Falar em público é um privilégio? Maria Castello Branco

OUVIR A CONVERSA
Falar em público é um privilégio? Maria Castello Branco
00:00

Com oito anos, Maria Castello Branco escreveu uma carta ao presidente da Comissão Europeia. Não foi ideia dela, foi da mãe. Mas a irritação e o inconformismo já lá estava. Andava chateada com os sacos de plástico, e a mãe disse: escreve.

“O senhor Durão Barroso é português, podes escrever em português”.

Ela escreveu, à mão, com a arrogância tranquila de uma miúda que ainda não sabe que há coisas que não se dizem. Os pais não mudaram uma linha. Mandaram assim. E chegou resposta.

Há histórias pequenas que explicam tudo. Esta é uma delas.

Não é uma história sobre precocidade, nem sobre talento, nem sobre uma família com ligações ao poder europeu. É uma história sobre o que acontece quando alguém nos diz, muito antes de qualquer argumento, que a nossa voz pode chegar a alguém. Que vale a pena ser ouvida. Que existe um destinatário para o que pensamos.

A maioria das pessoas nunca recebe esse presente. Cresce a aprender a pensar, mas não a falar. A ter opiniões, mas não a defendê-las. E depois estranha porque o espaço público parece construído para outros, por outros, com uma linguagem que não é a sua.

Maria Castello Branco não estranha. E a razão, diz ela com uma clareza que desconforta um pouco, não é mérito. É sorte. É herança.

Esta distinção importa. Num tempo em que o espaço público está a ser democratizado, pelo menos na aparência, pela multiplicação de plataformas e vozes, a questão de quem fala e quem é ouvido continua a não ser neutra. Continua a depender, em grande parte, do que aconteceu muito antes de qualquer câmara, muito antes de qualquer microfone. De quem estava à mesa do jantar. De como reagiam quando a miúda dizia uma coisa que achava importante. Se a ouviam de verdade, ou se sorriam com a condescendência afetuosa que silencia sem parecer que silencia.

Há uma diferença gigante, diz ela, na forma como educamos rapazes e raparigas. Num parque infantil, a coragem de um rapaz que desce os escorregas sem medo é elogiada de forma que a coragem de uma rapariga raramente é. Ela é elogiada por ser bonita, por ser cuidadosa, por ser querida. E quando tu cresces a ter a validação associada a uma dessas coisas, tornas-te essa coisa. Não por natureza. Por repetição.

O que ficou desta conversa não foi uma opinião sobre política, embora política tivesse atravessado muita coisa. Foi esta pergunta mais funda, que a conversa foi abrindo sem nunca formular directamente: quem tem direito a voz? E quem decide isso?

A resposta, a mais honesta que existe, é incómoda. Decide quem estava lá antes. Quem deu ou não deu autorização, consciente ou não, antes de qualquer competência ser demonstrada. O espaço público não espera que as pessoas se formem para decidir se as vai ouvir. Decide antes. E a maioria das pessoas, quando finalmente chega, já interiorizou a resposta.

Há outro problema, que tem a ver com a velocidade. Uma ideia que tem de caber em trinta segundos tem de ser pontiaguda, diz Maria Castello Branco. Tem de ser áspera. Tem de cortar. Mas é exatamente o que a torna eficaz que lhe retira profundidade. Perde os contornos. Perde a possibilidade de ser dissecada. O que fica não é a ideia, é a impressão da ideia. O som que ela faz ao bater. Não o que diz, mas como provoca.

Ela conhece este mecanismo por dentro. Aprende a utilizá-lo porque o meio exige. Em televisão, descobriu que começar pela conclusão, mesmo que provoque, prende mais do que começar pelo processo. A polémica é o anzol. A argumentação é a rede. São ferramentas diferentes, usadas por ordem. E ela tem a honestidade rara de dizer isto sem romantismo, como quem descreve uma técnica e não uma vocação.

O problema, como ela também sabe, é que a técnica tem um custo. O que se perde em trinta segundos não volta. E há uma assimetria que não tem solução fácil: as pessoas que mais precisam de pensar devagar são as que vivem num mundo que mais recompensa a rapidez.

É aqui que entra a rádio, e é aqui que esta conversa ganha outra dimensão. Na televisão, diz ela, sente o peso da imagem. Uma gravitas que muda o que pode ser dito, como pode ser dito, em que posição se pode estar sentada. Na rádio fica mais solta. Mais verdadeira. A intimidade do microfone permite uma química que o ecrã não autoriza, porque o ecrã é um juiz que a imagem alimenta constantemente.

Há uma ideia de Marshall McLuhan que não foi citada, mas estava presente em toda a conversa: o meio não é apenas canal, é condição de possibilidade do que pode ser dito. A forma que o suporte impõe muda a substância da ideia. Não é neutra. Nunca foi.

No final, quando lhe perguntei o que nunca lhe perguntam, ela disse: tribunais medievais de animais. Na Idade Média, em França e em Inglaterra, os animais eram levados a julgamento. Tinham advogado de defesa. Podiam ser condenados ou absolvidos. E a razão filosófica que ela dá para explicar isto é a que fecha tudo: antes de Descartes, o animal podia ser sujeito. Descartes criou o sujeito moderno, separou a mente do corpo, e com isso decidiu o que podia pensar e o que não podia, o que podia falar e o que não podia, o que merecia ser ouvido e o que não merecia.

Ficámos com um espaço público construído à imagem dessa separação. E depois estranhamos que tanta gente não se reconheça lá dentro.

A conversa completa com Maria Castello Branco está disponível no Pergunta Simples.

Ler transcrição completa

Maria Castello Branco
00:00
O maior de todos é mesmo sentir-me ouvida, sentir que a minha voz conta. E isso foi-me dado tanto na escola onde eu estudei durante 12 anos como na minha família em casa. Acerca das ideias, mais do que outra coisa. Mas é a questão de se tu queres dizer alguma coisa, se tens alguma coisa para dizer, diz. E isso até pode influenciar. Eu conto-me uma história que já fica ridículo tantas vezes que é repetida, mas sempre que falo sobre isto, falo sobre aquilo, sobre esta história, que não é nada de mãe. mas marcou-me imenso porque eu escrevi uma carta ao Daron Barroso com 8 anos porque a minha mãe disse, pá escreve andava chateada com o cheque de plástico minha mãe disse, escreve, a Presidenta da Penção Europeia que por acaso é português, pode escrever em português e eu disse ok, então escrevi muito arrogante com 8 anos, tipo se eu fosse o senhor não quero ser, não sei o que, mas se eu fosse o senhor o que eu fazia era isto, tipo eu, claro e os meus pais amorosos não mudaram nada escrevi à mão, mandei e pá recebi uma resposta e eu acho que a cena de ter recebido uma resposta foi espetacular, marcou-me mesmo fiquei, ah, eu posso falar e mesmo que isto não mude, claro que não se para o chaco, evidentemente mas as pessoas estão-me a ouvir e isso com oito anos é muito fixe, ter os adultos à tua volta que te dão essa sensação acho que a maior parte das pessoas não têm, principalmente as raparigas quando estão a crescer não têm essa sorte e eu por acaso estive portanto eu costumo dizer, isto não é nada meu é só porque me deram esta oportunidade é mais sorte mesmo da vida fortuna

Jorge Correia
01:30
Pergunta simples um programa sobre comunicação para quem quer boas respostas Será que eu posso falar? É talvez a pergunta que quase nunca fazemos não sobre o que dizemos sobre quem nos disse que podíamos dizer mas quem decidiu que a nossa voz valia a pena ser ouvida quem nos deu essa autorização antes de qualquer argumento antes de qualquer competência. A maioria das pessoas nunca recebeu esta autorização. Cresceu a aprender a falar, mas não a falar em público. A ter opiniões, mas não a defendê-las. A pensar, mas não a dizer o que pensa realmente. Desta conversa ficou-me uma frase que não foi dita como conclusão, foi dita quase de passagem. Diz Maria Castelo Branco, o maior privilégio de todos é sentir que a minha voz importa. Não a inteligência, não a formação, não a exposição, a voz. A sensação de que tudo o que se diz pode chegar a alguém e fazer qualquer coisa lá dentro. Essa sensação, não se aprende na universidade, é dada muito antes disso. Uma espécie de autorização tácita. Ou então não é dada e depois tenta-se compensar a vida inteira. Maria Castelo Branco tem 26 anos. Comenta política na rádio, na televisão, na escrita. Estuda filosofia e metafísica chinesa. Defende a contradição como método, desconfia de Descartes e tem um ego que, diz ela, tenta dominar com o absurdo. Mas a pergunta que lhe faço não é sobre política nem sobre filosofia. É sobre o que acontece antes de qualquer opinião. Como se forma uma voz pública? O que se ganha quando uma ideia acaba em 30 segundos? E o que se perde? Estas são perguntas sobre comunicação, sobre o espaço que existe ou não existe para pensar devagar num mundo que recompensa a rapidez. Viva! Maria Castelo Branco, a maioria das pessoas normalmente estuda durante uns anos, prepara-se, faz uma carreira e depois lança-se no espaço público a dizer coisas. E tu és exatamente o contrário Tu decidiste tomar conta do espaço público E fazer tudo ao mesmo tempo Quanto é que tu decides Começar a dizer coisas ao mundo?

Maria Castello Branco
03:49
Bem, isso é uma ótima pergunta Eu não sei se Olha, não foi decisão nenhuma Nem a tomar conta do espaço público Nem a decisão nenhuma É só, eu costumo dizer isto Que é, eu tenho imensos privilégios Em imensas coisas E o maior privilégio de todos É que os meus pais deram-me uma Sensação, desde muito miúda De que a minha voz importa Ou seja, que eu posso dizer coisas

Jorge Correia
04:16
És uma mafaldinha

Maria Castello Branco
04:17
Sou uma mafaldinha

Jorge Correia
04:18
Eu vou dizer alguma coisa e vou ser ouvida por isso E tenho a capacidade de poder dizer

Maria Castello Branco
04:24
Muito mais insuportável do que a mafaldinha

Jorge Correia
04:25
Muito mais? Mas porque és impertinente Como desporto Dizem-me, agora vou conseguir incendiar aqui A mesa aqui dos tios, aqui no Natal, para ver o que é que acontece e vão-me sentar em conta.

