Há um momento da conversa em que tudo fica simples e difícil ao mesmo tempo. As relações não se partem por causa das discussões, partem-se pelo que ficou por dizer. O conflito faz barulho e por isso julgamos que é ele o culpado. Mas o veneno é silencioso, instala-se devagar, feito de pequenas críticas repetidas até a outra pessoa deixar de se sentir pessoa.
José Gameiro chama pedras do bolso àquilo que os casais guardam e atiram nas alturas erradas. A imagem fica. Todos temos bolsos cheios e quase sempre esperamos pelo pior momento para os esvaziar.
Fica também uma regra de comunicação que serve muito para além do amor. Não se discute a quente. Espera-se um ou dois dias e vê-se se ainda faz sentido. Grande parte das discussões não sobrevive a essa espera.
E depois há a solidão de quem vive acompanhado e não é ouvido. Não há pior. Escutar não é uma delicadeza, é uma forma de manter alguém vivo.
Este episódio faz parte da série ESSENCIAL e foi publicado originalmente em outubro de 2025.
Jorge Correia
00:00
Isto é um episódio da série Essencial, de Pergunta Simples. Neste verão, escolhi os episódios de que os ouvintes mais gostaram ao longo dos últimos meses. Todos os episódios estão no RTP Play, no Spotify, no YouTube e em todas as outras plataformas mundiais, incluindo por e-mail em perguntasimples.com.
00:19
Se é ouvinte e ainda não subscreveu na plataforma onde está neste momento a ouvir, faça-o agora. É gratuito e ajuda o programa a chegar a mais pessoas. Boa escuta!
00:43
Ora vivam! Bem-vindos ao Pergunta Simples, o vosso podcast sobre comunicação. Há perguntas que atravessam séculos e resistem às respostas mais fáceis.
00:52
Porque amamos quem amamos? Porquê é que mesmo amando, desejamos outro? E porquê que tantas vezes aquilo que deveria aproximar-nos acaba afinal por nos separar?
01:02
Quis saber tudo sobre isto com o psiquiatra José Gameiro, um especialista em amores e casos mal parados, em separações e em ressurreições relacionais. É tudo isto que vai poder ouvir no Pergunta Simples desta semana. A comunicação é o fio invisível que sustenta o amor e também o primeiro a romper-se quando a relação se gasta.
01:32
O tom muda, as palavras rareiam, o silêncio instala-se. E, no entanto, é aí, nesse vazio, que o coração humano tenta reinventar o diálogo consigo próprio e com o outro. O episódio de hoje mergulha nesse território onde a razão e a emoção se confundem.
01:47
O nosso convidado é José Gameiro, psiquiatra, especialista em relações de casal, autor do romance O Outro, o seu novo livro. Uma história que fala do desejo, da culpa e da busca impossível pela completude. Um romance sobre o que acontece quando o amor não chega, quando o cotidiano se torna demasiado previsível e o coração, insatisfeito, decide procurar um sentido fora de casa.
02:11
Mas o outro, o título do livro, não é apenas uma narrativa sobre infidelidade. É muito mais do que isso. É uma reflexão sobre o ser humano moderno, fragmentado, dividido entre o que sente e o que deveria sentir.
02:23
E sobretudo sobre a forma como comunicamos dentro das nossas contradições. O que dizemos e o que calamos. O que confessamos e o que escondemos.
02:31
Porque os triângulos amorosos, no fundo, são também triângulos de comunicação. Há sempre três vozes em conflito. A da verdade, a do desejo e a do medo.
02:42
Uma pede liberdade, outra pede pertença e a terceira tenta salvar a imagem que temos de nós próprios. E é nesse campo minado que o amor contemporâneo tenta sobreviver. Há quem pense que comunicar é escolher as palavras certas, mas comunicar é, acima de tudo, ter coragem para expor as nossas incoerências.
03:02
É suportar a nudez emocional de dizer, já não sei o que sinto. E ficar ali, em silêncio, à espera que o outro não fuja. Tenho, por isso, três lições que aprendi ao longo desta conversa.
03:15
A primeira é que o amor é uma língua que se fala com hesitação. Não há gramática perfeita, não há tradução fiel, as palavras envelhecem, os gestos mudam de sentido, o que ontem significava amor, hoje pode soar a tédio. Comunicar bem e aceitar que o idioma da intimidade tem de ser reaprendido todos os dias.
03:34
A segunda lição é que as relações não se quebram por causa do conflito, mas por falta de diálogo. O não dito é o verdadeiro veneno. A emissão, o silêncio, a ausência emocional, são eles que corroem a ligação entre duas pessoas.
03:47
José Gamera recorda que não há pior solidão do que aquela de quem vive acompanhado, mas daí só de ser ouvido. A terceira lição é que amar não é possuir, é compreender. Cuidar do outro é compreender o seu medo, a sua fadiga, a sua necessidade de espaço.
04:02
É saber rir no meio do caos, escutar sem interromper, aceitar que o amor também precisa de ar, de oxigênio. No fundo, esta conversa é sobre os dilemas universais da comunicação. O que acontece quando o discurso íntimo se esgota, quando o desejo se transforma em culpa, quando o amor desaparece e o silêncio se instala.
04:21
E é também sobre a redenção possível, o reencontro entre dois seres que aprendem a falar de novo, com menos certezas e mais tronura, porque o amor, como linguagem, só existe quando é praticado. Não há manual de instruções, mas há uma ética. A ética de tentar compreender o outro antes de se defender a si próprio.
04:40
E talvez esta seja a lição maior deste episódio, que comunicar é sempre um ato de amor, que o amor, quando se comunica mal, transforma-se num espelho estilhaçado, onde cada pedaço reflete uma parte de nós que ainda não aprendemos a escutar. Psiquiatra, psicólogo, agora escritor, romancista? Sou psiquiatra, sou psicólogo.
05:00
Psiquiatra, mas é doutorado em psicologia? Sou doutorado em psicologia, mas sou psiquiatra, sou médico. E agora como é que se meteu a escrever um livro, a escrever um romance?
Jose Gameiro
05:09
Eu acho que não é. Quer dizer, a editora chama-lhe um romance. Formalmente é porque não é um livro técnico. quer dizer, enquanto os livros que eu estou escrevendo até agora sobre casais, tinham muita técnica de terapia de casal, o que é que acontecia, como é que era, como é que não era, como é que eu fazia, como é que os casais faziam, este não tem nada técnico, rigorosamente nada.
05:27
Estes são três personagens que se cruzam ao longo da vida e é uma história de um dia… São três diários íntimos de três pessoas, um casal e uma terceira pessoa, que é o outro, que é o título do livro, não é? Que é o outro, não é uma outra? Não, é o outro.
