu dou um sítio para o outro
Jorge Correia
45:09
Então como é que tu escolhes? Tu vais falar, no fundo, estás a influenciar pessoas Leiam isto ou não leiam aquilo
Júlia Pinheiro
45:14
Não, eu não estou a influenciar ninguém Eu faço elogios Só? Só faço elogios Portanto, ou seja, quando eu gosto muito Pego na minha câmarazinha do telemóvel e digo Este livro espantou-me por esta, para aquela razão Isto, aquilo e aquilo outro Nunca faço uma crítica negativa
Jorge Correia
45:30
A sério? Nunca E se não lês? Desistes?
Júlia Pinheiro
45:33
Não falo Tu sabes que a minha formação académica É em literatura Eu sou formada em línguas e literaturas modernas Em inglês e alemão Já não sou capaz de ler em alemão Mas pronto E portanto aprendi muito nessa altura A fazer uma coisa que é Aquelas leituras Rapidamente tu apanhas o que é a escrita o tom e ou ficas interessado ou não ficas análise texto no fundo aprendi-me, tenho essa técnica aquilo vai tudo e portanto eu consigo rapidamente ver, mas eu gosto, por exemplo, eu adoro filmes maus e adoro livros maus
Jorge Correia
46:14
isso é uma espécie de prazer
Júlia Pinheiro
46:16
é o que é a pleasure é completamente, eu adoro um livro mau ou pelo menos um livro que eu acho que não não tem ali a estrutura e o recheio que eu estava à espera eu digo sempre se calhar posso escrever porque eu escrevo melhor que isto é uma espécie de validação assim um bocadinho errada invertida, mas é uma validação depois leio uma coisa muito boa e fico, ai meu Deus nunca mais na vida sou capaz de escrever
Jorge Correia
46:46
e aquelas últimas páginas dos livros muito bons que tu sabes que vai acabar aquele livro
Júlia Pinheiro
46:51
é porque estou zangada porque eu gosto de livros com 800 páginas Eu sou a mulher mais feliz com um livro Com acima das 500 Adoro, porque fico ali naquele universo Muito tempo, é muito bom
Jorge Correia
47:02
O que é uma coisa extraordinária Olha, não quero, nós estamos praticamente a terminar Mas há um
Júlia Pinheiro
47:08
Não sei nada sobre o amor Então chama-se o livro, não se esqueçam, está em pré-venda
Jorge Correia
47:12
Então somos dois
Júlia Pinheiro
47:13
Também não sabes nada sobre o amor As minhas personagens não sabiam nada sobre o amor Eu sei umas coisas
Jorge Correia
47:18
O que é que é o amor?
Júlia Pinheiro
47:20
O amor é a vinculação a uma pessoa que te atrai que te conquista e que por vezes te desilude e mesmo quando te desilude tu amas na mesma
Jorge Correia
47:37
Agora podemos deixar o silêncio
Júlia Pinheiro
47:40
Branca, querido?
Jorge Correia
47:41
Olha, estás com uma campanha pública neste momento a propósito do Cuide as Suas Júlias Sim Estamos a falar de Câncer da Mamã, obviamente e isso faz-me deixar uma pergunta para o fim ou para quase o fim porque onde é que tu colocas a tua fronteira entre o que é a tua vida pública privada e o momento em que tu decidiste deixar um bocadinho sobre a tua doença que tu sofrias umas dores que tu sofrias e continuavas a trabalhar e ao mesmo tempo o que é que tu decides partilhar e não partilhar dessa tua parte profundamente íntima
Júlia Pinheiro
48:18
o bom senso o bom senso e a verdade há verdades que são tão íntimas, tão íntimas que tu não as partilhas e há outras que eu acho que temos o dever de partilhar porque as pessoas me reconhecem a substância da minha partilha e da minha credibilidade que é isso que me dão os 40 anos de profissional de comunicação, portanto se eu estou a partilhar isso talvez alguém pare para ouvir e diga olha, na identificação eu tenho este problema também eu assumi muito as coisas por exemplo, as dores da menopausa por exemplo, porque achei que era importantíssimo que alguém falasse sobre a última etapa da vida da mulher, que pode ser larguíssima, pode ser de 30 a 40 anos tendo em conta a longevidade e ninguém falava sobre o assunto e eu passei horrores até perceber o que é que estava a passar-se comigo. Portanto, eu tinha que falar sobre isso como mulher, como cidadã, como profissional de comunicação, como, enfim, como pessoa que está neste mundo e tem que partilhar. Tem que partilhar isto. Não andamos sozinhos, não é?
Jorge Correia
49:33
Ainda por cima, tu fazes parte da geração daqueles que não têm idade. Daqueles que não envelhecem.
Júlia Pinheiro
49:37
Mas eu também sou contra isso. O envelhecimento… Não sei bem o que é que me estás a perguntar. Não, não.
Jorge Correia
49:44
Eu não estou a falar das rugas e das raparigas com 17 anos que já estão a fazer tratamentos de prevenção Não é discurso Se tu olhares para esta geração quando eu era miúdo aos 60 anos havia velhos velhos muito maltratados e hoje nós vemos pessoas com 60, com 70 com 80 não é só na televisão
Júlia Pinheiro
50:10
O mundo mudou, a saúde mudou
Jorge Correia
50:13
Há um bem-estar
Júlia Pinheiro
50:15
Há qualidade de vida A qualidade de vida, a saúde mudou o seu paradigma, deixou de tratar doenças e começou a preveni-las. E o facto de tu fazeres um acompanhamento muito maior do teu processo de envelhecimento, que é a coisa mais espantosa que nos pode acontecer na vida, que significa que estamos vivos, mudou tudo. Portanto, viver um…
50:34
Eu nem sei bem o que é um velho. Eu não sou com certeza. Se for fazer 64 anos em breve, não sou eu com toda a certeza.
50:41
Portanto, se houver, de facto, o cuidado de… Se tivermos os meios, se tivermos a informação, mais do que outra coisa qualquer, a informação para irmos tratando de nós, eu acho que isso legalmente a velhice é um conceito que está não faz parte do vocabulário
Jorge Correia
50:55
E mantemos sempre esse espírito curioso
Júlia Pinheiro
50:58
Isso é que é muito importante
Jorge Correia
50:59
Júlia, querida Júlia,
Júlia Pinheiro
51:00
muito obrigada
Jorge Correia
51:02
Obrigado por teres vindo Foi uma conversa extraordinária, mas isso eu já sabia
Júlia Pinheiro
51:06
Foi uma conversa, não foi uma entrevista
Jorge Correia
51:08
Pois, se quiser era impossível, estava sempre a perder Se tivesse que te enfrentar num combate boxe, estava
Júlia Pinheiro
51:14
O conversa nunca é um combate é uma partilha.
Jorge Correia
51:16
Com estímulo. Já. Julia, muito obrigado.
Júlia Pinheiro
51:19
Obrigada, eu.
Jorge Correia
51:22
Pergunta simples. Um programa sobre comunicação. Para quem quer boas respostas.
