A cadeira era amarela. Isso foi o suficiente.
Uma rapariga de catorze anos estava numa sala com quatro professores de teatro à sua frente, e tudo tinha corrido pessimamente. O monólogo decorado como uma lenga-lenga. O diálogo por baixo. A entrevista ainda pior. Quando estava prestes a ir embora, alguém pediu uma improvisação. A cadeira era o único adereço disponível. Ela olhou para a cadeira, sentiu o pânico que tinha dentro, e decidiu, se é que se pode chamar decisão ao que acontece em meio segundo, usá-lo. Fingiu ser uma doente psiquiátrica que se recusava a sentar porque a cadeira era amarela. Fez toda a gente rir. E sentiu, pela primeira vez, uma coisa que nunca tinha sentido na moda. Não soube dizer o que era. Ficou vinte e cinco anos à procura.
Há uma ideia que atravessa toda a conversa com Inês Castel-Branco e que ela nunca formula directamente: a de que a voz não obedece. Comunica antes de decidirmos que vamos comunicar. Muda antes de percebermos que mudou. Na adolescência, era gozada pela voz, aguda, irregular, ainda à procura de si própria. Hoje, quando está em estúdio de rádio com auriculares, sente a tendência de descer ao registo mais grave. “Porque estamos a falar ao ouvido das pessoas”, diz, como se fosse óbvio. Como se a voz soubesse para onde ir quando o ambiente muda. Ela deixa-a ir.
Isto não é uma entrevista sobre representação. É sobre o que acontece quando o instrumento é o próprio corpo, e o corpo tem memória, tem medo, tem uma lógica que não pede autorização. Quando Inês foi filmada pela primeira vez em cinema, a directora de actores prendeu-lhe as mãos. Ela representa com as mãos, sempre representou, é latina nesse aspecto. Mas a Snu Abecassis era nórdica. Contida. E a contenção nórdica não se aprende nos livros. Foi a Estocolmo sozinha, visitou o bairro onde Snu cresceu, falou com pessoas de lá, observou. Percebeu que os nórdicos são tão contidos durante o dia que bebem à noite para se soltar dessa contenção. É uma observação etnográfica feita por uma actriz em preparação de papel, mas tem dentro algo que vai além do método: a ideia de que cada cultura tem uma gramática de comunicação não-verbal que não se declara, que se absorve, que se aprende só por imersão.
Não havia nenhum arquivo sonoro de Snu Abecassis. Uma imagem de arquivo da RTP, sem som. Para construir a voz de uma mulher dinamarquesa que viveu na Suécia, estudou em Inglaterra e casou com um português, Inês gravou uma amiga sueca a dizer o texto todo, depois gravou uma dinamarquesa, isolou os sons que as duas tinham em comum, e foi repetindo em casa, como maluca, disse, até que o sotaque começou a ter consistência. É o tipo de trabalho que raramente se vê, não porque seja raro, mas porque é invisível. O espectador vê Snu. Não vê as horas de gravações, a amiga sueca, a viagem a Estocolmo, as mãos presas.
O paradoxo de Inês Castel-Branco é que passou vinte e cinco anos a construir vozes que não eram suas, e chegou aos quarenta e quatro sem saber muito bem qual é a sua. Não é uma confissão de derrota. É uma observação feita com a serenidade de quem aprendeu a conviver com a pergunta. “Ainda não sei responder a essa pergunta”, disse, quando lhe perguntei o que é que sobra dela depois de tantas personagens. “Juro.” E acrescentou que é uma pessoa de pessoas, que gosta de convívio, de beber, de dançar, de ver arte. Simples. “Uma pessoa simples que não gosta de dar entrevistas.”
Isto importa porque a identidade, quando é construída em público, tende a solidificar-se em torno das narrativas que os outros fazem sobre nós. Ela enumera os preconceitos que sofreu com uma precisão que não é queixa, é inventário: é modelo, é bonita, é filha da apresentadora, tem cunha, namorou com alguém. Cada camada acrescentada à anterior, até que a narrativa sobre ela existia antes de ela ter hipótese de a contradizer. O que fez foi trabalhar. E guardar dinheiro suficiente para poder dizer que não. “Não vou ser hipócrita”, disse, “eu tenho uma casa à paladice.” E desde então, essa casa é a sua margem de liberdade. Se há realizadores que não quiseram trabalhar com ela porque fez publicidade, ela também não quer trabalhar com eles. Não me interessam, disse. Sem amargura. Como quem limpou a lista e ficou com o que importa.
Há uma cena que ela descreve sobre o filho. Tem quinze anos, é um bom comunicador, e disse um dia que ia ao ginásio porque estava “um esparguete”. Ela arrepende-se de ter contado isso em público,sente que foi desbocada, que o expôs. Mas o que a cena revela não é a história do filho. É a consciência de que transmitimos coisas que não planeámos transmitir. Que a linguagem que usamos sobre o nosso corpo entra nas crianças antes de elas terem defesas contra ela. Que comunicamos, mesmo quando não estamos a tentar comunicar nada.
A voz gozada na adolescência tornou-se durante anos a voz que Portugal ouvia sem saber de quem era. A voz que foi substituída continuou a ser sua. A voz que ficou mais doce quando narrou mortes reais precisou de ser reeducada. E a voz que, neste estúdio, disse que ainda não sabe responder à pergunta mais simples, quem é ela, foi provavelmente a mais verdadeira de todas.
A voz revela. Mesmo quando ninguém pede.
A conversa completa com Inês Castel-Branco está disponível no Pergunta Simples.
Ler transcrição completa
Inês Castel-Branco • 00:00
Quando eu trabalho com a voz em rádio, principalmente quando temos estes cascos nos ouvidos, eu tenho a tendência de ir para este tom. Porque estamos a falar ao ouvido das pessoas. Porque estamos a falar ao ouvido das pessoas, porque eu gosto mais deste tom, acho mais bonito e sensual e não tão irritante como o tom agudo. Mas se uma personagem, o agudo servir, nomeadamente personagens cómicas, personagens mais infantiloides… Mais histéricas? Mais histéricas. Se servir, eu uso. Eu uso agudos. Não tenho vergonha nenhuma de ser irritante, como não tenho vergonha de estar feia em personagens que tiver de estar, ou de engordar ou de emagrecer. Eu acho que isso é que é uma das partes mais extraordinárias da nossa profissão. É nós não sermos nós. É a outra pessoa que está ali.
Jorge Correia • 00:50
Pergunta simples Um programa sobre comunicação Para quem quer boas respostas Há algo que fazemos todos os dias sem pensar Falamos E ao falar revelamos coisas que não planeávamos revelar A voz muda quando estamos nervosos Antes de percebermos que estamos nervosos Fica mais doce quando falamos com quem amamos Mesmo que não queiramos que se note E vai para os agudos quando discutimos mesmo quando tentamos parecer calmos. Comunicamos antes de decidir que vamos comunicar. A voz não mente. Ou então mente de uma forma tão particular que a mentira revela mais do que a verdade. Nesta conversa fica-me uma cena. Uma rapariga de 14 anos, tímida, que chega à primeira audição de teatro da sua vida. Corre tudo pessimamente. Lenga-lenga decorada, o diálogo por baixo, o entrevista ainda pior. Quando está prestes a ir embora, pedem-lhe que improvise com uma cadeira. E ela usa todo o pânico que está dentro de si, toda a emoção, e liberta essa emoção. Faz de conta que é uma doente psiquiátrica que se recusa a sentar porque a cadeira é amarela. E faz toda a gente rir. Nesse momento, pela primeira vez, sente uma coisa que a moda nunca lhe dera. Ela não sabe bem o que é e por isso ficou 25 anos à procura. A minha convidada de hoje é a atriz Inês Castelo Branco. Nunca quis ser atriz, quis ser advogada. começou como modelo aos 14 anos, a morrer de vergonha em cada seção fotográfica. Foi uma das vozes que Portugal ouviu todos os dias na publicidade, construiu a voz de uma personagem real, Snub Cassis, que não deixou nenhum arquivo sonoro para ela poder ouvir e a partir de gravações de uma amiga sueca, de uma viagem a Estocolmo, conseguiu compreender como é que os nórdicos comunicam com o corpo. Aprendeu que são contidos, que bebem à noite, para se soltar dessa contenção. E quando lhe pergunto, ao fim de quase uma hora de conversa, o que é que sobra dela depois de tantas personagens, diz-me que ainda não sabe responder. Viva, Inês Castelo Branco és atriz, hoje és menina da telefonia. Estás aqui na telefonia, estávamos a falar da voz.
