Existe uma tradição antiga, quase sagrada, de quem escreve não aparecer. No teatro grego havia uma separação clara entre quem dizia e quem escrevia. O “speechwriter” na Casa Branca constrói os discursos que movem o mundo sem que o seu nome apareça em nenhum jornal. O Cyrano de Bergerac é a história de um homem que entrega as suas palavras mais íntimas para que outro as diga, e morre com esse segredo. Há qualquer coisa nesta invisibilidade que vai além da modéstia ou da estratégia profissional. É uma posição sobre o que é a linguagem, e sobre quem, afinal, é o seu verdadeiro dono.
Henrique Dias passou trinta anos nessa posição. A escrever o que outros dizem. A construir vozes que não são a sua, a habitar mundos que depois abandona, a entregar frases que entram no imaginário coletivo sem que ninguém saiba de onde vieram. O Pôr do Sol, o Sr. Engenheiro, anos de “sketches” e séries e personagens cujas palavras ficaram em nós como se fossem nossas. E ele, sistematicamente, do outro lado, nos bastidores, a observar o resultado.
O que me interessa nisto não é a dimensão biográfica. É o que esta posição revela sobre a natureza da comunicação.
Quando se pergunta a Henrique Dias o que é um argumentista, ele responde com uma imagem que nunca mais se esquece. “Um argumentista está entre a literatura e a canalização.” A literatura porque trabalha com palavras, porque há ali um esforço estético que não é menor do que o de qualquer escritor. A canalização porque tem de saber fazer mutações de cena, perceber o set, conhecer os cortes, dominar a técnica antes de dominar a arte. Um escritor não faz necessariamente um bom argumentista. Um argumentista não faz necessariamente um bom escritor. São dois ofícios que se tocam sem se confundir.
Mas o que mais me ficou desta conversa foi uma outra distinção. “Um diálogo, acima de tudo, é música.” Não é texto. Não é informação. É música. Tem tom, tem cadência, tem ritmo. Se alguém tirar uma palavra, soa diferente. Se mudar um advérbio, soa diferente. A referência é Aaron Sorkin, que tem uma masterclass sobre a comparação entre musicologia e escrita. Mas a ideia é mais antiga e mais profunda do que qualquer masterclass: a linguagem não é apenas o que diz, é como ressoa. E quem trabalha na escrita para ser dito por outros tem de conhecer esse ressoar melhor do que qualquer outra coisa.
É aqui que entra o Direito.
Henrique Dias fez uma licenciatura em Direito que nunca exerceu. E quando lhe pergunto o que é que isso fez ao escritor, ele responde com a frase mais densa do episódio: “Em Direito aprendemos a medir as palavras. Na comédia aprendemos a fazê-las tropeçar.” O Direito ensinou-lhe o respeito pela palavra, a consciência de que uma única palavra numa lei pode alterá-la completamente, de que o peso de cada termo numa petição é diferente do peso de cada termo numa conversa de café. A comédia pegou nesse rigor e virou-o ao contrário: o tropeção da palavra é que tem graça. O twist que dá uma volta ao cérebro e produz a gargalhada não é um acidente. É uma precisão calculada com a mesma seriedade com que se redige um contrato.
Isto explica o Pôr do Sol melhor do que qualquer análise que tenha lido sobre a série. A decisão central não foi fazer uma paródia às novelas. Foi fazer uma novela bem feita até ao ponto em que o absurdo se revelasse por si mesmo. “Tentámos fazer bem para mostrar o absurdo. Ao contrário do que seria fazer mal à partida.” O trabalho preguiçoso seria apontar o clichê com um dedo. O trabalho exigente foi dominá-lo tão completamente que a sua própria lógica interna, levada até ao fim, produzisse o colapso. É uma ideia sobre criação que vai muito além da televisão. Para desconstruir algo é preciso primeiro percebê-lo melhor do que quem o construiu.
Mas o momento mais inesperado da conversa não foi sobre o Pôr do Sol nem sobre o Sr. Engenheiro. Foi quando ele disse, com a naturalidade de quem enuncia uma obviedade, que o contrário do humor não é a seriedade. É a solenidade. A seriedade e o humor, disse, dão-se relativamente bem. A solenidade e o humor são os verdadeiros antípodos. E é por isso que o poder é tão vulnerável a uma piada: porque o poder precisa de solenidade para funcionar. A liturgia, a hierarquia, a distância — tudo isso desmorona quando alguém ri. O rei vai nu é a versão simplificada. O que o humor realmente mostra é mais fundo: que nós não somos tão bons, tão cultos, tão dignos como fingimos ser. Que somos ridículos. E que o ridículo é a condição humana de que todos fugimos e que o humor, no melhor dos casos, nos obriga a olhar de frente.
Umberto Eco escreveu, no Nome da Rosa, sobre um mosteiro que proibia o riso porque a risada destruía o medo de Deus. Quando se ri de Deus já não se tem medo de Deus. Henrique Cardoso Dias não cita Eco, mas chega ao mesmo lugar por outro caminho: o humor é subversivo não porque seja irresponsável, mas porque é a única linguagem que pode dizer a verdade sobre o poder sem que o poder saiba exatamente como processar isso. Uma reportagem pode ser ignorada, processada, respondida com um comunicado. Uma boa piada fica. E muda qualquer coisa dentro de nós que não se explica nem se desfaz.
No final da conversa, quando lhe pergunto como é que se mantém a frescura criativa depois de trinta anos, ele responde com uma palavra que não esperava: inconsciência. “Temos que ser profundamente inconscientes. Temos que continuar a ser irresponsáveis nas coisas que apresentamos. Isso é que nos dá a liberdade.” E quando me despeço, a última coisa que diz é uma frase que não explica nada mas diz tudo sobre como trabalha e como pensa: irresponsabilidade em consciência e responsabilidade.
Fiquei a pensar que talvez seja isso, no fundo, o que distingue quem comunica de quem apenas fala. A consciência do risco. A disposição para tropeçar com precisão.
A conversa completa com Henrique Cardoso Dias está disponível no Pergunta Simples.
Ler transcrição completa
Jorge Correia
00:01
Pergunta simples Um programa sobre comunicação Para quem quer Boas respostas
Henrique Dias
00:11
Usava isso porque o meu avô Chamava-se Henrique Dias E então quando eu era miúdo ele dizia Henrique Dias sou eu, que eram só os dois Tu não és Henrique Dias, que eu estou a dizer Eu passei a usar aqui, até que chegou a altura Que percebi que não fazia sentido O meu avô só tinha dois nomes
Jorge Correia
00:23
Ah, pronto, e tu não podias ter exatamente o mesmo
Henrique Dias
00:25
Não, não, aquela coisa de miúdo Não, não, o avô é que é Henrique Dias, tu és
Jorge Correia
00:29
Tu és o Henrique Cardoso Dias neste caso Henrique Dias argumentista, escritor para pôr palavras na boca dos outros o que é uma coisa absolutamente extraordinária e decides inaugurar a tua existência profissional com uma frase que está na nossa cabeça de todos nós, pelo menos na minha geração e a frase é
Henrique Dias
00:51
Onde é que tu estavas no 25 de Abril?
Jorge Correia
00:55
Onde é que tu estavas no 25 de Abril?
Henrique Dias
00:57
Eu estava em Caxias, morava em Caxias no 25 de abril. Do lado de fora? Do lado de fora. Eu tenho uma história engraçada que eu na altura tinha 4 anos e portanto vejo na televisão falar sobre a PIDE, não fazia ver o que era a PIDE obviamente há 4 anos, mas falava-se tanto que eu achei que era uma coisa interessante a PIDE e então vim para a varanda gritar que o meu avô era da PIDE Claro que o meu avô não ficou muito contente porque não era da PIDE, que não era agradável e puxaram, mas foi difícil tirar-me aquilo depois eu andava a dizer a toda a gente que o meu avô era da PIDE mas tiveram-me que explicar, calmamente ainda por cima morava muito perto da prisão de Caxias
Jorge Correia
01:26
É capaz de não ser uma boa propaganda? Ainda por chamar anunciar o teu avô como pide, se calhar não é uma grande ideia. Como é que aparece essa frase? Podemos contextualizar, que é, quem diz essa frase?