05:41
É o outro. Do propósito é o outro, porque se a gente está muito habituados à outra, eu achei Temos um preconceito logo à cabeça Temos logo um preconceito É um homem que está sozinho E que na altura se apaixona por uma mulher que é casada E é muito atípico Por um lado não é técnica Não tem nenhuma intervenção técnica E é atípico no sentido Em vários sentidos No sentido em que Ela entra e sai de casa várias vezes Como é habitual O marido tem uma aceitação Na medida do possível não é evidente, não é? Porque não fica para mim satisfeito, não é? Mas a relação entre ela e o marido mantém-se e os filhos mantém-se a níveis de atenção aceitáveis apesar do que está a acontecer e depois há uma altura em que não vou contar a história, não é?
06:29
Há uma altura, isto corre ao longo pé de um ano não corre mais tempo que isso e há uma altura em que ela nunca se sentiu muito confortável na relação fora do casamento não provavelmente por razões éticas que as tinha também, que não é evidente, não é? Mas Não provavelmente por isso, mas porque nunca se sentiu capaz de desejar e viver com o antigo que ele amou esta vida.
Jorge Correia
06:51
Então, porquê é que nós nos metemos nestas coisas?
Jose Gameiro
06:53
É uma boa pergunta. As mais variadas razões.
Jorge Correia
06:56
Não é porque, afinal, há uma razão ética. Não deve ser. Todos sabemos isso.
07:01
Podemos ter a liberdade de ir, de partir, de ir encontrar um novo amor. Porquê é que criamos sempre… Há mil triângulos amorosos aí.
Jose Gameiro
07:09
Há mil triângulos e alguns duram dezenas de anos.
Jorge Correia
07:13
Dezenas de anos?
Jose Gameiro
07:14
Sim, sim, eu conheço casos, tive casos 45 anos E seu outro casamento? Não é uma família, não são duas famílias Porque é suposto que não se conhecem Mas são duas vidas Completamente paralelas Tive mais que um
Jorge Correia
07:33
E o que é que lhe diziam?
Jose Gameiro
07:35
Diziam que não conseguiam Lagar, muitas vezes eram pessoas Que tinham relações Conjugais oficiais, vamos dizer assim estáveis mas que também gostavam de outra pessoa eu tenho dois amores e eu consegui aguentar aquilo
Jorge Correia
07:52
já dizia a canção e o outro não, o outro
Jose Gameiro
07:56
o outro também tinha um casamento muitas vezes não tinha, conheci pessoas que eram um dia a dia e que não queriam deixar de ser
Jorge Correia
08:05
era mais confortável?
Jose Gameiro
08:06
não queriam, queriam ter aquela pessoa gostava muito daquela pessoa, mas não queriam não queriam ter o dia a dia com a vida conjugal não queriam ter filhos algumas já tinham filhos antes também eu acho que já vi tudo é mais alguma coisa porque é que as pessoas metem nisso? a ideia que há já existe mil vezes é que as pessoas metem nisso porque as relações que têm são insatisfatórias e estão mais é verdade que o casamento ou o casalamento é um dos pontos de maior procura de felicidade pessoal atualmente, nem sempre foi assim como sabe, atualmente é de facto Também é verdade que um casamento infeliz, ao longo dos anos, de uma forma que se cronifique, é, não digo meio caminho andado, mas é uma das causas da separação e da procura de outra pessoa e depois da separação eventual. Gasta-se?
08:57
Gasta-se, cansa, a pessoa se sente insatisfeita, começa a ficar-se a pensar, mas eu tenho que viver com isto, não quero viver com isto. entre o pensar e o decidir há um longo percurso entre o pensar e falar com a outra pessoa e falando com a outra pessoa que é o marido ou a mulher também há um percurso relativamente longo normalmente as pessoas pensam muito tempo para si próprias depois há a questão dos filhos e das famílias que são umas dificuldades nas separações como é evidente quem tem filhos se para-se com muito mais dificuldade que quem não tem filhos porque acha que os filhos vão sofrer com isso e depois há casos que acontecem que são provavelmente imprevisíveis, quer dizer qualquer de nós, e eu ouvi isso dezenas de vezes pode estar sujeito numa similar circunstância de coisa de trabalho ou de conhecimento social seja o que for ligar-se a uma pessoa eu digo isto também muitas vezes em terapias individuais não em casal, eu fui procurado algumas vezes por pessoas que começaram assim eu sou casado, sou bem casado tenho uma família que está tudo bem, não tenho nenhuma razão de queixa mas conheci uma pessoa e gosto muito de conversar com ela e sinto-me que estou a aproximar cada vez mais dela mas tenho a noção que isto é arriscado é uma afinidade ou uma epifania? é mais uma afinidade, pode ser epifania também é mais uma afinidade essa coisa do amor instantâneo existe mas amor instantâneo não erotismo instantâneo existe amor instantâneo depois é mais e já estamos a separar aqui as águas do que é que é erotismo, do que é que é o amor Tu começa com o autismo Tu não começa com o autismo Começa com o ombro Dá-me atenção Eu consigo falar contigo E lá em casa não consigo tanto falar Porque a minha mulher ou o meu marido Não estão muito disponíveis para falar Apesar da gente se dar bem E a coisa começa a avançar no sentido de chamar da amizade Depois da amizade amorosa As pessoas vêm me perguntar O que é que eu faço isso?
11:02
A única coisa que eu lhe posso dizer Eu não vou dizer o que é que faz
Jorge Correia
11:04
Não diz, não dá conselhos Não dá como aos treinadores
Jose Gameiro
11:08
Então como é que isso se faz Tecnicamente O que é verdade é assim Você decide aquilo que tem que decidir A única coisa que eu lhe digo Que é a minha experiência clínica e é verdade A partir do momento em que você der um passo Você não sabe O que é que vai acontecer a seguir
Jorge Correia
11:25
Não é controlável
Jose Gameiro
11:27
Pode ser controlado depois de uma noite Aquilo acabou Como diz alguém é como beber um copo de água E está feito Acabou ali
Jorge Correia
11:35
Não deixou lá uma cicatriz emocional?
Jose Gameiro
11:37
Não deixou nada, não deixou nada, e isso acontece às vezes. Hoje em dia as flores viajam muito, vão congressos, homens e mulheres… É um acidente?
11:45
É um incidente ou um acidente, depende. Como na aviação há os acidentes e os incidentes. Depende dos feitos.
11:53
Outras vezes não, outras vezes fica uma relação que começa, e a partir daí começa a confusão.
Jorge Correia
12:01
Isto do amor ou do erotismo, É uma questão ética, como estava a dizer, ou é um instinto?
Jose Gameiro
12:08
Não, há um instinto erótico, não há umas pessoas mais fortes, muitas vezes menos fortes, mas há um instinto erótico. Quem disser, eu não estou a dizer que toda a gente é assim, mas quem disser que ao longo da vida, sendo casado, nunca sentiu-lhe uma atração erótica, ou pelo menos próxima disso por outras pessoas… Não é um ser humano. Não está a dizer, pode acontecer. Não está a dizer a verdade. ou não está a reconhecer que isso já deve ter acontecido com a sociedade algumas vezes, mesmo para ele próprio não seja uma mentira mas quer dizer, agora nós conhecemos da vida dezenas, centenas de pessoas e há muita gente estou a lembrar de uma pessoa que eu segui durante muito tempo casada, já tem netos neste momento já não é uma doente e ele dizia-me uma coisa que é ele sempre só conheceu a namorada e depois a mulher dele com quem teve uma família e durante a vida tinha uma profissão que viajava muito durante a vida teve N oportunidades e decidiu sempre que não se metia em nada porque queria conservar a família e tinha a noção que se avançasse para uma coisa que o risco era melhorando portanto não quis correr o risco
Jorge Correia
13:17
é quase o alcoólico anónimo que está a recuperar e sabe que só que este nunca foi alcoólico, não é bem a mesma coisa porque este nunca foi alcoólico este nunca provou do álcool os amores podem ser viciantes? ou essa sequência de amores?
