E se a tua dor não for tua? Sílvia Baptista

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E se a tua dor não for tua? Sílvia Baptista
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Sílvia Baptista e o que fica por dizer

uma pergunta que Sílvia Baptista faz, ocasionalmente, a si mesma. Não aos pacientes, a si. Quando alguém a irrita desproporcionalmente, quando a reação parece vir de um lugar mais fundo do que o incidente justifica, ela para. E pergunta: o que há nesta pessoa que há em mim?

É um exercício pequeno, quase doméstico. Mas revela, melhor do que qualquer teoria, aquilo que a psicanálise é, no fundo: uma arte de se ver a si próprio no outro. De reconhecer, no que nos perturba lá fora, qualquer coisa que ficou por resolver cá dentro.

Sílvia começou pelo jornalismo. Passou pela comunicação, pela escrita, pelas perguntas feitas a outros. E depois, a dada altura, fez a pergunta mais difícil a si mesma. Tornou-se paciente. E ficou. Não como quem não tem para onde ir, mas como quem descobriu, no divã, o território mais honesto que conhecia. Hoje, do outro lado da consulta, trabalha com aquilo que as pessoas não conseguem ainda dizer.

“Na psicanálise não interessa o que as pessoas estão a dizer”, explicou-me. “Interessa é o que não estão a dizer.” É uma inversão radical. Numa cultura que premeia a articulação, a fluência, a capacidade de se apresentar bem — a psicanálise aposta precisamente no contrário. Acredita que o sentido habita o silêncio, o lapso, o sonho, o momento em que alguém quer dizer mãe e diz não. Acredita que a verdade escorrega pelas fissuras da narrativa apresentada.

E a narrativa muitas vezes nem sequer é nossa. “Somos, até muito tarde, aquilo que dizem que somos.” Os pais, os cuidadores, a família, contam-nos uma história sobre nós, e nós acreditamos. Não por ingenuidade, mas por necessidade. As crianças dependem absolutamente de quem as tem. Não têm como não acreditar. E assim chegamos à vida adulta carregando versões de nós mesmos escritas por outros, em circunstâncias que já não existem, para propósitos que já não servem.

A terapia, neste sentido, não é uma cura. Sílvia foi clara nisto, e foi uma das coisas que mais me ficou. “Eu não acredito nas curas. A mente não é a preto e branco.” O que a análise faz, o que pode fazer, no melhor dos casos, é tornar as coisas conscientes. Fazer ligações entre a dor de hoje e a sua origem. E devolver ao paciente uma narrativa que seja, pela primeira vez, genuinamente sua. “Isso”, disse ela, “dá um alívio brutal.”

Há qualquer coisa muito contemporânea no que Sílvia descreve. Vivemos tempos em que todos publicamos versões editadas de nós mesmos, em que a palavra “autenticidade” se tornou um valor de marketing, em que a vulnerabilidade é exortada em conferências e monetizada em podcasts. Sílvia é crítica desta inflação. A vulnerabilidade, argumenta, não se pede. Não se convoca. Decorre da confiança, que por sua vez decorre da relação, que por sua vez precisa de tempo. “Exortar as pessoas à vulnerabilidade pode ser um ato muito narcísico de quem exorta.” Dito assim, com aquela precisão clínica, soa a diagnóstico.

Depois há o desejo. A conversa chegou lá a dada altura, e ficou. O desejo, em psicanálise, não é apenas o que queremos dos outros, é a força vital, o motor que nos empurra. E tem uma condição: nasce da falta. Só existe onde há ausência, onde há espera, onde há tensão entre o que é e o que poderia ser. Sílvia olhou para a geração mais nova com uma mistura de compreensão e inquietação. Têm casas para onde ir, telemóveis que comunicam em tempo real, acesso a tudo e a todos em qualquer momento. Nunca ficaram à espera de um telefonema que podia não chegar. Nunca entraram numa portada de prédio porque não havia outro sítio. E perderam, nessa abundância, qualquer coisa que ela não soube bem nomear mas que reconheceu sem hesitar: o prazer de não ter, e querer.

“O prazer hoje é um fogacho”, disse. “Serve para nos excitar naquele momento. Depois apagam.” A metáfora é perfeita para o que vivemos. Não há falta, por isso não há desejo. Não há desejo, por isso não há prazer verdadeiro. Não há prazer verdadeiro, por isso precisamos de outro fogacho. A dopamina como substituto do amor.

E o silêncio. Sílvia falou do silêncio como de um bem escasso. No consultório, sustenta-o. Espera. O paciente para, e ela espera. Sabe que o silêncio não é ausência, é elaboração. É o momento em que alguma coisa se organiza por baixo das palavras. Mas cá fora, o silêncio tornou-se insuportável. “Há pessoas que o único sítio onde encontram silêncio é na terapia.” Quando disse isto, a sala ficou mais quieta por um segundo. Como se a frase precisasse de espaço para pousar.

No final, quando a conversa tocava nos cinquenta minutos, perguntei-lhe como arrumava a cabeça após um dia inteiro a ouvir dores. Falou dos passeios com as cadelas, dos amigos, do namorado. E depois disse, sem hesitar, algo que não esperava de uma psicanalista: “Só há uma coisa que cura tudo. É o amor. O amor ao outro. O amor ao humano.”

Não o amor como conceito terapêutico. Não como técnica. O amor como facto. Como a única coisa que, no fim de tudo, funciona.

Há qualquer coisa desconcertante em ouvir isso de alguém que passou a vida a ouvir o que não se diz. Porque sugere que, debaixo de todos os lapsos, de todos os padrões repetidos, de todas as histórias herdadas — o que as pessoas estão mesmo a dizer, o tempo todo, é que querem ser amadas. E que ainda não sabem pedir.

Ler transcrição completa

Sílvia Baptista
00:00
Na psicanálise não interessa o que é que as pessoas estão a dizer. Interessa é o que é que elas não estão a dizer. Ou seja, nesse caso, não interessa tanto o que é que a pessoa acha que tem. Interessa é o que é que a pessoa não tem e gostava de ter, mas também ainda não sabe o que é. A verdade é que há um desconforto, há um sintoma. Se o sintoma está lá, alguma coisa está lá. Não é só uma questão de birra.

Jorge Correia
00:36
Imaginem que vão à consulta de psicologia, sentam-se e a terapeuta está à vossa frente e começam a falar. Contam a vossa semana, o stress do trabalho, as discussões com o parceiro, a sensação de que alguma coisa não está bem, mas não sabem bem o quê. E a terapeuta ouve. O que é que acham que ela está a ouvir? Não é o que estão a dizer, é aquilo que não estão a dizer. Foi isso mesmo que Silvia Batista me explicou quando nos sentamos para conversar. Silvia é psicanalista há mais de 20 anos, mas começou pelo jornalismo e isso, como vamos ver, não é um detalhe sem importância. A psicanálise tem uma ideia central que vai contra tudo aquilo que nos ensinaram. Desde pequenos aprendemos a articular, a explicar o que sentimos, a encontrar as palavras certas e depois chegamos a um consultório e descobrimos que as palavras certas podem ser precisamente o problema. Porque o que nos dói a sério, o sofrimento que nos traz até ali, não consegue sempre chegar à superfície em linguagem limpa. Aparece nos lapsos, nos sonhos, nos padrões que repetimos sem perceber porquê, no sagrado subconsciente, na história que nos contaram sobre nós e que muitas vezes não é a nossa. Essa foi a ideia que mais me ficou durante esta conversa, que nós temos uma narrativa sobre nós mesmos, uma versão do que somos, de onde viemos, do que nos aconteceu, mas o problema é que grande parte dessa narrativa foi escrita pelos outros. Pelos pais, pela família, pelas pessoas de quem dependíamos quando ainda não tínhamos escolha. E nós acreditamos. Claro que acreditamos. Eram as pessoas mais importantes do mundo. E o trabalho da terapia não é apagar essa história, é ajudar-nos a reescrevê-la com a nossa própria voz. Falamos também de algo que me parece cada vez mais urgente. O desejo. Não no sentido romântico, mas no sentido mais amplo. O que nos empurra, o que nos faz querer. A ideia é esta. O desejo precisa de falta para existir. Precisamos de não ter para querer ter. E aqui está o paradoxo da nossa época. Vivemos num mundo em que quase nada nos falta. Acesso imediato a tudo, entretenimento infinito, respostas instantâneas. Estamos, muitos de nós, profundamente apáticos. Não é coincidência. No fim desta conversa, perguntei-lhe algo muito simples. Como é que ela faz todos os dias, depois de ouvir dores e carregar histórias que não são suas, para conseguir sobreviver? E ela surpreendeu-me mais uma vez. Respondeu que só há uma coisa que cura tudo. É o amor. Não o amor como ideia, não como tema de conversa. O amor como prática concreta. Os amigos, a família, as pessoas que estão lá. Fiquei a pensar nisto depois de ela sair embora. Aqui está alguém que passou décadas a ouvir o sofrimento humano na sua forma mais bruta e a conclusão a que chegou, a única coisa que na sua experiência realmente funciona é o amor. Silvia Batista. Cá estamos. Psicanalista. Uma psicanalista da palavra e da voz, porque tu não és só uma psicanalista, tu dedicas muito do teu tempo a falar e a pensar sobre a questão da comunicação.