Henrique Dias
01:38
Era o Batista Bastos, que tinha um programa que dava à noite, muito tarde, na SIC Notícias, ou SIC ou SIC Notícias, já não me lembro, e eu via aquilo religiosamente. E um dia o Eduardo Madeira, que foi meu colega de secundária, eu liguei-lhe e disse, apá, tu tens de ver uma coisa fantástica, ele dá um programa genial. E começámos a ver aquilo religiosamente.
Jorge Correia
01:56
A pós do Batista Bastos, aquela ideia do intelectual?
Henrique Dias
02:00
Havia uma solidariedade dele que eu gostava e ele tinha ficado parado um pouco no tempo. Ficou parado na Revolução e naquelas pessoas todas. E dava-lhe charme? E aquilo dava-lhe um certo charme, eu gostava daquilo. Dava uma solidariedade o facto de ele usar o laço, tudo aquilo. Havia ali um aspecto teatral que me agradava muito. E depois a frase que ele fazia a toda a gente, as pessoas podiam ter feito o que quer que fosse. Pertão estava sempre, olha, mas onde é que tu estávamos no 25 de Abril? E aquilo já era o momento que o Eduardo esperávamos para aquele momento. Então um dia conhecemos, o João Quadros trabalhava nas exposições fictícias na altura, e ele disse para vocês têm graça num jantar de amigos e tal, eu trabalho numa empresa que escreve para pessoas, para o Herman e para o José Pedro Gomes, nós não fazíamos ideia que existia. Vocês deviam escrever umas coisas e enviar para lá. E o Eduardo juntávamos e a primeira coisa que escrevemos foi um sketch chamado Artista Bastos, onde é que tu estávamos no 25 de Abril? O Herman recebeu, adorou o texto fomos logo chamados para ir para as produções fictisas. Foi a primeira coisa que eu escrevi.
Jorge Correia
02:57
E essa sensação de tu, por um lado escreves, mas depois alguém diz aquilo que tu escreveste, qual é a sensação?
Henrique Dias
03:09
Tem uma parte desta invisibilidade. É uma coisa que às vezes pode fazer confusão a algumas pessoas, mas quem trabalha nisto lida bem com isto. Há uma parte bonita nisto, há uma invisibilidade bonita, que é não saber quem está por trás. Depois há outra parte um bocadinho menos bonita, que é fazer com que isto sirva para os autores serem um pouco maltratados. Mas tem uma parte bonita, que é nós estarmos nos bastidores, e há uma tradição nisso, o speechwriter na Casa Branca, o Sirhano de Beresraque, essa tradição no teatro grega havia essa separação clara entre quem dizia e quem escrevia, e quem escrevia e não aparecia, era uma coisa quase sagrada. Portanto, essa tradição tem coisas boas e amas, ou seja, há uma parte bonita da invisibilidade, que é uma parte de estar nos bastidores que nos permite observar, para depois criar coisas novas. E depois há outra parte que é o facto de institucionalmente não termos visibilidade faz com que se calhar, e eu não falo por mim, não tenho razão de queixa, mas com que alguns dos meus colegas não sejam muito valorizados, quer financeiramente, quer de outra maneira.
Jorge Correia
04:04
E quando tu escreves para pessoas como o Herman ou pessoas que obviamente têm um estatuto público importante, tu escreves a pensar na voz, na persona daquela pessoa que vai falar?
Henrique Dias
04:18
Isso acontece no stand-up, que eu escrevi muito poucas vezes Há uma dificuldade muito grande que tem que ser uma simbiose entre o que a pessoa acha, que a pessoa não consegue mentir quando está a fazer stand-up. Nota-se? Nota-se muito. E fiz isso muito poucas vezes porque é um exercício complicado e eu prefiro não fazer porque acho que o stand-up tem que ter essa voz mais única. Agora, quando é em ficção, o que acontece é uma espécie de contaminação do ator àquilo que eu escrevo. Ou seja, a personagem é criada por mim, a maneira de falar, tudo mais, mas depois eu assisto a um, dois, três ensaios e o que o ator faz contamina-me. Ou seja, e acaba por ser essa retroalimentar-nos. Isso está a acontecer, por exemplo, agora com uma coisa que eu estou a fazer numa rádio concorrente. Não interessa em que os atores estão a fazer um texto que eu escrevo com mais de dois colegas. E é uma rádio novela
Jorge Correia
05:03
já agora.
Henrique Dias
05:04
Exatamente. E há muita da maneira como eles vão falando e eu vou estindo algumas coisas e eu vou tendo um feedback e vou alterando alguma coisa na maneira de falar pelo que eu vejo que eles fazem.
Jorge Correia
05:14
Mas o texto não está completamente escrito?
Henrique Dias
05:17
Não, o texto está completamente escrito, mas às vezes vou à frente a alterar coisas para a frente em função daquilo que eles disseram. Porque às vezes metem… Eu tenho um grande som um bocadinho rigoroso eu gosto de digam exatamente aquilo que ali está porque eu tenho um trabalho muito grande de fazer uma espécie de musicalidade nos diálogos. Mas claro que há uma parte que eu deixo sempre para os atores de tornarem o texto mais maleável e mais confortável.
Jorge Correia
05:37
Porque eles requeriam de alguma maneira o texto, mas que não seja da maneira como põe as tónicas ou tu defines isso também?
Henrique Dias
05:43
Não, não. Ou seja, eu vejo um texto como uma espécie de é mais música do que outra coisa. Um diálogo, acima de tudo, é música. O Aaron Sorkin tem uma masterclass sobre isso brilhante em que ele fala das comparações entre a musicologia e a escrita. Nós temos que encontrar um tom, uma cadência, de maneira que se alguém tirar uma palavra, aquilo não soa tão bem. Se alguém fizer um adverbio diferente, não soa tão bem. Há, no entanto, atores que conseguem acrescentar de uma forma cirúrgica e que eu aproveito. E tu dizes, uau, isso é muito bom, esse personagem vai passar a dizer isso dessa maneira ou vai passar a utilizar isso.
Jorge Correia
06:19
O Herman é um bom exemplo de alguém que provavelmente faz uma…
Henrique Dias
06:22
Faz isso muito bem. O que é que ele tem de extraordinário? O Herman tem uma intuição fantástica, tem uma rapidez incrível e tem uma coisa, como ele escreve também, tem uma coisa que os bons atores de comédia têm, que é um excelente observador. Nós quem escreve e quem é ator de comédia tem que ser muito bom observador.
Jorge Correia
06:39
Ele próprio escrevia, não é?
Henrique Dias
06:40
Ele próprio escrevia. Para quem escreve e ele escrevia, é mais importante observar do que escrever. Começa-se por observar o escrever é muito posterior.
Jorge Correia
06:48
O momento em que descreves ou percebes a voz do outro no fundo, como é que é o teu processo criativo? Tu tens a folha em branco, portanto, tu agora sentas não faço a mesma ideia se és de escrever de manhã, tarde, à noite
Henrique Dias
07:03
À noite? À noite. Então começas a que horas? Muito tarde. É um bocadinho escandaloso. Eu começo a trabalhar depois eu acordo muito tarde e trabalho noite fora 4 da manhã, 5 da manhã.
Jorge Correia
07:13
Quando há silêncio?
Henrique Dias
07:14
É, quando há silêncio e quando não há ou seja, não há nada a puxar-me, não há uma notícia que está a sair, não há ninguém a ligar-me, não há nada, sou só eu que os meus pensamentos.
Jorge Correia
07:22
E como é que é o processo de escrita?
Henrique Dias
07:26
É como eu estava a dizer, primeiro começa a observação é o mais importante para alguém que faz porque um argumentista é uma coisa estranha porque nós estamos entre o literário e a canalização, nós estamos aqui a meio caminho um argumentista não é propriamente um escritor no sentido clássico que é, estamos entre o literário, porque sim, estamos a trabalhar com palavras… Não dissentes um escritor,
Jorge Correia
07:44
de alguma maneira.
Henrique Dias
07:45
Não, não, não. Um argumentista é uma coisa completamente diferente. Completamente diferente.
Jorge Correia
07:48
Então, para quem não conhece, para quem não sabe nada desta arte, o que é que é um argumentista?