Maria Castello Branco
04:38
Eu adorava ter discussões adorava ter discussões à mesa, adorava, adorava, adorava. Com os alunos todos, pronto. E o meu pai e a minha mãe achavam piada a isso. Têm os dois académicos portanto ajudavam-me a pensar e às vezes diziam tipo eu costumo dizer que a minha coisa na vida dá de issues o Freud explica, mas é ganhar uma discussão o meu pai, tu quase lá e o meu pai mandava-me estudar dizia-me a minha mãe também mas de uma forma muito engraçada e eu adorava aquilo que era, pá, Maria, sim, tu de ideias muito interessantes, sabes, aquela coisa, tipo, sou miúda acho que… não, é aquela coisa de descobri isto, e isto agora é a verdade universal, obviamente é isto, é x, y, z e eles diziam, sim, é muito engraçado olha, já há uma extensa literatura sobre o assunto consulta e depois vão falar connosco Porque eu nunca conseguia, sabes? E isso é muito giro, porque ao mesmo tempo nunca foi uma coisa meio condescendente. Nunca foi. Trataram-me sempre de igual para igual nesse sentido.

Jorge Correia
05:41
Portanto, eram exigentes contigo?

Maria Castello Branco
05:43
Iber.

Jorge Correia
05:44
Obrigavam, te estimulavam, te davam de pistas para entender o mundo?

Maria Castello Branco
05:46
Não me obrigaram nunca nada. Eu fazia aquilo um bocado só. Ou seja, eu gostava daquilo. Se eles não fizessem isso, eu ficava um bocado aborrecida.

Jorge Correia
05:51
Durava aquilo. Então deixa-me entrar na tua cabeça. E o que é que tu pensavas no teu íntimo… Não sei em que idade é que tu tiveste consciência do gozo que te dava convencer aqueles dois seres que eram os teus pais e, portanto, que te davam essa liberdade. Quando é que tu tens essa consciência?

Maria Castello Branco
06:07
Não sei. Não sei se tenho consciência. Acho que é completamente… Mas eu, desde mesmo muito pequenina, eu gostava muito de discutir. Eu gosto imenso de discutir. Eu gosto de discutir por desporto. De discussão. Às piada. E os meus irmãos são iguais. Portanto, aquilo é em casa… É quase todos os jantares são uma grande discussão sobre alguma coisa. E… E entre todos, e depois é engalfanhar-me-nos um bocado, mas é sempre sobre, nunca é sobre as pessoas em si, é sempre sobre meias de tuas ideias, não é?

Jorge Correia
06:38
E é o gozo da argumentação, o gozo quase aristotélico do argumentário, ou a ideia de ganhar?

Maria Castello Branco
06:46
As duas coisas. Eu não sei se consegues separar.

Jorge Correia
06:48
És competitiva, hein?

Maria Castello Branco
06:50
Super.

Jorge Correia
06:52
Como é que é isso?

Maria Castello Branco
06:53
Insuportável.

Jorge Correia
06:54
Queres ganhar sempre?

Maria Castello Branco
06:55
Quero. Mas não, sim. Mas eu tenho Tenho humildade para reconhecer Que às vezes não dá Mas a maior parte das vezes não dá E depois uma pessoa cresce e fica menos insuportável Mas isto eu estou a pensar Nesta fase em que tu me estás a perguntar Estás-me a trazer lá atrás E estou-te a responder lá atrás Queria imenso ganhar Lá está, eu disse-me, a grande coisa é ganhar uma discussão ao meu pai Não consigo, e é ótimo, não conseguir, eu gosto

Jorge Correia
07:21
Não consegues porquê? Porque ele te troca as voltas Porque ele sabe mais coisas E tu estás sempre a entrar no campo dele Como é que isso funciona?

Maria Castello Branco
07:28
É porque eu escolhi a minha área Eu escolhi a área do meu pai Que é a filosofia política E portanto nós temos muitas discussões sobre filosofia política

Jorge Correia
07:38
O que é que ele te disse quando tu escolheste a área dele?

Maria Castello Branco
07:41
A área dele que agora é tua, não é? Ficou assim O que é que estás a fazer na tua vida? Mas pronto, deixou

Jorge Correia
07:49
E tu lá foste?

Maria Castello Branco
07:50
Lá fui

Jorge Correia
07:51
És uma espécie de filhinha do papá ou não?

Maria Castello Branco
07:53
Sim, de certa forma

Jorge Correia
07:55
Ou perturba-te essa ideia, esse rótulo de ser filhinha do papá?

Maria Castello Branco
08:00
Sim, intelectualmente sim. Nós tivemos sempre uma relação mais, durante o início, tenho uma relação hiper-umbilical com a minha mãe, hiper-emocional, hiper-umbilical, com o papai sempre um bocadinho mais intelectual, até assim, no meio da minha adolescência. E depois, agora tivemos uma relação mais emocional também, bastante forte, é ótimo.

Jorge Correia
08:23
O que é que eles te dizem?

Maria Castello Branco
08:25
O que é que eles me dizem quando?

Jorge Correia
08:26
Todos os dias, sim Quando te veem na televisão No fundo na tua performance diária

Maria Castello Branco
08:33
São os queridos, são os meus maiores fãs É uma coisa muito querida

Jorge Correia
08:36
Não te dão na cabeça? Não te dizem Bom, meteste aqui numa molhada de brócolos

Maria Castello Branco
08:41
Zero

Jorge Correia
08:41
Zero Minha ameditude é um amor Olha, tu tens os pais que te apoiam Então e aqueles que achavam que tu devias Eraste a calada? Tens esses amigos também? Dizem, pá, Maria, não digas isto.

Maria Castello Branco
08:56
Não.

Jorge Correia
08:57
Isto vai dar-me uma grande confissão.

Maria Castello Branco
08:59
Não, não tenho mais.

Jorge Correia
09:00
Não de tudo.

Maria Castello Branco
09:01
Não.

Jorge Correia
09:02
Fala-me do teu processo mental. Como é que tu constroes as tuas ideias para as dizer? Como é que é o teu processo de gravidez mental?

Maria Castello Branco
09:13
Gravidez, é linda essa expressão.

Jorge Correia
09:15
Porque eu imagino, quer dizer, e uma das razões para nós gravarmos esta conversa, e que era a pergunta implícita que eu nunca disse, disse-te imediatamente antes de começarmos a gravar, é possível pensar bem em público? Se é possível ou não é possível? E eu quero entender muito do que é que alguém que nos tem que explicar a realidade, o filtro da realidade, com mil assuntos que estão a acontecer como é que funciona? Como é que funciona a tua máquina de lavar mental?

Maria Castello Branco
09:44
Não sei, é muito intuitiva eu acho que sou muito intuitiva e é uma coisa às vezes um bocadinho confusa mas às vezes saem É uma coisa muito estranha Eu não consigo bem explicar Mas às vezes tenho intuições É isto E depois às vezes digo Mas porquê? E depois isto não só No comentário político Que às vezes é uma coisa mais Mas eu escrever a minha tese de mestrado Que é uma tese em filosofia e metafísica É assim uma coisa mais Um bocadinho mais pesada Se quiseres, não é preciso entrar aí Mas eu tinha intuições

Jorge Correia
10:19
Eu quero saber o que é a filosofia Como é que é? Da metafísica

Maria Castello Branco
10:23
É mais metafísica É assim É a filosofia antiga chinesa Eu apaixonei-me pelo Wang Bi Que é um homem que morreu aos 23 anos Na dinastia Han na China Que há uns bons milhares de anos E ele escreve os textos Mais influentes Sobre os textos clássicos Chinenses e ele morre aos 23 E deixa uma obra Incomensurável Atrás e eu apaixonei-me por ele Mesmo, é assim, dos únicos homens Porque eu me apaixonei na vida Eu apaixonei-me por mulheres, não por homens E dá jeito porque ele já não está cá, não é? Portanto, não

Jorge Correia
11:02
Não ficavas em dúvida? Não Claro

Maria Castello Branco
11:06
Mas ele é assim, fabuloso E eu quis mesmo estudá-lo E tinha Coisas que era tipo Como é que porque como é que eu vou explicar que eu estou com uma intuição que a filosofia ocidental não consegue explicar o nada, a inexistência porque não tem uma concepção como a filosofia oriental do infinito ou confunde o infinito com a eterna são ideias que eu tenho tipo e depois tem que lá chegar mas é uma intuição e depois tem que lá chegar e é quase como se eu estivesse a partir pedra para tentar chegar e depois quando chego é uma felicidade imensa e depois chego tipo e depois fico, que chatice, agora já acabou

Jorge Correia
11:47
e depois tens um pequeno problema é impossível, percebes é que é como é que depois tu pegas numa ideia complexa que ainda por cima nasce de uma intuição e a consegues explicar a um grande público que não tem os teus referenciais, que não tem a tua intuição, mas no fundo pagam-te para explicar o mundo, que é complexo

Maria Castello Branco
12:09
sim, felizmente não pagam para explicar esta coisa da metafísica porque eu acho que tinha muito mais dificuldade porque são eu acho que tu tens que não sei, não sei eu gosto muito de comunicar, gosto muito de falar desde pequenina, sou muito faladora às vezes até demais, falo pelos cotovelos

Jorge Correia
12:27
Olha, e a diferença entre falar e ser ouvida também a sentes?

Maria Castello Branco
12:31
Claro, sempre

Jorge Correia
12:33
Sentes-te ouvida?