Sílvia Baptista
03:43
Como é que é o teu dia-a-dia? O meu dia-a-dia é muito no consultório, a ouvir e a falar, mas muito mais a ouvir do que a falar. Curiosamente, a minha primeira formação é em comunicação. Eu venho da comunicação e venho do jornalismo. Então é daí que veio o teu segredo? Não, é… Bom, eu achei, houve uma altura que eu achava que queria ser jornalista, quando entrei para a faculdade e fiz o curso todo. Ainda fui uns anos jornalista e depois percebi que não era para mim. E depois passei por várias outras áreas até me tornar paciente de psicanálise.

Jorge Correia
04:26
Foste fazer psicanálise?

Sílvia Baptista
04:27
E depois fui estudar psicanálise e psicoterapia e cá estou.

Jorge Correia
04:31
Todos os psicanalistas passam pelo divã primeiro?

Sílvia Baptista
04:33
Sim, sim. Sempre? Absolutamente fundamental.

Jorge Correia
04:36
E quanto tempo dura esse processo de formação?

Sílvia Baptista
04:38
O de formação, eu diria até que não acaba. Obviamente há um processo base, que são quatro anos teóricos, mais uma porrada de horas de clínica e de supervisão e de intervisão. E depois vai depender muito da pessoa. Eu acho que não acaba, mas eu acho que não acaba porque tenho problemas com limites, em pôr limites a mim mesma. E também porque gosto muito do que faço. E os próprios pacientes vão trazendo temas do que se vai passando no mundo deles, que por sua vez também é o que se passa no mundo. Isso obriga-me também a ir estando atualizada e percebendo também como é que a psicanálise pode intervir nesses temas e como é que eu posso intervir na vida dos pacientes. Eu, quer dizer, os dois.

Jorge Correia
05:25
Olha, quem não conhece nada sobre esta arte, esta coisa da psicoterapia,

Sílvia Baptista
05:33
porquê que alguém te bate à porta? Olha, as pessoas normalmente procuram uma terapia, seja ela qual for, mas neste caso a psicoterapia ou a psicanálise, porque têm um sofrimento, têm uma dor, têm uma perturbação, têm qualquer coisa. Não têm que ter necessariamente uma patologia. Acho até que é uma ideia que foi propagada, mas que não corresponde à realidade. Felizmente, a maior parte das pessoas que procuram a terapia não têm uma patologia, não é doente. O que não significa que não tenha sofrimento psíquico associado, porque sofrimento faz parte.

Jorge Correia
06:07
Portanto, as pessoas procuram-te porque têm uma dor. Como é que podemos definir uma dor? O que é que me dói? Dói-me a perna, dói-me o braço? Quando são dores físicas nós sabemos muito bem classificá-las e qualificá-las Mas dói-me a alma?

Sílvia Baptista
06:20
Dói-me a alma, sim É um sofrimento mais subjetivo É um sofrimento em que a gente às vezes se sente Até no corpo Mas que como ele não é objetivo E não conseguimos dizer é do braço ou é da perna Temos mais dificuldade a identificar E portanto cabe ao terapeuta Ao analista com o paciente, perceber de onde é que está a vir aquele sintoma.

Jorge Correia
06:45
Então, quais são as dores maiores? Ou as mais comuns?

Sílvia Baptista
06:49
As mais comuns, eu diria que têm a ver com duas coisas. A primeira, muito do presente, que tem a ver com esta contemporaneidade, com a vida que nós todos vivemos hoje, que é uma vida muito tensa, uma vida em que nós nos colocamos muito nas costas. Temos, usando aqui uma palavra da psicanálise, um superego, que é o nosso polícia interno. Temos um superego duríssimo em que achamos que a vida é performance, que a vida é fazer coisas. E isso adoece-nos, isso pode realmente adoecer-nos, porque nós vivemos um excesso concreto da vida. O excesso do quotidiano, da espuma dos dias.

Jorge Correia
07:32
E isso é-nos imposto ou somos nós que impomos as nós próprias?

Sílvia Baptista
07:36
É um bocadinho… Olha, é um bocadinho como a história do Ovo da Galinha. Não se sabe muito bem onde é que começa. Porque a verdade é que, por muito que nós queiramos ter uma outra vida, ou viver as extensões de uma outra forma, a verdade é que somos engolidos também pelas… Já pelas necessidades óbvias e básicas de ter que trabalhar, de ter que ganhar dinheiro para pagar contas, não é? Portanto, eu não estou a falar desse básico. que estou a falar do que vem a mais, ou seja, do que nós achamos que precisamos para estarmos bem, para sermos felizes, e que, regra geral, hoje em dia, passa por ter mais dinheiro. E depois, por ter mais dinheiro, passa por trabalhar mais ou trabalhar diferente.

Jorge Correia
08:18
Mas isso é um ciclo infinito, não é?

Sílvia Baptista
08:19
É, é. E é por isso que muitas vezes as pessoas chegam à análise muito cheias de quotidiano. A vida delas tem, digamos, pouca poesia.

Jorge Correia
08:30
Estou farto da vidinha? É um bocadinho isso?

Sílvia Baptista
08:33
É, estou farta vidinha, mas é um sofrimento difuso. Porque às vezes as pessoas até têm uma vida porreira e está tudo bem em casa e até está tudo bem com os filhos, mas sentem necessidade que alguma coisa mude e não sabem o quê.

Jorge Correia
08:45
Isto é como se diz no meu alto minho, queixam-se de barriga cheia. No fundo é isto, quer dizer, olhar para alguém, quer dizer assim, então mas tu tens uma boa profissão, tu ganhas bem, a tua família é porreira, como tu dizes, Estás casado com a tua mulher, com o teu marido, tens filhos, é toda a gente saudável, vocês têm uma casa, têm um carro, podem ir de férias, estás a queixar de quê? O que é que te dói?

Sílvia Baptista
09:11
Pois, eu acho que essa é a conversa que as pessoas depois têm para si mesmas, que é exatamente isso, o que é que me falta? Se eu tenho isto, isto, isto, isto e isto, a questão não é tanto, e acho que a psicanálise é paradigmática e imbatível, na psicanálise não interessa o que é que as pessoas estão a dizer, interessa é o que é que elas não estão a dizer. Ou seja, nesse caso, não interessa tanto o que é que a pessoa acha que tem. Interessa é o que é que a pessoa não tem e gostava de ter mas também ainda não sabe o que é. A verdade é que há um desconforto. Há um sintoma. Se o sintoma está lá, alguma coisa está lá. Não é só uma questão de

Jorge Correia
09:50
birra. E consegues… Como é que tu consegues chegar a esse não dito? Àquilo que não se diz? Àquilo que não foi expresso?

Sílvia Baptista
09:58
Isso tem a ver com o próprio método analítico, não é? Tem a ver com nós procurarmos no paciente não o que está manifesto, lá está, não aquilo que ele diz, mas o que está latente, o que está inconsciente. E isso faz-se através, olha, dos lapsos de língua, do que a pessoa quer dizer bem e diz mãe, dos sonhos, da análise dos sonhos, dos timings em que escolhe fazer coisas, das repetições. Aquela coisa de nós repetirmos sempre os mesmos erros Portanto, aí tem a ver com a técnica analítica E naquilo que nós somos treinados Para estarmos atentos a ouvir E é por isso que precisamos de ser pacientes antes de ser

Jorge Correia
10:42
E tu vais ouvindo sempre És daquelas terapêuticas que vão sempre Terapeutas que vão sempre Metendo uma colherada Ou és daquelas que dizes Sim, sim Não, não, não

Sílvia Baptista
10:55
Hoje em dia, obviamente há profissionais para tudo Hoje em dia a psicanálise evoluiu bastante Eu acho que esse é o estereótipo do psicanalista

Jorge Correia
11:03
Leva-me para dentro do teu gabinete A pessoa chega, viva, bem-vindo Está aqui o divã sempre ou é uma cadeira? Como é que é?

