Como Salvar o Mundo? Rui Zink

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Como Salvar o Mundo? Rui Zink
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Há uma cena no Clube dos Poetas Mortos que o Rui Zink não consegue largar. Não é a cena em que os alunos sobem às mesas. É uma cena de sala de aula em que o professor pergunta a cada aluno para onde vai – gestão, engenharia, medicina – e depois diz: tudo isso são profissões magníficas que vos ajudam a viver. Mas a poesia, a paixão, o amor, a alegria de ir errando por aí — essas são as razões pelas quais vale a pena estar vivo.

Rui Zink contou esta história quase no fim de uma conversa de cinquenta minutos sobre crueldade, ironia, inteligência artificial e condição humana. Contou-a como quem não consegue deixar de a contar. E nesse momento percebi que aquela cena diz mais sobre ele do que qualquer pergunta que eu lhe pudesse fazer.

Ele nasceu em 1961, em Lisboa, e escreve desde 1986. Quarenta anos de livros que vão do romance ao teatro, da ficção científica à literatura infantil. A sua obra está traduzida para vinte línguas. O Manual do Bom Fascista esgotou salas. O novo livro chama-se Olga Salva o Mundo – e já no título está tudo o que é preciso saber sobre como ele vê o presente: com humor, com seriedade, e com a suspeita permanente de que as duas coisas são a mesma coisa.

A primeira coisa que disse quando lhe perguntei se era optimista foi “nim”. Como a maior parte das respostas interessantes, esta exige que a pessoa pense antes de responder. Por um lado, disse, há quem diga que ser optimista hoje é ser idiota. Por outro lado, sem optimismo não nos levantamos da cama. A solução que encontrou tem nome próprio: optimista informado. Tentar ter uma atitude positiva perante a vida — não porque o mundo seja bom, mas porque é um melhor método do que o contrário. O optimismo não impede que o elefante caia em cima de nós. Mas não desajuda.

Este equilíbrio entre lucidez e esperança atravessa tudo o que diz. E é também a razão pela qual o humor, na sua obra e na sua vida, não é decoração. O humor, para o Rui Zink, é uma forma de ver, não de fugir. É o instrumento que ajuda a separar o essencial do acessório. O problema, diz ele, é que o sarcasmo é outra coisa. O sarcasmo é quando a maldade já superou o humor e a pessoa ainda acha que está a ser engraçada. É uma das frases mais certeiras que ouvi sobre o tom dominante das redes sociais, e foi dita com a leveza de quem já pensou muito no assunto.

Porque o Rui Zink pensa muito no assunto da crueldade. Não a crueldade de faca e sangue, a outra. A que não precisa de corpo, nem de confronto directo, nem de intenção declarada. A crueldade que se esconde atrás de uma piada, de um post, de um silêncio calculado. O livro novo parte exactamente daí: pessoas perseguidas por razões quase absurdas, numa versão do mundo que é apenas ligeiramente mais exagerada do que o mundo real. Quando lhe perguntei se era uma distopia, respondeu sem hesitar que não. É observação.

Há uma história que contou a meio da conversa que ficou. O avô foi preso em 1938 pela PIDE, não por ser comunista, mas por saber contar dois mais dois. A família ficou sem rendimento, com duas crianças pequenas e uma esposa que era mais prisioneira do que ele. Quando a mãe morreu, o Rui Zink perguntou a uma amiga dela de noventa anos como é que tinham sobrevivido. A resposta foi simples: havia muita solidariedade. E então veio a parte que não esperava — as mesmas pessoas que tinham denunciado o avô foram algumas das que depois ajudaram a família. O mesmo bairro que o mandou para a prisão foi o bairro que protegeu os filhos.

Não é uma história de redenção. É uma história sobre a condição humana, que não é boa nem má, mas as duas coisas ao mesmo tempo, às vezes nas mesmas pessoas, às vezes no mesmo dia. Somos capazes das coisas mais belas e do maior oportunismo, disse. E acrescentou, com aquele sorriso que tem quando está a dizer algo que parece piada mas não é: “Ainda tenho o sonho de um dia me estar a afogar e o André Ventura saltar para me salvar. Ficaria grato.

Quando chegámos à inteligência artificial, o tom mudou. Não de assunto, de urgência. A metáfora que usou foi brutal: estão a fazer-nos como os gansos, a enfiar-nos comida pela goela com uma pá para o fígado virar foie gras. A IA está a ser vendida como droga às portas das escolas, já está dentro. E o que está a roubar não são empregos nem dados. Está a roubar a atenção, a reflexão, a capacidade de concentração. Está a apagar a luz interior, disse. E depois foi ao cinema ver o Clube dos Poetas Mortos com o Diogo Infante, e havia sempre alguém a consultar o telemóvel no meio da peça. Não por má-fé. Por já não ter capacidade de concentração. “Têm que ir buscar a chucha.”

É aqui que as cadeiras da treta entram. Português, música, desenho — as cadeiras que os pais tratam como acessórias são exactamente as que ensinam a razão pela qual vale a pena estar vivo. A poesia não serve para arranjar emprego. Serve para outra coisa. Serve para o piquenique no jardim, para as belas canções, para o I love you dito sem razão especial a não ser que é verdade.

No fim, perguntei-lhe o que era uma vida boa. Pensou. Disse que uma vida boa é aquela em que as coisas boas superam as maleitas. E depois acrescentou que uma vida boa só sabe ser boa quando termina. Usou a imagem de uma moeda: quando uma face está virada para cima, a outra não desaparece. Vivemos num tempo em que a face feia está virada para cima — um tempo de crueldade, de alegria com crueldade. Uma vida boa não é aquela em que essa face desaparece. É aquela em que não nos esquecemos que a outra existe. E que um dia vai ficar para cima.

Não sei se o mundo se salva. O Rui Zink também não sabe. Mas suspeito que a pergunta, feita com seriedade suficiente, já é parte da resposta.

A conversa completa com Rui Zink está disponível no Pergunta Simples.

Ler transcrição completa

Rui Zink
00:00
Ser útil é um privilégio e quem pode ser útil deve tentar sê-lo, mas nós não viemos à vida para ser úteis. E são os robôs. Nós viemos à vida para dar alegrias aos nossos pais, para dar alegrias aos nossos filhos e para darmos alegrias a nós próprios, aos nossos amigos. Usufruir, portanto, é essa a condição humana? A lição dos Beatles. Um piquenique num jardim enquanto ouvimos belas canções e dizemos I love you.

