Estaremos a viver o século dos imbecis? Valter Hugo Mãe

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Estaremos a viver o século dos imbecis? Valter Hugo Mãe
00:00

Há um marquês que fica mais inteligente quando o levam ao alto da montanha e mais estúpido quando o descem até ao rio. Chama-se Agilufo, vive dentro de um romance, e não decide nada sobre si próprio. Quem decide é a vila. Todas as manhãs, os vizinhos olham para ele e fazem a única pergunta que ali interessa: queremos hoje a sua sabedoria, lá em cima, ou o seu ridículo, cá em baixo? Queremos aprender, ou queremos rir? O livro chama-se O Século dos Imbecis, e a crueldade da alegoria está em perceber, a meio, que o marquês somos nós, e que a montanha também.

Valter Hugo Mãe escreveu esta fábula como quem deixa uma pergunta em cima da mesa, sem a responder. Não diz que este é o século dos imbecis. Pergunta se não estaremos a arriscar sê-lo. E a diferença, que parece pequena, é tudo. Porque a resposta não está no livro. Está em quem o lê, e no que esse leitor decidir fazer com ela.

A conversa começou na escrita e foi parar a um sítio mais fundo. A certa altura, falávamos de tecnologia, dessa promessa antiga de que as máquinas tratariam das tarefas aborrecidas e nos devolveriam tempo para pensar. E foi então que ele desfez o conforto da ideia. A tecnologia, disse, foi convidada para substituir o que fazemos, mas a tentação, agora, é permitir que substitua quem somos. A frase fica a ecoar porque mexe numa fronteira que andávamos a fingir que não existia. Uma coisa é entregar à máquina a roupa, as contas, o caminho até casa. Outra é entregar-lhe o juízo, a relação, o afeto. Já há quem se diga apaixonado por uma plataforma que responde, que encontra num algoritmo um reconhecimento que nunca teve numa pessoa. A máquina deixou de se oferecer para fazer o que fazemos. Começou a propor fazer-se passar por quem somos. E isso desumaniza-nos, como se entregássemos a uma dimensão virtual um património que demorámos séculos a construir.

Há um fio que liga tudo o que se disse nessa hora, e esse fio é a comunicação. O mundo, observava, comunica cada vez mais e cada vez pior, ou de uma maneira cada vez mais falsa. A ignorância, que em todas as épocas foi tímida, que sempre soube que saber valia mais, tornou-se de repente orgulhosa. Qualquer pessoa diz uma enormidade e chama-lhe a sua verdade, e exige por isso respeito e impunidade. A desinformação deixou de ser um acidente e passou a ser um método, uma forma de violência e de poder que serve para nos distrair, para nos pôr a discutir o acessório enquanto o essencial fica por resolver. Discutimos bandeiras enquanto ninguém fala de quem não tem teto. E as instituições criadas para impor a lei assistem, caladas. Ele lembrou Luther King, e a ideia de que o que assusta não é o ruído dos maus, é o silêncio dos bons.

O boato, que é a forma mais antiga desta doença, ganhou um disfarce novo. Na aldeia do Alto Minho da sua infância, a má-língua fazia-se em surdina, e quem a passava negava no passo seguinte, sabia que mentia e por isso ainda se escondia. Na internet, propaga-se de cara levantada, leviana, sem assumir e sem responsabilidade. O guerreiro que insulta atrás de um ecrã não o faria na rua, frente a frente. Vestiu uma máscara e uma armadura, e convenceu-se de que ali, naquele território, o crime deixa de ser crime. Não deixa. A internet, dizia ele com a secura de quem estudou Direito, não existe no planeta Marte. É uma dimensão da nossa vida, debaixo da nossa lei.

E no entanto não foi um homem amargo que esteve à conversa. Foi alguém que, mesmo a descrever o desmoronamento, insistia na beleza de uma coisa simples, a forma como nos explicamos uns aos outros. Falou dos livros como diálogos. Um livro, dizia, está vazio enquanto ninguém o lê, e é o leitor que o preenche com aquilo que sabe, porque cada pessoa só lê o que sabe ler. Ler Dostoyevsky é estar à conversa com Dostoyevsky. E falou das crianças, o público mais implacável que existe, que percebe de imediato quando alguma coisa não funciona, que não maquilha a resposta. Foi um menino de seis anos, contou, que o envergonhou ao perguntar-lhe que lata tinha ele de andar a falar de leitura sem nunca ter escrito um livro para crianças. Demorou anos a reunir coragem para o fazer, porque escrever para uma criança é comunicar sem rede, sem o conforto da frase bonita onde um adulto se esconde.

Reparei onde é que ele foi acabar. Depois de cinquenta minutos a diagnosticar a desumanização, as máquinas que nos querem desnecessários, a estupidez com orgulho, não terminou no aviso. Terminou na gratidão. Disse que precisa de rir, que não se quer levar demasiado a sério, que olha para a própria vida e a acha privilegiada. E talvez seja essa a resposta que faltava à alegoria toda. Contra a máquina que faz tudo melhor e mais depressa, ele põe três gestos que nenhuma máquina sabe fazer por nós, rir de si próprio, abrandar, e agradecer.

Volto ao marquês. A vila acorda outra vez, olha para ele, e tem de escolher. Levá-lo ao cimo da montanha, onde fica sábio, ou descê-lo ao rio, onde dá vontade de rir. A pergunta nunca foi sobre o marquês. Foi sempre sobre quem escolhe. E a verdade incómoda é que não há ninguém a escolher por nós. Para que lado descemos a montanha.

A conversa completa com Valter Hugo Mãe está disponível no Pergunta Simples.

Ler transcrição completa

Valter Hugo Mae
00:00
do Walter.

Jorge Correia
00:03
Ah, estás a salvar, ok. Está bem. Então pronto.

Valter Hugo Mae
00:07
Tu olhas para ali e vês ali pessoas. Eu vejo ali um rapaz que não nos liga nenhuma.

Jorge Correia
00:11
Não nos liga nenhuma. Está aqui.

Valter Hugo Mae
00:12
Agora aparece ligado.

Jorge Correia
00:13
Está aqui, está aqui, só que está ali a calibrar a tua voz.

Valter Hugo Mae
00:16
Ah, e está ali o meu querido assessor, olha.

Jorge Correia
00:20
A gente escondeu-o ali. Mas tem ali a sala, se quiser ficar a telefonar coisas. Isso é tranquilo.

Valter Hugo Mae
00:28
Ele é muito telefonadeiro

Jorge Correia
00:32
Então, mas é a única maneira Portanto é um Jorge Mendes Mas aquilo é a namorada Ah, também Mas repara isso Se é um bom Com quem é que ele está a falar com a namorada?