Jose Gameiro
13:30
Os amores clandestinos têm muito Tem alguma coisa de viciante que os alimenta É a culpa? Não, a culpa também existe É a repressão? É o desejo?
13:39
É a própria clandestinidade É o Homer que já morreu É um filme muito interessante Chamado Um Hora Estas da Tarde É a fuga É o bocadinho É aquela coisa daquela hora ou duas horas Em que se está com uma pessoa de vez em quando A clandestinidade dá força a estas coisas Percebe? E aumenta muito o erotismo dessas pessoas. E portanto é mais atrativo.
14:03
Há um filme inglês, que eu não lembro agora o nome, já com uns anos, muito interessante sobre isto, porque é um casal que se conhece, fortuitamente, quase que não falam, e se encontram uma vez por semana num hotel. É Londres. E aquilo é um erotismo daqueles para…
Jorge Correia
14:21
Caixão à cova.
Jose Gameiro
14:22
Caixão à cova. E aquilo começa a estragar-se quando ele ou ela, já não me lembro quem é, começa a fazer perguntas sobre a vida E estragou-se tudo Estragou tudo Vivia daquilo Vivia só daquilo Passou a ser uma relação Uma das pessoas queria que fosse uma relação E o outro não queria relação nenhuma Queria ir para a cama com a outra Tinha afeto Era eterno para a pessoa Não queria saber da história de todo
Jorge Correia
14:50
Portanto, esta ideia da fantasia Além de ser uma fuga Pode ser uma necessidade
Jose Gameiro
14:56
Algumas pessoas é uma necessidade Eu costumo chamar alguns de algumas que conheci os chamados infeios profissionais
Jorge Correia
15:07
Profissionais?
Jose Gameiro
15:08
O que é que define?
Jorge Correia
15:09
Há algum número? Mais de uma vez? Mais de duas vezes?
Jose Gameiro
15:12
Todas as semanas? São aquelas pessoas que ao longo da vida têm a necessidade de regularmente arranjar uma nova história Normalmente são histórias curtas não constroem histórias muito fortes de elevação humorosa mas são pessoas que têm uma necessidade erótica que até têm muitas vezes, como volto a dizer casamentos ou relações conjugais muito aceitáveis boas, mas que têm a necessidade de fazer umas saltar a cerca de vez em quando precisam disso para viver precisam disso para se sentirem atraídas se eu quiser ser um bocadinho psíquico é uma coisa que eu não gosto muito de ser apesar de ser psiquiatra eu diria que há alguma necessidade narcísica quase nisso, percebe? serem gostadas fisicamente É uma questão do ego? É um bocadinho uma questão do ego
Jorge Correia
15:59
Eu faço isto para provar que ainda gostam de mim? Eu sou capaz
Jose Gameiro
16:03
Que ainda sou desejado? Eu tenho um amigo, colega que tem Ainda tem mais um ou dois que eu Até para em 78 E o gajo dizia-me há pouco tempo Eu olho para o espelho O gajo toda a vida foi um Saltou a cerca Eu acho que ele não saltou a cerca Ele saltou 50 cercas E a mulher provavelmente percebia, não fingia, às vezes as outras pessoas percebem, mas fingem que não percebem. E ele dizia, olha para o espelho de manhã e assim, será que eu ainda sou capaz?
16:38
Será que eu ainda sou capaz de aderir uma história para dar-lhe uma voltinha? Sei, sei que sabes. E vai em frente ou não, conforme o que quiseres?
16:48
Mas são relações que raramente se transformam em relações estruturadas. São coisas que são fugadas? São engates, são engates.
16:57
São engates… Os dois são casados, nenhum deles quer acabar com o casamento e aquilo dura uns meses e depois acaba.
Jorge Correia
17:06
Escrever sobre o desejo neste livro ou outro foi libertador ou incómodo?
Jose Gameiro
17:12
Nem uma coisa nem outra. Eu estou tão… Eu acho que estou tão habituado a pensar sobre estas coisas ao longo destes anos todas com as pessoas eu faço isto de uma forma quase quase espontânea percebe eu trarei toda a vida com dois ou quatro coisas não justificando a parte psiquiátrica com diagnósticos etc com o sofrimento é a principal razão para que se procura um técnico destes como eu o desejo E depois o incómodo meu Já há muito tempo não existe Eu já ouvi tudo Pode-me incomodar algumas coisas Deixa-me dar um exemplo Que eu conheci Casais Que eram amigos Deu os dois casais E havia dois elementos do casal que tinham uma noção com a nascida há muito tempo Isso incomoda-me um bocadinho Não há necessidade de cometer a outra acho que é um bocadinho perverso isso incomoda-me o incomodar não implica que eu não possa trabalhar com eles ou trabalhar com alguém desse esquema mas não há necessidade, incomoda-me e nesses momentos
Jorge Correia
18:38
diz a essa pessoa que esse seu sentimento não
Jose Gameiro
18:41
eu só não consigo ao longo da vida só não consegui tratar pedófilos não consegui e não tenho jeito nenhum para as drogas nem para o álcool tive que trabalhar em droga quando fiz a tropa já era psiquiatra depois estive à espera de um concurso para o hospital e tive que aceitar um trabalho durante um ano numa consulta de toxicodependência e não gostei nada não gosto de droga nem de álcool e psofilia também não tive que ver algumas situações desse tipo por imposição judicial as pessoas são pessoas que não veem espontaneamente e é muito difícil dar a volta nós somos treinados para ser neutros e eu acho que ao fim dos anos nós conseguimos ter uma certa neutralidade na relação com pessoas complicadas não quer dizer que não deixamos de sentir coisas muitas vezes sentimos não gosto desta pessoa
Jorge Correia
19:35
e depois o que é que se faz quando vem para casa? para casa acabou toma bem do que o João falou?
Jose Gameiro
19:43
uma situação muito grave que ao longo da vida tive algumas suicídio por exemplo medo de suicídio, risco de suicídio e aquilo de facto vim para casa a pensar nisso que havia a possibilidade de que aquele doente se suicidasse? exatamente, e se preocupava-me naturalmente e vinha para casa a pensar nisso
Jorge Correia
19:59
e um médico psiquiátrico consegue de alguma maneira controlar isso, isto é sabendo que há esse risco minimizar ou viver com a ideia de que aquilo é uma possibilidade?
