A tua opinião vale alguma coisa? Desidério Murcho

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A tua opinião vale alguma coisa? Desidério Murcho
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Há uma pergunta que Sócrates fazia na Ágora de Atenas e que lhe custou a vida. Não era uma pergunta sobre os deuses nem sobre o cosmos. Era mais simples e mais perigosa do que isso. Era apenas esta: como é que tu sabes aquilo que dizes que sabes?

Os poderosos de Atenas passeavam-se pela cidade muito cheios de si, muito convictos das suas opiniões sobre o bem, o mal, a piedade, a coragem. E Sócrates chegava ao pé deles com uma humildade que era, ela própria, uma forma de provocação, e dizia: eu também quero saber, explica-me lá. O resultado era sempre o mesmo. A pessoa pensava que sabia. Mas não sabia.

Vinte e cinco séculos depois, a Ágora chama-se internet e os poderosos somos todos nós.

Desidério Murcho é filósofo, e uma das coisas que o distingue de muitos filósofos é que não tem medo de dizer coisas inconfortáveis com uma clareza que não deixa saída. Numa conversa recente no Pergunta Simples, disse algo que é difícil de esquecer depois de ouvir. Disse que a linguagem humana não evoluiu principalmente para descobrir a verdade. Evoluiu para enganar. Para criar laços, defender território, impressionar congéneres. O raciocínio rigoroso, a lógica, a matemática, a ciência, tudo isso é recente e artificial. É uma construção contra-natura. Por isso é difícil. Por isso cansa. Por isso a ciência só surgiu no século XVII, apesar de toda a inteligência grega.

E por isso, disse ele, os aldrabões ganham sempre.

A imagem que utilizou para explicar isto é simples e implacável. Nós somos pavões. Os pavões abrem a cauda para impressionar. Nós usamos o discurso. Grande parte do que dizemos em público não é comunicação, é plumagem. É performance social. É a gestão cuidadosa da impressão que causamos nos outros. E o problema não é que alguns de nós façam isso. O problema é que todos fazemos, a maior parte do tempo, sem nos apercebermos.

Isto explica uma coisa que qualquer observador do debate público contemporâneo já sentiu mas raramente consegue nomear com precisão. Explica porque é que as discussões nas redes raramente mudam a opinião de alguém. Não é porque as pessoas sejam estúpidas ou de má fé. É porque não estão a discutir para descobrir a verdade. Estão a defender território. Estão a gerir identidade. Estão a abrir a cauda.

Murcho descreveu uma experiência feita em laboratório que ilustra isto com uma brutalidade quase clínica. Investigadores mostraram o mesmo vídeo a dois grupos, um de republicanos e outro de democratas. Exatamente o mesmo vídeo, mas descrito de forma diferente a cada grupo. Conforme a descrição, as pessoas viam manifestantes pacíficos ou manifestantes intimidatórios. O mesmo vídeo. Conclusões opostas. E quando a descrição mudava, as posições invertiam-se. Os que tinham dito que era uma manifestação pacífica passavam a dizer que era intimidadora. Os outros faziam o caminho inverso.

A conclusão que tirou não foi sobre a ignorância das pessoas. Foi sobre a natureza da política. As posições políticas não têm fundamento racional, têm fundamento tribal. As pessoas não escolhem uma posição porque a estudaram e a acharam mais sólida. Escolhem-na porque é a posição do grupo a que pertencem. E depois defendem-na com a convicção de quem descobriu uma verdade.

Isto levanta uma questão que atravessa toda a conversa e que é mais incómoda do que parece. Se as opiniões são em grande parte produto da identidade e não da reflexão, o que é que vale uma opinião? A resposta de Murcho é direta: não valem todas o mesmo. As opiniões cuidadosamente fundamentadas, estudadas, provadas, valem muito mais do que as outras. E dizer “é a minha opinião” não é um argumento. É, nas suas palavras, o pior argumento possível.

Há aqui uma distinção que ele faz que é importante não perder. Uma coisa é o direito político à opinião. Numa sociedade livre, toda a gente tem direito a pensar o que quiser e a dizê-lo sem ser perseguida por isso. Essa é uma conquista civilizacional que não está em causa. Outra coisa, completamente diferente, é a responsabilidade epistémica pela opinião. O facto de eu ter direito a dizer o que penso não me dispensa de pensar antes de o dizer. E não torna a minha opinião equivalente à de alguém que estudou o assunto durante anos.

O que se perdeu, e Murcho chama-lhe a diferença epistémica apropriada, é a capacidade de reconhecer que há pessoas que sabem mais do que nós sobre determinados assuntos, e que essa diferença deve influenciar o peso que damos ao que dizem. Não é servilismo intelectual. É simplesmente honestidade sobre os limites do próprio conhecimento.

E é aqui que entra a coisa mais difícil. Porque reconhecer os limites do próprio conhecimento exige dizer três palavras que parecem simples e não são. Não sei. Murcho disse que a pessoa para dizer não sei tem de ter uma certa carga de humildade. E que a maioria das pessoas prefere ter uma opinião vazia a não ter nenhuma. Prefere fingir que sabe. Porque dizer não sei numa conversa, numa reunião, numa discussão online, é perder terreno. É baixar a cauda.

No final da conversa, quase como quem deixa cair uma última pedra no poço, Murcho desmontou Descartes. Disse que “penso logo existo” é uma falácia. Que a existência e o pensamento estão no mesmo patamar de certeza, e que derivar uma da outra é simplesmente falacioso. As duas coisas estão a par. Disse-o sobre o filósofo que o trouxe para a filosofia. Sem drama. Sem hesitação.

Talvez seja isso, no fundo, pensar bem. Não chegar a grandes certezas. Ser capaz de olhar para o que se acreditava, incluindo para os próprios argumentos, e dizer: isto está errado. As duas coisas estão a par.

Sócrates pagou com a vida por fazer essa pergunta aos poderosos de Atenas. Nós apenas temos de aguentar o desconforto.

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Desidério Murcho
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As pessoas têm a vergonha de dizer que não sei. E é isso que gera o opinólogo constante. Portanto, se a pessoa ouviu uma opinião qualquer, completamente vazia na internet, acerca de um assunto que ela não estudou, mas se agora alguém lhe pergunta qualquer coisa acerca desse assunto, ela não vai perder a oportunidade de fingir que sabe. Nós somos pavões, ok? Só que os pavões fazem essa coisa com as penas, não é? Mas nós fazemos com o discurso. Fazemos com o discurso, com o carro caro que compramos, com as roupas que usamos, com o iPhone caro que compramos. essa coisa, o impacto social que nós temos nos outros, a ideia de querer ter e querer estar acima na hierarquia social para os seres humanos é muito importante, é do 21 mas é muito importante

Jorge Correia
00:53
Há uma coisa estranha uma espécie de buzina na minha cabeça que acontece quando alguém diz É a minha opinião. A conversa para como se a posse da ideia, a minha opinião, a minha ideia, a tornasse inatacável. Como se o facto de ser a sua ideia a dispensasse de ser verdadeira. Quantas coisas que dizemos por dia são genuinamente para comunicar, para chegar ao outro, para explicar alguma coisa, para tocar a outra pessoa. E quantas são simplesmente para impressionar, para aparecer, para não perder tempo. Há uma experiência feita em laboratório, num laboratório social, que me é difícil esquecer. Uma experiência onde se mostra o mesmo vídeo, exatamente o mesmo vídeo, a dois grupos de pessoas que pensam coisas diferentes. Exatamente o mesmo vídeo, mas a grupos diferentes. E esse vídeo é descrito a qualquer um dos grupos de forma diferente. E é aí que acontece algo inusitado, pelo menos até esta experiência. é que os dois grupos, perante as duas versões, apesar de ser o mesmo vídeo, chegam a conclusões opostas sobre aquilo que estavam a ver. Não era falta de inteligência ou capacidade de ouvir, era outra coisa, era o facto dos seres humanos não processarem informação de forma neutra, processam-na em função de quem são, do grupo a que pertencem, do que precisam que seja verdade, no fundo, de uma perspectiva. Então, afinal, e se o problema não estiver nas redes sociais, nem nas pessoas que optam por nos mentir, mas antes disso, na forma como o nosso cérebro foi evoluindo ao longo do tempo? Desidério Murs, convidado desta edição, é filósofo. Formado em Portugal, doutorado na Virgínia, passou anos nas academias norte-americanas antes de regressar ao espaço lusófono. Fundou o projeto Crítica, com uma convicção simples e difícil de que o pensamento rigoroso não é propriedade da academia. Deve ter arranjado um par de bons amigos. Escreve e fala com uma clareza que incomoda porque não faz concessões àquilo que as pessoas gostariam de ouvir. Nesta conversa, ele diz que a linguagem humana evoluiu principalmente para enganar, que raciocionar é um bem contra a natura e que dizer, em minha opinião, é o pior argumento possível para demonstrar a sua tese. é preciso provar. E eu perguntei-me e a tua opinião, a minha, vale alguma coisa?

Desidério Murcho
03:29
É curioso que há certos paralelos entre a sociedade que nós vivemos hoje e a sociedade da Grécia na Antiguidade, que foi onde começou a nossa versão da filosofia, a versão europeia da filosofia, digamos assim, não é? Porque por vezes as pessoas falam de filosofia como se a única versão de filosofia fosse a filosofia europeia, de raiz europeia, mas há outras tradições filosóficas, mas a única que eu conheço bem é de facto a nossa, que nasce-se na Grécia e na Antiguidade, e curiosamente nasce-se na Ásia Menor, que é uma coisa que poucas pessoas sabem. Nós dizemos que é a tradição europeia, mas é uma tradição europeia com um pé na Ásia Menor. Portanto, fomos lá copiar e depois pensamos sobre aquilo. Exatamente. E essa era uma preocupação já naquele tempo. Era uma preocupação em particular, que começa em particular com Platão, que é a preocupação de como distinguir as informações, as pseudo-informações, a informação inadequada, errada, errónia, da verdade. Essa é uma preocupação imensa que emerge com Platão.

Jorge Correia
04:20
Essa era a pergunta original. No fundo, onde é que está aqui a fronteira entre a verdade e a mentira? Entre a falácia e aquilo em que podemos confiar? Exatamente.

Desidério Murcho
04:28
E o ponto era também que poucas pessoas sabem, porque isto é um bocadinho incómodo para os filósofos reconhecerem que a nossa origem não é tão nobre assim. E o que eu quero dizer com isto é o seguinte, é que os primeiros filósofos, ou seja, antes de Platão e antes de Sócrates, os primeiros filósofos não se distinguiam bem de, Homero ou de Isíodo, no sentido em que eles contavam umas histórias acerca da origem do universo com base em provas zero. Eram só umas histórias que eles contavam.