Jorge Correia
00:27
Pergunta simples. Um programa sobre comunicação. Para quem quer boas respostas. Hoje recebemos no Pergunta Simples o escritor Rui Zink. E faz sentido que ele passe por aqui porque Rui Zink escreve há décadas sobre aquilo que muitas vezes está escondido por detrás da comunicação. Os nossos medos, as nossas contradições, os nossos preconceitos, a necessidade de pertencermos a um grupo, a maneira como usamos o humor para nos protegermos e até a forma como falamos uns com os outros sem realmente nos ouvirmos. Romancista, professor universitário e ensaísta é uma das vozes mais originais da literatura portuguesa contemporânea e acaba de lançar um novo livro, Olga Salva o Mundo. Um título que parece uma provocação otimista, mas que também serve de ponto de partida para uma conversa sobre o mundo que estamos a viver. E esta é uma conversa curiosa, porque começa no humor, mas rapidamente percebemos que estamos a falar de uma outra coisa, muito mais séria. Falamos sobre o medo, sobre o pequeno lado mesquinho que todos temos cá dentro, sobre as redes sociais, a inteligência artificial, o trabalho, a identidade portuguesa, o 25 de Abril, a literatura e aquela pergunta que tantas vezes evitamos fazer a nós próprios. Afinal, estamos a viver ou apenas a funcionar? Ruizinho tem uma característica rara. Ele consegue dizer coisas duras sem perder a ternura e consegue usar o humor não para fugir da realidade, mas para olhar diretamente para ela. A certa altura, diz uma frase que me fez levantar a orelha. Ser útil é um privilégio, mas nós não viemos à vida para ser úteis. E talvez esta conversa seja precisamente sobre isso, sobre as razões pelas quais vale a pena estar vivo. Uma conversa com humor, alguma melancolia, várias provocações e muitas ideias que continuam connosco depois deste episódio acabar. Se ainda não subscreveu o Pergunta Simples, basta clicar aí na aplicação onde me está a escutar agora e assim os próximos episódios aparecem automaticamente no telemóvel. Eu sou Jorge Correia e este é o Pergunta Simples com Rui Zinck. Viva! Rui Zinck, escritor, professor, alguém que se dedica toda a sua vida a escrever sobre coisas sérias, de uma maneira divertida e com sentido humor até que descobrimos que afinal estás a escrever sobre nós. E esse é o momento em que nós ficamos preocupados. E deviam ficar.

Rui Zink
03:04
Porque o que eu tenho para dizer não é bonito. Tu és um otimista? Quero dizer, a resposta é a mim, como a maior parte das respostas interessantes em que uma pessoa pensa antes de responder. Por um lado, hoje em dia, há quem diga que ser um otimista em dia é ser um idiota. Por outro lado, sem otimismo nós não nos levantamos da cama. Eu sou um otimista informado. Tento ter uma atitude positiva perante a vida, embora muitas vezes não pareça, apenas porque acho que é um melhor método do que ter uma atitude negativa. Quer dizer, ter uma atitude positiva não nos impede de levar um tiro ou com um elefante em cima ou sermos despedidos ou de repente o médico dizer-nos que aquele final é mais grave do que pensávamos mas não desajuda eu acredito que o ter uma visão positiva ou otimista sobre a vida alegre se possível, humorada o ver a vida como uma brincadeira sobretudo as coisas sérias acho que nos ajuda a viver.

Jorge Correia
04:13
Portanto não é uma tática não é uma estratégia, é uma forma. É um método. Eu chamaria um método. E se tu olhares para estes dois polos, sobre aquilo que mais te diverte e aquilo que mais te angustia, onde é que estão estas duas balizas?

Rui Zink
04:30
O que mais me angustia são coisas muito concretas que são aquelas que, em princípio, angustiam qualquer ser humano sensato, que é, de certo modo, o mal dos seus, sobretudo os filhos. Portanto, isso é a angustia. Quem decide ser pai, não sei se tu decidiste… duas vezes, acaba a nossa vida e começa outra. Pois, acaba a nossa vida e começa outra e passamos a ter para o resto da vida uma espada de dâmocles. E o que acontece é que é uma coisa lindíssima, mas esse é evidente que é… A minha visão trágica da vida implica sempre coisas que não se podem alterar e que acontecem cedo demais. Se acontecem tarde, já não é… Já não é tragédia comédia. Já é estatística. O resto das coisas raramente me incomodam. Eu sou uma pessoa que fica muito estressada em situação. Ou seja, eu fico estressado em qualquer situação. Em três segundos eu vou apanhar um comboio e fico estressado. E geralmente, como eu me conheço há muitos anos, para evitar essa pressão, eu saio três vezes mais cedo do que uma pessoa normal sairia.

Jorge Correia
05:41
Queres para estar descansado à espera do comboio?

Rui Zink
05:43
Para estar descansado. Mas, tirando isso, não fico como algumas pessoas que eu conheço ficam a achar que é o fim do mundo se perde em um autocarro. Quer dizer, eu tento ter uma noção e acho que aí o humor, que não é ter graça, o humor é simplesmente uma atitude perante a vida, uma visão, acho que ajuda a perceber, a conseguir perceber aquilo que o Pacheco Pereira diria melhor que eu, que é separar o acessório do essencial. Mas isso é difícil, não é? É, o Pacheco Pereira nem sempre consegue. Mas vá lá, eu consigo. Não, não só é difícil como é impossível, porque a vida está-nos sempre a dar escolhas e qual é que é o acessório e qual é que é o essencial. Aliás, os governos hoje em dia colocam-nos escolhas que é viver para trabalhar ou trabalhar para viver. E há quem ache que nós vivemos para trabalhar e há quem acho que trabalhamos para viver. E tu? Eu acho que trabalhamos para viver.

Jorge Correia
06:46
Portanto, somos escravos no fundo daquilo desta mecânica toda que está aqui à nossa volta.

Rui Zink
06:50
Não acho que somos escravos. Acho que há uma luta contínua entre as pessoas que acham que ser útil ao país e aos outros e à pátria e à Europa e ao planeta é bom. E eu acho que sim. Acho que é um privilégio ser útil porque conheço gente incrível e fantástica que infelizmente não se pode permitir o luxo de ser útil Portanto, ser útil é um privilégio E quem pode ser útil Deve tentar sê-lo Mas nós não viemos à vida para ser úteis E são os robôs Nós viemos à vida para dar alegrias Aos nossos pais Para dar alegrias aos nossos filhos E para darmos alegrias a nós próprios, aos nossos amigos Usufruir, portanto, é essa a condição humana? A lição do espírito Um piquenique num jardim Enquanto ouvimos belas canções E dizemos I love you

Jorge Correia
07:37
E que tu estava tudo perdido até que tu decidiste escrever um livro que está aqui na minha mão que diz, e isto aqui é que é uma promessa que eu espero que tu cumpras Olga salva o mundo Bom, quero conhecer esta Olga

Jorge Correia
07:50
O que é que diz a Olga?

Rui Zink
07:52
A Olga é uma pessoa maravilhosa que gosta de pessoas, ao contrário de muitas pessoas e é uma mulher que se vai descobrindo que vai aprendendo a ser mulher Primeiro acha que não é tão boa como as outras Depois descobre que Os melhores seres humanos Nunca se acham tão bons como os outros Porque tem a noção da realidade E porque quando uma pessoa É sempre sensato Nós termos Um bocadinho mais de crítica sobre nós Do que sobre os outros

Jorge Correia
08:26
Se vou olhando para as redes sociais Parece-me que é um bocadinho ao contrário Vejo muita gente cheia de si

Rui Zink
08:31
É, mas graças a Deus só nas redes sociais Porque quando acabaram de colocar o seu posto a dizer a cascarem alguém, vão chorar. Ficam deprimidos. São todos os mais maldosos. Aqueles que andam em pesados. Porque as redes sociais, eu espero não chegar o dia em que eu diga mal das redes sociais. Porque seria o dia em que eu diria mal da rua. Eu gosto da rua.