Jose Gameiro
20:10
consegue se não tinha que mudar de vida eu cheguei a telefonar eu conto a gestora algumas vezes Na altura não havia telemóveis Eu cheguei a telefonar para a casa de uma rapariga Que era uma mulher, era um otimamente jovem Vivia sozinha Sabia se ela estava vivo ou não Não dizia quem era, só telefonava e se ela me respondia Você atendia ao telefone? Exatamente Estava cheia de medo que ela se matasse
Jorge Correia
20:36
Que sinais verdadeiros? Porque nós conhecemos algumas pessoas Ou pelo menos algumas histórias de pessoas Que volta e meia verbalizam Ou ameaçam o diamante É sempre levar a sério Sempre? Sempre
Jose Gameiro
20:49
Eu não sou provavelmente um Suicidologista Há colegas que se ligaram toda a vida Ao suicídio Aliás há uma associação Mas tive ao longo da vida Muitas depressões graves Tive três suicídios na vida Três Um já não era meu doente Posso considerar que não é bem um suicídio Tive dois de facto que eram meus doentes e é uma dor é uma dor e é uma culpa a culpa será que eu fiz tudo como deve ser será que eu fiz tudo como devia ter feito para evitar o suicídio mas põe-se em causa
Jorge Correia
21:29
e é sempre para levar a sério qualquer sinal
Jose Gameiro
21:32
qualquer ameaça é sempre para levar a sério até porque às vezes as pessoas suicidam-se por engano ou seja fazem uma coisa para chamar a atenção e podem morrer os medicamentos não são todos inocuos
Jorge Correia
21:45
E portanto as pessoas no fundo não querem mesmo suicidarem, se fazem alguma coisa para demonstrar que é sem…
Jose Gameiro
21:51
Os medicamentos são muito mais inócuos atualmente do que já foram, os medicamentos psiquiátricos mas alguns não vou dizer quais, como é evidente em quantidade de X podem matar por um lado, por outro lado se a pessoa já tem algumas patologias de algum tipo podem desequilibrar-se e podem mesmo… Não, o problema é que podem não ser apanhadas a tempo se forem apanhadas a tempo forem para o hospital, fazem uma coisa, chama-se manitope para eliminar as substâncias e normalmente safam-se. Agora, se não forem apanhadas a tempo, podem morrer. Quero voltar ao amor.
Jorge Correia
22:23
Porquê que evitamos as conversas difíceis? Está a falar de quem? Os casais, por exemplo, sim. Ou melhor, posso fazer a pergunta que é qual é a forma mais inteligente de começar uma discussão?
Jose Gameiro
22:36
É fora do problema. Peço estúpido dizer isto. Eu lhes explico.
22:42
Se você tem um problema com a sua mulher, que gera uma possibilidade de uma discussão, uma das regras é não discutir naquele momento. Quando tu está quente? Se não, não há nada a fazer.
22:53
Os argumentos não se mudam. Percebe? A regra, se é possível dizer, falar de regra, são duas.
23:00
São duas. Duas digo eu. Uma é esperar que as coisas acalmem um, dois dias, e ver se ainda faz sentido discutir a coisa.
23:11
Porque muitas discussões conjugais são completamente radiculares e não fazem sentido dois dias depois.
Jorge Correia
23:16
São o quê? São quase efeitos contários de outra coisa qualquer? Não, são coisas pequenas muitas vezes.
Jose Gameiro
23:21
Uma neurona. Uma neurona é uma coisa… A outra é, muitas vezes, a aproximação após uma situação de crise ser muito mais eficiente, muito eficaz, ser não verbal do que verbal. Ou seja, você está achateado que eu sou a mulher, está cada um para o seu lado.
23:38
Praticamente, não dizem, o mínimo indispensável. Tem duas hipóteses Ou vai discutir aquilo que deu as chatices O risco existe Ou então faz-lhe duas ou três festinhas E ela também lhe faz duas ou três festinhas Não estou a falar de cama Estou a falar de aproximação A ternura Usar a ternura como solução Se é um problema muito importante Os casais têm problemas importantes E problemas que não têm validade Quais são os importantes? É uma chatice com a família de origem Os sogros e as sogras as famílias da origem são um dos problemas se há uma crítica violenta se a sua mulher faz uma crítica violenta que eu atinjo como pessoa tu fazes mesmo a tua mãe ou ao teu pai ou então és um gajo incrível não és capaz de perceber nada daquilo que eu te digo coisa dessas uma das coisas importantes nos casais acho eu é a pessoa estar disponível para ouvir o outro mesmo que ache uma tontice E aí eu acho que não estou a ser machista Quando digo que É mais complicado para um homem ouvir uma mulher Do que uma mulher ouvir um homem
Jorge Correia
24:46
Os homens não sabem ouvir as mulheres?
Jose Gameiro
24:48
Os homens não têm paciência para ouvir as mulheres Eu explico porquê Porque as mulheres a falarem Falam quase em discurso direto em geral Muitas, não estou a dizer todas E depois eu disse, e depois ela disse E depois ela disse, e depois ela disse É para um gajo para dar paciência Faz-me um resumo, lá está tudo ardeiro já e os homens são de pais sintéticos a falar imagina uma situação eu dou muito este exemplo sua mulher chega à casa, teve uma chatice o trabalho dela, quer falar consigo é natural, não é? começa a lhe contar a história quer despressurizar? exatamente, começa a lhe contar a história e a história nunca mais acaba é uma história de amigas que disseste e a Luísa que disse aquilo e o Manuel que disse aquilo eu estou-me a rir, mas é dos nervos não, mas acontece a todos os casais percebe? a pior coisa que o senhor pode fazer é desligar da história ou seja, você tem que levar com aquilo é tão fácil desligar faz parte, você tem que levar com aquilo a segunda pior coisa que pode fazer é dizer assim o que é que tu queres com o teu efeito? eu que estava à espera isto acontece
Jorge Correia
25:53
criamos um incêndio, uma coisa que nós em princípio não temos nada a ver de forma como tu és, o que é que estava à espera?
Jose Gameiro
26:01
quer dizer ela fica sem chão diz-me, diz-me, tu és uma besta Agora estás a dar razão aos gajos Que me chatearam a vida Portanto transformamos um problema em dois E é uma deslealdade No certo sentido Obviamente que há muita coisa que a sua mulher lhe conta Por exemplo em termos de trabalho É uma conversa muito feita entre casais Você para o seu próprio Se calhar se tivesse outra atitude Isto não era tão complicado Não convém dizer
Jorge Correia
26:29
Portanto o silêncio também pode ser humano
Jose Gameiro
26:30
Pode ser depois de calmamente Passados os tempos
Jorge Correia
26:33
percebe? Já pensaste desta maneira? Já pensaste, olha aqui
Jose Gameiro
26:37
não é em cima do acontecimento, quando ela chega à casa, piúr-se-se com o que aconteceu você diz, mas o que é que você está? Eu tive muitos assim, percebe? Tive muitos assim. E pode
Jorge Correia
26:48
o que é que faz uma conversa derrapar? Dessas conversas tensas dessas que é que se está a discutir o núcleo de…
Jose Gameiro
26:57
É a dessolidaridade é a não solidariedade e é aproveitar essas conversas para tirar umas pedras do bolso que estão guardadas, todos os casais têm pedras do bolso ou seja, todos os casais tiram situações que acharam que foram injustas que são que criticam outra pessoa e muitas vezes não dizem mas muitas vezes metem pedras do bolso e nessas alturas aproveitam e mandam umas pedradas
Jorge Correia
27:24
e não se arrependem?