Valter Hugo Mae
00:46
Ah, claro, é ela que é a controladora

Jorge Correia
00:48
E é fundamental Se as namoradas não estiverem felizes Não há ninguém que aguente Eu acho que ele tem razão Eu acho que ele está São muitas, pronto Mas quer dizer, isso depois a seguir Ele é que sabe Há uma razão para terem inventado a monogamia sucessiva Que é para nos salvar

Valter Hugo Mae
01:07
Não sei de que é Para nos salvar da felicidade

Jorge Correia
01:12
Mas ele ainda não sabe Porque ainda não tem experiência suficiente Para saber Ainda está agora a aprender Ainda está agora só a aprender Como é que é Ai, senhores ouvintes E a seguir aqui é Braço de Prata? Braço de Prata, sim Teve aí, acho eu Ah, pois, porque eles têm ali os estúdios deles É que é aqui embaixo, também não é um telejo daqui Tem os estúdios, exato O Gocha lá grava lá, pelo menos gravava Palminha, quero uma palminha tua E agora uma palminha minha A nossa Kenia está de acordo? Está de acordo, boa, perfeito Viva, Walter Hugo Mãe escritor, homem do norte homem de Vila do Conde que agora vem até ao sul para apanhar um bocadinho de calor este calor quase insuportável Valter, há uma curiosidade que eu tenho sobre ti inicial, que é há pessoas que escrevem como falam e tu és o contrário tu falas como se estivesse a ditar um livro como é que é isto? Isto aconteceu de sempre na tua vida?

Valter Hugo Mae
02:17
Antes de mais, obrigado é um prazer estar aqui, obrigado pelo convite para vir à conversa Não sei se isso é verdade, mas talvez eu, enquanto cidadão, fico contaminado com tanta literatura. E por isso… Alguém que tem por destino uma arte, que deita mão de uma coisa como a fala, que é do cotidiano de toda a gente, E eminentemente está com a arte no cotidiano Não dá para deixar em casa, digamos assim

Jorge Correia
02:58
No teu processo de escrita Tu és daquelas pessoas que está ali Escreve e está calado Ou estás a remoer e a reler E em busca da musicalidade

Valter Hugo Mae
03:08
Sim, e fico afónico Porque eu leio em voz alta o que vou escrevendo E às vezes comento, respondo Enquanto leitor Porque eu sou leitor do imediato No imediato sou também Ao mesmo tempo que autor Sou leitor E por isso reajo Parece que ainda estou tentando Enquanto indivíduo Perfeitamente definido Faço os meus protestos E mando os meus bitites

Jorge Correia
03:42
Resmungas contigo próprio

Valter Hugo Mae
03:43
Resmungo com o livro mas isso às vezes interfere às vezes acontece que o Walter Cidadão coincide com o Walter Autor e acaba por influenciar a escrita do texto, mas muitas das vezes é uma espécie de coisa esquizocoisa porque eu protesto como cidadão mas como autor obedeço

Jorge Correia
04:10
ao livro. Portanto respeitas a tua própria liberdade criativa ainda que possas amoar contigo próprio

Valter Hugo Mae
04:15
ainda que possa protestar que alguma coisa ou é demasiado violenta ou é demasiado ternurenta ou alguma personagem acaba de dizer algo muito ingênuo com que não podemos concordar é tudo um misto no fundo é uma reação espontânea é algo que a escrita provoca porque eu gosto de caminhar pelos livros muito à procura não escrevo pelo que sei, escrevo pelo que não sei

Jorge Correia
04:51
Fazes um mapa disto ou vais fazendo uma arqueologia?

Valter Hugo Mae
04:54
Faço, curioso, nunca me tinham perguntado pensei que sabia que pergunta me ias fazer, mas essa pergunta é diferente, é bonita uma arqueologia, curioso

Jorge Correia
05:05
Porque no fundo é, tu podes dizer ok, eu vou aqui contar esta história o teu último livro que está aqui, título maravilhoso O Século dos Impecís, já vamos falar sobre ele que é, tu podes ter personagens e uma história já na tua cabeça e depois gastas a tua arte da palavra a tornar aquilo bonito e esteticamente interessante, ou, pelo contrário, tu pões a tua lanterna de mineiro e vais por aí fora em busca dos diamantes que possam aparecer por aí.

Valter Hugo Mae
05:29
Eu acho que vou mais com o mineiro, mas é curioso porque a arqueologia comunica com o longínquo. E eu gosto dessa ideia. Não tanto o longínquo como passado, mas o longínquo como aquilo que está verdadeiramente à distância da evidência. E por isso eu escrevo assim. Eu escrevo caminhando por um certo escuro que só clareia a força do livro.

Jorge Correia
06:02
E depois faz o que com essa informação? O que encontras?

Valter Hugo Mae
06:04
Essa informação é o próprio livro. É uma aprendizagem, se quiseres. É uma ciência que só a literatura oferece. Se quiseres, talvez seja mais fácil entender assim. O poema é a sua própria ciência. Não podes aceder àquele conhecimento, não podes aceder à força de um poema, àquilo que um poema oferece, se não através da escrita de um poema.

Jorge Correia
06:28
Tem um mistério ele próprio.

Valter Hugo Mae
06:30
É ele em si uma informação que depende de algo inexplicável, de algo até ilegível, mas que está lá, que é feito sobretudo ou substancialmente de um pressentimento. E que tu podes sentir mesmo sem entender. Exatamente. Que podes oferir, algo de que podes oferir sem sequer saber em que moeda é que aquilo está a ser entregue.

Jorge Correia
06:59
E isso é que é absolutamente extraordinário. Olha, interessa muito ouvir-te falar sobre o ritmo, o ritmo da voz. Porque estava a brincar um bocadinho contigo quando dizia que tu falavas como quem escreve, de uma forma muito literata. Esse ritmo é sempre o mesmo? Há variações no ritmo? Como é que tu fazes isso? É intuitivo?

Valter Hugo Mae
07:21
Há variações. Eu gosto de pensar numa espécie de clima em que o livro instala o seu próprio clima. E isso é profundamente intuitivo. E há algo que se testa. Para cada livro eu tenho vários avanços, digamos assim. Vou fazendo avanços sucessivos até ter a sensação de que o clima compareceu. Porque é como, talvez seja como um fotógrafo que perante o mesmo diapositivo, o mesmo negativo, digamos assim, vai ensaiando as ampliações vai testando os químicos até conseguir que o papel e o nitrato de prata entreguem a intensidade da luz e a ausência da luz que ele tem na cabeça de alguma forma que ele prevê E tens tempo para te deixar surpreender por esse processo? Sim, tenho de ter A escrita ocupa o lugar central da minha vida Talvez seja quase tudo na minha vida Eu identifico-me muito com uma antipatia do Miguel Torga O Miguel Torga era substancialmente antipático E por vezes excepcional E eu identifico-me muito com uma antipatia dele Em que ele diz, numa passagem do diário Ele diz qualquer coisa à mulher Como que quer que ela saiba que a ama Quero que saibas que te amo Mas que em todas as oportunidades Te trocarei por um verso É tão horrível Não ficou muito popular Não, não é Muito antipático Não consta que se tenha divorciado Mas é horroroso dizer Mas é profundamente honesto E eu estou um pouco assim. Sou um pouco assim.