Sílvia Baptista
11:12
Há pessoas que vão para o divã Há pessoas que vão para a cadeira

Jorge Correia
11:15
E quem é que escolhe estar no divão na cadeira?

Sílvia Baptista
11:16
É uma sugestão do terapeuta Que depois o paciente aceita ou não O que é que tu faz escolher?

Jorge Correia
11:23
Olha, tu tens cara de ir para o divã Ou tu tens cara de ficar aqui nesta poltrona?

Sílvia Baptista
11:29
Não é imediato. É preciso algum tempo. E o tempo depende… Não é tanto o tempo cronológico, mas é o tempo interno de cada um. Isso pode ser uma semana, um mês, um ano. Mas regra geral, quem tem indicação pode e vai, são pacientes que de algum modo trazem uma constituição já mais madura. Que não precisam de estar olhos nos olhos, sempre com o terapeuta, para se sentirem seguros, para se sentirem bem.

Jorge Correia
11:57
Porque aquilo é uma vulnerabilidade, quer dizer, deitado no nivã,

Sílvia Baptista
12:00
tu estás aqui atrás. Estou atrás, sim. O diabo. E o paciente vai falando e eu também vou falando, mas aquele espaço não é meu. O meu espaço é um espaço de intervenção. Aquele espaço, aquela hora, é do paciente e eu vou pontuando aqui e ali, vou fazendo um comentário, mas sobretudo vou fazendo questões, não é? Vou ajudando o paciente a criar uma narrativa sobre ele próprio.

Jorge Correia
12:24
Olha, fala-me, isso interessa-me porque aqui se junta, no fundo, as nossas duas artes, que é a arte da comunicação com a arte, da entrar na cabeça das pessoas. Que tipo de perguntas? O que é que se pergunta a alguém para que essa pessoa, para ajudar essa pessoa a construir a sua história, a sua narrativa?

Sílvia Baptista
12:44
Olha, depende daquilo que a pessoa traz, mas eu diria que aquilo que me guia é a minha curiosidade sobre o paciente. se eu não tiver um módico de curiosidade sobre aquilo que o paciente me está a trazer é difícil é mais difícil, não é impossível mas é mais difícil, se o paciente normalmente vem com a história do seu próprio sintoma porque aconteceu isto, depois sinto-me aquilo, depois há aquela pessoa há o pai e a mãe, ele traz uma narrativa que nem sempre é sua, é ele que a conta

Jorge Correia
13:14
mas nem sempre é sua. Como é que é isso?

Sílvia Baptista
13:16
Quer dizer que nós quando nascemos nós somos até muito tarde eu diria que mais ou menos até ali à pré-adolescência, nós somos aquilo que dizem que nós somos

Jorge Correia
13:29
mas é uma programação ou é aquilo que nós

Sílvia Baptista
13:31
ouvimos sobre nós? olha, tu quando eras pequeno eras assim e fazias isto

Jorge Correia
13:35
e fazias aquilo e nós acreditamos nessa história

Sílvia Baptista
13:38
claro, vamos acreditar em quem? são os nossos pais ou os nossos cuidadores as pessoas de maior confiança as pessoas, quer dizer, as crianças não são como os adultos, as crianças dependem

Jorge Correia
13:49
absolutamente de alguém. E isso é bom ou é mau nós acreditarmos na história que nos contam?

Sílvia Baptista
13:53
Não é bom nem mau, é inevitável.

Jorge Correia
13:56
Porque eu imagino que a nossa mãe nos conta uma história que lhe dá um jeitaço contar a história daquela maneira, o pai também, o tio,

Sílvia Baptista
14:03
a avó. Claro, e é também a percepção dela, do lugar dela de mãe. Agora, a nossa responsabilidade é, a partir do momento em que começamos a ganhar mais maturidade, e isto é muito abstrato, mas eu diria aí entre, a começar na pré-adolescência com o seu pináculo na adolescência

Jorge Correia
14:22
Começamos a conhecer-nos

Sílvia Baptista
14:24
Começamos a sair mais fora de casa a ter outras relações que não com a família a ter outras experiências e a começar, se tudo correr bem até aqui, a começar a pensar pá, mas aquilo que a minha mãe diz que eu sou assim assado, eu não acho nada disso E começamos a criar uma narrativa nossa que é uma mistura entre a nossa experiência com as outras pessoas aquilo que vão dizendo de nós e mais qualquer coisa que nós temos na cabeça entretanto só que às vezes chegamos à vida adulta sem que isto esteja feito de uma maneira suficientemente boa

Jorge Correia
14:59
sem conseguiremos limbar a casa

Sílvia Baptista
15:00
exato, ter a tal narrativa sobre nós mesmos

Jorge Correia
15:04
portanto a tua tarefa na vida é mexer nesse ninho de vespas que é a família das pessoas

Sílvia Baptista
15:12
ok, é uma forma de pôr a coisa é uma forma de pôr a coisa, sim

Jorge Correia
15:19
Estou a ouvir a Pergunta Simples uma conversa com o psicanalista Silvio Batista e se estão a gostar e ainda não nos seguem na aplicação de podcast, este é o momento um clique no botão de subscrever garante que não perdem os próximos episódios No fundo, tu podes ir à procura se alguém tem uma dor de ir à procura exatamente do que é que foram as nóduas negras numa determinada altura, podes encontrar e os desamores e podes desarmar completamente uma história que alguém acreditou até ali.

Sílvia Baptista
15:54
Se essa história não estiver, não for, se o relato dessa história não for bom, vamos dizer assim para o paciente, sim, mas é ele que a traz, é ele que vem, essa história inevitavelmente vai-lhe trazer sofrimento E portanto a minha função é com ele ir perceber onde é que está o sofrimento nessa história, o que é que aconteceu e depois numa outra fase, eu diria, fazer com que o paciente perceba isto. É mais uma das razões pelas quais eu acho que a psicanálise é impar. É perceber com o paciente qual é a responsabilidade que ele tem no seu próprio sofrimento.

Jorge Correia
16:32
A culpa é tua?

Sílvia Baptista
16:33
Não é uma questão de culpa, é uma questão de que padrões é que ele está a repetir que fazem com que ele tenha, parece que tenha sempre o mesmo sofrimento

Jorge Correia
16:43
Espera lá, mas nós somos pessoas de padrões e de hábitos de beber um cafezinho, de ir ali, de fazer A, B ou C O que tu me estás a dizer é que às vezes o padrão é uma coisa que ela própria gera sentimento gera uma determinada dor Estamos a falar de padrões psíquicos, de padrões de…

Sílvia Baptista
17:03
Olha, por exemplo, quando a gente diz assim Eu tenho um azar Nas relações Que eu só atrai malucos É uma coisa que a gente já A gente já ouviu, eu só atrai malucos

Jorge Correia
17:17
Isto nunca corre bem

Sílvia Baptista
17:18
Eu só atrai malucos, eles parecem que me veem Ao longe e vêm ter comigo Mais ou menos O que é que eu acho que Uma hipótese do que pode estar a acontecer Ou do que é que essa pessoa pode estar a querer dizer As minhas relações são sempre iguais e são sempre com pessoas que, depois depende do contexto de cada um, ou são mais agressivas, ou querem que eu seja mãe deles, ou sou sempre eu a fazer tudo. Ou seja, nós acabamos por repetir padrões que, ou por escolher pessoas, não são as pessoas que nos escolhem a nós, somos nós que escolhemos as pessoas, ou pelo menos anuímos a estar ou não com aquela pessoa, tendo em conta qualquer coisa que nos é familiar. Esse é que é o padrão.

Jorge Correia
18:03
Ressoamos? Aquela pessoa ressoa em nós?

Sílvia Baptista
18:06
Pode ser aquela pessoa, pode ser aquela forma de vínculo. Pode ser aquele contexto. Mas há qualquer coisa ali que nos soa familiar.