Jorge Correia
04:57
Era só uma narrativa. Era uma narrativa, eles não sabiam. Portanto, a filosofia nasce quase de uma forma novelesca para contar a história da humanidade, para a explicar.

Desidério Murcho
05:04
Talk about fake news. A filosofia nasce com fake news, se nós quisermos falar dessa maneira chocante. Nasce com fake news, chega a tal dizer que tudo começou com a água, o outro diz que tudo começou com o ar, o outro diz que tudo começou com o fogo as pessoas perguntavam, mas como é que tu sabes isso? Bom, eu subiava e passava ao lado, porque eles não sabiam nada. E quando os filósofos dão conta de que em grande parte essas primeiras perspectivas filosóficas, é que nós de uma maneira muito chique, nós gostamos de dizer que são teorias filosóficas, não é? Porque dá logo lá. Dá pujança e dá autoridade ao filósofo. Exatamente, dá logo autoridade. Para os nossos senhores, olha, isso é uma conversa que o Gás inventou de não ter mais nada a fazer, não é? O Gás inventou aquilo. Ninguém vai dizer isso. Mas basicamente era isto. Eram especulações vácuas, no sentido em que eles não se baseavam em provas apropriadas.

Jorge Correia
05:49
Porquê? Porque se estava à procura, como agora, de um sentido para a vida, de um sentido para as coisas?

Desidério Murcho
05:54
Não é tanto isso, Jorge. É mais a questão que, pense bem, desde que há humanidade que há histórias. Histórias. Os seres humanos adoram histórias. E essa é uma das coisas mais impressionantes das crianças. As crianças veem, por exemplo, desenhos animados, em que acontecem coisas fisicamente impossíveis. com animais que falam e com inúmeras coisas. E elas distinguem perfeitamente o que é ficção do que é realidade. Elas sabem que os cães não falam. Todavia gostam da história? Mas gostam da história. Nós temos uma capacidade incrível para descodificar histórias, sabendo que são histórias e sabendo que são ficcionais. E mesmo assim temos uma adesão emocional profunda pela ficção. A filosofia nasceu disso, porque as narrativas de Homero, Ulisses, era ficcional. Toda a gente sabia que era aproximadamente ficcional. talvez tivesse alguns raminhos de verdade aqui e acolá mas era basicamente ficcional e as pessoas sabiam disso mas ficavam fascinadas com isso aí mesmo os filósofos simplesmente apanharam a boleia e foram por aí fora com histórias que são basicamente ficcionais a primeira vez que os filósofos começam realmente a perguntar-se mas será que realmente sabemos isto que dizemos que sabemos? foi Sócrates e Sócrates teve de facto esse impacto profundo

Jorge Correia
07:02
e acabou mal muito mal porque ele começou a fazer perguntas, começou a questionar no fundo começou pela arte de perguntar denunciar a ignorância coletiva, em particular

Desidério Murcho
07:12
dos poderosos? Ele começou precisamente com essa preocupação que o Jorge trouxe aqui, mas como é que eles sabem isto que dizem que sabem? Ok, as pessoas mais supostamente sabedoras da nossa sociedade passeiam-se pela Ágora aqui de Atenas, muito vaidosas muito cheias de si mesmas e dizem que sabem estas coisas acerca do que é que os deuses preferem e acerca do que é o bem e do que é o mal e o Sócrates muito humildemente chegava ao pé e dizia, ok, então sabes essas coisas todas, eu também quero saber, não é? eu sou uma pessoa humilde, eu quero saber, explica-me lá. E depois descobriu-se o quê? Que a pessoa pensava que sabia, mas não sabia.

Jorge Correia
07:42
Portanto, meteu-se numa carga de trabalhos. É para carga de trabalhos. É para isso que os filósofos servem. Para que é que serve um filósofo? Eu sei para que é que serve um carpinteiro, um eletricista,

Desidério Murcho
07:50
um engenheiro. Tu e o filósofo? Isso é uma questão curiosa. Há um certo sentido em que a filosofia é inevitável. A nossa única opção é fazê-la bem ou mal. Fazê-la conscientemente ou fazê-la inconscientemente. Porque inevitavelmente, quer dizer, quando nós fazemos arte, por exemplo, nós deparamos-nos com questões filosóficas o que é que é, afinal, exatamente uma obra de arte? Não é nada fácil explicar o que é uma obra de arte. Esta é mais simples.

Jorge Correia
08:16
Portanto, se o quadro em branco é arte ou não é arte,

Desidério Murcho
08:19
se pendurar uma banana,

Jorge Correia
08:20
uma casca de banana ali na padrinha, se é arte ou não é…

Desidério Murcho
08:22
Ou uma coisa até mais, talvez, com um pouco mais de substância. Porque essa talvez seja mais social do que outra coisa, que tem muito a ver com o que é que a sociedade considera que é arte ou não. Mas uma coisa com mais de substância é a seguinte. Pense na Seja da Sinfonia de Beethoven. É maravilhosa. Mas o que é exatamente a Seja da Sinfonia de Beethoven?

Jorge Correia
08:34
Mas temos um problema de definição do que é que é arte ou do que é que são as coisas.

Desidério Murcho
08:38
O problema das definições é precisamente, pelo testemunho que nós temos de Aristóteles e também de Platão, é precisamente a questão que foi introduzida por Sócrates. Sócrates começou a perguntar como é que defines exatamente essa coisa que tu falas. Tu dizes que és um especialista acerca da piedade, mas o que é isso exatamente da piedade? Como é que isso se define? Tu dizes que aprecias a coragem e as outras virtudes, mas como é que tu defines exatamente a coragem? O que é que é isso exatamente a coragem? E isso é um passo muito importante na nossa compreensão das coisas. Para nós compreendermos o mundo, a natureza e o próprio mundo humano, nós precisamos ter uma definição mais precisa das coisas.

Jorge Correia
09:09
Então e como é que há pessoas que passam a vida inteira sem fazer nenhuma pergunta filosófica séria? E continuam a viver, se calhar.

Desidério Murcho
09:17
Mas será que há? Será que as fazem sem terem bem noção? Repare, por exemplo…

Jorge Correia
09:21
Que perguntas fazemos nós? Que perguntas é que nos estão inscritas já no ADN que nós fazemos, mesmo sem as escrever, sem as inscrever?

Desidério Murcho
09:36
Talvez em toda a gente faça perguntas filosóficas, mas toda a gente tem reações filosóficas, no sentido de que toda a gente tem escolhas, e essas escolhas inevitavelmente têm uma carga filosófica. Escolhas morais? Em qualquer fase da vida, em qualquer altura da vida, em qualquer faceta da vida. Se a pessoa escolhe seguir um certo curso de vida, é porque ela pensa que esse curso de vida é o melhor para ela. Mas será que é realmente o melhor para ela? Agora vai depender se a pessoa é mais refletida ou não. Se ela não for muito refletida, ela segue o curso de vida que é mais comum no seu meio. Se ela for mais refletida, ela pergunta-se ok, isto é o que é mais normal fazer aqui no meu meio, o que se espera de mim, mas será que é isto que me vai fazer realmente feliz? Será que eu vou realmente sentir-me realizado com isto ou não? Essa pessoa já tem mais uma capacidade acrescida de fazer uma pergunta mais filosófica. A outra simplesmente vai na onda e depois pode descobrir quando chega à minha idade que agora afinal não era bem exatamente isto que eu queria fazer e agora é um bocadinho tarde para voltar atrás.

Jorge Correia
10:22
Arrependemos sempre de alguma maneira, porque no fundo nós temos 50 mil caminhos para ir, ou 10 mais importantes casamos ou não casamos vamos para esta profissão ou para aquela mudamos de cidade ou não mudamos no fim, se nós fizermos uma retrospectiva e olharmos para aquilo que foi o nosso percurso de vida se calhar dizemos se fosse por acoláia que era

Desidério Murcho
10:42
eu penso que o que é importante aqui é compreender a importância da humildade e isto na verdade está estudado do ponto de vista um pouco mais técnico em teoria da decisão que é como é que nós tomamos a decisão melhor possível sabendo que não vai ser a decisão ótima e porquê que não é a decisão ótima porque nós nunca estamos numa situação de termos duas coisas juntas recursos infinitos para investir na decisão e informação completa. Portanto, como é que nós conseguimos tomar decisões que sejam o melhor naquele contexto, uma vez que nós não temos o tempo infinito para ficar a refletir, e ao mesmo tempo também não temos informação completa?

Jorge Correia
11:16
Então temos um problema da incerteza, em primeiro lugar, e por outro lado também, em função do tempo em que vamos tomar a decisão, temos uma perspectiva diferente.

Desidério Murcho
11:25
Exatamente. E portanto podemos decidir um caminho diferente. Vamos, inevitavelmente, tomar decisões que não são as melhores. Isto era um tema que era muito, digamos, atraente e era muito objeto constante de ficção e narrativas e de histórias na Grécia da Antiguidade. Quer dizer, havia a noção de que, de alguma maneira, nós tentamos caminhar pelos nossos próprios pés, mas os deuses, de alguma maneira, fazem as coisas de tal maneira que não vai dar exatamente aquilo que nós queríamos, vai dar aquilo que os deuses decidiram. Esta era uma noção que era muito comum na Grécia da Antiguidade.

Jorge Correia
11:57
E passamos a responsabilidade lá para o outro. O Deus é que decidiu que podíamos ir para aqui ou para colar?

Desidério Murcho
12:01
É uma coisa curiosa porque na Grécia da Antiguidade não se passava a responsabilidade para os deuses. Apenas havia uma certa noção de que nós éramos títulos dos deuses, numa certa medida.

Jorge Correia
12:11
Éramos vítimas deles?

Desidério Murcho
12:11
Éramos vítimas deles, mas isso não nos retirava a responsabilidade. Tínhamos uma responsabilidade humana. Continuávamos a ser responsáveis, mas apesar de a nossa capacidade de decidir ser em parte ilusória, porque nós decidíamos A em vez de B, sem sabermos que aquela decisão tinha sido sutilmente influenciada pelos deuses.

Jorge Correia
12:28
Ah, e os malandros estavam lá, todos a combinar uns com os outros, como é que havia de ser a nossa vida, as pragas e tudo aquilo que nos podia acontecer. Lembra-se da primeira pergunta filosófica que lhe causou, que lhe perturbou a mente?