Jorge Correia
09:28
Então, mas isso é quase em contraciclo com os tempos que vivemos, que é no tempo em que somos todos muito agridoces, pelo menos à frente, e muito pouco honestos nesta relação crua com os outros. O que é que estamos a fazer?

Valter Hugo Mae
09:41
Eu acho que a humanidade anda à deriva e arrisca-se. A humanidade está em risco de passar a ser outra coisa ou de entregar finalmente a ideologia ao lixo e deixar progredir o bicho, não como um bicho que caminha para longe de o ser, mas para um bicho que regressa à sua animalidade. As cavernas? Eu acho que pela primeira vez, talvez como um todo, estejamos a arriscar perder capacidades, valências humanas que são conquistadas por uma maturação, inclusive por uma maturação cultural, que é um trabalho eminentemente humano, não é um trabalho que a natureza faça, é eminentemente um ofício humano. E estamos a arriscar perder essas capacidades em prol de um regresso a um primarismo que nos aproxima outra vez do macaco ao invés de nos distanciar.

Jorge Correia
10:46
Apesar de tudo, estamos numa época de grande tecnologia, de grande desenvolvimento, de grande comunicação e ao mesmo tempo comunicando cada vez menos?

Valter Hugo Mae
10:56
Ou comunicando cada vez pior, ou de uma maneira cada vez mais falsa. Que sinais é que tu vês no mundo? É preciso ver que a tecnologia é cada vez mais sofisticada e ao invés dela potenciar a nossa sofisticação também, é preciso ver que primeiro fomos nós que a fizemos. Não exatamente eu, que para juntar dois fias apanho um choque elétrico, mas a tecnologia é cada vez mais sofisticada, o que corresponde, eventualmente, a uma sofisticação maior do ser humano, mas o trágico é que, ao invés dela potenciar, eventualmente, a nossa melhoria, ela parece substituir-nos. E esse é o grande dilema, que a tecnologia talvez tenha sido convidada para substituir o que fazemos, mas a tentação neste instante parece ser a de permitir que ela substitua quem somos. E isso desumaniza-nos. É como se tivéssemos um património chamado humanidade que, de repente, de uma forma inelutável, estivéssemos a entregar a uma dimensão virtual. Como se entregássemos à máquina o que é o destino da humanidade. e nós nos destituíssemos dessa obrigação e voltássemos a bichos, a macacos. Na caverna.

Jorge Correia
12:19
Eu gostava de ouvir muito sobre o advento da inteligência artificial, que é quando isto, a inteligência artificial, dita inteligência artificial, aparece, eu pensei, bom, ótimo, alguém vai resolver as tarefas chatas que eu tenho que fazer no dia-a-dia e eu vou ter mais tempo para pensar, para ouvir. Gostaria em causa, segundo o que seja,

Valter Hugo Mae
12:41
é o fazer. Alguém que faça

Jorge Correia
12:43
por mim. O robô que faça qualquer coisa, não é? Que lava a roupa, que conduz ao automóvel.

Valter Hugo Mae
12:49
Essa é a primeira tentação. Seria a vantagem imediata.

Jorge Correia
12:53
E eu gosto da ideia. Vai lá

Valter Hugo Mae
12:55
passar a roupa a ferro e…

Jorge Correia
12:57
E libertam para ler um livro, no fundo é isto. Mas, pelo contrário, o que me parece é que estas inteligências o que dizem é eu vou fazer melhor do que tu nesta coisa de ser humano.

Valter Hugo Mae
13:09
É pior, é pior. O que parece é vou fazer com que tu sejas desnecessário. E o que começamos a assistir é, por exemplo, pessoas que se dizem apaixonadas por uma plataforma que lhes responde. Pessoas que estabelecem relações amorosas ou que satisfazem uma dimensão afetiva até de parentesco com um algoritmo que lhes responde e que as trata com respeito que eventualmente nunca encontraram ou presentem ali um reconhecimento que nunca encontraram a pessoa real. O que significa que a tecnologia, a máquina, não só propõe retirar-nos das tarefas, mas propõe retirar-nos a nós do cenário. Paulatinamente, fazer com que nós sejamos desnecessários.

Jorge Correia
13:58
Não namores com outra pessoa, anda cá namorar comigo.

Valter Hugo Mae
14:01
Namorar com a máquina. Por isso, eu devia de entender, porque eu agora durmo com o CEPAP, eu tenho a peneia e tenho andado a dizer que nunca dormi com nada nem ninguém melhor do que aquela máquina. Por isso, eu também já estou com um pé na ciberidentidade.

Jorge Correia
14:18
Já és o Walter Biónico a partir da questão. Já sou o Biónico. Olha, eu quero falar aqui do teu livro O Século dos Imbecis. Suspeito que os imbecis sejamos nós. Quem quiser que meta a crapuça, não é? Quer dizer, é o que for. Este romance, eu vou dizer qualquer coisa sobre ele, é uma vila de montanha onde há cobiça, o boato e onde a fé é frágil. Que livro é este? Que história nos contas tu?

Valter Hugo Mae
14:47
O Século dos Imbecis é uma alegoria assente numa figura principal chamada Agilufo, que é um marquês em tempo de república e que tem a particularidade absurda de abrilhantar quando sobe a montanha e emburrecer e estupidificar quando desce. E que deixa na mão dos seus concidadãos a decisão de saber se vale mais a pena levantá-lo nas montanhas para que ele exponha um maravilhoso conhecimento, ou descê-lo nas montanhas para que ele estupidifique e faça rir. Então é um pouco esta… E deixa isso nas mãos do povo. E isso fica nas mãos das pessoas. essa decisão de saber convidamos o Agilufo para subir à vila que fica acima da casa dele ou convidamos o Agilufo para ir nadar ao rio que fica abaixo da casa dele. Se subirem à vila ele vai ficar mais esperto se descerem para nadar no rio ele vai ficar mais burro. E isso, cada concidadão dele cada, digamos, pessoa cada vizinho vai escolher no fundo o que prefere. Aprender ou divertir-se com o leviano do lúdico Do ridículo, do risível E eu acho que isso, assim, eu não defino qual é o século dos imbecis Não digo que é exatamente este século Mas parece muito Talvez seja aproveitoso ponderarmos se não nos arriscamos a sê-lo Não é categoricamente uma vontade de considerar este o século dos imbecis mas é uma pergunta se não nos estamos a arriscar a ser o século dos imbecis não tanto porque não tenha havido muitos imbecis em séculos anteriores mas porque parece que a ignorância na contemporaneidade é cada vez mais orgulhosa coisa que eventualmente historicamente nunca aconteceu a ignorância foi sempre tímida e teve sempre noção de que saber seria mais vantajoso Se não seria mais digno, digamos.