Henrique Dias
07:53
O argumentista é alguém que escreve um texto técnico para ser dito, ou em cima de um… No caso do argumentista, para ser dito numa série ou num filme. No caso de um dramaturgo, que também sou, para ser feito num teatro. Ou seja, eu tenho que ter em conta duas coisas. Tenho que ter em conta todos… Eu tenho que conhecer num teatro como é que se faz uma mutação de cena, se for em televisão, eu tenho que perceber como é que se corta, eu tenho que perceber o set onde está, tenho que perceber essas coisas todas, ou seja, essa é a parte da canalização. E depois há outra parte literária. Eu tenho que saber essas duas coisas. Uma pessoa que é só escritor não me dá necessariamente um bom argumentista, um argumentista não me dá necessariamente um bom escritor. Tocam-se estas duas vertentes, mas não são necessariamente. Por isso é que eu digo que um argumentista está entre a literatura e a canalização.
Jorge Correia
08:35
E então,
Henrique Dias
08:36
escrever uma caneta, um papel, um computador? Mais importante do que isso é observar. Observar é a coisa mais importante. Mais importante para um argumentista, mais do que escrever, é observar, ver as pessoas, porque nós temos que construir personagens e temos que perceber de onde é que essas personagens vêm. Elas não podem vir do hétero, não podem vir da nossa cabeça. Nós temos que vir as ricas, quanto mais ricas, melhor, e conhecer pessoas e observar. Um dos meus desportes favoritos é estar num café, num sítio qualquer, na praia, nas férias. Tu sempre, sempre observar as pessoas, sempre. É uma coisa obsessiva E aquilo alimenta-me, não é de uma forma de estar um papel A tirar notas, não é isso Não tiras notas? Não, aquilo de uma forma inconsciente há de ficar Tira notas de ideias Porque são coisas diferentes A ideia é uma coisa que surge num momento Poderá ter alguma coisa de mágica, religiosa Que nós queiramos, que é num momento isto E é um glimpse, é um instante E convém apanhá-la E fixá-la, porque elas Correm mais do que uma galinha assustada A maior parte surgem no meu caso, quando acordo e ou quando estou a adormecer, porque é que o tal inconsciente e o inconsciente estão ali a meio caminho, é aí que me surgem as melhores ideias. É no Lusco Fusco? É. No teu Lusco Fusco? Quando estás ali quase a adormecer? Há imensos… Já lhe faliste não sei se era Voltaire, Fera Rousseau, um deles prolongava o acordar na cama com um caderno porque dizia que era ali naquele limbo em que o inconsciente e o inconsciente que ele conseguia escrever melhor.
Jorge Correia
09:56
O que é que são coisas que te atraem nessa observação? O que é que te na espécie zoológica humana?
Henrique Dias
10:04
O ridículo. O ridículo é aquilo que eu mais adoro, porque acho que todos nós somos ridículos e todos nós fugimos do ridículo que somos. Eu acho que isso é que… Eu acho que o que o humor faz, e principalmente o humor absurdo, o que faz é levar a um extremo lógico tal que a realidade fica exposta de uma maneira que uma reportagem não consegue. Ou seja, eu consigo mais facilmente mostrar uma realidade. Se pegar aquilo de um ponto de vista humorístico e levá-lo a um absurdo, levar aquilo a um extremo lógico, É um retrato melhor daquela pessoa, daquele momento, daquele facto. É muito melhor do que uma boa reportagem.
Jorge Correia
10:36
Quando tu escreves coisas, tu escreves múltiplos textos para múltiplas coisas. Como é que se consegue que aquilo não soa sempre a Henrique Dias?
Henrique Dias
10:46
Lá está, é encontrar as vozes dessas pessoas que eu estou constantemente a observar.
Jorge Correia
10:50
Estás sempre à procura?
Henrique Dias
10:50
Sempre. Ou seja, há pouco falávamos, antes de estarmos no ar, dos tradutores que têm dois donos e não obedecem a nenhum. Que é o próprio autor original e depois eles próprios. acabam por não obedecer a nenhum. Um argumentista tem que obedecer, não a si, mas tem que obedecer àquele personagem ao momento que ele está a viver, ao sítio onde ele está e ele tem que ser a voz dessa pessoa naquele momento, naquela situação. Obviamente que há sempre um pouco de mim, porque eu olho o mundo com os meus olhos. Mas este esforço tem que ser constante, porque senão os personagens falam todos da mesma maneira. E há uma coisa muito importante e que é muito fácil de se ver numa série ou numa novela. Não faz sentido uma pessoa que tem uma profissão, sei lá, uma pessoa que trabalha na Câmara Municipal a varrer uma rua, de repente, numa conversa com um colega, está a citar Proust. Não faz sentido. Da mesma forma que um tipo intelectual que está numa faculdade, não faz sentido depois ele estar a falar sobre uma coisa comozinha que ele gosta de uma sã de molho antes de ver um jogo de Benfica. Tudo isto pode acontecer de um lado ou de outro. Há sempre a exceção à regra. Mas temos que perceber em que universo cada um deles se move, os interesses que cada um tem, a maneira como falam. Tem que haver uma verdade. Tem que haver uma verdade. O pior que pode haver para um argumentista é ele querer mostrar, por exemplo, a sua erudição nos personagens que queria. Isso é assassino. Os personagens são aquilo que são. Se um personagem for um tipo perfeitamente burgesso, ele há de ser perfeitamente burgesso. Se for um tipo mais inteligente e mais culo do que eu, vou fazer um esforço tremendo para me ir educar ainda mais e conseguir dizer as coisas que a cabeça era o personagem diria.
Jorge Correia
12:19
Ora, isto é engraçado. Eu estou a ouvir-te. Mas o ouvido da tua voz, de alguém que escreveu ou co-escreveu uma tal de série chamada Pôr do Sol, que é uma série humorística e de desconstrução de todos os clichês do mundo, como é que aquilo foi feito? De onde é que aparece aquela ideia?
Henrique Dias
12:44
A ideia parte de parodiar a novela. É o ponto de partida. Tu já tinhas escrito novelas? Nunca escrevi novelas. Já tive vários convites. Nunca escrevi uma novela na vida. Porque eu acho, e respeito imenso que escrevo novelas, não é um preconceito de forma alguma. Eu não era capaz de fazer aquele trabalho.
Jorge Correia
13:01
Não era capaz. Aquilo é uma fábrica permanente das oito às oito.
Henrique Dias
13:05
Sim, e tem uma fórmula própria. Tem uma fórmula própria que eu não era capaz de fazer. E quando digo não era capaz de fazer, não é estar a considerar que sou melhor ou pior que os outros. Não é a minha praia, claramente. Não era capaz. Mas respeito, e acho que faz muita falta na ficção nacional, porque dá em perigo a muita gente, forma imensos guionistas, porque nós temos uma indústria muito reduzida. Portanto, a ideia era fazer uma sátira às novelas. Quando se está a fazer uma satira às novelas, se está a fazer uma satira aos clichês das novelas. E o que é que é um clichê? É uma espécie de memória coletiva em repeat que perdeu o sentido. É como uma frase que nós já dizemos tantas vezes que não sabemos o que é que estamos a dizer. É isso um clichê. As gêmeas paradas à nascença? Sim, sim. Que no início, ou seja, como uma metáfora que morreu por excesso de uso.
Jorge Correia
13:53
Podia ter sido uma boa ideia e depois alguém a matou.
Henrique Dias
13:55
Há de ter sido uma boa ideia a primeira vez, mas faz-se uma, duas, três, quatro, cinco e morre processo de uso. Porque obviamente que o Conde Monte Cristo hoje em dia está cheio de metáforas, mas quando foi escrito originalmente era excelente a história, mas depois se pegarmos naquela história e fizermos a exaustão a versão 2, 3, 4, 5, 6, 7, tornam-se clichês. Então e como é que se escreve o Porto de Sol? Como é que se faz o Porto de Sol? Com um profundo respeito ao clichê, e ou seja, o preguiçoso é gozar com o clichê, é apontar o clichê tal ali. O que nós tentámos fazer foi fazer bem e fazer aquilo tão bem que o absurdo revela-se para eu próprio. Todos nós quisemos fazer aquilo bem. Aquilo está bem filmado, os atores estão a fazer aquilo com a intensidade certa, ou seja, nós tentámos fazer bem para mostrar o absurdo. Ao contrário do que seria a coisa mais cariçosa, que era fazer mal à partida. Sim, porque,
Jorge Correia
14:39
quer dizer, quem vê aquilo e já falámos sobre isso, quer dizer, eu quando vi a primeira vez o primeiro episódio, os primeiros 20 minutos eu fui apanhado na curva. Dizer assim, mas espera lá, mas esta malta está a exagerar um bocadinho. Exatamente. E depois
Henrique Dias
14:52
disse, não… É deixar ser isso feito. Bem feito, durante tanto tempo, tanto tempo que o absurdo se revela para eu próprio. Nós não temos
Jorge Correia
15:00
que fazê-lo. E o que é que justifica o sucesso que isto atingiu na Netflix? Porque isto às vezes se explode e não é no mesmo tempo. Quer dizer, a série acontece e a seguir há o epifenómeno Netflix.