Jorge Correia
08:55
Tu gostas daquele fervilhar e daquilo que lá está escrito apesar da maneira, do tempo e do modo como nós todos

Rui Zink
09:04
estamos a usar as redes sociais. Sim, eu apesar de tudo tento não confundir, como é que era a bocado, o essencial com o acessório, obrigado Pacheco Pereira, e portanto eu tento não confundir o mau uso das redes sociais por demasiada gente com o facto de as pessoas poderem falar umas com as outras, sobretudo quando estão às vezes a distâncias físicas grandes, de isso ser mau. Ou seja, eu acho que tudo o que seja rua é bom. E aqui eu tenho uma posição diferente, porque há sempre pessoas de posições diferentes, de pessoas que eu respeito muito, mas que por terem uma posição diferente da minha e eu ter uma posição diferente da delas, eu acho que elas estão erradas e eu estou certo. Que é aquelas pessoas que há muito no meu meio, o meio das pessoas da cultura… Dos intelectuais, vá. Dos intelectuais com algum poder. dos intelectuais que têm acesso a ser entrevistados aqui para a pergunta simples.

Jorge Correia
10:05
O que tu estás a dizer é que há uma

Rui Zink
10:07
elite, há uma casta. Há uma elite, há uma casta, ou infelizmente é uma casta que se agasta, mas que quando está num certo poleiro, seja rádio, seja jornal, seja televisão, começa a dizer mal da ralé, começa a dizer pois, esta gente toda, agora todos têm opinião, o que essa pessoa muitas vezes julga que quer, é que quer que alguém tenha uma opinião douta. Só que infelizmente confunde a sua douta opinião com a sua opinião. Mas isto é uma espécie de fascismo também, não é? É uma espécie de parvoeira acima de tudo. Mas eu, por exemplo, eu gosto de dizer nomes das pessoas até porque isto é público depois mas, por exemplo, já várias vezes o Miguel Sousa de Davares falou contra a escória das redes sociais o Ricardo Aruz Pereira dá-se à luz de não pôr-os, não sabe nada do que se faz nas redes sociais, mas depois vêm-te sempre dizer. As pessoas importantes são um bocadinho como Salazar, tem a sua pide. Portanto, não precisam de ir às redes sociais e informar-se do que dizem delas, porque vai sempre um buff qualquer ou alguém que quer prestar serviço dele. Olhe, ouvi dizer porque eu já os ouvi responder a coisas que os atacam nas redes sociais. E são muito específicas, e percebem e sabem exatamente. E é específico. No outro dia houve um indivíduo no Instagram. Portanto, é um barão que diz eu tenho aqui uma quinta mas eu nunca sujo as mãos a apanhar as cenouras. Claro que não, tem criados, tem servos. Mas o que eu não gosto e o Ricardo e o Miguel que eu aprecio muito, os dois, vieram à baila por isto, porque mesmo quando eu gosto das pessoas, topo-lhe os defeitos. Eu gosto da minha mulher mas sim, topo-lhe os defeitos. E aqui que ninguém nos sabe ouvir tem mais do que um. Quer dizer, que eu sei, eu topo-a. Mas a questão é esta. O facto de gostarmos das pessoas não significa pôr-nos numa veneração porcelana. E, portanto, um calcanhar daqueles, de figuras como estes dois, ou como o Pacheco Pereira, já falámos dele a terceira vez, ou como muitos outros, é que desdenham, desdenham do povo, desdenham de quem emita opinião nos Facebooks da vida, porque eles estão no castelo da crónica paga. E eu vejo muita gente que há uns anos estava no cristal do crônico apaga e que agora está no Facebook e às vezes a pôr coisas giras. Eu até posso dizer nomes. Por exemplo, uma pessoa que foi diretora do Centro de Arte Moderna, catedrática da Universidade, uma das maiores especialistas portuguesas em Fernando Pessoa, em Poesia e Alquimia, uma das grandes intelectuais vivas dos anos 60, 70, 80, 90, agora está no Facebook. Porquê? porque já está reformada já não está no Castelo da Crónica paga. E portanto tem, cria o seu espaço e diz o que pensa. Sim é um bocadinho como o Júlio Isidro, já não está na RTP1 mas de vez em quando ainda vai a RTP2 ou a RTP Memória diz o que pensa e pensa sempre muito bem

Jorge Correia
13:11
Adorei conversar com ele há um par de semanas e foi uma conversa absolutamente extraordinária. Eu tudo o que eu se possa

Rui Zink
13:19
dizer do Júlio de Bom é certo Há muitos anos Já tive a oportunidade de lhe dizer O Franco Sinatra da televisão Porque nunca falha Nunca falha, faz tudo com uma simplicidade E uma clareza E eu não senti que ele estivesse num castelo

Jorge Correia
13:36
É isso que é curioso Eu senti-o como um de nós

Rui Zink
13:41
E mais Posso dizer aqui em segredo Esse um de nós está no Facebook Ou seja, está Nas redes sociais Como está a maravilhosa Anabola como está a lenda de águas isto é, pessoas que agora já não estão no castelo ou da Crónica Paga ou do programa de TV Pago ou disto ou aquilo como continuam a gostar dos outros continuam mesmo quando já não estão ali a fazer o que fazem e isso eu gosto, eu gosto da pessoa que tem de estar na taberna a tratar os outros por tu como está aqui na antena 1 a fazer a mesma coisa Eu tenho uma visão muito horizontal da vida Que é ninguém está acima de ninguém E muitas vezes o desdém contra as redes sociais Onde há de facto horrores e alinchamentos E onde pessoas que antigamente não tinham microfone E vomitam por aí ódio É verdade, e sobretudo o ódio é ameçado Quando estão mascaradas a dizer Não sabemos o que é

Jorge Correia
14:44
Mas já agora é um fenómeno que não é só uma azia, um jogar ou alguém que acordou num dia especialmente parvo, o que me parece é que são movimentos conjugados de matilha para produzir esse tipo de conteúdo