Jorge Correia
17:02
E agora pode ser que qualquer pessoa diga uma atuarda do tamanho de um elefante e diz esta é a minha verdade.

Valter Hugo Mae
17:08
E a pessoa fala em perceções e sentimentos, aquilo que sente, como se aquilo que sente fosse uma ciência absoluta e contra todos os factos a pessoa impõe aquilo que quiser impor. E espera por isso muito respeito e uma profunda impunidade. o que de facto pulveriza a estupidez como uma nova ordem mundial.

Jorge Correia
17:36
A ordem mundial do estúpido?

Valter Hugo Mae
17:38
É a ordem mundial dos estúpidos.

Jorge Correia
17:40
Então e os inteligentes que por aí andam, porque não há só os imbecis neste século, o que é que estão a fazer da vida?

Valter Hugo Mae
17:47
Estão eventualmente a procurar lutar ou então simplesmente a procurar respirar. respirar. Eu tenho um amigo meu que dizia que passou a vida inteira a tentar mudar o mundo e que agora já só quer que o mundo não o mude a ele. Então eu tenho um pouco a sensação de que a boa gente já só está a tentar, já está tão exausta, é com tanta estupefação que assistimos à degeneração coletiva que eventualmente a boa gente já só quer sossego.

Jorge Correia
18:24
E desistiu de lutar?

Valter Hugo Mae
18:27
Lutar acaba por ser isso. Porque se as grandes massas… Vê uma coisa. A eleição, por exemplo, do Millet, que é uma… Os grandes imbecis do grande poder do mundo são muito declarados. São muito honestos. Até porque a imbecilidade no seu esplendor… Nota-se muito. É impossível de esconder. O que o Millet está a fazer na Argentina é estranhíssimo. Ele acaba de dizer esta semana que a retirada de apoio às crianças em tratamentos pelo cancro é elementar porque uma criança em tratamento de cancro não merece mais do que qualquer cidadão. e por isso se qualquer cidadão não tem um apoio, por exemplo, para o transporte, para ser levado a um hospital, uma criança com câncer que esteja a tentar salvar a sua vida também não merece esse apoio. Por isso o grotesco da ideia é tão grande que é a pura desumanização que está em curso. E as massas escolheram aquele homem que no fundo, desde o início, lá com as motosserras e com tudo o que dizia, se declarou desumano e perfeitamente alucinado.

Jorge Correia
19:50
E não escondeu isso a ninguém?

Valter Hugo Mae
19:52
Não escondeu isso a ninguém, como o Bolsonaro não escondeu a ninguém, como o Trump não escondeu a ninguém.

Jorge Correia
19:56
Então, mas o que eu tenho curiosidade e quero ouvir a tua opinião sobre isso e o teu ponto de vista é, como é que nós, perante realidades que são claramente grotescas ou claramente inhumanas ou claramente mentirosas, apesar de tudo, não só não existe um movimento de resistência proporcional, como, pelo contrário, existem hordas de pessoas capazes não só de acreditar, como de propagar essa realidade distópica.

Valter Hugo Mae
20:26
Eu tenho para mim, e há muitos anos que tenho vindo a dizer isto, tenho para mim que precisamos de exigir às instituições que compram aquilo para que foram mandatadas, para que foram criadas, e isso não está a acontecer. No espectro da liberdade de expressão não cabe muito crime que tem estado a ser cometido. A primeira vez que se permite um insulto racista como normalizado nos meios de comunicação é a entrada do crime na normalização, é a autorização do crime. Porque está tipificado na Constituição, que é proibido, que é crime, e por isso não é negociável. Não devia ser negociável. E por isso as instituições que têm o poder de fazer cumprir a lei, de verificar e de fiscalizar, simplesmente não estão a funcionar.

Jorge Correia
21:23
Desistiram?

Valter Hugo Mae
21:27
Eventualmente, sem o assumir ou até sem ter entendido, podem estar corrompidas no sentido em que perderam o seu sentido.

Jorge Correia
21:35
E portanto deveriam continuar a existir? Lá está. Porque esse é um ponto fundamental.

Valter Hugo Mae
21:39
A gente tem que continuar a existir. Nós precisamos é que elas funcionem como elas deveriam estar a funcionar.

Jorge Correia
21:44
Sendo que todo o sistema, como qualquer sistema complexo, é muito resistente à mudança. Se tu falares em vamos mudar isto…

Valter Hugo Mae
21:52
Mas isso seria mais uma ajuda para pensarmos que, por exemplo, a aplicação imediata, direta da Constituição se fizesse constantemente. Porque a Constituição não é propriamente da última terça-feira. Implica lê-la, não é? implicaria lê-la, mas as instituições que têm a tutela da lei em Portugal ou em qualquer lugar, já terão lido. E, por isso, a mim espanta-me que a xenofobia, que o racismo, por exemplo, que a homofobia, que a misoginia, que tudo isso seja praticado cotidianamente, impunemente, e que caminhemos para uma descida cada vez a uma treva maior, com as instituições absolutamente caladas e sem ação. E por isso o Luther King dizia, não me assusta o ruído dos maus, assusta-me o silêncio dos bons. E, de facto, os bons deviam começar por ser as instituições que foram criadas para essa justiça. que foram criadas para a justiça.

Jorge Correia
23:01
Esta criação da ideia de não confiança nas instituições pode afinal ser um plano muito bem escrito para as destruir? Claro, claro.

Valter Hugo Mae
23:10
Quanto mais se perturbarem as instituições, quanto mais se abandalhar, por exemplo, a Assembleia da República, o Governo, quanto mais abandalhado o diálogo na praça pública, mais fácil é depois declarar a necessidade de uma reforma profunda e de convencer as pessoas que toda a conquista de direitos que foi feita deve ser deitada ao lixo.

Jorge Correia
23:38
Vimos isso em vários momentos da história. Olha, uma das coisas de que o tempo moderno, quase a marca do tempo é que o boato serve muito para passar esta imagem de violência. Esta forma de desinformar é uma forma de violência?