Jorge Correia
18:16
O diabo desta história é que os deuses dos amores e dos afetos escolhem sempre a mesma maneira que é primeiro apaixonaste e depois logo se vê. E a paixão parece-me uma forma bastante miúpe de exercitar o coração. Portanto, essa racionalidade nunca existe no processo, ou não?

Sílvia Baptista
18:38
Não. E ainda bem.

Jorge Correia
18:40
E é automático.

Sílvia Baptista
18:41
Sim, ainda bem. E atiras de cabeça? Uns senhores não. Nem toda a gente se atira de cabeça mesmo estando apaixonado. Há os que não conseguem também?

Jorge Correia
18:49
Também pode ser uma angústia?

Sílvia Baptista
18:51
Pode. Então não pode. Aquelas pessoas que não se conseguem ligar, que até gostavam muito de se apaixonar, mas têm um medo terrível. Portanto, pode dar para um lado, pode dar para o outro, mas ainda bem que isto não é racional, porque lá está, eu acho que nós andamos todos a adoecer com um excesso de racionalidade e um excesso de defesa, andamos muito defendidos nas relações. E portanto, muitas vezes o que acontece é que, muitas vezes não, o estado de namoramento e de apaixonamento é um estado narcísico por excelência, porque isto não vê o outro, a gente só se vê a nós. Por isso é que se costuma dizer depois acaba a paixão e depois eu já não sou capaz de andar com a relação para a frente. Porquê? Porque quando acaba a paixão ou quando começa a esmorcer, quando começa a diminuir nós começamos a ver o outro como ele é.

Jorge Correia
19:37
Então mas espera lá, eu apaixono-me por ti acho que tu és a pessoa mais fulminável do mundo e o que tu me estás a dizer é não, isto não tem nada a ver contigo, tem a ver com o espelho que eu projeto em ti.

Sílvia Baptista
19:49
Não é preto e branco mas muito daquilo que nós vemos num estado de namoramento no outro tem mais a ver connosco com aquilo que nós queremos ver com aquilo que nós precisamos com aquilo que queremos e que desejamos do que propriamente com o outro, claro que o outro não desaparece mas tem muito mais a ver connosco nós idealizamos uma pessoa que com o tempo e com a vivência vai sendo desidealizada até por força da realidade nós podemos idealizar uma pessoa que depois a pessoa não é a nossa idealização é aquilo que ela é por isso é que as relações quando a paixão diminui tendem a ser mais complicadas são testadas em que sentido?

Jorge Correia
20:33
não sei, quer dizer, se nós estamos inebriados com essa paixão, se achamos que aquilo é que é a última bolacha do pacote e que se me estás a dizer que inexoravelmente a realidade se há de impor isto vai sempre de melhor a pior

Sílvia Baptista
20:50
depende Eu também não acho que seja possível viver sempre num clima de enamoramento. Não. É uma coisa muito psicótica. Então? Claro que não. Claro que não. Lembra-te lá da última vez que te apaixonaste. É uma coisa tremenda o enamoramento. A gente parece que não come, não dorme, só pensa na outra pessoa. Estamos sempre num estado mais hipomaníaco, numa coisa que não é para a psique viável o tempo inteiro.

Jorge Correia
21:18
É cansativo?

Sílvia Baptista
21:19
É cansativo, claro que é.

Jorge Correia
21:21
Então e aquilo das pessoas que vão de nanufar em nanufar?

Sílvia Baptista
21:24
À procura disso.

Jorge Correia
21:27
Vão à procura de uma adrenalina da paixão?

Sílvia Baptista
21:29
Vão. Nós vivemos neste tempo dopaminérgico. O que nós queremos é ser excitados. O que nós queremos é excitação. E por isso é que as pessoas andam de nanufar em nanufar. Depois há pessoas que não se dão bem com a excitação e gostam das coisas um bocadinho mais calmas. Mas eu diria que regra geral, a malta, quando a paixão começa a esmorecer, o interesse deles também começa a esmorecer.

Jorge Correia
21:54
Então, como é que nós sobrevivemos, no fundo, para fazer esse caminho saudável entre a louca paixão que nos afasalou para uma coisa bastante mais tranquila e com capacidade de gerir e de viver?

Sílvia Baptista
22:12
Eu acho que isso vai depender, obviamente, da maturidade de cada um e do encontro, porque nós estamos tão na dopamina que nos esquecemos que uma relação é, antes de mais, um encontro, um encontro entre as faltas, entre o que falta a um e o que falta ao outro. Porque aquilo que encaixa e aquilo que está bem não requer trabalho.

Jorge Correia
22:36
Não merece diálogo, não merece conversa.

Sílvia Baptista
22:38
Não, é viver, não é precisar desmiossar, é viver. Uma pessoa dá-se bem, o sexo é bom, gosta das mesmas coisas ou de coisas similares, não tem grande ciência. As coisas encaixam-se naturalmente. Quando a paixão começa a esmorcer, quando o outro começa a ser desidealizado, e atenção que nós temos que idealizar na paixão e desidealizar a seguir. Faz parte, é mesmo assim. E portanto, quando o outro começa a aparecer como é, e nós também começamos a aparecer como somos, aí eu acho que é um conjunto de decisões micro decisões que nós vamos tomando umas conscientes outras inconscientes no sentido de percebermos eu quero ou não ficar com esta pessoa e eu acho que as relações são muito mais isto do que qualquer outra coisa

Jorge Correia
23:24
Então e como é que tu sabes esse ponto de fronteira entre insistir porque achas que aquela é a pessoa certa

Sílvia Baptista
23:32
e que tem coisas extraordinárias

Jorge Correia
23:34
ou o momento em que tu dizes se calhar não é a pessoa certa

Sílvia Baptista
23:38
Eu acho que desde logo a questão da pessoa certa pode ser enganadora, porque nós também não somos sempre a mesma pessoa. E o que é uma pessoa certa hoje pode não ser amanhã ou para o ano.

Jorge Correia
23:47
Vamos mudando?

Sílvia Baptista
23:48
Vamos mudando, claro. Por isso é que as relações também acabam. É porque há muitas pessoas que vão mudando e crescendo para longe uma da outra. E o encaixe que havia numa determinada altura deixei de haver. E faz parte. Eu acho que é normal. depois também acho que hoje em dia já não há muito esta ideia de relação para sempre da pessoa para sempre, felizmente ainda há muita gente que vive relações assim, mas isso não quer dizer que as outras sejam menos legítimas ou menos boas

Jorge Correia
24:18
E são recaustáveis essas relações que têm esse afastamento? Como assim? Isto é, não sei se tu fazes terapia de casal ou não Agora fiquei cheia de curiosidade Estão os dois lá ao mesmo tempo?

Sílvia Baptista
24:34
Sim, sim, por isso é que é de casal.

Jorge Correia
24:36
Em duas poltronas?

Sílvia Baptista
24:37
Não em dois divãs, não. Então em duas poltronas sim, mas não em dois divãs.

Jorge Correia
24:41
E dois divãs era maravilhoso. Quando chegassem a um só divã, então aquilo estava resolvido.

Sílvia Baptista
24:45
Exato.

Jorge Correia
24:46
E como é que é? Como é que funciona?

Sílvia Baptista
24:48
A terapia de casal? Sim. É diferente da terapia individual. Às vezes? Às vezes. E ainda por cima, eu sou o tipo de terapeuta que acho que, desde que vale tudo menos tirar olhos, ou seja, Eu incito, acho que muitas vezes o que acontece nos casais, regra geral, não estou aí para os casos extremos, o que acontece nos casais é que as pessoas com medo de magoarem o outro ou de perderem o outro vão refriando muita coisa. Nessa muita coisa refreiam a sua própria agressividade. E atenção que eu não estou a falar de violência, estou a falar de agressividade.

Jorge Correia
25:25
Verbal.

Sílvia Baptista
25:27
Toda.

Jorge Correia
25:27
Mas há palavras que doem mais às tantas, mais do que um pontapé, não é?

Sílvia Baptista
25:31
É capaz, sim, mas tudo se trabalha.

Jorge Correia
25:34
Mas tu estimulas essa agressividade? Eu não estimulo. Estimulas a que haja um vislumbre dessa agressividade?