Rui Zink
15:00
Isso também existe e esse é um mau uso ou seja, isto tem a ver com aquela expressão que é o poder não pode cair na rua que salvou erro foi o que disse Marcelo Caetano quando exigiu um general o general Spindler como interlocutor para aceitar aceitar ser deposto. Para garantir uma ordem no fundo. Não queria ceder o poder a um qualquer lugar de tenente, ou sargento, ou furrial. Tinha que ser alguém que é um general. E aconteceu isso. E os capitães de Abril forneceram ao ditador vencido, ao Marcelo Caetano, forneceram-lhe um interlocutor que ele exigia e não lhe tocaram nem num só cabelo. É evidente que aqui há pessoas maldosas que dirão claro, o Marcelo Caetano era careca. Não, mas a questão é, não tocaram em nenhum cabelo nem no Marcelo Caetano, nem do Américo de Más. Pois, mas o Américo de Más também era careca. Ok, não me estraguem a porcaria do argumento. O que eu estou a dizer é que uma das coisas mais bonitas do 25 de Abril daquele dia, que eu vi com os meus olhos de criança que ia fazer 13 anos, dei um mês. Estavas onde? Já eras um jovem adolescente. Eu era um jovem de Alexandre, ainda não era um Tine. Estava a passar para Tine. E onde é que tu estavas? Eu estava mesmo por cima do Recio, que era onde eu morava. Eu morava na Calçada de Santana, na Pena. Eu nasci a 30 metros menos, a 27 metros da Amália, de onde a Amália nasceu. Bom, portanto, aquilo é a Rua dos Predestinados. Eu espero que sim. Eu no outro dia fui lá, estou muito zangado porque ainda não tenho lá uma placa com o meu nome. Ruizinho, aqui nasceu Ruizinho. Já começo a ficar um bocado incomodado. mas era o bairro da Pena. E, portanto, eu tive o privilégio de ver, com olhos ainda um bocadinho de criança, mas olhos já de ver tudo aquilo. E, obviamente, que eu não estava no Coelho do Carmo, portanto, isto soube à posteriori e vi à posteriori, mas acho uma das coisas mais lindas do 25 de abril foi que naquele dia, ou seja, foi em Portugal uma revolução sem sangue, no sentido em que não se tocou nem num só cabelo dos vencidos. os espíritos foram presos alguns levaram uma castanha mas também era pouco comparado com o que tinham dado houve depois algumas injustiças há sempre nestas coisas mas naquele dia a revolução foi mesmo sem uma coisa que há hoje e que é o espírito matilha hoje o espírito medieval que é o espírito de dar molhar o pé na sopa dos vencidos e houve de facto quatro mortos dia, mas foram os pides em pânico que da sede, onde agora é um bonito condomínio, mataram por pânico quatro civis. Cumpriu-se o 25 de Abril? Eu acho que sim. Quer dizer, cumpriu-se naquele dia. A ideia do cumprir-se o 25 de Abril é um bocadinho… Ou é mitológica esta pergunta? É messiânica. Isso nem é pior, não é? Não é pior nem melhor. Nós somos um povo messiânico. Portanto faz parte da nossa cultura Então deixa-me, já vamos ao 25 de Abril

Jorge Correia
18:16
O que é que na ótica De Ruiz Inc define O português? Quer dizer, tu estás também cá dentro, não é?

Rui Zink
18:23
Bom, primeiro o que define o português é isto Há o estereótipo, que é fácil de definir Mas depois nós somos 10 milhões e tal E portanto português é quem vive cá E tem o cartão de cidadão Ou se identifica Não tem que ter tudo Porquê? Há portugueses que têm cartão cidadão, mas não se acham portugueses. E há pessoas que não têm o cartão cidadão, não se acham cá, mas amam isto. Há dois homónimos meus, quase homónimos, que o nome começa também por RZ. Há três RZs em Portugal e que são os dois americanos. Eu sei que um deles já é cidadão português há mais de 20 anos. E esse conta? Bom, claro que conta. Se é cidadão português, não pode deixar de contar. que é o Richard Zimler que vive cá eu acho que há 30 ou 40 anos está em Moleda a escrever os seus romances? escreve sobre Portugal, sobre coisas portuguesas sobre os quais os outros escritores portugueses não escreveram portanto dá mundo a ver aos portugueses e escolheu ser portuguesa o que eu acho que até tem mais mérito do que o indivíduo que apenas teve a sorte de nascer

Jorge Correia
19:32
direito à opção,

Rui Zink
19:33
no fundo ele disse eu quero ser português é um gesto E, portanto, é um exemplo de uma pessoa que é portuguesa, embora não corresponda ao estereótipo. O outro é o Richard Zinnis, que eu não sei se ele decidiu ser portuguesa ou não. Portanto, é meu amigo, mas nunca lhe perguntei. Mas sei que ele vive cá há 40 anos, mora cá, e fez uma coisa magnífica que foi traduzir o Fernando Pessoa, Trazer o Fernando Pessoa E escrever um grande ensaio Sobre o Fernando Pessoa Para a língua de Deus Como nós sabemos todos, é o americano Não o inglês Não o inglês, o americano É uma espécie de inglês O americano é O americano é a língua de Deus Hoje em dia É a língua dos televangelistas É a língua do Donald É a língua do poder O poder absoluto Todos os editores do mundo inteiro toda a gente lê inglês. Já temos escritores em Portugal que sendo escritores portugueses, nasciam em Portugal mas confessam aos 30 que nunca leram livros em português. Liem só em inglês? Liem só em inglês. Isso acontece muito

Jorge Correia
20:45
com os jovens. É normal. Mas isto é elitista? É uma questão geracional? Ou é porque os livros são mais baratos? É por uma

Rui Zink
20:51
razão muito portuguesa embora hoje já não devesse ter tanta razão de ser que é a vontade de sair daqui para fora. A ideia de que nós estamos cá dentro como dentro de uma prisão e queremos sair daqui para fora. Portanto, definir o português é muito simples, até porque se tu dizes o português como o Zé Povinho, que foi criado no século XIX por Bordal Pinheiro, estamos a dar a entender que neste país não havia mulheres. Portanto, o português é aquele que se reproduz… Às vezes parece que não é. Por punho. As mulheres, se ao verro, são cerca de 50% da população. Às vezes até são mais. Portanto, quando nós definimos o português, esquecemos logo delas. Bem, temos a padeira de dar-se uma rota, não é? Também deixou a sua marca. Deixou a sua marca, mas nos espanhóis, não nos portugueses. Mas é muito interessante que é que quando nós vemos uma coisa, não vemos outra. Eu já vi, mas este não é um assunto que eu saiba muito, mulheres a queixarem-se, especialistas, a queixarem-se que a medicina, muitas vezes, é virada para o corpo masculino. E que, portanto, maleitas femininas sempre foram ignoradas. ou vidas de forma errada, simplesmente porque os especialistas, os cientistas, que eram todos homens, não viam o corpo feminino. E não o sentiam também, não é? E não o sentiam. Não sei se o cinto de segurança hoje já está bom para mulheres, mas antigamente não. Era tudo pensado para o corpo feminino.

Jorge Correia
22:18
Bem visto o cinto de segurança.

Jorge Correia
22:20
Lá está, no meio dos seios. É uma boa maneira de olhar para isso.

Rui Zink
22:25
Sim, é bem visto. E além de bem visto, é espantoso. Porque apesar de bem visto, não foi uma coisa bem vista por mim. Há coisas bem vistas

Jorge Correia
22:34
que não fui eu que pensei. E tu olhas e dizes. Esse é um bom tópico, que é nós, na realidade, inventamos muito pouco e misturamos muito. Claro,

Rui Zink
22:44
mas às vezes nós lemos coisas e nós não temos que estar sempre a separar o que lemos, o que nos influenciou daquilo que fizemos. Mas a ideia de tu seres um escritor ou de ser de uma pessoa, mas os escritores são pessoas profissionais de um certo tipo, é teres uma voz própria e tentares ter uma imaginação própria. Agora, o que acontece com os escritores ou com os poetas é que, às vezes, nós estamos a estabelecer a ponte para outros, mas, às vezes, estamos sem querer a reproduzir, pensando que são nossas coisas que, como disseste, mastigámos. E é esta questão, que é esta observação sobre o corpo da mulher, o corpo do homem, sobre o facto de a ciência estar muito atrasada a relação à mulher, porque geralmente eles são o elo fraco, quer da sociedade quer da ciência ou da tecnologia não são vistas são literalmente, continuam a ser invisíveis em muitos aspectos eu adorava ter sido a dizer isto mas não fui eu, apenas fui agora aqui o mensageiro de uma ideia alheia