Maria Castello Branco
12:34
Sinto, mas é isso, eu acho que é um grande privilégio o maior de todos tendo existido muitos evidentemente não é isso mas é que o maior de todos é mesmo sentir-me ouvida, sentir que a minha voz conta e isso foi-me dado tanto na escola onde eu estudei durante 12 anos como na minha família em casa acerca das ideias mais do que outra coisa mas é a questão de se tu queres dizer alguma coisa se tens alguma coisa para dizer, diz e isso até pode influenciar eu conto-me uma história que já fica ridículo tantas vezes que é repetida mas sempre que falo sobre isto falo sobre aquilo sobre esta história e que não é nada de mães mas marcou-me imenso porque eu escrevi uma carta ao Drão Barroso com 8 anos porque a minha mãe disse, pá escreve andava chateada com o cheque de plástico minha mãe disse, escreve, a Presidenta da Comissão Europeia que por acaso é português, pode escrever em português e eu disse ok, então escrevi muito arrogante com 8 anos, tipo se eu fosse o senhor não quero ser não sei o que, mas se eu fosse o senhor o que eu fazia era isto, tipo eu claro e os meus pais amorosos não mudaram nada escrevi à mão, mandei e pá recebi uma resposta e eu acho que a cena de ter recebido uma resposta foi espetacular, marcou-me mesmo fiquei, ah, eu posso falar e mesmo que isto não mude, claro que não se para o chaco, exatamente mas as pessoas estão-me a ouvir e isso coitoeiros é muito fixe, ter os adultos à tua volta que te dão essa sensação acho que a maior parte das pessoas não têm, principalmente as raparigas que quando estão a crescer não têm essa sorte e eu por acaso estive portanto eu costumo dizer, isto não é nada meu é só porque me deram esta oportunidade É mais sorte mesmo da vida, fortuna

Jorge Correia
14:12
Principalmente as raparigas O que é que isso quer dizer?

Maria Castello Branco
14:15
Quer dizer que há uma diferença gigante Na forma como nós educamos os rapazes e as raparigas Enorme

Jorge Correia
14:22
Tu tens irmãos?

Maria Castello Branco
14:23
Tenho, dois irmãos mais novos

Jorge Correia
14:24
E então, fala-me disso

Maria Castello Branco
14:25
Amo-os, são as minhas melhores amigas

Jorge Correia
14:28
Mas eles também beneficiaram dessa forma cultural de educação?

Maria Castello Branco
14:31
Claro, beneficiam todos Beneficiam e depois têm Tens coisas boas e coisas más na forma como educas rapazes e raparigas porque são duas formas muito diferentes e têm as duas formas os seus senãos a forma que tu educas dou o teu exemplo eu acho que toda a gente vai perceber mais ou menos isto se tu tiveres num parque de crianças com crianças de 4 ou 5 anos a facilidade que tu tens de elogiar um rapaz pela sua coragem porque é um corajoso porque é um guerreiro é não sei o que, vai nananã, está a descer escorrega, sem medo, é muito maior do que a facilidade que tu tens de elogiar uma rapariga exatamente pela mesma coisa. Provavelmente tu vais elogiar sem querer. E acho que toda a gente cai nisso. Eu própria cai nisso e tenho que desconstruir. Provavelmente eu vou elogiar uma rapariga porque ela é muito querida, porque é muito princesa, porque é muito bonita. E, portanto, quando tu cresces a ter a validação externa associada à tua coragem versus a tua bondade ou ao teu cuidado ou o teu bom comportamento o teu bem-estar ou o saber-estar ou a tua beleza isso difere, isso faz com que tu fiques diferente em sociedade, porque tu aprendes que as pessoas valorizam mais uma coisa ou outra. Já agora deixa-me provocar-te

Jorge Correia
15:51
tu estás no universo mediático também, porque obviamente falas bem porque obviamente te articulas obviamente és de uma nova geração e as televisões decidiram começar a colocar mulheres, jovens inteligentes a comentar Mas tu és bonita e obviamente a televisão gosta de pessoas bonitas a falar na televisão Sim, talvez, sim Portanto, no fundo, o que tu me estás a dizer é que por um lado nós temos uma fórmula de tratar rapazes e raparigas De uma forma ou de outra, mas com idiosincrasias próprias O que te pergunto é, é possível ter uma liberdade, não é uma autonomia Uma liberdade absoluta e tratar igual os géneros da mesma maneira?

Maria Castello Branco
16:36
Se é possível teoricamente ou se é possível ou se as pessoas fazem isso

Jorge Correia
16:41
Se isso fazem, podemos ir fazendo cada vez mais

Maria Castello Branco
16:44
Claro que podemos ir fazendo cada vez mais Sim, acho que há É assim, em última instância não é tratar toda a gente da mesma forma porque senão de repente somos autómatos ou seja, eu vou tratar de uma forma diferente que trataria outro homem porque tu és uma pessoa muito específica e ainda bem na tua individualidade e portanto e eu também, portanto cruza-se aqui uma coisa que surge uma interação que é única. Só existe entre mim e ti, como só existe entre mim. Essas coisas, evidentemente, que acontecem. Agora, podes é tentar reduzir esta diferença na educação, principalmente na educação na infância, que depois leva a que os rapazes, por exemplo, só possam ser corajosos e não possam ser frágeis.

Jorge Correia
17:19
Não podem chorar. Exatamente.

Maria Castello Branco
17:21
Ou que as raparigas só podem ser cuidadoras e bonitas e não podem ser muito inteligentes, porque como assim uma rapariga bonita e inteligente? Não faz sentido, não é? Tens imenso isso ainda hoje em dia. E as pessoas têm estes preconceitos que não são responsabilidade delas em última instância porque lhes foram impregnadas a usar a tua brincadeira da gravidez das ideias. Tiveram gravidez de ideias muito cedo, ideias que não são delas, que são passadas e passadas e passadas a longas gerações e é bom ir desconstruindo porque não ajuda ninguém. Não ajuda nem os rapazes que não podem chorar, nem as raparigas que não podem argumentar.

Jorge Correia
17:57
Olha, voltamos às ideias complexas e ao mundo complexo e que não conseguimos entender, quanto mais controlar, o que é que se perde quando se tem que transformar uma ideia complexa numa coisa que muda a nossa vida em 30 segundos num som de baita na rádio ou na televisão?

Maria Castello Branco
18:14
Pertes tudo, perdes a complexidade. Toda. Pertes tudo. Repara, a rapidez a rapidez permite permite uma como é que eu vou pôr isto? A rapidez permite que as ideias sejam mais ásperas mais pontiagudas se quiseres, ou pelo menos para passares uma ideia em 30 segundos tem que ser é obrigatório quase para ela passar mesmo e para ficar num soundbite como tu dizes que ela seja áspera e pontiaguda mas se ela é áspera e pontiaguda perde os contornos que a fazem ser disponível para ser dissecada

Jorge Correia
19:00
Perdemos as nuances, no fundo.

Maria Castello Branco
19:02
Sim, exatamente.

Jorge Correia
19:03
Tu pegas numa ponta de uma faca, quase ou de um vidro, cortas porque sabes que isso vai produzir um efeito, vai produzir uma reação, e compactas imediatamente ali a ideia e tu sabes que ela vai ficar.

Maria Castello Branco
19:15
Sim, eu acho que sim. Por exemplo, na televisão é uma coisa que eu tenho vindo a perceber, ao longo destes dois anos que eu estou a fazer isto, que é, se eu começar com a conclusão e depois explicar, agarro muito mais as pessoas do que se eu começar com o meu processo mental.

Jorge Correia
19:32
Faz sentido.

Maria Castello Branco
19:33
Óbvio. O que acontece normalmente é que a conclusão às vezes até pode ser um bocado polémica. Até é bom que seja. Em televisão é bom dar boa televisão, não é? Se eu disser assim…

Jorge Correia
19:43
Eu acho que não dá só boa televisão. Eu acho que dá um gozo tremendo fazê-lo.

Maria Castello Branco
19:47
Epá, pois dá. Eu adoro. Eu adoro. Eu gosto às vezes de explicar às pessoas. Acho piada.

Jorge Correia
19:55
Eu vou picar aqui o engravatado que está aqui do lado direito. Eu acho que isso te dá gozo

Maria Castello Branco
19:59
Sim, também Não dá a toda a gente Eu acho que dá Eu acho piada Mas depois tens de ter sustentação Não é ser polémico por ser polémico Isso eu não acho tanta graça Acho que é um estilo Mas ser tipo do contra Só por ser do contra Mas às vezes eu acho piada Dizer assim a conclusão E a conclusão às vezes é tipo E depois chegas lá e ok

Jorge Correia
20:25
E tudo aquilo é explicável pela racionalidade? Não. De tudo.

Maria Castello Branco
20:32
Eu odeio o racionalismo. Eu não gosto mesmo. As pessoas ficam, olha lá está, estás a ver? Isto é um hot take. Isto é um hot take. Isto tem zero nuance. Isto é pontiagudo. As pessoas ficam assim, como assim, ela odeia o racionalismo. Pronto. E depois eu até posso explicar, mas isto é um exemplo. Sim, perto de imensa coisa. Se eu só dizer isto e não se planar, as pessoas acham que eu sou tipo, não sei o quê.

Jorge Correia
20:57
Tens que explicar. Pronto, exato.

Maria Castello Branco
20:59
Depois tens que explicar sempre, não é?

Jorge Correia
21:00
Mesmo que não seja um argumento racional, pode ser um argumento emocional, pode ser uma sensibilidade.

Maria Castello Branco
21:05
Sim, mas há tanta coisa que não cabe na racionalidade. Sei lá, há tanta coisa que não cabe na razão. Tanta, tanta, tanta coisa no mundo que não cabe na razão. E se tentar explicar pela razão, perdes completamente a coisa.

Jorge Correia
21:13
O comentário pode ser epidémico?