Inês Castel-Branco • 03:03
Eu gosto do que tu quiseres.
Jorge Correia • 03:05
Tu gostas deste ambiente? Gostas do estúdio?
Inês Castel-Branco • 03:08
Gosto, gosto muito. Eu nunca fiz rádio, na verdade, Porque, quer dizer, fiz os podcasts, é verdade, mas era uma coisa feita em estúdio sozinha com o meu editor, o Paulo, e com tempo, e voltávamos atrás e voltávamos à frente, era uma coisa mais de pós-produção do que do direto. Eu acho que o engraçado da rádio também é o direto.
Jorge Correia • 03:28
Eu, Sofarnazinho, mas no podcast no que tu gravavas não, tu fazias uma frase ou um trecho e depois repetias?
Inês Castel-Branco • 03:34
Não, na verdade eu gravava os meus convidados sem interrupções, portanto, não era uma entrevista. Eles contavam a história na primeira pessoa e eu gravava-os sem interrupções. Mas eu estava ao lado deles. No final da história, se eu achasse que há pormenores que podiam ficar interessantes, perguntava-lhes esses pormenores e eles gravavam mais essas perguntas. E depois, numa fase depois desta, já o convidado não estava, eu gravava a minha narração, Que eram interrupções ao longo do episódio Com informações pertinentes No caso do terremoto Sobre qual era a escala de Richter Quantas pessoas morreram, etc E tens tudo escrito? Tenho tudo escrito Quem escrevia, a minha narração era a Isabel Lindin Que é uma jornalista que é a minha amiga também E eu depois alterava para a minha linguagem A linguagem dela é mais jornalística E eu depois adaptava um bocadinho para mim Para a minha forma de falar E depois, quem fazia a magia da sonoplastia Era o meu Paulo Castanhar Eu estava ao lado dele e dizia exatamente o que é que queria Agora quero aqui um pianinho, vamos lá às músicas de pianinho Agora quero aqui uma travagem brusca Tudo coisas que eu fazia antes sozinha E demorava três horas e meia para pôr um efeito E ele demorava quatro segundos Portanto, a minha vida ficou bastante mais facilitada Quando passei a trabalhar com ele
Jorge Correia • 04:57
Sendo que tu, num caso em particular, num podcast Tu tiveste três anos para lançar um podcast Foi este, sim
Inês Castel-Branco • 05:04
O inacreditável Primeiro porque eu tive a ideia Mas não tinha confiança Autoconfiança Achei Na altura havia poucos ainda Não havia esta moda Achei que as pessoas iam achar que era ridículo Achei que sozinha fui aprender a editar Eu já sabia editar vídeo Portanto, editar só não é muito diferente Mas, sei lá, achei Tinha aquele síndrome de impostor Tipo, não vai correr bem Depois comecei a fazê-lo na mesma Depois pandemia E comecei a arranjar formas de gravar à distância Com as pessoas em casa no seu telefone Mas a qualidade não era a mesma E eu tinha-lhe dado um nome que era Contado Ninguém Acredita E depois fui ao programa A 5 para a meia-noite no desconfinamento Falei do podcast, disse estou a preparar um podcast Chama-se Contado Ninguém Acredita E fui contactada por um jornalista que me disse tem um podcast com esse nome, não podes lançar. Que, entretanto, ele tinha criado, porque eu obviamente não escolhi o nome e fui ver se havia. E na altura não havia. Mas demorei tanto tempo que quando falei sobre lançá-lo, já havia. Então, fiquei um bocadinho… Aí já tinha, tipo, quatro episódios gravados e fiquei tão irritada, porque todos os convidados diziam Olá, estou no podcast contado, ninguém acredita. E eu fiquei tão irritada desse revés deixei-o na gaveta mais um ano. Ficaste frustrada. Fiquei muito frustrada. E depois lá me convenceram a apresentar a ideia, pelo menos os pilotos, a uma rádio. A minha agente mandou para a rádio comercial porque na altura eu estava a trabalhar, na altura e agora estava a trabalhar com a TV, são do mesmo grupo, e achámos que fazia sentido vender a primeira ideia a uma marca do grupo. E a Rádio Comercial imediatamente disse, queremos. Queremos, ela que venha, comece a fazer aqui com o nosso editor, ajudamos na pré-produção. E assim nasceu e cresceu. Foi um sucesso desde o primeiro dia. Até hoje, tirando os podcasts do Observador, estes que eu também fiz uma narração, não há muitos podcasts assim com narrativa, com uma história, que contem uma história. Normalmente são sempre entrevistas. E então foi um sucesso. Ainda recebo mensagens hoje em dia pedirem-me para fazer mais. Mas o que tens de vontade? Eu tenho vontade, mas eu não quero fazer se não tiver histórias boas. E as histórias que me começaram a chegar não eram tão boas. Agora ando com muita vontade de fazer um de crime.
Jorge Correia • 07:42
Um verdadeiro crime?
Inês Castel-Branco • 07:44
Sim.
Jorge Correia • 07:44
Um de crime verdadeiro ou um de crime imaginário?
Inês Castel-Branco • 07:46
Pois, a minha dúvida é essa. Porque o True Crime vende muito. E eu sou-me fã. Mas a forma como nós podemos aceder As provas e o caso Nos Estados Unidos não é como cá E se calhar Foi um bocadinho como agora este do Carlos Castro Que eu tive a ouvir Que eu sou fascinada por essa história A informação que está Nesses seis episódios eu já a tinha É só fazer Uma pequena pesquisa Então estou na duvida se faço true crime Ou se faço fake crime A fingir que é true crime
Jorge Correia • 08:21
E achas que se nota se fizermos uma coisa ou outra Bom, quer dizer, quando nós estamos a falar de casos reais obviamente é como as reportagens, não é? Nós queremos saber, nós já sabemos qualquer coisa da história, mas depois queremos saber, lá está, os promenores consul, qual foi a motivação do criminoso, o que é que aconteceu verdadeiramente em detalhes, no fundo o segredo do Correio da Manhã, não é? Não é preciso ir mais longe
Inês Castel-Branco • 08:42
do que isso. E eu também gosto da parte judicial, não só da parte de forenses, mas da parte de como é que se resolve em tribunal o caso.
Jorge Correia • 08:50
Também acho super interessante. Como é que eles discutem? Como é que os advogados defendem? Como é que o Ministério Público
Inês Castel-Branco • 08:54
E sim, adoro essa parte também
Jorge Correia • 08:58
O teu passado Tem um traço qualquer Que podia acabar em advogada ou não?
Inês Castel-Branco • 09:03
Eu queria ser advogada Quando andava no décimo Primeiro Mas eu não era muito académica Não gostava muito de estudar Portanto comecei a pensar No código penal Naquelas leis todas que eu teria de decorar E foi doloroso Portanto, na verdade Eu estava um bocado perdida Eu acho que queria ser advogada Por causa dos filmes de advogados E depois comecei a perceber Que havia vários ramos da advocacia E era difícil identificar-me com um Depois dessa altura identifiquei-me com um De reinserção social Porque sempre tive este lado De querer ajudar as pessoas Que não são privilegiadas De querer ajudar Querer justiça Mas depois desisti Na altura já trabalhava como modelo Já ganhava algum dinheiro Embora não gostasse muito de trabalhar como modelo O salto para atriz Era meio óbvio E fui empurrada Não fui a beber esse salto Fui literalmente empurrada pela minha booker
Jorge Correia • 10:10
O que é que é uma booker?