Sílvia Baptista
25:40
Se ela estiver refriada, sim. Se for esse o caso, sim. Eu não sou o tipo de terapeuta que dá trabalhos de casa ou que diz, agora não podem fazer isto, só podem fazer aquilo.

Jorge Correia
25:51
Há trabalhos de casa também?

Sílvia Baptista
25:52
Diz que sim, noutras orientações. Eu não trabalho assim.

Jorge Correia
25:55
Tu trabalhas ali?

Sílvia Baptista
25:56
Sim, para mim é o que acontece ali. E eu sirvo como uma mediadora, lá está, do que poderá não estar a ser dito. Da mesma forma, como eu trabalho no inconsciente do paciente individual, no casal há sempre um homem e uma mulher, dois homens e duas mulheres, e o casal, ou seja, o casal é em si um terceiro. É uma terceira entidade? É como se fosse uma terceira entidade, porque… E fala? Não, felizmente não fala, até agora ainda não falou. Falam os dois? Falam os dois, e há a individualidade de cada um, E depois há o modo como eles estão em casal. E isso não é sempre compaginável.

Jorge Correia
26:36
Olha, vamos fazer um momento de guerra dos sexos. De que se queixam elas? Estou a partir do pressuposto. Casal clássico, heterossexual, só por uma questão do padrão. Nada mais do que isso. Imagino que seja tudo igual. De que se queixam elas?

Sílvia Baptista
26:49
Olha, eu sinto que se queixam muito de uma carga mental tremenda. Sobretudo se houver filhos. De uma carga mental tremenda. às vezes não é tanto que o companheiro não faça, não é sobre fazer, é sobre estar no planeamento, é sobre elas sentirem-se de facto acolhidas nas suas várias facetas. E isto pode parecer abstrato, mas chegar mulheres ali na casa dos 40 que nos estejam a vir vão entender. felizmente nós já temos muitos homens que fazem a sua parte em casa, não é ajudar, é fazer a sua parte é assumirem a sua responsabilidade o seu lugar na família e aqui por família pode ser com ou sem filhos, mas há muitos homens que ainda não o fazem e eu acho que as mulheres estão muito cansadas disso também acho que aqui há uma questão que é, há mulheres que infantilizam muito os homens com quem estão casados

Jorge Correia
27:49
Tu não sabes fazer?

Sílvia Baptista
27:50
Eu é que sei fazer, eu não sei, ou então tipo engolem a raiva que têm, não é? Porque se há coisa que nós sabemos para quem está em casal é que a raiva aparece muitas vezes. Só que como nós achamos que a raiva é qualquer coisa que nós não podemos sentir, não a manifestamos. Se não a manifestamos, também não aprendemos a

Jorge Correia
28:08
trabalhá-la com o parceiro. Porque a raiva aleija.

Sílvia Baptista
28:12
Aleija, sim, mas quer dizer, o que é que não aleija na vida? A raiva não faz parte da vida.

Jorge Correia
28:16
Então e eles queixam-se de quê?

Sílvia Baptista
28:19
Olha, eu para ser franca ainda não percebi muito bem, porque também estamos a generalizar, não é? Não estamos a falar de um casal específico mas eu acho que o que nós vivemos hoje em dia nós costumamos, com a Joana no podcast costumamos falar sobre isto, porque nós mulheres, eu como mulher tenho 51 anos, eu sempre ouvi falar sobre, eu sempre conheci mulheres que falavam sobre o que é ser uma mulher, sobre os direitos das mulheres pelas piores razões porque eles durante muito tempo não existiam e hoje ainda é o que é, mas isto sempre existiu, obviamente pelas razões opostas, isto que os homens não era necessário e hoje em dia o que eu sinto é que os homens estão um bocadinho perdidos estão um bocadinho perdidos porque nós, enfim, já há alguns anos que saímos de casa e andamos a ocupar o nosso lugar fora de casa, somos muitas somos boas e somos competentes e este era um lugar tradicionalmente ocupado pelos homens os homens não ficaram nem menos competentes, não é isto podermos ocupar o nosso lugar não é retirar lugar, é só podermos pensar o que é que isto provoca, porque isto não é pacífico como nós temos estado a ver. E o que eu sinto é que os homens queixam-se de não compreender as mulheres. Porque eu acho que muitas mulheres também não se compreendem a si mesmas e acho que também às vezes há um excesso feminino perante o modo como tratam o masculino. E acho que os homens ficam assim um bocadinho, hoje em dia é o não se pode dizer nada, mesmo em casal, mesmo em casal, não se pode dizer nada, depois não compreendem as questões da menopausa ou as questões hormonais, que não é piada, têm mesmo um peso grande no nosso bem-estar e no modo como nós estamos em relação. Há homens que se queixam que a partir do momento em que há filhos na relação as mulheres ficam numa bolha de amor com os filhos que têm muita dificuldade em sair. Isto eu vejo também em consultório com pacientes mulheres. E portanto o que eu acho é que há um desencontro. E há muita falta de… Vejo muitos casais que não são amigos. Que não são amigos uns dos outros. Isso não é implícito? Não. Não? Não, não, não. As pessoas estão juntas por variadíssimas razões, não só por amor. Por conveniência? Também, por conveniência. Mas olha, eu posso dizer que dos casais mais complicados de se separarem não são os que estão juntos por amor. são os que o vínculo não é benigno.

Jorge Correia
30:49
Um vínculo económico, por exemplo?

Sílvia Baptista
30:51
Não, esse vínculo pode ser benigno nem que seja para um dos lados. Não, estou a falar de casais violentos mesmo, e aqui estou a falar mesmo de violência doméstica.

Jorge Correia
30:58
Isso tem a ver com o quê? Com dependência psíquica também entre um e outro?

Sílvia Baptista
31:02
Fazíamos aqui uma temporada de programas só a falar nisso, no que é que implica a violência doméstica, mas implica, assim, da maneira mais simplista que eu consigo arranjar agora, implica uma série de dependências, a maior parte delas inconscientes, um tipo de dependência e de vínculo que não é benigno nem para um nem para o outro.

Jorge Correia
31:22
Portanto, não é só uma questão que é criminal, como nós sabemos, não é só um problema social gravíssimo e que muitas vezes acaba num homicídio, o que é a coisa mais catastrófica que podemos pensar. O que me estás a dizer é que existem fenómenos implícitos e subconscientes que podem facilitar é que isso aconteça.

Sílvia Baptista
31:44
Claro, claro. Então, porque é que há casais que são violentos e outros não?

Jorge Correia
31:49
Olha, fala-me lá desse primo que é o inconsciente, do qual eu uso falar, mas que é muito difícil falar com ele, que é esse inconsciente. Como é que a gente fala com ele? Como é que a gente o ouve?

Sílvia Baptista
31:59
É mais isso.

Jorge Correia
32:00
Temos o consciente, a gente tem umas ideias sobre as coisas. E depois temos esse subconsciente que os precisam ir a falar, como essa entidade quase espiritual, quase o Espírito Santo da nossa mente.

Sílvia Baptista
32:12
Parece uma coisa mística, mas não é. De resto, as neurociências já há muito tempo que identificaram. Aliás, até os filósofos, muito antes até da psicanálise, já identificaram o inconsciente, mas deram-lhe outro nome. Quem é esse? Então, o inconsciente, nós na verdade identificamos o inconsciente na nossa psique. Na verdade, ninguém sabe onde é que é, mas sabemos que ele existe. Sabemos, sabia o Freud, sabe a psicanálise, sabe os cientistas, os neurocientistas. E que a questão não é tanto de falar com, mas de o ouvir e de o reconhecer. E acho que é uma tarefa que é útil a qualquer pessoa. Porque é no nosso inconsciente que reside uma série de informação que nos é útil e que nos ajuda a viver de uma maneira com maior clareza, mas também com mais bem-estar. Porquê? Porque uma grande parte dos nossos comportamentos, e aqui agora só estou aí para o comportamento, mas uma grande parte dos nossos comportamentos, as razões pelas quais nós sentimos o que sentimos, fazemos o que fazemos, estão alojadas no nosso inconsciente. Portanto, o meu trabalho é mexer no inconsciente, é trazer o inconsciente ao consciente e trabalhar essas questões a partir daí. E como é que isso se faz?