Henrique Dias
15:11
Eu acho que acontece por duas razões. Primeiro, quando se está a trabalhar com um clichê é uma espécie de denominador comum cultural. E é uma coisa que é muito mais fácil, nós acabamos de rir todos em simultâneo porque sabemos do que é que estamos a rir. O clichê é uma coisa muito universal. Todos nós o conhecemos. E pegou fogo
Jorge Correia
15:28
nas redes sociais? Lá está com os formatos
Henrique Dias
15:30
verticais? Mas exatamente por isso. Mas pegou fogo porque as pessoas recomeciam exatamente aquilo que se está a falar. Não há, como às vezes tem que se fazer em comédia, uma espécie de uma premissa, preparar as pessoas para a punchline. Ali nós já tínhamos a premissa feita, mas ao mostrarmos um pouco de uma novela, as pessoas já estavam dentro da premissa. Nós só tínhamos que dar o resto. Eu já vi isto
Jorge Correia
15:46
e agora vou esperar o contrário. Estás-me a dizer que às vezes tens de escrever a premissa que
Henrique Dias
15:50
Sim, é um mecanismo. Sim, mas isso é um mecanismo descrito. Ou seja, tem que fazer a premissa, prepara-se e depois no fim faz-se o que se chama a punchline. É um mecanismo engraçado. A minha formação é em Direito. Em Direito nós aprendemos a medir as palavras. Na comédia nós aprendemos a fazê-las tropeçar. O tropeção da palavra é que tem a graça. E o Direito também ajudou-me muito porque há um cuidado muito grande em Direito com a palavra. Uma palavra numa lei pode mudá-la Infectamente, numa defesa, numa petição inicial, a palavra é importantíssima, um peso tremendo. E na comédia, no argumento em geral e na comédia, a palavra pode fazer exatamente isso, pode fazer. É o tropeção, é o twist que faz com que aquela frase, de repente, dê-nos uma volta ao cérebro e nos faça ter uma gargalhada. Portanto, tu precisas da palavra precisa para dizer o que tu queres dizer? A precisão é absoluta. Absoluta. Isto é um trabalho de precisão. O argumento é um trabalho de precisão. A comédia, mais ainda. Nós trabalhamos muito por um bom argumento, tem que ser muito económico naquilo que se diz. Portanto, um exemplo de um mau argumento é aquele argumento declarativo, onde ele diz, bem, acabei de chegar agora e há imenso tempo que estou aqui nesta empresa à tua espera e tu nunca mais chegas. Isto é uma exposição, tecnicamente, em que tem que se dizer tudo. Um bom guião, isto não é dito. Isto é demonstrado por um exemplo. Por exemplo, estou muito nervoso. Isto é um mau guião. Um bom guião, diria eu. O personagem senta-se, limpa o suor da testa, ajeita a camisa e olha em volta. Já percebemos que ele está nervoso. Portanto, temos vários níveis de comunicação. Exatamente. Por isso é que eu digo que é canalização e literatura. São as duas coisas. E está escrito. E está escrito, mas não para o personagem ser dito. Está escrito para o ator fazer, para o realizador saber o que vai acontecer. Portanto, tens lá descrito. O ator senta-se, pega no lenço, limpa o suor da testa, olha em volta, olha para a janela, olha para o relógio e acaba de dizer que ele está nervoso e está ansioso. Em vez de ele entrar e dizer estou extremamente ansioso. Isto é declarativo. Que é quase canastrão, não é? Não é declarativo, ou seja, é o exemplo do mau guião. O guião tem que ser económico nas palavras. Daí a importância da palavra, que é uma coisa que felizmente eu já tinha percebido no direito e depois percebi ainda muito mais quando trabalhei nesta área.
Jorge Correia
18:04
Não quero deixar escapar as tuas frases porque depois da frase de Artista Bastos, onde é que tu estavas? No 25 de Abril, que na realidade é uma reinterpretação, Que mais tens tu no teu acervo? Nas tuas medalhas de frases que se transformaram numa coisa que tu eventualmente não pensarias?
Henrique Dias
18:24
Tantas, mas eu não vou ter aqui. Tantas coisas do Pôr do Sol, o Tele Rural, que foi uma coisa que eu escrevi durante anos com o Federico Pombares, no TikTok, aquilo é uma coisa… É estranho como aquele teve um ressurgimento no TikTok. No TikTok aquilo é absolutamente viral, é imensas coisas. E o Levanta-te e Rir, que foi uma coisa que eu comecei também João Quadros e com o Eduardo Madeira que também teve um peso naquela altura em Portugal e lançou o stand-up ou seja, há imensas coisas que vão ficar, isso acaba por ser um bocado da glória perfeita de um argumentista, que é perceber ao fim de um tempo que as frases importantes não são aquelas, as falas não são aquelas que são ditas mais altas, são as que ficam.
Jorge Correia
19:02
Sim, e ficam na memória das pessoas e que colam geracionalmente à geração a seguir lá está a geração TikTok que agora está a recuperar, a ir buscar, a fotografar essa realidade e a…
Henrique Dias
19:14
E isso é o exemplo do meu argumentista, que é não saber exatamente que é minha, que fui eu que escrevi, mas ela entrar numa espécie de imaginário coletivo, como o Herman fez durante anos.
Jorge Correia
19:23
E as ideias falhadas, ou parvas, ou que não funcionaram, ou que tu dizes. São,
Henrique Dias
19:27
ou seja, em Portugal, nós só muito recentemente é que começámos a ter uma escola de guião e de argumentistas à séria. Portanto, antes fazia-se por tentativa de erro. E o erro é importantíssimo. Os americanos têm uma coisa Nos Estados Unidos errar é um currículo Só que aqui é uma coisa horrível Mas é importante errar É importante falhar, é importante testar Eu tive a sorte de ter estado numa empresa Onde me deu essa possibilidade de testar vários formatos e errar Mas é aí que se aprende Porque com o sucesso aprende-se muito pouco Está feito? Está resolvido? Está feito, está resolvido É mais importante perceber o que não resulta do que o que resulta
Jorge Correia
20:02
Olha, eu tenho curiosidade Uma série como o Puro do Sol Foi feita a primeira e a segunda série Estava no auge e mataram aquilo?
Henrique Dias
20:12
Sim Uma decisão autoral Não continuar é uma decisão autoral Parar de escrever é uma decisão autoral O que é que nós queremos? Nós não nós queríamos que nos dissessem Preferimos todos Eu, o Rui Melo e o Preza Preferimos que nos perguntem porque é que pararam Do que nos perguntem porque é que continuaram Sim, mais valia ter matado isto Não, às vezes acontece aquela coisa horrível Porque é que continuaram? E agora perguntam-nos porque é que pararam Eu prefiro que nos perguntem porquê que pararam.