Inês Castel-Branco • 10:11
É uma agente, mas de moda
Jorge Correia • 10:13
Portanto, quem é que tu descobre? A Jean E descobre porquê? Olha para ti e diz
Inês Castel-Branco • 10:19
Esta rapariga é muito bonita Estou a almoçar com a minha mãe num restaurante Em Campo de Orico E esta senhora com um aspecto Muito fora do normal Com uma boina azul elétrica Vestida de uma forma estranha Estamos a falar anos 90 Está a olhar para mim o almoço todo E eu comecei a ficar um bocado desconfortável E ela levantou-se Foi direto a mim A minha mãe pediu se eu me importava de me levantar De dar uma voltinha E a minha mãe como é esperta já tinha percebido Onde é que aquilo estava a ir E ela disse Eu trabalho numa agência de modelos Que é a Elite E gostávamos muito que tu fosses para a agência Achamos que tens potencial E está aqui o meu cartão Quando quiseres só ligar Marcamos o encontro
Jorge Correia • 11:04
Tirou-te a pinta rapidamente num restaurante
Inês Castel-Branco • 11:06
Sim, mas eu não estava nem aí Achei aquele tipo ridículo Quantos anos é que tinhas? 14, 15 Eu andava de patins em linha com calças largas Era inliner E andava na rua sempre com um grupo de putos Era tudo menos aquilo que eu queria
Jorge Correia • 11:23
Portanto eras uma dread
Inês Castel-Branco • 11:24
Não tinhas nada a esse o perfil Ou tentava fugir à beta Sendo uma dread
Jorge Correia • 11:30
Mas há aí uns tracinhos de beta, certo?
Inês Castel-Branco • 11:32
Sim Não posso fugir às minhas origens
Jorge Correia • 11:36
Ela olha para ti E diz Está aqui alguém que tem perfil de modelo Apesar de tu não seres muito alta
Inês Castel-Branco • 11:43
Não Eu acho que ela deve ter achado que eu tinha uns olhos muito bonitos Uma pele bonita, não sei, não sei Não posso responder por ela Na verdade eu percebi Porque eu ainda trabalhei com ela uns anos Ela infelizmente já morreu Mas eu percebi que ela se identificava Ela via-me Como ela era quando era jovem Portanto ela tinha uma preferência por mim Um efeito espelho? Porque se identificava, sim E eu gostava muito dela E ela deu-me imensa coisa O que é que tu aprendeste com ela? Olha, fiquei com um bocadinho mais de autoestima Ah, depois a minha mãe esperou um ano Porque eu disse, claro que não, não quero E depois passado um ano, um dia Disse-me, vou-te levar a um sítio E levou-me lá E estava a Ana Borges, que era a diretora da agência A receber-me E o Ricardo Pereira Que tinha acabado de ganhar o Elite Model Look Também não era ator Com um fatinho branco Que nunca mais me esquece Super simpático E ela disse, isto é o Ricardo, acabou de ganhar o Elite Model Look Nós queríamos fazer uma sessão fotográfica Sem compromisso E depois vês como é que te sentes Não, ele que por acaso estava lá Eu e um fotógrafo profissional Com maquiadora, com stylist, com tudo E eu fiz E lembro-me de morrer de vergonha Nessa primeira sessão de fotografias Aliás, eu morri de vergonha Durante os primeiros anos todos da moda Eu era um bocado tímida Mas nessa sessão fotográfica Houve uma fotografia que foi escolhida Para ser capa de revista E a partir daí Comecei a trabalhar bastante em fotografia Nunca em desfiles, em fotografia E a Jean sempre a puxar por mim Até que um dia ela disse Houve um verão que ela disse Eu acho que tu devias tirar um curso de atriz Porque Nós sentimos aqui que tu podias ganhar Com sair um bocado da casca Com perder um bocado dessa timidez Como modelo Os clientes também dizem o mesmo Que tu és muito bonita mas falta-te atitude E tens muita timidez E se calhar resolvesse com um curso de teatro E eu Tudo o que a Jean diz eu respeito, portanto lá fui eu fazer uma audição para entrar num curso da Patrícia Vasconcelos Fala-me dessa audição É se por acaso foi nessa audição que eu descobri que se calhar o meu caminho era para aqui, porque era um eu tinha de preparar um monólogo e um diálogo e depois quando te chegavas tinhas assim um corpo docente, que era a Patrícia o António Pedro Vasconcelos, o Vítor Norte e a Elsa Valentim e Acho que eram estes quatro Isso é um tribunal Imagina eu que nunca tinha feito nada na vida E foi aquela coisa típica Aquele erro principiante Começa pelo menólogo Se te enganares não volte-se atrás E eu cada vez que me enganava voltava atrás Porque tinha aprendido uma lenga-lenga Tinha decorado aquilo com uma lenga-lenga Depois cheio para o diálogo Correu pessimamente Depois eles fizeram uma pequena entrevista Péssimo E quando eu estava a ir embora já tinha desistido Da ideia de ficar Eles perguntaram-me Será? Espera, falta aqui uma improvisação Tens de improvisar com essa cadeira E aconteceu de facto ali uma magia qualquer Em que eu usei os meus nervos e a cadeira E fiz todos rir muito Eu fingi que era uma paciente Que ia a uma consulta de psiquiatria E que me recusava a sentar na cadeira Porque a cadeira era amarela Então usei os meus nervos para fazer de maluquinha Basicamente E usei a cadeira como objeto da minha repulsa E aquilo fez-lhes rir muito E fez-me a mim também ter uma sensação que eu nunca tinha tido Na moda E que estava a ter pela primeira vez Naquela audição E depois fiquei Fui fazer esse curso E a partir daí não parei de fazer curso Até que comecei a trabalhar E depois não parei de trabalhar até hoje
Jorge Correia • 15:40
Mas o que teve de especial essa sensação É curioso porque tu descreves-te como alguém Com uma autoestima baixa Que tem medo, que precisa de ser validada E eu olho para ti agora E digo assim Ela está aqui Ela está-me a contar aqui uma fábula da sua vida juvenil
Inês Castel-Branco • 15:57
Passaram 30 anos Eu agora tenho 44
Jorge Correia • 16:01
Estou muito melhor
Inês Castel-Branco • 16:02
Estou muito melhor E o facto de ter lançado o podcast e ter corrido bem Trouxe-me uma força E agora já não tenho medo de lançar o próximo E há muita coisa que eu Que a idade me trouxe Eu sempre tive muito medo Da validação dos meus pares E agora já me estou Mais nas tintas Claro que dou importância Principalmente se são pessoas que eu admiro Dou importância à validação deles Mas já não é isso que me move E acho que a idade trouxe-me isso E o facto de De achar que dou sempre Profissionalmente dou sempre o meu melhor É raro o trabalho em que eu digo Podia ter feito… Podia ter dado mais. Podia ter feito de outra maneira. Mas dado mais, acho que dou sempre o meu melhor.
Jorge Correia • 16:49
O que é que é dar? Porque no fundo, assim, tu tens ferramentas, tens trabalhos que te pedem, mas quando tu estás a fazer, imagino, uma telenovela, aquilo é uma pressão quase industrial. Não há muito tempo de pausa de construção.
Inês Castel-Branco • 17:03
Mas eu também gosto. Há tempo de construção no início. Há alguns ensaios, muito poucos, mas eu gosto de fazer esse trabalho em casa. esse trabalho de casa, se a personagem sabe fazer joias, aprender a fazer joias, se a personagem cozinha, aprender a cozinhar, se a personagem é advogada, ir para um tribunal, ver como é que se comportam os advogados. Eu gosto de fazer esse trabalho de pesquisa, adoro, acho que é das partes mais divertidas. Na novela, de facto, entre novela cinema e teatro, a novela é, de facto, uma fábrica muito rápida de fazer.
Jorge Correia • 17:37
Aquilo quantas horas é que são, normalmente? Um dia de trabalho?