Jorge Correia
33:28
Faz-se como… Ou melhor, deixa-me recolocar a pergunta. o que tem de tão tenebroso e escuro esse inconsciente que se esconde tão bem do nosso próprio olhar eu a pensar com o meu próprio inconsciente o que é que ele tem de tão escuro? porque se ele fosse brilhante extraordinário e mágico e absolutamente formidável eu quero descobri-lo todos os dias

Sílvia Baptista
33:56
mas o que é que achas que ele só tem coisas escuras?

Jorge Correia
33:59
porque geralmente não é como é que Como é que dizem-nos, precisamos, nós tentamos enterrá-lo, não é? Quer dizer, tentamos escondê-lo, tentamos sublimá-lo, sei lá.

Sílvia Baptista
34:09
Sim, sim. Enfim, deixa cá ver como é que eu te vou responder a isto. Eu não acho que no inconsciente só tenha as nossas sombras. Tem muito disso. Mas não só. Repara, quando… Porquê que o inconsciente é inconsciente? Olha, não sei, não tenho uma resposta para isso. Faz parte da estrutura da nossa mente. Nós temos o consciente, o subconsciente e o inconsciente Portanto, o inconsciente ainda é mais abaixo do que o subconsciente

Jorge Correia
34:38
E a tu e que ferramentas é que nós temos para encontrar?

Sílvia Baptista
34:42
Temos, para já, pela conversa As pessoas acham, tu passas o dia todo O teu trabalho é fácil, passas o dia todo a falar com pessoas E dizem, eu passo, mas não é uma escuta nem uma fala banal são escutas e falas informadas pelo modo como nós podemos e devemos encontrar o nosso inconsciente do paciente e às vezes o nosso também, que às vezes também aparece. Também ressoa? Claro, claro. E isto vem como? Às vezes eu também faço atos falhos, às vezes eu também queria dizer mão e digo não.

Jorge Correia
35:18
E depois como é que tu lides com isso?

Sílvia Baptista
35:20
Olha, às vezes riu-me.

Jorge Correia
35:22
Já não vou ao exemplo extremo, quer dizer O Jorge é um chato, meu Deus, que já não tenho paciência para ouvir. Outra vez consulta. Isto é, eu acredito que tu tenhas pessoas pelas quais tu sentes empatia, simpatia, até fascínio. E tenhas algumas que, assim, outra vez arroz.

Sílvia Baptista
35:43
Quer dizer que tu até podes… Olha, eu vou-te dizer, já tive, já não tenho. Não sou capaz, eu vivo muito o meu trabalho. Eu não sou capaz de trabalhar com pessoas De quem eu não gosto

Jorge Correia
35:56
Então o que é que faz? Porque essa pessoa tem um sofrimento Claro

Sílvia Baptista
36:01
O facto de eu não gostar da pessoa não significa Que o sofrimento dela não seja legítimo Válido e deva ser acompanhado Mas não por mim

Jorge Correia
36:08
E tu e alguém não se sente rejeitado? Meu Deus, o meu problema é tão grande que até a minha psí Já não me aguenta

Sílvia Baptista
36:13
Eu tento dizer que acho que não sou a pessoa indicada Para a minha coisa em mim e é verdade Não sou a pessoa indicada para trabalhar com ela que lamento, que se ela quiser eu posso indicar outros colegas, mas que ali não. E eu acho que isto é muito mais digno e verdadeiro para as duas partes do que estar ali a dizer ai, lá vem este agora outra vez

Jorge Correia
36:37
Bom, então e como é que nós encontramos o tal do inconsciente ou do subconsciente?

Sílvia Baptista
36:41
Sonhos, a partir há muitas pessoas que normalmente não se lembram dos sonhos, sonham mas não se lembram dos sonhos. Isso é bom ou é mau? Não é bom nem é mau, é o que é. Mas depois entram em análise e ao fim de algum tempo, como nós estamos sempre a tentar, entre aspas, a puxar o inconsciente, começam a sonhar e começam a lembrar-se e começam a trazer os sonhos e se analisar. E atenção que os sonhos são analisados no contexto do paciente. Não é aquela coisa do, se eu sonhar com cobras, isto quer dizer não sei o quê. Não é isso. Os sonhos são colocados no contexto de cada paciente. Perceber, analisar um sonho é uma coisa muito complexa, porque os sonhos não têm uma narrativa linear, aparecem pessoas que nós não conhecemos, em sítios onde nunca fomos. Portanto, analisar um sonho nunca é, lá está, exatamente o que o sonho traz, mas é o que é que, por exemplo, aquela pessoa que aparece, o chefe aparece no sonho. Vamos lá perceber, este chefe é o chefe, ou o que é que ele está a representar aqui neste sonho? E o que é que este sonho representa neste contexto? É complexo, são coisas complexas. O chefe pode ser outra personagem qualquer? Pode ser um pai, por exemplo, os nossos chefes no trabalho, de um ponto de vista absolutamente simbólico, e na psicanálise falamos do simbólico e não da coisa em si, um chefe, os nossos chefes, são os nossos pais e as nossas mães no trabalho.

Jorge Correia
38:03
O que significa que algumas irritações que nós temos no nosso dia-a-dia podem ser, afinal, mecanismos de reação dentro de nós, de coisas que nós vivemos antes?

Sílvia Baptista
38:12
A outras pessoas. A outras pessoas.

Jorge Correia
38:14
Que não tem nada a ver com aquela pessoa

Sílvia Baptista
38:15
Não, regra geral não tem A questão, olha, eu tenho um truque que eu faço comigo Eu embirro contigo É isso, eu tenho um exercício que eu faço comigo Que é Se alguém me irrita brutalmente Estamos a falar de grau, se for uma irritaçãozinha Eu não me dou ao trabalho Mas se há alguém que eu conheço que me começa ali a irritar Eu tento sempre perceber O que é que há de mim naquela pessoa O que é que há de mim naquela irritação

Jorge Correia
38:42
Essa pergunta é difícil

Sílvia Baptista
38:43
É difícil, mas é um exercício, é um bom exercício de uma retórica pessoal que ajuda em muita coisa, que é, é aquela pessoa que me está a irritar, o que é que há nela que me irrita? E quando a gente começa a perceber o que é que há nela Que a irrita Vamos começar a encontrar pedaços De nós, da nossa história Eventualmente, por exemplo Quando eu faço trabalho em empresas E isto acontece muito Que é Pessoas que têm más relações com chefes Isto agora é totalmente estereotipado Mas é só para dar um exemplo Muitas vezes acontece Que uma má relação com o chefe Pode ser que não estou a dizer que o chefe não seja um parvalhão mas o chefe também pode ser às vezes é mas muitas vezes aquele chefe quando começa a pensar mas esta pessoa, este seu chefe faz-lhe lembrar alguém alguém que conheça que tenha mais ou menos estas características que reaja desta maneira que a faça sentir ou o faça sentir desta maneira e a pessoa começa a pensar o meu pai é um bocado assim e aí abre-se caminho ok então hipótese 1 será que isto não é sobre o chefe e é sobre o pai? E se essa conversa começar a aparecer várias vezes,

Jorge Correia
39:57
em vários sonhos, em vários momentos… E em várias conversas, em várias sessões… Começa a ter um padrão, tu começas a desenhar um padrão.

Sílvia Baptista
40:05
Começamos a perceber que se a pessoa trouxe aquela ideia de este meu chefe é parecido com o meu pai, porque me irrita desta, desta e daquela maneira, podemos pensar que então o problema não é só o chefe, nem é maioritariamente o chefe, mas é qualquer coisa que a relação com o chefe está a evocar na pessoa e que pertence, por exemplo, à relação com o pai

Jorge Correia
40:27
Então e como é que se cura isso?

Sílvia Baptista
40:29
Olha, eu não acho que a cura seja eu não acredito nas curas que isto não é assim a nossa mente não é uma coisa à preta e branca em que agora estou em sofrimento e daqui a bocado já não estou

Jorge Correia
40:42
Então como é que se aplina isso? Como é que se torna isso vivível no fundo?

Sílvia Baptista
40:45
Vivível. Eu acho que tornar as coisas conscientes fazermos ligações entre o que nos dói hoje e de onde é que vem essa dor podermos começar a contar uma história que já não é a história que nos contaram, mas é a história que nós entretanto fomos construindo sobre nós mesmos, dá um

Jorge Correia
41:07
alívio brutal. É um prisma diferente em relação à mesma história? É,

Sílvia Baptista
41:11
porque é o nosso prisma. Nós é que achamos, como somos nós, quando chegamos à terapia, como somos nós a contar a nossa história nós achamos que a história é nossa e uma parte há de ser Mas há muito dessa história, regra geral A parte da história que nos faz sofrer Que se calhar Uma hipótese, poderá não ser nossa Então se não é nossa, de quem é essa voz? De onde é que isso vem?