Maria Castello Branco
21:15
Pode ser uma coisa quase de

Jorge Correia
21:17
repulso ou de paixão? Claro.

Maria Castello Branco
21:19
E normalmente é, sei lá, a política é uma coisa de paixão. Eu não acho que a política seja assim tão racional como as pessoas tentam fazer.

Jorge Correia
21:25
Fala-me da política, explica-me a política.

Maria Castello Branco
21:27
Não sei. Não sei explicar. A política existe… Opa, ia-se passar, lá está, olha, pronto. Mas eu acho que a política é muito totalizante. Acho que a política está em todo lado. Isto é uma coisa até bastante marxista de ideia, vem de uma ideia marxista, mas não concordante com o que o Marx… Porquê que o Marx diz isto? Eu acho que e ele tem alguma razão na conclusão a que chega. Lá está a conclusão e depois a explanação. A política está em todo lado. Nós estamos a fazer política, de certa forma. O facto de eu ter uma voz e de tu teres uma voz tem implicações políticas interessantes. Ou de nós, podes até não ter uma voz, mas tens uma interação na rua com uma pessoa que depois tem repercussões nessa pessoa, que depois vai ter repercussões na família dela, que depois vai ter repercussões na família, na sociedade, etc. política é a polis, é a tua vida em comunidade. E, portanto, acho que há muitas coisas que não são racionais. Quando há tantas coisas que não são racionais, na interação pessoal. Tipo, acho que a política, como é feita de interações pessoais, é muito pouco racional.

Jorge Correia
22:32
Olha, e o que é que é um bom político?

Maria Castello Branco
22:38
Depende.

Jorge Correia
22:39
Podemos desenhar um retrato robô?

Maria Castello Branco
22:42
Não. Em que sentido?

Jorge Correia
22:43
Em todos? Quer dizer, vamos lá ver. Podemos medir isto com enquanto sucesso, é aquele que ganhou as eleições, É aquele que conseguiu convencer os outros de que as suas ideias são melhores? É aquele que ocupa mais espaço e mais tempo? Ou é aquele que faz coisas que verdadeiramente mudam a nossa vida? Eu posso ser mais específico na pergunta. Há uns políticos que nos parecem bons na forma, mas que fazem muito pouco. E há outros que fazem coisas extraordinárias e que toda a gente está a dizer mas ele não presta para nada. Forma e conteúdo.

Maria Castello Branco
23:18
Pois, mas… Isso é uma boa questão, mas eu não tenho resposta.

Jorge Correia
23:23
Como é que tu escrutinas os teus… Estou a imaginar-te a ti, tu eleitora, a escrutinar com toda a tua complexidade, a escrutinar o momento em que vais votar numas eleições. Como é que é? Qual é a tua régua? Como é que é a tua régua? Como é que tu medes? O que é que tu procuras?

Maria Castello Branco
23:41
Intuição. É um bocado intuitivo, não te sei explicar, mas, ok, um bom político, não sei, porque acho que tens bons políticos, podes fazer uma política com uma arte da política, não é? Que não sabem o que é que será, mas assim é uma coisa de… sabem, são bons em retórica, têm muito carisma, são pessoas muito… com ideias muito fortes, que conseguem com fortes capacidades de liderança, com fortes capacidades interpessoais, etc, etc. São bons líderes e são bons políticos. Também podes dizer, sim, um bom político também é uma pessoa que, como tu disseste, pode não ter essas coisas, mas que depois é uma pessoa com imensa visão e que consegue transformar o país. Eu acho que é que uma pessoa com imensa visão e que tenha muito boas ideias, se não tiver as outras coisas todas, não consegue transformar o país a não ser que tu vivas numa tecnocracia.

Jorge Correia
24:29
Portanto, eu acho que tens de ter as duas coisas. Porque precisa de convencer os outros.

Maria Castello Branco
24:32
Sim, porque sim.

Jorge Correia
24:33
Tu usaste a palavra carisma. O que é o carisma?

Maria Castello Branco
24:38
Não sei definir. Não sei definir racionalmente. Mas eu acho que presentes o carisma das pessoas.

Jorge Correia
24:45
Portanto, vamos lá ver se eu consigo entender a tua cabeça. Tu és alguém que analisa o mundo, que dizes a intuição é ótima, que até me permite ter um vislumbre sobre a realidade. Os políticos racionais ou as ideias são umas coisas assim muito importantes, mas eu quando vou votar, aquilo que na realidade vejo é uma intuição e um carisma e aquilo que eu sinto mais do que o que eu penso? Ou estou a ser injusto?

Maria Castello Branco
25:10
Não, não é o que eu sinto mais do que o que eu penso. É as duas coisas. Eu não consigo dissociar, percebes? Eu achei que há um problema que nós temos Deste o sujeito cartesiano Se quiseres Quando eu digo que não gosto do racionalismo Eu não gosto do racionalismo filosófico Eu não gosto do Descartes

Jorge Correia
25:28
Vamos já matar o Descartes

Maria Castello Branco
25:30
Sim, é um hot take Quer dizer, eu gosto, não é? Mas eu estou a ser propositadamente provocadora Calma, se as pessoas estiverem a ouvir Ficam tipo, é aí, não

Jorge Correia
25:39
São só os três filósofos O Desidério Murcho é que pode eventualmente comentar E se tu não gostares de um determinado filósofo

Maria Castello Branco
25:47
Fá-te comentar Eu acho que toda a gente Repara, a minha questão é Eu não gosto de Mentira, eu gosto de alguns filósofos racionalistas Mas eu não acho que tu possas separar a razão E não acho que tu possas separar Não acho que possas separar A razão da corporalidade Do corpóreo E portanto Não acho que tu sejas só esta coisa Não acho que as melhores decisões sejam decisões puramente racionais Não acho Acho que as duas coisas podem coexistir Acho que podes ter uma decisão Que é muito intuitiva E que tem também um elemento De racionalidade, evidentemente Não é tipo, ah, agora gosto tanto desta pessoa Votar nela, mas ela quer Acabar com Sei lá, as mulheres Mas eu, pá, mas tenho ali uma atração Para esta pessoa, não é isso, não é?

Jorge Correia
26:34
Mas hoje em dia nós temos

Maria Castello Branco
26:36
Eu estudo programas eleitorais e eu gosto muito de estudar programas eleitorais Atenção

Jorge Correia
26:39
Então és tu, tu és aquela pessoa que lê mesmo os programas eleitorais

Maria Castello Branco
26:43
Epá, mas por defeito de profissão Tipo, eu tenho que ler, não é? Mas eu acho piada Do que tu não lês os programas eleitorais?

Jorge Correia
26:49
Eu leio alguns, mas depois Grande parte daquilo parece-me palha Honestamente

Maria Castello Branco
26:55
Pois é, completamente

Jorge Correia
26:56
Depois há ali umas coisas que são interessantes E há ali algumas coisas que são interessantes Mas que não estão escritas para eu entender

Maria Castello Branco
27:03
Sim, também, verdade

Jorge Correia
27:05
A linguagem, que lá está escrita A linguagem No fundo, até se me ocorre uma pergunta Para ti, que é

Maria Castello Branco
27:12
Olha lá está, mas isso responde, desculpa, mas isso responde à tua questão Que às vezes podes ter uma linguagem tecnocrata Que até pode ter uma ideia brilhante Até pode ser tipo a melhor visão Para o país que tu podes imaginar Tu até concordarias com ela a 100% Se ela tivesse explicada de outra forma Mas é a melhor ideia do mundo Mas está explicada de uma forma que é completamente Tecnocrata E portanto não, tu não consegues ter só um bom político Só porque tem boas visões e depois não tem Respondida à tua pergunta, mas depois não tem capacidade Nenhuma de comunicar, porque aí vai-te acontecer sempre isso vai estar a olhar para ele e vai estar a ver está feita uma linguagem que é suposto eu não entender

Jorge Correia
27:47
Exato Aqui o ponto é, se aquilo está feito porque eu não entendo e não tenho capacidade intelectual para entender ou se aquilo está escrito de uma determinada maneira, com uma linguagem tão precisa que não me permite chegar ao âmago dessa questão Além dos programas eleitorais da esquerda à direita eu diria que eu consigo concordar com 95% dos programas todos, do que lá está escrito. Pois há 5%.

Maria Castello Branco
28:15
Ah, porque são muito, tipo…

Jorge Correia
28:16
Nas grandes áreas. Contra as coisas boas e…

Maria Castello Branco
28:19
Não, a favor das coisas boas e contra as coisas más.

Jorge Correia
28:21
Em busca do bem comum, vamos por aqui…

Maria Castello Branco
28:24
É, consegues. Consegues concordar tanto com o programa eleitoral do Bloco de Esquerda como da Inicidade de Eleitoral.

Jorge Correia
28:29
Eu consigo ler ideias lá que eu diria…

Maria Castello Branco
28:31
90% de um e 90% de outro.