Desidério Murcho
12:43
A primeira pergunta, propriamente não, mas a prática que me atraiu para a filosofia e que achei fascinante foi o estudo conceptual cuidadoso, questões que parecem muito simples. e o que me levou a isso foi Descartes um filósofo que curiosamente hoje em dia eu não considero que seja particularmente, digamos, recomendável mas na altura impressionou-me bastante porque quando li Descartes pela primeira vez eu devia ter uns 17 anos talvez eu descobri com os pontos mas isto é mais ou menos o género de coisa que eu faço mas mal, evidentemente, mas isto é mais ou menos o género de coisa que eu faço que é perguntar como é que estes conceitos que encaixam uns com os outros o que é que se conclui de um conceito o que é que não se conclui de outros conceitos como é que nós podemos ter certeza uma questão que o Jorge já trouxe aqui que nós podemos distinguir aquilo que realmente sabemos, aquilo que pensamos que sabemos. Essas foram as questões que realmente me conduziram à filosofia.

Jorge Correia
13:35
É um filósofo é aquele que sabe mais ou é aquilo que duvida mais?

Desidério Murcho
13:40
Bom, é só uma falsa dicotomia, talvez, não é? A filosofia é uma área, de facto, muito vasta. Tem muitas áreas. Tem áreas mais práticas. A filosofia moral, a filosofia política são áreas mais práticas. Tem áreas mais ligadas às artes. Temos estética, temos filosofia das artes. Tem áreas um pouco mais abstratas, ligadas com o conhecimento, como a teoria do conhecimento, áreas mais ligadas à natureza da realidade, mais parecidas com a física, como é o caso da metafísica. Mas temos uma área que ficou um pouco esquecida na história da filosofia, que é a área da filosofia prática, que é a área da filosofia de vida, que é como viver a vida. Para que é que nos serve isso? Ora bem, esse é um ponto curioso, porque se hoje em dia me apresentar como filósofo, as pessoas ficam assim, aquele cara é filósofo, talvez seja um bocado pertencioso, um bocado esquisito, o que é que é isto? Agora repare, isto é muito diferente se eu vou apresentar como pintor ou como poeta ou como engenheiro. É a coisa mais normal do mundo. Claro, o gajo é engenheiro. Quer dizer, estudou engenharia e engenheiro. Pinta quadro é pintor. Qual é a dúvida? Porque conseguimos concretizar? Ou porque a tarefa… Eu penso que a origem disto é histórica. E é histórica pelo seguinte. Poucas pessoas se apercebem da influência impressionante que Sócrates teve na história da filosofia. Aliás, és uma contrafactual curiosa. Se não fosse o monopólio cristão sobre o pensamento filosófico que apareceu a partir de Agostinho, e a partir do cristianismo, provavelmente nós hoje teríamos inúmeras ruas com o nome de Sócrates. Eu não estou a falar do ex-ministro, ok?

Jorge Correia
15:01
Estamos a falar do verdadeiro, do original.

Desidério Murcho
15:03
Do outro tipo de Sócrates, ok? Nós hoje provavelmente teríamos feriados em nome de Sócrates, teríamos… Porque Sócrates teve uma influência tal que continuava a ser venerado como o paradigma do verdadeiro filósofo mais de 500 anos depois de ter morrido.

Jorge Correia
15:20
O que é que devemos a Sócrates? Qual é o tributo de Sócrates hoje na nossa vida comum?

Desidério Murcho
15:27
temos de distinguir entre o tributo que nós temos hoje dele, da influência histórica que ele teve são duas coisas diferentes, porque a filosofia teve como uma espécie de uma interrupção um bocadinho infeliz, eu não quero indispor as pessoas que são religiosas eu não sou religioso, mas respeito e tenho muitos amigos que são religiosos, mas o que aconteceu com a história da filosofia foi um pouco bizarro, porque com a entrada do cristianismo, a filosofia viu-se numa situação que como nunca tinha estado a filosofia tinha sido sempre livre e na verdade tinha tido até alguns problemas políticos, Sócrates não foi o primeiro filósofo que foi acusado e que foi morto foi o primeiro que foi morto porque os outros fugiam e Sócrates não fugiu e isso foi uma das coisas que impressionou as pessoas, mas a filosofia sempre dado o seu caráter de liberdade sempre teve uma certa dificuldade um certo conflito com o poder político mas quando surgiu a religião cristã a filosofia viu-se pela primeira vez na situação de serva da teologia serva da religião a religião tentou agrilhoar a filosofia? a filosofia passou a ser vista como um instrumento da religião e isso mudou de uma maneira grotesca a história da filosofia então o impacto de Sócrates e o impacto da própria filosofia sofre digamos um interregno durante mais de mil anos praticamente nós, mesmo no século XVIII apesar de os filósofos do século XVII e do século XVIII começam a fazer filosofia de uma maneira já bastante independente da religião coisa que não acontecia no século XV no século XII, no século XIII em que a filosofia era explicitamente assumidamente uma área ao serviço da religião. Depois, os filósofos começam a fazer a filosofia de uma maneira um pouco mais livre, mas os filósofos em si eram religiosos. Por exemplo, a teoria moral de Kant. A teoria moral de Kant não faz o mínimo sentido fora do contexto cristão. Se uma pessoa não acredita em Deus, aquela teoria moral simplesmente não faz o mínimo sentido. Mas, no entanto, o aspecto religioso não está presente explicitamente na filosofia de Kant. Mas está o contexto, não é? Mas está o contexto. Então, a filosofia só se libertou realmente desse sufoco religioso a partir do século XIX. E é por isso que o impacto que os filósofos tiveram e o próprio Sócrates teve na história da filosofia é um pouco acidentado, digamos, devido a este interregno imenso. Porque, repara, a posição de Sócrates era muito simples. Ele chegava ao pé de pessoas que diziam que sabiam coisas. E ele perguntava-lhes, ok, mas que provas tens? Diz, afirmas que sabes essa coisa. Mas quais são as provas? Como é que tu sabes? Como é que descobriste? Quer dizer, um Deus falou, alguém te mandou um WhatsApp, como é que foi? E depois as pessoas ficavam muito incomodadas porque não eram capazes de explicar como é que raios sabiam aquilo que realmente sabiam.

Jorge Correia
17:59
Ficavam atrapalhadas. Hoje em dia se calhar não é muito diferente, não é? Se nós perguntarmos a um poderoso, olha lá, como é que tu sabes isso que estás para dizer? Na verdade, eu penso que esta é uma das perguntas mais revolucionárias

Desidério Murcho
18:10
que um ser humano pode fazer e mais libertadoras que um ser humano pode fazer. Repara, nós é claro que precisamos do conhecimento das outras pessoas. eu não posso saber tudo ao mesmo tempo, certo? Eu não posso saber engenharia para fazer uma casa, eu não posso saber medicina, eu tenho que, eu dependo do conhecimento especializado das outras pessoas, evidente. Então e porquê que fingimos saber das coisas? Aí é que está, é que não deveríamos, precisamente porque dependemos do conhecimento dos outros, devíamos ser muito mais responsáveis e dizer, não sei, quando não sabemos. Só que isso parece mal, Jorge. Está a ver? Não sei me perguntar aqui uma coisa qualquer e eu disser candidamente, olha, eu não sei. Epá, se eu disser não, claro, eu sei, isso é muito mais prestigiante.

Jorge Correia
18:50
Mas isso em relação à autoridade. Mas por outro lado também, para mim que pergunto, também pode ser incostente se eu perguntar ao médico uma determinada coisa, que é o supra-sumo daquela, que é a autoridade máxima daquele tema, e ele me disser, oh Jorge, eu até nem sei, eu vou ficar muito atrapalhado.

Desidério Murcho
19:05
Pois provavelmente isso acontece. E aí é uma coisa curiosa que Platão é uma figura um pouco maltratada no ensino que se faz da filosofia, digamos. O Platão que Jorge tem em mente e o Platão que muitas pessoas que nos estão a ouvir têm em mente é o Platão da teoria das ideias e da algorina da caverna.

Jorge Correia
19:22
E da caverna, cá está, as sombras porque nós não conseguimos ver o mundo que lá está fora.

Desidério Murcho
19:26
Meu Deus, isso é tão redutor relativamente àquilo que é realmente Platão. E uma das coisas que é impressionante em Platão e que ainda hoje é revolucionária porque a filosofia ainda hoje se afastou um pouco dessa ideia, é que Platão não entendia a filosofia como um conjunto de doutrinas. Ele entendia a filosofia como uma arte de explorar ideias. Então a ideia dele, e isto pode ter sido presumivelmente por influência de Sócrates, do seu amigo de Sócrates, que morreu condenado. Quer dizer, a ideia de Platão era que a filosofia é em grande parte um tatear o terreno, mais do que propriamente erigir doutrinas. E, ironicamente, o Platão que nos chegou é o Platão das doutrinas. Mas essas doutrinas que ele avançou em alguns diálogos são tentativas de elaborar algumas ideias. E essas mesmas doutrinas, as doutrinas mais famosas que nós associamos ao Platão, foram refutadas por quem? Pelo próprio Platão noutros diálogos.

Jorge Correia
20:13
Portanto, a ideia da contradição no diálogo e na investigação nesse tatear permite que exista um advento da contradição?

Desidério Murcho
20:21
Pois, a ideia é… É uma coisa curiosa. A ideia é… E se nós, em vez de uma maneira vaidosa fingirmos que cada um de nós sabe, se nós dermos as mãos e cooperativamente procurarmos descobrir a verdade? E humildemente. Porque, afim e ao cabo, a verdade é extremamente difícil de descobrir em muitas áreas. Claro, em muitas áreas é muito banal. Se está a chover, é óbvio. A gente olha e está a chover, é óbvio. Mas se nós quisermos descobrir a cura do cancro, isso é difícil.

Jorge Correia
20:45
A humildade e essa ideia de conjugação de esforços todavia eu estou a olhar para a sociedade moderna se calhar na antiga também e o que vejo é um cada um por si uma espécie de mais de competitividade do que propriamente de cooperação.

Desidério Murcho
21:01
E isso era exatamente aquilo que Platão não gostava. É uma coisa curiosa que ele em alguns diálogos acusa os filósofos anteriores nomeadamente aqueles que eu falei um que dizia que era tudo água ou dizem que vinha tudo doar, por aí fora e eu lhes, estes gajos parece que estão a falar com crianças e eu conto há histórias a crianças e estou à espera que a gente acredite nisto como é que eles sabem isto?

Jorge Correia
21:25
como é que eles descobriram estas coisas? Era portanto arriscado de ser filósofo e este é um programa sobre perguntas chama-se Pergunta Sempre Por Alguma Razão e inquieta a mim sempre saber e é para mim um privilégio poder perguntar o que é que faz uma boa pergunta ser uma boa pergunta? ou como é que se faz uma boa pergunta?