Jorge Correia
41:33
Olha, há um Um santo conceito Do qual eu gosto muito Que é o conceito do desejo

Sílvia Baptista
41:39
Ah, o desejo O desejo O desejo é o motor da vida O que é que é o desejo? Nós conhecemos o banal do desejo, não é? Os desejos mais

Jorge Correia
41:49
enfim, mais comuns. O que é o desejo?

Sílvia Baptista
41:52
Olha, em psicanálise nós falamos do desejo e da líbido e a líbido lá está também tendemos numa linguagem mais comum a associar a líbido à líbido sexual também está lá. O que é que é a líbido? A líbido é a força vital da nossa vida tal como o desejo é o motor da vida e nós depois vamos alocar a líbido a várias coisas à nossa relação, à sexualidade mas também ao nosso trabalho às relações com os outros eventualmente a um hobby, nós temos uma economia psique, a mente tem esta sabedoria que faz com que nós inconscientemente acabemos por decidir, eu nisto vou pôr esta quantidade de desejo ou de libido, nesta vou pôr esta quantidade e, por exemplo, aquelas pessoas que vivem para o trabalho têm a sua libido toda ou muito dela alocada ao trabalho. E isso é o que puxa a carroça, é o que puxa essa carroça. É o que nos empurra. É o que nos empurra, por isso é que eu Com os meus pacientes O meu intuito é sempre Perceber onde é que está o desejo do paciente

Jorge Correia
42:57
Muito que o desejo Não é na dor, é no desejo

Sílvia Baptista
43:00
É para onde é que eles querem ir Sim, é onde é que está O desejo desse paciente Porque muitas vezes, e eu acho que essa é uma das razões Pelas quais Nós estamos todos meio adoecidos Hoje em dia É porque não há falta, porque o desejo nasce da falta Se não houver falta

Jorge Correia
43:18
Da escassez. Eu não consigo ter e quero ter.

Sílvia Baptista
43:20
E quero ter. Ou eu não consigo sentir e quero sentir. Eu não consigo qualquer coisa e quero qualquer coisa. Isto é o que nos impele a ir atrás. E significa que podemos estar a viver uma apatia? Podemos e estamos. Podemos e estamos. Nós vivemos estes tempos em que de um lado do mundo há uma falta tremenda de uma série de coisas, mas aqui deste lado para o bem e para o mal e vê-se isto bem nas gerações mais novas nos miúdos mais novos basta pensarmos assim, nós devemos ter mais ou menos

Jorge Correia
43:52
a mesma idade. 55, portanto

Sílvia Baptista
43:54
eu estou a ganhar-te. 51, exato mas estamos aqui na mesma geração se tu pensares bem, quando nós começámos a ter os primeiros namorados ali na adolescência aquilo era uma loucura começávamos a dar, aquilo era uma loucura a gente entrava, eu lembro-me vi uma porta aberta de um prédio entrava lá para dentro, amassos tudo e mais alguma coisa não havia casas para onde a gente ir a gente vivia o desejo de uma forma muito crua muito espontânea muito no corpo os miúdos hoje em dia não só têm casas para onde podem ir porque os pais trabalham horas a fio depois os tempos são outros e eles têm telemóveis comunicam-se a toda hora quantas vezes é que tu ficaste à espera de um telefonema ao pé do telefone, de um telefonema que não chegou

Jorge Correia
44:39
nem havia telefone

Sílvia Baptista
44:39
nem havia telefone Portanto, tudo isto Acicata muito o desejo Neste caso eu estou a falar de um desejo amoroso Erótico, sexo sexual Mas, por exemplo, eu lembro-me que no meu tempo O trabalho que havia não tinha a graça do trabalho de hoje E, portanto, eu tinha que ir atrás Havia muito menos Eu tinha que dar ao pedal E impele-nos à ideia da conquista Sim, também E da realização Também, mas acho que, sobretudo Impele-nos à ideia de prazer que é uma coisa, é outro dos conceitos que hoje em dia de facto está muito… Não está, o prazer não é o prazer. O prazer, eu falo no prazer como qualquer coisa destrutural, qualquer coisa que é quase um valor importante na nossa vida, que é eu na minha vida, eu quero ter prazer, não é? Hoje em dia o prazer é uma coisa excitatória, é um fogacho. É uma coisa que serve para eu me chitar nesta intensidade deste momento e depois vou para casa e pronto parece que nos tiram a pilha desligam-nos da ficha e a gente fica ali até precisarmos de outro lugar a santa dopamina exatamente

Jorge Correia
45:49
eu vou vici-me, vou ver um sítio, faço umas fotografias aquilo já me passa e eu a seguir já estou a pensar em outra coisa qualquer ou noutro objeto

Sílvia Baptista
45:56
noutra forma de ter a mesma a mesma excitação e isto é tudo muito vazio

Jorge Correia
46:04
tenho uma curiosidade muito específica para te ouvir, que é tu que és uma mulher das palavras e da escuta e que estás à procura de fazer padrões e de encontrar o que é que faz com que aquela pessoa sofra ou deseje e o silêncio?

Sílvia Baptista
46:20
Ah, o silêncio é fundamental. O silêncio é fundamental. Se a pessoa fica calada? Se a pessoa fica calada, é sinal que alguma coisa nela está a elaborar e então é deixá-la ficar. E não é uma ansiedade?

Jorge Correia
46:35
Para a pessoa, quer dizer, para ti também alguma coisa ou não?

Sílvia Baptista
46:37
Olha, isso é das coisas em que nós somos muito treinados a sustentar o silêncio, porque o silêncio fala muito alto. Ficas daquela hora à espera que aconteça qualquer coisa? Claro, claro. O tempo que for preciso? O tempo que for preciso. O tempo que for preciso. Se eu sentir que a pessoa não está bem, para alguma razão, obviamente intervenho. Mas eu acho que o silêncio é… A ausência do silêncio é outra das razões pelas quais nós hoje em dia vivemos muito

Jorge Correia
47:08
ansiosos. Há uma barulheira?

Sílvia Baptista
47:09
Uma barulheira tremenda. Uma barulheira tremenda. E é preciso sustentar o silêncio. Há pessoas que o único sítio onde encontram silêncio é a anoterapia. E precisam muito disso. Eu, por exemplo, olha, eu quando saio de casa eu preciso absolutamente de silêncio. Porque o meu dia é muito cheio do outro.

Jorge Correia
47:28
E vais de carro e vais simplesmente

Sílvia Baptista
47:31
a pé, sem ouvir nada. Sem nada. E preciso mesmo. E quanto mais velha mais sinto que precise de silêncio. E com os pacientes, a mesma coisa. Se o paciente está em silêncio, é porque ele precisa daquele silêncio. E, portanto, mais uma vez, a não ser que eu note que alguma coisa não está bem, eu vou deixá-lo com o silêncio dele. E isto é uma coisa que também se treina.

Jorge Correia
47:55
Tenho a ideia de que estamos todos a fugir muito do silêncio, daquele momento em que ficamos sozinhos connosco próprias.