Jorge Correia
20:41
Olha, fala-me dessa Santíssima Trindade. O que é que une Melo, Pureza
Henrique Dias
20:48
e Henriques? A mesma maneira de olhar para o humor. Ou seja, nós arranjámos ali uma parceria. São insuportáveis todos juntos? Não, não. Damos todos muito bem e retroalimentando. Ou seja, temos muito respeito pelas áreas de cada um. Mas há uma espécie de partilha de… Não há problema nenhum em eu falar com o Manel sobre coisas de realização. O Manel falar comigo sobre coisas texto, falarmos com o Rui sobre coisas dos atores e essa partilha, esse contágio é fantástico. Agora, tem que haver aqui uma espécie de pagamento, não é pagamento, nunca se apaga, mas uma espécie de controle do ego, porque estamos a falar, estas filhas artísticas, nós temos sempre um ego muito forte e é bom que ele exista, porque isso é que é o drive que nos faz funcionar. Agora, temos que perceber que quando três pessoas estão a trabalhar há ali uma luta de egos, que é normal existir. Agora, na comédia é muito fácil, porque ganha, há aqui uma espécie de teste de algodão, que é tem graça ou não tem graça. Nunca há vitória de, ah, eu tenho razão, a razão aqui é quem tem graça. E temos três pessoas e alguém diz uma coisa e normalmente se percebe se tem graça ou não tem graça. Ou seja, nisso a comédia acalma os egos de uma forma muito, muito, muito fácil. E depois há uma coisa muito engraçada que o Matt Damon e o Ben Affleck disseram uma vez quando fizeram o Good Will Hunting, que eles faziam esse processo criativo e tinha uma frase que eu usei sempre, que é, nunca julguem, nos processos criativos, quando estão por ainda aí em cima da mesa. Nunca nos julguem pelas más ideias, julguem-nos pelas boas. Porque nós temos de ser liberdados em más ideias. O que acontece mais é más ideias. E se nós vamos estar com problema, não vou dizer uma má ideia que vou ser julgado. A coisa não avança. Portanto, é ser julgado pelas boas. Não quer que, digamos, tu tiveste uma ideia péssima, quer que se lembre das boas. Se tivermos isso em mente, é muito mais fácil.
Jorge Correia
22:27
E como é que tu, anos envolvidos, consegues manter essa frescura e liberdade criativa agora que tens um currículo, que tens uma carreira, que tens um… Tu podes dizer Ok, eu posso fazer um cadastro das coisas todas onde eu me enganei, mas tu neste momento já tens uma carreira. Portanto, ainda és capaz de pôr esse risco todo em cima da mesa?
Henrique Dias
22:48
Inconsciência. Inconsciência. Nós temos que ser profundamente inconscientes. Ou seja, nós, acho que isto tem que haver um certo grau de irresponsabilidade e inconsciência. Se nós estamos nisto com algum tipo de certeza, a coisa morre. Não há certezas neste meio. Nós podemos ter um pouco mais de experiência, um pouco menos de experiências, mas não há certezas. Nós temos que continuar a ser irresponsáveis e inconscientes nas coisas que apresentamos. Que isso é que nos dá a liberdade.
Jorge Correia
23:10
Mas isso não é um bocadinho o anti-ego? Lá está. O teu ego até podia funcionar ao contrário, não é?
Henrique Dias
23:15
Eu tenho a plena conde nisso. Sou muito… Aquela máxima filosófica. Só sei que nada. Sei a aplicação. O que eu sei disto é muito pouco. Qualquer pessoa que tenha o mínimo de humildade, à medida que vai avançando numa carreira, numa área de conhecimento, vai percebendo que o que há para conhecer é muito mais do que aquilo que já sabe.
Jorge Correia
23:30
E, portanto, nós nunca conseguimos atingir completamente esses aulos.
Henrique Dias
23:33
Pelo contrário, quanto mais eu sei sobre argumento e sobre hoje, mais dúvidas eu tenho. Cada processo que eu começo, é horrível as dúvidas que eu tenho e as incertezas e o tempo que eu demoro em cada página. O processo é sempre… E tem que ser assim. No dia em que eu disser, não, eu sei como é que isto se faz, acabou. O que é que fazes com a dúvida? Lido com ela da melhor maneira que posso. Sou insuportável para as pessoas à minha volta, provavelmente, mas lido com ela.
Jorge Correia
24:01
E o bloqueio criativista é uma fantasia?
Henrique Dias
24:03
Isso eu acho que é uma coisa de não profissionais. Ou seja, quando se é profissional, senta-se em frente a um computador e escreve-se. Pode-se ter a noção que está a escrever mal. Agora não se para. Porque há uma lubrificação nesse processo? Há um… O Sarah Mark tinha essa coisa que sentava-se uma certa hora e escrevia daquela hora àquela hora. Independente do que saía. E se perde esse lado quase fabril, depois perde-se um bocadinho de uma… perde-se a mão da escrita. Ou seja, tem que estar-se constantemente a escrever. Aquela coisa, eu hoje não estou inspirado, não vou escrever, isso não existe. Isso é uma coisa de amador. E nas férias, como é que sobrevives? Não, nas férias… Paras? Paro e lá está. As férias, para mim, há um parar, sim, da minha cabeça libertas aquilo, mas eu não consigo desligar. É uma coisa que isso já está na minha turista. A comédia é uma forma de reparar no mundo. Eu reparo no mundo com esses olhos. Eu estou na praia e uma senhora entra na água, ao sair, eu estou a pensar quem é aquela mulher, de onde é que ela veio, quem é o marido, o que é que ela está aqui a fazer. Ou seja, estou sempre nisto. Estás a montar uma história dela? Estou sempre. O que é que te faz rir? Muito pouco. Muito pouco. Porque isso é um defeito de profissão. Ou seja, eu sou muito analítico. Já há muito poucas coisas que me fazem rir. Do meu trabalho. De outras pessoas, sim. Quer dizer, tu estás sempre a fazer autópsias? Sim, claro. Sempre, claro. Eu estou a ver… Eu quando estou a ver alguma coisa, eu faço… Isto é uma gargalhada tremenda que eu vejo. Mas eu estou a ver como é que ele chegou lá. Qual é que foi o mecanismo? Qual é que foi a premissa? Estou a ver essas coisas todas. Mas assim, não usufruis das de uma forma se calhar até muito mais consciente que as outras pessoas agora não exterioriza a mesma forma ou seja, o gozo com que eu quando acabo de ver um bom stand-up ou uma série, o gozo com que eu fico a seguir o sentimento de fico de certa forma preenchido e alegro de uma forma que só não é exteriónica e só não é visível para a pessoa que está ao meu lado, mas eu fico mesmo muito, muito contente quando vejo uma boa série de comédia
Jorge Correia
25:58
portanto, mal comparado, nós bebemos vinho quase de trago e tu degustas aquilo que estás a ver, tentando partir aquilo em pedacinhos. E isso ainda assim diverte-te. Não sei se essa é a boa imagem. Ou estás a ficar cético e já há pouca coisa que te entusiasme.
Henrique Dias
26:19
Não, o meu entusiasme é que é historiado de uma maneira diferente. É mais filmático. É mais porque eu estou sempre nessa parte analítica. Mas o facto de ser uma parte analítica não quer dizer que não me deu um profundo gozo e uma profunda alegria. Eu vejo o Rick Gervais, é capaz de ser o meu stand-up comedian favorito. O Louis Siquei, o Dave Chappelle. Eu quando vejo um espetáculo deles, sou capaz de ter duas gargalhadas durante o espetáculo. Só? Só.
Jorge Correia
26:46
Tu és um cliente caro. Não, não, não.
Henrique Dias
26:48
Mas eu estou a apreciar aquilo. Estou a apreciar aquilo e saio dali e vou recomendar aquilo a mão de gente. Agora, tem que perceber que eu estou dentro do meio, ou seja, estou com um olhar técnico sobre tudo aquilo.
Jorge Correia
26:58
E dos portugueses há coisas que te fascinam? Sim, claro que sim Da malta mais estabelecida Ou dos mil e dos novos que estão a aparecer aí?
Henrique Dias
27:08
Tem das duas Ou seja, há pessoas mais estabelecidas que eu gosto Dos mil e dos novos também há pessoas que gostam Eu nunca faço questão de dizer um ao outro Para não ser deselegante com colegas Mas não acho nada que A antiga geração era melhor ou a mais nova Não, há coisas boas na antiga geração Há coisas boas na nova geração Não temos problemas nenhum com o humor Só uma coisa boa que está a acontecer é que finalmente agora as mulheres estão a começar a fazer humor que era uma coisa que no meu tempo não fazia.
Jorge Correia
27:31
Porquê que as mulheres não apareciam?
Henrique Dias
27:32
Não faço ideia.
Jorge Correia
27:33
Era muito pouco. Bom, Joana Marques é um bom exemplo de mulher, mas depois aparecem mais mulheres.