Desidério Murcho
21:42
Essa é uma questão muito importante. Na verdade há um filósofo contemporâneo que morreu há pouco tempo, Daniel Dennett, que ele insistia em muitos dos seus escritos que uma das coisas mais importantes da filosofia é fazer uma boa pergunta. E ele tem razão num certo sentido. Uma boa pergunta pode ser iluminante. Eu vou dar um exemplo. Todos nós temos a ideia, nós hoje, dada a cosmologia científica, o universo começou com o Big Bang e alguns cientistas se sentem talvez um pouquinho incomodados e não querem falar muito acerca de onde é que veio Big Bang. Mas essa é a pergunta fundamental. De onde é que veio o Big Bang? Onde é que começa? O que é que acontece antes do Big Bang? Aconteceu uma coisa antes? Não aconteceu uma coisa antes? Como é que é? E as perguntas que são mais importantes serem feitas, muitas vezes são perguntas que não têm a resposta. E o mais importante aqui é e essa é a grande diferença, eu acho, que foi introduzida por Sócrates e Platão é não nos apressarmos a dar uma resposta só porque temos vergonha de não ter a resposta. Mas vai dizer, olha, esta é uma pergunta muito importante, é uma pergunta muito séria vamos formulá-la e reformulá-la e pensar dela cuidadosamente para ver se não estamos a fazer uma confusão qualquer, vamos ver se é realmente uma pergunta sólida mas se não temos resposta o melhor é dizer, não temos resposta e vamos continuar à procura da resposta e vamos à procura

Jorge Correia
22:53
entretanto, nós estamos a ensinar às crianças como é que se impina a matéria, como é que se aprende sobre a história de Sócrates lá atrás ou de outras quaisquer mas muito pouco a assumir a treinar ou sequer a aceitar que a criança pensa pela sua própria cabeça é que lhe dava um jeitaço aprender a fazer perguntas.

Desidério Murcho
23:12
Sem dúvida. E isso seria muito importante. Nós temos uma área da filosofia que é uma coisa espantosa, talvez por acidente histórico apenas, que só praticamente as pessoas com formação em filosofia e algumas pessoas com formação em matemática conhecem o que é a lógica, que é precisamente eu sou professor de lógica, ok? Portanto, eu vou puxar a brasa da minha sardinha. O que é a lógica? Exatamente. A lógica é a ciência do pensamento correto, ok? É a ciência que nos ensina a raciocinar corretamente. E as crianças aprendem álgebra e aprendem outras áreas da matemática contém a 15 anos já aprenderam várias coisas teoria das probabilidades, por exemplo, que é uma coisa de facto muito importante, já aprenderam com 15 anos alguns elementos de teoria das probabilidades, depois de seguirem para as áreas da ciência, etc, continuam, décimo, décimo primeiro ano, mas não estudam lógica, quer dizer, no ensino secundário, na disciplina de filosofia, estudam um pedacinho de lógica, que é só um pedacinho muito pequenino, mas a lógica deveria ser estudada transversalmente e desde

Jorge Correia
24:07
mais cedo. Eu volto a perguntar, para quem nos está a ouvir e que não sabe exatamente o que é a lógica, por onde é que vamos?

Desidério Murcho
24:14
De que é que nós estamos a falar? Ora bem, poucas pessoas se percebem que nós raciocinamos todos os dias, ou seja, todos os dias nós concluímos coisas a partir de informações. Nós vemos uma coisa e retiramos uma conclusão. E este ato de concluir coisas a partir de coisas é o raciocínio. A lógica estuda o raciocínio e estuda a diferença entre o bom raciocínio e o mau raciocínio quando nós nos enganamos a raciocinar e quando nós raciocinamos corretamente. E nós temos instrumentos matemáticos para fazer isso. É um mapa? É um mapa, é uma bússola, é uma orientação, é uma maneira de nós aprendermos a raciocinar melhor. E a questão, a grande dificuldade aqui, Jorge, é uma coisa curiosa. Num certo sentido, nas mais diversas profissões, toda a gente aprende a raciocinar naquele contexto delimitado. Na bolha. Naquela, é exatamente. Temos aquela bolha, temos referenciais e conseguimos… Exatamente, temos ali um conjunto de instrumentos técnicos, se a pessoa for cientista tem um conjunto de instrumentos estatísticos, teoria das probabilidades, etc, tem matemática.

Jorge Correia
25:04
Não temos cabeça para tudo, não é?

Desidério Murcho
25:06
Mas o que é curioso é como é que nós conseguimos, digamos limitar o exercício da racionalidade às nossas profissões e depois na nossa vida comum, na nossa vida social na nossa vida afetiva simplesmente não queremos saber da lógica e é como se nós estivéssemos raciocinando no tempo todo mas nós estamos raciocinando no tempo todo também no resto da nossa vida

Jorge Correia
25:24
A lógica é uma batata, ouvi dizer quando não queremos saber o que é que Há perguntas que é melhor não fazer

Desidério Murcho
25:35
Talvez em alguns contextos morais e alguns contextos afetivos particularmente sensíveis seja desagradável e inútil e provoque sofrimento a alguém fazer perguntas que não valeria a pena fazer Porque no fundo, no fundo uma pergunta é um ato subversivo Algumas perguntas são algumas perguntas são subversivas mas também pode haver perguntas lambotas Ô sr. doutor, você é tão maravilhoso, não é?

Jorge Correia
25:58
Essa é uma pergunta Porquê que o sr. doutor é tão extraordinário? Senhor professor, mas esse saber que nos ilumina de onde vem essa sabiência É uma pergunta, não é? Portanto, as perguntas na realidade podem ser perguntas honestas ou perguntas enviesadas podem ser que servem interesse servem um determinado interesse

Desidério Murcho
26:16
que nós temos uma determinada altura O uso da linguagem, o uso humano da linguagem é uma das coisas sociologicamente e moralmente mais fascinantes porque os seres humanos têm uma capacidade impressionante para usar a linguagem para fazer coisas maravilhosas nós fazemos poesia maravilhosa temos falando de pessoa mas também usamos a linguagem para iludir para enganar para iludir profundamente as pessoas portanto nós usamos a linguagem para os mais diversos fins somos uns grandes mentirosos uns mais que outros uns mais que outros mas talvez isso seja um dos lados que faça parte da própria natureza humana faça parte da da maneira como os seres humanos evoluíram e da maneira como a própria linguagem evoluiu poucas pessoas se apercebem da dificuldade que nós temos a raciocinar corretamente e que isto resulta diretamente do nosso legado, digamos, evolutivo. Pense o seguinte, nós reconhecemos rostos humanos com muita facilidade. Hoje em dia os nossos telefones conseguem reconhecer rostos humanos, mas é hoje em dia, quando nós tínhamos as primeiras calculadoras, não eram capazes de fazer isto, não tinham capacidade de computação, certo? Qual era a capacidade de computação de uma calculadora, daquelas antigas que havia. No entanto, essas calculadoras, você punha lá 329 a dividir por 40 e fazia aquilo em menos de um segundo. Faça você essa conta em menos de um segundo, sem papel e sem lápis. Não é capaz. Vai ter de usar papel, vai ter de usar lápis e vai demorar tempo. E no entanto, você consegue reconhecer um rosto humano rapidamente. Ora, a computação para fazer uma conta dividir é muito inferior à computação necessária à computação necessária para reconhecer um rosto humano. Então, como é que nós temos tanta capacidade para reconhecer um rosto humano e temos tão pouca capacidade para fazer uma conta dividir? Porquê? porque o raciocínio humano não foi desenvolvido para fazer física, para fazer matemática para fazer lógica, foi desenvolvido para falarmos uns com os outros e, crucialmente para nos enganarmos uns aos outros ok? e portanto nós temos uma grande capacidade para usar a linguagem para fazer essas coisas temos uma grande capacidade para raciocinar de uma maneira malandra mas temos menos capacidade para raciocinar bem, talvez seja por isso que a ciência só surgiu no século XVII, pense bem no século V a.C. a ciência do ponto de vista… Se você olhar para vários indicadores, a ciência poderia ter surgido no século V a.C. Não surgiu.

Jorge Correia
28:32
Portanto, está explicado o segredo dos aldrabões. E porquê que os aldrabões têm tanto sucesso?

Desidério Murcho
28:36
No fundo, eles é que têm a razão. Eles é que são o sal da terra, num certo sentido.

Jorge Correia
28:46
Se ainda não subscreveu Pergunta Simples, faça-o agora na aplicação onde está a ouvir. É de graça e garante que não perde o próximo episódio. Pode ser seguir, pode ser subscrever, pode ser no RTP Play, no Spotify ou no YouTube. Mas o importante mesmo é subscrever. Ou então, por e-mail em perguntasimples.com Em princípio, nós lemos bem os rostos porque, primeiro para saber se é ameaçador ou não é, depois para saber se é sedutor ou não é sedutor. Se precisa ser a minha tribo ou não. Ah, se é igual a nós. Exatamente. E por isso é que nós, o branco, se olha para o branco e se sente da mesma maneira e acha que o que é diferente é alguém que nós tendemos a afastar?

Desidério Murcho
29:25
Exatamente, exatamente. Nós precisamos de reflexão, civilização, filosofia bem feita para reconhecer os preconceitos que são naturais nos seres humanos. E um dos preconceitos que é natural dos seres humanos é a rejeição da diferença, é a ideia de identidade tribal. Essa ideia de identidade tribal hoje em dia é preocupante ver como está sendo explorada pelos meios de comunicação modernos em que as pessoas se radicalizam em duas posições políticas antagónicas e consideram que as pessoas que estão do outro lado são simplesmente malévolas e que não são de levar a sério. Mas isto faz parte da natureza humana, mas não é destrutivo.

Jorge Correia
30:01
Nós tínhamos falado antes da nossa conversa, quando estávamos a preparar esta conversa, dos vieses que nós temos a ver as coisas. E tinha partilhado comigo um vídeo que é exatamente o mesmo, mas visto por grupos diferentes e da maneira como a história se conta, pelo prisma da história mostra como as pessoas pensam coisas diferentes em função daquilo que lhes é mostrado

Desidério Murcho
30:21
Exatamente As investigações mais recentes acerca dos vieses cognitivos humanos ou das falácias em que as pessoas caem mostram que o principal motor nós temos que distinguir dois grandes tipos de ilusões cognitivas ou de falácias temos as involuntárias que decorrem simplesmente da nossa estrutura cognitiva que é um pouco como as ilusões visuais nós olhamos ao longe parece que é água, afinal é só o calor mas essas ilusões são fáceis de corrigir porque são involuntárias e portanto têm uma carga, digamos, emocional agarrada. Agora, as outras ilusões, essas são as difíceis, e essas são as ilusões que são ilusões motivadas, são ilusões que a pessoa, no certo sentido, cultiva essas ilusões, porque são as ilusões que a protegem. O vídeo que nós estávamos a falar há pouco é uma das muitas investigações que têm sido feitas laboratorialmente recentemente, em que mostra o mesmo vídeo a grupos de republicanos e grupos de democratas, e descreve o vídeo, ora como uma manifestação à frente de uma clínica de aborto, uma manifestação contra o aborto, ora como uma manifestação à frente de um centro de recrutamento militar contra a proibição, uma coisa antiga, a proibição de homossexuais no exército.