Valter Hugo Mae
23:57
É uma forma de violência, uma forma de poder, desinformando. Primeiro, é um modo de criar distração. É preciso, por exemplo, os partidos de extrema-direita não se cansam com vir perturbar minorias e coisas de mera interesse minimamente pessoal, ou sobretudo pessoal. Para criar um ruído? Ao invés de criar um ruído, para instalar uma espécie de horror e de algazarra na praça pública, ao invés de efetivamente fazerem alguma coisa pela habitação, pelo emprego, pelo ensino, pela saúde… Estamos todos a discutir o acessório ao invés de discutir o verdadeiramente importante. Imagina, há não sei quanto tempo que estamos com as bandeiras LGBT e não sei de quê, É como se aquilo tivesse relevância, assim, proibir as bandeiras, que é uma coisa absolutamente ridícula, proibir aquelas bandeiras como se aquilo melhorasse a vida das pessoas em alguma coisa, como se colocasse um teto em cima dos desabrigados, ou curasse o cancro aos doentes, ou alimentasse os esfaimados, quer dizer, é só mesmo, é intencionalmente uma forma de criar uma perturbação.

Jorge Correia
25:22
O que é mais perigoso? É quem lança essas ideias ou somos todos nós que podemos repetir essas mensagens?

Valter Hugo Mae
25:30
É tudo isso. É tudo isso. Eu tenho para mim… É curioso. Desde o início do uso mais doméstico da internet, desde o início, quando apareceram por exemplo os blogs, eu tive um blog muito antes inclusive dos Facebooks e tudo isso, eu fui sempre da opinião até porque sou licenciado em direito fui sempre da opinião que a internet, como todas as dimensões do humano precisava de estar sujeita a princípios de legalidade e por isso sempre me perguntaram mas achas que não se pode na internet fazer isto, fazer aquilo, fazer aquilo outro para mim nunca eu nem consigo entender como é que as pessoas colocam essa dúvida porque o que não podes fazer fora da internet, é óbvio que não podes fazer na internet, porque a internet não existe no planeta Marte. A internet é uma dimensão da nossa vida, aqui inseridos nesta sociedade, debaixo desta lei.

Jorge Correia
26:36
Mas há lá uns marcianos, não é?

Valter Hugo Mae
26:38
Que põem uma máscara, que usam nomes… Que usam a máscara e que usam aquela armadura, digamos assim. Ali são bravos guerreiros, não é? Na rua talvez não o fossem. Mas isto é, de facto, uma deturpação da cidadania, de toda a lógica da cidadania, que as pessoas possam convencer-se que corpo a corpo, num passeio, quando se encontram na rua, não se podem insultar e não podem futricar sobre a vida do outro porque isso, de facto, poderá ser crime, configurar um crime, mas que depois achem que se o inscreverem numa plataforma digital, que por estar ali o crime desaparece, porque ali é um território de impunidade profunda. Isso é a estupidez. E a verdade é que desde o início eu tenho apelado para uma legislação consciente em relação ao uso da internet, mas não houve vontade. E eu acho que cada vez é mais claro porque é que não houve vontade.

Jorge Correia
27:45
E achas que há alguma maneira de conseguir regular? O uso da linguagem, por exemplo.

Valter Hugo Mae
27:49
Uma vontade de legislador. Existe maneira de legislar sobre todas as coisas. Há países que bloqueiam plataformas e tudo isso que num instante podem radicalizar, por exemplo, uma proibição. Se uma plataforma não cumpre a lei, se propaga o ódio, se mostra imagens ofensivas, se é responsável pela disseminação de mentiras, de calúnias, de insultos, de perseguições a pessoas e tudo, há países que simplesmente eliminam a plataforma. Ela não existe mais naquelas fronteiras.

Jorge Correia
28:25
Apesar de tudo, a questão do boato, hoje ele está na internet espalhado, tem obviamente um intuito e um fim, mas o boato, eu lembro-me da minha aldeia no Alto Minho, e o boato e a Cuscovelhice, e saber o que é que fazia A, B e C,

Valter Hugo Mae
28:40
era uma coisa profundamente humana. Claro, pois é, profundamente humano, mas era… E desgraçado. Mas era feita em sordina. E só na aldeia O boato não, e na cidade também Em qualquer prédio há boato Se for um prédio normal Mas a questão é que o boato passa em Surdina Quem passa o boato Não o assume E nega no passo seguinte E pressupõe Inclusive Por mais Aliás, uma das coisas cómicas no boato E por isso é que ele é ótimo para a literatura É que quem passa o boato adiante Piora a história que quer fazer o outro acreditar a todo custo. Quem se interessa por entregar um boato faz um esforço para transformá-lo numa coisa verdadeira. E interessante. O que significa que no fundo ele já sabe que a probabilidade daquilo ser uma mentira é muito grande. O problema na internet é que a pessoa que cria ou a pessoa que propaga, propaga de uma forma absolutamente desinteressada, leviana impuna desresponsabilizada

Jorge Correia
29:49
não participa no processo

Valter Hugo Mae
29:50
e sem saber exatamente a dimensão do mal que pode estar a causar

Jorge Correia
29:57
portanto quando nós falamos, lá está quando se cria um boato quando se conta um conto acrescenta-se um ponto e nós vamos acrescentando marcas de verdade nesse boato no fundo nós estamos na construção coletiva de uma fantasia que em determinados momentos sabemos que ela faz mal a alguém.

Valter Hugo Mae
30:17
Sim, claro. Ou estamos na massa do sangue. Eu acho que quem o faz deseja sempre, ou melhor, pode ser mal intencionado, mas muitas das vezes é só uma coceira na língua. É só uma vontade de contar uma história picante e ter alguma coisa para dizer à vizinhança. E por isso esse garrido e não sei o que é assim uma espécie de Agora saía-me um palavrão Mas é uma espécie de entusiasmo De ser também a lusa, sabes? É uma coisa incontida Olha, eu é que sei Eu é que sou tão competente Que descortino aqui a chave do mistério

Jorge Correia
31:01
Nunca deixo que a verdade Estraga uma boa história No fundo é isto Quando se conta um boato para passar à frente

Valter Hugo Mae
31:08
Exatamente, aliás para um escritor uma grande, grande, grande frase impõe-se sempre à verdade.

Jorge Correia
31:18
Mas tu tens o direito a isso, não é? Tu tens o direito à fantasia.

Valter Hugo Mae
31:22
Na última análise eu faço ficção. Eu não minto, eu ficciono.

Jorge Correia
31:26
Mas na ficção muitas vezes encontramos mais verdade do que na verdade anunciada.

Valter Hugo Mae
31:30
Porque a ficção pode chapar as coisas com uma certa frontalidade no sentido em que ela propõe um exercício que em si mesmo é irreal. Ela propõe-nos a entrar numa fantasia, numa certa mentira, e por isso no território da mentira todas as verdades podem ser ditas porque estão feridas da mentira.