Jorge Correia
28:33
Eu faria uma espécie de buffet. No fundo, pegava no meu tabuleiro e dizia, pronto, deste eu quero isto, isto, eu quero aquilo, daquilo. Se calhar é uma forma… Depois a pergunta que se me ocorre é dizer assim, ok, quem é que vai conseguir fazer isto? Como é que vai fazer isto? Em quanto tempo é que vai fazer isto e que opção é que vai tomar mais depressa ou mais devagar? Essa é uma pergunta que eu me ponho, não é? Porque os países avançam, quer dizer, nós às vezes pensamos que as coisas não mudam, não é? E está sempre tudo igual. Não, as coisas vão progressivamente evoluindo, mas nesse, no aspecto das ideias que lá estão muitas delas são ou encriptadas ou tão genéricas que dão para tudo

Maria Castello Branco
29:15
Sim, a maior parte das vezes tão genéricas que dão para tudo

Jorge Correia
29:18
Já entraste num estúdio sem ter te teres preparado para para o que ias fazer ou comentar Vamos Maria, é indireto junta-te para

Maria Castello Branco
29:28
comentar o mundo Já porque o que acontece é às vezes é mesmo muito tipo em cima e portanto sim, mas a maior parte das vezes não Ou seja, sei lá Às vezes há coisas que acontecem Não sei, por exemplo A última coisa que eu me lembro Que eu entrei mesmo assim, tipo É que eu estava a ter um jantar em minha casa E a ministra da administração interna Demitiu-se

Jorge Correia
29:50
E ligaram-me, tipo, consegue estar aqui em 20 minutos

Maria Castello Branco
29:53
E eu fiquei, não, não consigo Porque literalmente demoro 20 minutos E depois há uma parte muito chata que as pessoas não veem Que é tipo, estás uma hora, quando és mulher Não é chata porque elas fazem Magia quase todos os dias é a Fatih ou então é a Lúcia tipo à noite e fazem, são tipo mágicas e o Dani também é mágico a fazer o meu cabelo e etc é incrível, só que é tipo uma hora do tempo deles e do meu tempo, no sentido em que se eles disserem assim, entra daqui a 20 minutos não, não posso, estou irreconhecível, se eu entrar assim na antena vão ficar tipo, quem é esta gaja? e eu fiquei tipo, não consigo e eles, e estavam tipo, ah mas a ministra acabou de se metir e eu percebo estava um jantar na minha casa, era um bocado intenso Adicionalmente, de outras coisas não vale a pena. E eu, pá, fechei-me no meu escritório, liguei o Skype para entrar e entrei. E preparei-me. Não, não me preparei porque é impossível. Quer dizer, preparei-me um bocado. Já sabia que provavelmente a ministra se ia admitir, mas não sabia que ia ser ali, nem sabia como é que ia ser. Portanto, há coisas que tu não estás preparado.

Jorge Correia
30:57
E naqueles minutos antes, tu vais à procura de ler coisas, organizas um bloquinho de notas para tirar duas outras notas,

Maria Castello Branco
31:05
Sim, sim, eu preciso escrever à mão As coisas Eu tenho um tico qualquer Sempre que estou a entrar na antena já posso ter escrito tudo Posso ter escrito tudo já Mas preciso estar a escrever Mesmo antes de entrar Que é para ter a certeza que tenho as coisas na minha cabeça E quase para me lembrar

Jorge Correia
31:21
Mas isso é charme para a câmera te apanhar a escrever?

Maria Castello Branco
31:24
Não, porque não apanha Não apanha, juro que não Podia ser charme para os meus amigos pivôs ali Mas não é sequer

Jorge Correia
31:32
E a câmera faria um zoom Tu levantarias os olhos e produzirias

Maria Castello Branco
31:36
Se repente é completamente cinematográfico Adorava, podes falar com os realizadores E dizer, não, dá-me aqui logo um plano

Jorge Correia
31:42
De não sei o que Ou um ar escandalizado E depois uma produção de uma declaração de licor doce

Maria Castello Branco
31:48
Sim, uma coisa assim tipo Ou então uma coisa muito itiscoco E o olhar assim para a câmera

Jorge Correia
31:55
Tu brincas com a câmera?

Maria Castello Branco
31:57
Brinco, brinco Mas sem querer, pá, sem querer

Jorge Correia
31:59
Sem querer

Maria Castello Branco
32:01
Já me disseram que sim Mas é que não é de propósito, não sei explicar

Jorge Correia
32:05
Olhas para a câmara?

Maria Castello Branco
32:06
É para olho, porque às vezes estou a olhar para o tempo Às vezes estou a olhar para a minha imagem e estou a pensar Será que eu estou bem ou será que estou com uma figura horrorosa? Porque às vezes já me aconteceu estar com o cabelo para aqui E eu não estou a perceber que está Às vezes olho porque aquilo tem um mini ecrã por baixo E às vezes sim

Jorge Correia
32:22
Faz um espelho feito de câmara

Maria Castello Branco
32:23
Sim, mas as pessoas dizem-me que às vezes faço ares para a câmara E não é mesmo de propósito Às vezes fico assim e as pessoas gozam um bocado com isso

Jorge Correia
32:30
Lá está, porque Mas tu quando estás a produzir uma ideia

Maria Castello Branco
32:34
Sei lá, eu tenho uma câmera aqui à frente Tu achas que estou a brincar com a câmera? Não sei Às vezes posso olhar

Jorge Correia
32:38
Mas é que lá está As câmaras da rádio são câmaras discretas São câmaras que não são o objeto principal O objeto principal aqui são os microfones Nós em princípio gravamos em vídeo Mas estamos a falar ao ouvido das pessoas Eu gosto muito disso Tu agora estás na telefonia Tu agora estás no contraditório aqui na Antena 1 Como é que é a experiência De comentar na telefonia?

Maria Castello Branco
33:01
Adoro, sabes que eu tenho um podcast Feminista com duas amigas minhas De três mulheres jovens A falar de política, da concorrência E eu E eu gosto muito Nós começámos na rádio E era muito giro E depois passámos para um jornal E é muito giro voltar À rádio numa coisa completamente diferente Porque é muito diferente É mais giro Fico muito mais solta a falar Primeiro posso sentar-me como estou sentada agora Para as pessoas que só estão a ouvir Eu estou completamente Tercida na cadeira Na televisão não posso fazer isso E é chato, posso me descalçar Na televisão não posso sempre descalçar, às vezes posso

Jorge Correia
33:43
O que é ótimo A experiência do podcast versus a experiência da rádio mais formal Muda alguma coisa na tua cabeça?

Maria Castello Branco
33:49
Isso também muda Sim, porque há uma coisa mais Há mais formalidade, mas também porque Porque Nós no podcast o público é mais jovem o nosso público é bastante mais jovem

Jorge Correia
34:02
e tu consegues saber quem é o público

Maria Castello Branco
34:04
também tem essa vantagem nos podcasts? Sim, sim sim, pelo Spotify, pelas coisas tens análises e portanto o nosso público era maioritariamente feminino mais jovem e portanto podemos fazer e depois nós somos as três melhores amigas e portanto estamos assim, é muito informal às vezes esquecemos que estamos a gravar e às vezes saem-nos coisas às vezes temos pedido mesmo para cortar aquilo porque aquilo não dá para ali

Jorge Correia
34:32
porque é demasiado bárbaro? Porque te arrependes?

Maria Castello Branco
34:36
porque é demasiado íntimo por causa disso esqueço-me mas há uma intimidade na rádio também aqui também, que eu não consigo ter em televisão e eu própria sinto eu já comentei por acaso acho que nunca comentei com a Luísa na RTP, mas já com o António e com a Natália e há uma diferença até de química eu sinto aqui nesta mesa, onde nós habitualmente gravamos, até às vezes noutro sítio, mas aqui há uma diferença de química aqui versus na televisão, porque as câmaras estão lá de facto, como tu dizes, porque a luz é diferente porque há uma maior gravidade em tu sentir-se que estás a entrar em casa das pessoas pela sala não sei explicar do que tipo estás no carro, para mim é um bocado diferente

Jorge Correia
35:19
Sentes esse peso? O peso da imagem

Maria Castello Branco
35:22
sim, há um peso da imagem

Jorge Correia
35:23
muito grande. Eu quando ouço rádio, quando estou a ouvir a telefonia, sinto-me parte daquilo Eu estou lá, há ali umas pessoas que estão a conversar comigo Mas eu estou mais tranquilo Se calhar a televisão tem essa gravitas

Maria Castello Branco
35:34
Tem, tem, eu acho que sim Eu acho que ainda tem essa Há uma morte anunciada da televisão Há mesmo tempo, mesmo na minha geração e tal Mas eu acho que a televisão ainda tem uma Uma pila diferente É uma coisa Tu próprio sentes Eu sinto-me um bocado mais Mas eu gosto mais Sinto-me mais à vontade Se for para falar de ideias E se for para estar à conversa Eu prefiro o à vontade de rádio

Jorge Correia
36:00
Desta conversa Olha, fala-me dessa química Essa química com a rádio, com o microfone Com as pessoas Depende também de quem é a tua contraparte?

Maria Castello Branco
36:10
Quando é que não depende De quem é que é a contraparte? Não sei

Jorge Correia
36:12
Depende sempre?

Maria Castello Branco
36:13
Sim, mas acho que no geral Como toda a gente não sentes isso

Jorge Correia
36:17
Eu sento, mas quer dizer Mas isso é um defeito jornalístico Não há uma qualidade, é um defeito Que é o defeito da neutralidade O princípio de que tu mantens sempre uma distância Em relação a outra pessoa Em relação à sua ideia Uma neutralidade também

Maria Castello Branco
36:33
Acho que isso é tão português

Jorge Correia
36:34
Uma assepsia Devemos ser mais implicados

Maria Castello Branco
36:38
Completamente Eu acho que nós tratamos a política Como se fosse um pecado Como se fosse Nós em Portugal Não é tipo nós humanos é nós em Portugal temos um problema com a política que eu acho que vem do Salazar ou se calhar antes até não pensei sobre onde é que virá mas há uma toda a gente quer sempre manter esta ilusão do assético sim, tu disseste bem, do puro da neutralidade o jornalista é neutro tu vais a Inglaterra tu vais a Inglaterra à BBC às vezes as entrevistas a que os políticos são sujeitos é uma coisa extraordinária. Não é nada neutro. Nem em Inglaterra, nem em França. Os senoistas franceses são muito implicados. A sociedade francesa é hiper implicada. A sociedade inglesa também. Eu estou a dar estes dois exemplos. Reconheço melhor. Mas aqui ao lado também, em Espanha, nós somos, é sempre quase como se nós tivéssemos que manter uma distância em relação à política porque a política é suja. E tudo o que não se fala de política à mesa. Não se fala de política nem de religião. Isto é uma coisa tão portuguesa Eu acho pequenino, de Portugal

Jorge Correia
37:53
Porque nos bloqueia?