Jorge Correia
31:22
Portanto, temos dois prismas, dois grupos, um democrata e outro republicano que tem ideias muito radicais sobre a questão da interrupção voluntária de gravidez e a questão do serviço militar obrigatório, mas a manifestação é a mesma.

Desidério Murcho
31:32
A manifestação é a mesma, vem exatamente do mesmo vídeo, mas esse vídeo é descrito a esses dois grupos com duas descrições diferentes. ou descrevem-no como estando uma manifestação à frente de uma clínica de aborto, ou uma manifestação à frente de um centro de recrutamento do exército. E agora, os democratas vão olhar para a manifestação à frente da clínica do aborto e vão dizer que a manifestação é intimidatória e bloqueia o acesso à via pública.

Jorge Correia
31:55
E que isso é inaceitável. E que isso é inaceitável.

Desidério Murcho
31:56
Os republicanos dizem que não é uma manifestação perfeitamente livre e perfeitamente pacífica. Quando você inverte para outra manifestação à frente de outro edifício, as posições invertem-se. São pessoas que estão vendo exatamente o mesmo vídeo, com descrições diferentes. E conforme você descreve de uma maneira, eles dizem que a manifestação é pacífica, se você descreve de outra maneira, eles dizem que a manifestação não é pacífica. E é o mesmo vídeo. O que é que aprendemos com isso, com essa experiência? Estamos a brincar com o fogo no mundo contemporâneo, com esta tendência que nós temos para fazer esta bipolarização profunda. Nós estamos a brincar com o fogo. Isto é muito perigoso. Em última análise, a única saída disto vai ser a guerra profunda. E nós não podemos continuar a considerar é apropriado que é responsável, que é civilizado da nossa parte, continuar a alimentar esta divisão política profunda e na verdade absurda entre democratas e republicanos à esquerda e direita. E reparto também numa coisa que é o aleatório das posições eu não acompanho muito a política portuguesa nem a política europeia porque as minhas referências bibliográficas são mais norte-americanas da academia e portanto aquilo que eu sei mais é acerca do que acontece na política norte-americana por essa via. Não é que eu acompanhe a política norte-americana Mas que depois se vai espalhando pelo mundo Mas aquilo acaba de estar na própria bibliografia que eu leio Agora, aí uma coisa curiosa as posições políticas defendidas por republicanos e democratas são em grande parte aleatórias, ou seja quando os democratas são os primeiros a defender uma certa posição, há os republicanos aparecem-se a defender, não há Mas as posições podiam estar trocadas Vou dar o exemplo exatamente do aborto. No caso do aborto os republicanos são contra a liberalização do aborto. Os democratas são a favor. Mas as coisas podiam estar trocadas. Hoje em dia, os republicanos são contra, dizem que é um direito à vida, o feto é um ser humano, matar o ser humano não pode ser. E os democratas dizem, claro que pode ser, porque a mulher tem direito a fazer suas escolhas, isto é um peso enorme para as mulheres, sobretudo mais pobres, e é claro que o aborto tem que ser legal. Mas as coisas podiam estar invertidas. Se tivessem sido os republicanos os primeiros a falar qualquer coisa acerca do aborto, eles poderiam ter falado o seguinte, Olha, nós temos estatísticas, e estas estatísticas são reais, Jorge, nós temos estatísticas que mostram que nas cidades norte-americanas em que há mais mães solteiras, há muito mais criminalidade. Há uma correlação direta entre mães solteiras e criminalidade por razões que são óbvias de compreender. Portanto, se nós permitirmos o aborto, sobretudo o acesso gratuito às mulheres mais pobres, nós vamos ter menos criminalidade, que é um problema, que é uma preocupação constante dos republicanos. Portanto, esta seria uma boa razão para eles serem a favor do aborto. Pessoal vezes, se os republicanos tivessem começado por esta ponta, os democratas apareciam e diziam, não, não, não, nem pensar nisso. Isso é uma discriminação social injusta, porque no fundo nós estamos a negar às mesmas mais pobres o direito a constituir família.

Jorge Correia
34:41
Então quer dizer que nos estamos a organizar politicamente não em função daquilo que pensamos verdadeiramente sobre as coisas e na essência, mas uma grande parte disso é contra o outro grupo com que eu não me identifico?

Desidério Murcho
34:54
É isso mesmo. E isto é grave. E isto não pode ser encarado como se fosse normal. Isto não é normal. Quer dizer, se nós imaginarmos, se os seres humanos não se extinguirem, se nós imaginarmos como é que serão os seres humanos daqui a 300 anos, eu duvido que as pessoas olhem para este período da história e pensem olha que coisa normal, coisa bonita que eles fizeram naquele tempo. Não, eles vão olhar para nós como nós olhamos para os nossos antepassados. Os gás tinham escravos. Que bárbaros. Que coisa louca completamente. As mulheres não tinham direito. As mulheres eram encaradas mais ou menos a paz das crianças. Que loucura completamente era aquela. Que sociedade era esta. Eu acho que daqui a 300 anos, se nós não se extinguirmos, vão olhar para trás, vão olhar para isto e vão dizer aquelas pessoas que estavam todas loucas. Se não nos xingermos, porquê? Isso é uma possibilidade real? Bom, eu não sou especialista nessa área, não sei, mas com o poder atómico que nós temos não é uma possibilidade remota. O potencial de erro existe.

Jorge Correia
35:42
É claro. Menos uma racionalidade. Bom, temos aqui o problema das opiniões. Estamos num mundo onde toda a gente tem opinião sobre tudo. Todos podemos ter opinião sobre tudo?

Desidério Murcho
35:52
Ok, isso é uma questão curiosa, porque as pessoas costumam confundir já as duas coisas diferentes. Uma coisa é ter direito político a ter uma opinião. Outra coisa é ter o direito epistémico a ter uma opinião.

Jorge Correia
36:01
Então, qual é a diferença? Uma palavra esquisita, epistémica. Neste momento houve quatro ouvintes que morreram. Ou só ouvir a palavra epistémica, epistemologia, da que falamos nós.

Desidério Murcho
36:09
O direito político é simplesmente, é melhor organizar uma sociedade de maneira que as pessoas tenham o direito a ter as suas opiniões e que as pessoas não possam ser perseguidas pelas suas opiniões. A liberdade de opinião, no fundo. A liberdade de opinião é uma coisa importante. Mas, por outro lado, a responsabilidade das opiniões é uma coisa diferente. A pessoa não tem o direito em termos de responsabilidade moral de dizer aquilo que lhe apetece se não sabe aquilo que diz. E há aqui uma diferença. Do ponto de vista político talvez seja uma má ideia proibir as pessoas de dizer as neiras em público. Mas do ponto de vista da responsabilidade pessoal não é uma boa ideia as pessoas acharem que só porque é uma opinião e só porque é delas têm o completo direito de dizer mesmo sem provas adequadas. E todas as opiniões valem o mesmo? Claro que não. As opiniões cuidadosamente fundamentadas, cuidadosamente estudadas, cuidadosamente provadas, valem muito mais do que as outras.

Jorge Correia
37:01
E quando alguém diz é a minha opinião, isso vale como argumento? Não, vale como um péssimo argumento. É a minha verdade e a tua verdade, não é?

Desidério Murcho
37:11
Esse é um ponto curioso, não há a minha verdade e a tua verdade. Isso é uma maneira inadequada de falar. A propósito, este é um dos papéis, o Jorge começou a perguntar para que é que serve-se a filosofia. Este é um dos papéis para que serve a filosofia, para clarificar cuidadosamente o nosso discurso. Nós, sem nos darmos conta, somos levados a falar de maneiras que são profundamente ilusórias e que promovem ilusões constantes. Esta ideia de é a minha verdade ou é a tua verdade, o que isto quer dizer é apenas eu penso que é verdadeiro e tu pensas que é verdadeiro.

Jorge Correia
37:37
É uma questão de prisma. É uma questão de prisma, apenas. Então, e se todas as opiniões são legítimas e abertas, há uma liberdade de expressão, para que é que servem os especialistas? Bastamos ter os opinólogos e basta ligar a televisão para conseguirmos ver o…

Desidério Murcho
37:52
Bom, em questões humanas nós precisamos sempre de encontrar um equilíbrio apropriado aqui. Talvez o primeiro filósofo que deu mais de saco a isso tenha sido Aristóteles, que ele dava muita importância na vida moral e na vida política, a conseguir mais ou menos um equilíbrio. E reparto, nós em parte somos herdeiros de uma tradição política. As democracias contemporâneas, que é muito diferente da democracia do tempo da Grécia à Antiguidade, mas as democracias representativas contemporâneas, democracia representativa liberal, é em grande parte uma… uma manta de retalhos em que nós ajeitamos as coisas cuidadosamente tiramos o poder daqui pôs-nos ali, deslocamos não damos o poder completo a uma única instituição o poder está distribuído por várias instituições é de facto uma manta de retalhos que funciona é uma espécie, não é um regime puro como alguns ideólogos políticos querem ter um regime puro, um regime marxista puro digamos assim, outros querem ter um regime capitalista puro, os regimes que realmente funcionam não são puros, são impuros são assim uma mateia de retalhos uma manta de retalhos é que nós tentamos fazer as coisas

Jorge Correia
38:51
que vai havendo uma tensão entre os vários polos de poder

Desidério Murcho
38:55
exatamente, e isso acontece porque as coisas são demasiado complexas, nós gostaríamos que as coisas fossem simples, era tão fácil se as coisas fossem como a física, a física é muito simples é muito óbvio, nós fazemos os cálculos direitinho fazemos um laboratório que vai acontecer exatamente o que nós tínhamos previsto, é uma maravilha mas quanto mais nós avançamos no nível de complexidade, da física para a química, da química para a biologia, da biologia, para as sociedades associadas, para as sociedades humanas quanto mais complexidade nós temos menos nós temos soluções puras e portanto a questão aqui é nós precisamos de equilibrar a liberdade de opinião que é uma coisa importante e nós não queremos os políticos com o poder de mandar as pessoas para a prisão só porque têm opiniões desagradáveis mas temos que equilibrar isso com a responsabilidade pública daquilo que se diz em público e como o Jorge estava a dizer, quer dizer ter a liberdade de opinião não pode significar abafar a voz do especialista porque o especialista tem um papel social muito importante nós precisamos da voz do especialista e precisamos que essa voz seja distinta da voz do opinólogo que não sabe nada porque há tantas que nós estamos a ver, e as redes sociais é um bom

Jorge Correia
39:59
exemplo pessoas, cientistas que estão a falar de uma determinada coisa pela qual estudaram durante muito tempo e subitamente as 10 comentários a seguir que aparecem naquela rede social são a destruir completamente aquela ideia apenas com a base na especulação, na opinião na criação de uma narrativa na criação de uma determinada história

Desidério Murcho
40:22
Sim, porque não há essa noção de uma vez mais vou fazer vamos perder mais três ouvintes aqui não há a ideia da diferença epistémica apropriada o que isto quer dizer? a diferença epistémica apropriada é quando uma pessoa tem a noção de que a outra sabe daquilo que diz e eu não sei E portanto eu devo ter uma atitude de aceitação, uma atitude de deferência perante a outra pessoa que sabe mais do que eu. A deferência epistémica apropriada é muito importante para, digamos, a textura de uma sociedade apropriada.