Jose Gameiro
27:25
no passado um tempo podem se arrepender mas o mal está feito há uma grande diferença entre a pequena crítica não tem esse significado especial sei lá, as coisas da casa de banho vê lá se arrumas a toalha vê lá se não se deixas a toalha do banho no chão, esse tipo de coisas clássicas não sou a tua mãe não sou a tua mãe, não sei o que pode partir para a sogra estou meio de conta de mal jogas com não sei o que e depois há a grande crítica que é a crítica à pessoa tu és uma besta, nunca fazes nada de jeito uma desvalorização do outro? Exatamente, que se aguenta uns tempos e depois a uma altura se aguenta
Jorge Correia
28:05
Portanto, essa crítica sistemática mesmo de coisas muito pequenas pode corroer aquela relação?
Jose Gameiro
28:12
Pode, pode corroer a relação Se a pessoa começa a sentir-se uma não-pessoa uma não-pessoa no sentido, neste sentido sentir-se uma pessoa que é no fundo é entre aspas destruída pela pessoa que lhe é mais próxima efetivamente
Jorge Correia
28:30
E portanto dói mais?
Jose Gameiro
28:31
Dói mais, como é evidente. E os casais ao fim de um tempo conhecem-se muito bem. Contudo, para o bem e para o mal, não é? Não conhecem-se muito bem. Nunca se conhecem completamente, até porque não conhecemos-nos completamente, nem sequer se calhar muitas vezes mostramos tudo nós a outra pessoa, ainda bem que não o fazemos porque às vezes há coisas que não têm que saber
Jorge Correia
28:50
a outra pessoa não tem que saber. Não tem que saber?
Jose Gameiro
28:52
Que coisas não tem? Não tem, há coisas que não tem que saber. Um dos erros que os casais fazem ou nunca tiveram nenhum casamento antes tiveram só namorados e namoradas mas já lá vamos, ou tiveram um casamento antes é para pôr um bocado a coisa a zero descontar as coisas que se passaram no passado
Jorge Correia
29:12
Oh diabo mas isso parece-me uma bela lista de compras para as tais pedras que eu deveria seguir, não é?
Jose Gameiro
29:17
Exato, estou encheio é que mais cedo ou mais tarde ou há um grande bom senso ou vem mais tarde, mas tu pensas que eu sou como amigas que fazia isto e aquilo e aquilo outro você vai se queixar Você vai dizer Pode ir roxar uma pessoa ou outra Mas eu prefiro-te a ti porque tu és minha alguém Ela que quer não sei o que Ela que fez mesmo, fez aquilo Como é que tu deixavas que ela te fizesse isso Tu és um banana Mas depois depende dos casais
Jorge Correia
29:44
Bom, então e as receitas Para que as coisas corram bem
Jose Gameiro
29:49
Eu receio Quem casa, quem faz os bolos é a minha mulher Sabe-se Não sou eu que sei Sabe-se que há três ou quatro coisas muito importantes no bem-estar dos casais. Há uma coisa que não tem tratamento possível e que não vem sempre da corrosão do casal que é o amor existir ou não existir. O amor é um sentimento que eu não trabalho. Eu acho que ninguém pode trabalhar com amor. Eu trabalho a relação.
Jorge Correia
30:20
Não há maneira de o recriar nem de o matar. Ele existe.
Jose Gameiro
30:23
Há casais que têm a capacidade de recriar não é no sentido de recriar o amor mas no sentido de o avivar de vez em quando e conseguem ter uma relação que de vez em quando é mais exaltante vão passear, vão para aqui vão para lá, não é preciso ir por longe muitas vezes mas tem, por exemplo uma das coisas que eu acho que é importante ter muitos casados é as rotinas de casal ter uma rotina de casal seja ela qual for
Jorge Correia
30:49
a rotina não no aspecto mau no aspecto de fazer coisas com regularidade
Jose Gameiro
30:53
ou tomar café aos dois, por exemplo, todos os dias de manhã que vão ir trabalhar, coisas desse tipo ou vão fazer compras juntos os homens dão de mel aos supermercados porque as mulheres não sabem o que querem comprar agora é mais isto, depois é mais aquilo lá temos mais uma tensãozinha convém perceber se funciona ou não porque essas coisas do supermercado já apanhei também portanto escolher alguma coisa que os dois
Jorge Correia
31:18
se sintam bem a fazer
Jose Gameiro
31:20
ou vão andar os dois a pé juntos, juntos, juntos ou qualquer coisa Mas há três ou quatro coisas Que se sabe que são Com o tempo podem ser A primeira coisa que um casal tem que negociar É as diferenças
Jorge Correia
31:35
E há diferenças?
Jose Gameiro
31:36
Então não há Somos adultos Cada um tem uma história Cada um tem uma história infantil, juvenil, uma família Portanto a gente quando casa Não casa com uma pessoa Casa com um rebanho Desculpa a expressão
Jorge Correia
31:51
Isso era importante que soubéssemos casa com o rebanho. Portanto, nós apaixonamos-nos por aquele ser que está ali. Mas aquele ser
Jose Gameiro
31:57
tem atrás dele uma história e o rebanho. Traz a mobília e a família. E nós também. O rebanho é um termo horrível, mas há famílias que são rebanhos.
32:08
Há outras que são mais pequenas. Não é bem mal. Mas, bem, um gajo tem que lidar com uma pessoa com quem está mais tempo, obviamente, mas com uma família que tem modelos de estar em família que são muitas vezes ou para não dizer quase sempre muito diferentes dos nossos a questão da forma de discutir coisas por exemplo há famílias em Portugal nós não somos italianos mas há famílias em Portugal que são da Sicília discutem aquelas almoços de família que é tudo a barrar aquilo não tem nenhum significado ninguém está chateado com ninguém é cultural e você está nessa família mas em sua casa não se falava quase e você fica Onde é que eu meti?
32:53
Onde é que eu metiste? É tudo doido, é tudo maluco. Estou a dar um exemplo ridículo.
32:58
Há famílias para que o dinheiro é de uma forma e depois a pessoa casa com outra pessoa para que a questão do dinheiro é de outra forma. A questão das questões de dinheiro às vezes vem… O acaso é engraçado porque não eram questões que os casais falassem muito em terapia de casal, mas eram de falar agora.