Inês Castel-Branco • 17:39
Dez a doze. Antigamente eram 12, depois o sindicato Vem refilar e agora já são menos 10 a 12, sim, está sempre aí no meio Mas eu, uma das coisas Que eu gosto em fazer novela É precisamente essa adrenalina De ter de fazer bem Em pouco tempo e rapidamente Aliás, eu gosto muito De bater os meus próprios recordes Então, falamos recordes Nesta novela, por exemplo, imagina Se eu conseguir fazer 12 cenas até à 1 da tarde E eu vou almoçar, tipo, fiz 12 cenas até agora 12 cenas? Sim, bati uma recorde pessoal nesta novela várias vezes Como é que se faz 12 cenas numa manhã? Tente saber muito bem o texto E o colega que está a contracionar connosco também Não estamos a fazer nada sozinhos E a equipa também tem de estar muito concentrada Para não haver erros E às vezes acontece essa magia Estamos todos muito alinhados E conseguimos ser rápidos e bons Outras vezes A rapidez não está necessariamente Associada à qualidade Às vezes estamos a fazer rápido E não fica tão bom
Jorge Correia • 18:46
E porque é preciso fazer mesmo mais rápido É mais fácil suspeito trabalhar à segunda e à terça-feira Do que propriamente à sexta-feira Em que já toda a gente está mais cansada
Inês Castel-Branco • 18:54
Eu odeio segundas Adoro sextas, odeio segundas Eu chego à sexta com uma pica brutal Porque vem o fim de semana E chega à segunda Tipo, já acabou o fim de semana Não andei segundas
Jorge Correia • 19:07
Ficas com aquele síndrome do domingo à noite
Inês Castel-Branco • 19:10
Eu acho que as semanas de trabalho Só deviam ter quatro dias
Jorge Correia • 19:15
Não é uma má ideia E a trabalhar 12 horas por dia Como tu, as coisas não são Nada fáceis Olha, é curioso Na tua transformação Na tua crisálida até a borboleta Passas por uma fase em que A tua voz é gozada na adolescência Bom, se calhar as nossas vozes todas São gozadas na adolescência Porque elas estão aqui a tentar ajustar e desgraçar
Inês Castel-Branco • 19:37
Eu, por própria, no outro dia Ouvi um vídeo O meu filho, portanto, o vídeo tem pai De 13 anos, 12, 13 anos E a minha voz irritou-me
Jorge Correia • 19:48
Mas isso era falta de produção?
Inês Castel-Branco • 19:49
Muitas vezes, não, muitas vezes Quando eu vou para agudos, mesmo nas novelas Quando eu estou a discutir E vou para agudos, irrita-me Eu tenho um timbre Que no agudo é irritante
Jorge Correia • 20:00
E tens um timbre Nos baixos e nos médias Que é absolutamente formidável
Inês Castel-Branco • 20:05
Isso eu concordo também Não vou só estar a dizer mal da minha voz Porque ela também tem aqui um gravezinho Ela tem voldo
Jorge Correia • 20:13
E isso significa que Quando trabalhas a tua voz Tentas mantê-la sempre neste perfil
Inês Castel-Branco • 20:19
Depende da personagem Quando eu trabalho com a voz em rádio Principalmente quando temos estes cascos nos ouvidos Eu tenho a tendência de Ir para este tom Porque estamos a falar ao ouvido das pessoas Porque eu gosto mais deste tom Acho mais bonito e sensual E não tão irritante como o tom agudo Mas se uma personagem, o agudo servir Nomeadamente personagens cómicas Personagens mais infantiloides Mais histéricas Mais histéricas Se servir, eu uso os agudos Não tenho vergonha nenhuma de ser irritante Como não tenho vergonha de estar feia Em personagens que tiver de estar Ou de engordar ou de emagrecer Eu acho que isso é que é uma das partes mais Extraordinárias da nossa profissão É nós não sermos nós É a outra pessoa que está ali
Jorge Correia • 21:10
E há momentos em que precisas de engordar ou de emagrecer?
Inês Castel-Branco • 21:14
Por acaso aqui em Portugal não há muito isso Mas no estrangeiro Sim, há muitos atores que emagrecem muito E engordam muito para personagens Aqui já me aconteceu Imagina fazer uma personagem Drogada E emagreci um bocadinho Porque achei que fazia sentido
Jorge Correia • 21:31
Mas podes compor o boneco Podes ficar a olharenta, podes não dormir
Inês Castel-Branco • 21:35
Podes não tomar banho Esse trabalho é também da caracterização Não é só o meu E por acaso neste caso que foi no Rap de Peixe Serviu bastante a caracterização Mas o facto de eu ter emagrecido um bocadinho Também ajudou Porque este tipo de personagens São mais secas e mais magras
Jorge Correia • 21:53
E depois ouves as pessoas a dizer Está tão escaselada
Inês Castel-Branco • 21:56
Quando eu pus a fotografia No Instagram Da personagem Houve pessoas que não leram Que eu estava a dar a notícia De nova personagem, Rabo de Peixe E que acharam que eu estava A arrumar carros Que eu estava agarrada Mas eu gosto, acho que isso é uma das magias De representar E eu acho que há dois tipos de atores Há o ator que faz sempre dele próprio E o ator que compõe E não quer dizer que seja mau Tipo, o Al Pacino faz sempre dele próprio E faz sempre bem Mas eu prefiro os atores que compõem Como o Sean Penn, como a Meryl Streep São sempre pessoas diferentes Sim
Jorge Correia • 22:39
E tu és de que estilo?
Inês Castel-Branco • 22:41
Eu gosto de acreditar que compõem
Jorge Correia • 22:43
Não, vendo, pensando em ti No Abcassiz e depois no Rápido Peixe Sim, eu gosto de acreditar que compõem Olha, o que é que Fala-me de Rápido Peixe Porque eu fiquei apaixonado pela primeira série a segunda um bocadinho menos mas se calhar porque fiquei menos surpreendido não acho que tenha a ver com a qualidade daquilo a primeira eu achei aquilo absolutamente radical como é que foi filmar aquilo? Disruptivo em Portugal aquilo tinha uma maneira ou uma forma de contar a história quer dizer, não era só
Inês Castel-Branco • 23:16
o Augusto Fraga é maravilhoso e a edição também é muito boa mas eu acho que a realização acima de tudo Trouxe uma linguagem completamente diferente E que nós estávamos a precisar também Porque é um país de novelas E o formato de novela é um formato em que não dá para criar muito Mas aquilo não é uma novela? Aquilo é uma série E nós estamos finalmente a começar a fazer séries E é super interessante que essa série tenha surgido Porque é mesmo disruptiva Eu acho que foi Eu fiquei também super encantada quando vi Eu fiz Cassino para a primeira temporada e não fiquei E depois não fiz cá assim para a segunda temporada E depois fiz cá assim para a terceira E desta vez fiquei E ainda bem que só fiquei na terceira Por um lado ainda bem Porque a personagem é uma delícia Por outro lado É uma pena porque muito menos gente viu a terceira Mas eu Pediria aqui aos nossos ouvintes Para verem Porque estou muito vaidosa do que fiz E eu e o meu partner Que é o Cristóvão Campos Grande ator Eu estou muito orgulhosa daquilo que nós fizemos E os meus amigos e família que viram também ficaram Portanto, gostava que mais pessoas vissem Fala-me desse boneco, como é que é compor aquilo? O que é que o Augusto Fraga te pediu? Então, Ana Tércia Pesquiga Há uma família muito antiga nos Açores Que se chamam os Pesquigas Que estão até associados ao crime Mas é uma coincidência As características destas personagens E essa família É aquela coisa que há factos que podem ser só coincidências. Aquela frase que aparece às vezes…
Jorge Correia • 24:54
Os argumentistas gostam de colocar lá como no fim.
Inês Castel-Branco • 24:57
Um bocadinho também para os defender realmente. Do tribunal, basta voltarmos ao tribunal. Mas eu acho que é importante dizer que há coisas que pegam-se na realidade e transformam-se um bocadinho para o espectador ficar… E aquilo que o Augusto Fraga me disse foi mais no Cássimo. Ele, por acaso, até na altura, o diretor de casting, que é o Bernardo Almeida, mandou-me uma referência de um filme. Não sei se não era Natural Born Killers, mas era uma personagem assim, hardcore também. E no casting o Augusto disse-me mais ou menos que queria uma sujidade, queria que eles fossem desastrados, que eles são criminosos, mas corre-lhes tudo mal, Porque eles não sabem, fazem mal, depois são violentos, mas ao mesmo tempo são cómics.