Henrique Dias
27:38
Muito mais. Quando eu comecei a escrever humor era muito raro e era um ambiente muito masculino e muito clube do Bolinha. Era muito.
Jorge Correia
27:46
Mas porque as mulheres não entravam?
Henrique Dias
27:47
Ou porque não as deixavam entrar? Havia uma coisa muito masculina e muito… Não era misógina, mas era uma coisa de clube, do bolinho. Uma coisa meio adolescente masculina, que de certa forma, não de uma forma assumida, de uma forma inconsciente, excluía as mulheres. E há humor feminino e masculino na escrita? Eu acho que as mulheres as que estão hoje em dia em Portugal, não acho que seja humor masculino e feminino. Por exemplo, nas americanas eu noto que há humor feminino nas americanas. Nas portuguesas eu não noto muito isso.
Jorge Correia
28:23
Bom, entretanto, tu decidiste meter-te num molho de brócolos posso defini-lo assim escrevendo uma coisa chamada Senhor Engenheiro alegadamente um musical e eu não deixo de me divertir com a ideia de que a própria ordem dos engenheiros disse olha, veja lá, por Senhor Engenheiro isto não é bom para a classe como é que foi a experiência? quem é que se lembra disto?
Henrique Dias
28:47
Eu fui num domingo à noite porque normalmente surgem as ideias mais párbaras. Pareceu-me que aquilo estava a atingir, no domingo à noite passou na televisão uma reportagem qualquer sobre o caso Sócrates, e aquilo já estava a atingir um ponto em que aquilo acho que indignou-nos a todos, criou-nos estupefação, e depois chegou um ponto que já temos passado a indignação, a estupefação, já temos passado a incredulidade e já estávamos num ponto em que já havia um sorriso quando vimos aquilo. Aquilo já estava numa surrealismo tal que aquilo fazia-nos rir. E eu pensei, eu acho que está na altura de perceber o quão surreal isto é. E lá está. O que é que o absurdo faz? Faz isso. Pega numa situação, leva a extremos lógicos e conseguimos mostrar uma coisa, se calhar, mais facilmente do que uma reportagem. Conseguimos pôr a realidade a nu de uma maneira que uma reportagem não pode.
Jorge Correia
29:40
Sendo que nós conhecemos todos o contexto, nós conhecemos todos a história, todos conhecemos a realidade, o que é que se faz para que essa realidade, que lá está, que nos indignou, que nos tornou, quase ficamos estupefactos com isto, o que é que nos faz depois? Como é que tu escreves um texto que nos faz dar vontade de rir numa coisa que no início se calhar nos deu vontade de chorar?
Henrique Dias
30:05
O problema era o outro. Eu acho que já estávamos todos na fase que nos fazia rir. O problema é que toda a gente entrava naquela sala de teatro, entrava no tivoli, com o guião na sua cabeça. Eu tinha que criar um guião novo. Essa que era a grande questão.
Jorge Correia
30:16
Eu tinha que reescrever.
Henrique Dias
30:17
Não, ou seja, eu tinha que criar um guião que surpreendesse as pessoas. Se as pessoas fossem lá, todos nós, se dissesse, olha, anda aqui e senta durante uma hora e meia e vais ver uma peça sobre a história do caso do Engenheiro Sócrates. As pessoas já tinham na sua cabeça o seu guião feito. E as falas. E as falas. Quem é que diz? E agora o advogado. E eu tinha que fazer um guião que surpreendesse as pessoas. Esse é que foi o grande desafio. Tinha que dar exatamente aquilo que elas sabiam que existiu, mas de uma forma que as surpreendesse. Apenas encuras, no fundo, para nós nos podermos agarrar. Exatamente. E tinha que surpreender-os. O que não é fácil, porque as pessoas sabem a história. Isto é um contrassenso. Eu vou tentar surpreender pessoas com uma história que elas já sabem. Esse foi o grande desafio. Eu nunca tive medo da questão política, jurídica. Será que tem graça? Claro que tem graça. A minha questão sempre foi esta. Como é que eu vou dar uma coisa nova às pessoas que já conhecem esta história? Isso é que foi o difícil. Tu que és das palavras, o que é que tu achas da palavra alegadamente? Acho que é um adverbio fantástico. Acho que é uma palavra genial. que resume, ou seja, resume toda a nossa relação com este caso. Alegadamente. O alegadamente resume. A ideia nem foi minha, foi numa reunião, uma das produtoras que falou, alegadamente o musical, ao princípio criou ali alguns anticorpos, mas depois foi crescendo e sim, alegadamente, resume um pouco toda a nossa relação. Porque, na verdade, ou seja, aquela peça, dizer que é sobre a história do Engenheiro Sócrates é redutor. Aquilo é sobre a maneira como nós vimos o caso do Engenheiro Sócrates, a maneira como nós, portugueses, nos relacionamos com o poder, nos relacionamos com esta história, é muito mais sobre isso. Claro que o engenheiro Sócrates é a base para estas coisas todas, a história. Mas aquilo é muito mais importante, muito mais estimulante. E acho que o espetáculo tinha muito mais a ver com como é que nós nos relacionamos com este caso do que propriamente com o caso. Como é que nós nos relacionamos com o poder. Como é que nós nos relacionamos com estas coisas que nós sabemos que acontecem.
Jorge Correia
32:03
É o retrato da Portugalidade. Exatamente. Eu estou a ouvir-te e estou a pensar aqui no advento mais português de Portugal, que é a Cunha, não é? Toda a gente está sempre a resmungar e as cunhas e conhece toda a gente e não conhece e depois olha, tem aqui um problema, não conhece aí ninguém, não sei o que, a quem possa ajudar no telefonema. Isto é uma matriz social, isto não é um… Eu acho que ninguém pensa nisto como uma influência, um crime, uma… É o quê? É um clichê.
Henrique Dias
32:31
É um clichê? É? É um clichê? É um clichê. É uma memória coletiva. As pessoas hoje em dia já não percebem a gravidade quando dizem é para ver lá isso, me ajudas nisso. Isto já está feito de tal maneira que a certas coisas Nós temos uma série de clichês que se vão repetindo, respeitinho, são uma série de coisas que vão ficando dentro de nós e que nós vamos perdendo um pouco a noção do que é que essas coisas são. A repetição faz com que, o uso dessas coisas, faz com que nós já tenhamos perdido de vista o que é que elas são na verdade. Ficamos desensibilizados? Totalmente, totalmente. As pessoas em dia já não veem a cunha com uma coisa assim muito má. Mas se um dia uma peça, um sketch, pegar nisso e levar aquilo ao exagero as pessoas vão dizer, espera lá, isto realmente é uma coisa muito estranha, mas lá está é essa coisa que o humor tem de fantástico é esta lente gigante que se põe sobre as coisas e que é muito mais potente do que uma reportagem uma reportagem sobre uma reportagem sobre um caso de corrupção dura na nossa mente uma semana um bom sketch sobre a corrupção ou sobre um favor dura, não digo uma vida inteira, mas
Jorge Correia
33:35
anos dura. O que é que o humor nos faz? Porquê que o humor é essa ferramenta que permite carimbar de uma forma indelével na nossa cabeça uma determinada ideia?
Henrique Dias
33:47
Não sei, este vídeo sobre o humor, eu tenho a ideia
Jorge Correia
33:49
do que o humor… Há limites no humor, não é? Aquela velha pergunta que se faz. Sim, essa questão é…
Henrique Dias
33:55
Não, essa questão…
Jorge Correia
33:58
Eu ouço toda a gente fazer essa pergunta, quer dizer, até fico envergonhado
Henrique Dias
34:01
se eu próprio não a fizer.