Sílvia Baptista
48:02
É, estamos a fugir do silêncio porque, Para muitas pessoas o silêncio é um vazio enorme. E para muitas outras pessoas o silêncio traz as nossas zonas sombrias e as nossas angústias que nós nos ocupamos durante o dia a esconder muito bem. Ainda para outras pessoas o silêncio é de tal forma doloroso que se anestesiam. E hoje em dia a contemporaneidade tem muitas formas de anestesia. a começar, desde logo, por estar anestesiada. Já nem vou ao telemóvel. Já nem falo de telemóveis de redes sociais. Mas abre o frigorífico e come. Para compensar? Para compensar, claro. Mas repara, todos nós precisamos de compensar até certo ponto porque ninguém aguenta tanta verdade, ninguém aguenta tanta realidade. A questão é nós sabermos que estamos a compensar e que aquele bolo que nós estamos a comer porque estamos ali um bocado aflitos e também que ser não seja a única forma de regulação, não é? Porque quando isso se torna o que quer que seja, uma forma de regulação, aí podemos estar a falar de coisas complicadas quando é pontual. É uma compulsão

Jorge Correia
49:16
no fundo, quer dizer, estamos sempre a fazer a mesma coisa ou a compensar que um…

Sílvia Baptista
49:20
É uma compulsão no sentido em que nós tornámos-nos compulsivos em não nos sentir em não estarmos connosco mesmos e é para isso que a terapia também serve e é por isso que o silêncio e a inoterapia também serve

Jorge Correia
49:32
e se sentirmos a dor é normal e devemos no fundo se sentir ela e estar aí ela está cá e aguentamos a palavra vulnerabilidade fascina-te ou irrita-te profundamente estou a ouvi-la muito aqui lá está nos ambientes hipercompetitivos podemos olhar para os futebóis, para as empresas que é mostra-me a tua vulnerabilidade

Sílvia Baptista
49:55
não é? olha, a mim irrita-me um bocado não o conceito em si o conceito em si é eu acho que fundamental para nós podemos ter uma vida em que não andamos sempre a olhar por cima do ombro só que lá está, as pessoas também falam muito sem saber, porque o que elas não sabem é que pedir a alguém que se torne vulnerável implica que a pessoa que está a pedir para já isto não é uma coisa que se peça, mas pronto arranjar ou ter um contexto ter ali um quentinho para a pessoa se sentir vulnerável constrói-se, constrói-se na confiança constrói-se na relação não é tipo como a gente às vezes vê naquelas coisas tipo aqueles gurus de autoajuda não, e as pessoas todas a chorar, porque aquilo é muito excitatório, obviamente, e aquilo e as pessoas estão frágeis portanto eu compreendo as pessoas mas exortar as pessoas à vulnerabilidade, para aquilo depois servir para uma coisa narcísica de quem exorta a vulnerabilidade. Eu sou muito bom que fiz chorar, o que dizem os teus olhos.

Jorge Correia
51:01
Portanto, não deve ser pedido. Deve ser uma coisa que deve ser dada à possibilidade de que isso possa acontecer.

Sílvia Baptista
51:08
Decorre da relação, normalmente. Se calhar, se nós estivéssemos aqui três ou quatro ou cinco horas ou três semanas a falar, algum de nós se ia vulnerabilizar se encontrássemos um no outro um espaço de acolhimento para isso. Se começássemos a simpatizar um com o outro, a perceber, este tipo até tem umas coisas em comum com mim, este tipo, na nossa cabeça, este tipo parece um bom tipo. Paulatinamente, se calhar ou tu ou eu íamos começar a largar algumas coisas da nossa história.

Jorge Correia
51:40
E implica confiança?

Sílvia Baptista
51:42
Claro, sempre, sempre. Até para nós podermos vulnerabilizar-nos, deprimir-nos, entristecermos, até para isso é preciso haver lá uma mão que nos agarre, que não nos deixe ir ao fundo. e portanto pedir a alguém para se vulnerabilizar é um contrassenso em termos

Jorge Correia
52:03
já que estamos a falar de dar a mão tu também lhes o gesto a maneira como o corpo se move

Sílvia Baptista
52:11
sempre sempre, aliás e acho que hoje em dia eu não consigo conceber como é que se faz terapia e aqui também sou um pouco crítica em relação à psicanálise e sobretudo à psicanálise mais clássica eu não consigo entender como é que se pode trabalhar com pessoas e não colocar o corpo na sessão, digamos assim o que é que isto quer dizer? quer dizer que não há uma divisão entre corpo e mente nós somos pessoas, não há pessoas sem corpos nem corpos sem uma pessoa lá dentro e portanto, às vezes até os barulhos que a barriga, que o estômago faz A pessoa começa a ir ali Para qualquer coisa mais doloroso Ou para o foco do tema que ela traz O corpo começa a dar sina Ela começa a mexer-se ou no divã ou na cadeira O corpo começa a fazer barulhos Começa a coçar-te Tudo isto faz parte Tudo o que acontece no setting terapêutico No consultório Tudo isso é informação clínica Tudo

Jorge Correia
53:14
E vai juntando tudo isto para tentar fazer um quadro geral

Sílvia Baptista
53:18
Vou tentando Obviamente para formar um pensamento mas muitas vezes para devolver ao paciente do género ficou às vezes usou o humor um bocadinho para parece que toquei num ponto ou parece que tocou aí num ponto até o seu estômago parece que está a dizer coisas

Jorge Correia
53:38
E vais fazendo esse jogo em função de perceber se aquela pessoa te abre mais espaço ou menos espaço ou estou a pensar que o humor pode ser uma ferramenta maravilhosa ou desgraçada

Sílvia Baptista
53:46
Sim, não faço não é a punchline não é? usar uma linguagem menos carregada como esta do até o seu estômago está a querer dizer coisas

Jorge Correia
53:59
a despressorizar

Sílvia Baptista
54:01
exatamente embora às vezes estou a dizer isto mas ao mesmo tempo estou a pensar sim, mas há tensões que têm que ser vividas

Jorge Correia
54:09
nós estamos neste exato momento a gravar aos 50 minutos que é a hora dos precisos e para fecharmos aquele momento em que tu dizes Obrigado, a consulta terminou E a pessoa ia naquele exato momento Dizer a sua mais absoluta verdade Que se acabou de ocorrer E diz, mas eu ainda quero dizer aqui mais qualquer coisinha O que é que tu fazes? Prolongas? Ou dizes, não, não, isto agora é só para a semana?

Sílvia Baptista
54:40
Depende Sabes que quando os pacientes Há pacientes que fazem uma coisa muito engraçada que é, às vezes estão ali parece que estão a enganhar a sessão toda e depois chegam ao fim e largam uma bomba, assim tipo, ah, já me aconteceu, levantei eu vou levar a pessoa à porta, eu digo sempre ficamos por aqui hoje, a pessoa não vai, vou levar à porta, isso, ai é verdade ela não me disse isto também não iria revelar, mas qualquer coisa do género ai é verdade, fui ao médico ele disse-me que eu tinha cancro, mas depois falamos na próxima sessão qualquer coisa assim do género, não foi cancro doença igualmente grave e eu fiquei completamente sem chão, nesse caso eu disse, não, pera lá só quer que me responda uma coisa, como é que está e a pessoa começa a, porque ela na verdade ela não queria falar sobre isso, ela queria que eu ficasse com ela durante aquela semana em que ela não está

Jorge Correia
55:44
no fundo delegou em ti a carga daquela notícia

Sílvia Baptista
55:49
É assim, os pacientes têm várias fantasias sobre os seus trapeutas, que é normal, eu também tenho com o meu. Uma delas é que… Como é que é isso? O que são fantasias? Calma, são fantasias, dessas também que tu estás a pensar. Mas a fantasia que, será que quando eu me vou embora o meu analista pensa em mim durante a semana?

Jorge Correia
56:09
É uma boa pergunta.

Sílvia Baptista
56:10
Não é? e muitas vezes quando os pacientes não se fazem esta pergunta, mas agem esta pergunta que é, largam a bomba no final da sessão, para quê?

Jorge Correia
56:22
Que remédio tem ela para ficar a pensar em mim?

Sílvia Baptista
56:24
Exatamente, exatamente

Jorge Correia
56:27
Então, e para fecharmos

Sílvia Baptista
56:28
a nossa conversa

Jorge Correia
56:30
como é que tu consegues arrumar a tua cabeça quando passas a semana inteira a ouvir dores e sofrimentos de outras pessoas que de alguma maneira transferem para ti?

Sílvia Baptista
56:44
Olha, eu só vejo a minha solução falando das soluções básicas e práticas de vou passear com as minhas cadelas, tenho amigos tenho um namorado mas eu acho que só há uma coisa que cura tudo há haver uma cura para o que é que seja só há uma coisa que é o amor é o amor ao outro o amor ao humano e depois os micro-amores, os amores dos amigos os amores do marido, os amores das cadelas que são amores filiais é o amor é que cura tudo é o amor que nos salva? sem dúvida, sem dúvida, não há outra cura

Jorge Correia
57:18
comecei esta conversa à espera de falar sobre psicanálise e saí a pensar em amor acho que é isso que as melhores conversas fazem levam-nos a um sítio que não estávamos à espera de chegar se esta conversa vos tocou partilhem com alguém que acham que precisa de ouvir é a forma mais simples de apoiar este projeto até à próxima semana

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