Jorge Correia • 25:48
Feios, porcos e maus.
Inês Castel-Branco • 25:49
E amam-se muito e depois o público também vai ficar ao lado deles porque eles se amam muito. E a verdade é que quem viu disse-me isso. Eles são horríveis, mas nessa altura são os preferidos. Porque são fofinhos ao mesmo tempo. E acho que foi também… Trabalhar com o Cristóvão também ajudou muito. Porque o Cristóvão, como de volta a ter, era um grande ator. E eu acho que também fui atrás dele E talvez ele atrás de mim, não sei Mas eu posso dizer que fui muitas vezes atrás dele E do tom dele E às vezes isso é interessante Todos os personagens têm um tom E foi interessante o nosso tom ser parecido Porque nós somos um casal E um casal que pensa da mesma maneira Mas eu mando um bocado nele Eu sou quem veste as calças na relação E depois há um lado muito violento Daquilo tudo Que é importante também passar Sem pudor E que eu adorei Cenas de violência De armas, de esfaqueamentos De drogas Pronto, também não quero estragar Para quem ainda não viu É fácil filmar a violência? Tem de se ensaiar muito Mas sim, eu gosto muito Dá-me imenso gozo Quanto mais distante de mim e da minha vida for Mais gozo me dá
Jorge Correia • 27:09
Porque dá para recriar aquilo
Inês Castel-Branco • 27:10
Porque é viver outra vida Que eu jamais viveria Eu jamais mataria alguém Mas ali posso matar alguém Uma das coisas não posso dizer Não, não vamos estragar
Jorge Correia • 27:21
Não, porque senão estragamos isto tudo Mas há um crime
Inês Castel-Branco • 27:24
A minha última cena da série Eu pensei Nunca na vida Como é que eu vou fazer isto? É muito difícil Eu basicamente vou imitar a quantidade de vezes Que eu vi outros atores a fazer isto
Jorge Correia • 27:38
Mas depois há manual de instruções Do que é que é suposto fazer Ou tu lês o texto e depois pensas, ok, a maneira que eu consigo fazer viver este texto é a minha proposta criativa? É esta?
Inês Castel-Branco • 27:51
Eu tenho uma proposta e depois o realizador tem… A proposta mais importante é a do realizador. Eu sou um peão nas mãos do realizador. Aliás, a primeira proposta é do autor, que é muito importante. O autor é o princípio de tudo. Depois do autor é o realizador. E só no fim é que está a minha proposta. Muitas vezes as três unem-se e acontece uma magia. Há outras vezes que a minha proposta se calhar é rejeitada e eu tenho que viver com isso, porque eu sou a última, sou do fim da linha. Mas normalmente quando há uma ligação entre o realizador e o ator, o realizador ouve-nos sempre e se nos respeita, põe sempre em cima da mesa a nossa proposta.
Jorge Correia • 28:32
Até porque te escolheu também no casting.
Inês Castel-Branco • 28:35
Exato, mas também há limitações técnicas. Imagina, no rabo de peixe eu tenho uma cena de pancada Que é dentro de uma floresta num dia de chuva Nós tínhamos de ter bombeiros a fazer de chuva Tínhamos de ter a luz a chegar lá Tínhamos de ter a comunicação a funcionar E às vezes essas coisas todas há uma que falha E nós temos de improvisar E de repente a luta que nós tínhamos ensaiado Quando a distância é menor Muda tudo E já há uma possibilidade de eu magoar E o colchão já não vai estar no sítio certo E há um risco maior Portanto, há também sempre o risco Do que acontece no momento Mas podes aleijar-te nestas brincadeiras? Sim, sim, já me aleijei E já aleijei pessoas E tenho saído muitas histórias Tipo, tenho um amigo que trabalhou com um cão E o cão mordeu Há muitas histórias em que às vezes corre mal Há um risco sempre Tanto que nós somos obrigados a ter seguro Há um risco sempre inerente a esta profissão E há trabalhos muito físicos
Jorge Correia • 29:35
E que tu lá estás Empenhas-te, estás a fazer aquilo E aquilo pode sair mal
Inês Castel-Branco • 29:40
De uma temporada média pode correr mal Sim, sim Há atores que não fazem cenas dessas Que pedem duplos Eu, por exemplo, adoro fazer No Rap de Peixe houve uma cena de perseguição De carro Que o duplo estava a almoçar e eu disse assim Por favor, deixa-me fazer Foste tu a conduzir? Sim E foi das minhas cenas favoritas de fazer na vida
Jorge Correia • 30:01
E foi perigoso?
Inês Castel-Branco • 30:02
Foi, quer dizer
Jorge Correia • 30:03
Portanto, quando te virmos de uma perseguição automóvel nesta série és mesmo tu que estás a conviver o carro
Inês Castel-Branco • 30:07
Sim, há uma série em que eu estou a ir tenho de ir em contramão contra outro carro e no outro carro estava um duplo mas no meu estou mesmo eu e à última o duplo desvia-se de mim E isso é real?
Jorge Correia • 30:19
É real Não é uma ilusão de câmara? Não, não, não Pode mesmo acontecer um espatifão? Sim
Inês Castel-Branco • 30:27
E o colega ator também quis ir comigo também não quis duplo Portanto eu estou com ele no carro Vocês são grandes malucos, não é? O Tom Cruise faz tudo sozinho Não faz tudo sem duplos E faz as missões impossíveis todas
Jorge Correia • 30:42
Pois é isso que me está aqui a preocupar Eu estava a pensar que aquilo era tudo Uma grande ilusão E afinal tu acabas de me dizer que
Inês Castel-Branco • 30:49
Eu adoro essa adrenalina das cenas de ação E de perseguição e de porrada Uma vez fiz uma personagem Que era da PJ E a PJ recebeu-nos E tivemos um dia inteiro lá Aprendi a fazer rusgas, aprendi a fazer inquéritos E aprendi a disparar Uma arma E eu adorei aquele pássaro que estava comigo Nós tínhamos direito a 5 tiros cada um E ele não quis fazer os 5 E eu, posso fazer os dele, por favor Mas tem um bala real? Sim, no shooting range Não sei como é
Jorge Correia • 31:21
Tens uma carreira de tiro
Inês Castel-Branco • 31:23
Uma mais segura, bom, quer dizer, nos Estados Unidos
Jorge Correia • 31:25
Conhecemos a história daquele caso que correu mal Com uma arma em que foi feito efetivamente um disparo e que matou uma pessoa
Inês Castel-Branco • 31:33
de… Ah, pois foi do Alec Baldunha. Está ali o qual. Portanto, lá está.
Jorge Correia • 31:37
Por isso é que eu estou aqui a pensar e a pensar, bem, porque vocês passam a vida a
Inês Castel-Branco • 31:40
fingir… Não, mas nós, no caso das armas, isto é importante dizer, no caso das armas, sempre que nós trabalhamos com armas, tínhamos de dispará-las ou não, vem sempre um polícia com a arma e antes da cena mostra-nos o cartucho vazio, dá vários tiros para o chão, para testar à nossa frente a arma, ensina-nos tudo sobre a arma e está sempre presente durante o uso da arma se tivemos de dar tiros com pólvora seca, que é o que acontece quando temos de dar tiros, temos tampões nos ouvidos, temos todas as medidas de segurança são respeitadas porque já aconteceram acidentes tipo um ator disparar uma arma e furar um tímpano, porque não estava protegido para o tamanho do barulho ou ser projetado por uma caçadeira Nós estamos sempre, as produções normalmente são sempre muito preocupadas com a segurança e no caso das armas nós fazemos aquilo de uma forma muito cuidada.