33:13
A questão do dinheiro? A questão do dinheiro. Hoje em dia mudou muito porque a igualdade nem sempre existe, a igualdade financeira é muito maior entre o homem e a mulher do que era antigamente
Jorge Correia
33:26
e portanto é mais gerível é mais gerível e de fato
Jose Gameiro
33:29
eu acho que mais cedo ou mais tarde nós caminhamos para uma situação de separação total de bens logo no casamento como estado normal
Jorge Correia
33:37
o que resolve logo o problema do conflito
Jose Gameiro
33:40
dos recursos é muito mais fácil no futuro porque há separação, cada vez há mais separações estabilizaram, mas há muitas separações e portanto tem muito mais fácil se você não tiver património a dividir do que se tiver patrimônio da vida e que muitas vezes é usado para chatear e para os filhos e para a gestão dos filhos, é usado como uma troca
Jorge Correia
33:57
Eu lembro-me de uma vez que temos falado os dois sobre uma mediação de um casamento de muito, muito ricos Sim, milhões, milhões E até nesses casos
Jose Gameiro
34:07
Não foi que cai em Portugal, foi fora Fui lá fora fazer uma mediação Eles tinham sido meus clientes enquanto trepente casal Eu estrangeiro, eu era português Mas aquilo, ele já tinha um tido do pé na argola tinha sido apanhado já em… ele era uma figura pública já tinha sido apanhado uma fotografia em cima de uma senhora de vitrine depois aquilo reventou e depois andavam metidos com advogados advogados franceses que os churavam os dois aquilo andava para trás no país onde eu fiz isto a lei e penso que continua a ser a mesma há divórcio de culpa que no Portugal já não há
Jorge Correia
34:50
Portanto, quem teve a culpa paga as favas
Jose Gameiro
34:52
Quem teve a culpa paga as favas E é obrigatório No divórcio de culpa Que quem teve a culpa Mantenha a pessoa De quem se separou Neste caso havia filhos O nível de vida que ela tinha anteriormente Que neste caso Era um grande nível de vida Só para lhe dar uma ideia A renda de cada eram 50 mil euros
Jorge Correia
35:15
Ainda bem que parece-me um valor Bastante simpático Eu fui lá e senti-me ridículo a cobrar 100 euros agora. Foi barato, foi barato. Não pode ser.
Jose Gameiro
35:24
Que é o preço que eu levo normalmente. Pagava uma viagem.
Jorge Correia
35:26
José Gamaíro precisa claramente de um advogado para lhe tratar das contas.
Jose Gameiro
35:32
Mas pronto, lá chegámos. E o problema é que ele queria dar-lhe uma pensão. E ela, esperta, disse.
35:38
Não quer pensão nenhuma, eu quero dinheirinho. Quer para poder fazer a minha vida, porque lhe dá-lhe uma pensão. Se ela não voltar a casar, a pensão vai à vida.
Jorge Correia
35:45
E queria ficar com património.
Jose Gameiro
35:46
Claro, porque assim podia fazer a vida dela. havia um compromisso verbal porque eu não sou advogado dos três, de que se chegássemos a acordo o acordo era respeitado e o divórcio depois seria feito pelos advogados mas de acordo com aquilo que tinha sido combinado
Jorge Correia
36:01
mas foi fazer de árbitro?
Jose Gameiro
36:03
não percebi foi fazer de árbitro? eu não sou árbitro, o árbitro é alguém da justiça foi fazer mediação eles estavam farto da guerra e como tinham-me conhecido algumas vezes e confiavam em mim e na minha notoriedade que faço os leis, o que era verdade, eu gostava e gosto muito dos leis. Isso é um grande elogio.
36:23
Não, mas pá, um gajo habituado à neutralidade. Eu gostava dos leis. E ainda hoje, de vez em quando, tenho contactos com os dois.
36:31
Estou bem, felizmente. E, portanto, convidaram-me para fazer um… E eu fui lá fazer.
36:38
Só que os advogados depois, pá, tentaram tropear tudo, não é? Porque era um grande negócio. Pá, eram milhões.
36:45
Era milhões, pá. aquilo para mim era só o quê e depois, passados uns meses conseguiram fazer, com o acordo que tinham feito comigo conseguiram fazer a separação e a separação está feita já portanto, ela conseguiu o dinheiro que queria, ou próximo do que queria e estão diversificados
Jorge Correia
37:05
sempre uma curiosidade que há diferenças reais na forma como os homens e as mulheres amam
Jose Gameiro
37:12
há diferenças reais e às vezes significativas e pode ser uma fonte de problemas na forma como expressam o amor mais do que na forma como amam ou seja, o estereótipo clássico masculino e feminino que a mulher é muito mais expressiva na sua ternura física na sua proximidade física nas palavras que diz do que o homem não sendo já como era antigamente que os homens eram a figura autoritária seca De facto os homens foram obrigados a mudar Já explico como é que foram obrigados a mudar Continua a ser um bocadinho diferente Os homens têm mais dificuldade Em expressar Em dizer bom humor Em fazer coisas desse tipo Aquela história clássica das mulheres que lhe dizem Se queres brincadeira à noite Começa de manhã a dar-me beijinhos
Jorge Correia
38:07
E foram obrigados a mudar? Mudaram o quê?
Jose Gameiro
38:09
Porque elas começaram a dizer-lhe Nos últimos anos que eu fiz terapia este casal Primeiras vezes a maior parte das vezes eles iam para as orelhas lá que elas diziam arrastados era impressionante mudou o facto de mudou eu estou aqui mais contrariado eu estou aqui é pecado se eu não viesse cá que me punha a andar não, é pá, desculpa acabou quer dizer eu não quero passar os fins de semana sozinho com as crianças e tu vais ver o Benfica ou vais ver o Sporting ou vais jogar golfe ou vais fazer o que quiseres não sei, eu fico aqui sozinho e não tenho que chegar a casa à noite às nove e meia da noite a questão dos horários em Portugal é terrível, há alguns trabalhos e está tudo já pronto os minutos estão na cama e tu jantas sozinho e não sei o quê, nós temos que mudar o casamento não é isto, e elas começaram a ser mais exigentes e isso forçou a mudança e eles começaram a associações
Jorge Correia
39:00
já agora esta renovação de papéis ou de reajustamento pode de alguma maneira estar a tornar algo que era claro, de alguma maneira hoje ser mais fluido e volátil por um lado por uma boa razão que é nós aprendemos a fazer melhor e a sermos melhores, mas por outro lado a não saber bem qual é o nosso papel num momento e naquela relação com aquela outra pessoa É verdade isso O que é que se espera que tu faças nesta relação, no fundo? Ou que tu te comportes?
Jose Gameiro
39:35
Os papéis são mais mexíveis do que eram antigamente Talvez os mais Os que se tornaram mais Parecidos são os papéis parentais
Jorge Correia
39:47
Pai e mãe
Jose Gameiro
39:48
Mas isso não é uma má notícia?