Maria Castello Branco
37:55
Não, porque eu acho que nós Não temos uma cultura democrática Nunca tivemos, acho que nós não somos Não temos uma cultura democrática Acho que o 25 de Abril foi um milagre em Portugal Mas acho que o nosso país não tem Uma cultura assim tão Obviamente a comprar com a Inglaterra Ninguém tem, não é? Mas acho que não temos Acho que não temos uma cultura cívica Acho que não temos uma comunidade Suficientemente Ou bem calibrada o suficiente Com o que a democracia precisa ainda Acho que ainda estamos em construção

Jorge Correia
38:31
Porque temos o medo de discutir publicamente determinadas coisas Ou porque dá um jeitaço aos poderosos No geral Que as pessoas não tenham uma voz própria

Maria Castello Branco
38:42
As duas coisas, mas reparem Há um tipo que eu adoro que é o Tocqueville e ele escreve sobre a democracia na América e o que ele fala é entre várias coisas que ele escreve

Jorge Correia
38:54
pode deixar de ter emprego rapidamente

Maria Castello Branco
38:55
incrível, olha, é um filósofo até exato, coitado ele, se ele estivesse vivo não sei o que é que ele dava voltas na tumba mas adorava saber o que é que ele tinha para dizer sobre isto adorava, adorava, pagava

Jorge Correia
39:08
tens um chinês e um americano já nos reinos do além

Maria Castello Branco
39:11
e este americano até é bastante da modernidade eu não desgosto todos os filósofos racionalistas Só para as pessoas não ficarem Tipo, esta gaja é maluca mesmo

Jorge Correia
39:19
Já ressuscitamos outro

Maria Castello Branco
39:21
Não, ressuscitámos, podemos ressuscitar este Também gosto muito de ele Também gosto muito de mulheres filósofas

Jorge Correia
39:27
Simone Beauvoir

Maria Castello Branco
39:29
Adoro, adoro, adoro Ana Arendt, ah não, ela é Simone, é super filósofa Super, o mais importante, aliás Acho que foi do século XX, ela é muito importante no existencialismo Mas ela, então, mas espera O Tocqueville vai à Inglaterra Francês e pensa assim Porquê que a democracia em Inglaterra Desse pedidas nos Estados Unidos funciona tão bem? E uma das conclusões a que ele chega É por causa da sociedade civil A sociedade civil nos Estados Unidos, naquela altura É hiper É hiper Estimulante E porquê? Mas ele não diz só A sociedade civil não é só política Não é só porque as pessoas votam muito Não, a sociedade civil para ele É o bowling Associações As pessoas fazem associações para tudo e mais alguma coisa Tanto que há um romance Um livro muito interessante A meio do século XX que é lançado Que se chama Bowling Alone Sobre a queda da cultura democrática nos Estados Unidos Precisamente por causa dessa associação Do bowling que era a maior associação dos Estados Unidos E onde as pessoas têm a cultura de vizinhança E têm a cultura da associação cívica Mesmo em que tu fazes coisas Sei lá, nós vemos imenso nos filmes Tipo o vizinho que se muda E tu vais lá oferecer um bolo Há laços comunitários que são criados em Inglaterra, também em França, de certa forma, nos Estados Unidos, que o Tocqueville vê isto de forma muito evidente no início da democracia americana e que tu nunca estiveste em Portugal. Tu não tens sociedade civil em Portugal. Não tens grande cultura associativa. Agora tens mais, mas nunca estiveste muito. Nunca estiveste.

Jorge Correia
41:01
De resto, quase nunca conhecemos até o próprio vizinho ali do lado. Quer dizer, há quase uma

Maria Castello Branco
41:05
fronteira. Não, e depois as pessoas que explicas agora vai fazer um ano do apagão e as pessoas estão, ah, eu conheci os meus vizinhos. É pá. Jesus!

Jorge Correia
41:14
É verdade.

Maria Castello Branco
41:14
Eu também meio que escrevi quase isso e depois dei um… Escrevi isso muitos meus antigos, acho que também foi meio sobre isso. E depois pensei, epá, estou a ser tão clichê, mas eu senti aquilo. Mas eu faço-me a culpa quando estou a criticar os portugueses, não estou só a criticar os portugueses de fora. Tu fazes parte, não é?

Jorge Correia
41:29
Obviamente. Olha, agora tu estavas a falar de um filósofo norte-americano, já falamos de um filósofo chinês. Mesmo depois deles terem morrido, é possível manter um diálogo com esta gente?

Maria Castello Branco
41:39
Sim, sim, sim, sim. Eu acho que era o Dante que dizia que falava com os mestres todos Que gostava muito de estar a ler livros de futebol Porque os mestres dele eram todos os mortos já Sim, sim, completamente E eu falo imenso com eles É muito giro, é muito engraçado

Jorge Correia
41:58
Que perguntas te inquietam?

Maria Castello Branco
42:02
Ai porra, tantas Não tenho resposta para nenhuma Pronto, por isso é que elas Podes, claro

Jorge Correia
42:09
Aqui um álcool para limpar as coisas, portanto… Está que não somos portugueses aqui, pode ser? Não, podemos ser outra coisa qualquer, um bocadinho. Podemos fingir que somos outra coisa qualquer, quer dizer, durante um tempo. Mas depois a gente gosta, quer dizer, eu gosto de ser português.

Maria Castello Branco
42:24
Exato, eu também ia dizer, porque as pessoas hoje me conhecem, ah, porque eu sou muito patriota, eu gosto muito do meu país, não estou a dizer isso.

Jorge Correia
42:31
Podemos gostar do país e não gostar dos portugueses? Não, também não, estou a brincar. A gente gosta das pessoas. Não, mas a lista das grandes perguntas que me perturbam que gostava de ter resposta para estas

Maria Castello Branco
42:44
tantas ok tenho tantas, não consigo escolher uma a primeira é é evidente quanto a gente porque é que porque é que porque é que porque é que alguém existe em vez de não existir é a pergunta fundamental da filosofia porque é que alguém existe Porquê que as coisas existem Então eu acho que essa é Essencial e acho que Depois irradia para tudo o resto Eu acho que sumariza tudo o resto

Jorge Correia
43:21
Porquê que existes? Porquê que não existes? Porquê que estás aqui?

Maria Castello Branco
43:26
Porquê que existe alguma coisa Ao invés de não existir nada? Porquê? Qual é a razão? É absurdo, sim

Jorge Correia
43:33
E essa ideia do absurdo Perturba-te? Ou é apenas uma coisa Que tu observas delicadamente E que dizes, deixa esse comboio passar

Maria Castello Branco
43:41
Não, olha, já me Já me assustou imenso Já me chateou imenso E eu depois percebi que estava a ler O Camus Nunca sei como as pessoas Olha, a vossa preferência escolheu Como interpretar Eu percebi que estava a interpretar Completamente mal, o Mito Cissi Eu te percebi mesmo e fiquei super contato com isso

Jorge Correia
44:03
Portanto, o do Camus O livro do Camus e não o original

Maria Castello Branco
44:09
Não, não, sim, sim O livro dele

Jorge Correia
44:10
O original já agora para as pessoas que não tropeçaram ainda no Cisifo É o humano empurrar a pedra Pela montanha acima E os reis dos deuses Quando ele está quase a chegar Dão um piparote na pedra e repetimos No fundo a história da nossa vida

Maria Castello Branco
44:27
E ele diz assim Vocês têm que imaginar um Cisifo feliz E eu acho que ele está a tentar responder a esta pergunta Que é porque é que há Porque é que há alguma coisa Rather Than Nothing, ao invés de não existir nada E é a nossa pergunta de significado E ele diz que a nossa existência Está sempre neste problema que é Tu estás sempre à procura de significado porque és humano Portanto precisas de significância Precisas do símbolo E o universo não te dá respostas Para não vai dar E eu acho que é muito tranquilizador Essa é uma coisa Que eu gosto cada vez mais Que é, ok, então eu posso só imaginar O Sissi Feliz Posso imaginar que o Sissivo tira Algum prazer de aceitar Que aquela vai ser Que aquela é o seu destino É empurrar a pedra até lá acima E depois repetir E há alguma coisa bonita na repetição E tu podes ver coisas muito bonitas Coisas muito incríveis na repetição Já não me inquieta muito o absurdo Tipo, não ter respostas Não sei, adorava ter respostas, mas eu acho que não vou ter

Jorge Correia
45:26
E portanto ficas confortável com isso

Maria Castello Branco
45:28
Mais ou menos Estou a tentar Não sei se percebeste que isto é um cope Vamos lá ver.

Jorge Correia
45:35
Isto é um corpo gigante. Aqui uma coisa que eu adoro em ti. Tu és tudo e o teu contrário. Aham. Gosto muito disso. Um bocadinho, não é?

Maria Castello Branco
45:42
Isso é muito querido. Sim.

Jorge Correia
45:44
Não é muito querido nada. Não faço a ideia como é que se vive numa pele sendo tudo e o seu contrário.

Maria Castello Branco
45:50
Porquê? Tu também és tudo e o seu contrário.

Jorge Correia
45:52
Pronto, mas eu estou mais pacificado. Eu acho que isso é normal.

Maria Castello Branco
45:55
Pronto, exato. Eu acho que toda a gente é muito isso. Eu acho muito bonito quando as pessoas conseguem ser isso. Eu acho bonito, portanto acho querido dizeres isso Porque eu gostava de ser isso Porque eu acho que as pessoas todas têm imensas contrariedades E eu acho que o que faz as pessoas bonitas é as contrariedades E quando elas assumem as contrariedades

Jorge Correia
46:11
Então parecem assim Olha, estamos num mundo das ideias

Maria Castello Branco
46:15
Isto porque eu não gosto do Aristóteles Desculpa, hot take

Jorge Correia
46:17
A sério, também queres matar o Aristóteles?