Jorge Correia • 32:38
Espero que sim. De qualquer maneira, quer dizer, com um histórico de uma perseguição automóvel ou de um choque frontal potencial, não sei se tu tens muitos argumentos para usar. Olha, uma das personagens que mais me fascinou em ti, bom, a pessoa é absolutamente fascinante e tu fizeste-la de uma forma mágica, que é a senhora Bacassiz em 2019. Li alguma coisa de que tu quando tentaste fazer a composição da personagem Descobriste que não havia voz de Senua em lado nenhum gravado
Inês Castel-Branco • 33:05
Não, nenhum, não
Jorge Correia • 33:06
E então? É porque aquela voz para mim é perfeita Aquela era a voz da Senua, como é evidente
Inês Castel-Branco • 33:11
Obrigada, obrigada Olha, foi muito complicado Não só pela voz, mas pelo sotaque Porque ela era uma dinamarquesa Que viveu na Suécia a vida toda Estudou em Inglaterra Casou com um português, com quem só falava inglês E veio viver para Portugal Tipo, como é que eu faço o sotaque? Com o que é que tu falaste? Então, tenho uma amiga sueca Fui ter com ela e gravei-a a dizer o texto todo Depois fui ter com uma dinamarquesa E gravei-a a dizer Esta não era a minha amiga Mas foi muito querida E gravei-a a dizer o texto todo Depois Juntei um bocadinho os sons Que as duas tinham em comum Que era muito Zója e editora Ela fazia sempre o editora E disse, pá, não vou inventar muito Eu vou arranjar aqui em dois sons Fonéticos e vou agarrar-me Esses dois, que normalmente era sempre O A com snooker Dizer esperta E não abria muitas as vogais também E juntei essas duas E comecei a dizer o texto em casa Tipo maluca, vou começar a falar Como ela, tipo maluca E cheguei a este sotaque Que eu vou dizer Eu vejo o filme, eu sou muito profissionista e há uma parte que não está bem no filme, mas pronto mas isso sou eu que sou muito profissionista O que é isso de não estar bem? Eu não estava segura no sotaque e se vê-se eu vejo, há uma cena que não está bem mas pronto, a verdade
Jorge Correia • 34:39
Eu posso olhar para aquilo e dizer olha a Senu também era
Inês Castel-Branco • 34:44
Não, e o que a realizadora me disse na altura foi mas ela, as pessoas com tom nervosas falam de forma diferente, as pessoas com tom tristes falam de forma diferente, as pessoas com tom citadas falam de forma diferente eu tive de lhe dar razão e tentei não pensar muito no assunto
Jorge Correia • 35:00
mas aqui entre nós Mas tu vais ver sempre as coisas que fazes? Sim, sempre Para te martirizares ou para tentar melhorar?
Inês Castel-Branco • 35:06
Não, para mim é a conclusão do trabalho Ah, o fim do trabalho é ver O visionamento é a conclusão para ver exatamente o que é que eu posso fazer melhor como é que eu me posicionei para a câmera como é que eu me posicionei para a luz como é que eu usei a minha voz como é que a minha dicção estava ali O que é que eu tirei do outro ator Há sempre coisas a aprender no visionamento
Jorge Correia • 35:27
E no cinema lá está Aquilo que tu podes fazer No teatro Com os braços, com a cara É uma coisa, no cinema não No cinema aquilo está tudo ali muito contido
Inês Castel-Branco • 35:38
Sim, eu fiz muito pouco cinema Infelizmente Agora por acaso estou a fazer um filme E te vou adorar Mas fiz muito pouco cinema Sim, João Pedro Rodrigues O Sorriso de Afonso Estamos em plena rodagem E da Terra Terra Tram Terra Tram Bem, não me lembro do nome da produtora Corta esta parte, por favor
Jorge Correia • 36:04
Vamos à procura, põe-nos créditos
Inês Castel-Branco • 36:05
Sim Acho que é Terra Tram Não interessa Eu fiz muito pouco cinema e de facto no cinema Há um tempo que é completamente Diferente das outras linguagens Há um cuidado com a luz Que não existe Nas outras linguagens Falta-nos ainda aqui a publicidade Também ainda não falámos Que normalmente tem uma luz muito mais chapão, muito mais comercial
Jorge Correia • 36:28
Que é para atrair
Inês Castel-Branco • 36:28
No cinema é tudo feito com um cuidado Milimétrico Mesmo, literalmente Às vezes tem uma fita métrica A medir a tua distância da câmera Para o foco E para a luz É uma coisa, por isso é que me fascina tanto E por isso é que eu gostava de fazer mais É uma coisa muito bonita E muito cuidada É mesmo arte. Eu vejo sempre quando olho para um plano em cinema vejo quadros. E é muito… Para mim é aquilo que fica. O Senu para mim é o que os meus netos vão poder viver. Não quer dizer que não cheguem com a internet, graças a Deus. Não quer dizer que não cheguem a uma novela, a uma série que eu fiz. Mas o cinema fica para sempre. E neste caso, que é um filme de época que a Senu e que retrata… É um biópico, não é? Que retrata uma era, não só para Portugal Mas uma pessoa que existiu Ainda mais fica Os meus netos daqui a 30 anos Vão ter a avó a contar esta história Tu apaixonaste pela Senu? Completamente Ela é apaixonante Era uma mulher apaixonante Embora muito diferente de mim Era uma mulher que Tentou trazer muito às mulheres em Portugal Tentou educar muito mulheres que estavam enclausuradas por uma ditadura e pelos seus maridos e pela cultura conservadora e patriarcal que existia na altura.
Jorge Correia • 37:56
Já agora, responsável por uma editora, uma mulher cultíssima, não casada, mas a viver com o primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro. Portanto, importa só para dar aqui o contexto de quem é.
Inês Castel-Branco • 38:08
Criou a Dom Quixote e, numa altura em que ainda não tinha havido a revolução, Tentava publicar livros que a PIDE constantemente proibia. E com coragem, não é? Com muita coragem. Com muita coragem. Também vinha de uma família muito intelectual e bem situada. Portanto, acho que a falta de medo também vinha daí. Mas eu admiro-a imenso. E não só isso, como o interesse dela pelo Portugal pós-revolução. Ela criou várias coleções com todos os políticos de todos os partidos, ou Mário Soares, ou Sá Carneiro. Ela quis entrevistar cada um deles para que o país percebesse as várias saídas que tinha e de uma forma bastante imparcial. Por mais que eu estivesse apaixonada pelo Sá Carneiro, mas acho que o Sá Carneiro também era apaixonante. Era magnético, como se diz no filme.
Jorge Correia • 39:06
Portanto, havia ali uma grande energia. Olha, confirma-me aqui que uma realizadora te amarrou as mãos.
Inês Castel-Branco • 39:12
Na verdade, foi a diretora de atores, a Sara Carinhas, na SNU. Estava-me a ajudar em um dos primeiros ensaios.
Jorge Correia • 39:20
Estava-te a ajudar a amarrar-te as mãos?
Inês Castel-Branco • 39:22
Não, ela estava a ajudar a Patrícia a fazer direção de atores. E ajudou-me muito a mim na construção da SNU, a Sara. A Sara é extraordinária. E num dos primeiros ensaios, eu sou uma atriz que representa muito com as mãos. Sou muito latina nesse aspecto E ela é muito nórdica Era muito nórdica, portanto tinha de haver uma contenção Que eu não estava ainda a conseguir dar
Jorge Correia • 39:46
Aquele retrato só da tua cara Que mesmo sem falar já fala
Inês Castel-Branco • 39:50
Sim E é uma contenção nórdica Mesmo Os nórdicos são muito diferentes dos latinos E eu percebi isso Depois fui a Estocolmo Na altura em que estava a preparar o personagem Fui à casa onde ela cresceu Ao bairro onde ela viveu E conheci Pessoas de lá, fui sozinha E fui mesmo com este objetivo de perceber Como é que é esta cultura E não podiam ser mais diferentes de nós Por isso é que também Estou a dizer isto Com base na minha opinião, uma especulação Por isso é que eu acho que eles bebem Quando fica a noite eles começam a beber Para se soltarem Daquela contenção Mas ao mesmo tempo O que eu acho muito bonito no cinema É essa contenção E a maior parte das personagens Que me marcaram São personagens que conseguem Passar tudo em contenção Sem dizer nada Não só sem dizer nada, dizer pouco Não precisa de ser uma personagem Sempre histriónica e aos berros e a chorar Para ser incrível E para mim Na contenção está a genialidade Um bom ator Na contenção Que é genial na contenção Para mim são os meus atores de todos
Jorge Correia • 41:04
Onde é que está o teu potenciómetro? Como é que tu controlas isso?