Jorge Correia
34:02
Há limites
Henrique Dias
34:03
para o humor e tal. Obviamente não há limites para o humor. O limite para o humor é a lei. Ou seja, há limites para a vida. O limite para a vida é a lei. Só é isso que há. Depende do juiz. É lei. Ou seja, o que é que eu vou dizer? Se há limites para o humor é dizer o que é que eu posso fazer na minha vida, não é só no humor. O que é que eu posso fazer na minha vida? Podes fazer o que tu quiseres, desde que não violes nenhuma lei. O que é que podes fazer no humor? Tu, desde que não violes nenhuma lei. Não há limites para o humor. E porquê que o humor dói tanto aos poderosos? Porque é mostrar que nós somos ridículos. Ou seja, o contrário do humor, as pessoas têm a ideia que o contrário do humor é o sério. O outro lado do humor não é a seriedade, é a suunidade. Ou seja, a suunidade é que está nos antípodos do humor. e a sumididade é que se sente mais afetada pelo humor não é a pessoa séria a pessoa séria e o humor as coisas dão-se relativamente bem agora a sumididade e o humor é que são coisas muito difíceis de considerar daí os políticos e todas as pessoas que lidam com uma certa estrutura de poder e uma certa sumididade e liturgia digamos assim, têm uma grande dificuldade porque o humor na verdade está a expor o ridículo o rei vai nu é o rei vai nu se bem que o rei vai nu ainda é uma coisa muito é muito pouco para aquilo que o humor mostra. O humor mostra a nossa fragilidade a um nível muito mais profundo. Nós não somos tão bons como aquilo que achamos, não somos tão cultos como aquilo que achamos, nós somos muito fracos enquanto criação.
Jorge Correia
35:25
É um advento da nossa fragilidade também? Totalmente. É engraçado, tu estás a falar da solenidade e eu estou a pensar que há um conjunto de atos da liturgia pública, a procissão e depois vai ou uma assembleia geral
Henrique Dias
35:43
é o nome da Rosa quando se tenta evitar as piadas porque o humor seria a única coisa que faria acabar com a solidariedade e a importância de Deus, porque quando se ri de Deus já não se tem medo de Deus ou seja, o humor é essa coisa subversiva e o Deus ria muito pouco, não é? pois há várias historias o do Antigo Testamento não ria nada pelo contrário, matava muito Sim. O do Novo Testamento. Já há algumas teorias que dizem que há ali uma parte de Deus um pouco mais benevolente com o humor.
Jorge Correia
36:14
A curiosidade que não interessa nada, o engenheiro Sócrates foi convidado para a peça?
Henrique Dias
36:19
Penso que isso foi uma questão da produção, mas acho que a produção o convidou, sim. Acho que a produção o convidou.
Jorge Correia
36:23
Olha, quando tu tens que escrever frases para que um outro alguém diga, e tendo esse cuidado com as palavras e o supesar dessas palavras, onde é que está a tua banda? onde é que está o teu limite? depende para quem escreves, depende do tipo de produto que tu vais produzir onde é que estão os teus próprios limites?
Henrique Dias
36:49
os meus próprios limites ou as minhas próprias convicções?
Jorge Correia
36:51
ou convicções ou limites
Henrique Dias
36:53
as minhas convicções desaparecem desaparecem? ou seja, eu não vou dizer que eu quando estou a fazer um sketch sobre alguma coisa é de certa forma um reflexo do meu olhar e nós temos vieses, sempre Sempre, mas eu tento que eles não interfiram. Até porque quando eu ponho a minha baliza ao ridículo, eu encontro ridículo. Politicamente na esquerda, na direita, nos conservadores, nos progressistas. Ou seja, o ridículo está em todo lado. Quando eu vejo a minha baliza, o ridículo, apontar o ridículo, eu acho que é muito fácil. O Bergson dizia que era uma espécie, que o Ries era uma correção social. Pronto. Eu não sei se será uma correção social, até porque depois a sátira política faz o contrário. essa atareira política vai subverter as regras que fazem com que haja essa correção social. Mas anda lá perto, é esse ridículo, é esse sair da norma. Porque eu acho que o ridículo é um sair da norma que nós nos estamos a impor a nós como cidade. Nós, a norma que nos impomos a nós e a cidade é que somos todos muito higiênicos e muito cordatos e temos uma grande urbanidade e somos todos muito empáticos. Tentamos ser, mas depois estamos cheios de defeitos. E é isso que que sai cada vez que se faz uma piada, é isso que nos faz rir, essa libertação. É nós revermos naquela piada. Eu acho que é uma coisa… Aquele espetáculo de stand-up que tem aquelas gargalhadas gigantes, é quando ele diz alguma coisa que nós sabemos que é verdade, mas não temos coragem de a dizer.
Jorge Correia
38:18
E que não devemos rir, não é? E não devemos rir. Eu não posso rir disto. E para tocar temas que são temas difíceis, quer dizer, o racismo, a violência…
Henrique Dias
38:28
Temas difíceis, têm que ser bem feitos. Os temas têm que ser bem feitos. Se um tema for bem feito e bem tratado, é possível fazer piadas sobre tudo. Há uma única exceção que eu acho que é a questão do tempo. Eu acho que o tempo é importante. Ou seja, aconteceu uma tragédia, um 11 de setembro. Eu acho que uma piada sobre o 11 de setembro no dia a seguir… Mas isto é uma questão pessoal. É uma questão pessoal que eu teria alguma dificuldade. Acho que o tempo é uma questão no humor. Acho que é a única questão. De resto, não há temas tabu em humor.
Jorge Correia
38:56
Portanto, precisas de algum distanciamento? Sim. De alguma redução do impacto emocional que teve determinada coisa?
Henrique Dias
39:01
para depois poder olhar para aquilo que se tem graça. Eu preciso. Acho perfeitamente que outras pessoas à minha volta façam e há colegas que fazem. Eu preciso. Eu preciso desse distanciamento porque ainda às vezes ainda estou muito… Aí sim as minhas convicções podiam entrar em campo. Eu não quero isso.
Jorge Correia
39:17
E a exploração do humor negro de uma forma radical. Exatamente o humor negro pelo humor negro.
Henrique Dias
39:23
Eu sou desde que seja bom. Ou seja, o problema no humor é quando as coisas são bem feitas. Já vi espetáculos de humor negro geniais. Já houve espetáculos que falam do racismo de forma genial. Agora, o problema é quando são maus os espetáculos. E outra coisa que se confunde hoje em dia é que um personagem numa série que é racista não está a fazer a apologia do racismo. É uma coisa que cada vez é mais difícil explicar às pessoas. Estamos a perder o sentido de ironia. Estamos a perder completamente. Ou seja, nós estamos a nivelar o humor pela pessoa. Há uma pessoa sempre que diz que eu não percebi que aquele personagem estava… E estamos a nivelar por aí. Ou seja, estamos a nivelar pela pessoa mais burra que não percebeu.
Jorge Correia
39:59
Foi o Henrique que escreveu isto e isto é uma declaração racista que nem sequer devia estar aqui nesta peça. Porque o personagem a diz.
Henrique Dias
40:06
E não com o espelho. Este personagem ao dizer isto está a ser racista. Não, este personagem está a espelhar uma pessoa que é racista e normalmente está a fazer um gozo das pessoas que são racistas. O Archibanker, que era de uma série de que os mais novos não se lembraram, mas era um tipo profundamente racista e ríamos com o racismo dele e ele ajudou nos Estados Unidos a fazer uma mudança cultural nos Estados Unidos.
Jorge Correia
40:27
Sim, ele era o protótipo do tipo branco já idoso e que fazia as declarações mais bárbaras do mundo.
Henrique Dias
40:34
Mais conservadoras, mais racistas e os americanos começaram a perceber o quão ridículo era aquele tipo. Ou seja, o humor é a única altura em que se vê uma pessoa que é racista, eles consideram, não, mas ele é um personagem racista é uma coisa que alguém. Se um personagem numa série matar alguém, nós não queremos que estamos a fazer apologia do homicídio. Não. Estamos a mostrar uma realidade. Isto é ficção, isto não é vida. E as pessoas têm esta dificuldade também de hoje em dia. Então o humor tem que usar isso.
Jorge Correia
41:02
Tu és beneficiário das redes sociais. Lá está, pela propagação, anos até mais tarde, de trabalhos que tu produziste. E a polarização levas com ela?
Henrique Dias
41:13
Eu não entro em questões. Eu, cada vez que tentam entrar em questões políticas no meu Instagram, eu digo sempre a mesma coisa. Estou disponível para jantar e falarmos sobre isso? Nas redes sociais, não.
Jorge Correia
41:22
Não levas com um enxame de comentários negativos?
Henrique Dias
41:25
Estar em discussões políticas nas redes sociais coisa que fazer. As redes sociais servem para discussões políticas da mesma forma que servem para grelhar peixe. Não servem.