Jorge Correia
31:56
Quando tu constrais este teu século dos imbecis, a minha percepção é que a cobiça fica mais humana do que a própria fé. Sim. Achas que sim? Achas que nós estamos aqui a… Estamos a perder a fé ou é, mais uma vez, um questionamento institucional? Eu acho que estamos.

Valter Hugo Mae
32:15
Eu acho que estamos a perder a fé. Eu acho que a concretude das coisas e a documentação imediata de todas as coisas ou a documentação de todas as coisas retira cada vez mais uma fantasia instalada no cotidiano.

Jorge Correia
32:32
E nós precisamos dessa fantasia?

Valter Hugo Mae
32:35
temos precisado, sem essa fantasia, talvez não possamos ser a humanidade que temos sido até agora. Talvez o paradigma seja mudado, se desloque.

Jorge Correia
32:46
Mas a ideia, quando eu estou a falar de fé, eu não estou só a falar da ideia de Deus, não é? Quer dizer, a fé pode ser a fé na humanidade, a fé em ser campeão do mundo de futebol.

Valter Hugo Mae
32:55
E acreditar em alguma coisa, ou até caminhar na direção de um certo mito, de uma certa utopia, eu acho que isso fica mais difícil, com tanta tecnologia e com tanta documentação, com tanta informação e tanta prova.

Jorge Correia
33:10
Estamos a tornar pragmáticos ou cínicos?

Valter Hugo Mae
33:12
Não, por exemplo, sim, sim, as duas coisas também. E muito difícil de… Somos cada vez mais difíceis de convencer. Porque tudo pode… Pressupomos que praticamente todas as coisas são mentira. E gostamos de acreditar no que acreditamos por uma espécie de inclinação emotiva. Quando as coisas são terríveis… Enfim, se eu gostar de uma determinada pessoa, se vir uma notícia sobre ela, eu vou ficar ofendido se a notícia for má. E, ao contrário, eu vou ficar feliz se a notícia for má e eu não gostar da pessoa.

Jorge Correia
33:53
Mas a emoção faz parte deste…

Valter Hugo Mae
33:55
E é tudo muito emotivo. Mas, por exemplo, desde que temos estes gadgets, todos os fotográficos e filmadores e gravadores e não sei o quê, acabaram as aparições de Nossa Senhora e as visões de não sei o quê, acabaram substancialmente os ovnis, ainda no outro dia houve um mocinho que o viu, mas não sei o quê, mas imediatamente se percebe o que é e o que não é e não sei o que mais. Acabaram os avistamentos, já não há o Bigfoot, já não há o Homem das Neves, já não há o Lago Ness, já não há porcaria nenhuma. Isso é bom porque, no fundo, é mais difícil que nos mintam. Porque se quiserem, com algumas coisas, se nos quiserem mentir, vão ter de fazer um esforço maior. Por outro lado, esgota uma certa dimensão de um imaginário mais à solta, que fertilizava muito a nossa vida e que atribuía muita maravilha à vida. E eu acho que a fé vem muito daí. Se tu construires uma maravilha, se conceberes uma maravilha em relação a alguma coisa, quando estiveres diante dela, vais tender a ver essa maravilha. E mesmo que ela não seja uma evidência, que não esteja em pedra alguma, tu vais sentir, serás levado ou convidado a um pressentimento de uma força, de uma energia, de uma qualquer coisa. Por quê? Porque vens impressionado alguma coisa anterior. É como ouvires falar dos templos de Angkor no Camboja que são deslumbrantes e conta-se tanto e fala-se tanto sobre uma espectralidade que quando de facto chegas lá e aquilo não são senão uns templos bonitos, num espantano cheio de turistas, eventualmente consegues achar que quase vezes os quemeres de um lado para o outro e que essa espectralidade existe, porque ela está inscrita na tua própria imaginação. E por isso, a partir daí, tu acreditas numa dimensão imaterial do que está ali evidente.

Jorge Correia
36:11
Há um efeito de sugestão, no fundo?

Valter Hugo Mae
36:14
Há um profundo efeito de sugestão.

Jorge Correia
36:15
Eu estou a pensar nisto porque, quando penso num país, quando penso em Portugal, penso sempre nas nossas mitologias, no fundo, o conjunto das coisas, os portugueses grandiosos nos descobrimentos, mas depois não necessariamente nas coisas negativas.

Valter Hugo Mae
36:33
Grandiosos na bravura, tanto na bravura quanto na crueldade.

Jorge Correia
36:37
Claro, mas não há essa assunção nessa mitologia.

Valter Hugo Mae
36:41
É porque sim, existe, mas tu hoje com os telefones já é mais difícil que te digam assim, olha, fomos grandiosos a fazer não sei o quê, porque alguém vai mostrar um vídeo e eventualmente vais perceber que…

Jorge Correia
36:56
Que não era assim.

Valter Hugo Mae
36:57
Enfim, de facto, chegaram ali, mas talvez tenham pisado na cabeça da foca que estava sossegada.

Jorge Correia
37:05
Eu estou a falar disto porque nós estamos em tempos de Mundial de Futebol e eu fiz algumas perguntas sobre isso a pessoas que acompanham o futebol, a propósito da mitologia, daqueles grandes jogadores que fizeram coisas extraordinárias. E essa pessoa disse-me, pois é verdade, mas é que nesse tempo não havia jogos a toda hora, Nós não víamos todos os minutos, nós víamos apenas uma crónica num jornal que relatava o ato heroico de um jogador de um jogo que nós não víamos.

Valter Hugo Mae
37:32
E o jornal galvanizava propositadamente, entusiasmava, criava uma sensação e por isso eventualmente o repórter tinha por missão fazer a maravilha, escrever a maravilha, exatamente para que os leitores pudessem apaixonar-se por uma determinada escrita.

Jorge Correia
37:54
No fundo, como a Odisseia e a Ilíada, contar o ato heroico.

Valter Hugo Mae
37:57
Exatamente. Mas essa é a força da linguagem, não é? É a força da linguagem. Eu há uns tempos escrevendo sobre os Lusíadas, dizia que o Camões teve uma proeza heroica porque ele conseguiu mostrar que escrever um poema poderia ser uma proeza tão heroica quanto efetivamente dobrar o cabo da Boa Esperança e conquistar o Adamastor, abater o Adamastor. E por isso o saber contar, o modo como se conta alguma coisa é em si a construção do herói. É em si a sedimentação, se quiseres, da dimensão do herói.

Jorge Correia
38:43
De onde é que vêm as tuas ideias?

Valter Hugo Mae
38:46
De toda a parte, de uma insatisfação, de uma angústia, de uma incompletude, de um pressentimento, de um desassossego, como diria o Fernando Pessoa e o José Saramago. De todas as coisas, mas sobretudo das coisas silentes ou das pessoas silentes. É curioso.