Inês Castel-Branco • 41:07
Em mim própria Tenho muita dificuldade Porque eu não sou muito contida Nem na vida, nem com matriz A minha sensação é que tu incendeias tudo
Jorge Correia • 41:16
Que à volta vai tudo arder
Inês Castel-Branco • 41:17
Mas na verdade, por isso é que a Senu Foi tão surpreendente Para ti também foi surpreendente? Para mim também E eu encontrei essa contenção Nesse primeiro ensaio em que me prenderam as mãos Foi o início de uma procura E depois aí das de como foi outra E depois tudo o que eu li sobre ela O livro que a mãe dela escreveu sobre ela Os vídeos que havia dela no arquivo da RTP Sem som, mas havia alguns dela na Feira do Livro O que as amigas dela me contaram Que ainda falei com algumas A secretária do Sacreneiro Enfim, tudo o que eu reuni E eu comecei a perceber Que era nessa contenção que ia estar O meu maior desafio
Jorge Correia • 42:04
Da Senu E recebeste feedback das pessoas que a conheciam?
Inês Castel-Branco • 42:10
De quem eu queria, não Eu queria muito da família Mas eu imagino que seja Bastante traumático Isto tudo para eles Então acredito que não tenham visto sequer Mas se calhar um dia Então vão ver
Jorge Correia • 42:24
Pode haver sempre essa hipótese Olha, falamos de publicidade, obviamente mais histriónica, mais luxo Sendo que tu foste durante longos anos voz de uma marca em particular
Inês Castel-Branco • 42:34
E cara, voz e cara
Jorge Correia • 42:35
Voz e cara Como é que é isto de estas… Bom, a minha pergunta na realidade é que Se uma voz e uma cara se pode alugar durante um tempo tão longo como o teu caso Sem depois as coisas se juntarem um bocadinho uma à outra
Inês Castel-Branco • 42:52
Eu acho que eu tive muito essa dúvida Durante esses anos Que fui cara da… Posso dizer? Cara do mel Durante esses anos
Jorge Correia • 43:01
Porque uma coisa é fazer uma campanha num determinado momento Outra coisa é durante vários anos
Inês Castel-Branco • 43:06
Será que isto me está a prejudicar como atriz? Será que há coisas Por exemplo cinema que eu não estou a fazer Porque estou muito associada à publicidade Porque uma ideia de gastar
Jorge Correia • 43:16
A tua imagem e a tua voz e a tua presença
Inês Castel-Branco • 43:18
Pensei nisso várias vezes Mas depois sabes uma coisa, Jorge Eu já fiz Tudo e mais alguma coisa Eu acho que O preconceito irrita-me imenso Irrita-me imenso Eu passei por todos eles Sobre ti? Sim É porque é modelo, é porque é bonita É porque é filha da apresentadora É porque tem cunha É porque namorou com não sei quem Enfim Imagino que incomoda Muita gente às vezes o sucesso Então tens de arranjar desculpas. E a facto de fazer publicidade durante muitos anos. Não vou ser hipócrita. Eu tenho uma casa à pala disso.
Jorge Correia • 43:58
E provavelmente uma liberdade para fazer outras coisas que te apetece fazer.
Inês Castel-Branco • 44:01
Claro. Desde então, é por causa dos meus anos no Mel, que eu desde então tenho liberdade para dizer que não. E isso é a minha coisa do mundo. E se há realizadores que não quiseram trabalhar comigo porque eu fiz um anúncio do Mel, eu também não quero trabalhar com eles. Não me interessam.
Jorge Correia • 44:19
É fácil dizer que não?
Inês Castel-Branco • 44:22
Agora sim Agora sim Quando era mais nova, não E ainda tenho um bocadinho de medo quando digo que não Mas cada vez Agora estou a passar por uma fase que é Eu quando digo que não Eu quero estar mais com a minha família Eu trabalhei muito durante muitos anos Eu agora quero estar mais com a minha família E eu tenho um filho adolescente Que não terei por perto Durante muito mais tempo Ele vai à vida dele Com todo o direito É o normal
Jorge Correia • 44:56
Como é que é a vossa relação?
Inês Castel-Branco • 44:57
É espetacular É mesmo fixe Tenho muito orgulho nele E acho que ele também tem orgulho em mim Zangam-se
Jorge Correia • 45:05
Que tipo de mãe é que és tu?
Inês Castel-Branco • 45:07
Eu acho que sou Acho que dou liberdade Mas também dou muita responsabilidade Sou uma mãe que diz palavrões Mas que Mas que ao mesmo tempo é muito exigente Eu acho que sou uma fiche Acho que sou uma fiche Mas às vezes há coisas que eu sou chata Mas no geral acho que sou fiche Acho que se ele me descrever aos amigos É capaz de dizer A minha mãe é fiche
Jorge Correia • 45:35
Estou a perguntar-te isto porque Os pais da nossa geração Podemos ter cometido um erro capital Em relação à próxima geração Que é demos-lhes tudo
Inês Castel-Branco • 45:45
Sim, às vezes tenho esse medo Mas ao mesmo tempo Autonomia e liberdade E ele surpreende-me imenso E acho que ele é um miúdo com uma boa cabeça Mas às vezes também O co-parenting Também não ajuda Eu posso não lhe dar tudo Mas se o pai lhe dar tudo Não há muito que eu possa fazer Acho que ele também tem Eu estou sempre a dizer ao meu filho É de aprender a trabalhar como eu aprendi Eu não quero que ele herde nada de mim Dinheiro De casas Quero que ele aprenda a trabalhar Como eu aprendi? Também não ordei nada Ninguém me deu nada
Jorge Correia • 46:21
O que é que ele quer ser quando for grande?