Jorge Correia
41:35
Políticas ou do futebol ou do que for, não é?
Henrique Dias
41:37
É a mesma coisa. Não entro ali, eu ligo, ponho-me o meu trabalho, divirto-me. Agora, tenho imensos amigos que eu digo, tenho uma opinião, às vezes mandam mensagem, epá, tu viste aquilo que se passou e não sei o que, epá, anda cá a casa a jantar. E vamos jantar cá a casa ou se ir ao que é e discuto política com toda a gente. Porque quando estamos com olhos nos olhos, temos uma maneira de comunicar. É diferente. Quando estamos atrás da moita
Jorge Correia
41:55
do Instagram da vida.
Henrique Dias
41:57
É indiferente. Isto torna-se completamente diferente. É diferente. Eu estou habituado. Eu quero falar com pessoas cara a cara. Quero ter esta troca de opiniões. E depois há outra coisa incrível que é a liberdade de expressão tem sido usada, não é só cá, por uma coisa completamente absurda, que é disso. Ah, eu posso dizer a maior alervidade porque estou no uso da minha liberdade de expressão.
Jorge Correia
42:16
Eu tenho direito à minha opinião.
Henrique Dias
42:18
Agora, as pessoas não percebem a liberdade de expressão não protege a opinião. Protege a pessoa de a emitir. Ou seja, a opinião pode ser profundamente estúpida. O que está a ser protegido não é a opinião. ou seja, este direito não protege a minha opinião protesta a ti para não ir preso eu posso dizer uma barbaridade? Protesta, a liberdade de expressão diz tu tens liberdade de dizer alguma coisa sem ir preso agora a liberdade de expressão não diz não, como eu tenho liberdade de expressão, a minha opinião é válida não, não é válida ou seja, um tipo tem uma opinião que acha que Moçambique fica na Ásia mas é a minha opinião pronto, é a tua opinião ele não vai ser preso por dizer isso agora, ninguém lhe vai dar uma cadeira de geografia E é isso que ele quer. Ele gira às pessoas que acham que Moçambique é na Ásia, querem uma cadeira de geografia. Não, não tens estudos para ter
Jorge Correia
43:02
uma cadeira de geografia. É a minha verdade contra a tua verdade?
Henrique Dias
43:04
Não é. Não é. Não é. Ah, respeita a minha verdade. Não respeito. Não, desculpa lá. Não respeito. Respeito a tua liberdade de dizeres isso. A tua verdade é outra coisa.
Jorge Correia
43:13
E as pessoas confundem as duas coisas. E para ti é divertido ver pessoas com essa convicção a defender a coisa mais…
Henrique Dias
43:20
Claro. Pois, porque, ou seja, isto nunca chega para me irritar. normalmente como eu estou ligado muito ao…
Jorge Correia
43:26
É a lenha para a tua fogueira.
Henrique Dias
43:27
Exatamente. É fantástico. Começa a inventar personagens que são negacionistas ou que têm estas ideias. Ou seja, é tudo um ponto de partida. Mas são tempos muito fascinantes para quem escreve, no geral, e para quem escreve comédia em particular.
Jorge Correia
43:42
Fascinantes, não é deprimentes? Não, não, não. Fascinantes.
Henrique Dias
43:45
Fascinantes.
Jorge Correia
43:46
E coisas para chorar? Também te sentes com vontade de escrever, não?
Henrique Dias
43:52
Sim, sim. Ou seja, o humor… Eu sou um autor. O humor é uma das minhas línguas. Já fiz séries que não eram necessariamente comédias. O próximo filme que estou a escrever também não é necessariamente uma comédia. É onde eu navego melhor, mas às vezes é o que eu quero dizer. Às vezes sinto necessidade de dizer outras coisas. E há outras coisas que me atraem. As boas histórias atraem. E normalmente quando surge uma boa ideia não sou eu que decido se é uma ideia de comédia ou se é uma ideia de drama. E, por exemplo, a última ideia que me surgiu não é uma ideia de comédia, é uma ideia de drama. eu vou atrás das ideias que me surgem.
Jorge Correia
44:24
Portanto, primeiro aparece a ideia e depois tu pensas na fórmula ou na formatação que aquilo pode ter. Sim,
Henrique Dias
44:30
sim.
Jorge Correia
44:31
Tenho sempre curiosidade de saber das pessoas que escrevem e…
Henrique Dias
44:34
Sim, se quisermos, ou seja, se quisermos por algum lado mágico, digamos assim, neste processo, para mim, como é que me surgiu a ideia. Depois, o lado da escrita e o lado, tudo a partir daí é uma coisa do operário. É uma coisa do operário, de trabalhador. Estás a retirar o romantismo completo disto. Não, não. É uma coisa artesanal. Uma coisa artesanal de limpar, escrever, reescrever. Agora, há uma primeira fase, sim, que é a ideia. Como é que ela surge, de onde é que ela vem, o que é que contribuiu para me surgir, isso não faço a mínima ideia. E é daqueles mistérios que eu gosto que ele fique assim. Há uma intuição? Aparece a um lampejo? Exatamente. Isso sim. No meu caso, sim.
Jorge Correia
45:10
E depois a ideia está pronta logo, não?
Henrique Dias
45:12
Tu tens que burilar? A partir daí entra a parte de artesanato. Tira isto, põe aquilo, acrescenta isto, testa assim, testa de outra maneira. Aí sim começa o trabalho de hora e visaria. Nas fontes que te inspiram, o que é que tu lês? O que é que tu ouves? Eu tenho uma coisa horrível que é, quando eu estou a escrever, eu não posso ter nada que me exija algum esforço intelectual. Não consigo. Quando estou a escrever, há uma coisa, do ponto de vista intelectual, é pesada, quando tem um ritmo de trabalho pesado. Eu só consigo ver documentários. só consigo olhar para o mar e não pensar em absolutamente nada, passear as minhas cadeias, não consigo pegar num livro, não consigo ver uma série e dizer esta série é tão intensa e profunda. Esqueçam. Isso tem que ser nos períodos em que eu estou mais calmo, em que não tenho nada, porque a minha cabeça já está com tanta coisa que eu acabo um dia de trabalho e quero ver. Documentários é o que eu vejo mais. Nesta fase, que estou agora de muito trabalho, estou a acabar e vejo documentários.
Jorge Correia
46:10
Não consigo ver mais nada. Estás descansado e estás a escrever em toda a tua potência e capacidade. Neste momento, sim. O que é que te descansa a cabeça? Porque depois desses períodos muito…
Henrique Dias
46:20
A linguagem de documentário é uma coisa que me descansa.
Jorge Correia
46:23
Pelo ritmo?
Henrique Dias
46:24
Não, porque… Ou seja, se eu tiver a ver ficção, eu estou a trabalhar outra vez. Estou a olhar para aquilo e estou à procura do… Qual é que é o incidente que fez isto disputar? Mas não te encantas? É um encantamento diferente. Ou seja, eu vejo uma série que eu gosto e fico fascinado, mas não da mesma maneira. Fico fascinado, não fico fascinado da mesma maneira. É a mesma coisa que perguntarem. Um treinador de futebol que está a ver um jogo, está a apreciar o jogo como um adepto. Não está a apreciar como um adepto. Está a vibrar, fica contente com os golos, mas o olhar dele é diferente do olhar do adepto. Está a ver outras coisas. Está a ver outras coisas, mas está a apreciar. Por isso um treinador a ver um jogo de futebol do Manchester City contra o Bayern de Munique e ele provavelmente fica delirante a ver aquele futebol. Mas não está como está um adepto nas bancadas. É diferente.
Jorge Correia
47:17
Henrique, muito obrigado por esta conversa bons argumentos, boas frases feitas para recordar mais tarde não são feitas até tu as escreveres e ficarmos a pensar sobre elas e vá em frente, como é que é a irresponsabilidade?
Henrique Dias
47:34
em consciência e responsabilidade
Jorge Correia
47:36
gosto disso isso é verdadeiramente André em excesso de velocidade
Henrique Dias
47:40
para isto é mais complicado
Jorge Correia
47:42
Henrique, obrigado obrigado Pergunta simples um programa sobre comunicação para quem quer boas respostas Legenda Adriana Zanotto