Maria Castello Branco
46:18
Quero, porque ele interpretou mal o Platão de propósito Olha, ele é um dos principais Coisas das fake news sobre o Platão Ele interpretou mesmo mal o Platão de propósito Tenho a certeza que foi de propósito, é chato Ele fez góssip sobre o Platão E espalhou o fake news É chato

Jorge Correia
46:33
Tu sabes que eu tive uma conversa com o filósofo Desiderio Murcho E ele estava-me a dizer que até Sócrates O original, o verdadeiro, lá de trás Foi o primeiro filósofo verdadeiro Que era o tipo que perguntou Mas vocês como é que sabem isto? E ele diz que antes disso Que a filosofia na realidade Era um conjunto de histórias que eles inventaram Para tentar justificar isto Para encontrar um significado, lá está

Maria Castello Branco
46:57
Isto é uma visão super ocidental Que eu não adoro

Jorge Correia
47:00
Então, o que é que diz o teu Como é que te chamam, não sei o que, do tarô?

Maria Castello Branco
47:04
Liberal do tarô, já Verdade

Jorge Correia
47:07
As tuas colegas de painel A libertária do tarô, não

Maria Castello Branco
47:11
Liberal, não sou libertária

Jorge Correia
47:14
Não me ofendas, pá

Maria Castello Branco
47:15
Acabaste de me elogiar, agora tinhas

Jorge Correia
47:17
Uma não quer a volta na ferradura Mas teve efeito, porque tu reagiste

Maria Castello Branco
47:21
Reagi, reagi, é pá, não

Jorge Correia
47:22
Estou a aprender contigo Estou a aprender contigo Primeiro uma facada e depois a seguir um contexto Então tu és a liberal do taro Como é que é isso?

Maria Castello Branco
47:35
Olha, também não sei lá está uma contrariedade Sim, porque eu gosto muito de bruxas Gosto muito da época medieval Adoro bruxas Sou meio bruxinha Adoro taro Por causa dos arquétipos Eu gosto muito de arquétipos

Jorge Correia
47:53
São simbólicos?

Maria Castello Branco
47:54
São, lá está os símbolos

Jorge Correia
47:56
O que é que tu aprendes com os chineses?

Maria Castello Branco
47:58
Que o Aristóteles estava errado

Jorge Correia
48:01
Matamos o Aristóteles

Maria Castello Branco
48:03
Não, porquê? Porque o Aristóteles, agora a sério, é por causa da teoria da não-contradição, ou da regra da não-contradição que ele tem, tipo que é uma das bases da filosofia ocidental é que se X diz uma coisa e Y diz o seu contrário, uma das coisas tem que estar

Jorge Correia
48:20
errada. A verdade tem que ser absoluta e una

Maria Castello Branco
48:22
Pronto, exatamente. E tu achas que não? Não pode haver contrariedade. Não, eu tenho a certeza que não, isto é mesmo tipo daquelas coisas que eu acho mesmo que está errado e acho que nós não conseguimos pensar em imensa coisa na filosofia metafísica por causa disso, pronto, essa é a minha grande cena e o que eu acho é que tu tens uma, a filosofia ocidente a filosofia oriental, ou filosofia quer dizer, eu não sei se, lá está, eu não gosto muito de chamar filosofia, chamo-se só para as pessoas para saber o que é que eu estou a dizer, mas o pensamento chinês, porque a filosofia é mesmo grega tem regras e não sei o que, o pensamento clássico chinês, exatamente o contrário é, existe o nada, existe o nothingness e existe o somethingness, existe o algo e eles estão em constante dança mútua não há nenhuma prioridade ontológica ou seja, não há nenhuma prioridade do nada sobre o algo ou algo sobre o nada, eles existem em, eu estou a fazer aqui uns gestos com as mãos, quase como o mar, não é? Não existe nada são fluidos, exato, o que é que é primeiro? é a galinha ou o ovo? ou o mar…

Jorge Correia
49:23
Eles resolveram o problema logo rapidamente. Tudo está misturado.

Maria Castello Branco
49:27
Qual é que é o problema? Isto é uma das formas que tu acederes ao Dao, a perceberes isto, enfim, isto é muito complexo. Estou a simplificar, evidentemente, só para explicar. E qual é que é o problema? Os chineses, quando começaram a ver o Japão a desenvolver-se imenso no século XIX, pensaram, epá, isto nós vamos ter que ocidentalizar aqui um bocadinho também, porque o Japão está a ultrapassar-nos, o grande competidor regional da China, E então começam a ocidentalizar-se também através da filosofia. E há uma escola chinesa dos anos 20, anos 10, 20, que diz porque é que é diferente eu discordar do Xuanzang, que é um dos filósofos deles, ou discordar do Aristóteles. Não há diferença, na verdade. Falam os dois metafísica, falam os dois não sei o quê. Portanto, eles começam a confundir conceitos. Ou seja, a metafísica chinesa começa a ser equiparada à metafísica ocidental. Isto significa que eles tratam os filósofos de forma igual. Qual é que é o problema? Se tu no Aristóteles dizes se uma coisa é se uma coisa diz X e a outra coisa diz Y uma das coisas tem que ser mentira não aceitam a contradição isto quer dizer que matam a filosofia chinesa. Se tu tentares interpretar a filosofia chinesa com olhos aristotélicos que foi o que eles fizeram os próprios chineses

Jorge Correia
50:37
É uma aculturação É uma colonização de pensamento

Maria Castello Branco
50:40
mas foi feita por eles e eles não conseguem há ali um problema mas eles tentam fazer isto e, portanto, há muita filosofia ainda hoje feita na China e no Japão, que esteve a estudar os clássicos chineses durante o Mao, porque era impossível estudar os clássicos chineses durante o Mao, se bem que o Mao salvou grande parte do Tao Te Ching, porque encontraram manuscritos na altura e ele preservou-os, apesar da Revolução Cultural, porque ele até gostava do Lao Tse, dessa malta toda, em privado. Mas, quando eles chocam, isto quer dizer que há parte entendimento da filosofia antiga da China, que é apagado. Porque se tu não consegues ter… Aí sim entras mesmo numa contradição. Se tu lês com aqueles olhos, não consegues

Jorge Correia
51:27
perceber. Portanto, precisas ter um outro contexto, um outro prisma, uma outra maneira

Maria Castello Branco
51:31
de pensar o mundo. Precisas, precisas.

Jorge Correia
51:33
O que é que te ajuda a pensar bem?

Maria Castello Branco
51:35
Isso.

Jorge Correia
51:36
Pode haver um prisma? Pode haver uma perspetiva?

Maria Castello Branco
51:39
Olha, ajuda-me a pensar bem? Não sei, eu não sei se penso bem. Não sei se penso bem. Nem sei, é uma pergunta de sorte.

Jorge Correia
51:45
Não sabes? Não. Estás a fazer número comigo?

Maria Castello Branco
51:47
Não estou, não estou mesmo. Não sei mesmo se penso bem. Não sei.

Jorge Correia
51:50
Tu não testas o teu pensamento sempre contra outros seres pensantes?

Maria Castello Branco
51:55
Testo contra a mim própria também. Tipo, faço a advogada do IAB constantemente. Portanto, lá está. Não sei se penso bem. Isto é, eu acho que tenho bom raciocínio. Não estou a dizer isso. Eu só não sei se o meu raciocínio leva a conclusões que estão certas. Eu acho que sim, mas eu posso mudar de opinião daqui a cinco minutos.

Jorge Correia
52:11
E tens um problema com isso?

Maria Castello Branco
52:13
Não. Já mudei imensas vezes em público.

Jorge Correia
52:15
E tens algum problema com o erro? Com a possibilidade de não acertar, é?

Maria Castello Branco
52:20
Tenho. Não vou dizer que não. Chateia-me, se eu estiver errada. Chateia-me, não é? E se tiver que admitir que estou errada em público, ainda mais chato. Tenho ego. Tenho um ego forte.

Jorge Correia
52:31
Grande?

Maria Castello Branco
52:33
Sim, eu tento que ele seja mais pequenino.

Jorge Correia
52:35
Como é que o domas?

Maria Castello Branco
52:38
Com o absurdo. Juro-te? Que é tipo, ah, também calma. Tipo, tu achas que sou o quê? A última Coca-Cola do deserto?

Jorge Correia
52:46
Não interessa.

Maria Castello Branco
52:47
Ninguém quer saber de mim É porque é essa coisa, tu achas Tipo, tu pensas assim Eia, dei um ganda gafo Que eu dei agora, já fiz gafo sem televisão Mesmo, tipo, em directo e não sei o que Já fiz, e depois as pessoas ficam Aquilo de repente fica meio viral no Twitter E parece que é o teu mundo inteiro é aquilo E depois tens de pensar assim Também ninguém quer muito saber, tipo, estão ali a falar Mas tu estás a falar imensa importância a ti própria E de repente És o quê? Tipo, que é o egocentrismo também. Sei lá, o que eu estou a dizer não interessa para nada, percebes? Ou seja, na última instância quem vai querer mais saber é a minha mãe ou o meu pai.

Jorge Correia
53:23
Interessa na medida em que tu podes influenciar os outros e que o facto de tu dizer alguma coisa fora, enfim, do bom senso pode contagiar outros.

Maria Castello Branco
53:35
Mas eu depois… Não, calma, calma. Eu estou a pensar em algumas figuras públicas que volta e meia

Jorge Correia
53:40
produzem pensamentos…

Maria Castello Branco
53:41
Não, o que eu estou a dizer é tipo erro, tipo… Factual? Sim, sim, estou a falar mais disso Ou seja, eu depois faço um bocado do género Aí, estava errada, ok, isso é muito chato Eu odeio isso, porque isso é Obviamente isso me aglomueco Outra coisa é eu ter medo de ter Eu quando vou falar de coisas que sei que sou sensíveis A nível social Tenho medo, tenho mesmo medo de errar Por causa das consequências que isso traz Outra coisa é tipo Boa pergunta Em televisão? Sim

Jorge Correia
54:11
Em tua casa imagino que sim Mesmo assim? Depende

Maria Castello Branco
54:15
Não acho que se possa, não. Há coisas que… Não, não podes dizer tudo. Eu nunca digo tudo, não é? Nunca digo tudo o que acho.