Inês Castel-Branco • 46:23
Ainda está à procura, mas gosta muito da publicidade Ele é um ótimo comunicador Eu acho que ele era um bom diplomata Mas não sei, eu acho que ele vai ter de ser O que quiser ser, o que fizer feliz Desde que não seja Incompetente Não é incompetente, é Desde que não seja Ai, desde que trabalho Que não esteja em casa a não fazer nenhum Preguiçoso Preguiçoso, sim Só não suporto A ideia de um filho Que acha que pode viver às minhas custas E não trabalhar Isso não é possível
Jorge Correia • 46:58
Mas projetas neles todos os Ele é o teu filho único Projetas nele todos os sonhos do mundo Tudo aquilo que tu achas que ele deve ser Quando for grande
Inês Castel-Branco • 47:07
Eu acho que nós queremos sempre que os nossos filhos Sejam aquilo que nós não conseguimos ser E eu acho que isso não é justo Portanto eu tento não projetar muito E quando ele me pede a minha opinião Tipo, mãe, achas que eu devo ir para a publicidade? Eu respondo sempre Eu não tenho de achar nada Porque eu achar alguma coisa vai-te influenciar Eu acho que tu tens Eu acho que tu tens jeito para isto, isto, isto E lá no meio está a publicidade Sim, mas acho que não te deves fechar Com esta idade já nessa ideia Porque tu estás sempre a mudar E esta ideia Esta idade traz muitas mudanças E o que hoje pode fazer sentido Amanhã pode ser outra coisa
Jorge Correia • 47:44
Não te feches nisso Sendo que nós os influenciamos sempre de alguma maneira, positiva ou negativa Li um trecho muito curioso da vontade dele de ir ao ginásio Porque estava a se sentir como um esparguete
Inês Castel-Branco • 47:59
Uma das coisas que eu acho que sou Que eu não gosto em mim A minha mãe fazia o mesmo e ele queixa-se Eu acho que eu falo demais às vezes sobre ele E me vergonho, tipo, sou desbocada E quando eu disse isso nessa entrevista acho que fui um bocado desbocada
Jorge Correia • 48:16
E portanto ele zangou-se contigo
Inês Castel-Branco • 48:18
Ele não se zangou porque ele não vê as entrevistas Graças a Deus
Jorge Correia • 48:22
E tu vais vendo o que é que aparece sobre ti
Inês Castel-Branco • 48:26
Eu odeio dar entrevistas Jorge Tu tentaste seis meses até conseguir
Jorge Correia • 48:30
Pois é
Inês Castel-Branco • 48:31
Eu odeio dar entrevistas
Jorge Correia • 48:32
Tu és provavelmente a convidada mais difícil Deste programa Mas eu não desisti
Inês Castel-Branco • 48:40
É verdade E venceste Eu vou-te explicar Eu acho que não tenho nada de interessante para dizer Arrependo-me sempre de coisas que disse E hoje em dia vivemos numa era Em que é muito fácil retirar alguma coisa do contexto E ser cancelado E eu às vezes digo Merda Às vezes digo asneira
Jorge Correia • 49:01
E ficas preocupada? Eu sou do alto minho Portanto, para mim são vírgulas
Inês Castel-Branco • 49:05
Não é digo palavrões É digo asneiras Digo coisas que não fazem sentido Que depois me arrependo Como nós às vezes dizemos isto em conversas Nós não somos perfeitos E as minhas opiniões estão sempre a mudar Mesmo politicamente Eu já fui de direita e agora sou de esquerda O crescimento também é isso Nós podemos mudar de opinião, não estamos estanques E muitas vezes, como eu dou entrevistas há 25 anos Há coisas que eu ouço e digo assim Ai que vergonha, disse aquilo Por isso é que eu odeio dar entrevistas Porque agora se calhar daqui a 20 anos Vou estar a ouvir esta e a dizer Ai que vergonha disso aquilo
Jorge Correia • 49:43
Não, não me parece Acho que não vai acontecer de todo Não vai ser seguramente isso Que vai acontecer Quando a tua imagem pública Lá está, começa como Alguém muito bonito que é catrapiscado num restaurante E porque tem logo uma aura E uma luz própria Conforme envelhecemos E em particular as atrizes Conforme envelhecem Há uma pressão muito grande para retocar a beleza para proteger ou pelo contrário o envelhecimento é um processo normal e natural
Inês Castel-Branco • 50:18
eu não acho que seja acho que em Hollywood sem dúvida que deve haver os próprios agentes devem dizer isso eu acho que aqui em Portugal eu não posso dizer que é a profissão que traz essa pressão eu acho que é a cultura que traz essa pressão acho que as mulheres todas no geral trazem dessa pressão eu ouço muito Amigas minhas Preocupadas com isso Com o envelhecer A retocarem, a porem isto, a porem aquilo Eu não julgo nada, atenção Acho que cada pessoa deve fazer aquilo Que entende para se sentir melhor Mas acho que essa pressão É muito maior nas mulheres do que nos homens E dá-me muita pena Porque é que uma mulher não pode envelhecer Sem recorrer Sem retardar Envelhecer só Ele não quer retardar Tu queres, ótimo, estás linda Eu não quero Porque é que toda a gente quando olha para mim tem de dizer Ai, está velha Sim, agora tenho 44 Daqui a 6 vou ter 50 Eu vou envelhecer E porque é que isso é mau? Porque é que uma mulher velha Não pode ser bonita
Jorge Correia • 51:28
Mas há essa, por um lado Idealização da beleza Como um valor elevado Não é só de mercado, é um valor importante E por outro lado Essa crítica social Ou essa pressão grande Sobre as ruas
Inês Castel-Branco • 51:42
Eu acho que Como há tanta essa pressão E como as raparigas estão cada vez mais novas a retocarem-se Isto é verdade Eu conheço minhas desde 20 anos a retocarem-se Estão cedo? Sim, porque é na prevenção Que está o antienvelhecimento Mas isso é um marketing certo Eu não sou médica, não faço ideia Se calhar é verdade Mas a verdade é que tu já não vês Há uma idade agora Que é ali dos 50 aos 70 Que essas mulheres deixaram de ter idade Tu já não sabes que idade é que têm A não ser que tu saibas mesmo Porque trabalhas com elas Porque conheceste quando elas eram Quando andaste no liceu com elas Há uma idade Deixou de existir Tipo Mulheres dos 50 aos 70 E isso É estranho, em primeiro lugar Para mim é ótimo Porque eu vou poder trabalhar imenso a fazer de mim é de 60 anos E então estou a ver isso como uma coisa positiva Tipo, quando chegámos ali aos 60 E precisarem de uma mulher de 60 Vou ser eu Como é que tu lides com a fama? Cada vez melhor
Jorge Correia • 52:51
Cada vez melhor é uma bela declaração
Inês Castel-Branco • 52:53
Cada vez melhor Quando era mais nova não lidava nada bem Os mídias sempre me fizeram muita confusão As coisas que são capazes de dizer sobre ti Podem ser muito cruéis Que mídia? Estás a falar de que é dos As cores de rosa, dos tabloides Na minha altura que eu comecei havia ainda Há 24 horas
Jorge Correia • 53:12
Mas isso não é bem jornalismo, não é?
Inês Castel-Branco • 53:13
Sim, mas é o jornalismo da minha área
Jorge Correia • 53:16
É o jornalismo da minha área Mas a contar quem? A meterem-se na tua vida?
Inês Castel-Branco • 53:20
Paparazzi, de repente estou numa praia Estou numa praia com o meu filho E passado duas semanas estou numa capa de uma revista Num paparazzi e pensar que Houve uma pessoa que teve como objetivo A ver o meu filho na praia Tipo, tudo isso para mim era muito promiscuo Eu sofria muito com isso O aparecimento das redes sociais Veio controlar um bocadinho esse tipo de mídia E hoje em dia eu respeito muito o trabalho deles E acho que eles também respeitam o meu Ainda acho que existem Coisas feias Mas isso em todos os meios E acho que até respeitam bastante Como há tantas pessoas que gostam de mostrar tudo Eu acho que respeitam muito Que eu não gosto de mostrar tudo E já há lugar para todos Eu não tenho nada contra quem gosta de mostrar tudo Aliás, tenho muitas amigas que o fazem E que eu admiro imenso Vou dar um exemplo, a Inês Arispreira Que aproveita muito do seu dia-a-dia Para falar com os seus fãs no telefone Cria uma narrativa ela própria Há uma mitologia da Inês Arispreira Mas eu adoro-a Porque ela é exatamente como está ali Não é uma máscara É a Inês a ser Inês E eu acho aquilo Eu admiro Não é um risco? Isso é sempre. Uma exposição brutal pode ser sempre um risco porque depois está muito mais está muito mais exposta a crítica. Sabe uma coisa que ocorre mal, cai-lhe tudo em cima. Mas acho que ela também sabe desses riscos. Mas também acho que as coisas melhores acabam por ser maiores do que as piores.
Jorge Correia • 54:57
Olha, vamos fechar. Depois de tantas personagens, o que é que sobra da Inês? O que é que há de Inês aqui?
Inês Castel-Branco • 55:06
Eu acho que ainda não sei responder a essa pergunta Juro Consigo-te replicar um bocadinho O que os meus amigos dizem de mim Sou uma pessoa que gosta de cuidar dos outros Que gosta de agradar os outros I’m a people person Sou uma pessoa de pessoas Gosto muito de convívio, gosto muito de agregar Gosto muito de conversar De bevinho, de dançar De ver arte de viver em Lisboa e de pronto é isso acho que sou simples, acho que sou mesmo uma pessoa simples e que não gosta de dar entrevistas não se nota nada
Jorge Correia • 55:46
obrigado Inês
Inês Castel-Branco • 55:47
obrigado a eu Jorge
Jorge Correia • 55:50
Pergunta Simples um programa sobre comunicação para quem quer boas respostas