Jorge Correia
39:08
Que pessoas são essas ou que momentos são esses?

Valter Hugo Mae
39:10
As que me provocam, aquelas que eu vejo mas que não se pronunciam, as que calam antes de qualquer resposta, as que não entregam sequer o nome. Há qualquer coisa em quem eu vejo e sobre quem não sei nada que me maravilha. Que te interpela?

Jorge Correia
39:31
E tu precisas de fazer perguntas a esses momentos?

Valter Hugo Mae
39:33
Não, eu invento tudo o que as pessoas são. Tu requerias aquilo que conseguiste percepcionar? Quando parto para os livros, muitas das vezes as personagens são pessoas que eu observei durante, às vezes, uns breves minutos. Não sei, nunca mais vi.

Jorge Correia
39:56
Mas ouviste-as?

Valter Hugo Mae
39:57
Não, não preciso de ouvir nada. São pessoas que me impressionam pela maneira como estão, que têm algum tipo de estranheza, alguma subtilé, alguma nuance, algum detalhe que de repente parece uma especificidade na qual eu nunca tinha reparado ou que me oferecem uma pergunta as pessoas no fundo só deixam as perguntas eu não posso perguntar nada porque todas as respostas que me descem são desnecessárias eu preciso das perguntas, eu preciso que elas me ofereçam as perguntas eu não faço inquérito não faço pesquisa nesse sentido

Jorge Correia
40:32
estás num sítio, estás a olhar estás a olhar o mundo, estás a olhar aquela pessoa que fala ou aquela pessoa que se… Sim, às vezes encontro assim

Valter Hugo Mae
40:38
posso dizer, por exemplo, que a Isaura de um dos meus livros do Filho de Mil Homens ela vai buscar o nome a uma leitora de Lisboa que na altura eu não conhecia, que foi uma senhora que me pediu para assinar o livro e que me disse chamar-se Isaura mas a figura daquela mulher como ela está desenhada, a personalidade daquela mulher como está desenhada no livro vem de uma senhora que viajou sentada no comboio à minha frente numa viagem de cerca de 50 minutos E falaste com ela? Não, ela estava na vida dela, eu estava na minha vida Mas eu achei a mulher estranhamente acoçada Estranhamente desconfortável Mas ao mesmo tempo não era um desconforto que fosse triste Era resignado Era assim um misto de eventualmente não se sentir bonita talvez não estar saudável, mas ao mesmo tempo não era idosa, também não parecia estar morredoira. Era qualquer coisa naquela mulher que me fazia sentir uma solidão profunda e uma viagem na qual ela não acreditava, que não adiantaria nada. Como se estivesse em movimento para ir ao encontro de alguma coisa que não seria solução nenhuma. E aquilo impressionou-me tanto A imagem daquela mulher ali encurralada Em movimento Mas entalada na vida Encurralada num canto da vida Sem saber sair dali Que ela virou uma personagem do meu livro

Jorge Correia
42:25
Como é que se tira tanta informação de uma pessoa?

Valter Hugo Mae
42:29
As pessoas por vezes são intensas São tensas e intensas Há qualquer coisa em determinados instantes da vida Que valem por anos inteiros de distração

Jorge Correia
42:41
E estão-te a dizer tudo? No fundo, tu estás ali frente a frente

Valter Hugo Mae
42:44
Há uma vulnerabilidade em que entregam muita coisa Porque, eventualmente, a cidadania faz-se De uma dimensão cosmética De uma espécie de disciplina Que aprendemos para sair à rua

Jorge Correia
43:00
Como é que tu estás tão bem?

Valter Hugo Mae
43:01
O que vemos na rua normalmente não é literário A pessoa que passa na rua, a maneira como passa e aquilo que carrega na expressão, normalmente não é literário porque não é que não seja sincero, porque é uma armação que as pessoas conseguem, mas não é transparente, não transparece em absoluto. Mas bem reparado e em determinadas situações, encontras sempre alguém, em cada dia, encontras alguém que está desarmado na rua.

Jorge Correia
43:31
Como é que se consegue ser uma esponja como tu és, como acabaste de demonstrar, cativando as almas das pessoas como o Belimunda?

Valter Hugo Mae
43:41
É uma espécie de ladroagem, não é? Depois de tanta conversa sobre a Constituição e a lei, é uma espécie de ladroagem, porque é uma espécie de roubo feito em cima dos recóntitos secretos das pessoas. Toda a gente tem a sua história, certo? Toda a gente tem história. Mas sabes que é um exercício muito interessante, porque por vezes eu escrevo coisas para alguns amigos. Acontece de vez em quando alguém precisar de escrever alguma coisa, precisa de relatar ou de se explicar, ou sobre si, ou sobre o que pensa, ou sobre o que quer. Portanto, tu és o cirrante de Bergerac? Não, ele era mais feio do que eu, mais sensual. E então escreve, desculpe, escreve para os seus amigos? Eu escrevo, às vezes ajudo a escrever e as pessoas dizem assim, é porque eu precisava de explicar, mas eu também não sei, eu também não sei, mas é sobre não sei o quê, eu preciso de me apresentar, e é muito curioso que… Eu não sei se é por eu poder usar uma plasticidade das palavras, uma elasticidade das palavras Mas depois de lançadas as palavras ao texto, é muito curioso ver que as pessoas normalmente identificam-se e acham que esclarecia alguma coisa que elas não conseguiriam dizer. É um efeito espelho? É um efeito espelho, mas é muito curioso porque é um pouco como acontece no horóscopo, sabes? Se fores direto, eu sou o balança. Se eu ler o horóscopo de hoje para o balança, eu vou tender a achar, ah, sim, isto pode ser. Mas se eu fosse ler o caranguejo, o carneiro, o touro, não sei do que, aplica-se tudo, dá tudo certo. E a sensação que eu tenho é que nós somos muito mais universais do que nos convencemos. E, por isso, quando temos uma certa angústia de explicação, a explicação que possa ser feita, se for minimamente, se deitar mão de algumas forças que são comuns, que são inevitáveis, tanto serve para um amigo como para uma amiga, como para o 19º andar, para a vizinha, que eu nem sei bem quem é.

Jorge Correia
46:05
Deixa-me destruir a tua falsa modéstia. Aquilo que tu tens é a escrever uma fábula da nossa vida com o qual todos nos reconhecemos. e isso é uma habilidade suprema.

Valter Hugo Mae
46:18
Talvez, não sei se é, não sei se é suprema, mas é talvez acreditar que há uma forma de nos explicarmos a todos, talvez.

Jorge Correia
46:31
No fundo, tu pegas naquilo que cativas de cada um de nós, das nossas dores, dos não ditos, e pegas nessa ferramenta em ti muito elástica, que é a linguagem para plasmar isto num livro.