Jorge Correia
23:46
Ora, isso é uma boa notícia porque aprendemos todos uma coisa nova mas pela mesma voz e pelo mesmo cano pode seguir não só as ideias brilhantes ao longo do século, mas os maiores conceitos. Eu posso estar a repetir as coisas mais bárbaras porque simplesmente me foi entrando quase na água que bebo todos os dias. Sim,

Rui Zink
24:08
e não só… Apenas acho que tens uma coisa errada, João, no que disseste. Quando tu disseste eu posso… Não, não é eu posso, eu estou. Eu não posso nem quer. Nem sequer tens essa capacidade, essa autonomia, essa… A capacidade de entender, nós temos. Uma das coisas, salvo a reformar Carole, que disse, Uma vida não examinada não é uma vida. Muito antes de o pessoal dizer sem sonho que é o homem, senão a besta sadia que dorme e procura. Não é? Mais ou menos disto. A verdade é que aquilo que nos faz humanos hoje em dia e que é o maior brinquedo dos humanos é o conseguirmos pensar no que fizemos e conseguimos dizer, op, meti água, olha, isto foi certinho. Nós temos essa consciência sobre o que fizemos, É sempre importante. Portanto, nós podemos corrigir-nos todos os dias. Tu, eu, qualquer pessoa que nos esteja a ouvir, podemos corrigir-nos através desse exercício pontual. Não tem que ser sempre. Há pessoas que distorcem e dizem não presto para nada, não sei quantos… Não. Nós portamos todos para alguma coisa. Mas não é para nos castigarmos o facto de termos pecado. Então, meu filho, o que é que pecastes esta semana? Não. É mais saber que a vida é um processo em construção. até o lavado das cestas é vendima, e portanto nós vamos andando, vamos andando, agindo, e de vez em quando pensando. Agindo e pensando, agindo e pensando. E neste caso, o que eu estou a dizer é que tu tens preconceitos dentro do teu corpo, da tua cabeça, da tua alma, do teu coração, uns sabes, outros nem tu imaginas. Agora, não vale a pena perderes a energia a ir à procura deles, porque aí desperdiças a vida, Chegas a velhinho e descobres que estiveste a vida toda a tentar corrigir os teus erros, o que é a coisa mais estúpida do mundo. Mas eles, não te preocupes, que eles de vez em quando aparecerão e tenta quando aparecem Ups, olha, não sabia que também era racista. Ups, não sabia que também era machista. Ups, não sabia que também era salazarista. Ups, não sabia que também tinha vontade de matilhar. E isso acontece-nos? Acontece-nos a todos. A mim acontece-me com muito mais frequência do que a maior parte das pessoas.

Jorge Correia
26:26
Que é subitamente saltamos uma ideia Mas espera, mas eu não posso estar A olhar, a pensar ou a reagir Em relação ao mundo Com este viés Com esta miopia

Rui Zink
26:37
Eu acho que primeiro saltamos Aquilo que eu chamaria A canalhada Saltamos a Falha-me agora a palavra Como é que se consegue transformar um substantivo Com burgesso? Saltamos a burgesice O animal cá dentro de nós Aparece na montra E é no momento em que ele aparece na montra É que aí, se tiveres alguma cabeça E estiveres atento e estiveres num momento Tu dizes, oh, não sabia que também Tinha esta coisa estúpida dentro de mim Eu também sou assim E opa, somos Eu tenho Tenho várias experiências Muitas mesmo Mas eu gosto De brincar com isto que é Eu estou apenas a um segundo de começar a tornar-me homofóbico. É muito simples. De repente eu vou para um concurso literário e eu perco. Sem mal dinheiro eu perco os todos. Portanto eu perco. E de repente o indivíduo que ganha, eu sei que por acaso é gay, salta logo naquele momento, nem que seja por um segundo, é como uma mosca antes que eu apanho já para ir a joaçar, uma coisa a dizer, pois isto agora é tudo para os marigas. uma moça passa à minha frente num bónus para ter um cruzeiro ou para ter o último copo de brinde num supermercado eu digo, pois, reajas agora o burgesse está cá sempre mas, eu vou dizer uma coisa isto é uma forma muito simples que é, eu nasci em 1961 daqui a um mês vou ter, graças a Deus o passo grátis e então o que é que acontece é impossível tecnicamente uma pessoa nascida em 1961 o início da guerra colonial já muitos anos passados sobre o início do Estado Novo é impossível um homem daquele tempo um rapaz nascido naquele tempo no contexto português daquele tempo no contexto cultural e mental daquele tempo e dizer, ai não, eu não sou molhado pelas águas deste tempo. Eu cá sou muito inteligente. Eu nasci em 1961, mas é como se eu estivesse nascido em 2017. À frente do teu tempo. É, não existe à frente do teu tempo.

Jorge Correia
29:09
Todavia, há umas pessoas que, como tu, são muitíssimo conscientes disto e, portanto, ou conseguem travar à última da hora ou então espetar-se e espalhar-se ao comprido perceber que aquilo não corrou bem. Todavia há um conjunto de outros cidadãos muito públicos que dizem eu aqui na Terra e Deus lá em cima nunca me engano, sou o melhor do mundo, sou extraordinário e vocês é que são todos parvos e não estão a ver bem a coisa.

Rui Zink
29:36
Eu diria que esses é que são os típicos portugueses. Os tipos cheios de si e sem razão nenhuma para isso. Os que dizem andámos nós a navegar, a ir nas caravelas até à Índia, e aqui é sempre, já foi feita por muitos escritores esta questão mas foi você com os americanos tens isso em caricatura que é, nós fomos à lua, foi você e o que nós fazemos hoje é uma coisa que em inglês ou americano, na linguagem do senhor do dono disto tudo se chama cherry picking que em português é não há programa sem haver um termo técnico em inglês. Portanto, este é o nosso de hoje. Fica bem.

Jorge Correia
30:23
Fica sempre bem. E depois convém não dizer uma legenda nem falar sobre o conceito.

Rui Zink
30:28
Mas isso é muito actual. Mas aqui é simplesmente escolher as cerejas. As melhores. Escolher as melhores. E é aquilo, quer dizer, se nós queremos ter o lado bom da história portuguesa, e eu quero, eu gosto, eu sou uma daquelas pessoas que diz, quando nós fomos à Índia, quando nós fizemos isto, quando nós fizemos aquilo, eu não tem mal nenhum eu ter orgulho do meu passado. Ou seja, disso. Não tem mal nenhum. É também o meu passado. Ou seja, é uma história na qual eu também estou. Mas, agora, se eu ajoelho, eu vou ter que rezar. Se eu quero as coisas boas, também tenho que ter as coisas más. Também tenho que aceitar quando dizem pois, este país foi um grande traficante de escravos. Isso é que não. Isso é que não. Nós só temos coisas boas. E isso é infantil e é estúpido e torna as pessoas mais pequeninas. Eu nem tenho nada contra uma dessas pessoas, que era o primeiro ministro na altura que disse nunca me engano e raramente tenho dúvidas, porque eu acredito que não fosse ele a pensar assim. Nenhum homem casado acha que nunca se engana e raramente tem dúvidas. Alguém escreveu

Jorge Correia
31:40
essa linha.