Jorge Correia
40:55
Voltamos ao Sócrates, mas ele se calhar fazia ao contrário, que é, e eu não sei mas vou perguntar ao poderoso.

Desidério Murcho
40:59
Exatamente, mas a questão é, nós tendemos a confundir dois extremos, que é, a virtude está no meio aqui. A virtude aqui é… Quase sempre não é? Exatamente, quase sempre quando diria Aristóteles. A virtude é a diferença epistémica apropriada. Agora, os extremos disto, quais são? Um é a pessoa ser completamente rebelde, ok? O outro é a pessoa ser completamente lambotas. Ok? São os dois extremos. Quem é que está a ganhar? Bom, é no meio que está a virtude, não é? O que nós precisamos é dessa diferença epistémica apropriada. E isso é o que não acontece quando nós temos uma pessoa que é especialista, por exemplo, em incêndios florestais e explica cuidadosamente o fenómeno, o que acontece, quais são os fatores, e depois aparece o Zé Maria a dizer, não, mas eu sei, porque eu tenho um primo, não sei o quê. Bom, quer dizer, ok. Porquê que discutir na internet raramente funciona? Porque discutir entre seres humanos que não têm a formação apropriada raramente funciona. Talvez uma das grandes ilusões dos partidários da livre discussão é pensarem, e eu penso que aqui John Stuart Mill, quer dizer, é, digamos, a vítima histórica, óbvia, não é? Que foi o primeiro filósofo moderno a refletir e a tematizar a ideia da liberdade de expressão, tal como nós entendemos hoje em dia, que aliás é uma coisa curiosa que na antiguidade grega e romana não havia noção alguma de liberdade de expressão. Não havia? Não havia. Quer dizer, os próprios filósofos que rejeitaram a condenação de Sócrates e que lamentaram a condenação de Sócrates e que acharam que a condenação de Sócrates tinha sido injusta não era por pensarem que condenar alguém à morte devido às suas opiniões que era injusto. Era porque estavam a condenar Sócrates em particular que não era culpado de opiniões erradas. Mas nunca lhes ocorreu que mesmo que as opiniões de Sócrates fossem erradas condenar uma só a morte por ter opiniões erradas é um bocadinho excessivo isso nunca lhes ocorreu nunca, de todo então a ideia de liberdade de expressão é uma ideia bastante moderna é uma ideia que emerge a partir do século XVII provavelmente não é uma ideia anterior Mill no século XIX tem esta ideia a ideia que nós hoje em dia temos de liberdade de expressão mas Mill é o principal culpado aqui porque ele não se deu conta talvez por falta de experiência se bem que ele teve experiência no parlamento britânico desculpe, ele teve a experiência do que é que é pessoas um bocado macarrónicas estarem ali a fingir que discutem, mas ele tinha a ideia de que a liberdade de expressão por si mesma seria suficiente para fazer as pessoas serem discutidas de uma maneira razoável, e a resposta é que isto não é assim. Não funcionou assim? Não funciona assim, quer dizer, num seminário de uma academia, de uma universidade num certo contexto, sim, a liberdade de expressão, claro, as pessoas discutem com boa fé mas a liberdade de expressão por si própria não é uma solução mágica para descobrir a verdade. Estamos numa época em que a opinião

Jorge Correia
43:36
substituiu o conhecimento?

Desidério Murcho
43:38
Eu não diria que substituiu, mas em muitas conversas públicas a opinião tem muito mais preponderância do que o conhecimento. E o que é pena porque eu às vezes penso assim vamos imaginar uma pessoa comum a pessoa trabalha das nove às cinco segunda à sexta-feira, o trabalho provavelmente não é particularmente agradável, a pessoa se calhar não enganha muito, depois a pessoa tem algum tempo livre. O que é que ela faz com esse tempo livre? Eu chateio os outros. Eu estava mais a pensar no facto dos outros chatearem ela. esse tempo livre ela podia aproveitar esse tempo livre para se dedicar a um entretenimento qualquer que seja realmente compensador para ela que a realize como ser humano ou para abrir os seus horizontes, conhecer coisas mas na verdade o que ela vai fazer ela vai basicamente ouvir opiniões idiotas e isso não é uma maneira boa de passar o tempo e depois irrita-se com aquilo irrita-se, toma posição e nada daquilo tem mínima relevância para a sua vida real e isto é uma maneira curiosamente perversa de afetar negativamente a vida de uma pessoa. Porque essa pessoa já tem uma vida difícil, essa pessoa deveria acarinhar os momentos os tempos livres que tem para fazer qualquer coisa que seja relevante para ela, estar com os filhos ou sair com a mulher, ou ir fazer um passeio e andar de bicicleta, fazer qualquer coisa que realize, ou ter conversas, mas conversas que sejam compensadoras para ela. Talvez a pessoa tenha interesse, por exemplo, em astronomia e aí vai ler uns livros de astronomia, vai a um site de astronomia vai falar com pessoas que sabem astronomia Mas não, a pessoa vai ouvir opinólogos o tempo todo a opinar acerca de questões que não têm nada a ver com a vida dela.

Jorge Correia
45:11
O que nos fascina nessas discussões absurdas?

Desidério Murcho
45:16
É difícil dizer, mas certamente que um dos fatores é o prestígio que dá a ter opiniões acerca do seja o que for. Imagina o seguinte, você vai à rua e vai pegar populares aleatoriamente na rua e faz-lhes uma pergunta acerca de uma coisa exótica. É difícil a pessoa dizer preto no branco e sem ficar envergonhado. Não sei. Que seria uma resposta razoável. Você pergunta, sei lá, nos Estados Unidos às vezes faz-se essas perguntas. Pergunta-se às pessoas se elas são capazes de nomear um país africano. E eles não sabem. Na verdade, na geometria, a geografia norte-americana é um pouco bizarra. Acaba na fronteira deles. É. E as pessoas ficam envergonhadas. Mas porquê ficar envergonhado? Quer dizer, a pessoa não sabe porque aquilo não é relevante na vida delas, é normal. Mas esta é a chave para nós compreendermos esta… este aspecto predatório dos meios de comunicação modernos que é, as pessoas têm a vergonha de dizer que não sei. E é isso que gera o opinólogo constante. Portanto, se a pessoa ouviu uma opinião qualquer completamente vazia na internet acerca de um assunto que ela não estudou mas se agora alguém pergunta qualquer coisa acerca desse assunto, ela não vai perder a oportunidade de fingir que sabe.

Jorge Correia
46:23
E isto é que é um horror ao silêncio? De alguma maneira? Quer dizer, o dizer não sei é um ato… Não é tanto o silêncio, é o problema social.

Desidério Murcho
46:31
Os seres humanos são animais hiper sociais. Para nós o prestígio social, nós somos pavões, ok? Só que os pavões fazem essa coisa com as penas, não é? Mas nós fazemos com o discurso. Fazemos com o discurso, com o carro caro que compramos, com as roupas que usamos, com o iPhone caro que compramos. Portanto, essa coisa, o impacto social que nós temos nos outros, a ideia de querer ter, querer estar acima na hierarquia social para os seres humanos é muito importante. É doentio, mas é muito importante. Somos vendedorões, portanto. Exatamente. E isso é o que explica esta situação. A pessoa para dizer, olha, eu não sei, a pessoa tem que ter uma certa carga de humildade. A pessoa tem que dizer, pá, não sei, eu não estudo essas coisas, eu interesso mais por literatura, quero lá saber o que aconteceu ao Irão.

Jorge Correia
47:12
A internet democratizou o conhecimento ou democratizou a ignorância? Isto é, hoje o debate e a nossa exposição a posições diferentes, é melhor ou é pior? Antigamente liamos jornais, víamos a televisão…

Desidério Murcho
47:26
Exato, essa é uma coisa curiosa, porque há muito essa opinião, digamos, de pacotilha de que as pessoas hoje em dia vivem numa bolha ideológica e os estudos que nós temos dizem exatamente o inverso. Dizem que hoje em dia, nos meios de comunicação modernos, as pessoas são mais expostas a opiniões contrárias do que eram nos meios de comunicação tradicionais. Por exemplo, o New York Times. Se nós formos ver, por que razão é que o New York Times é tradicionalmente esquerda? Simplesmente porque os seus leitores são tradicionalmente esquerda. São basicamente os leitores de Manhattan e de algumas grandes capitais norte-americanas que são esquerda. E, portanto, escrevem para eles. Escrevem para eles. Ora, antes de haver internet, o que é que acontecia a esses leitores? O que é que eles liam além do New York Times? Nada liam o New York Times. Portanto, quando é que eles ouviam alguma ideia de direita? Nunca. Ok, agora hoje é impossível. A pessoa vai à internet e ouve.

Jorge Correia
48:13
E isso na realidade aumenta a exposição de… Embora depois há o santo algoritmo que pode escolher sempre aquilo que nós vemos. O algoritmo não. Nós escolhemos aquilo que podemos ver.