Valter Hugo Mae
46:45
E depois os livros funcionam porque, de alguma forma, todos nós cabemos ali num canto qualquer.

Jorge Correia
46:53
E funcionam quando acabaram de estar escritos ou apenas quando são lidos?

Valter Hugo Mae
46:58
Para mim funcionam logo ali, mas depois o objetivo máximo de um livro é convidar ao diálogo. Não exatamente desta forma, porque um dia eu não estarei cá e não poderão falar comigo, mas o próprio livro, a própria leitura de um livro é de facto um gesto de diálogo. E por isso, de facto, ler Dostoyevsky é estar à conversa com Dostoyevsky. E essa é uma das grandes magias da literatura.

Jorge Correia
47:33
Há um diálogo, no fundo, que está ali montado, que não é um diálogo surdo. Eu vou tendo coisas, vou fazendo perguntas?

Valter Hugo Mae
47:39
Há uma espécie de cadeia de emissão e recepção recíproca, porque o livro é alimentado pelo leitor também. No fundo, isso que perguntavas, se o livro só se consuma quando é lido, o livro só pode ser alimentado pelo leitor, e por isso, enquanto tal, o livro está vazio. E é o leitor que ocupa os seus espaços e ocupa com aquilo que sabe. No fundo, cada pessoa só lê o que sabe ler. Podemos estar a ler o mesmo livro, mas eu leio o que eu sei e tu lerás o que sabes. E por isso estamos diante de um interlocutor que tem a força que nós soubermos dar-lhe.

Jorge Correia
48:33
E isso aplica-se também às crianças. Tu escreveste livros também para crianças, não é? Sim, sim. As crianças são uns leitores, uns destinatários bastante…

Valter Hugo Mae
48:42
Exigentes, porque aquilo que não opera efeito, elas acusam imediato. Não querem saber? É de fugir. A criança é muito sincera e não tem estratégias para atacar defendendo o outro. Não maquilham a coisa. Nós tendemos a dar respostas às vezes contundentes, mas defendendo, digamos assim, o adversário, eu diria o interlocutor. A criança não tem essa maturação e por isso ao responder ou ao rebater, normalmente ataca de uma forma violenta.

Jorge Correia
49:24
E isso dói, não é?

Valter Hugo Mae
49:26
Assusta e faz com que muitos autores não queiram escrever para crianças ou não saibam escrever para crianças. E eu devo dizer que durante muitos anos não escrevi. E passei a escrever depois de um menino numa escola me ter perguntado que lata era a minha de estar ali a falar com eles sem nunca ter escrito para eles.

Jorge Correia
49:50
No fundo é falas, falas, falas, mas ainda não fizeste nada para mim.

Valter Hugo Mae
49:53
Mas não fizeste nada que eu possa ler. Por isso, o que é que estás aqui a fazer? Porque eu ia muito às escolas imbuído daquele espírito de convidar os alunos para a leitura, de fazer uma espécie de trabalho cívico. E depois levei nas trombas daquele menino, que devia ter pai uns seis anos, e disse, então, mas conta lá uma história. E eu não sei, mas não tens um livro, não escreveste um livro. Escrevi livros, mas são histórias muito esquisitas, dá para contar aqui.

Jorge Correia
50:25
E não são para ti.

Valter Hugo Mae
50:26
E não são para ti. Nunca escreveste um livro para crianças. Não escrevia. Então é o que estás aqui a fazer? Olha que vergonha.

Jorge Correia
50:31
Mas isso é uma grande pergunta.

Valter Hugo Mae
50:33
Por que é que não escreves? Exatamente. E por que é que não escreves? De facto, por que é que eu não escrevo? Eu acho que não escrevia para crianças porque eu não sabia. Por mais que falasse com elas e achasse que me entendia na conversa com elas, eu não estava muito convencido e ainda não estou muito convencido de que me é fácil entender o lugar da criança, aquilo que a criança necessita.

Jorge Correia
51:01
Elas têm umas portas especiais?

Valter Hugo Mae
51:03
Têm umas portas especiais e depois são muito dispares. A infância é muito terrível.

Jorge Correia
51:11
Mas isso é uma boa notícia ou não?

Valter Hugo Mae
51:12
É uma boa notícia, mas é terrível para quem quer igualar ou criar paridade num grupo de 30 crianças.

Jorge Correia
51:25
Eu vou escrever uma história que todos vós, os 30, vão conseguir perceber do que é que eu estou a falar.

Valter Hugo Mae
51:30
Sim, mas o problema é que podes ter 30 crianças metidas numa sala com 8 anos de idade, por exemplo. E dependendo da métrica que usas para a idade de cada um, uns vão ter 15 anos e outros vão ter 3. Porque são muito diferentes as maturidades dos meninos, aquilo que eles já trazem de casa, as suas sensibilidades. E então, no que diz respeito aos rapazes e às raparigas, é abissal. Uma menina com 10 anos está substancialmente preparada para sobreviver, nem que seja uma semana, e um menino com 10 anos não sobrevive nem 10 minutos.

Jorge Correia
52:13
Isso não é bom para o nosso género. Não é bom para o nosso género. Acabas de destruir qualquer possibilidade de…

Valter Hugo Mae
52:20
É que as meninas são, de todas as maneiras, assim, isto é uma generalização, é desfavor dos rapazes, mas as meninas parecem ser, de todas as maneiras, muito mais amadurecer, muito mais depressa, e parecem ser ampliar as suas capacidades de uma forma panorâmica.

Jorge Correia
52:43
Não há esperança para nós, é isso que tu estás a dizer.

Valter Hugo Mae
52:45
Nós vamos sendo especializados, assim, À vez, perante uma e outra qualidade. E as meninas parece que melhoram em tudo muito mais depressa.

Jorge Correia
52:57
Nós podemos sempre aproveitar disto. Além de escritor pintas, já cantaste também.

Valter Hugo Mae
53:03
São experiências, não são coisas sérias. Para recolher o quê? Para me divertir. Para sentir o que seria a vida de outra forma e o quanto é interessante, o quanto seria interessante ser o Caravaggio fazendo um burrão. O que é que te diverte? Olha, eu preciso muito de rir, de não me levar demasiado a sério, de achar que as coisas atrozes que inevitavelmente acontecem só se justificam se nós nos levantarmos outra vez para uma certa felicidade, para uma certa alegria. E por isso gosto muito de encontrar as minhas pessoas, gosto muito de as descompor com as neiras e manter a impressão de que vou envelhecendo sem amargurar, sem me tornar casmurro e maldisposto e ingrato. sobretudo a questão da gratidão é muito importante para mim, manter-me grato porque de alguma forma a minha vida tem sido bastante privilegiada Valter Gomen, obrigado Obrigado eu, foi um prazer

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