Jorge Correia
39:50
Temos uma relação mais De afeto com as nossas crianças
Jose Gameiro
39:53
Antigamente o homem, na melhor das hipóteses Era o ajudante também Passa-mei o sabonete no banho da criança
Jorge Correia
39:59
Tu não sabes
Jose Gameiro
40:01
Aliás eu assistia a várias Separações com crianças pequenas Em que as mães invocavam que os pais não tinham capacidade para ficar com bebés desde que não tivessem a aumentar, naturalmente com bebés de um ano e havia juízes que alinhavam nessa conversa e eu dava sempre o mesmo exemplo às vezes confia a tribunal uma vez ou outra a defender clientes meus eu fui casado com duas médicas a primeira é a mãe da minha filha que tem 48 anos estava de urgência uma vez por semana nós procurávamos estar de dias diferentes. Eu ficava com ela à noite. Não podia dar a mama, mas era capaz de tratar dela.
40:43
O mais novo, que é deste casamento atual, que tem 28 anos, é uma história que a minha mulher também é médica, agora está reformada, mas era médica. Numa cena, eu ficava com ela sozinho. Nunca aconteceu mal nenhum, quer dizer, portanto um homem completamente capaz de ficar. Os papéis parentais, hoje em dia, com mais pais, por exemplo, ao fim de semana, apreciar os miúdos nos parques, nos cinemas infantis, etc. percebe, vê muito mais do que vê antigamente.
41:08
Aquele pai distante, autoritário, quando o teu pai chegar, vais ver como é que é. Não acabou. Continua a haver uma certa diferença. Eu não sou sociólogo, portanto, não tenho cedo o que estou a dizer, a mãe é apenas uma coisa impressionista, mas a ideia que eu tenho é que, apesar de tudo, o pai ainda continua a ser a figura um bocadinho mais autoritária que a mãe.
41:30
Mas quem dá as lambadas sempre foi a mãe, não foi o que era o pai. E o chinelo, que às vezes voava. O chinelo e as lambadas, não é?
41:39
Enquanto casal a igualdade é muito maior do que era.
Jorge Correia
41:43
O que é uma boa notícia. Estas gerações mais novas, lá está. Eu é que estou velho.
41:51
Olho para elas e vejo que há uma maneira de eles gerirem os afetos que por um lado me parecem mais abertos e mais próximos e por outro lado pouco empenhados. Em que sentido? Menos próximos, menos…
Jose Gameiro
42:04
Mais livres, mais autónomos. Mais autónomos. Portanto, uma boa notícia.
42:09
Eu acho que sim. Acho que o caminho que foi decidiu esse. Quer dizer, você antigamente não via grupos de mulheres a jantar fora sozinhas.
42:17
Muitas delas são casadas. Isso era impossível, praticamente, não é? E os homens vão ser viores.
42:24
Não estou a dizer que é um pai alfante branco de todos, não é? As viores na noite, não é? Pronto.
42:31
O meu pai, que hoje teria cento e poucos anos, rebatejano, para a noite depois de jantar saia todos os dias. Ninguém perguntava naquele dia. Chegava à casa de madrugada.
42:46
Nem respondia ele, provavelmente. Não existia essa pergunta, não existia, não é? Pá, ia ter com os amigos, ia para os copos, ia para não sei o que, ia para as estruturas, ia para onde fosse.
42:57
E depois voltava. Minha mãe não saia sozinha, uma senhora saia sozinha à noite. Eu tive um lentejo, há um exemplo muito interessante, eu tive um lentejo, foi o primeiro grupo e para o lentejo fazia o chamado de serviço médico à periferia, que aliás vai comemorar agora 50 anos, dia 30, com a presença do Marcelo até.
Jorge Correia
43:18
Para aqueles que não sabem, todos os médicos em Portugal recém-formados foram para a periferia.
Jose Gameiro
43:22
Eu para a periferia, de 7 ou 8 anos, nós fomos o primeiro grupo, em 75, mas depois mais, até a presença SNS, nós fomos percursores do SNS. Foram os primeiros médicos de zonas remotas do país. Fui para o Alentejo para Cuba e Vida e não…
43:37
Isto para lhe dar um exemplo, porque nessa altura em Alentejo as primeiras mulheres a entrarem numa tajca alentejana para almoçar ou para jantar foram as minhas colegas, que eram duas, três, três colegas, três médicas. As mulheres não entravam numa tajca. Estavam lá atrás a mulher do dono a fazer a comida.
43:55
Mas não havia mulheres nas tajcas. Não podiam-as oferir? Não fazia sentido Quando elas entraram Ficou tudo, como eram os médicos E fomos muito respeitados E fomos muito bem tratados E foi uma experiência que ainda hoje A minha mulher que é mais nova que eu e que não fez isso Já não posso ouvir falar da periferia Vocês quando se juntam só falam da periferia Marcou muito, percebe?
44:16
Você não tem, não vamos falar disso Mas dá para mangas Mas podemos falar sobre isso Porque isso foi uma experiência emocional também Completamente emocional Vivíamos todos juntos numa casa Foi muito interessante. Eu fui marcado por aquilo.
Jorge Correia
44:31
E as pessoas não tinham nada, no fundo. Quer dizer, primeira vez que
Jose Gameiro
44:35
alguém aparecia para as cuidar. Na Vidigueira, havia um médico que teve o bom senso de retirar. O conselho todo da Vidigueira.
44:41
Havia só um médico que teve o bom senso de retirar quando nós chegámos, que não sabia nada de medicina. Para lhe dar uma ideia, ele, para ter o seu negócio, dizia que as senhoras com a menor pausa ele tinha que uma vez por mês ir de tirar sangue porque elas não perderam sangue naturalmente. Nós passámos a fazer consultas nas aldeias todas, dos conselhos de Cuba e Vida e Gueira.
45:04
Nalgumas aldeias com mais gente duas vezes por semana. Duas vezes por semana, com dois médicos.
Jorge Correia
45:11
E portanto, ouvi-los…
Jose Gameiro
45:12
Éramos um grupo de 12. Cuidar deles, responder… Imagina, diabetes, hipertensões…
45:17
Tudo, não é? Completa loucura. Completo descontrolo.
45:22
Nós já tínhamos alguma experiência de hospitais cá. Quando nós fomos, já tínhamos 3 anos de medicina. com experiência dos hospitais hospital São José, serviço de urgência nós num ano que lá estivemos mandámos outras doentes para Lisboa e tínhamos depois os colegas mais velhos dos nossos chefes de serviço que iam ao fim de semana ajudar-nos muitas vezes quando eram foi uma situação, tivemos um dia a falar sobre isso com calma porque foi uma situação, é dia 30 no ISC-ST, uma comemoração dos 30 anos e o Marcelo que foi um colega de escola eu convidei-o, eu acho que ele está doido para falar de família, para falar de saúde e portanto vai lá
Jorge Correia
45:57
Vai ser essa oportunidade. José Camero, como observador do mundo, quando nós falamos para combinar esta conversa, a primeira coisa que disse é, eu não vou para Lisboa, que estou farto do trânsito, isto do trânsito, sabe, aqui a aborrecer. O mundo está ruidoso, o mundo está agressivo, o mundo está apático. Eu acho que as pessoas
Jose Gameiro
46:16
estão mais agressivas. O mundo, não sei, porque eu vou muito ao mundo, mas também não tenho assim uma experiência. Eu sinto, aqui na sociedade portuguesa mais tensão e mais agressividade mas posso estar completamente enganado, isso é uma sensação de mas há sintomas eu tenho sempre aquele medo dos meus 76 anos será que eu estou a ser um velho do rostelo e a dizer que no meu tempo as coisas eram melhores e agora nunca sei muito bem se isso é verdade ou não o que é facto é que eu andei de moto toda a vida até há 4 ou 5 anos que achei correu alguma coisa mal?