Desidério Murcho
48:24
Mas repara que o algoritmo funciona em termos de ser chocante. e portanto o algoritmo que faz em grande parte é colocar de uma pessoa de esquerda uma ideia de direita porque isso é chocante para ela e é isso que a faz clicar

Jorge Correia
48:35
isso é divertido essa parte não é má qual é a falácia que mais domina o debate público hoje

Desidério Murcho
48:43
no ponto de vista de um filósofo? falta de análise cuidadosa de factos os factos são muito importantes e há uma tendência na vida política e isso é muito preocupante imagina o que é se nós descobrirmos que nos tribunais os juízes e os advogados já não ligam nada aos factos que nós ficaríamos chocados porque tudo se decide em termos de factos ou foi aquela pessoa que matou a outra ou não foi e isso é o que nós queremos saber exatamente em que circunstâncias é que matou-se, matou e como é que foi mas hoje em dia na vida política os factos é como se existissem, é como se fosse só uma questão de opinião e isso não é assim é uma perspectiva é assim que as coisas são encaradas, mas não deviam ser o que nós queremos saber é qual é o produto interno bruto nacional como é que está a distribuição da renda o que é que as pessoas ganham como é que são as condições de vida das pessoas mais desprodutivas do país tudo isto são factos e nós chegamos a um ponto em que há um artigo interessante de George Orwell Orwell, há quem eu considero uma espécie de um proto-filósofo há artigos filosóficos sobre Orwell apesar de ele ser um ensaísta e um romancista nós conhecemos-o mais pelo 1984

Jorge Correia
49:44
e o triunfo dos porcos, podemos escolher

Desidério Murcho
49:46
qualquer um deles é extraordinário mas ele foi um grande ensaísta ele escreveu vários ensaios, não de filosofia propriamente mas ensaios sobre questões sociais e políticas ele era uma pessoa muito preocupada com questões sociais e políticas e há um ensaio em particular, isto no decorrer da Segunda Guerra Mundial, em que ele se deu conta, a dado ponto, que não conseguia obter números simples acerca de quantas pessoas tinham morrido já, de um lado e do outro. E ele diz, bom, há qualquer coisa de estranho aqui, que nós não conseguimos sequer chegar a um facto tão simples como este. E repare, hoje acontece-nos a mesma coisa. Nós não sabemos quantas pessoas é que morreram já na Guerra da Ucrânia. Isso é estranho, quer dizer, com todos os meios de comunicação que nós temos hoje em dia, como é que nós não sabemos uma coisa tão simples? Porque nos escondem?

Jorge Correia
50:26
Porque é difícil de contar? Ou porque não estamos a investir o suficiente para encontrar?

Desidério Murcho
50:29
Nós não estamos a dar suficiente atenção aos factos. Há um livro muito importante que eu recomendo aqui aos seus ouvintes, que é o Factfulness, do Hans Rosling, que morreu há pouco tempo, que nos chama precisamente a atenção para isso. A atenção para como os factos são importantes para as nossas decisões políticas, pessoais, morais. Os factos são extremamente importantes.

Jorge Correia
50:48
Então e porquê que nós preferimos acreditar em líderes que prometem certezas do que aqueles que admitem não saber o caminho.

Desidério Murcho
50:58
Ok. Nós temos… Nós temos algumas dificuldades com o sistema político que temos, ok? Porque, repare, do ponto de vista aquilo que uma pessoa comum realmente faz, nós conseguimos melhorar as coisas e eu acho que nós pensarmos cuidadosamente conseguimos melhorar o sistema que temos, ok? Isso é uma coisa que me irrita particularmente porque sempre que eu tento explicar às pessoas como é que nós poderíamos melhorar o sistema. As pessoas que são dogmaticamente democráticas dizem, ah, tu és antidemocrato. Ok, está bem. A questão é que nós precisamos melhorar o sistema, porque este sistema funciona da seguinte maneira. Não há qualquer incentivo para a pessoa estar a perder tempo a tentar informar-se acerca dos programas políticos dos partidos. Então vota às cegas. Exatamente. E, portanto, a pessoa vota em termos do vento que aparece e do que é que a pessoa disse. E, portanto, se aquilo lhe agrada, a pessoa vota. Se aquilo não lhe agrada, a pessoa não vota. Porque nós temos três grandes grupos de eleitores. Nós temos os eleitores que votam sempre partido da esquerda, temos eleitores que votam sempre no partido de direita, mas aquilo que mais conta é os eleitores que estão no meio, que oscilam entre uma coisa e outra. E estes que oscilam entre uma coisa e outra são aqueles que são influenciados pelo ouvido, ouvem uma coisa que acham que talvez funcione e vão votar ali. E porquê é que não adianta a pessoa dedicar uma semana a estudar cuidadosamente os programas dos partidos? Bom, em primeiro lugar porque não há programas dos partidos propriamente, ou seja, a pessoa vai à internet, vai ao site do partido e aparecem quatro ou cinco frases desconexas que não invocam factos, não apresentam provas, nada, zero. Há um marketing, uma espécie de promessas elitiféricas. Exatamente. Nem valia a pena a pessoa estar à procura do programa do partido porque o programa do partido em si é completamente vácuo, é completamente vazio.

Jorge Correia
52:29
Portanto, a primeira coisa que podias mudar era programas políticos estruturados e baseados em factos e em metas.

Desidério Murcho
52:37
Exatamente. Essa seria, com factos e com números, ok? Essa seria uma primeira coisa. Uma segunda coisa é que poucas pessoas se dão conta de que mesmo que isso acontecesse quase ninguém faria isso. E porquê? Porque o impacto que tem o voto individual é quase zero. E então as pessoas sentem que não contam? É que as pessoas sentem que é um esforço que não vale a pena. É como dizer assim, olha, ok, eu vou estudar aqui durante um mês e para que é que isso serve? Bom, praticamente nada. Porque há não sei quantos mil outros que voam de uma forma intuitiva. Sabe-se lá como. Portanto, do ponto de vista racional, não é realmente muito racional da parte da pessoa investir tempo. e esforço para tomar uma decisão política ponderada, entende? E também aí nós precisaríamos de pensar curiosamente como fazemos as coisas. Também podemos tentar ver o que é que nós podemos fazer para melhorar

Jorge Correia
53:28
o sistema político. Em parte desresponsabilizamos-nos porque se nós votamos dessa maneira ou de forma tradicional ou no modo catavento depois a culpa é sempre de quem para lá foi porque eu até nem

Desidério Murcho
53:40
tenho nada a ver com isso. Exatamente. E num certo sentido não temos, porque o impacto dos votos das pessoas. Outra coisa que é uma mentira política contemporânea, que talvez seja bom informar os seus ouvintes, eu não quero que você perca os seus ouvintes todos, mas poucas pessoas se apercebem que em Portugal, ou na verdade em qualquer democracia representativa, os votos não são todos iguais. Porque dependem da maneira como nós fazemos a representatividade. O célebre métodonte, a distribuição. Há pessoas que os votos valem cinco vezes o meu voto. Depende do lugar onde a pessoa vive. Depende de vários fatores. É uma mentira dizer que os votos são democráticos no sentido de uma pessoa valer um voto. Isso é simplesmente mentira. Nós vivemos mergulhados numa certa ilusão política. Há um certo discurso político sistematicamente ilusório e que é falso, simplesmente. Pensar torna a nossa vida melhor ou pior? Se pensar bem, torna melhor. Se a pessoa pensar cuidadosamente, torna melhor. Mas não há uma garantia de tornar melhor. Este é um ponto também curioso. É que os seres humanos vivem muito de uma maneira, digamos, binária. O bom ou o mal. Funciona ou não funciona. E a realidade é mais em termos de probabilidades. a probabilidade entre 0 e 1 e portanto a ideia é o 0 não funciona nada, e 1 funciona, é certeza é ótimo, mas na maior parte da vida é uma questão de probabilidades, portanto se nós pensarmos curiosamente nas coisas, a probabilidade de sermos bem-sucedidos é superior garantidamente, não há uma certeza, não há uma aleatoriedade nas coisas? há muitos fatores aleatórios que interferem em múltiplas coisas e que nós não controlamos isso é uma ansiedade ou não? bom, é preciso saber responder isso, é preciso ter uma certa bonomia para compreender que as coisas são assim e que não há nada que se possa fazer nós tentamos prever o melhor possível fazemos o melhor possível e depois quando as coisas não correm como nós queríamos temos de saber adaptar-nos a isso

Jorge Correia
55:21
Há duas perguntas clássicas que eu gosto sempre de colocar aos filósofos, o primeiro tem a ver com o sentido da vida e o segundo é sobre a existência de Deus Ok. Há alguma pista para a gente se desenrascar aqui? Qual é o sentido da vida? Sim, na verdade eu penso que

Desidério Murcho
55:37
um dos contributos mais importantes da filosofia da Antiguidade Gregor foi precisamente a reflexão acerca daquilo que nós hoje chamamos de sentido da vida. Mas a própria expressão é curiosa, Jorge, porque a expressão de sentido da vida surgiu apenas no século XIX. Antes do século XIX a expressão de sentido da vida não existia. E você pensa, mas eles não pensavam no sentido da vida? Não, eles pensavam, mas não soubesse a designação. O que eles perguntavam é o que é que é uma vida humana plena? Uma vida humana plenamente realizada? Uma vida humana que vale a pena? Eles chamavam isso a ver… Há uma palavra portuguesa que infelizmente caiu em Jesus, mas que está registrada nos dicionários e que nós devíamos ressuscitar, que é a palavra eudemonia que vem diretamente do grego eudaimonia é uma palavra grega que foi transportada para português e que nós temos em português as bestas dos ingleses não têm eles têm que falar em inglês eudemonia? o que é isso? eudemonia é a vida boa eudemonia é os bons espíritos literalmente significa eu significa bom demonia significa demons ou espíritos eudemonia é a vida boa, é uma vida humana plenamente realizada e o ponto da reflexão grega que era muito importante e que depois uma vez mais desapareceu como no pó do pensamento cristão sobre o pensamento filosófico é que género de atividades é que contribuem decisivamente para que um ser humano tenha uma vida plenamente boa, uma vida que valha a pena. E essa é uma reflexão muito importante, é uma reflexão que todos nós devemos fazer. Que género de atividades é que eu quero fazer da minha vida para que eu me sinta bem como ser humano, que eu me sinta realizado, que eu me sinta feliz. Se bem que é importante compreender que a felicidade não é a mesma coisa do que o contentamento ou a alegria. O contentamento e a alegria são os estados, digamos, imediatos e que aparece e desaparece. A felicidade é uma coisa mais permanente, é uma coisa mais de longo prazo ou de médio prazo. Que é isso que eles querem dizer. A tradução latina de eudomonia, porque eles não tinham a palavra eudomonia em latim, era felicitar, que é o nosso felicidade. Mas a felicidade é enganadora, a palavra felicidade é enganadora por causa disso. Portanto, a ideia do sentido de vida é esta, que é que género de atividades é que nós podemos desempenhar, que se desfaçam por um lado. É claro que nós temos um conjunto de necessidades que são biológicas, que são sociais, que são físicas, mas ao mesmo tempo temos outras capacidades, porque nós somos capazes de fazer poesia, de apreciar as artes há muitas outras coisas que nós podemos fazer e portanto a ideia aqui da Eudomonia é que género de atividades é que eu posso desempenhar como ser humano, que me realizem como ser humano e o grande insight aqui de Aristóteles é que os géneros de atividades que nos realizam como seres humanos têm que ser aquelas atividades que só os seres humanos são capazes de fazer, ou seja, se nós fizermos coisas que os cavalos, por exemplo, são capazes de fazer nós até achamos graça isso, é interessante, mas isso provavelmente não é o género de atividade que realmente consegue realizar um ser humano, porque há certas faculdades do ser humano que não estão a ser exercidas se nós estivermos a exercer uma atividade que outro animal qualquer pode exercer também. Mas essa procura

Jorge Correia
58:17
pela vida plena numa espécie que se desassossega sempre e todos os dias não é muito fácil de encontrar pois não?