Jorge Correia
54:22
E tudo o que sabes, partilhas?

Maria Castello Branco
54:23
Não, não posso também. Está uma fronteira, não é?

Jorge Correia
54:26
Tu vais sempre afinando esse processo.

Maria Castello Branco
54:28
Sim, às vezes é chato, porque às vezes tu sabes coisas que são de fontes que tu tens, tipo, tu como jornalista saberás isso melhor.

Jorge Correia
54:37
E que dava um jeitaço de contar a toda a gente.

Maria Castello Branco
54:39
E que dava um jeitaço. Mas tu não podes ir ali. E aliás, às vezes é tipo, ui, não posso ir aqui. Às vezes é aquela coisa de esta informação que eu sei, isto é público ou não. Não sei se já te aconteceu, já deve ter acontecido. E portanto sim, tens que ter sempre algum cuidado e tens que ter cuidado com o outro. Acho que nunca podes dizer tudo, no geral, na tua vida.

Jorge Correia
54:56
E onde é que tu pões o limite dessa tua autocensura? No fundo tu que és uma liberal, posso até dizer de uma forma muito ampla, esse mecanismo de autocensura, eu acho que faz todo sentido, não te estou a criticar, estou aqui a pensar, como é que alguém que é uma alma livre depois percebe e sabe que há um condicionamento e que tu tens uma responsabilidade de não ir para além daquilo que achas que é aceitável no fundo como é que tu tornas a tua faca menos afiada ou quando é que tu não não usas a tua faca

Maria Castello Branco
55:32
quando acho que é gratuito eu não faço o porque sim se eu achar que vou magoar não é magoar, se eu achar que isto vai causar dano porque às vezes tu tens A liberdade de expressão tem como O pressuposto que tu podes incomodar pessoas E incomodar pessoas não é necessariamente errado Aliás, a política está sempre a incomodar toda a gente Por pressuposto

Jorge Correia
55:54
Recebes isso? Recebes de volta?

Maria Castello Branco
55:56
Recebo imenso

Jorge Correia
55:57
Olá, não gostei nada do que disseste sobre isso

Maria Castello Branco
55:59
Sim, sim Não me trataste tão bem Mas há pessoas que têm fair play Eu gosto do fair play na coisa Que isto não é nada pessoal Eu não estou nunca Por acaso às vezes é pessoal Eu vou para o anúncio e tenho uma pessoal Porque ele não me cumprimenta na rua Eu acho que por falta de educação já disse isto Num podcast e tudo Um dia digo-lhe em pessoa

Jorge Correia
56:20
Há pessoas com quem tu tens essa relação

Maria Castello Branco
56:23
Mas é bem a brincar, estou a brincar Mas há pessoas que eu acho que são Más pessoas na política Mas na política no geral da vida Acho que há pessoas que não têm bons princípios Mas a maior parte das pessoas Eu não quero ser gratuita Eu não estou a implicar só por implicar É mesmo porque eu acredito naquilo acho que estão a fazer uma coisa mala

Jorge Correia
56:42
mas muitos dos assuntos enfim, polémicos ou difíceis de gerir são normalmente assuntos delicados independentemente do que seja tópicos que sejam polarizados ou de confronto são sempre tópicos que há uma sensibilidade, independentemente de tu dizes a coisa mais

Maria Castello Branco
57:01
honesta, mais equilibrada são hiper emocionais

Jorge Correia
57:04
e porque eu hoje recebo de maneira diferente eu acho que se tu dizes uma coisa que é completamente contrária de mim e eu tendo, bem fica Sporting, no fundo, das ideias e isso torna mais difícil de gerir para quem tem que ajudar a entender o mundo?

Maria Castello Branco
57:19
Sim, eu acho que não tento ajudar a entender o mundo eu acho que estou só a partilhar o que eu acho e graças a Deus tenho, sei lá, uma sorte das pessoas acharem mais ou menos pertinente ou às vezes poderem irritar e é por isso que eu também estou lá, não sei, mas por exemplo acho que há uma eu tento mesmo, e isso eu gosto de fazer como é que eu vou explicar a minha ideia da forma mais simples possível para conseguir ser dissecada por pessoas que não têm tanto tempo como eu tenho para ler sobre isto, porque podem estar a fazer trabalhos a sério.

Jorge Correia
57:55
Porque eu dou trabalho de uma série.

Maria Castello Branco
57:57
Estou a brincar, é uma coisa meio…

Jorge Correia
58:00
É uma coisa portuguesa, lá está, nós temos trabalhos sérios em que não estudamos e coisas formais e consideramos que há trabalhos que não, que são leves, que não trabalho.

Maria Castello Branco
58:09
Eu tenho a sorte Do meu trabalho sem meio dar a minha opinião É uma coisa muito gira, eu gosto disso

Jorge Correia
58:16
E que te dá gozo?

Maria Castello Branco
58:17
Dá uma imensa coisa, mas só uma coisa Por exemplo, em relação à imigração Eu tento sempre falar As pessoas dizem, ah, percepções, não sei o quê Era muito mais fácil e se calhar dava muito mais Engagement nas redes, não sei o quê Dizer, ah sim, sensações E gozar, e também faço Mas eu tento sempre Eu arranjei uma forma de explicar que eu acho que não é má Quando eu explico pessoalmente Às pessoas Ou já expliquei Já tenta fazer isto na televisão Acho que há algumas pessoas que ouvem Que é certo, tu podes ter a sensação de que existe mais criminalidade Associada à imigração Porque estás normalmente é porque foste exposto A numa narrativa com mais medo Exemplo, eu acho que isto é um bom exemplo Se tu tiveres a ver um filme de terror em casa, sozinho Tu quando acabares um filme de terror Vais estar em pânico A não ser que sejas meio psycho Vais estar em pânico, ou quer adores ou que adormeças a ver o fio de terror.

Jorge Correia
59:07
Ele se calhar podia ser aquele, o mau.

Maria Castello Branco
59:10
Exato, vai estar. Isso é meio sinistro. Em princípio… Não vou comentar, estou em pânico agora. Estou aqui fechada nesta sala contigo e agora comecei a ter… Se for desfaviz. 6 horas, o que vai acontecer à nossa relação. Não, mas imagina, em princípio vais estar em pânico a seguir, menos tu. E isso não quer dizer que o ambiente em tua casa tenha mudado, não quer dizer que os sons em tua casa tenham mudado, quer dizer que a tua… o teu… tu fostes disposto a uma narrativa que amplifica a tua percepção dos barulhos.

Jorge Correia
59:47
E do medo, porque é isso que é que nos acontece, não é?

Maria Castello Branco
59:49
Exato.

Jorge Correia
59:49
E quando ficamos com mais medo, mais impressionais.

Maria Castello Branco
59:51
Eu acho que esta metáfora ajuda as pessoas a perceber porque as pessoas depois dizem mas então porquê que eu sinto, se isto não é real, porquê que eu sinto? E eu acho que isto ajuda as pessoas a perceber e eu gosto de quando tenho essa possibilidade de estar a pensar, ah, como é que eu vou tentar aflicar? Isto, por exemplo, aqui eu acho que estou certa. Acho mesmo. Acho que estou certa. Acho que as pessoas que associam estão erradas, mas por causa de dados mesmo a justificar isso. Se depois de repente vierem dados a dizer, epá, não estás mesmo errada eu fico pronto, olha-me a culpa.

Jorge Correia
01:00:21
E siga para bingo. Olha, o que é que ninguém nunca te pergunta?

Maria Castello Branco
01:00:29
Ia dizer uma coisa muito estúpida agora. Ia mesmo fazer uma piada, não vou fazer uma piada Mas, não sei Ninguém? Tipo, numa entrevista ou no geral? No geral?

Jorge Correia
01:00:41
As entrevistas são sempre ambientes artificiais Sempre condicionados

Maria Castello Branco
01:00:47
O que é que nunca me perguntam? Nunca me perguntam sobre tómbicos Que eu gosto de falar, tipo tribunais de animais

Jorge Correia
01:00:54
Tribunais de animais? Mas para condenar o cão e o gato? Ou os donos do cão e do gato?

Maria Castello Branco
01:00:58
Sim, na época medieval

Jorge Correia
01:01:00
A sério?

Maria Castello Branco
01:01:01
Sim, é incrível. Eu adoro esta… Se eu entrar aqui, Jorge, tu não me calas.

Jorge Correia
01:01:07
Não posso. Não, nós temos 30 segundos para fechar isto.

Maria Castello Branco
01:01:10
Então, pronto, olha, não posso. As pessoas que vão pesquisar…

Jorge Correia
01:01:12
Condena o gato por ele ter…

Maria Castello Branco
01:01:14
Sim, havia tribunais mesmo a sério feitos pela Igreja e tudo. Em França e em Inglaterra, já falei imenso de estes dois países, não sei porquê, eu já acordei assim, a pescada com eles. No século XIII, no século XIV, em que levavam os animais ao julgamento e eles tinham direito a advocar de defesa. É mesmo incrível.

Jorge Correia
01:01:31
Esse era verdadeiramente o tempo em que os animais falavam.

Maria Castello Branco
01:01:34
Exatamente. Porque não havia sujeito cartesiano ainda. Estás a ver? O Descartes matou isto tudo.

Jorge Correia
01:01:40
Matamos o Descartes. Maria Castelo Branco, obrigado.

Maria Castello Branco
01:01:44
Obrigada. Obrigada eu.

Jorge Correia
01:01:46
Pergunta simples. Um programa sobre comunicação. Para quem quer boas respostas.

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

 

Voltar ao Topo