46:55
Não, nunca caí na vida. Mas comecei a ter preguiça de vir no meio dos carros. Também não precisa ir tanto a Lisboa.
47:02
Ir na chuva, ir no mau tempo e tal. Vendi a moto e ando de carro. Ando de smart.
47:07
É uma boa transição. É uma boa transição. Ando de smart.
47:12
E voou o menos possível a Lisboa. Mas veio já a síncope, que não era assim. Está cheia de carros.
47:18
Chegou a pandemia e os carros aumentaram imenso. E a malta está mais agressiva. Está mais irritada.
47:24
faz mais vezes isto uns para os outros isto é uma coisa impressionista minha, posso estar enganado eu não tenho nenhuma razão de queixa pessoal de me ser maltratado mas estamos com um déficit de empatia em relação ao outro? eu acho que estamos muito irritados com o que se está a passar mais no mundo do que em Portugal em Portugal há pessoas que provavelmente estão irritadas porque isto não passa da sapatorta economicamente
Jorge Correia
47:47
sim, nós não evoluímos
Jose Gameiro
47:49
nem se pensa que a gente vai evoluir porque a Europa está como está e nós andamos atrás esta história, pelo menos a mim pessoalmente a história da Ucrânia, a história de Gaza do Israel e de Gaza e do Hamas apesar de nós já termos passado pelos Balcãs pelo Ruanda por coisas horríveis também não sei porque esta tocou-me eu neste momento tenho muita dificuldade por exemplo em ver algumas coisas na televisão e isso deve ter a ver com a minha idade crianças Desculpe o que eu vou dizer Com que direito é que estes filhos da mãe Para não dizer outra coisa Dos Netta Ius e dos Trumps e dos gajos do Hamas Usam as pessoas desta maneira, percebe? Com que direito é que um gajo está na mão De cliques Sempre houve, sempre houve Hitler Sempre houve Stalin, sempre houve isso tudo Mas quer dizer, em 2025 Com a idade que eu tenho Eu às vezes digo uma coisa muito clássica que é, será que o mundo que eu vou deixar aos meus filhos, apesar do mundo não ser eu que o deixo, é o mundo que me deixa a mim é o contrário será que é uma coisa boa para eles, é para assistir a pessoa que vai ser boa para eles, porque eles são porreiros, são saudáveis mas quer dizer faz-me impressão, mais que isto não sei dizer
Jorge Correia
49:13
Estamos a fechar eu tinha aqui duas perguntas que na realidade estou aqui numa encruzilhada sobre qual é que posso fazer porque dá para ir mais dois programas O primeiro é para que é que serve o amor E o segundo é O que é que dá sentido à vida
Jose Gameiro
49:29
Sei, sei Então o que dá sentido à vida nunca mais saímos daqui
Jorge Correia
49:34
Há alguma coisa que a gente Olhe e diga assim É para isto que nós cumprimos
Jose Gameiro
49:39
Eu acho que cada pessoa tem que encontrar um sentido Para a vida, percebe? Não é uma coisa geral Fazendo perguntas? Perguntando-se o que é que quer fazer De que forma quer fazer Como é que quer gostar dos outros Como é que quer gostar dos outros?
49:54
Não é como é que quer ser gostado dos outros Não, não, como é que quer gostar dos outros? A relação com os outros é muito importante Muito importante Já agora, ao passo a um falo Num estudo enorme que houve Que saiu há um ano e tal, dois anos De Harvard Com uma amostra brutal São 100 mil pessoas ao mês Em que os lugares acompanharam ao longo Dezenas de anos as pessoas E a influência das suas relações Na sua saúde mental e na sua saúde física e chegaram conclusões espantosas que é qualquer pessoa que tenha solidão completa corre imensos riscos de saúde mental e de saúde física também o simples facto se você estiver sozinho e viver sozinho de ir todos os dias ao café, beber um café e trocar dois dias de conversa com o gajo que lhe serve o café ou com a senhora que lhe serve o café ou ir à misteria todos os dias e fazer a mesma coisa percebe? Já ajuda a manter o nível de saúde física e mental. E isto é uma coisa espantosa porque nós pensamos que a saúde mental e a saúde física são coisas diferentes.
50:56
Não são. Separamos a coisa. A relação, o isolamento é fatal. Precisamos de quem cuide de nós. Precisamos de quem…
51:04
Às vezes precisamos de quem cuide de nós. Mas precisamos de cuidar da nossa relação com os outros. Eu, por exemplo, toda a vida prezei imensa amizade.
51:14
E cultivei imensa amizade. As pessoas que vêm hoje, um dia cá a casa jantaram nos meus anos ou fora dos meus anos as mesmas há 50 anos não tenho amigos novos nem quero ter porque é um amigo meu não vou dizer o nome mas que é muito expansivo e conhecido dizia-me assim, qual será de nós que vai morrer primeiro? não sei que rei de pergunta é um gajo da minha idade meu colega desde a escola médico também e quando deixou de trabalhar ficou deprimidíssimo tive que o medicar não sabia fazer mais nada sem trabalhar assim tu ainda não pensaste que lá onde tu trabalhavas que estava um desejoso se tu estivesse embora para abrir uma vaga é pá, tu és horrível é verdade é a lei da vida eu fui chefe de serviço do hospital, quando eu o formei houve um gancho que subiu a chefe de serviço no pesado dos meses assim é a vida é a renovação a pergunta era qual o sentido da vida, eu acho que as pessoas têm que contar, é muito diferente, eu por exemplo vou muito à Índia nós, eu não me adoramos ainda já fomos seis vezes à Índia a outra das quais recentemente e gostamos muito somos muito bem tratados, vamos para a situação não há muito turismo aquilo marca-nos muito o sentido da vida lá é o outro completamente diferente tem nada a ver com isto é muito menos materialista, claro que há o start para os gajos poderes de rei que saem Agora vingança do cunho Agora tem o Rolls Royce E tem essas coisas todas Mas quer dizer, a calma daquelas pessoas A simpatia deles A proximidade deles Não sei responder mais que isto
Jorge Correia
53:01
Este episódio do Pergunta Sempre com José Gameiro Psiquiatra e especialista em relações de casais Autor do livro O Outro Ajuda-nos a decifrar o amor, o desejo e o silêncio Falamos de triângulos amorosos De empatia e das palavras Que podem salvar uma relação Uma conversa sobre o que nos une e o que nos separa e aquilo que ainda vale a pena tentar compreender. Até à próxima semana.