Desidério Murcho
58:27
Ou o desassossego faz parte disto? Em parte faz parte, mas depende muito do contexto social, político, económico que a pessoa está. Há casos particularmente infelizes você falou do desassossego, lembrei-me imediatamente de Bernardo Soares, Fernando Pessoa com o livro do desassossego. Fernando Pessoa foi uma pessoa vítima do contexto em que estava era uma pessoa com um talento imenso, com uma cultura muito acima da média, da falta de cultura portuguesa que é milenar, digamos assim e ele não estava no meio adequado, então uma parte significativa da angústia constante que nós vemos nos escritos de Fernando Pessoa resulta em grande parte dele não realizar como intelectual, como poeta, porque viviam num contexto social que não permitia essa realização. Ele teria sido provavelmente uma pessoa com um perfil bastante diferente se fosse parisiense, porque teria um meio cultural completamente diferente à sua volta.

Jorge Correia
59:21
E, portanto, levamos com a angústia dele, em vez de, se calhar, de uma expansão para um outro lado qualquer. E ele era uma pessoa muito inteligente.

Desidério Murcho
59:27
Poucas pessoas sabem que ele tinha formação filosófica, porque ele fez o curso superior de letras, que foi o curso que depois deu origem, o curso de da Universidade Clássica de Lisboa, onde eu fiz o meu curso de filosofia também. Ele tinha formação filosófica e ele tinha… Há muitas pistas que ele abriu e que nunca perseguiu, precisamente porque vivia num meio inadequado para ele. Então, certamente, para nós termos uma vida plena, uma vida de eudomonia, não é só uma questão de querer, não é só uma questão de atitude, é uma questão de ter sorte de estar num contexto que nos permita desenvolver os nossos talentos. E o tempo? Afinal, o tempo é tão curto? para fazer tudo? Curiosamente, quando eu vejo a maneira como grande parte das pessoas usa o seu tempo ou desperdiça o seu tempo, dá-me a ideia que um extraterrestre que aparece aqui de repente pensa que os seres humanos são mais ou menos imortais porque como é que as pessoas desperdiçam tanto tempo a fazer coisas que dois dias depois tu pergunto o que é que tu fizeste há dois dias? A pessoa já nem sabe o que é que fez e no entanto perdeu horas a fazer essa coisa que nem sabe o que fez. Portanto a gestão do tempo é sem dúvida um dos fatores importantes para uma vida humana bem vivida. Porque estamos a desperdiçar-nos.

Jorge Correia
01:00:29
Então e esse santo guru que agora apareceu e que subitamente nos há de substituir a todos, pelo menos promete assim, porque pensa melhor do que nós, mais depressa, com mais palavras, a dita inteligência artificial. Esta semana fomos confrontados com o que nós chamamos. O primeiro ataque militar, no caso no Irão, que assassinou o líder iraniano, que foi planeado, que juntou meios e executado. Eu, na esperança que pelo menos houvesse um humano aqui no meio, pelo menos na decisão final e que assassinou um líder político de uma forma praticamente automática portanto a inteligência artificial do bem afinal isto pode sair do nosso controle?

Desidério Murcho
01:01:17
Poder pode mas a inteligência artificial veio para ficar e bem usada como qualquer outro instrumento pode ser muito importante O que é que nos pode oferecer? Muitas coisas, por exemplo os diagnósticos médicos a inteligência artificial hoje em dia já é melhor do que a maior parte dos médicos a traçar diagnósticos com base nos exames. É mais sistemática?

Jorge Correia
01:01:35
Porque pensa melhor.

Desidério Murcho
01:01:36
Não se cansa? Porque pensa melhor, não se cansa, não tem preconceitos. Por exemplo, nós sabemos que as decisões dos juízes são influenciadas pela hora em que o juiz toma uma decisão. Se ele toma a decisão quando está com fome, ou se toma a decisão depois do almoço, as decisões vão ser diferentes em função desses impactos. E a inteligência artificial não sente fome. A inteligência artificial é muito boa a analisar um conjunto vasto de dados e a fazer raciocínio probilístico. Porque basicamente a inteligência artificial que nós temos hoje em dia máquina de probabilidades e nós somos muito maus a pensar em probabilidades, sobretudo quando os dados são gigantescos portanto, se usarmos a inteligência artificial como companheiros de pesquisa, digamos assim como auxiliares de investigação a inteligência artificial pode ter um papel muito positivo eu não vejo assim um alarme particularmente profundo com a inteligência artificial pelo menos com aquela que temos hoje em dia mas o que vejo é uma oportunidade de ouro para nós conseguirmos crescer e conseguirmos fazer melhor do que fazíamos

Jorge Correia
01:02:34
antes. Vai acrescentar-nos alguma coisa? É uma espécie de mais um braço, de outro cérebro?

Desidério Murcho
01:02:38
Sem dúvida. Quer dizer, uma pessoa que faça investigação hoje em dia consegue fazer num mês a investigação que antes demorava em seis meses. Porque a pessoa usa a inteligência artificial para ir buscar as fontes, para ir localizar as fontes e isso é tudo muito mais rápido do que era… Não é muito diferente daquilo que aconteceu quando eu comecei a estudar e nós tínhamos ainda os catálogos da biblioteca em papel. Imagina o Jorge o tempo que me demorava a percorrer um fecheiro em papel para descobrir uma obra. E agora está ali. Agora simplesmente eu escrevo e faço uma procura rápida na internet e descubro exatamente o artigo ou o livro que eu preciso. Portanto, a internet social é apenas isto potenciado. Para fecharmos a nossa conversa,

Jorge Correia
01:03:18
não sei se está sistematizado, mas qual é o primeiro pensamento do dia que o desidério tem, ou o último antes de ir a dormir? Não sei se tem essa disciplina.

Desidério Murcho
01:03:29
Não tenho essa disciplina, mas às vezes faço um pouco o balanço do que é que eu fiz durante o dia e como é que eu poderia fazer melhor e tento fazer um pouco o plano do que é que vou tentar fazer melhor no dia seguinte. Mas não faço isso de uma maneira sistemática, depende um pouco. Todas as nossas vidas são sempre vidas de… Temos sempre vários desafios diários. Mas o mais importante, eu penso, é não perder a perspectiva. É muito fácil nós deixarmos para trás aquilo que é mais importante devido àquilo que é mais urgente. E na nossa vida diária temos sempre coisas que são muito urgentes. E o que eu tento fazer, cuidadosamente, é bloquear aquilo que é importante na minha vida para não deixar que o urgente desaloje aquilo que é de facto importante. Penso logo existe ou sinto logo existe? Uma boa pergunta. Dakar era um bocadinho mentiroso ao fazer isto. Dakar escreveu essa história do penso logo existe e ele estava um bocadinho a jogar para a plateia, o que ele estava a fazer era uma coisa um bocado estranha. Mas a ideia é que é óbvio que nós temos uma noção óbvia de que assistimos e não interessa se invocamos o pensamento ou o sentir ou o que seja, a questão é que parece-nos óbvio que não há maneira nenhuma de eu próprio existir se eu não pensar. Quer dizer, desculpem, não há nenhuma maneira de eu pensar se eu não existir, não há nenhuma maneira de eu se sentir se não existir portanto a ideia é que eu consigo concluir de uma maneira apropriada que existo a partir simplesmente do facto de que sinto ou do facto de que penso porque é que isto é enganador? porque não é mais óbvio não é menos óbvio que eu existo do que eu penso, as coisas estão no mesmo patamar, quer dizer, ninguém duvida que pensa e ninguém duvida que existe portanto tentar concluir, tentar descobrir que existe a partir da ideia de que penso é simplesmente delicioso, as duas coisas estão a par e pior ainda para Descartes há muitas outras coisas que estão a par disso por exemplo, é igualmente óbvio que 2 mais 2 é igual a 4 ok e no entanto Descartes, é por isso que comecei por lhe dizer que apesar de ser o filósofo que no certo sentido me trouxe para a filosofia, é um filósofo pelo qual hoje em dia não tenho assim grande respeito porque Descartes dizia, de uma maneira bizarra que nós não temos a certeza absoluta que 2 mais 2 seja igual a 4 talvez 2 mais 2 não seja igual a 4 mas eu tenho a certeza absoluta que existe isto é mentira, não há maneira nenhuma porque as duas coisas estão a par, entende? Quer dizer, 2 mais 2 é igual a 4, é tão óbvio quanto eu existo. Estou exatamente a par

Jorge Correia
01:05:58
as duas coisas. No final desta conversa Desidério Murcho desmontou Descartes pelo menos uma das suas ideias mais populares disse que penso logo existo é uma falácia que a existência e o pensamento estão no mesmo patamar de certeza e que tentar derivar uma coisa da outra é simplesmente falacioso as duas coisas seguem a par fiquei a pensar no que isso significa para tudo o que disse antes, uma conversa inteira dificuldade de pensar bem, sobre os atalhos que tomamos, sobre as ilusões que cultivamos e, no final, ele, de Zidermus, pega no argumento mais famoso da história da filosofia e diz isto está errado. Sem drama, sem hesitação. Talvez seja isso, no fundo, pensar bem. Não chegar a grandes certezas e ser capaz de olhar para o que se acreditava antes e dizer penso agora uma outra coisa. Obrigado por ouvir e até à próxima semana.

1 reflexão em "A tua opinião vale alguma coisa? Desidério Murcho"

  1. O Professor Desidério Murcho distingue-se pela rara capacidade de tornar acessível aquilo que, à partida, parece extraordinariamente complexo. Com uma clareza singular, um rigor “extravagante” e um notável e entusiástico sentido pedagógico, descomplica temas exigentes e intrincados sem nunca os empobrecer. O seu virtuosismo está precisamente em fazer o difícil parecer simples, recorrendo a exemplos tão próximos da experiência comum que qualquer pessoa, salvo melhor opinião, os consegue acompanhar. Parabéns e muito obrigado!

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