Rui Zink
31:41
Havia uma mitologia e alguém escreveu esta linha. Mas a questão é simplesmente esta. É impossível que o homem o professor Aníbal Cavaxi pensasse isso. Mas agora é evidente que há cargos também é uma infantilização da democracia em que o líder tem que passar sempre a imagem do que nunca falha. E isso eu acho que é uma infantilização da nossa sociedade.

Jorge Correia
32:10
E se é responsabilidade dele, do líder ou é uma responsabilidade nossa que projetamos

Rui Zink
32:14
nele isso. Tem a ver com as responsabilidades são sempre as responsabilidades como tudo na vida é como o gin tónico. Tu podes ter apenas uma gotinha de gin e muita água tónica ou podes ter dois litros de gin e apenas uma gota de água tónica portanto são coisas muito diferentes mas há sempre uma combinatória toda a gente é cúmplice de algo portanto é como no tempo da PIDE havia a PIDE mas também havia gente que sem sequer ir para os quadros da PIDE tinha Alma depide e gostava de denunciar outros. Os bufos. Os bufos. As cadeias denunciantes. E isso sempre houve. E às vezes a mesma pessoa… Na minha rua eu tenho histórias de que aconteceu isso antes de eu nascer. Que é as mesmas pessoas que denunciam alguém são as pessoas que depois ajudam esse alguém. E depois são ajudadas por esse alguém, mas depois resmungam contra esse alguém. Isto acontece com… Enfim, humanamente. E como eu tive na família uma história que faz parte de mim, portanto é uma história que eu repito sempre com gosto, que é o meu avô foi preso em 1938. E foi preso numa leva de quem soubesse contar 2 mais 2, eram 4 e a preso, só por segurança. Em defesa do Salazar, 38 era o meio da guerra civil espanhola, aqui ao lado, e era já os tambores rufarem da Segunda Guerra. Como agora já estão a rufar os tambores da Terceira Guerra? Mas eu não quero deprimir ninguém. Achas isso? Isso agora não interessa nada. Primeiro quero saber a história do teu avô, mas depois já vamos falar da guerra. Mas a história do meu avô é muito simples. Então, aquele fez mal à família dele, fez mal à minha mãe, ao meu tio, que eram crianças, fez mal à sua esposa, que ficou cá fora, mas ficou mais presa do que ele. E a acusação era de ser comunista. Ele não era comunista. podia ser, mas não era não era então o que acontece ele depois quando saiu ele saiu e foi enfermeiro, apresentou-se quando nasci foi enfermeiro reformado e dava injeções era o representante da ciência no bairro e aqui há duas histórias uma delas é que eu uma vez quando a minha mãe morreu lembra-me de fazer uma amiga dela com 90 anos, uma pergunta que não tinha feito à minha mãe, olha lá Quando o meu avô foi preso, durante aqueles dois anos e tal, de que é que vocês viveram? Uma boa pergunta. E eu que sempre achava que o meu avô era um santo a dar injeções ou servir as pessoas demais, eu de repente vi outro lado da história, que é que ela, a Hortense, fechou-se muito a cara e disse assim, sabes, naquele tempo havia muita solidariedade. E isto é um movimento humano engraçado, as mesmas pessoas que se regozijaram não há fome sem fogo quando o meu avô que era esquisito porque gostava de livros portanto, para a fogueira quando ele foi para a fogueira as mesmas pessoas que naquele momento se regozijaram depois devem ter tido pena da esposa, potencial viúva e das crianças e portanto o bairro o mesmo bairro onde alguém denunciou o meu avô, foi o bairro que depois protegeu a minha família. Isso é uma coisa fantástica ou é uma miséria humana? Eu acho que não é miséria nem é fantástico É a condição humana Que é, nós somos capazes das coisas mais belas Eu ainda tenho o sonho um dia de estar-me a afogar E o André Ventura saltar Com aquele ar de coragem que ele tem E salvar-me a afogar E eu ficaria grato se ele fizer isso Mas também somos capazes do maior oportunismo Somos capazes das coisas mais suezas Agora, a maior parte das pessoas não é capaz de fazer coisas suezas durante muito tempo. Os próprios pidas que tinham alma de pida e que faziam assim aquela coisa que muitas polícias ainda fazem. Ora bem, ora bem. Ponha-se lá calmo que eu também estou calmo. Já me disseram isto. Uma manipulação logo do espírito. Esteja lá isto. E muitas vezes tratavam as pessoas por o senhor. O senhor deseja e faziam sempre esse jogo. E às vezes era por tortura mental. Outras vezes não era. Isto é, eu nunca achei que os spiders fossem 100% maus. Porque ninguém é 100% mau. Agora, as pessoas mais fracas são aquelas que mais facilmente se colam ao poder e mais facilmente, até para se protegerem, entram num cortejo. Dependemos do nosso contexto? Dependemos do nosso contexto, dependemos da nossa educação, dependemos da nossa personalidade. São muitos fatores. Mas, por exemplo, geralmente os indivíduos com 1,96 m de músculos e pugilhos e 6 profissionais são muito corteses no trato cotidiano. Mas isto… Às vezes fazem um teatro, quando estão assim a ser filmados para o combate, em que dizem, eu vou partir de todo. Sim, mas habitualmente não. Mas habitualmente não. A música é… São cordados e às vezes até vão comer um bife juntos. Os indivíduos que são ferozes são os pequeninos. raivosos, porque nasceram a sentir-se, sabem que têm medo, e odeiam sentir que têm medo. E isso, se calhar, aconteceu com alguns rapazes, que vamos dar a dúvida da esquadra do rato, que é, é gente que vai pôr a farda para tentar muitas vezes superar o seu medo. E, aliás, é sensato um sádico pôr farda, porque um sádico pode ir para a guerra, onde pode matar legalmente ou pode ir para a polícia onde vai tardar mais a ser descoberto, que faz as neiras até porque os colegas muitas vezes são amigos e dizem que não viram nada tal como um pedófilo ir para a igreja ir para a padre, não envergonha a igreja, porque um pedófilo esperto se eu fosse pedófilo para pedófilar melhor, eu ia para onde corria menos riscos até porque Correr atrás das crianças na rua cansa.

Jorge Correia
38:32
Para um otimista, tu és um homem francamente pessimista e idónico.

Rui Zink
38:37
Não, não. Mas a questão das instituições, voltando a isto, o que envergonha a igreja não foi ter redes estresmelhadas no seu seio. Foi protegê-las. Foi, em vez de proteger as vítimas, durante muito tempo fazer aquela coisa muito portuguesa também, que é varrer para debaixo do móvel. Varrer para debaixo do móvel às escondidas. Para terminar a parte do comunista, Há uns tempos um amigo meu veio da Madeira cá, o Vítor, e ele disse olha, estive com o senhor de não sei quantos e disse que tinha estado contigo. Ele disse, ah, o avô era muito boa pessoa, mas era cá um comunista.

Jorge Correia
39:11
Portanto, estava lá. A fama e a cabeça ficou perpetuado.

Rui Zink
39:15
Estava lá.

Jorge Correia
39:16
Olha, o sarcasmo protege-nos da manipulação ou impede-nos de ver verdadeiramente o que é que está acontecendo?

Rui Zink
39:23
O sarcasmo, eu vejo o sarcasmo como uma coisa negativa. Se calhar o humor, ou ir um dia, ou outra coisa qualquer, mas o sarcasmo é uma espécie. O sarcasmo é o humor com pouco gino. É um humor mal feito. É quando a pessoa diz que é para rir, mas já está, já não está. Está, a maldade supera o maldade. A sátira é uma coisa bonita.

Jorge Correia
39:53
Sim, eu estou a perguntar-te isto para saber uma coisa que é. Quando nós estamos a fazer uma piada sobre o sofrimento de alguém, nós estamos a comentar esse sofrimento ou estamos a participar de alguma maneira, de uma forma sádica? Quando eu olho agora para o humor que se está a fazer, há momentos em que eu tenho dúvidas.

Rui Zink
40:10
Olha, eu estou agora a reparar que tu, de facto, estamos aqui à meia hora e tu pensas que eu sou o Júlio Machado Vaz. Estou a fazer psicoterapia? Não. Não, eu respondo a tudo, Mas é só dizer que eu respondo a tudo sem… Eu não tenho formação em psicologia. É só para informar as pessoas. Portanto, não venham no final pedir conceitos sobre isto. Não há expressão para mim, portanto. Eu acho que há sempre uma combinatória de tudo. Portanto, o instrumento que eu uso para compreender as pessoas e o mundo chama-se ficção. Ou romance. O romance é uma ficção à grande. O romance é uma espécie de caldeirada da ficção. Enquanto que um conto… Um conto é o Açores Entraditas. É um rissol. e eu uso isso como instrumento e acho que é um instrumento interessante porque não é nem ciência nem é religião, mas é um bocadinho das duas coisas portanto eu tento fazer com o melhor método possível os livros, agarrar as coisas compreender as coisas, mas sempre com uma cautela vou falar mesmo latim, com um caveat portanto temos a segunda expressão para excluir algum ouvinte isto é aquela coisa Eu dou aulas na universidade para quê? Não é? Mas então A questão sempre é esta Há um conjunto Há um bocadinho de coisas Qualquer explicação só É a explicação errada E o princípio mais humano É aponta para ti Antes de apontar para os outros Portanto, porque tu tens o mundo inteiro dentro de ti Inclusive as pessoas de quem não gostas Quer dizer, eu não tenho em tristeza de dizer isto, mas tens um Tose é seguro dentro de ti também tens um Pacheco Pereira Temos muitas vozes dentro de nós porque todos eles nos tocaram. Mas escolhemos alguns que se expressam mais ou menos dentro de nós Alguns expressam-se mais e cá está Há quem controle melhor o aborgência dentro de si e há quem controle menos Depois, há quem acredite na lenda, nos elogios, dizem oh, és muito bom, e acreditam logo. O Eça tem um pormenor cómico, dos muitos cómicos, nos maias, nesse livro que toda a gente estudou, mas ninguém leu, porque é um tijolo, que é o Dama de Salcedo. O Dama de Salcedo é, digamos, o vilão do livro. Mas é um vilão cómico, é um tonto, é uma caricatura de um português, é um Zé Povinho, só que é um Zé Pevinho de Alta Broguesia, que é um tipo inchado, muito estúpido, o Dama de Salceda, que um dia houve uma mulher que se apaixonou por ele, e que ameaçou suicidários, incluindo fósforos, uma cantora de ópera, e desde então, diz-o essa, desde então, ele acha-se irresistível. E é aquele português que há muito, com o casaquinho pelas costas. Aqueles tipos todos da iniciativa liberal, não escapam nem as mulheres, que estão assim à saída com as costas e que dizem uma pilha aérea que eles próprios acham muita graça e esses indivíduos são esses acham-se os maiores acham-se os maiores é a coisa mais estúpida que eu acho que pode haver na vida é achar-nos os maiores

Jorge Correia
43:38
Olha, eu não sei qual é o teu clube de futebol

Rui Zink
43:41
Tecnicamente é o Varzim

Jorge Correia
43:42
É o Varzim e emocionalmente há mais qualquer coisa?

Rui Zink
43:46
Não, emocionalmente eu estou geralmente do clube que está a perder Ah, então de Bolonenses, não é? O meu irmão mais novo era do Bolonenses. Ah, então tens um histórico. Tenho, eu tenho. O Bolonenses é o… Mas eu não tenho histórico com o Bolonenses. Mas o que acontece sempre é que eu torço pelo clube que naquele ano eu acho que dá-lhe mais jeito de ganhar e que tenho mais amigos que ficam com aquela aldaria.

Jorge Correia
44:15
Para ter uma vida tranquila. Eu estou-te a perguntar pelo futebol porque essa relação de endeusificação quer de um atleta de um Zé Mourinho que é neste momento o treinador mais importante de Portugal

Rui Zink
44:32
treinador não eu acho que na lápide dele vai estar o desempregado o despedido mais importante do mundo

Jorge Correia
44:39
o que é interessante é que quando chegam os treinadores eles são extraordinários fantásticos, vão resolver tudo e não tarda meia época e são a pior coisa do mundo e a maior catástrofe e, meu Deus, nem sequer devia ter assinado pelo clube

Rui Zink
44:55
O que é que está a passar connosco? Eu cito o grande Tony que é muito fácil no futebol passar de bestial a besta isso acontece na vida humana acontece, por exemplo, no casamento um sinalzinho que é um grão de beleza vamos usar outra língua língua divina, o francês. Um sinalzinho picante, que é un grandibouté, que é um sinalzinho assim no rosto, no coisa. Passados uns anos, na fase do divórcio, foi uma verruga. E o que é que mudou? Não foi um sinal. Mudou a nossa relação com o sinal. E isto é muito importante. A nossa vida melhorou logo. E é por isso que eu sou um otimista informado, que é Os objetos, o mundo existe fora de nós Mas nós só temos um instrumento para lidarmos com o mundo Que é que somos nós próprios Portanto, nós somos animais relacionais E imperfeitos Imperfeitos e mais do que irracionais ou irracionais Somos imperfeitos e relacionais Isto é, as coisas têm um valor para nós afetivo A nossa inteligência é afetiva E essa foi a grande descoberta do neuropatom, o neurocientista, o António Damasio, luso-americano. Por acaso, esse é o contrário. Nasceu cá, mas ganhou o passaporte americano, ao contrário do Rich Zembler. Mas os dois são nossos, obviamente, até porque são pessoas de sucesso e nós gostamos de estar ao pé das pessoas de sucesso. Mas ele tem um livro que chama-lhe O Erro de Descartes, Porque o Eckhart diz cogito ergo sum. Eu penso, logo existo. E o Damasio diz que a neurociência provou, descobriu, que afinal o cérebro não está no coração. Como diria a pessoa, é apenas um boneco de corda. O cérebro está na cabeça. Ou seja, a nossa cabeça sente. A nossa inteligência é uma inteligência afetiva e emocional. E isto é óbvio. Eu gosto muito do António Damasio, mas o Camões tinha descoberto isso uns 400 anos antes.

Jorge Correia
47:13
E escrito de uma forma bonita. Olha, e então o advento da inteligência artificial é uma coisa que te apaixona ou que te assusta?

Rui Zink
47:21
É uma coisa, sobretudo, que me enjoa. Já te enjoa? Não, enjoa porque eu neste momento ligo o meu telemóvel e o algoritmo imediatamente me força quase a usar a inteligência artificial. Eu não preciso. Mas está a puxar para cima. Ou seja, estão a fazer como aos gansos. Estão a enfiar-me comida pela goela lá dentro com uma pá para tornar o meu figo, o meu figa de gordo, para o meu figa de virar foie gras.

Jorge Correia
47:55
Portanto, queres que tu sejas, no fundo, o pate para alguém comer?

Rui Zink
47:59
Sim. Criar um negócio? Nós somos um parvo. Ou seja, neste momento estão a vendermos a inteligência artificial como droga às portas das escolas. Já está dentro das escolas. E quando alguém nos dá uma coisa grátis, o pobre deve desconfiar. Tu desconfias? Eu desconfio logo. Porque, obviamente, querem-me criar uma necessidade que eu não tinha. Querem-me roubar, desde logo, a atenção. Querem-me roubar a capacidade de reflexão, que são as coisas que fazem de mim humanos. Eu tenho ido ao teatro e ao cinema. Eu vou com frequência, sempre que possível, a salas. Ver ao vivo o teatro. E gostei muito de ver o Clube dos Poetas Mortos, com o Diogo Infante e tudo mais, e o que é que acontece? De repente, eu estou ali, há sempre alguém, já me habituei, antigamente protestava, que começa a consultar o telemóvel.

Jorge Correia
48:51
No meio da peça.

Rui Zink
48:52
No meio da peça. E no meio do filme. Mesmo que o filme esteja a ser divertido, não é que as pessoas não sejam a gostar. É que já não têm capacidade de concentração. Têm que ir buscar a Xuxa. Estão viciados. Estão viciados. Têm que ir buscar a Xuxa logo. É por isso é que tanta gente vai ao telemóvel quando está a conduzir. Já não conseguem sequer focar-se naquela tarefa. Portanto, a inteligência artificial está a desfocar-nos. Está a tirar-nos o foco interior, está a apagar-nos a luz interior para nós precisarmos de fazer um clique fora de nós. Esse é o grande perigo dela. Agora, em áreas da medicina ou da geografia ou tudo mais, acho que são muito úteis. na área humana e já agora cito ainda há tempo cito uma passagem do Clube dos Poetas Mortos que no momento está no Trindade, mas que eu espero que faça uma carreira boa é que o Diogo Infanta aquilo é baseado num filme com o Robin Williams há 40 anos o Robin Williams era genial mas tem um problema que é as pessoas geniais as pessoas geniais não nos deixam para checar para errar ou seja, as pessoas geniais não nos deixam separar o essencial do acessório. E, portanto, o Robin Williams era tão extravagante que nós ficámos com a ideia que o filme era sobre ele. Quando, na verdade, é sobre aqueles jovens que estão a aprender, que estão a ter um ótimo professor de poesia, um ótimo professor de português. E, então, o Diogo Infante escolheu ser sóbrio, não tentou imitar o Robin Williams, então, à Frank Sinatra fazer à sua maneira. E, então, sendo muito mais sóbrio, deixa-nos perceber A verdadeira história O essencial naquela peça É o que se passa com aqueles jovens Que sozinhos Só com os empurreiros do professor Mas estudando sozinhos É quando eles não estão na aula Que este é o segredo para qualquer pessoa queira aprender algo Não é na aula que se aprende A aula é apenas um apiadeiro A viagem faz-se cá fora E eles começam a ir per moto próprio Hoje é só latim Eles começam a ir para uma caverna Ou para uma sala, qualquer coisa ver os poemas e discutir os poemas. E há uma frase do professor em que ele diz, eu pergunto a um aluno, tu vais para quê? Eu vou para medicina. E tu vais para quê? Eu vou para gestão. E tu vais para quê? Eu vou para engenharia. E ele diz, tudo isso são profissões magníficas que nos ajudam a viver e quando temos problemas, quando eu parto o braço, eu não quero um filósofo, eu quero um médico. Mas essas são coisas que nos ajudam a viver. Agora, a poesia, a paixão, o amor, o amor, a brincadeira, o espírito, a alegria de ir errando por aí, essas são as razões pelas quais vale a pena estarmos vivos. E o que ele diz nessa aula é uma coisa que muitos professores podiam explicar às ondas, às vezes não conseguem no liceu, que é as cadeiras da treta, que geralmente é aula de português, A aula de desenho, as aulas de música, são as cadeiras de atletas, são as acessórias, até para os paisinhos, não são as essenciais para nos fazer trabalhar, mas são as razões pelas quais devemos viver. São aquelas que nos ensinam a desfrutar da vida. E uma boa aula de português no liceu é uma aula mundo. Quando eu digo aula português, eu acabei de chamar ao professor do Clube dos Poetas Mortos professor de português. Porquê? Porque o filme passa-se na América, portanto é evidente que ela é professor de inglês. mas é a cadeira-mundo que existe em qualquer parte. E, graças a Deus, eu tive maravilhosos professores de português que me ajudaram a ver melhor o mundo.

Jorge Correia
52:39
Para fecharmos esta nossa conversa e parafraseando Inês de Menezes, não o que é que é um dia bom para ti, mas o que é que é uma vida boa?

Rui Zink
52:48
Uma vida boa é aquela em que as coisas boas superem as maleitas. Portanto, uma vida boa só sabes ser boa quando termina. Portanto, é do fim para o início? É do fim para o início. Mas temos que fazer qualquer coisinha, não? Pelo caminho é isto. Tentar, eu ultimamente ando com uma imagem da moeda, porque é uma imagem que é muito simples. Eu tento procurar imagens simples, que é esta, que é. Tens moedas que tens que querem a coroa, ou tens noite e dia, ou tens mal encarado, bem encarado. Portanto, uma série de coisas que tu queiras. Mal disposto, bem disposto e tudo mais. E a questão é que quando uma das faces está virada para cima, a outra face não desaparece isto é, nós neste momento estamos num tempo que eu diria um tempo feio no mundo, um tempo de crueldade um tempo de alegria com a crueldade um tempo em que pessoas se recusijam, a começar pelo Presidente dos Estados Unidos, por ver pessoas a serem maltratadas. Olha, aquele tipo foi enviado para uma prisão a 6 mil quilómetros daqui por engano. Que se lixe! Estamos num mundo do mais vale prender nove inocentes, desde que um culpado seja preso, quando o meu mundo é aquele em que eu prefiro que haja nove culpados livres para não haver um inocente preso. Ou seja, se tiver… Eu tento ser do mundo da alegria e do outro mundo. Portanto, um dia bom e uma vida boa é aquela em que a face que está virada para baixo, se a face melhor é a face que está virada para baixo, pelo menos que eu ou nós não nos esquecemos que ela continua lá. E que um dia vai ficar virada para cima. Muito obrigado.

Jorge Correia
54:36
Pergunta simples. Um programa sobre comunicação. Para quem quer boas respostas.

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